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sábado, 1 de outubro de 2016

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( V )

A castidade do sacerdote

   Eu amo as almas puras. A minha Mãe era Imaculada. O meu Pai Nutrício era o justo e casto José, o meu discípulo amado o Apóstolo virgem.
   Assim, no decorrer dos séculos, acho também prazer em me rodear de uma legião de sacerdotes castos. Nada manchado pode abeirar-se do meu altar.
   Oh, como é bela aos meus olhos esta geração de almas puras! São a minha coroa de glória, o ornamento e defesa da minha Igreja, a confusão e o terror dos demônios.
   Eu chamei-te, meu filho, para fazeres parte da minha corte de honra, e no Céu ocuparás um lugar no cortejo do Cordeiro imaculado.
   Oh, como eu te tenho amado!
   A castidade sacerdotal é uma pérola preciosa; mas tu a levas num vaso frágil.
  Deixei-te a natureza humana com as suas tendências para o mal, com as suas paixões e as suas conivências secretas com o pecado. Mas ao mesmo tempo prodigalizei contigo a minha força divina, a graça da tua ordenação e o apoio das minhas inspirações.
   Deixei-te um corpo mortal com as suas fraquezas, as suas inconstâncias e as suas revoltas; mas também te preparei um alimento celestial: o Pão dos anjos, o meu corpo e o meu sangue, para extinguir em ti o fogo do pecado, para reparar as tuas forças e suster a tua coragem.
   Eu permito ao anjo de Satã armar-te ciladas, e lançar contra ti incessantes ataques; mas ao mesmo tempo deixei-te entregue à minha Mãe, que quebrantou a cabeça da serpente. Ela lutará por ti se fores fiel em chamá-la em teu socorro. Com a sua ajuda estás certo do triunfo.
   Mas sabe que é necessário vigiar e orar, até à velhice, até à morte.
   Aceita, corajosamente, a luta. Ninguém é tentado acima das próprias forças. Mas também ninguém será coroado, se não combateu fielmente.
   Meu Padre, sê casto. Tens parte na maternidade da Virgem das virgens. Ela deu-me o ser humano, e tu dás-me o ser sacramental. Oh, como tu, a seu exemplo, deves ser puro e sem mácula!
   Foste separado do resto dos homens para unicamente me pertenceres. Os teus pensamentos, as tuas aspirações, os teus desejos, os teus sentimentos, a tua atividade, tudo é meu!
   Como eu estive e estou, deves tu igualmente estar ao serviço das almas. Deves ser mediador entre Deus e os homens, instruir os fiéis, corrigi-los, confortá-los e perdoar-lhes os seus pecados.
   Sê casto! Sem esta virtude, como ousas tu arrostar os olhares dos homens, sentar-te sem corar no tribunal da Penitência, ouvir sem remorsos as confidências dos pecadores, arrancar-lhes delicadas e dolorosas declarações, inspirar-lhes horror a este cancro espantoso da impureza, se eles vêem o teu próprio coração roído?
   Como te atreves a pregar em público sobre a pureza dos costumes, e exaltar a beleza da inocência, a lançar em rosto os escândalos, se não podes dizer sem temor de seres desmentido: "Quem de vós me acusará de pecado?"
   E que miserável seria o teu coração simulando a virtude, quando a tua consciência é infame!
   Meu sacerdote, pelo teu ministério estás em contato perpétuo com a lama do pecado. O vício impuro fala-te, encara-se contigo, rodeia-te e acotovela-te e por toda a parte te persegue.
   Como evitarás as suas salpicaduras, se não estás sempre vigilante, se não te seguras sem cessar na minha divina mão?
   Tu não te podes contentar com uma semi-pureza. A senda do vício é escorregadia; se nela dás um passo por ligeiras imprudências, poderás deter a marcha sem caíres no abismo?
   Sê humilde e desconfia de ti mesmo. Colunas da minha Igreja tenho visto cair que pareciam tão inabaláveis como Jerônimo no deserto. 
   Não te creias mais virtuoso, nem menos exposto aos perigos, ou menos sensível aos atrativos do mal do que os outros. Se até agora não caíste, sabe que eu mesmo te preservei dos aliciantes do vício por comiseração da tua fraqueza. A tua secreta presunção obrigar-me-ia a retirar-te o meu apoio deixando-te entregue à tua miséria.
   Sê casto nos teus pensamentos, nos teus desejos, na tua imaginação, nos teus olhares, nas tuas palavras, nos teus atos e nos teus passos.
   Sê grave e reservado no teu trato, na conversa e em todo o procedimento.
   Sê acolhedor para todos, mas familiar com ninguém. Prodigaliza o teu tempo, as forças, o talento, mas guarda com zelo a virgindade de teu coração.
   Vela sobre os teus sentidos. Uma só faísca, um olhar imprudente, pode atear o fogo oculto sob a cinza e destruir a virtude mais provada.
   Mortifica a tua carne e reduz o teu corpo à servidão, não seja que, pregando aos outros, tu próprio pereças.
   Foge, como da serpente, da ocasião de pecado. Se para a evitares for preciso sacrificar o teu olho ou a tua mão, não duvides. Sem isto cairás, perecerás.
   Confessa humildemente as tuas faltas. Recorre à tua Mãe, à Virgem toda pura, e, em seguida, retoma a luta com energia e confiança.
   
   

domingo, 5 de junho de 2016

Jesus pregando Retiro para os seus sacerdotes - ( VII )

A solidão do sacerdote

   Meu filho, durante a tua curta existência sobre a terra vive só com Deus. Que nada turbe o trato interior da tua alma comigo.
   Esforça-te por teres só um ideal, uma tendência única. Sê outro Jesus, reveste-te do meu espírito, ama-me e faze-me amar dos outros.
   Evita a disjunção das forças e a multiplicidade dos negócios. Não deixes o teu espírito embaraçar-se com dúvidas, escrúpulos, preocupações sobre o passado, o presente e o futuro, não o escravizes pelo apego desregrado a uma ocupação ou a uma pessoa.
   O espírito foi-te dado para conheceres o teu Deus, para propor à vontade o Bem supremo e fazer-lhe adotar na ação os meios melhores de o atingires. Tudo o que fora dessa ordem dás às criaturas, tira-lo a Deus.
   Guarda a liberdade de teu coração e serás feliz, e encontrar-me-ás no centro da tua alma.
   Modera a multiplicidade dos teus desejos. Acaba com os sonhos de prazer, de bem-estar, de honrarias que te inquietam.
   No dia da tua ordenação escolhes-te-me como a parte da tua herança. Com este fim separei-te do resto das criaturas, par seres unicamente meu.
   Compreendes os meus divinos ciúmes? Aniquilei-me para te vir procurar no teu nada e no teu pecado. Guarda--me pois, íntegro o carinho do teu coração sacerdotal. 
   A caridade, a gratidão, as conveniências sociais, e ainda os deveres do teu ofício põem-te em frequente contato com o mundo.
   Todavia, enquanto tratas com as criaturas, o teu coração deve ficar perto de mim. Não lhe permitas expandir-se livremente e apegar-se a tudo o que fascina. Sem isto levarás uma vida preocupada e um dia cobrirás de vergonha a tua dignidade sacerdotal.
   Não te creias mais forte do que os outros, que se deixaram arrastar pela sedução.
   Evita a ocasião de pecado. Corta corajosamente certas afeições perigosas para a tua virtude ou nocivas à tua reputação.
   Confia teu coração sacerdotal à Virgem das virgens, à Mãe do sacerdote.
   Ela guardar-lhe-á as entradas e as saídas e dar-lhe-á a graça de me poder amar com um amor perfeito. Ela duplicará as suas energias, obrigando-te ao trabalho, à dedicação e ao sacrifício.
   Tu estás neste mundo, mas não és deste mundo.
   Quando os teus deveres de sacerdote estiverem cumpridos, e tiveres satisfeito as conveniências da vida social, recolhe-te comigo ao silêncio e à solidão.
   A mola, perdida a tensão, volta à sua posição natural. A tua posição e o teu lugar de repouso, após as tuas ocupações e enredos de cada dia, sou eu, é o meu divino Coração. Aqui virás repousar e tomar de novo forças.
   Guarda os teus sentidos. Nenhuma necessidade tens de fixar os teus olhares nas vaidades deste mundo. Sem esta preocupação bem depressa serás seu vil escravo.
   Evita com cuidado todas as relações inúteis, todo o comércio epistolar supérfluo, toda a curiosidade com respeito às novidades do mundo.
   Possuís em ti mesmo todo um mundo, o mundo sobrenatural. Acostuma-te a viver comigo, teu Irmão que tanto te ama, com nosso Pai e nossa Mãe do Céu, com os anjos e com os santos.
   Lembra-te constantemente que és sacerdote. O que diz bem nos homens do mundo, não diz bem em ti.
   Só deves entrar em contato com os outros para lhes levares os meus benefícios: para os instruíres, para os alentares, para os consolares e sarares, e, quando andarem extraviados, para os trazeres ao meu redil.
   Não mendigues as consolações dos mortais. És tu quem por mim foi constituído para, da minha parte, lhes levar a felicidade e a paz. Esta felicidade procurá-la-ás em mim, porque eu sou o Deus de toda a consolação: sou teu amigo, teu Irmão, com quem tu participas graça e privilégios.
   Procura frequentemente viver na solidão. Falar-te-ei nela mais intimamente ao coração, mostrando-te as lacunas da tua vida sacerdotal e a maneira de as encheres, e descortinando-te os inefáveis segredos do meu divino Coração.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( X )

A  Paixão

   
Jesus Cristo: Pintura de Giotto na Capela Scrovegni
Pádua  -  ITÁLIA
   Como a mãe conta emocionada a seu filho os sofrimentos que passou para lhe salvar a vida, assim eu, meu filho, quero fazer-te meditar as dores da minha paixão. Não sou eu para ti mais do que uma mãe?
   Todos os dias durante o santo sacrifício convido-te, a ti e a teus fiéis, para virdes junto da minha cruz, e ali recordar-te as angústias que sofreu o meu divino Coração, as espantosas torturas e as humilhações infinitas que aceitei para te livrar da morte eterna e dar-te a vida.
   Oh, como é para mim doloroso ver as minhas igrejas quase desertas, enquanto se desenrolam todos os dias as pungentes cenas da tragédia do Calvário!
   E tu mesmo, meu sacerdote, assistes talvez a elas sem emoção, e fazes as cerimônias com uma precipitação e uma irreverência, que no meu Coração tiveram bem doloroso eco!
   Por ordem de meu divino Pai a angústia, o temor e a tristeza invadiram o meu Coração.
   Oh, como me senti só e estranho sobre a terra, sem amigos verdadeiros, no meio de homens perversos, sensuais e ingratos!
   Como suspirava pelo Céu, pela casa de meu Pai, pela companhia dos anjos, santos e puros, pela união amorosa com o meu divino Pai!
   Mas vi o seu rosto irritado pelos pecados com que me apresentava coberto e fui repelido. Mandou-me de novo à terra e conduziu-me a um medonho deserto, sem caminhos e sem água, e ali deu-me ordens de estar, na cruz, humilhado e desprezado.
   O terror apoderou-se do meu Coração e lançou-me em espantosas angústias. Tremia à vista dos cruéis  flagelos que iam lacerar a minha carne, dos espinhos compridos que deviam  perfurar a minha cabeça, e dos cravos que transpassariam as minhas mãos e os meus pés. 
   Vi com espanto aparecer os indignos e cruéis carrascos que me maltratariam escarnecendo-me e me escarrariam no rosto, e os fariseus hipócritas que me insultariam a caminho do Calvário, até mesmo nas agonias da morte.
   O meu Coração confrangeu-se de espanto considerando a minha Mãe Imaculada exposta, por minha causa, às zombarias e aos grosseiros insultos da populaça.
Coroação de espinhos: pintor Anton van Dyck
   Uma confusão inexprimível invadiu-me à vista das humilhações que me esperavam.
   Vi-me coberto com o roupão de insensato no palácio de Herodes, desnudo de todos os meus vestidos e exposto ignominiosamente aos olhares de multidão escarnecedora e sensual, ridicularizado como rei de espetáculo no corte de Pilatos, tido por mais vil que Barrabás e suspenso num patíbulo entre dois facínoras. E, pendente da cruz, o próprio Satanás lançou-me o seu desafio dizendo: "Se tu és o Filho de Deus, desce da cruz. Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo".
   Vi-me como que submerso num mar de pecados. Os crimes dos homens, quais vagas tumultuosas, cobriram-me de toda a parte. Abismado na minha confusão não ousava levantar os olhos ao meu Pai três vezes Santo, nem pedir-lhe que me livrasse de tantos opróbrios.
   Estava triste, triste até morrer, por causa dos inúmeros crimes e torpezas sem conta, cujo peso, eu, o Filho de Deus, levava, e que ultrajavam e irritavam o meu Pai muito amado.
   O meu Coração confrangeu-se de dor ao verificar a esterilidade dos meus sofrimentos para um grande número de almas, vendo o abandono dos meus próprios apóstolos, a negação de Pedro, a traição e perdição de Judas.
Nossa Senhora ao pé da Cruz
Pintor: Anton von Dyck
   O meu olhar penetrou tristemente o futuro e contei um a um todos os sacerdotes que me entregariam um dia a Satanás e lhe venderiam as almas compradas com o meu sangue. Oh, que horror!
   Estava triste não vendo em volta de mim ao pé da cruz senão um pequeno grupo de almas compassivas. Era aquilo toda a minha Igreja, o fruto de tantas fadigas, a recompensa de tantos benefícios, o resultado de tantos milagres!
   A aflição inundou o meu Coração pensando na minha pobre Mãe junto da cruz. Na véspera, as despedidas destroçaram o seu coração como o meu, e o pensamento da sua angústia não me abandonou mais, até à morte.
   Presente ao meu suplício, via bem claramente que era por ela que eu sofria mais que por todos os outros juntos, que sem os méritos dos meus sofrimentos previstos ela não seria a Imaculada. Sabia que, se eu a não tivesse amado tanto, não teria tanto que sofrer. Julgava-se, portanto, a causa das minhas dores, verdugo do seu próprio Filho. Via-se na necessidade de desejar ver-me sofrer e este desejo esmagava o seu coração maternal.
   A piedade de Filho fez com que eu fixasse sobre ela, de pé junto da cruz, um prolongado e doloroso olhar. E este olhar, velado já pelas sombras da morte, penetrou até à medula a sua alma, sem nunca mais o poder afastar de si.
   E enquanto a minha alma estava assim de todo oprimida, um oceano de sofrimentos corporais invadia todo o meu ser.
   A minha carne estava lacerada por unhas de ferro, a minha cabeça atormentada por cruéis espinhos, as minhas mãos e os meus pés trespassados com cravos, os meus ombros martirizados pela pesada cruz, os meus joelhos sangrentos pelas repetidas quedas, os ossos deslocados, os músculos enervados, a língua ressequida por uma sede cruel.
   Os algozes torturavam-me, mas a justiça do meu Pai dirigia certeiros os seus golpes.
   O meu corpo humano era uma harpa misteriosa, maravilhosamente delicado e sensível à dor. A onipotência divina tinha-se deleitado em afinar este instrumento para o fazer vibrar ao menor contato com o sofrimento. O próprio Deus, fazendo violência ao seu Coração paternal, reservou-se a incumbência de tocar todas as suas cordas arrancando-lhes, sem piedade, todos os acordes da dor.
   Sob a sua ação inexorável, mas justa, todas as fibras do meu corpo se abalaram em gemidos, e estas vibrações, como ondas dolorosas, passaram e repassaram todo o meu ser, propagando-se e repercutindo-se até ao infinito.
   Com a alma invadida de mortal angústia e com o corpo martirizado pelos sofrimentos, escarnecido dos meus inimigos, abandonado pelos meus, agonizante de vergonha e de dor, levantei ainda os olhos ao meu Pai, rogando-lhe que se compadecesse do seu Filho e que mostrasse à minha Humanidade esmagada o seu rosto paternal.
   Mas a resposta do justo Juiz foi terrível. O Deus três vezes Santo, vendo-me ainda coberto com a lepra afrontosa dos pecados de toda a humanidade, retirou de mim o seu rosto e senti-me abandonado do meu próprio Pai...!
   Eu aceitei esta suprema desolação para que os meus irmãos não se vissem dele separados e, inclinando a cabeça, morri nas angústias da mais extrema dor. 
   

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jesus pregando o Retiro aos seus sacerdotes - ( VI )

O sacerdote deve ter o coração desprendido de todos os bens terrenos. Deve fugir de toda avareza e amar a santa pobreza.

    O teu Redentor não se buscou a si mesmo. Eu fiz sobre a terra, por obediência, a obra imposta pelo meu Pai, e esta obra não foi outra que a Redenção dos homens pelo trabalho, pela fadiga, pela pobreza, pela humilhação, pelo sofrimento e pela morte.
    Vim para ser Hóstia da humanidade, para tomar sobre mim os seus pecados, e sofrer por ela o castigo, para lhe alcançar pela minha paixão e pelo meu sacrifício a vida eterna.
    E tu, meu sacerdote, tu também voluntariamente aceitaste continuar sobre a terra a minha vida de Hóstia para salvar os homens.
    Fiz-me alimento das almas. Da mesma forma deves permitir que os teus fiéis assimilem como um alimento o teu tempo, as tuas forças, o teu talento; que usem e abusem da tua paciência, da tua saúde, dos teus bens, sem neste mundo teres nisto proveito algum.
    O cacho de uvas tem o destino de ser sujeito à prensa. Se o não for, jamais dará o seu precioso licor.
   O sacerdote, a meu exemplo, foi criado para, de alguma forma, ser prensado e pisado pelas almas, consagrando-lhes o seu tempo, as suas comodidades e a mesma vida.
    Que decepção para mim se, no entardecer da tua vida, encontrares o teu cacho ainda intacto e o teu cálice vazio!
    Eu não tive onde repousar a cabeça. Nasci e cresci na pobreza. Morri despojado e nu sobre a cruz e não tive para sepultura senão um sepulcro emprestado.
"Todos os que criam estavam unidos e tinham
tudo em comum. Vendiam suas propriedades e
os seus bens, e distribuíam o preço por todos,
segundo a necessidade que cada um tinha".
Atos dos Apóstolos, II, 44-45.
    Como te fica mal, meu filho, preocupares-te tanto com o bens da terra! O nosso reino não é deste mundo. Nós não temos sobre a terra morada permanente. Por que tu hás de apegar então às coisas que passam?
    Portanto não te inquietes dizendo: Que hei de comer, que hei de beber, com que me hei de vestir? Os pagãos é que se preocupam com estas coisas. Mas tu, tu tens no céu um Pai onipotente que é quem cuida de ti. Até as avezinhas do céu alimenta. 
    Procura, em primeiro lugar, estender o meu reinado sobre a terra. Sê sacerdote comigo, e tudo o mais ser-te-á dado a seu tempo pelo nosso Pai que está nos céus.
    Tu és comigo Redentor, Hóstia e Pastor do meu rebanho.
    O bom pastor não espolia as suas ovelhas; pelo contrário, dá por elas a vida.
    Está pronto a agir desta sorte e as minhas ovelhas ouvirão a tua voz e salvar-se-ão por teu meio.
   Não entres nunca em altercações com os teus paroquianos por causa de bens terrenos. Este procedimento do Pastor escandalizaria e afastaria de mim as minhas ovelhas. 
    Se alguém te quiser roubar o manto, dá-lhe também a túnica. Eu fui tratado sobre a terra por aqueles que vinha resgatar, como homem que não tem direitos.
    De igual sorte serás tratado pelos teus próprios fiéis: o discípulo não está acima do Mestre.
    Tu mesmo, filho, amiúde me fizeste cruéis injúrias, ofendendo-me após tantos benefícios.
    Que teria sido de ti, se eu tivesse agido a teu repeito segundo o rigor dos meus direitos? E que será do meu rebanho, se o sacerdote exige sempre dele a estrita justiça? Não é na terra que deves reclamar os teus direitos. Na terra tu és vítima comigo, destinado a seres sacrificado e calcado aos pés. É necessário partilhares comigo a Cruz até ao Calvário. 
    Nada temas. Na eternidade a ordem será restabelecida. Lá, os meus sacerdotes, os que me seguiram na pobreza e na humilhação, julgarão as doze tribos de Israel; sentar-se-ão à minha direita entre os príncipes de meu povo.
    Faze o bem enquanto há tempo para o fazeres. Renuncia às tuas comodidades, ao teu repouso, aos cuidados excessivos da tua saúde. 
    Gratuitamente recebeste, dá gratuitamente, sem peso e sem medida.
    Se quiser ter necessidade de ti para a minha Obra, eu te conservarei as forças. Se te mando a doença, sabe que o faço por um desígnio de minha misericórdia. 
    Eu vim para servir e não para ser servido. Tu deves ser igualmente o servidor de todos e acudir ao menor chamado de uma alma em perigo.
    Que desordem, se por te poupares desamparas uma alma imortal, comprada com o meu sangue!
    Que desgraça para ti, se um dia eu tivesse que te lançar em rosto esta queixa: Os pequeninos pediam pão e não houve que lho partisse!
    Quem quer ser o primeiro, considere-se último. Se estás elevado pela dignidade, abate-te pela humildade. És grande pelas tuas funções, sê pequeno na tua estima. Estás colocado acima dos teus fiéis pela tua eleição ao sacerdócio; deves estimar-te como o mais indigno de exercer as augustas cerimônias.
    Não esperes com orgulho que os pecadores te venham procurar; previne-os, obsequioso pela tua bondade.
    Eu desci dos esplendores do céu para buscar a ovelha tresmalhada. Não podes tu descer do pedestal da tua dignidade para te abeirares com doçura dos pobres pecadores?
    A tua aproximação fácil e acolhedora ganhar-te-á mais almas de que os teus eloquentes discursos.
    A tua doçura e a tua humildade dar-te-te-ão a chave dos corações mais hermeticamente fechados.
    Sê perfeito como nosso Pai celestial é perfeito. Ele tanto faz cair a chuva no campo do pecador como no campo do justo. E continua a dar existência e os bens temporais ao ímpio, e precisamente no momento em que este abusa deles para o blasfemar.
    Aceita o reconhecimento da gratidão, se os homens to mostrarem. Não é a ti que este reconhecimento vai dirigido, mas sim Àquele a quem tu, como sacerdote, representas.
    Mas não estranhes encontrar no caminho a ingratidão. Eu fui dela saturado, e permito que tu igualmente lhe saboreies a amargura.
    Não tens necessidade do amor e da gratidão dos mortais. Lembra-te que pelo sacerdócio tu tens o teu lugar junto de mim e da minha Mãe muito amada.
    Comparado com a nossa ternura e dedicação por ti, todo outro amor te deve parecer vão e frágil.
    

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( IV )

A humildade do sacerdote

   A minha substância humana é diante de Deus como o nada. Assim aniquilei-me perante a majestade do meu Pai! Tomei a forma de escravo. Fui semelhante a um verme de terra, e quis ser considerado como o último dos homens, um homem devotado ao sofrimento.
   A Ele, meu Pai, Princípio de todas as coisas, Ser infinito, Mestre soberano, seja dada honra e glória pelos séculos dos séculos.
  A mim, o Filho do homem, criatura do nada segundo a minha humanidade, seja dado abatimento e confusão.
   Eu sou o Santo dos santos, essencialmente separado dos pecadores; e, todavia, tomei sobre mim o teu pecado e os pecados de todos os homens.
   Assim mereci todos os golpes da ira de Deus. Fui com toda a justiça saciado de opróbrios e como que esmagado debaixo da sua mão onipotente.
   A maldição devida ao pecado, com razão aderiu a mim como um vestido, precipitando-se como a torrente nas minhas entranhas e penetrou como o óleo até à medula dos meus ossos.
  Se eu fui com toda a justiça, tratado desta sorte por haver tomado sobre mim o pecado alheio, que castigo não merece quem cometeu o pecado?
   Se assim foi tratado o lenho verde, com o seco que se fará?
   Ó meu filho, a que espantosa condição te reduziu o pecado! Não é justo que passes a tua vida na abjeção voluntária diante de meu Pai, diante dos homens e perante a tua própria consciência!
  Tu és essencialmente criatura, infinitamente dependente, sob todas as formas, do teu Criador, do teu Redentor, de teu Santificador.
   Não podes existir, nem agir, nem mover-te, sem o socorro atual do seu braço onipotente. 
  Na ordem sobrenatural, nem sequer podes conceber um simples desejo salutar, nem ter um único pensamento bom, nem fazer movimento algum para te acercares de Deus.
   És incapaz de permanecer, embora por um só instante, na sua amizade, incapaz de nela progredir e mais incapaz ainda de perseverar nela, se não és levado pela graça.
   A tua natureza caída é de si capaz de todos os crimes.
   Não és mais que uma gota de água perdida no seio dos mares; e todavia esta gota de água encerra, em germe, toda a malícia e todas as abominações do mundo. Se a minha graça te não prevenisse, eras capaz de cometer realmente todos os crimes. 
   Humilha-te diante do meu Pai. Reconhece a tua infinita miséria, e Deus aproximar-se-á de ti, purificará a tua alma e amar-te-á. 
   Traze sempre à minha presença um coração contrito e humilhado. Não te atribuas quaisquer talento, sucesso, boa obra ou dom de Deus. Sobretudo não te glories de teres sido levantado à dignidade infinita de sacerdote, porque foi gratuitamente que a recebeste.
   Separa bem em ti o que é de Deus e o que é teu. De ti mesmo tens o nada, o pecado, e o direito ao inferno. Tudo o mais é propriedade minha, efeito da minha bondade e da minha misericórdia. 
  Ama e busca a vida escondida. Não é o brilhantismo do talento, nem a atividade natural, nem o movimento a que muitos se entregam, que a mim conduz as almas.
   Elimina da tua vida tudo o que nela há de humano, para seres exclusivamente meu instrumento, um eco de mim mesmo.
   Sê humilde diante de teu próximo. Suporta as suas fraquezas, escusa os seus defeitos. Atrai as almas pela paciência, pela doçura e pela amenidade do teu proceder. 
   Leva com gosto o fardo de teu próximo. Faze-te o servidor de todos. Como sacerdote vieste para servir e não para seres servido. 
   Sê humilde contigo mesmo. Reconhece de boa mente as tuas faltas, aceita a humilhação que te proporcionam a tua impaciência, o insucesso e os desprezos.
   Segue-me pelo caminho do Calvário. Saboreia em silêncio os opróbrios e os insultos com que o mundo me fere na minha pessoa e na pessoa dos meus sacerdotes. 
   E se sentires dificuldades para compreender esta lição de humildade, roga-me, roga à Virgem humilde de Nazaré, minha Mãe e também tua, suplica-me que abra os teus olhos e verás como dos pés à cabeça estás coberto das chagas do teu orgulho, como todas as potências da tua alma estão roídas por este cancro, como todas as fibras do teu ser estão infectadas deste veneno.
   Meu pobre filho, nem sequer vês e julgas-te são, bom, virtuoso e digno de respeito e de admiração!
   Pede-me e eu farei cair dos teus olhos essas cataratas que te impedem de ver a tua alma em toda a sua indigência e em toda a sua nudez.
   Para quem me inclinarei eu, senão para o coração contrito e humilhado?
  O coração humilde vive na verdade, está contente do seu nada, não usurpa os direitos que apenas pertencem a Deus, o Ser soberano.
   Se alguém é pequeno, venha a mim.
   O coração soberbo, pelo contrário, inspira-me horror; leva na sua fronte o estigma de Satanás, pai do orgulho e da mentira.
   Aprende de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrarás o sossego para a tua alma.