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quarta-feira, 24 de abril de 2019

AMOR DA SOLIDÃO E DO SILÊNCIO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

   Jesus Cristo, nosso Divino Mestre, passou trinta anos em casa, e os três dias que passou fora de casa, estava no Templo, casa de Seu Pai.  Nos três anos  de vida pública, fora de casa, retirava-se muitas vezes para as montanhas, e, às vezes sozinho, sem a companhia de seus próprios discípulos. A estes, certo dia, Nosso Senhor deu este conselho: "Vinde para um lugar retirado dos homens, um lugar deserto, e descansai um pouco". Ali, no retiro, Jesus falou-lhes dos Reino dos Céus. Diz Deus pelo profeta Oseias: "Conduzirei a alma à solidão e ali lhe falarei ao coração".Diz a Bíblia que Deus não está na agitação. E o profeta Jeremias pergunta: "Por que a terra está desolada?" e responde: "Porque não há quem pare para pensar em seu interior". Caríssimos, não sou profeta, por isso não sei se haverá  para o futuro tempo mais tumultuoso, barulhento, dissipado e inimigo da meditação do que o de hoje; mas, com toda certeza, os tempos atuais são mais dissipados e avessos à vida interior do que os tempos do profeta Jeremias. Como profeta e inspirado pelo Espírito Santo, suas palavras abrangiam, com certeza, se não unicamente, também os nossos tempos. 
  São Bernardo dizia em latim (e só em latim a expressão tem encanto): "O Beata solitudo, o sola beatitudo!" 
   Deixa as coisas curiosas e lê, ao menos uns 15 minutos por dia, livros, artigos, posts que te levem a pensar em Deus, no Céu, em tua alma, nos benefícios de Deus, na tua ingratidão e nos teus pecados para teres no coração a compunção. 
   Quando foi que o filho pródigo se converteu, saiu da miséria espiritual e material? Quando, levado pela desilusão do mundo e pelas provações, parou para pensar. Enquanto estava nas orgias com seus amigos e amigas do mundo, não tinha como se converter, porque não ouvia a voz de Deus. Eis o que é o mundo! Quando o filho pródigo tinha dinheiro, seus amigos e amigas estavam ao seu lado; quando o dinheiro acabou e os "amigos e amigas" não puderam mais filá-lo, todos o abandonaram. Convertido, no interior de sua casa em companhia de seu bondoso pai, o filho mais novo era agora feliz, verdadeiramente feliz. Adeus barulho do mundo!
   Se te apartares da televisão, das conversações supérfluas e passeios ociosos, como também de ouvir novidades e murmurações, acharás tempo bastante e oportuno para te entregares a santas meditações. Estamos na terra de passagem; nossa conversação deve estar no céu.
  Disse Sêneca, filósofo antigo: "Quantas vezes estive entre os homens, voltei menos homem". Experimentamos isto quando falamos muito e com muitos; porque é mais fácil calar de todo, que falar sempre acertadamente. Na verdade, a boca fala o que temos no coração. Se vivermos com Jesus e sempre na presença de Deus, quando falarmos  sempre deixaremos boa impressão nos ouvintes e faremos bem à sua alma. 
    Ninguém seguramente se alegra senão o que possui em si mesmo o testemunho de boa consciência. 
   Muitas vezes os mais estimados no conceito dos homens têm caído em grandes perigos e enganos, por causa de seu orgulho, muita confiança em si mesmos e presunção. Se contradizem: durante anos a fio, a tempo e fora de tempo, querem impor suas ideias com a presunção de achá-las infalíveis como as palavras de São Paulo, e depois, a tempo e fora de tempo, querem que o próximo rejeite estas mesmas ideias. Pouquíssimas vezes nos vamos arrepender de ter calado, mas muitíssimas por ter falado.
   Outro grande proveito da vida mais retirada e silenciosa é o que se tira da leitura e medição das Sagradas Escrituras. Com a tradução e explicações tradicionais dos Santos Padres, a leitura meditada das Sagradas Escrituras é mel para os nossos lábios, melodia para os ouvidos, compunção e consolação para as nossas almas. 
   O mundo não entende estas coisas e critica e zomba do que não entende. O mundo está entregue ao espírito das trevas, a todas as concupiscências que ele inspira, a todos os crimes que ele provoca, a todos esses males de que é o princípio; por isso exclamava o profeta David: "Apartei-me, fugi (do mundo) e moro na solidão" (Salmo 54,8).
   Deixa aos vãos as coisas vãs, deixe que os mortos enterrem os mortos, e tu tem cuidado do que Deus te manda. Se não podes corporalmente fugir do mundo, ao menos deves fazer uma espécie de retiro no teu coração. Deste estratagema usaram alguns santos como, por exemplo, Santa Catarina de Sena. No meio das ocupações, da sociedade e do bulício do mundo, todos devem criar, no fundo de seu coração, um  lugar à parte,  onde possam retirar-se para conversar com Jesus Cristo e recolher-se em sua presença. 
   Ó Jesus! quando Vos verei como sou de Vós visto! Dai, Deus meu, o que quereis; dai, Salvador divino, o que minha alma precisa, e acharei nela o que vosso amor deseja!
   O ramalhete espiritual colhido no jardim desta leitura meditada serão as palavras de São Paulo: "Nossa vida está escondida em Deus com Cristo" (Coloss. III, 3). 
    
   
   

domingo, 5 de junho de 2016

Jesus pregando Retiro para os seus sacerdotes - ( VII )

A solidão do sacerdote

   Meu filho, durante a tua curta existência sobre a terra vive só com Deus. Que nada turbe o trato interior da tua alma comigo.
   Esforça-te por teres só um ideal, uma tendência única. Sê outro Jesus, reveste-te do meu espírito, ama-me e faze-me amar dos outros.
   Evita a disjunção das forças e a multiplicidade dos negócios. Não deixes o teu espírito embaraçar-se com dúvidas, escrúpulos, preocupações sobre o passado, o presente e o futuro, não o escravizes pelo apego desregrado a uma ocupação ou a uma pessoa.
   O espírito foi-te dado para conheceres o teu Deus, para propor à vontade o Bem supremo e fazer-lhe adotar na ação os meios melhores de o atingires. Tudo o que fora dessa ordem dás às criaturas, tira-lo a Deus.
   Guarda a liberdade de teu coração e serás feliz, e encontrar-me-ás no centro da tua alma.
   Modera a multiplicidade dos teus desejos. Acaba com os sonhos de prazer, de bem-estar, de honrarias que te inquietam.
   No dia da tua ordenação escolhes-te-me como a parte da tua herança. Com este fim separei-te do resto das criaturas, par seres unicamente meu.
   Compreendes os meus divinos ciúmes? Aniquilei-me para te vir procurar no teu nada e no teu pecado. Guarda--me pois, íntegro o carinho do teu coração sacerdotal. 
   A caridade, a gratidão, as conveniências sociais, e ainda os deveres do teu ofício põem-te em frequente contato com o mundo.
   Todavia, enquanto tratas com as criaturas, o teu coração deve ficar perto de mim. Não lhe permitas expandir-se livremente e apegar-se a tudo o que fascina. Sem isto levarás uma vida preocupada e um dia cobrirás de vergonha a tua dignidade sacerdotal.
   Não te creias mais forte do que os outros, que se deixaram arrastar pela sedução.
   Evita a ocasião de pecado. Corta corajosamente certas afeições perigosas para a tua virtude ou nocivas à tua reputação.
   Confia teu coração sacerdotal à Virgem das virgens, à Mãe do sacerdote.
   Ela guardar-lhe-á as entradas e as saídas e dar-lhe-á a graça de me poder amar com um amor perfeito. Ela duplicará as suas energias, obrigando-te ao trabalho, à dedicação e ao sacrifício.
   Tu estás neste mundo, mas não és deste mundo.
   Quando os teus deveres de sacerdote estiverem cumpridos, e tiveres satisfeito as conveniências da vida social, recolhe-te comigo ao silêncio e à solidão.
   A mola, perdida a tensão, volta à sua posição natural. A tua posição e o teu lugar de repouso, após as tuas ocupações e enredos de cada dia, sou eu, é o meu divino Coração. Aqui virás repousar e tomar de novo forças.
   Guarda os teus sentidos. Nenhuma necessidade tens de fixar os teus olhares nas vaidades deste mundo. Sem esta preocupação bem depressa serás seu vil escravo.
   Evita com cuidado todas as relações inúteis, todo o comércio epistolar supérfluo, toda a curiosidade com respeito às novidades do mundo.
   Possuís em ti mesmo todo um mundo, o mundo sobrenatural. Acostuma-te a viver comigo, teu Irmão que tanto te ama, com nosso Pai e nossa Mãe do Céu, com os anjos e com os santos.
   Lembra-te constantemente que és sacerdote. O que diz bem nos homens do mundo, não diz bem em ti.
   Só deves entrar em contato com os outros para lhes levares os meus benefícios: para os instruíres, para os alentares, para os consolares e sarares, e, quando andarem extraviados, para os trazeres ao meu redil.
   Não mendigues as consolações dos mortais. És tu quem por mim foi constituído para, da minha parte, lhes levar a felicidade e a paz. Esta felicidade procurá-la-ás em mim, porque eu sou o Deus de toda a consolação: sou teu amigo, teu Irmão, com quem tu participas graça e privilégios.
   Procura frequentemente viver na solidão. Falar-te-ei nela mais intimamente ao coração, mostrando-te as lacunas da tua vida sacerdotal e a maneira de as encheres, e descortinando-te os inefáveis segredos do meu divino Coração.