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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


  " Dirão, porém, os protestantes:

   - Não nos revoltamos contra os católicos, quando dizem que o homem não pode salvar-se sem obedecer aos mandamentos de Cristo, que o são também de Deus. Não concordamos é com o dizerem que a salvação DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS. Ora, isto é o mesmo que dizer que nós nos salvamos a nós mesmos, quando nosso Único Salvador é Jesus Cristo.

   - Dizemos [nós católicos] que a salvação depende das nossas obras. E onde está o erro ou a heresia desta afirmação? Não estamos afirmando com isto que ela depende SOMENTE de nossas obras, mas sim que ela depende TAMBÉM de nossas obras. Sabemos muito bem que sem a graça de Cristo não nos podemos salvar, mas a graça de Cristo não nos salva sem a nossa cooperação. A salvação depende de uma coisa e de outra.

   Toda a repugnância de Vocês [protestantes] em aceitar esta ideia baseava-se principalmente naqueles dois textos de São Paulo: O homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28) e no outro da Epístola aos Efésios: Pela graça é que sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, porque é um dom de Deus, não vem das nossas obras (Efésios II-8 e 9). Já explicamos convenientemente estes textos (capítulo 6º e nº 133). Desde que Vocês agora sabem que o primeiro exprime apenas que para nos salvar, não estamos mais obrigados a obedecer à lei de Moisés, como estavam os judeus antes de Cristo; e o segundo, que a graça da conversão ao Cristianismo, que foi a chave da salvação, não foi concedida por causa da obras que tivessem sido feitas anteriormente a ela, não há mais motivo para tanta repugnância a esta proposição: A SALVAÇÃO DEPENDE TAMBÉM DAS NOSSAS OBRAS. 

   Quando um homem perguntou a Nosso Senhor o que devia fazer para obter a vida eterna, que foi que o Senhor lhe respondeu? Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). Eis aí claramente a salvação DEPENDENDO DAS OBRAS. 

   Quando Nosso Senhor diz: Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo, PORQUE TIVE FOME E DESTES-ME DE COMER etc, etc. Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... PORQUE tive fome e não me destes de comer etc, etc. (Mateus XXV- 34 e 35, 41 e 42) que está dizendo Nosso Senhor, senão que a salvação ou a condenação DEPENDEM da nossa caridade ou falta de caridade?

   Quando Nosso Senhor diz: Pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado (Mateus XII-37), que nos está dizendo, senão que tenhamos cuidado com as nossas palavras, porque do nosso modo de falar DEPENDE a nossa salvação ou a nossa condenação?

   Não nos podemos salvar sem o perdão, a misericórdia, a benignidade de Deus. Quando Nosso Senhor diz: Perdoai e sereis perdoados (Lucas VI-37), bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (Mateus V-7), não julgueis e não sereis julgados (Lucas VI-37, que nos está ensinando senão que do nosso perdão e benignidade para com o próximo DEPENDE a misericórdia com que o Senhor nos há de julgar?

   É a própria Bíblia, Palavra de Deus Eterna e Infalível, portanto, a nos ensinar que a salvação TAMBÉM DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS".
(Do livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro).
 

 (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


   "Quanto à expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO, pode ser errônea ou pode ser admissível, de acordo com o sentido em que seja ela empregada. Se dizemos que o homem salva a si mesmo, no sentido de que ele o faz sozinho, por seu próprio esforço e boa vontade, independentemente da graça de Deus, que Cristo nos mereceu na cruz, seria um erro já desde o começo condenado pela Igreja: o pelagianismo.

   Mas o próprio Protestantismo reconhece que existe, na nossa salvação, a parte de Deus e a nossa. Temos que cooperar com a graça, sem isto não nos salvamos, pois Cristo não nos salva violentando a nossa liberdade, nós cooperamos livremente. Se cooperamos com a graça, estamos salvando a nós mesmos. Se não cooperamos, é a nós mesmos que estamos condenando, a condenação será por nossa culpa.

   Mas o protestante só se convence , se ler na Bíblia empregada esta expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO. Neste caso leia o trecho da 1ª Epístola de São Paulo a Timóteo: OLHA POR TI e pela instrução dos outros, PERSEVERA nestas coisas, porque, fazendo isto, TE SALVARÁS tanto A TI MESMO, como aos que ouvem (1ª Timóteo IV-16).

   É inútil querer iludir os mais rudes, apelando para o texto grego, porque aí é o verbo sôzo, o mesmo verbo grego que São Paulo emprega, quando diz que Jesus pode SALVAR perpetuamente aqueles que por Ele mesmo se chegam a Deus (Hebreus VII-25, que se lê nas palavras do Anjo, quando anunciou a Maria, referindo-se a Jesus: Ele SALVARÁ o seu povo dos pecados deles (Mateus I-21) ou, se não quisermos sair desta mesma 1ª Epístola a Timóteo, é o mesmo que o Apóstolo das Gentes empregou no 1º capítulo: Jesus Cristo veio a este mundo para SALVAR os pecadores, dos quais o primeiro sou eu (1º Timóteo I-15). É o verbo empregado frequentemente no Novo Testamento para exprimir a salvação eterna.

   Se quisermos outro exemplo do mesmo Apóstolo São Paulo, vejamos este: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com receio e com tremor (Filipenses II-12). Ferreira de Almeida diz, num português mais moderno: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com temor e tremor (Filipenses II-12).

   Outra vez dizemos: Não adianta querer impressionar os incautos com despropositadas alusões ao texto grego, porque na frase OBRAI a vossa salvação, o verbo OBRAR corresponde no verbo grego: KATERGÁZOMAI.

   Vejamos o dicionário de Bally: KATERGÁZOMAI = executar, cumprir, acabar, procurar para si, obter, elaborar, trabalhar.

   Ainda mesmo que se quisesse escolher a significação ACABAR, não se alteraria o sentido: cabe-nos ACABAR a obra que Deus começou, mas que Ele não quer realizar sem nós. O fato de São Paulo referir-se logo em seguida à ação de Deus na salvação de nossa alma: Deus é o que obra em vós o querer e o perfazer, segundo o seu beneplácito (Filipenses II-13) não exclui a nossa parte no obter a salvação, exprime apenas que nada podemos querer, nada podemos fazer sem o auxílio, a moção de Deus, a nossa ação é entrelaçada com a ação divina."
(Do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

   (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS



   "Nas seguintes frases: eu não aprovo o que FAÇO (Romanos VII-15) o querer o bem eu o acho em mim, mas não acho o meio de o FAZER perfeitamente (Romanos VII-18) a ira do homem não CUMPRE a justiça de Deus (Tiago I-20) o que aqui é para nós duma tribulação momentânea e ligeira, PRODUZ em nós... um peso eterno de glória (Coríntios IV-17), os verbos FAZER, CUMPRIR e PRODUZIR correspondem no grego ao mesmo verbo KATERGÁZOMAI. 

   Os dois textos, em que vemos expressa na Bíblia a ideia de que Jesus é o ÚNICO SALVADOR,  não excluem absolutamente a outra ideia de que, uma vez recebidos de Cristo os meios INDISPENSÁVEIS para a salvação e suposto que sem Cristo a salvação não pode ser realizada, o homem, como criatura livre que é, tenha, por sua vez, que salvar-se a si mesmo.

   Para usarmos uma comparação: o náufrago que só encontrou UM HOMEM capaz de lhe fornecer embarcação e bússola e mantimentos, tem neste homem o seu único Salvador, embora precise salvar-se a si mesmo, guiando a embarcação para chegar em terra.

   Um dos textos é o dos Atos: Não há salvação em nenhum outro, PORQUE do céu abaixo NENHUM OUTRO NOME FOI DADO aos homens PELO QUAL nós devamos ser salvos (Atos IV-12). O homem que foi batizado em nome de Jesus, que recebeu o perdão de seus pecados em nome de Jesus, e que em nome de Jesus vai recebendo a graça, isto é, em virtude dos merecimentos infinitos de Redentor, uma vez que o Batismo, o perdão dos pecados e a graça são necessários para a salvação, é claro que é em nome de Jesus que está sendo salvo. Mas isto não impede que ele, para salvar-se, TENHA QUE CUMPRIR com os mandamentos (e os cumpre livremente, portanto, tem que salvar-se a si mesmo) e só os pode cumprir, ajudado pela graça de Jesus. Até mesmo, portanto, quando está cooperando com a graça, a sua salvação está sendo realizada com Jesus, por meio de Jesus, e, portanto, em nome de Jesus e não em seu próprio nome.

   O segundo texto é o de São Paulo a Timóteo: SÓ HÁ UM MEDIADOR entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem (1ª Timóteo II-5). Dizendo que o homem salva a si mesmo, neste sentido de que tem que cooperar livremente com a graça NAS SUAS AÇÕES, NO SEU MODO DE PROCEDER, não se está negando absolutamente que Jesus Cristo foi o Único Mediador que reconciliou os homens com Deus e que nos alcançou a graça, sem a qual ninguém pode salvar-se." 

(Do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

domingo, 18 de setembro de 2016

AS OBRAS


 A FÉ SEM AS OBRAS É MORTA.

   A necessidade das nossas obras para a salvação é tão lógica e tão evidente, que os próprios protestantes tiveram que retroceder neste ponto. A doutrina de salvação só pela fé, que pregaram os Primeiros Reformadores, era tão perigosa e subversiva, que para cristãos logo se mostrou insustentável. Aquilo já não era Cristianismo, era a confiança cega de que Jesus tudo perdoa conduzindo logicamente o homem ao mais desenfreado materialismo.

   Quando viram os protestantes a devastação tremenda que essas Ideias produziam no seio do povo, com a propaganda do desprezo pelas boas obras como meio para obter a salvação, perceberam claramente que não era possível prosseguir com tais ensinos.

   Mas toda a sua tática tem consistido em recuar até à doutrina católica nesta matéria, mas recuar conservando mais ou menos a mesma linguagem que usavam antigamente, recuar sem querer que se perceba que estão recuando.

   Já vimos que a antiga fórmula: SÓ A FÉ é necessária para a salvação foi substituída pela outra: SÓ A FÉ E O ARREPENDIMENTO são necessários para a salvação. 

   Entrando neste terreno, exigindo agora o arrependimento como indispensável para a conquista da vida eterna, entraram na doutrina católica da necessidade das obras para a salvação. Já tivemos ocasião de demonstrá-lo [anteriormente].

   Quaisquer fórmulas que inventem dentro deste novo sistema, por mais manhosas que elas sejam, mostram desde logo, depois de um pouco de reflexão, que são fórmulas católicas disfarçadas com a máscara de protestantes: Exigir ARREPENDIMENTO é exigir as OBRAS para a salvação: não há para onde correr.

   Vejamos, por exemplo, este modo de argumentar:

   - Os católicos afirmam que o homem se salva pela FÉ COM AS OBRAS, ajudado pela GRAÇA DE DEUS. Nós, protestantes, achamos que esta doutrina está errada. O que salva o homem é só a fé, e não as obras. O que acontece é que a fé é manifestada pelas OBRAS. Aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ. Portanto, é só a fé que salva.

   - Ouçam, caros amigos. Dois indivíduos estavam discutindo: um deles possuía um automóvel e garantia que o seu carro podia andar sem gasolina. O outro apostava que não. Mas acontece que, aproveitando um descuido de seu antagonista, o primeiro colocou a gasolina no seu automóvel e o fez andar. Ganhou a aposta? Provou que tinha razão? Absolutamente não; porque o outro, como é natural, podia muito bem proceder à verificação no automóvel e, certificando-se de que este agora estava COM GASOLINA, podia muito bem desmascarar o seu opositor. 

   É o que se dá entre nós.

   Como começou o Protestantismo? Afirmando que a FÉ salva sem as obras e dizendo que esta fé consiste apenas em ACEITAR A JESUS COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL. É a confiança de que Jesus nos salva, isto independentemente de obras, de arrependimento da nossa parte.

   Já fizemos a refutação desta doutrina. Mostramos com muitos textos da Bíblia, que esta noção de fé não é exata, que fé é ACREDITAR nas verdades eternas, ACREDITAR na palavra de Deus. Fizemos ver que esta fé é o PONTO DE PARTIDA para a salvação, porque a aceitação da doutrina de Jesus inclui necessariamente a aceitação de SUA MORAL, o reconhecimento dos DEVERES impostos por Cristo e que, portanto, a fé que salva é a fé coerente, a fé que não entra em contradição com as obras, a fé que não está morta, mas OPERA PELA CARIDADE (Gálatas V-6), sendo a caridade o amor de Deus sobre todas as coisas e amor ao próximo como a nós mesmos. Mostramos que se trata de uma promessa de vida eterna, e se Deus promete o Céu àquele que tem fé, é esta mesma fé que o leva a aceitar na própria Bíblia AS CONDIÇÕES em que esta promessa será cumprida (nº 80 a 84): sem praticar a virtude, sem observar os mandamentos, sem receber os sacramentos que Cristo instituiu para nossa salvação, esta não pode ser alcançada.

   Em todo este sistema de argumentação, estamos considerando a FÉ como uma virtude especial, distinta das demais virtudes, como distinta das nossas obras, do nosso modo de proceder. Acaso estávamos errados em considerá-la assim? Não é a própria Bíblia que distingue a fé das outras virtudes, quando nos diz: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém a maior delas é a caridade (1ª Coríntios XIII-13)? Não é a própria Bíblia que nos diz que também os demônios CREEM (Tiago II-19)?

   É, portanto, neste sentido, considerando a fé como uma virtude distinta das outras, que nós dizemos que a fé sozinha não pode salvar, ela não salva sem as obras, as quais também são necessárias; e dizemos isto, apoiados no ensino claríssimo da Bíblia: Não vedes como PELAS OBRAS É JUSTIFICADO O HOMEM, E NÃO PELA FÉ SOMENTE? (Tiago II-24). Aqui não há meio de subterfúgio: São Tiago não diz que o homem é salvo pela fé, mas esta fé só se pode conhecer nas obras etc, etc. como Vocês estão dizendo; mas que o homem é salvo PELAS OBRAS, e não somente pela fé. 

   Ora, que acontece com quem quer discutir e argumentar COM CLAREZA E COM LEALDADE, porque quer realmente defender a VERDADE ou chegar ao conhecimento dela? Quem é sincero na argumentação procura, antes de tudo, explicar, de modo que não deixe margem para nenhuma dúvida, em que sentido está tomando as palavras que emprega na sua exposição. A questão é sobre A FÉ, não é assim? A obrigação de quem vai sustentar uma tese sobre a fé, é dizer bem claramente o que é que entende por esta palavra FÉ.

   Ora, quando perguntamos a Vocês o que é que entendem por FÉ, Vocês recorrem àquele velho conceito dos primeiros tempos do Protestantismo: FÉ É ACEITAR A JESUS CRISTO COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL.

   Agora perguntamos: a fé tomada neste sentido ESTÁ INCLUINDO A OBEDIÊNCIA À LEI DE DEUS? ESTÁ INCLUINDO AS BOAS OBRAS, OS ATOS DAS DEMAIS VIRTUDES?

   Não, não está. A fé aí está reduzida apenas à confiança que tenho em que Jesus me salva.

   Esta definição não exclui o pecado. A prova é que de acordo com esta noção de fé os Primeiros Reformadores ensinavam que o pecador se salva SEM ARREPENDIMENTO. "Sê pecador e peca fortemente, mas confia e rejubila-te mais fortemente ainda no Cristo vencedor do pecado, da morte e do mundo", dizia Lutero na sua carta a Melanchton, em 1521, este mesmo Lutero que dizia que " a contrição que se prepara pelo exame e recapitulação e detestação dos pecados, pelos quais alguém relembra os seus anos na amargura de sua alma, ponderando a gravidade, multidão e fealdade dos pecados, a perda da eterna felicidade e aquisição da condenação eterna, ESTA CONTRIÇÃO FAZ HIPÓCRITA O HOMEM E ATÉ MAIS PECADOR" (Lutero. Edição Weimar VII-13).

   Esta definição de maneira alguma supõe que a fé se manifesta pelas obras. Pois, em que sentido se toma aí a expressão: Jesus é o nosso Único e Suficiente Salvador? Não no sentido de que o resgate foi feito por Jesus e só Ele o podia fazer, e o fez da maneira mais completa e satisfatória para nos alcançar e merecer a graça. Mas é empregada maliciosamente no sentido de que, tendo Cristo feito tudo por nós, o homem não precisa fazer mais nada; não lhe resta, portanto, salvar-se a si mesmo pela prática da virtude, pois só Cristo é quem nos salva sem a nossa cooperação. Ou, em outros termos, a cooperação do homem consiste apenas em CONFIAR. Confiando, a salvação lhe é dada de graça.

   Seria, por conseguinte, um contra-senso, uma verdadeira contradição, que o homem, afim de DEMONSTRAR que Cristo é o seu Único e Suficiente Salvador, neste mau sentido da expressão, tivesse agora que esforçar-se, obedecendo à lei divina, praticando atos de virtude etc. Assim estaria procurando salvar-se a si mesmo, para demonstrar que não se salva a si mesmo, que Jesus é o seu Único e Suficiente Salvador.

   Agora acontece que, enquanto Vocês protestantes, continuam a sustentar esta mesma definição - Crer é aceitar a Jesus como nosso Único e Suficiente Salvador, como nosso Salvador Pessoal - quando a gente menos espera, surgem Vocês mesmos dizendo que a fé se manifesta pelas OBRAS, que aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ.

   Isto quer dizer que de repente passaram a tomar a palavra FÉ noutro sentido bem diferente. Fazem como o homem que às escondidas meteu a gasolina no automóvel.

   Bem, fé neste sentido de que todo aquele que peca está mostrando que não tem fé, quer dizer ADESÃO TOTAL A CRISTO, COM A INTEIRA OBEDIÊNCIA A TUDO QUANTO CRISTO ENSINOU. É não só na nossa mente, mas também no nosso modo de agir, a aceitação de Cristo, não só como Salvador, mas também como  nosso Mestre, nosso Legislador e como o Rei que domina toda a nossa vida.

   Se é neste sentido que Vocês querem tomar a palavra FÉ, então nós, católicos, não temos nenhum receio ou dúvida em dizer que BASTA A FÉ para a salvação, porque NÃO BRIGAMOS POR MERAS QUESTÕES DE PALAVRAS; o que nos interessa são as realidades da vida cristã. Mas há uma coisa: aí já não se trata de FÉ SEM AS OBRAS, trata-se de FÉ COM AS OBRAS, porque as obras já estão incluídas neste conceito de fé. Trata-se de fé COM A OBEDIÊNCIA DOS MANDAMENTOS DE CRISTO.

   Fica, sempre, de pé que a fé sem as obras não salva, porque a fé sem as obras é morta (Tiago II-26). 


terça-feira, 26 de abril de 2016

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO (término do capítulo)

   36. CONFUSÃO DE IDEIAS.

   Ainda não entramos de cheio na refutação da teoria da salvação só pela fé. Fizemos apenas um resumo da doutrina católica sobre a salvação, para esclarecer certos pontos em que se confundem os nossos adversários que não estão perfeitamente ao par da nossa doutrina. Mas bastou ao leitor ver o texto das Escrituras em que se exige a observância dos mandamentos para conseguir o Céu, não podendo alcançá-lo os que cometem certas faltas graves, bastou ver a insistência com que a Bíblia nos assegura que Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras, sem fazer acepção de pessoas, para observar como é inexata a doutrina da que só a fé é que salva e de que as boas obras não influem na salvação. Queremos dizer apenas algumas palavras sobre uma confusão que fazem os protestantes a respeito do perigo de envaidecimento para aqueles que fazem boas obras, sabendo que elas terão a sua recompensa.

   Os protestantes viram um texto de São Paulo (Efésios II-8 e 9) em que o Apóstolo nos ensina que a concessão da graça primeira, ou seja, a passagem do pecador do estado de pecado para o estado de justiça, pela graça santificante se realiza de graça e não em atenção a nossas obras, para que ninguém se glorie. Teremos ocasião de comentar atentamente e de vagar esse texto num capítulo especial que versará sobra a graça primeira. Daí aprenderam de oitiva a dizer que a glória do Céu não se alcança pelas nossas obras mas só pela fé, para que o homem não se orgulhe, não se glorie de ter alcançado a salvação pelo seu esforço. Deus teria querido assim evitar o perigo do orgulho humano, e teria caído noutro perigo muito maior ainda: teria favorecido horrivelmente à corrupção do homem e ao relaxamento no pecado, impondo somente a fé para a salvação e dispensando a observância dos mandamentos e a prática das outras virtudes cristãs, entre as quais avulta a caridade, para a consecução da glória celeste. 

   37. A DOUTRINA CATÓLICA E A PRESUNÇÃO.

   Qualquer um que considere atentamente a doutrina católica, não terá motivo algum para gloriar-se de suas virtudes ou de suas boas obras. E a prova é que a Igreja Católica tem produzido um número imenso de grandes santos que são conhecidos no mundo inteiro, muitos dos quais bem estimados e admirados pelos protestantes, e no entanto, um fenômeno observado em todos eles é que, quanto mais progrediam na virtude e se enriqueciam da graça de Deus, tanto mais baixo conceito faziam de si mesmos. A sua grande virtude fazia com que lamentassem profundamente as mais pequenas imperfeições; e causa admiração como se não julgavam mais do que grandes e desprezíveis pecadores. Seguiam nisto a palavra do Eclesiástico: Quanto maior és, humilha-te em todas as coisas e acharás graça diante de Deus (Eclesiástico III-20).

   Realmente a consideração da doutrina sobre a graça, que há pouco resumimos, leva o homem a reconhecer o seu nada, a sua fraqueza e insuficiência. Se Deus justifica o pecador e o faz seu filho, esta elevação a uma grandeza sobrenatural é feita por pura bondade e misericórdia de Deus. Cada ação boa, cada ato de virtude, cada vitória sobre as tentações precisou, para efetuar-se, do auxílio da graça divina: Sem mim nada podeis fazer (João XV-5). A criancinha que não pode escrever a carta sem a mãezinha a estar ajudando com a mão dela por cima da sua, não pode absolutamente orgulhar-se de ter escrito a carta por seu próprio engenho e esforço. E os erros dados nesta carta, por culpa do pequeno escrevente, a mãezinha depois os corrige - isto é, os pecados, as faltas, as imperfeições que frequentemente cometemos, Deus está sempre de braços abertos para nos perdoar, se nos voltamos para Ele. E o católico tem, mais do que ninguém, uma lembrança viva de seus pecados, pois tem que fazer cuidadoso exame de consciência sobre eles e confessá-los humildemente ao ministro de Deus, a quem foi dado o poder de perdoar e reter os pecados. Nenhuma razão tem, portanto, o católico, para orgulhar-se de suas virtudes, quando as possui: Que tens tu que não recebesses? Se, porém, o recebeste, por que te glorias como se o não tiveras recebido? (1ª Coríntios IV-7). 

   Se, porém, por um ato de irreflexão ou, para melhor dizer, de loucura, conceber um pensamento de presunção, uma queda fatal se dará, porque Deus resiste aos soberbos, e dá sua graça aos humildes (Tiago IV-6). E acontecerá o que aconteceu a São Pedro, que fez as mais brilhantes profissões de fé e que amava a Cristo mais do que os outros Apóstolos, mas por ter consentido num ato de confiança exagerada em si mesmo, teve que chorar, por toda a vida, uma queda desastrosa. Assim aprenderá o homem, à custa dos próprios fracassos, a não confiar em si mesmo. Não há razão, portanto, para Deus deixar de considerar como CONDIÇÃO NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO  a guarda dos mandamentos, a prática das boas obras, por parte do homem, (que é livre nas suas ações e portanto tem que mostrar um bom uso de sus liberdade), só pelo receio de que o homem se venha a tornar vaidoso.

   Se assim fosse, Ele também deixaria de apontar a FÉ como CONDIÇÃO NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO, porque a fé é sempre um ato livre, uma cooperação humana, e assim como há o perigo de ensoberbecer-se o homem pelas suas obras, assim também há o de ensoberbecer-se pela fé: Tu pela FÉ estás firmes, pois NÃO TE ENSOBERBEÇAS, MAS TEME (Romanos XI-20).

   38. RECOMPENSA E BENEFÍCIO.

   Por mais estranho que pareça, a glória do Céu, que a Escritura nos mostra como uma RECOMPENSA dada ao homem pelas suas boas obras, é também, em última análise, uma graça, um BENEFÍCIO de Deus.

   Um homem rico e ilustre toma um mísero e desprezível servo e o cumula de favores, espontânea e benignamente, fazendo dele um filho adotivo. Depois disto, começa a fornecer-lhe verba continuamente, para que ele realize alguns trabalhos. Perdoa frequentemente também os erros e fraquezas deste filho, bastando para isto que ele procure sinceramente o seu perdão. E aqueles trabalhos realizados pelo filho com a verba dada pelo próprio pai, este os recompensa larguissimamente, fazendo-o cada vez mais participante de uma imensa herança.
   Pode ser maior a sua benignidade?
   Assim faz Deus conosco, chamando-nos e justificando-nos misericordiosamente quando somos pecadores, perdoando-nos inúmeras vezes na vida, graças aos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, fornecendo-nos continuamente o auxílio da sua graça e recompensando com os gozos da vida eterna as nossas obras, que só com a sua graça podiam ser realizadas. Por isto, tinha razão em exclamar o grande Doutor da Graça, Santo Agostinho: "Deus quando coroa nossos merecimentos, não coroa senão seus próprios benefícios".