quinta-feira, 26 de julho de 2018

O ABORTO


DE NOVO, O ABORTO!   

                                                                                                                                                             Dom Fernando Arêas Rifan*

             Com a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) apresentou ao Supremo Tribunal Federal novo pedido de mudança no Código Penal, pela qual querem garantir às mulheres o direito de interromper a gestação, e dos profissionais de saúde de realizar o procedimento, ou seja, fazer aborto, nas 12 primeiras semanas de gravidez. Será que não estão pretendendo com isso obter a legalização do aborto, o que não conseguiram no Congresso Nacional, o único com poder de legislar? E dado que a Constituição (artigos 1º e 2º) estabelece que o Brasil se constitui em Estado Democrático de Direito, fundamentado na harmonia e independência dos Poderes, discute-se se essa Arguição e possível sanção do STF, cuja competência é a guarda da Constituição, não seria a invasão, por parte da Suprema Corte, da competência dos outros Poderes, em especial o Legislativo. Só uma Assembleia Nacional Constituinte, eleita pelo povo, tem o poder legal de modificar a Constituição nos seus preceitos fundamentais. 
           A Constituição Federal, promulgada “sob a proteção de Deus”já estabelece a inviolabilidade do direito à vida, no artigo 5º, no Título II que trata“Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, cláusula pétrea, portanto. E como a nossa Carta Magna estabelece a igualdade de todos perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, o nascituro tem direito à tutela jurídica na sua vida. E quando a lei é clara, como é nesse caso, não há lugar para interpretações.
            O direito inviolável à vida é o principal direito em qualquer ordenamento jurídico. Nada há a se garantir anteriormente a este, pela própria impossibilidade de qualquer consequência de usufruição de qualquer outro direito. Portanto, o direito inalienável à vida é o primaz o qual gera diversas outras garantias. Uma garantia fundamental, como o direito à vida, não pode jamais ficar desprotegida e ser discutida.
            Alegam os defensores do aborto a difícil condição de muitas mães. A Igreja o compreende perfeitamente: “É verdade que, muitas vezes, a opção de abortar reveste para a mãe um caráter dramático e doloroso: a decisão de se desfazer do fruto concebido não é tomada por razões puramente egoístas ou de comodidade, mas porque se quereriam salvaguardar alguns bens importantes como a própria saúde ou um nível de vida digno para os outros membros da família. Às vezes, temem-se para o nascituro condições de existência tais que levam a pensar que seria melhor para ele não nascer. Mas essas e outras razões semelhantes, por mais graves e dramáticas que sejam, nunca podem justificar a supressão deliberada de um ser humano inocente” (n. 58). E, usando da prerrogativa da infalibilidade, o Papa define: “declaro que o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal” (S. João Paulo II, Enc. Evangelium Vitae, nn. 58 e 62).  

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

terça-feira, 24 de julho de 2018

O AMOR A DEUS



O primeiro e o máximo mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas. É sumamente útil e necessário conhecermos bem este assunto.

Em primeiro lugar, devemos  distinguir dois elementos no amor: a complacência e a benevolência. Que é complacência? Vamos dar exemplo do que acontece com o amor entre pessoas aqui na terra e depois aplicaremos subindo até Deus. Assim, as qualidades dos entes queridos nos enlevam: eis aí a complacência. Agora, queremos bem àquelas pessoas cujos dotes nos cativam: eis aí a benevolência. E nosso amor de complacência e de benevolência deve ser afetivo e efetivo. Há amor afetivo quando suscitamos no nosso coração, tais sentimentos tanto de complacência como de benevolência. E, desde já devemos saber que este amor afetivo para com Deus se exerce e se dilata na oração.

Mas, caríssimos, este amor afetivo só será sincero se for acompanhado do amor efetivo, ou seja, é mister que opere e que realmente sirvamos a Deus. Em outras palavras, o nosso amor deve ser provado pela prática das virtudes. Portanto o amor interno deve ser manifestado externamente e é assim que conhecemos  inclusive o seu valor exato. Como disse o Divino Mestre: "Não é aquele que diz Senhor, Senhor, que vai entrar no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu". Diz também: "Quem me ama, guarda os meus mandamentos, faz o que eu mando". Portanto, querer julgar a intensidade do amor apenas pelo surtos do coração é expor-se a ilusões. É na renúncia da própria vontade e na aceitação amorosa e inteira da vontade divina, que encontramos a prova inconteste do lídimo amor de Deus. Se o amor perfeito não pode nascer nem crescer sem o exercício da oração e a prática constante do amor afetivo, tão pouco se pode desenvolver sem as obras, sem a luta generosa contra os nossos defeitos e a fidelidade às virtudes cristãs.

E que vem a ser AMOR PERFEITO a Deus? Caríssimos, devemos evitar dois extremos: Não se trata apenas de um ato PASSAGEIRO de caridade perfeita; isto seria uma resolução sincera de evitar todo pecado mortal, a fim de não ofender o Deus infinitamente bom, infinitamente digno de amor. Na verdade, esta disposição basta à alma para alcançar o perdão das faltas graves e recuperar a graça santificante que perdera, desde que acompanhada do desejo de receber o sacramento da Penitência. Não é permitido, porém comungar, sem antes se confessar. Se Jesus chamar esta pessoa repentinamente sem ter condição de se confessar, ela se salva. Mas este ato passageiro de caridade perfeita não é ainda o AMOR PERFEITO  a Deus, de que falamos aqui. Por outro lado, devemos excluir o outro excesso, isto é, que não haja nenhuma interrupção nem desfalecimento para que o amor fosse perfeito. Na realidade seria exigir um amor que só será possível no céu. Assim sendo, devemos dizer que uma alma atinge o amor perfeito a Deus aqui na terra, quando se encontra na disposição habitual de renunciar a tudo quanto lhe possa arrefecer o ardor da caridade. Portanto, significa não ter nenhum apego voluntário, nem às faltas ligeiras, nem às imperfeições; quando se propõe a fazer, em tudo, o que Deus quer, e como Deus quer. E prestemos bastante atenção neste particular: esta resolução não pode ser fruto de um ímpeto de entusiasmo, em que a sensibilidade tem grande parte, mas deve ser uma determinação calma, firme e constante da vontade. Conhece as dificuldades, mas sabe vencê-las, porque não há nada mais forte do que o amor perfeito.

Então, resumindo: O amor perfeito a Deus supõe que a alma esteja sempre na presença de Deus. Pelo menos, o pensamento da pessoa se volta frequentemente para Deus. O amor perfeito supõe, portanto, um amor afetivo intenso e freqüente; supõe também um amor efetivo, generoso, habitual, e devemos dizer que também supõe um amor delicado. Porque daria provas de amor vulgar  e um tanto interesseiro, quem não soubesse prestar serviços a um amigo sem deixar perceber o que isso lhe custa. Na realidade, o verdadeiro amor nunca pensa fazer bastante para o ente amado, desprezando suas fatigas e seus trabalhos; raramente fala de seus sacrifícios, e, se falar, é para dizer que é pouca coisa e que está pronto a fazer outros, maiores ainda.

Não há meio melhor para compreendermos bem o que vem a ser o amor perfeito a Deus do que lendo a vida dos santos, porque, na verdade, é neste amor perfeito, onde se procura fazer sempre a vontade de Deus, que encontramos a verdadeira santidade. Amém!

segunda-feira, 16 de julho de 2018

NOSSA SENHORA DO CARMO

NOSSA SENHORA DO CARMO
                                                                                                Dom Fernando Arêas Rifan *

Uma data importante no mês de julho, dia 16, é a festa de Nossa Senhora do Carmo ou do Monte Carmelo, em cuja novena preparatória estamos.
            Quase na divisa com o Líbano, o monte Carmelo, com 600 metros de altitude, situa-se na terra de Israel. “Carmo”, em hebraico, significa “vinha” e “El” significa “Senhor”, donde Carmelo significa a vinha do Senhor. Ali se refugiou o profeta Elias, que lá realizou grandes prodígios, e depois o seu sucessor, Eliseu. Eles reuniram no monte Carmelo os seus discípulos e com eles viviam em ermidas. Na pequena nuvem portadora da chuva após a grande seca, Elias viu simbolicamente Maria, a futura mãe do Messias esperado. 
            Assim, Maria foi venerada profeticamente por esses eremitas e, depois da vinda de Cristo, por seus sucessores cristãos, como Nossa Senhora do Monte Carmelo. 
            No século XII, os muçulmanos conquistaram a Terra Santa e começaram a perseguir os cristãos, entre eles os eremitas do Monte Carmelo, muitos dos quais fugiram para a Europa. No ano 1241, o Barão de Grey da Inglaterra retornava das Cruzadas com os exércitos cristãos, convocados para defender e proteger contra os muçulmanos os peregrinos dos Lugares Santos, e trouxe consigo um grupo de religiosos do Monte Carmelo, doando-lhes uma casa no povoado de Aylesford. Juntou-se a eles um eremita chamado Simão Stock, inglês de família ilustre do condado de Kent. De tal modo se distinguiu na vida religiosa, que os Carmelitas o elegeram como Superior Geral da Ordem, que já se espalhara pela Europa.
 
            No dia 16 de julho de 1251, no seu convento de Cambridge, na Inglaterra, rezava o santo para que Nossa Senhora lhe desse um sinal do seu maternal carinho para com a Ordem do Carmo, por ela tão amada, mas então muito perseguida. A Virgem Santíssima ouviu essas preces fervorosas de São Simão Stock, dando-lhe, como prova do seu carinho e de seu amor por aquela Ordem, o Escapulário marrom, como veste de proteção, fazendo-lhe a célebre e consoladora promessa: “Recebe, meu filho, este Escapulário da tua Ordem, que será o penhor do privilégio que eu alcancei para ti e para todos os filhos do Carmo. Todo aquele que morrer com este Escapulário será preservado do fogo eterno. É, pois, um sinal de salvação, uma defesa nos perigos e um penhor da minha especial proteção”. 
            O Papa Pio XII, em carta a todos os carmelitas (11/2/1950), escreveu que entre as manifestações da devoção à Santíssima Virgem “devemos colocar em primeiro lugar a devoção do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo que, pela sua simplicidade, ao alcance de todos, e pelos abundantes frutos de santificação, se encontra extensamente divulgada entre os fiéis cristãos”. Mas faz uma advertência sobre sua eficácia, para que não seja usado como superstição: “O sagrado Escapulário, como veste mariana, é penhor e sinal da proteção de Deus; mas não julgue quem o usar poder conseguir a vida eterna, abandonando-se à indolência e à preguiça espiritual”. 
                                                   *Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
                                                                        http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

O ESCAPULÁRIO DE NOSSA SENHORA DO CARMO



Quero falar aqui do escapulário reduzido, o que se compõe de dois pedacinhos de lã de cor marrom e que hoje quase sempre vêm acompanhados com as imagens do Sagrado Coração e da de Nossa Senhora do Carmo.

Através deste escapulário que deve ser trazido sempre pendente do pescoço e, com ele, deve-se morrer, o devoto de Nossa Senhora, não só se consagra a Ela diante do altar, demonstrando assim o seu íntimo amor à Mãe de Deus, mas também, através do escapulário, está sempre declarando publicamente este seu amor à sempre Virgem Maria. Ainda que a essência da devoção deva ser interior, é claro que aquela pessoa que recebe o escapulário e o traz ao pescoço com devoção, mostra, outrossim, que se gloria de trazer o hábito da Mãe de Deus, de lhe pertencer, de a respeitar como Rainha, e de a amar como Mãe.

Ademais, enquanto as nossas práticas piedosas são subordinadas a tempos e a lugares, a devoção do escapulário é de todos os lugares e momentos. Trazendo sempre este meu  hábito, pequeno no tamanho mas grande no significado e nos privilégios, em qualquer parte que eu esteja, qualquer que seja a minha ocupação, Maria Santíssima vê sempre pendente do meu pescoço a prova autêntica do meu apego ao seu culto e do meu amor a Ela.  Em toda parte e sempre a honro, e lhe dirijo súplicas, porque em toda parte e sempre o meu escapulário lhe fala por mim, me recomenda à sua ternura, e lhe diz que a amo e que lhe confio toda minha vida, todos os meus empreendimentos, e, especialmente a salvação de minha alma. O meu escapulário está sempre lembrando a Maria Santíssima que ela peça ao seu divino Filho que transforme a água da minha tibieza no vinho do amor fervoroso a Deus; que alcance para mim junto ao seu Filho a graça de fazer sempre o que Ele manda.
Vamos, com a graça de Deus, meditar um pouco sobre os privilégios do escapulário, ou seja, sobre as três graças inapreciáveis:  defender-me nos perigos durante minha vida;  ajudar-me a bem morrer; e proteger-me depois da morte no purgatório.

1 - DEFENDER-ME NOS PERIGOS: e sobretudo naqueles perigos que ameaçam a minha salvação. Sabemos que, como ensina S. Pedro, o demônio, nosso adversário, anda em torno de nós, rugindo e procurando nos devorar, isto é, perder nossa alma. O demônio é invejoso e homicida desde o início do mundo. Mas, a Santíssima Mãe de Deus sempre foi sua inimiga e sempre lhe esmaga a cabeça. Portanto, se Maria Santíssima me protege, que tenho eu que recear? Estou seguro debaixo do seu manto maternal. Que consoladora certeza! Caríssimos, conheceremos um dia, todos os dardos envenenados que o demônio lançou sobre nós, mas que Maria Santíssima os quebrou antes. Conheceremos também um dia todas as tentações, cuja veemência ela terá diminuído, em atenção a este penhor do meu amor para com ele; quantas vezes, depois das minhas quedas, me terá preservado do desalento mais funesto que estas mesmas quedas.

2 - NOSSA SENHORA PROMETE SALVAR-ME: "Aquele que morrer revestido deste hábito, será preservado das chamas eternas". Estas palavras significam que Maria Santíssima nos garante o Céu. Eis as suas palavras na bula do Papa João XXII, conhecida pelo nome de SABBATINA: "Tempus bene vivendi; Locum bene agendi; constantiam bene perseverandi". Em Português: tempo de bem viver, ocasião e meio de fazer boas obras; constância para perseverar na justiça, isto é, na prática das virtudes e no estado de graça. "Tudo o que a Igreja pede para ti, quando te admite na minha confraria - disse Nossa Senhora na aparição ao Papa João XXII - te será dado a meu rogo: tempo de bem viver, ocasião e meio de fazer boas obras, constância para perseverar na justiça. Ainda quando tenhas a desgraça de incorrer no desagrado de meu Filho ofendendo-O, não te abandonarei, se vir pendente do teu pescoço o sinal da minha aliança. Tirarei para ti dos tesouros divinos uma graça tão eficaz, que comoverá teu coração e o transformará. A não ser que, resistindo obstinadamente a todos os esforços da minha ternura, me obrigues a expulsar-te da minha família, e a privar-te do meu escapulário, a minha bondade para contigo chegará a tal ponto, que, purificado pelos sacramentos ou pelo ato de contrição, te livrarás das penas eternas, se morreres tendo este santo hábito ao pescoço". É bom sabermos que o Papa Bento XIV e um grande número de outros papas, entenderam que deviam preconizar estes favores e exortaram os fiéis a trazer o escapulário; podemos citar os seguintes papas: Alexandre V, Clemente VII, Paulo III, S. Pio V, Gregório XIII, Paulo V, Clemente X, Inocêncio XI, etc.

3 -  MARIA SS. PROMETE PROTEGER-ME EFICAZMENTE NO PURGATÓRIO E ABREVIAR A SUA DURAÇÃO. Visitará, segundo a sua promessa, os confrades do Carmo na triste morada, onde acabarão de expiar as suas faltas; como duvidar que este visita lhes leve refrigério, luz e paz? Além disso ela o declara: "Quando tiverem deixado o século presente e entrado no purgatório, eu descerei, como sua terna Mãe, ao meio deles no sábado seguinte à sua morte; livrarei aqueles que lá encontrar, e os conduzirei à montanha santa, à feliz morada da vida eterna". Estas palavras estão também na bula "SABBATINA" do Papa João XXII.

Caríssimos, vejamos agora como praticar esta devoção do escapulário para merecermos tão insignes favores de nossa Mãe do Céu? Para alcançar o privilégio de uma boa morte é necessário entrar nesta confraria, recebendo e trazendo o escapulário, e tê-lo pendente do pescoço na hora da morte. Para gozar do privilégio da bula SABBATINA,  além das condições precedentes, exige-se que o confrade guarde a castidade própria do seu estado, reze o pequeno Ofício da Santíssima Virgem ou faça abstinência de carne nas quartas-feiras e sábados (evidentemente também nas sextas-feiras pelo mandamento da Igreja); caso não puder, por justa causa, fazer esta abstinência, reza-se no dia um terço por comutação; e, quando não puder nunca fazer abstinência da carne, então, deve rezar todos os dias, sete Padres-Nossos e sete Ave-Marias. Devemos observar ainda que a antiga Congregação das Indulgências , 12 de agosto de 1840 e depois em 22 de junho de 1842 etc. permite que os sacerdotes que impõem o escapulário deem outras comutações.

Caríssimos, o santo hábito da Virgem Imaculada prega-me a inocência e a fuga de todo o pecado. Ele está sempre me exortando a regular os meus passos, a velar sobre todas as minhas ações, a purificar todas as minhas intenções, a nada omitir de tudo quanto pode contribuir para a minha santificação e para a edificação do próximo. Mas, pergunta-se: se alguém tiver a fraqueza de faltar com estas condições ou, pelo menos, com alguma delas, como por exemplo a castidade segundo o próprio estado, como fazer? Ou estaria tudo perdido? Se alguém tiver esta desgraça, peça a Jesus através de Sua Mãe Santíssima, a graça de fazer uma santa confissão, e continue vigiando, fazendo penitência e rezando para alcançar a graça da perseverança.

Ó Maria Santíssima, seja sempre o vosso hábito o meu adorno e a minha defesa. Esteja eu dele revestido na hora da morte; seja para mim agora uma veste de justiça, para se transformar um dia em veste de glória e imortalidade feliz. Amém!

ORIGENS DA ORDEM CARMELITANA

Era o ano 860 antes de Cristo. As Sagradas Escrituras no 1º Livro dos Reis, XVIII, 16 a 45 assim nos narram: "Acab saiu a encontrar-se com Elias. E, vendo-o, disse: Porventura és tu aquele que trazes perturbado Israel? Elias respondeu: Não sou eu que perturbei Israel, mas és tu e a casa de teu pai, por terdes deixado os mandamentos do Senhor, e por terdes seguido Baal. Mas, não obstante, manda agora, e faze juntar todo o povo de Israel no monte Carmelo, como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, os quatrocentos profetas dos bosques, que comem da mesa de Jezabel. Mandou, pois, Acab chamar todos os filhos de Israel e juntou os profetas no monte Carmelo.


  Elias, aproximando-se de todo o povo disse: Até quando claudicareis vós para dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o; se, porém, é Baal, segui-o. O povo não respondeu palavra. Elias tornou a dizer ao povo: Eu sou o único que fiquei dos profetas do Senhor; mas os profetas de Baal chegam a quatrocentos e cinquenta homens. Deem-nos dois bois: escolham eles para si um boi, e, fazendo-o em pedaços, ponham-no sobre a lenha, mas não lhe ponham fogo por baixo; eu tomarei o outro boi, pô-lo-ei sobre a lenha e também não lhe porei fogo por baixo. Invocareis vós os nomes dos vossos deuses, e eu invocarei o nome do meu Senhor. O Deus que ouvir, mandando fogo, esse seja considerado o ( verdadeiro ) Deus. Todo o povo, respondendo, disse: Ótima proposta. Disse, pois Elias aos profetas de Baal: Escolhei para vós um boi e começai vós primeiro, porque sois em maior número; invocai os nomes dos vossos deuses e não ponhais fogo por baixo.

  
Eles,pois, tomando o boi que lhes foi dado, sacrificaram-no, e invocaram o nome de Baal, desde manhã até o meio-dia dizendo: Baal, ouve-nos. Mas não se percebia voz, nem havia quem respondesse. E saltavam diante do altar que tinham feito. Sendo já meio-dia, Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou em viagem, ou dorme e necessita que o acordem. Eles, pois, gritavam em alta voz, e retalhavam-se segundo o seu costume, com canivetes e lancetas, até se cobrirem de sangue. Mas, passado o meio-dia, e enquanto eles profetizavam, chegou o tempo em que era costume oferecer-se o sacrifício, e não se ouvia voz, nem havia quem respondesse, nem ouvisse os seus rogos. Disse Elias a todo o povo: Aproximai-vos de mim. Aproximando-se o povo dele, Elias reparou o altar do Senhor, que tinha sido destruído. Tomou doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dirigira a sua palavra, dizendo: Israel será o teu nome. Com estas pedras edificou um altar em nome do Senhor. Fez um regueiro como dois pequenos sulcos, em volta do altar, acomodou a lenha, dividiu o boi em quartos, pô-lo sobre a lenha, e disse: Enchei de água quatro talhas, entornai-as sobre o holocausto e sobre a lenha. Disse outra vez: Fazei isto ainda segunda vez. E, tendo-o eles feito segunda vez, disse: Fazei ainda terceira vez, isto mesmo. Eles o fizeram terceira vez. As águas corriam em volta do altar e o regueiro encheu-se.

   Sendo já o tempo de se oferecer o holocausto, chegando-se o profeta Elias, disse: Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo aprenda que tu és o Senhor Deus e que converteste novamente o seu coração.

   O fogo do Senhor baixou do céu, devorou o holocausto, a lenha e as pedras, consumindo o mesmo pó e a água que estava no regueiro. Todo povo vendo isto, prostrou-se com o rosto em terra e disse: O Senhor é o Deus! O Senhor é o Deus! Elias disse-lhes: Apanhai os profetas de Baal, não escape deles nem um só. Tendo-os o povo agarrado, Elias levou-os à torrente de Cison, onde os matou.

   Elias disse a Acab: Vai, come e bebe, porque já se ouve o ruído duma grande chuva. Acab retirou-se a comer e beber; Elias, porém, subiu ao alto do Carmelo, e, inclinado por terra, pôs o seu rosto entre os joelhos, e disse ao seu criado: Vai e olha para o lado do mar. Tendo este ido e tendo olhado, disse: Não há nada. Elias disse-lhe segunda vez: Torna a ir sete vezes. À sétima vez, eis que se levanta do mar uma pequena nuvem, como a pegada dum homem. Disse-lhe Elias: Vai e dize a Acab: Manda atrelar os cavalos no seu carro e corre, não te apanhe a chuva.
   E, quando ele voltava para uma e para outra parte, eis que se cobriu o céu de trevas, vieram nuvens e vento e caiu uma grande chuva". Até aqui as palavras das Sagradas Escrituras. ( 1Reis, XVIII, 16 a 45 ).

   Esmagada que foi a cabeça do demônio que suscitara a idolatria, destruído aquele nefasto ecumenismo, exterminados os falsos profetas, apareceu no céu o sinal da Virgem, e na terra, terão início a sua Ordem e o seu culto, oitocentos e poucos anos antes de seu nascimento.

   Num futuro não tão longe, doutores da Igreja como Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São João Damasceno e outros, explicarão ao mundo como esta nuvenzinha, erguendo-se pura do mar amargo, e deixando atrás as impurezas do mar, é figura de uma Virgem Imaculada, que sairá pura do mar da humanidade, liberta de toda impureza do pecado original.

   Dois mil e cento e dez anos mais tarde, São Luiz IX, rei de França, ouviu falar da santidade de certos monges do Carmelo, dos quais alguns haviam emigrado para a Europa, por causa das vitórias dos sarracenos na Palestina. E São Luiz IX foi a Palestina , subiu o Monte Carmelo. Desejava conhecer aqueles monges que a si mesmos se denominavam Eremitas de Santa Maria do Monte Carmelo. Queria-os também em França e ficou maravilhado ao ouvir da boca daqueles monges o relato da tradição da Ordem. Dizem que são descendentes do profeta Elias. E este lhes ensinara que vira numa nuvem com a forma de pegada humana, que pelo poder divino, se levantara do mar, uma imagem profética da Virgem Maria Imaculada, a qual havia de trazer a salvação dos homens, e vencer o orgulho de satanás, com o seu calcanhar de humildade. Elias ensinara a seus discípulos a implorar a vinda desta Virgem, dizendo que a planta do pé que a nuvem apresentava manifestava em si a maldição divina contra o demônio. "Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência dela: tu armarás ciladas ao seu calcanhar e Ela esmagará a tua cabeça". ( Gen. III, 15 ).

   Contaram, também, a São Luiz IX que, na plenitude dos tempos, tendo aparecido a Virgem Imaculada, e depois da Encarnação do Verbo, a própria Virgem Maria se dignou visitá-los; e a Sagrada Família ao voltar de seu exílio de sete anos no Egito, havia descansado algum tempo com eles. Por eles fora construída ali no Monte Carmelo, a primeira capela do mundo dedicada à Mãe de Deus.

   São Luiz IX ficou edificado e cheio de reverência ao ver a santidade daqueles monges e ao ouvir este relato.

   E uns trinta anos antes da ida de São Luiz IX ao Monte Carmelo, alguns destes monges haviam se transferido para a Inglaterra. Ali tinha-se-lhes reunido um homem muito santo chamado Simão. Recebera o apelido de "stock"por ter vivido solitário na concavidade do tronco de uma árvore no interior de uma floresta inglesa, tal como Elias havia vivido nas grutas naturais do Carmelo.

   Dadas as perseguições,muitos carmelitas passaram para a Europa. Foi mister, então, nomear um Vigário Geral na Europa. Simão Stock foi o escolhido e, seis anos mais tarde foi eleito geral de todo Ordem.

  
O demônio que tem ódio a Maria Santíssima e a sua descendência, fomentou toda espécie de discórdias e perseguições tanto fora como dentro da Ordem do Carmelo. Vemos por isso no ano de 1251 Simão retirar-se para o Mosteiro de Cambridge, curvado sob o peso dos seus 90 anos e do de tantas provações. Ajoelhado na sua pequenina cela derrama a sua alma em ardentíssimos suspiros: "Flor do Carmelo, vinha florífera, esplendor do céu, virgem fecunda, singular. Ó Mãe benigna, sem conhecer varão, aos carmelitas dá privilégios, ó Estrela do mar"!

   E ao levantar os olhos velados pelas lágrimas, a cela enche-se-lhe de uma grande luz: Rodeada por uma multidão de anjos a Rainha do Céu desce até ele, trazendo na mão e Escapulário marrom castanho dos monges e diz-lhe;"Recebe filho queridíssimo, este hábito da minha Ordem: isto será para ti e para todos os carmelitas um privilégio. Quem morrer revestido dele não sofrerá o fogo eterno". Era o dia 16 de julho de 1251.

   A partir daí veio a paz, e a Ordem tornou-se objeto de simpatia no mundo inteiro. Eis Maria Santíssima esmagando a cabeça da infernal serpente.

   A Santa Madre Igreja reconhece o profeta Elias como o fundador da Ordem Carmelitana.Na Basílica de São Pedro no Vaticano, por ordem dos papas, foram colocadas as imagens de todos os santos fundadores de Ordens Religiosas. E, assim, lá foi colocada, por ordem do papa Bento XIII em 26 de junho de 1725, a imagem do Santo Profeta Elias, reconhecido por toda Ordem Carmelitana como o seu Fundador.






quinta-feira, 5 de julho de 2018

TOTAL CONFORMIDADE DE NOSSA VONTADE COM A DE DEUS



A vontade de Deus é a do Senhor; a minha é a do servo. A vontade de Deus é infinitamente esclarecida; a minha é sujeita a erros sem conta. A vontade de Deus é a mesma santidade e nunca muda; a minha é depravada, inconstante, capaz de todo o mal. É justo, portanto, que eu me deixe dirigir pela vontade de Deus, submetendo-Lhe a minha. A união da nossa vontade com a de Deus, ou melhor dizendo, a fusão da nossa vontade na de Deus, de tal modo que a nossa desaparece, ficando só a vontade divina,  digo, isto é algo sumamente admirável, sublime e santo. Aliás, é a mesma santidade. E aqui, logo nossos olhos, nosso pensamento, se voltam para a Mãe de Deus, pois, entre as simples criaturas humanas (porque Jesus é também Deus) Maria é santíssima justamente, porque mais do que qualquer outro santo, uniu sua vontade à de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra".

Depois da união da natureza humana com a divina, que adoramos em Jesus Cristo, e da união da maternidade  com a virgindade, que honramos em Maria Santíssima, não há nenhuma mais admirável que a da nossa vontade com a do Senhor. Parece que Deus queria mostrar-nos a alegria que lhe causa este sacrifício da nossa vontade à sua, quando disse: "Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, e que fará todas as minhas vontades" (Atos XIII, 22). Este abandono filial, que nos entrega inteiramente nas mãos de Deus, é a mais bela vitória da graça sobre a nossa vontade, sem ofender o nosso livre arbítrio. Este triunfo da graça sobre a vontade humana, é sem nenhum prejuízo da sua liberdade, porque o vencido quer sê-lo, e se julga infinitamente obrigado para com o seu vencedor. Estou consciente de que assim Deus livra-me de qualquer outra sujeição, para só depender d'Aquele, cujos servos são outros tantos reis, eleva-me até à vida dos Anjos, até à vida de Jesus Cristo, que é a vida do mesmo Deus. Caríssimos, pode haver algo mais honroso?! Diz o Espírito Santo: "Bendizei o Senhor, vós todos os seus anjos, que sois poderosos e fortes, que sois executores da sua palavra, prontos para obedecer à voz das suas ordens" (Salmo 102, 20 e 21). Que honra para quem se conforma com a vontade divina! Eleva-se à altura dos Anjos, cujo único móvel é a vontade de Deus. Mas, há algo mais sublime ainda: adquiro uma admirável semelhança, uma espécie de parentesco com Jesus Cristo, o Rei dos Anjos. Elevo-me até Deus, tomando a sua vontade por norma da minha. Querendo o que Deus quer, como Ele o quer, porque o quer, tenho o mesmo alimento que o Salvador: "Meu alimento é que eu faça a vontade d'Aquele que me enviou" (S. João IV, 34).

Pela total conformidade de nossa vontade à vontade de Deus, participamos de dois atributos divinos, que parecia que a nossa fragilidade nunca poderia alcançar: a infalibilidade e a impecabilidade; porque, quando faço a vontade do Senhor e obedeço à direção de sua suma sabedoria, posso enganar-me? Quando procedo conforme com a santidade infinita, posso pecar? Por tudo isto devemos concluir que o maior empenho em nossa vida espiritual dever ser o de conformar inteiramente e sempre a nossa vontade com a vontade de Deus.

Ademais, querendo sempre o que Deus quer, pratico todas as virtudes: a fé, a confiança, a mortificação, a paciência, a humildade. E pratico-as pelo motivo mais excelente, isto é, o amor e o amor mais puro. E assim, querer o que Deus quer, é amá-Lo como Ele se ama, é querer-Lhe todo o bem que Ele quer a si, e do modo que Ele quer. Caríssimos, quão agradável é encontrar a santidade em uma só virtude que posso praticar a cada instante, e que enche a alma de uma suavidade celeste!
Finalmente, com esta virtude da conformidade com a vontade de Deus, livro-me de todo o mal, e tenho todo bem que desejo. Não mais mal moral, não mais pecado, pois o pecado não é senão a oposição à vontade divina. Não mais mal no ordem natural; porque um sofrimento que eu amo, que me agrada, que eu desejo, longe de ser um mal para mim, é um bem. Refugiando-me na vontade de Deus, evito todos os verdadeiros males.

Digamos com Santa Teresa d'Ávila: "Ó Senhor meu, misericórdia minha e Bem meu, que posso desejar de melhor na terra do que estar de tal maneira unida a Vós que não haja divisão alguma entre Vós e eu?" Amém!

terça-feira, 3 de julho de 2018

A VIRTUDE DA HUMILDADE



"Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes! (S. Tiago IV, 6; 1 S. Pedro V, 5).

Por estas palavras do divino Espírito Santo, podemos concluir que, sem humildade não se chega ao céu, pois para se salvar é necessária a graça de Deus. E prestemos bem atenção nestas palavras: "Deus resiste aos soberbos", porque se, de um lado Deus dá a graça aos humildes, por outro, RESISTE aos soberbos. Ora, ser resistido por Deus é coisa muito séria. Donde se, fazendo um exame de consciência, alguém chegar à conclusão que é orgulhoso deve empregar todo empenho, todos os meios para combater a soberba e, conseguintemente, adquirir a virtude da humildade. São Gregório escreveu uma palavra que deveria fazer tremer a todos aqueles que não são humildes: "O sinal mais evidente da reprovação é o orgulho". Na verdade, quando este pecado não condena diretamente por si mesmo os homens que o cometem, condena-os por uma multidão de obras más que nascem dele como de uma fonte envenenada. Aliás, a característica deste vício capital é a estreita conexão que tem com os outros vícios. E podemos dizer que assim como a virtude da humildade está presente em todas as outras virtudes, assim também o orgulho está de uma maneira ou outra, ligado intrinsecamente a todos os pecados. E lamentamos como poucas pessoas julgam o orgulho tão nocivo, como efetivamente é. E assim muitos não o combatem e o acolhem sem desconfiança e pior, há pessoas que, dentro de certas entidades, confundem-no à fortaleza de alma no escopo de pretensamente combater o respeito humano. E o demônio empurra tais pessoas para o fanatismo. E não há quem os possa convencer mesmo citando as Sagradas Escrituras e os Santos Padres! E esta disposição, que por certo não é rara, é nimiamente perigosa. Por exemplo: separe-se um homem da Igreja pela heresia, e todos dizem: "o infeliz perdeu a fé". É verdade, mas antes de perder a fé, tinha perdido a humildade; e foi por não querer submeter humildemente seu juízo ao da Igreja, que arvorou o estandarte da rebelião.  Que horror, caríssimos, se, esquecendo do nada que é, o homem se deixar dominar pelo orgulho, odioso vício que o Divino Salvador tem em especial abominação: "O que é excelente segundo os homens, é abominação diante de Deus" (S. Lucas XVI, 15).

Todo o edifício de nossa santificação deve estar construído sobre um alicerce sólido, sobre a rocha. Esta rocha é o conhecimento de si mesmo, que leva o homem a fazer-se justiça, a colocar-se no seu lugar, a ser humilde. A humildade é verdade e é justiça. Vamos explicá-lo: A humildade é o justo juízo que de nós mesmos fazemos, e segundo o qual pautamos a estima de nossa própria excelência. Esta virtude faz que, reconhecendo-nos tais como somos, não nos arroguemos a nós mesmos, nem queiramos que os outros nos arroguem senão o que nos é legitimamente devido. Se, pois, descobrimos que em nós não há, como procedente de nós, bem algum, perfeição nenhuma, seja natural ou sobrenatural, requer a humildade que, restringindo-nos ao nada que é nosso apanágio, nos remontemos até Deus, a quem é devida toda a honra e glória.

Devemos observar, porém, que ninguém é humilde por haver compreendido que é nada, que de si próprio nada se tem. Os filósofos da antiguidade haviam  reconhecido esta verdade, e eram soberbos; a vista da sua baixeza e do seu nada irritava-os e revoltava-os. O primeiro elemento da humildade é este: reconhecer o nosso nada. Esta é a verdade. Mas a humildade não é só isto que está na inteligência. Ela tem sua base na vontade: ela é justiça e assim faz-nos aceitar o que nós merecemos; leva-nos a comprazer-nos nisso, como no que por justiça nos toca. Infere-se daqui que a humildade é uma virtude baseada na verdade conhecida, amada, abraçada com todas as suas consequências, por amor à ordem e à justiça.

Em cima: Fé e humildade do Centurião
A humildade é o fundamento de todas as virtudes, como o orgulho a fonte de todos os vícios. Assim, o maior perigo do orgulho não consiste tanto na falta, que faz cometer contra a humildade, como nas graças, de que priva, e nos numerosos vícios a que conduz infalivelmente suas vítimas. Infelizmente a terra está cheia desses mundanos soberbos, que são verdadeiramente idólatras, e idólatras de si mesmos. Quando estão sós, concentrados em seu espírito, com em santuário profano, colocam-se em face de sua própria excelência e, de turíbulo na mão, admiram-se, extasiam-se  e gabam-se de seu pretendido mérito, preferem-se àqueles com quem se comparam, estão ali diante de seu ídolo, como o selvagem do deserto diante do sol, a quem adora. Pensam só em si mesmos! Deus é como se não existisse!

Devemos concluir que quanto mais uma pessoa é humilde, tanto mais é justa, tanto mais é santa, tanto mais é perfeita. Há, portanto, na humildade tantos graus, como na mesma santidade. No próximo artigo, se Deus quiser, falaremos dos graus da humildade.

Caríssimos, sejamos humildes, sejamo-lo profundamente. Expulsemos do nosso espírito todo o pensamento, todo o sentimento que tiver por origem o orgulho. Esqueçamo-nos de nós mesmos para não pensar senão em Deus. Oponhamos incessantemente às vãs concepções de nosso orgulho o pensamento de nossa miséria e de nossa indignidade.

Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo perfeito de todas as virtudes, mas quis dar toda ênfase sobre a humildade e a mansidão (aliás gêmeas): " Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!" (S. Mat. XI, 29).

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!