quarta-feira, 30 de março de 2016

JESUS NOS LAVOU DOS NOSSOS PECADOS NO SEU SANGUE




   "... Jesus Cristo, que é testemunha fiel, o primogênito dentre os mortos, o príncipe dos reis da terra, que nos amou e nos lavou dos nossos pecados no seu sangue..." (Apocalipse, I, 5). 

   "... Fostes resgatados... pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e sem contaminação..." (1 Pedro, I, 18 e 19).

   "... não com sangue dos bodes ou dos bezerros, mas com o seu próprio sangue, entrou (Jesus Cristo) uma só vez no Santo dos Santos, depois de ter adquirido uma redenção eterna." (Hebreus, IX, 12). 

   Este é o amor de Deus por nós: O Pai nos amou de tal modo que nos deu o seu Filho Unigênito e o Filho nos amou a tal ponto que chegou até ao último limite: entregou-se livremente a morte, derramando todo seu sangue para nossa redenção. 

   Jesus Cristo disse: "Como meu Pai me amou assim vos tenho Eu amado. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meu mandamentos permanecereis no meu amor, assim como Eu também permaneço no amor do Pai guardando-Lhe os mandamentos" (S. João, XV, 9-10). 

   Diz São Pedro Julião Eymard: "Deus nos ama verdadeiramente! E nos ama com um amor eterno que não teve princípio nem terá fim, nem sucessão, e não é sujeito a vicissitude; somos eternos em seu amor! 

   Séculos e séculos antes de existirmos, Deus nos concebera em seu pensamento, nos idealizara em seus desígnios, pensamento e desígnios de amor!

   Ah! jamais O haveremos de amar como Ele nos amou. Ainda mesmo que nos esforcemos por dilatar o nosso amor, estendê-lo, fazê-lo ultrapassar os limites, estaremos sempre aquém do devido reconhecimento, sempre devedores de amor!

   E a realidade é que não O amamos sequer nos poucos instantes desta vida que Ele nos concede para Lhe testemunharmos livremente a nossa gratidão, ao passo que Ele nos amo desde toda a eternidade!

   Sim, Deus nos ama e não se contenta em nos amar genericamente, como parte de um todo, o que seria muito, aliás, e mais que suficiente para a nossa salvação. Mas Ele quer atingir o extremo do amor infinito e, por isto, nos ama individualmente, particularmente, com se cada um de nós fosse o único a existir neste mundo. 

quinta-feira, 24 de março de 2016

DOUTRINA SOBRE O SANTÍSSIMO SACRIFÍCIO DA MISSA SEGUNDO O CONCÍLIO DE TRENTO - C. 4º, 5º e 6º

CAPÍTULO QUARTO

   "Sendo conveniente que as coisas santas se administrem santamente, e sendo este sacrifício entre todos o mais santo, instituiu a Igreja Católica já há muitos séculos o Cânon sagrado, tão purificado de todo o erro, que nele não há nada que não rescenda a suma santidade e piedade, nada que não eleve a Deus as almas dos que o oferecem. Pois ele se compõe das palavras do mesmo Senhor, como das tradições dos Apóstolos e das piedosas instituições dos Sumos Pontífices".

   CAPÍTULO QUINTO

   "Já que a natureza humana é tal, que não pode, facilmente e sem socorros exteriores, elevar-se a meditar as coisas divinas, por isso a Igreja, piedosa Mãe que é, instituiu certos ritos para se recitarem na missa, uns em voz submissa, outros em voz alta. Juntou a isto cerimônias, como bênçãos místicas, luzes, vestimentas e outras coisas congêneres da Tradição apostólica, com que se fizesse perceptível a majestade de tão grande sacrifício, e para que o entendimento dos fiéis se excitasse, por meio destes sinais visíveis da religião e da piedade, à contemplação das coisas altíssimas que se ocultam neste sacrifício". 

CAPÍTULO SEXTO

   "Desejaria o sacrossanto Concílio que os circunstantes que assistem a cada uma da Missas comungassem, não só espiritualmente, mas também com a recepção sacramental da Eucaristia, a fim de participarem mais abundantemente dos frutos deste santíssimo sacrifício. Contudo, se tal nem sempre se dá, nem por isso condena como privadas e ilícitas aquelas Missas em que somente o sacerdote comunga sacramentalmente, pois na verdade também estas Missas se devem considerar comuns, já porque nelas comunga o povo espiritualmente, já porque as celebra o ministro público da Igreja, não somente por si, mas por todos os que pertencem ao corpo [místico] de Cristo". 

quinta-feira, 17 de março de 2016

O PAI-NOSSO - "DÍVIDAS" - EXPLICAÇÃO DO CATECISMO DE TRENTO.

   CATECISMO ROMANO OU DE SÃO PIO V OU TAMBÉM CHAMADO "CATECISMO DO CONCÍLIO DE TRENTO. Parte IV, capítulo XIV, § III.
   Nº [12] - Explicação verbal e real: Qual o sentido de "DÍVIDAS". Pode ter três sentidos: a) como obrigação; b) como transgressão; c) como objeto de perdão divino. (O catecismo Romano explica os três sentidos).
   (Os párocos) ... façam os fiéis compreenderem o que neste lugar se entende por "dívidas", para que se não enganem com a ambiguidade do termo, e peçam coisa diferente do que devem pedir.
   a) "dívida" entendida como obrigação: Antes de tudo, importa saber que, de nenhum modo, pedimos dispensa da absoluta obrigação de amar a Deus, de todo coração, de toda nossa alma, de todos os nossos sentimentos.A solvência  (o pagamento) desta dívida é indispensável para a salvação.
   Por dívida se entende também obediência, culto, adoração a Deus, e outras obrigações da mesma natureza. Delas tão pouco, não pedimos livramento.

   b) "dívida entendida como transgressão: Na verdade, o que pedimos é que nos livre de nossos pecados. Assim o entendia São Lucas, quando em lugar de "dívidas" escreveu "pecados"; certamente, porque nos tornamos culpados diante de Deus, quando os cometemos, e nos expomos às penas devidas, que temos de resgatar, quer pela satisfação, quer pelo sofrimento.
   Desta natureza era a dívida, a que Cristo Nosso Senhor se referia pela boca do Profeta (Davi, Salmo LXVIII, 5 - Nota do Cat. R. : Cristo sofreu inocente pelos pecados dos homens). "Tive de pagar o que não roubei". Esta palavra de Deus nos faz compreender que somos, não só devedores, mas até devedores insolventes, porque o pecador não pode, de modo algum, satisfazer por si mesmo.

 c) como objeto de perdão divino [13] Por isso, devemos recorrer à misericórdia de Deus. Ora, esta se põe em igualdade com Sua justiça, da qual Deus é guarda zelosíssimo. Devemos, portanto, valer-nos da oração, e patrocinar-nos com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem a qual ninguém jamais conseguiu o perdão de seus pecados; dela promana, como de uma fonte, toda a eficiência de qualquer satisfação.
   Na verdade, o preço que Cristo Nosso Senhor pagou na Cruz, e nos comunica pelos sacramentos, quando realmente os recebemos, ou desejamos recebê-los, é tão grande, que nos alcança e nos outorga o objeto desta petição: o perdão de nossos pecados.
   [14] Aqui não pedimos apenas a remissão de pecados leves, muito fáceis de perdoar, nas também dos graves e mortais. Naturalmente, quanto aos pecados graves, a oração não terá este efeito, como já dissemos, se não for acompanhada pela recepção real do Sacramento da Penitência, ou pelo vivo desejo de recebê-lo.

 EXEMPLO
A MULHER DE TÉCUA
   Por causa de uma culpa grave caíra Absalão, filho de Davi, no desagrado do pai, que o condenara a ser exilado para uma terra estranha. Joab, general de Davi, e a quem Absalão era muito querido, aplacou a ira do rei por este modo. Mandou ao rei uma mulher de Técua, para lhe pedir graça a favor de Absalão, e ensinou à mesma as precisas palavras que havia de dizer. Logo que a mulher concluiu, Davi fez-lhe esta pergunta:"Não é verdade que a mão de Joab anda contigo em tudo isto?" Respondeu a mulher: "Teu servo Joab é quem deu esta ordem, e quem pôs todas as palavras na boca da tua serva". E o rei acrescentou logo: "Eis aí eu aplacado te concedo o que pedes". (2 Reis, XIV).
   Ora, quanto mais facilmente não atenderá o Senhor as nossas súplicas, quando oramos não com palavras nossas ou dum servo fiel, mas com as de Seu próprio Filho!

segunda-feira, 14 de março de 2016

A INFALIBILIDADE - CÂNON 212 §§ 1º,2º, 3º. ( VII )

   Nosso Senhor Jesus Cristo fez a Sua Igreja hierárquica, isto é,seus membros não são todos iguais. Há dois grupos distintos: Igreja docente e Igreja discente. Docente: é a parte da Igreja que ensina. Em latim: "docere", quer dizer ensinar. Discente: é a parte da Igreja que é ensinada. Em latim "discere", que quer dizer: receber o ensino, aprender.
   1º - Igreja DOCENTE: A) Tem na frente o Papa. É o chefe supremo. Possui a plenitude dos poderes concedidos por Jesus Cristo à Igreja.
                                            B) Abaixo do Papa e submetidos à jurisdição dele, estão os Bispos, gozando como ele da plenitude do sacerdócio, mas com poderes de ensino e governo limitados na respectivas dioceses.
   No último degrau da hierarquia, temos os padres, cujo poder de ensinar não lhes pertence por direito, mas em virtude da delegação do bispo.

   2º - Igreja DISCENTE: São os fiéis. Não têm autoridade eclesiástica. São instruídos, governados e santificados por seus pastores. Têm na Igreja direito aos bens espirituais: recepção dos sacramentos e audição da Palavra divina. Ainda com relação aos fiéis, diz o Código de Direito Canônico: cânon 211 - "Todos os fiéis têm o dever e o direito de trabalhar para que a mensagem divina da Salvação chegue cada vez mais a todos os homens de todos os tempos e do mundo inteiro". E o cânon 212 diz: § 1º -"Os fiéis, conscientes da sua responsabilidade, têm obrigação de prestar obediência cristã àquilo que os sagrados Pastores, como representantes de Cristo, declaram na sua qualidade de mestres da fé, ou estabelecem como governantes da Igreja".
   Explicação deste parágrafo: Ser consciente da própria responsabilidade significa que não se deve obedecer simplesmente porque está mandado, mas porque o mandado é legítimo, e que se deve obedecer com iniciativas, quando o mandamento deixe margem para elas. É preciso ter espírito de colaboração. Contudo, juridicamente não se pode exigir outra obediência que a determinada pela justiça legal.
   Cânon 212, § 2º "Os fiéis têm a faculdade de expor aos Pastores da Igreja as suas necessidades, sobretudo espirituais e os seus anseios".
   Explicação deste parágrafo: Trata-se do direito de petição, individual e coletiva. A petição pode fazer-se por via oral ou escrita. Este direito exige ser ouvido, mas não traz consigo a obrigação de outorgar o pedido, a não ser que o pedido constitua um verdadeiro direito. Exemplo: O Padre José Maria Scrivá (hoje canonizado), se esforçando por obedecer a Santa Sé, começou a celebrar a "Missa Nova". Seus padres e fiéis perceberam a angústia de seu diretor ao deixar de celebrar a Missa de São Pio V, ou seja, a Santa Missa de Sempre, e passar a celebrar a Missa Nova, então expuseram a Santa Sé os seus anseios. Não sei dizer como o fizeram, se diretamente, por escrito ou oralmente, mas afinal isto não importa, nem vem ao caso. O fato é que o Papa permitiu que o Padre José Maria Scrivá, continuasse a celebrar a Missa de Sempre. Só celebrou duas vezes a Missa Nova. A razão de sua angústia facilmente se advinha. Nem precisaria ser santo, basta ser verdadeiro devoto da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, para se sentir angustiado ao ter que celebrar uma missa que agrada aos Protestantes.
   Cânon 212 § 3º: "Os fiéis, segundo a ciência, a competência e a proeminência de que desfrutam têm o direito e mesmo, por vezes, o dever de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de a exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas."
   Explicação deste parágrafo: Este parágrafo reconhece o direito que os fiéis têm à liberdade de expressão e de opinião pública dentro da Igreja. A ciência, a perícia e o prestígio são requisitos do reto exercício do direito ou para que o dever - moral - tenha maior ou menor força: o fundamento, porém, não são os requisitos, mas a condição de fiel. Quando se trata de dogmas da Santa Igreja (= integridade da fé e dos costumes, em que a Igreja é infalível) é claro que não existe o direito a livre opinião à liberdade de expressão. Fora destes casos, existe o direito e até o dever de manifestar à hierarquia da Igreja sua opinião, mas  é sempre necessário fazê-lo com todo repeito e reverência devidos às autoridades hierárquicas da Santa Igreja. E também só se pode expor sua opinião quando há real utilidade comum para as almas. É interessante notarmos que o fiel, dentro das condições acima expostas, tem o direito e às vezes, o dever de manifestar não só às autoridades da Igreja, sua opinião, mas também de expô-la aos restantes fiéis, isto é, o fiel tem o direito e às vezes, até o dever não só de manifestar sua opinião privadamente mas até mesmo publicamente, ou seja, ele pode, e às vezes, deve falar também para os demais fiéis.

domingo, 13 de março de 2016

A INTRANSIGÊNCIA DA VERDADE

Extraído da "CARTA PASTORAL SOBRE PROBLEMAS DO APOSTOLADO MODERNO", escrita por D. Antônio de Castro Mayer em 06 / 01 / 1953.

  -  Afirmação errônea dos modernistas: Cumpre empregar a maior energia para reduzir os que se manifestam intransigentes na defesa da doutrina católica. Não há erro mais pernicioso do que a intransigência da verdade.

   * Afirmação certa: A intransigência é para a virtude o que o instinto de conservação é para a vida. Uma virtude sem intransigência, ou que odeia a intransigência, não existe ou só conserva a exterioridade. Uma fé sem intransigência, ou já morreu, ou só vive na parte externa, pois perdeu o espírito. Sendo a fé o fundamento da vida sobrenatural, a tolerância em matéria de fé é o ponto de partida para todos os males, especialmente para as heresias. 


Explanação

   São Pio X apontava como uma das características dos modernistas uma tolerância extrema para com os inimigos da Igreja, e uma intolerância acerba contra os que defendiam energicamente a ortodoxia. Há, de fato, nesta atitude uma incoerência flagrante, pois os que fazem praça de tolerar todas as opiniões deveriam tolerar os que sustentam os direitos da intransigência. Aliás, esta contradição é comum a todos os heresiarcas. As várias seitas se unem com grande cordialidade, fechando os olhos aos seus pontos divergentes, sempre que se trate de impugnar a intransigência da Igreja em matéria de Fé. Temos nessa atitude um critério para estimar a importância singular que tem para a vida da Igreja a intolerância em questões doutrinais. 

   É evidente que os excessos da intransigência, por isso mesmo que excessos, devem ser reprimidos, pois todo excesso é um mal. Cumpre, porém, não esquecer as sábias normas ditadas pela Santa Sé, no pontificado de São Pio X, em relação ao modo por que se há de corrigir uma ou outra demasia de valorosos polemistas católicos, empenhados no combate ao erro. Escrevendo ao Emmo. Cardeal Ferrari, Arcebispo de Milão, a respeito do jornal "La Riscossa" que se alarmava com a infiltração modernista naquela Arquidiocese o Emmo. Cardeal de Lai, Secretário da Sagrada Congregação Consistorial dizia: "Todos estes fatos explicam que certos bons católicos sintam temor com relação à sua querida Diocese, e levantem a voz para conclamar às armas. Talvez se excedam na maneira. Mas, em plena batalha, quem com direito, poderia fazer uma grave censura aos defensores, se não medem com precisão matemática seus golpes? Era a resposta que dava também S. Jerônimo aos que lhe repreendiam o ardor, muitas vezes impetuoso e áspero, contra os hereges e os descrentes de seu tempo. A propósito, direi outro tanto, também eu, a Vossa Eminência, com relação ao ataque da "Riscossa". Que haja males por aí [em Milão] depois dos fatos referidos, ninguém poderá negá-lo. Não é, portanto, e não pode ser chamado inteiramente injusto o fato de alguns terem levantado sua voz. Foram além das medidas? Então convém lamentar, mas não é absolutamente mau que, clamando o alarme, tenham exagerado um pouco o perigo. É sempre preferível exceder-se um pouco no advertir contra o mal, do que calar-se e deixá-lo crescer" (Disquisitio, p. 156/7, apud "Pensée Catholique", nº 23, p. 84) E: "Em fim de contas, no seio de uma tão grande licença da imprensa má, entre os perigos que cercam a Igreja de tantos lados, não parece de bom aviso ligar excessivamente as mãos aos defensores, nem combatê-los e desencorajá-los por qualquer pequeno descuido" (idem, ibidem).

   E o próprio Santo Papa, escrevendo em 12 de agosto de 1909 a Mons. Mistrangelo, Arcebispo de Florença, sobre uma modificação ordenada na redação do jornal "L'Unitá Cattolica", declarou: "Tudo está bem quando se trata de respeitar as pessoas, mas eu não quereria que por amor da paz, se chegasse a compromissos, e que para evitar aborrecimentos se faltasse ainda que pouco à verdadeira missão da "Unitá Cattolica", que é velar pelos princípios e ser a sentinela avançada que dá alarme, ainda que fosse à maneira do ganso do capitólio, e que desperta os adormecidos. Neste caso, a "Unitá" não teria mais razão de existir" (Disquisitio, p. 107, apud "Pensée Catholique", nº 23, p. 84). 


Nota: 1-  Onde D. Antônio diz "Bem-aventurado Pio X", pus "São Pio X". Quando escreveu a Carta Pastoral sobre Problemas do Apostolado Moderno, Pio X ainda não tinha sido canonizado. 

          2-  Só os modernistas não veem crise hoje na Igreja. Um verdadeiro católico, e que, portanto, ame de fato a Sagrada Tradição, sofre em ver a Santa Madre Igreja como Jesus na sua Paixão, ou seja, entregue, nas mãos dos inimigos. O Católico, em tamanha crise, não pode permanecer indiferente e ficar escrevendo de maneira bem "light", como se a Igreja estivesse bem como nunca. Temos que dar testemunho de Nosso Senhor Jesus Cristo!

            3- Felicito todos os blogs e sites católicos que defendem a Tradição. Mas não esqueçamos que, antes de tudo, devemos orar e fazer penitência. 
    

sábado, 12 de março de 2016

A CRÍTICA POSITIVA

   Na audiência pública de 12 de setembro de 1973 dizia o então Santo Padre, o Papa Paulo VI (hoje beato): "Há duas espécies de críticas: denominamos positiva a primeira, a que é formada por aqueles críticos que se orientam para a verdade e, no que se refere à Igreja, para a introspecção de sua verdadeira natureza... Trata-se de uma crítica que não esconde nada, mas que nos torna tanto mais apaixonados pela Igreja de Cristo quanto mais ela nos revela os defeitos, as incoerências, as quedas, os sofrimentos e as necessidades do seu vulto humano. Todos nós, que nos consideramos fiéis, filhos e membros solidários da Igreja, gostaríamos de pertencer aos críticos desta espécie... Por si, a contestação deveria tender a corrigir defeitos que merecem repreensão e, por isso, a promover uma conversão, uma reforma. De nossa parte, não queremos exorcizar a contestação positiva". 

   Santo Tomás de Aquino, comentando o episódio em que São Paulo resistiu a São Pedro, primeiro Papa, repreendendo-o publicamente, assim escreve: "Havendo perigo próximo para a fé, os prelados devem ser arguidos até mesmo publicamente, pelos súditos. Assim, São Paulo, que era súdito de São Pedro, arguiu-o publicamente, em razão e um perigo iminente de escândalo em matéria de Fé. E, como diz a glosa de Santo Agostinho, o próprio São Pedro deu o exemplo aos que governam, a fim de que estes, afastando-se alguma vez do bom caminho, não recusassem com indigna uma correção ainda mesmo de seus súditos" 

   "A repreensão foi justa e útil, e o seu motivo não foi leve: tratava-se de um perigo para a preservação da verdade evangélica. O modo como se deu a repreensão foi conveniente, pois foi público e manifesto. Por isso, São Paulo escreve: 'Falei a Cefas (isto é, a Pedro) diante de todos', pois a simulação praticada por São Pedro acarretava perigo para todos"

   "Aos prelados foi dado o exemplo de humildade, para que não recusem a aceitar repreensões da parte de seus súditos e inferiores; e aos súditos foi dado exemplo de zelo e liberdade para que não receiem corrigir seus prelados, sobretudo quando o crime for público e redundar em perigo para muitos" (Suma Theol. II-II, 33, 4,2 e ad Gal. 2, 11-14, lect. III). 

   Caríssimos, sobre este fato, é mister observar o seguinte: Não se trata de algo meramente disciplinar (a circuncisão, que, em si mesma é algo indiferente) passou-se a ser algo que atingia a Fé porque Nosso Senhor Jesus havia dado a São Pedro e aos demais Apóstolos, o poder de ligar e desligar. E tinha havido o Primeiro Concílio da Igreja, o de Jerusalém, e ali, iluminados pelo Espírito Santo, decidiram que a circuncisão não seria mais obrigatória. Ora, a dissimulação de Pedro dava a entender que o que tinha sido determinado no Concílio de Jerusalém não tinha valor, ou seja que  a circuncisão era obrigatória, quando, de fato, quem quisesse fazer, tudo bem, era livre (como fez o próprio São Paulo com relação a Timóteo). Uma coisa em si mesma indiferente, pode ser feita ou não sem que haja pecado, a não ser se for preceituada sob pena de pecado. O Concílio de Jerusalém ab-rogou o preceito, e a dissimulação de Pedro, dava a entender que o preceito ainda estava em vigor.  

terça-feira, 8 de março de 2016

SALMO 118 - Elogios da Lei de Deus

"EU SOU O SENHOR, TEU DEUS"
Bem-aventurados os que se conservam sem mácula no caminho, os que andam na lei do Senhor.
Bem-aventurados os que estudam os seus mandamentos, os que de todo o coração o buscam.
Porque os que praticam a iniquidade não andam nos seus caminhos.
Tu promulgaste os teus mandamentos, para que fossem guardados à risca.
Oxalá se firmem os meu passos no cumprimento das tuas leis justas.
Eu não serei confundido, tendo os olhos fixos em todos os teus mandamentos.
Louvar-te-ei com retidão de coração, porque aprendi os juízos da tua justiça.
Guardarei os teus justos decretos; não me desampares jamais.
Como corrigirá o jovem seu proceder? Guardando as tuas palavras.
Te todo meu coração te busquei; não me deixes transviar dos teus mandamentos.
Escondi no meu coração as tuas palavras; para não pecar contra ti. 
Bendito és, Senhor; ensina-me as tuas justas leis.
Com os meus lábios pronunciei todos os preceitos da tua boca.
Deleitei-me no caminho das tuas ordens, tanto como em todas as riquezas.
Nos teus mandamentos me exercitarei, e considerarei os teus caminhos.
Nas tuas ordens meditarei; não me esquecerei das tuas palavras.
Concede esta graça ao teu servo, dá-me vida, e eu guardarei as tuas palavras.
Tira o véu dos meus olhos, e considerarei as maravilhas da tua lei.
Eu sou peregrino na terra; não me ocultes os teus mandamentos.
Minha alma desejou ansiosa em todo tempo as tuas justas leis.
Ameaçaste os soberbos; malditos os que se afastam dos teus mandamentos.
Livra-me do opróbrio e do desprezo porque busquei cuidadoso os teus mandamentos.
Até os príncipes se sentaram e falavam contra mim, o teu servo todavia meditava nas tuas determinações.
Porque teus decretos são assunto da minha meditação, e as tuas justas leis são os meus conselheiros.
Minha alma prostrou-se por terra; dá-me a vida, segundo a tua palavra.
Eu te expus os meus caminhos, e tu me atendeste; ensina-me os teus preceitos.
Instrui-me no caminho das tuas ordens; e meditarei nas tuas maravilhas.
Minha alma adormeceu de tédio; fortifica-me com as tuas palavras.
Afasta de mim o caminho enganoso, e concede-me a graça da tua lei.
Escolhi o caminho da verdade; não me esqueci dos teus juízos.
Senhor, aderi aos teus testemunhos; não me queiras confundir.
Corri pelo caminho dos teus mandamentos, quando dilataste o meu coração.
Impõe-me por lei, Senhor, o caminho dos teus mandamentos, e buscá-lo-ei sempre.
Dá-me inteligência e estudarei a tua lei, e a guardarei de todo o meu coração.
Guia-me pela senda dos teus mandamentos, porque essa mesma desejei.
Inclina o meu coração para os teus preceitos, e não para a avareza.
Desvia os meus olhos, para que não vejam a vaidade; faze que eu viva seguindo o teu caminho.
Faze que o teu servo se firme em tua palavra, mediante o teu temor.
Afasta de mim o opróbrio, que receio, porque os teus juízos são suaves.
Vê como eu suspirei pelos teus mandamentos, faze que viva segundo a tua justiça.
Venha sobre mim a tua misericórdia, Senhor, e a tua salvação, segundo a tua palavra.
E poderei responder aos me insultam, que pus a minha esperança nas tuas palavras.
E não tires jamais da minha boca a palavra da verdade, porque confiei muito nas tuas promessas.
Guardarei sempre tua lei, constantemente até o fim.
Caminharei por uma senda larga, porque busquei os teus mandamentos.
Falarei dos teus preceitos diante dos reis, e não me envergonharei.
Meditarei nos teus mandamentos, que eu amo.
Levantarei as minhas mãos para os teus mandamentos, que eu amo, e exercitar-me-ei nas tuas ordens.
Lembra-te da promessa que fizeste ao teu servo, com a qual me deste esperança. 
Isto me consolou no meu abatimento, porque a tua palavra me deu vida.
Os soberbos me insultam em extremo, mas eu não me afastei da tua lei.
Lembrei-me, Senhor, dos juízos que exerceste em todos os séculos, e consolei-me.
Desfaleci, vendo os pecadores que abandonavam a tua lei. 
As tuas leis justas eram dignas de ser cantadas por mim, no lugar da minha peregrinação.
Lembrei-me do teu nome, Senhor, durante a noite, e guardei a tua lei.
Isto me aconteceu, porque busquei cuidadoso os teus preceitos.
Eu disse: Senhor, a minha porção é guardar a tua lei.
Supliquei o teu favor de todo o meu coração; compadece-te de mim, segundo a tua palavra.
Considerei os meus caminhos, e voltei os meus passos para os teus preceitos.
Estou resolvido, sem que nada me possa perturbar, a guardar os teus mandamentos.
Os laços dos pecadores me cingiram por todas as partes, mas eu não me esqueci da tua lei.
À meia noite levantava-me para te louvar por teus justos decretos.
Associo-me a todos os que te temem e guardam os teus mandamentos.
A terra está cheia, Senhor, da tua misericórdia; ensina-me os teus preceitos.
Senhor, bondoso foste para com o teu servo, segundo a tua palavra.
Ensina-me a bondade, a doutrina e a ciência, porque dei credito aos teus mandamentos.
Antes de ser humilhado, pequei, mas agora obedeço à tua palavra.
Tu és bom, e, por tua bondade, ensina-me as tuas justíssimas prescrições.
A iniquidade dos soberbos multiplicou-se contra mim, mas eu de todo o meu coração guardarei os teus mandamentos.
O coração deles coalhou-se como leite, porém eu deleitei-me na tua lei.
Para mim foi bom que passei pela dor, para eu aprender os teus preceitos.
Para mim vale mais a lei que saiu da tua boca, do que milhões de ouro e de prata.
Tuas mãos fizeram-me e formaram-me; dá-me inteligência, e eu aprenderei os teus mandamentos.
Os que te temem verão com alegria, porque pus toda a minha esperança nas tuas palavras.
Conheci, Senhor, que os teus juízos são de equidade, e merecidamente me humilhaste.
Venha tua misericórdia consolar-me, segundo a promessa ao teu servo.
Venham a mim as tuas misericórdias, e viverei, porque a tua lei é a minha meditação.
Sejam confundidos os soberbos, pois injustamente maquinaram males contra mim; eu porém me excitarei nos teus mandamentos.
Voltem para mim os que te temem, e os que conhecem teus testemunhos.
Seja imaculado o meu coração na prática dos teus mandamentos, para que eu não seja confundido.
A minha alma desfaleceu à espera da tua salvação; em tua promessa espero.
Os meus olhos cansaram-se de tanto esperar a tua promessa, dizendo: Quando me consolarás?
Porque eu tornei-me como um odre exposto à fumaça, mas não olvidei os teus justos preceitos.
Quantos são os dias de teu servo? Quando farás justiça aos que me perseguem?
Contaram-me ímpios coisas frívolas, mas quão diferente é tudo isso da tua lei!
Todos os teus mandamentos são verdade; injustamente me têm perseguido, socorre-me.
Por pouco não deram comigo em terra, eu porém não abandonei os teus mandamentos.
Concedei-me a vida segundo a tua misericórdia, e eu guardarei os mandamentos saídos da tua boca.

Esta é só a metade: continua no próximo post.

Salmo 118 - (continuação)

Para sempre, Senhor, permanece no céu a tua palavra.
A tua verdade transmite-se de geração em geração; tu fundaste a terra, e ela permanece.
Por tua ordem continuam a subsistir, pois todas as coisas te servem.
Se a tua lei não tivesse sido a minha meditação, então decerto eu teria perecido na minha angústia.
Nunca olvidarei os teus preceitos, porque neles me deste a vida.
Eu sou teu, salva-me, porque busquei ansioso os teus preceitos.
Os pecadores esperaram-me para me perder; eu porém estive atento aos teus ensinamentos.
Vi o fim de tudo o que é perfeito, somente a tua lei não tem limites.
Quanto eu amo a tua lei, Senhor! Ela é minha meditação todo o dia.
Tornaste-me mais prudente do que os meus inimigos com os teus mandamentos, porque tenho-os perpetuamente diante dos meus olhos.
Compreendi mais que todos os meus mestres, porque os teus mandamentos são a minha meditação.
Entendi mais do que os anciãos, porque busquei os teus preceitos.
Retirei os meus pés de todo o mau caminho, para guardar as tuas palavras.
Não me desviei dos teus juízos, porque tu me prescreveste uma lei.
Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! São-no mais que o mel à minha boca.
Com os teus mandamentos aprendi, por isso odeio todo o caminho da iniquidade.
Lâmpada para os meus passos é a tua palavra, e luz para os meus caminhos.
Jurei e determinei guardar os teus justíssimos decretos.
Tenho sido humilhado, Senhor, de todos os modos; faze-me viver segundo a tua palavra.
Aceita, Senhor, a homenagem de meus lábios e ensina-me os teus juízos.
Minha alma está sempre nas minhas mãos porém não olvido a tua lei.
Os pecadores armaram-me laços; não me afastei, porém, dos teus mandamentos.
Minha herança perpétua são os teus mandamentos, porque são a alegria do meu coração.
Inclinei o meu coração a praticar sempre as tuas leis, por causa da recompensa.
Aborreci os iníquos, e amei a tua lei.
Tu és o meu defensor e meu amparo, e pus toda a minha esperança na tua palavra.
Retirai-vos de mim, malignos, e estudarei os mandamentos do meu Deus.
Ampara-me (Senhor) segundo a tua promessa, e viverei, e não permitas que eu seja confundido no que espero.
Ajuda-me, e serei salvo, e meditarei sempre nas tuas leis.
Desprezaste todos os que se desviam dos teus preceitos, porque é injusto o seu pensamento.
Reputei como prevaricadores todos os pecadores da terra, por isso amei os teus testemunhos.
Traspassa com o teu temor as minhas carnes, porque temi os teus juízos.
Pratiquei a retidão e a justiça; não me entregues aos que me caluniam.
Ampara o teu servo para o bem; não me caluniam os soberbos.
Os meus olhos desfaleceram à espera da tua salvação e das promessas da tua justiça.
Trata o teu servo segundo a tua misericórdia, e ensina-me os teus justos decretos.
Sou teu servo; dá-me inteligência, para que eu conheça os preceitos.
É tempo de esforçar-se para o Senhor; violaram a tua lei.
Por isso amei os teus mandamentos, mais do que o ouro e o topázio.
Por isso enveredei pela senda de todos os teus mandamentos, e odiei todo o caminho mau.
Os teus testemunhos são admiráveis, por isso os investigou a minha alma.
A explicação de tuas palavras alumia e dá inteligência aos pequeninos.
Abri a minha boca e respirei, porque desejava os teus preceitos.
Olha para mim, e compadece-te de mim, segundo é justo com os que amam o teu nome.
Encaminha os meus passos segundo a tua palavra, e não me domine iniquidade alguma.
Livra-me das injúrias dos homens, para que guarde os teus preceitos.
Faze que a luz do teu rosto reluza sobre o teu servo, e ensina-me os teus justos decretos.
Rios de lágrimas derramaram os meus olhos, por não terem guardado a tua lei. 
Tu és justo, Senhor, e o teu juízo é reto.
Mandaste estreitamente a observância dos teus preceitos, como a tua suma verdade.
O meu zelo fez-me definhar; porque os meus inimigos se esqueceram das tuas palavras.
A tua palavra é chama ardente, e o teu servo a tem amado.
Eu sou pequeno e desprezível, mas não esqueci os teus justos decretos. 
Tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a mesma verdade.
A tribulação e a angústia surpreenderam-me; os teus mandamentos são a minha meditação. 
Os teus preceitos são cheios duma eterna equidade; dá-me a inteligência deles, e viverei.
Clamei de todo o meu coração, ouve-me, Senhor; buscarei os teus justos preceitos.
Clamei a ti, salva-me, para que guarde teus mandamentos.
Eu me antecipei à aurora e clamei, porque esperei firmemente nas tuas palavras.
Os meus olhos voltaram-se para ti antes da aurora, para meditar as tuas palavras.
Ouve a minha voz segundo a tua misericórdia, Senhor, e dá-me vida segundo o teu juízo.
Os meu perseguidores arrastaram-me para o crime e desviaram-me da tua lei.
Perto estás de mim, Senhor, e todos os teus caminhos são verdade.
Acerca dos teus testemunhos, desde o princípio reconheci que tu os estabeleceste para sempre.
Vê o meu abatimento e livra-me, porque não transcurei tua lei.
Julga a minha causa, e liberta-me; dá-me a vida segundo a tua palavra.
A salvação está longe dos pecadores, porque não buscam os teus justos preceitos.
Muitas são, Senhor, as tuas misericórdias; dá-me a vida segundo o teu juízo.
Muitos são os que me perseguem e me atribulam; eu porém não me desviei dos teus mandamentos.
Vi os prevaricadores e consumia-me, porque não guardaram tuas palavras.
Vê, Senhor, quanto tenho amado os teus mandamentos, dá-me a vida pela tua misericórdia.
O princípio das tuas palavras é a verdade; todos os juízos da tua justiça são eternos.
Os príncipes me perseguiram sem causa, porém o meu coração temeu as tuas palavras.
Eu alegro-me nas tuas promessas, como quem encontra muitos despojos.
Odiei e detestei a iniquidade; mas amei a tua lei.
Sete vezes ao dia te dirigi louvores pelos juízos da tua justiça.
Gozam muita paz os que amam a tua lei, e não há para eles nenhuma ocasião de queda. 
Eu esperava a tua salvação, ó Senhor, e amei os teus mandamentos.
Minha alma guardou os teus preceitos, e ardentemente os amou.
Guardei os teus mandamentos e os teus preceitos, porque todos os meus caminhos estão presentes aos teus olhos.
Chegue, Senhor, a minha súplica à tua presença; dá-me a inteligência segundo a tua palavra.
Chegue a ti a minha súplica; livra-me segundo a tua palavra.
Os meus lábios romperão num hino, quando me ensinares os teus preceitos.
A minha língua anunciará a tua palavra, porque todos os teus mandamentos são equidade.
Estende a tua mão para me salvar, porque escolhi os teus mandamentos.
Desejei, Senhor, a tua salvação, e a tua lei é a minha meditação.
A minha alma viverá e te louvará, e os teus juízos serão o meu apoio.
Andei errante, como a ovelha, que se desgarrou; busca o teu servo, porque me não esqueci dos teus mandamentos.


segunda-feira, 7 de março de 2016

DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA DE DEUS

DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA DE DEUS

"O Senhor é justo e ele ama a justiça" (Salmo X, 8)
"A misericórdia e a verdade (=justiça) se encontraram; a justiça e paz (=misericórdia) se oscularam" (Salmo LXXXIV, 11).
"O Senhor é misericordioso e compassivo" (Salmo CX, 4) e "O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia" (Salmo CII, 8).
"Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça)"  (Salmo XXIV, 10).


Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, 1ª Parte, q. XXI fala sobre a Justiça e a Misericórdia de Deus em quatro artigos e prova:  1º   Que em Deus há justiça; 2º - Que a sua justiça pode se chamar verdade; 3º - Que em Deus há misericórdia; 4º - Que em todas as obras de Deus há justiça e misericórdia.

Resumirei num só artigo estas teses que o Doutor Angélico prova respectivamente com os textos das Sagradas Escrituras acima enunciados.

!º - DEUS É JUSTO: "O Senhor é justo e Ele ama a justiça". Há dupla espécie de justiça. Uma que consiste no mútuo dar e receber; p. ex. a que existe na compra e venda e em tratos e trocas semelhantes. É a justiça chamada comutativa. Esta não existe em Deus segundo aquilo que diz São Paulo: "Quem lhe deu alguma coisa primeiro, para que tenha de receber em troca" (Romanos XI, 35). A outra justiça é chamada distributiva. É aquela pela qual um governante ou administrador dá segundo à dignidade de cada um. Ora, assim como a ordem devida, na família ou em qualquer multidão governada, demonstra a justiça do governador, assim também a ordem do universo manifesta, tanto nos seres naturais, como nos dotados de vontade, a justiça de Deus. Assim diz São Dionísio: "Devemos ver a verdadeira justiça de Deus no distribuir ele a todos os seres segundo o que convém à dignidade da cada um, e no conservar cada natureza na sua ordem própria e virtude". Deus só pode querer aquilo que está na razão da sua sabedoria; e esta é como a lei da justiça, pela qual a sua vontade é reta e justa. Por onde, o que faz por sua vontade, justamente o faz; assim como nós fazemos justamente o que fazemos de acordo com a lei; nós, porém, pela lei de um superior, ao passo que Deus, pela sua própria lei. Diz Santo Anselmo: "Deus é justo punindo os maus, por isso lhes convir ao que eles merecem; mas também Deus é justo perdoando-lhes, por convir isso a sua bondade.  A justiça é da essência de Deus. E o que é da essência de Deus também pode ser princípio de ação.

2º - A JUSTIÇA DE DEUS É VERDADE: "A misericórdia e a verdade se encontraram". Explica Santo Tomás que aqui VERDADE é tomada na acepção de JUSTIÇA. Verdade é a adequação da inteligência com o objeto. Ora, o intelecto que é causa do objeto é dele a regra e a medida; dá-se, porém, o inverso com o intelecto, que tira das coisas a sua ciência. Portanto quando as coisas são a medida e a regra do intelecto, a verdade consiste na adequação deste com aquelas, e tal é o nosso caso. Assim, a nossa opinião e o nosso conhecimento são verdadeiros ou falsos conforme exprimem o que a coisa é ou que não é. Mas, quando o intelecto é a regra ou a medida das coisas(como em Deus), a verdade consiste na adequação delas com o intelecto. Deus é a própria verdade; daí dá a cada um o que realmente lhe é adequado, isto é, o que corresponde à verdade.  Por onde a justiça de Deus, que constitui a ordem das coisas, conforme à ideia da sua sabedoria, que lhes serve de lei, chama-se convenientemente VERDADE. Resumo ainda mais com uma palavra da Bíblia: "Todas as obras de Deus são perfeitas e cheios de equidade os seus caminhos. Deus é fiel, e sem nenhuma iniquidade; Ele é justo e reto" (Deut. XXXII, 4). Deus é a própria Bondade e, por outro lado, é onisciente, perscruta os corações e os rins: donde premia ou castiga segundo a verdade, a equidade. Em Deus, pois, justiça é verdade. Nos homens, nem sempre e muitas das vezes a justiça humana é injusta (se assim me permitam a contradição nos termos). É como teia de aranha: pega os pequenos insetos e deixa passar os besouros. (Vê-se com facilidade que estas últimas palavras são minhas e não do Doutor Angélico).

3º - EM DEUS HÁ MISERICÓRDIA: "O Senhor é misericordioso e compassivo". A misericórdia máxima devemos atribuí-la a Deus; mas, quanto ao efeito e não, quanto ao afeto da paixão, porque em Deus não há paixão. Para entender isso melhor é mister considerar que misericordioso é quem possui coração cheio de comiseração, por assim  dizer, por contristar-se com a miséria de outrem, como se fora própria e esforçar-se por afastá-la como se esforçaria por afastar a sua própria. Tal é o efeito da misericórdia. Ora, Deus não pode ficar triste. Mas, sendo a própria bondade e onipotente, pode afastar a miséria, entendendo por miséria qualquer defeito. Pois, defeitos não se eliminam senão pela perfeição de alguma bondade. Ora, Deus é a origem primeira da bondade. Devemos porém ponderar que comunicar perfeições à coisas pertence tanto à bondade divina, como à justiça, à liberalidade e à misericórdia, mas segundo razões diversas. Assim, a comunicação das perfeições, considerada absolutamente, pertence à bondade, Pela justiça, Deus comunica perfeições proporcionadas à coisas. Pela liberalidade Deus dá perfeições, não visando a sua utilidade, mas só por mera bondade. Finalmente, pela misericórdia, as perfeições dadas à coisas por Deus eliminam-lhes todos os defeitos.

Deus age misericordiosamente, quando faz alguma coisa, não em contradição com a justiça, mas, além dela. Assim quem desse duzentos reais ao credor, ao qual só deve cem, não pecaria contra a justiça, mas agiria misericordiosamente. O mesmo se daria com quem perdoasse a injúria, que lhe foi feita. Devemos concluir que, longe de suprimir a justiça, a misericórdia é a plenitude dela. Donde dizer a Sagrada Escritura: "A misericórdia triunfa sobre o juízo" (S Tiago II, 13).

4º - HÁ JUSTIÇA E MISERICÓRDIA EM TODAS AS OBRAS DE DEUS:  "Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça). Necessariamente descobrimos, em qualquer obra de Deus, a misericórdia e a verdade(=justiça); se tomarmos misericórdia no sentido de remoção de qualquer defeito. embora nem todo defeito possa chamar-se miséria, propriamente dita, mas somente o defeito da natureza racional, que é capaz de felicidade; pois a esta se opõe a miséria.

E a razão dessa necessidade é a seguinte. Sendo o débito pago pela divina justiça um débito para com Deus ou para com alguma criatura, nem um nem outro podem faltar em qualquer obra divina. Pois, Deus nada pode fazer que não convenha à sua Sabedoria e à sua Bondade; e, nesse sentido, dizemos que algo lhe é devido. Semelhantemente, tudo quanto faz nas criaturas, o faz em ordem e proporção convenientes, e nisso consiste a essência da justiça. E, portanto, é necessário haja justiça em todas as obras divinas.


Mas a obra da divina justiça sempre pressupõe a da misericórdia e nesta se funda. Pois, nada é devido a uma criatura, senão em virtude dum fundamento preexistente ou previsto; o que, por sua vez pressupõe um fundamento anterior. Ora, não sendo possível ir até o infinito, é necessário chegar a algum que só dependa da bondade da divina vontade, que é o fim último. Assim, se dissermos, que ter mãos é devido ao homem, em virtude da alma racional, por seu lado, ter alma racional, é necessário para que exista o homem e este existe pela bondade divina. E assim a misericórdia se manifesta radicalmente em todas as obras de Deus. E a sua virtude se conserva em tudo o que lhe é posterior, e mesmo aí obra mais veementemente, pois a causa primária mais veementemente influi, que a segunda. Por isso, Deus, pela abundância da sua bondade, dispensa o devido a uma criatura mais largamente do que o exigiriam as proporções dela. Porque, para conservar a ordem da justiça, bastaria menos do que o conferido pela divina bondade, excedente a toda a proporção da criatura. 

domingo, 6 de março de 2016

O ESPÍRITO DO MUNDO

 
   A razão humana e o bem-estar material são os dois ídolos na nossa época. Se não cuidarmos de fugir a cada instante das máximas do mundo para as de Jesus Cristo, adotaremos os pensamentos, até a linguagem do mundo. No mínimo, nossas palavras misturar-se-ão em dois contextos - um cristão e outro mundano; causando assim escândalo para os fracos e ensejo de os ímpios tirarem suas conclusões contrárias aos mandamentos de Deus. Devemos ter todo cuidado para que as nossas palavras e ações só possam ser interpretadas segundo os ensinamentos do Divino Mestre. 

   Devia, diz o Padre Judde, comover-nos mais, esta palavra, "disse-o Jesus Cristo, fê-lo Jesus Cristo", do que quaisquer outras razões, todas de ponderação. Nem se pré-desculpando, devemos empregar palavras de sabor mundano. A palavra dos Pitagóricos, disse-o o mestre, não era entre eles senão a expressão de uma idolatria insensata, pois não há homem que não se engane; mas aplicada a Jesus Cristo, deve ser um primeiro princípio, um axioma sagrado para todo cristão. Pois, passará o céu e a terra, mas a verdade do Senhor permanecerá eternamente. 

 Ele o disse: O que é grande, honesto diante dos homens, é muitas vezes pequeno, abominável diante de Deus. Ele o disse: Ai de vós, os que tendes todas as comodidades da vida presente! bem-aventurados os que choram! Ele o disse: Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça; o resto vos será dado por acréscimo; o que não nega a si mesmo, não pode ser meu discípulo; quem perder a sua vida neste mundo, vai ganhar a vida eterna no outro, etc.


 Caríssimos, estejamos portanto atentos à palavra do Mestre, e regulemo-nos pelas suas lições.

   Assim, o verdadeiro discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo fecha os olhos para as máximas do mundo e renuncia à prudência da carne para seguir a do espírito; torna-se insensato para ser sábio, porque a sabedoria deste mundo, é loucura diante de Deus. 

   Caríssimos, vigiemos porque a tentação de buscar uma concordância entre a doutrina da salvação e o espírito do mundo é aliciante. Para ela nos impele, além do pendor próprio de nossa natureza pecadora, uma falsa caridade, fruto de uma consideração naturalista da existência. Por isso mesmo o Divino Mestre não se cansa de alertar seus discípulos contra uma vida segundo os preceitos do mundo. Na grande oração sacerdotal, após a última Ceia, pede Jesus ao Pai Eterno especialmente que preserve os seus do contágio do século: "É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo mas por aqueles que me deste, porque são teus... Dei-lhes a tua palavra, o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Não peço que os tire do mundo, mas que os guarde do mal... Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade" (Jo. 17, 9 e 14, 15 e 17). E a razão deste pedido é porque o mundo está todo ele sob o influxo do maligno: "Sabemos que somos de Deus, e que o mundo está sob o maligno" ( 1 Jo. 5, 19 ), constituído que é de atrativos da sensualidade, da vaidade e do orgulho (1 Jo. 2, 16). Do mesmo modo fala São Paulo: "E não vos conformeis com este século, mas reformai-vos com o renovação do vosso espírito, para que reconheçais qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita" (Rom. 12, 2). 

   Evitemos, pois, caríssimos e amados irmãos, que nossa caridade degenere em apoio ao erro ou ao vício, porque já nem seria caridade. Evitemos, outrossim, que a nossa paciência  jamais seja um incentivo à perseverança no mal. Cuidemos máxime em não permitir que uma falsa obediência venha lançar areia em nossos olhos e assim tentar desculpar o que, na verdade, diante de Deus, é condenável. Façamos uma séria meditação sobre esta advertência do Divino Mestre: "Diante desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, também me envergonharei dele no dia do Juízo". 

sexta-feira, 4 de março de 2016

A RELIGIÃO CATÓLICA: em progresso ou em crise?

   Só porque está mais popular, dizem que a Igreja Católica está em progresso. Na verdade a tendência que atualmente se nota para identificar o Cristianismo com o mundo, com as aspirações materiais e as preocupações ecológicas, (estas últimas legítimas, mas puramente materiais) representa como que uma ablação do espírito que deve animar e constituir a essência íntima da religião de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça..." Tal confusão pode, na verdade, popularizar uma religião a que se dê o nome de Cristianismo, mas que o verdadeiro Cristianismo possa ser popular isso é coisa mais que duvidosa, já que o próprio Divino Mestre disse: "Separei-vos de mundo e por isso o mundo vos odiará". 

   Hoje, parte-se do princípio que a Religião serve para "empurrar para a frente" os movimentos de sabor do mundo ou, ao menos, da alçada do mundo. Ouço, no entanto, o Divino Mestre, exclamar: "Deixem que os mortos enterrem os mortos". Quiçá até os marxistas estão pensando que a Igreja Católica está prestando para alguma coisa! Mas o que é progresso para os inimigos da Igreja, é desabono para a mesma. 

   Nietzsche (1844-1900), filósofo,  por cujo orgulho monstruoso e insensato se colocou conscientemente no lugar de Deus, na sua loucura profética, previu séculos de guerras: "Anuncio o advento duma idade trágica... Temos que nos preparar para uma longa série de ruínas, devastações e revoltas... Haverá guerras como jamais o mundo viu... Não tardará que a Europa fique envolta em trevas, e assistiremos ao alastrar dessa escuridão... Vem aí uma catástrofe em que toda a Terra se contorcerá numa agonia atroz". Tudo indica que foi inspirado por Lúcifer. Ele mesmo disse a causa desta profecia: esta carnificina, cujo nome ele não quis dar, seria, segundo ele, o resultado do ateísmo que ele mesmo pregava. Um ateísmo militante, por cuja inspiração satânica, o homem quer a morte de Deus: "Devemos, disse este monstro, fazer da morte de Deus a vontade esplêndida e suprema". Nietzsche antevê que "a morte de Deus terá necessariamente repercussões terríveis, pois que a humanidade anti-Deus caminharia apressadamente para a sua própria destruição. Na verdade, a explicação católica é a seguinte: se o homem não for a imagem e semelhança de Deus, se for apenas o pseudo-deus, estará implicitamente desinteressado no seu íntimo, exatamente como se a sua alma tivesse sofrido uma desintegração atômica de ordem psíquica. O homem assim encontrar-se-á preparado para destruir o mundo; ou melhor, terá deixado de ser homem, porque nada lhe restará do que constitui a dignidade humana. Assim, um ateísmo que quer a morte de Deus, necessariamente quer também a morte do homem.  O homem que odeia a Deus, odiar-se-á a si próprio e o seu semelhante. O homem sem Deus quer a aniquilação do mundo. 

   Qual seria o remédio? Pregar ecologia? Também talvez. Mas cabe a Santa Madre Igreja procurar a santidade para que os homens se voltem para a Deus e vivam para Aquele que morreu por nós. 

    Mas hoje muitos se afastam do Catolicismo, não por achá-lo difícil e rígido, mas porque lhes parece demasiado condescendente e fácil; ou, em outras palavras, por vê-lo ecumênico e nada missionário. Conscientemente ou não (em se tratando de cada Padre conciliar em particular, só Deus o sabe) o famigerado "subsistit  in" deu lugar até à Nova Era.  No entanto, não falta quem considere imediatamente como manifestação de hostilidade as justas censuras que corretamente ainda fazem os que permanecem na sã doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Na verdade, os liberais dentro da Igreja só conseguirão fazer os homens do século XXI, pessoas inertes e infelizes. Pois sem Deus não há verdadeira prosperidade e felicidade. Por isso também, a depressão será a doença deste século.  Em geral, o homem de hoje, em lugar de confiar no Sacratíssimo Coração de Jesus e no Imaculado Coração de Maria, prefere enquadrar-se na multidão que adora o ídolo do globalismo, do totalitarismo e do progressismo. Não querem gozar a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Surgem indivíduos que, segundo as palavras de São Paulo, transformam "a glória de Deus incorruptível numa imagem feita à semelhança do homem corruptível"

   Caríssimos, é necessário não esquecermos que no tempo de vida concedido a cada ser humano está implícita a eternidade que o aguarda após a morte. "Que adianta, disse Nosso Senhor Jesus Cristo, ganhar o mundo todo, se se vier a perder a alma". Por isso termino com Santo Agostinho: "Ó Senhor, os nossos corações foram feitos para Vós, e estarão inquietos enquanto não repousarem em Vós" Amém.