sábado, 28 de abril de 2018

RESPONDENDO OBJEÇÃO CONTRA A HUMILDADE



OBJEÇÃO: Esta humildade excessiva, diz a maior parte das pessoas do mundo, enerva a alma e tira-lhe toda a confiança em suas forças. Acham que uma pessoa humilde seja sinônimo de uma pessoa deprimida, sem coragem e energia.

RESPOSTA: Vamos provar que é precisamente o contrário que é a verdade. Mas, antes permitam-me explicar melhor o principal móvel da humildade em sumo grau. Além do amor à verdade e à justiça como motivadores da suma humildade, quero, antes de refutar a objeção, explanar um pouco mais um outro motivo poderoso, um atrativo irresistível que incita as almas grandes às humilhações e desprezo: É O EXEMPLO DO DIVINO MESTRE.

Caríssimos, no Céu não podia o Verbo eterno humilhar-se; é Filho de Deus, em tudo igual a seu Pai. Desce à terra, faz-se homem. Como homem, é inferior, pode abater-se. Vede agora como abraça as humilhações e os desprezos, como percorre todos os graus da abjeção e aniquilamento. Diz S. Paulo: "Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses II, 7 e 8). Nasce num estábulo, passa sua vida na oficina dum pobre carpinteiro; morre numa cruz, saturado de opróbrios e afrontas... Que lição, que exemplo, que estímulo! No mundo afinal, não chega a fascinar os mundanos a paixão por uma vil criatura, de quem o coração se enamorou, até fazer-lhes amar seus defeitos, seus caprichos, até imitá-los?! Não se impõem cada dia os sensuais peníveis sacrifícios para agradar a um ídolo de barro?!

E não pode o amor divino arrebatar uma alma, e inspirar-lhe transportes tão vivos, tão veementes como o amor profano? Não pode um cristão inebriar-se tanto no amor do seu Salvador, que ache sua glória e sua dita em se lhe assemelhar, em ser como Ele escarnecido e pisado? "Fanatismo", dirá o mundo. Mas é que para ele a santa loucura da cruz é um mistério; ignora qual é o preço das humilhações, desde que o Homem-Deus as tomou por divisa. "Devaneio!" insistirá o mundo.

Caríssimos, interrogai a maior parte das pessoas do mundo, mesmo essas que se prezam de sábias e instruídas, e perguntai-lhes: O que é um cristão humilde? Responder-vos-ão: É um homem que só tem aspirações rasteiras. Dizem ainda: é um homem a quem a devoção destituiu de todo o sentimento da sua dignidade, de toda coragem, de toda magnanimidade, isto é, de todas as energias para  grandes ações.

Eis aí como julga das coisas o mundo insensato! Pois, é justamente o contrário que é a verdade. Conheceis um orgulhoso? Toda a sua aspiração é distinguir-se, dar que falar de si [se desculpam dizendo que é para vencer o respeito humano]. Para atingir seus fins, irá agora arrojar-se ante os grandes da terra e adorar seus devaneios, logo adular ignobilmente a alguém que arvoram em ídolo. O orgulhoso descerá às mais vis, às mais vergonhosas intrigas para suplantar um êmulo e elevar-se em sua queda. Adorador de si mesmo, tendo estima só por si, comprimiu-lhe o egoísmo seu coração, paralisou-lhe todas as potências de sua alma. Debalde esperareis dele sacrifícios generosos em prol do bem público. Joguete de suas paixões, adulador, escravo dos que dispõem das honras e das riquezas, ou se desvanece nas fumaças do orgulho, ou se estira na lama.  

Na verdade, só os humildes mantêm a dignidade da natureza humana. Pois, na pessoa humilde nunca o conhecimento do seu nada e de sua miséria está isolado do conhecimento das grandezas e bondades de Deus. É nada, e de si mesmo nada tem; e assim todo bem que vê em si, reconhece ter recebido de Deus. E sabe que Deus o criou para glória d'Ele, que lhe deu um nobre destino, que por graça de sua misericórdia o admitiu à adoção de seus filhos. Não andará à busca da aprovação duma vil criatura. Sabe que é nobre vassalagem depender senão de Deus! Mas sabe que criado por Deus, deve reverter a Deus; que, redimido pelo sangue de Jesus Cristo, tem o Céu como herança. Os humildes deixam que os amadores da vaidade e da ilusão se fatiguem em demanda das honras, das riquezas e prazeres. Eles puseram suas esperanças bem mais alto e assim as comodidades sensuais mas efêmeras deste mundo, as pessoas humildes as calcam aos pés; livram-se de todos os empecilhos  que tolhem os vôos de seus corações nobres e generosos. A alma dos humildes deixa a terra e voa em busca dos bens celestes e imortais.

Caríssimos, basta compulsarmos a vida dos santos para constatarmos a verdade do que acabamos de escrever. E só para indicar alguns exemplos: Santo Agostinho, S. João Batista M. Vianney, S. Bernardo, S. Francisco de Sales, S. Francisco de Assis, S. Vicente Ferrer, S. Francisco Xavier, S. Vicente de Paulo, Santa Catarina de Sena etc. Não eram todos humildes? Claro que sim, em sumo grau, do contrário não seriam os grandes santos que foram. E, no entanto, que sublimidade em seus pensamentos, que maravilhas no predomínio que exerceram em seus contemporâneos, quando se chega ao conhecimento de seus imortais escritos, sermões, cartas e feitos caritativos e apostólicos. Caríssimos, podemos estar certos que os santos acharam o princípio de sua força e grandeza exatamente na virtude da mais alta humildade.

Enquanto o orgulho, enfatuando as almas de presunção e vaidade, obceca o homem a tal ponto que coloca alguém ou a si mesmo como ídolo, a humildade, fazendo-o curvar aos pés do Soberano Senhor, põe-no em via de receber os mais preciosos dons do céu, a luz para conhecer, e a força para operar. Somos nada, mas tudo podemos em Deus quando oramos com humildade. Tudo podemos em Deus que dá sua graça aos humildes. Assim, nos erguemos do nosso pó, tornando-nos de alguma sorte semelhantes a Deus, fortes de sua força, sábios de sua sabedoria, onipotentes de sua onipotência.  Ao contrário, Deus resiste ao soberbo e abandona-o aos seus próprios recursos, isto é, ao seu nada, e todas as suas obras são infecundas. Agora veio-me a mente um fato: quando se tratou de escolher um candidato ao episcopado para conservação da Tradição em Campos, dois dos nossos padres, foram perguntar a D. Antônio de Castro Mayer qual a sua indicação e ele respondeu: "escolham a Monsenhor Licínio porque ele é humilde".

Quando Jesus Cristo apareceu na terra, havia pelo mundo reis e imperadores, não faltavam oradores afamados e profundos filósofos. Jesus escolheu a estes? Não... bem outro foi o plano concebido pela Sabedoria eterna. Escolheu pobres pescadores, rudes e alguns ignorantes. Ninguém os tinha em consideração. Mas, eis aí, os instrumentos que se há mister nas mãos de Deus para fazer coisas maravilhosas. Sua missão era nada menos que conquistar e mais ainda reformar o mundo inteiro. E como o farão: sofrendo a fome, a sede, as calúnias, as perseguições, as zombarias, os suplícios e a morte. E por que? Para que os mais cegos não possam deixar de ver que não são os homens mas a mão do Onipotente, que tudo fez. Ó sabedoria humana, que confia em seu pretensos dotes e em seu dinheiro e renome, confunde-te! Quão diversos são os juízos de Deus! Deus escolhe as coisas fracas para confundir os fortes!

Olhemos agora o outro lado da moeda considerando apenas um exemplo: Martinho Lutero. Tal homem havia recebido do céu talentos raros, um engenho muito grande; era dever seu fazer disto homenagem ao autor de todo dom perfeito, pô-los ao serviço de Sua glória. Mas ele se maravilha de si mesmo, atém-se às suas próprias forças e ideias. Mas, logo Deus se afastou dele; e eis a razão  que se abala das mais altas regiões, cai e desmorona-se, de queda em queda, aos mais vergonhosos desvios, aos mais incríveis delírios diabólicos. Deus rejeitou o orgulhoso!

Donde devemos concluir sem a menor sombra de dúvida: só os humildes podem esperar de Deus ajuda, amparo e proteção. Só eles, portanto, são capazes de efetuar coisas grandes na ordem sobrenatural e levantar monumentos que sobrevivam às catástrofes dos impérios. Eles, na verdade, nada empreendem, cônscios que estão de sua própria impotência, mas oram com humildade, pedem luzes, pedem forças, e Deus sempre os atende. Deus inspira-lhes algum pensamento para a glória Sua, e ei-los à obra com denodo; não há dificuldade que os amedronte; é seu sentir que, a despeito do seu nada pecador, alentados da força do alto, chegariam a revolver o universo. Não têm em vista nem estima nem respeito. Estão conscientes de que toda a glória do bom êxito  deve ser atribuída a Deus que é quem lhes dá a luz e a força. E Deus reconhece aí a sua obra e por vezes se compraz de sinalá-la com o selo da sua imortalidade. Assim entendemos o porquê de tantas maravilhas operadas no Cristianismo por homens simples e desprezíveis no pensar do mundo.

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O NOSSO CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

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