terça-feira, 31 de julho de 2018

ECUMENISMO DO APÓSTOLO PAULO?



1 Coríntios IX, 19-22
"Porque sendo livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar um maior número. Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; com os que estão sob a lei, (fiz-me) como se estivesse sob a lei, (não estando eu sob a lei), para ganhar aqueles que estavam sob a lei; com os que estavam sem lei, (fiz-me) como se estivesse sem lei (não estando sem a lei de Deus, mas estando na lei de Cristo), para ganhar os que estavam sem lei".

Este texto de S. Paulo pode ser mal interpretado no sentido de justificar o ecumenismo. Devemos afirmar que nada justifica tal interpretação, porque Santos Padres, como Santo Agostinho e S. Jerônimo, já deram o legítimo significado, segundo veremos neste artigo.

"Sendo livre em relação a todos", isto é, não sendo eu (afirma S. Paulo) sujeito a nenhum poder e domínio de algum homem, fiz-me voluntariamente como se fosse servo de todos, adaptando-me às fraquezas e necessidade de todos afim de ganhar o maior número possível de pessoas para o Evangelho.

"Fiz-me judeu com os judeus..." etc.: S. Paulo quer dizer simplesmente naquelas observâncias e cerimônias exteriores, as quais não eram contrárias ao Evangelho; se acomodara somente ao gênio dos judeus apaixonados pelos seus antigos costumes, para assim insinuar-se com tal condescendência, em seus corações. É que vemos o grande Apóstolo fazer, como lemos em Atos XVI, 3 e XXI, 23  e seguintes.

"Chegou a Derbe e a Listra. Havia lá um discípulo chamado Timóteo, filho de uma mulher judia convertida à fé, e de pai gentio. Os irmãos, que estavam em Listra e em Icônio, davam bom testemunho dele. Quis Paulo que ele fosse consigo. Tomando-o, o circuncidou, por causa dos judeus que havia naqueles lugares. Porque todos sabiam que o pai dele era gentio" (Atos XVI, 23).  Já em Gálatas II, 3 e seguintes, S. Paulo mesmo escreve que não permitiu que Tito fosse circuncidado porque ele quis retirar aos falsos irmãos que eram os judaizantes, todo pretexto para ensinar a necessidade da Lei mosaica, da qual os cristãos haviam sido libertados por inspiração do Espírito Santo no Concílio de Jerusalém: "Ora nem mesmo Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi obrigado a circuncidar-se, e isto por causa dos falsos irmãos, que se intrometeram a explorar a nossa liberdade, que temos em Jesus Cristo, para nos reduzirem à escravidão. Aos quais nem só uma hora quisemos estar sujeitos, para que permaneça entre vós a verdade do Evangelho".

Não há nenhuma contradição no modo de agir de S. Paulo, porque a circuncisão em si era uma coisa indiferente; tornou-se obrigatória por determinação do próprio Deus e, portanto, antes do Concílio de Jerusalém, quem desobedecesse a ordem de Deus, cometeria pecado. Depois do Concílio de Jerusalém, foi, por inspiração do Espírito Santo, retirada a obrigatoriedade da lei da circuncisão, e portanto, quem não a cumprisse não mais cometeria pecado. Isto tudo por se tratar de algo em si indiferente. Assim o mesmo S. Paulo resistiu a Cefas em face, porque a dissimulação do Apóstolo Pedro, dava a impressão que quem não observasse a lei da circuncisão estaria cometendo pecado, sendo que já tinha sido abolida sua obrigatoriedade no Concílio de Jerusalém. Em se tratando de algo indiferente, mesmo após o Concílio de Jerusalém, quem quisesse praticar a circuncisão, não cometeria nenhum pecado; mas quem dissesse ou mesmo desse a entender (como fez Cefas) que a circuncisão continuava obrigatória sob pecado, estaria completamente errado, "não estaria agindo segundo a verdade do Evangelho" (Cf. Gálatas II, 11-14).

S. Paulo foi a Jerusalém e foi recebido com alegria pelos irmãos na fé, ou seja pelos cristãos que fizeram a Paulo a seguinte observação: "Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus são os que têm crido e todos são zeladores da lei. Ora eles têm ouvido dizer que tu ensinas os judeus, que estão entre os gentios, a separarem-se de Moisés, dizendo que não circuncidam os seus filhos, nem vivam segundo os costumes mosaicos. Que fazer pois? Certamente ouvirão dizer que tu chegaste. Faze, pois, o que te vamos dizer: Temos aqui quatro homens, que têm um voto sobre si. Toma-os contigo, purifica-te com eles, faze por eles os gastos dos sacrifícios, a fim de que rapem as cabeças. Saberão assim todos que é falso o que ouviram de ti e que caminhas ainda guardando a lei. Quanto àqueles gentios que creram, nós já escrevemos, ordenando que se abstenham do que for sacrificado aos ídolos, do sangue, do sufocado e da fornicação". S. Lucas nos versículos seguintes deste capítulo diz que S. Paulo seguiu o conselho. Mas humanamente falando não deu nada certo porque os judeus o prenderam no templo, arrastaram-no para fora e quiseram matá-lo. A polícia interveio para livrar Paulo da morte. Mas, assim, o Apóstolo teve oportunidade de fazer uma pregação à toda multidão.

"Com os que estão sob a lei"... etc.  Os prosélitos eram aqueles que estavam sob a lei, os quais se submetiam voluntariamente a ela. O espírito e a mente de S. Paulo atinente a esta passagem estão maravilhosamente expressas por Santo Agostinho numa célebre carta a S. Jerônimo onde se lê: "Fiz-me judeu com os judeus, e as outras coisas que disse, exprimem uma compaixão de misericórdia, não um fingimento para enganar. Da mesma maneira quando disse que "se fazia doente com os que estavam doentes" não enquanto fingisse estar com febre junto daquele que estivesse doente; mas queria dizer que tinha ânimo compassivo pensando como tratar o doente do mesmo modo como gostaria de ser assistido caso estivesse realmente doente. Paulo verdadeiramente era Judeu; tornando-se cristão, não havia contudo abandonado as cerimônias judaicas, dadas legitimamente àquele povo num tempo em que eram convenientes e necessárias; e ele, mesmo sendo apóstolo de Cristo, praticava estas cerimônias (em si indiferentes como era a circuncisão) afim de ensinar que elas não eram nocivas àqueles que as quisesse praticar, sem, porém, repor nas mesmas, a esperança de salvação, porque a salvação apenas figurada nestas cerimônias [a circuncisão p. ex. era figura do batismo; e Santo Agostinho nesta carta chama tais cerimônias judaicas de "sacramentos dos judeus"] já havia sido realizada por Nosso Senhor Jesus Cristo".

"Com quem era sem lei, fiz-me como se estivesse sem lei". Queria dizer: Com os gentios (=pagãos) me faço como se não tivesse sido Judeu, mas Gentio, não observando entre eles a Lei Cerimonial, mas, pelo contrário, me comportando como se fosse um dos seus que não receberam a lei; embora eu não seja nem viva sem a Lei de Deus, porque observo a lei de Cristo ao qual estou sujeito. S. Paulo acrescentou aquelas palavras "não sendo eu sem lei etc.", talvez para não dar azo à uma má interpretação, ou seja, que ele houvesse dito de não praticar a lei para ganhar os pagãos que eram privados da lei.

Outro exemplo bem característico do Apóstolo foi o discurso que fez no Areópago de Atenas, discurso este que já no início atrai a simpatia dos atenienses chamando-os de religiosos porque construíram um altar ao deus desconhecido. E S. Paulo aproveita disto para justamente pregar sobre o verdadeiro Deus, deles ainda desconhecido, criador do mundo, Senhor do céu e da terra. Neste sermão cita também um poeta pagão ateniense, o que certamente não deixou de agradar aos ouvintes. É bem verdade que o resultado do discurso não foi tão grande, pelo menos aparentemente. Na verdade, algumas pessoas abraçaram a fé; entre as quais foi Dionísio, o areopagita e uma mulher, chamada Dâmaris e outros com eles (Atos XVII, 15-33). E sabemos o quanto bem fez às almas o grande São Dionísio!

Do exposto, creio que todos nós podemos ver com facilidade o espírito MISSIONÁRIO do Apóstolo e, de modo algum, espírito de ecumenismo à Vaticano II. Basta compararmos o que fez S. Paulo nestas circunstâncias acima mencionadas com o que foi feito nos famigerados ENCONTROS DE ASSIS. 

NB. Peço desculpas pela grande demora em dar a resposta aos que me solicitaram uma exegese deste texto de S. Paulo.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

O ABORTO


DE NOVO, O ABORTO!   

                                                                                                                                                             Dom Fernando Arêas Rifan*

             Com a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) apresentou ao Supremo Tribunal Federal novo pedido de mudança no Código Penal, pela qual querem garantir às mulheres o direito de interromper a gestação, e dos profissionais de saúde de realizar o procedimento, ou seja, fazer aborto, nas 12 primeiras semanas de gravidez. Será que não estão pretendendo com isso obter a legalização do aborto, o que não conseguiram no Congresso Nacional, o único com poder de legislar? E dado que a Constituição (artigos 1º e 2º) estabelece que o Brasil se constitui em Estado Democrático de Direito, fundamentado na harmonia e independência dos Poderes, discute-se se essa Arguição e possível sanção do STF, cuja competência é a guarda da Constituição, não seria a invasão, por parte da Suprema Corte, da competência dos outros Poderes, em especial o Legislativo. Só uma Assembleia Nacional Constituinte, eleita pelo povo, tem o poder legal de modificar a Constituição nos seus preceitos fundamentais. 
           A Constituição Federal, promulgada “sob a proteção de Deus”já estabelece a inviolabilidade do direito à vida, no artigo 5º, no Título II que trata“Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, cláusula pétrea, portanto. E como a nossa Carta Magna estabelece a igualdade de todos perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, o nascituro tem direito à tutela jurídica na sua vida. E quando a lei é clara, como é nesse caso, não há lugar para interpretações.
            O direito inviolável à vida é o principal direito em qualquer ordenamento jurídico. Nada há a se garantir anteriormente a este, pela própria impossibilidade de qualquer consequência de usufruição de qualquer outro direito. Portanto, o direito inalienável à vida é o primaz o qual gera diversas outras garantias. Uma garantia fundamental, como o direito à vida, não pode jamais ficar desprotegida e ser discutida.
            Alegam os defensores do aborto a difícil condição de muitas mães. A Igreja o compreende perfeitamente: “É verdade que, muitas vezes, a opção de abortar reveste para a mãe um caráter dramático e doloroso: a decisão de se desfazer do fruto concebido não é tomada por razões puramente egoístas ou de comodidade, mas porque se quereriam salvaguardar alguns bens importantes como a própria saúde ou um nível de vida digno para os outros membros da família. Às vezes, temem-se para o nascituro condições de existência tais que levam a pensar que seria melhor para ele não nascer. Mas essas e outras razões semelhantes, por mais graves e dramáticas que sejam, nunca podem justificar a supressão deliberada de um ser humano inocente” (n. 58). E, usando da prerrogativa da infalibilidade, o Papa define: “declaro que o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal” (S. João Paulo II, Enc. Evangelium Vitae, nn. 58 e 62).  

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

terça-feira, 24 de julho de 2018

O AMOR A DEUS



O primeiro e o máximo mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas. É sumamente útil e necessário conhecermos bem este assunto.

Em primeiro lugar, devemos  distinguir dois elementos no amor: a complacência e a benevolência. Que é complacência? Vamos dar exemplo do que acontece com o amor entre pessoas aqui na terra e depois aplicaremos subindo até Deus. Assim, as qualidades dos entes queridos nos enlevam: eis aí a complacência. Agora, queremos bem àquelas pessoas cujos dotes nos cativam: eis aí a benevolência. E nosso amor de complacência e de benevolência deve ser afetivo e efetivo. Há amor afetivo quando suscitamos no nosso coração, tais sentimentos tanto de complacência como de benevolência. E, desde já devemos saber que este amor afetivo para com Deus se exerce e se dilata na oração.

Mas, caríssimos, este amor afetivo só será sincero se for acompanhado do amor efetivo, ou seja, é mister que opere e que realmente sirvamos a Deus. Em outras palavras, o nosso amor deve ser provado pela prática das virtudes. Portanto o amor interno deve ser manifestado externamente e é assim que conhecemos  inclusive o seu valor exato. Como disse o Divino Mestre: "Não é aquele que diz Senhor, Senhor, que vai entrar no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu". Diz também: "Quem me ama, guarda os meus mandamentos, faz o que eu mando". Portanto, querer julgar a intensidade do amor apenas pelo surtos do coração é expor-se a ilusões. É na renúncia da própria vontade e na aceitação amorosa e inteira da vontade divina, que encontramos a prova inconteste do lídimo amor de Deus. Se o amor perfeito não pode nascer nem crescer sem o exercício da oração e a prática constante do amor afetivo, tão pouco se pode desenvolver sem as obras, sem a luta generosa contra os nossos defeitos e a fidelidade às virtudes cristãs.

E que vem a ser AMOR PERFEITO a Deus? Caríssimos, devemos evitar dois extremos: Não se trata apenas de um ato PASSAGEIRO de caridade perfeita; isto seria uma resolução sincera de evitar todo pecado mortal, a fim de não ofender o Deus infinitamente bom, infinitamente digno de amor. Na verdade, esta disposição basta à alma para alcançar o perdão das faltas graves e recuperar a graça santificante que perdera, desde que acompanhada do desejo de receber o sacramento da Penitência. Não é permitido, porém comungar, sem antes se confessar. Se Jesus chamar esta pessoa repentinamente sem ter condição de se confessar, ela se salva. Mas este ato passageiro de caridade perfeita não é ainda o AMOR PERFEITO  a Deus, de que falamos aqui. Por outro lado, devemos excluir o outro excesso, isto é, que não haja nenhuma interrupção nem desfalecimento para que o amor fosse perfeito. Na realidade seria exigir um amor que só será possível no céu. Assim sendo, devemos dizer que uma alma atinge o amor perfeito a Deus aqui na terra, quando se encontra na disposição habitual de renunciar a tudo quanto lhe possa arrefecer o ardor da caridade. Portanto, significa não ter nenhum apego voluntário, nem às faltas ligeiras, nem às imperfeições; quando se propõe a fazer, em tudo, o que Deus quer, e como Deus quer. E prestemos bastante atenção neste particular: esta resolução não pode ser fruto de um ímpeto de entusiasmo, em que a sensibilidade tem grande parte, mas deve ser uma determinação calma, firme e constante da vontade. Conhece as dificuldades, mas sabe vencê-las, porque não há nada mais forte do que o amor perfeito.

Então, resumindo: O amor perfeito a Deus supõe que a alma esteja sempre na presença de Deus. Pelo menos, o pensamento da pessoa se volta frequentemente para Deus. O amor perfeito supõe, portanto, um amor afetivo intenso e freqüente; supõe também um amor efetivo, generoso, habitual, e devemos dizer que também supõe um amor delicado. Porque daria provas de amor vulgar  e um tanto interesseiro, quem não soubesse prestar serviços a um amigo sem deixar perceber o que isso lhe custa. Na realidade, o verdadeiro amor nunca pensa fazer bastante para o ente amado, desprezando suas fatigas e seus trabalhos; raramente fala de seus sacrifícios, e, se falar, é para dizer que é pouca coisa e que está pronto a fazer outros, maiores ainda.

Não há meio melhor para compreendermos bem o que vem a ser o amor perfeito a Deus do que lendo a vida dos santos, porque, na verdade, é neste amor perfeito, onde se procura fazer sempre a vontade de Deus, que encontramos a verdadeira santidade. Amém!

segunda-feira, 16 de julho de 2018

NOSSA SENHORA DO CARMO

NOSSA SENHORA DO CARMO
                                                                                                Dom Fernando Arêas Rifan *

Uma data importante no mês de julho, dia 16, é a festa de Nossa Senhora do Carmo ou do Monte Carmelo, em cuja novena preparatória estamos.
            Quase na divisa com o Líbano, o monte Carmelo, com 600 metros de altitude, situa-se na terra de Israel. “Carmo”, em hebraico, significa “vinha” e “El” significa “Senhor”, donde Carmelo significa a vinha do Senhor. Ali se refugiou o profeta Elias, que lá realizou grandes prodígios, e depois o seu sucessor, Eliseu. Eles reuniram no monte Carmelo os seus discípulos e com eles viviam em ermidas. Na pequena nuvem portadora da chuva após a grande seca, Elias viu simbolicamente Maria, a futura mãe do Messias esperado. 
            Assim, Maria foi venerada profeticamente por esses eremitas e, depois da vinda de Cristo, por seus sucessores cristãos, como Nossa Senhora do Monte Carmelo. 
            No século XII, os muçulmanos conquistaram a Terra Santa e começaram a perseguir os cristãos, entre eles os eremitas do Monte Carmelo, muitos dos quais fugiram para a Europa. No ano 1241, o Barão de Grey da Inglaterra retornava das Cruzadas com os exércitos cristãos, convocados para defender e proteger contra os muçulmanos os peregrinos dos Lugares Santos, e trouxe consigo um grupo de religiosos do Monte Carmelo, doando-lhes uma casa no povoado de Aylesford. Juntou-se a eles um eremita chamado Simão Stock, inglês de família ilustre do condado de Kent. De tal modo se distinguiu na vida religiosa, que os Carmelitas o elegeram como Superior Geral da Ordem, que já se espalhara pela Europa.
 
            No dia 16 de julho de 1251, no seu convento de Cambridge, na Inglaterra, rezava o santo para que Nossa Senhora lhe desse um sinal do seu maternal carinho para com a Ordem do Carmo, por ela tão amada, mas então muito perseguida. A Virgem Santíssima ouviu essas preces fervorosas de São Simão Stock, dando-lhe, como prova do seu carinho e de seu amor por aquela Ordem, o Escapulário marrom, como veste de proteção, fazendo-lhe a célebre e consoladora promessa: “Recebe, meu filho, este Escapulário da tua Ordem, que será o penhor do privilégio que eu alcancei para ti e para todos os filhos do Carmo. Todo aquele que morrer com este Escapulário será preservado do fogo eterno. É, pois, um sinal de salvação, uma defesa nos perigos e um penhor da minha especial proteção”. 
            O Papa Pio XII, em carta a todos os carmelitas (11/2/1950), escreveu que entre as manifestações da devoção à Santíssima Virgem “devemos colocar em primeiro lugar a devoção do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo que, pela sua simplicidade, ao alcance de todos, e pelos abundantes frutos de santificação, se encontra extensamente divulgada entre os fiéis cristãos”. Mas faz uma advertência sobre sua eficácia, para que não seja usado como superstição: “O sagrado Escapulário, como veste mariana, é penhor e sinal da proteção de Deus; mas não julgue quem o usar poder conseguir a vida eterna, abandonando-se à indolência e à preguiça espiritual”. 
                                                   *Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
                                                                        http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

REGRA "PRIMITIVA' da Ordem da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo

Como neste carmelo, pela graça de Deus, vamos seguir na íntegra a Sagrada Tradição da Santa Madre Igreja e também da Ordem Carmelitana, pensei em levar ao conhecimento de todos, especialmente daquelas que se sentem chamadas à vida de carmelita, a Regra "Primitiva" de Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém. Pois, nela se inspirou Santa Teresa d'Ávila para reformar a Ordem Carmelitana.


Carmelo construído pelo Padre Elcio Murucci em Varre-Sai, RJ-Brasil

1.     Alberto, por graça de Deus, Patriarca de Jerusalém, aos queridos filhos em Cristo B(rocardo) e demais religiosos eremitas que vivem debaixo da sua obediência no Monte Carmelo, junto à fonte (de Elias) , saúde no Senhor e bênção do Espírito Santo.

2.     Em diferentes ocasiões e de diversas maneiras (cf.Hb 1,1) os santos Padres estabeleceram de que forma cada um, em qualquer Ordem ou modo de vida religiosa que escolha, haja de viver em obséquio de Jesus Cristo (cf. 2Cor 10,5), servindo-o fielmente com puro coração e reta consciência (cf. 1Tm 1,5). Mas como nos pedis que, segundo o vosso propósito, vos demos uma fórmula de vida que estejais obrigados a guardar daqui por diante.

3.     Determinamos primeiramente que tenhais um de vós mesmos por Prior, o qual seja eleito para este ofício por unânime consentimento de todos, ou da maior e mais qualificada parte, ao qual cada um de vós prometa obediência; e depois de a ter prometido, procure verdadeiramente guardá-la com as obras (cf. Jo 3,18) com castidade e pobreza. 

4.    Podereis habitar nos ermos ou lugares que vos forem dados, dispostos e acomodados para a observância de vossa Religião, segundo o que parecer mais conveniente ao Prior e aos Religiosos.

5.     Além disso, no sítio em que houverdes de habitar, cada um de vós tenha uma cela individual separada, conforme lhe for assinalada por ordem do mesmo Prior, com o consentimento dos demais irmãos ou da parte mais prudente.

6.     Todavia tomareis, num refeitório comum, os alimentos que vos forem dados, ouvindo todos juntos uma lição da Sagrada Escritura, onde isto comodamente se possa observar.

7.     A nenhum  irmão seja lícito, sem licença do Prior atual, mudar ou trocar com outro o lugar que lhe foi designado.
        A cela do Prior esteja à entrada do convento, para que ele seja o primeiro que acorra a receber os que a ele vierem, e de seu arbítrio e disposição dependa tudo o que se houver de fazer.

8.     Permaneça cada um na sua cela ou junto dela, meditando dia e noite na lei do Senhor (cf. Sl 1,2; Js 1,8) e velando em oração (cf.Pd 4,7), a não ser que se ache legitimamente ocupado em outros afazeres.

9.     Os que souberem recitar as Horas canônicas com os clérigos as recitarão conforme os estatutos dos santos Padres e o costume pela Igreja aprovado.
         Aqueles que as não souberem recitar dirão por Matinas vinte e cinco vezes o Pai-Nosso, exceto nos domingos e festas solenes, em cujas Matinas determinamos que se dobre o dito número, de sorte que se diga o Pai-Nosso por cinqüenta vezes. Pelas Laudes matutinas, dir-se-ão sete e outras tantas por cada uma das outras Horas, exceto Vésperas, pelas quais se rezará quinze vezes a dita oração.

10.    Nenhum irmão diga que tenha alguma coisa própria, mas tudo entre vós seja comum (cf. At 4,32; 2,44)e se distribua por mão do Prior ou do irmão por ele escolhido para esse ofício,  dando a cada um o que lhe faltar (cf. At 4,35), ponderando as idades e necessidades de cada um.

11.    Ser-vos-á lícito, porém, ter jumentos ou mulos, segundo o pedir a vossa necessidade, como também alguns animais ou aves para a nutrição.

12.    Edifique-se uma capela no meio das celas, onde mais comodamente for possível, na qual deveis reunir-vos todos os dias de manhã para ouvir missa, onde isso comodamente se puder fazer.

13.    Nos domingos ou em outros dias, sendo necessário, tratareis da conservação da Ordem e da saúde das almas, onde também, mediante a caridade, sejam corrigidos os excessos e culpas em que os irmãos tiverem incorrido.

14.    Jejuareis todos os dias, exceto nos domingos, desde a festa da Exaltação da Santa Cruz até o dia da Ressurreição do Senhor, caso alguma enfermidade ou debilidade do corpo, ou outra justa causa não persuada a que se deixe o jejum, porquanto a necessidade não tem lei.

15.    Abster-vos-eis de comer carne, não sendo para remédio de enfermidade ou debilidade do corpo.
         Mas porque vos é necessário mendigar com mais freqüência, para que não sejais incômodos e pesados às pessoas que vos hospedarem, quando fizerdes jornada podereis, fora de vossas casas, comer coisas cozidas com carnes; e, navegando, ser- vos-á lícito, no mar, o uso da carne.

16.    Porque a vida do homem sobre a terra é uma contínua tentação (cf. Jó 7,1) e os que piamente querem viver em Cristo padecem perseguições (cf. 2Tm 3,12), e também porque o demônio , vosso adversário, como um leão rugindo, anda em continuado giro, buscando a quem devorar (cf. 1Pd 5,8), procurai com o maior cuidado  vestir-vos das armas de Deus para poderdes resistir a seus assaltos (cf. Ef 6,11).
     Cingi , pois, os vossos corpos com o cinto da castidade (cf. Ef  6,14) e fortalecei vosso peito com pensamentos santos, pois está escrito: "A consideração santa te guardará" (cf. Pr 2,11 segundo os LXX). Deveis vestir a couraça da justiça (cf. Ef 6, 14) para que, com todo o vosso coração, com toda a vossa alma e com toda a vossa fortaleza, ameis o Senhor vosso Deus (cf. Dt 6, 5) e ao próximo como a vós mesmos (cf. Mt 19,19; 22, 37, 39).
     Em todas as ocasiões haveis de armar-vos com o escudo da fé, com a qual possais rebater e extinguir os incendidos golpes do inimigo (cf. Hb 11,6), Ponde sobre vossa cabeça o capacete da salvação (cf. Ef. 6, 17) para que só do Salvador, que salva o seu povo de todos os pecados, espereis salvação (cf. Mt 1, 21).
     A espada, porém, do espírito, que é a palavra de Deus (cf. Ef 6,17), esteja sempre abundantemente ( cf. Cl 3,16) em vossa boca e em vossos corações (cf. Rm 10,8), e tudo quanto fizerdes, fazei-o em nome do Senhor (cf. Cl 3,17; 1Cor 10,31).

17.    Deveis também empregar-vos em algum trabalho, para que o demônio vos ache sempre ocupados e não tome ocasião de vossa ociosidade para entrar em vossas almas. Para isso, tendes a instrução e o exemplo do Apóstolo São Paulo, por cuja boca falava Jesus Cristo (cf. 2Cor 13,3), o qual Deus constituiu pregador e doutor das gentes em fé e verdade (cf. 1Tm 2,7), e seguindo os seus passos não podereis errar.
    "Em trabalho e fadiga", diz ele, "estivemos entre vós, trabalhando de dia e de noite para não sermos de algum peso ou incômodo. Não porque o não pudéssemos fazer, mas para vos dar exemplo do que deveis imitar. Isto mesmo vos intimávamos quando, estando convosco, vos dizíamos que quem não quer trabalhar não coma. E porque temos ouvido entre vós que alguns andam ociosos, sem trabalhar coisa alguma, a estes admoestamos e regamos em Nosso Senhor Jesus Cristo que, trabalhando em silêncio, comam o seu pão" (cf. 2Ts 3,7-12). Este caminho é bom e santo, caminhai por ele (cf. Is 30,21).

18.    Recomenda o Apóstolo o silêncio quando nele mesmo manda trabalhar (cf. 2Ts 3,12), assim como o Profeta testifica que o culto da justiça é o silêncio (cf. Is 32,17), e noutro lugar: "No silêncio e na esperança estará a vossa fortaleza" (cf. Is 30, 15).
     Por isso determinamos que,  depois das Completas, guardeis silêncio até o fim da Prima do seguinte dia. No mais tempo, ainda que não seja tão rigorosa a sua observância, contudo se evite com diligência todo o excesso no falar, pois está escrito e ensina a experiência: "No muito falar não faltará pecado" (cf. Pr 10,19). E: "Quem é inconsiderado em suas palavras experimentará danos" (cf. Pr 13,2). E também: "Aquele que fala muito ofende a sua alma" (cf. Eclo 20,8). E o Senhor diz no Evangelho: "De toda palavra ociosa que os homens disseram darão conta no dia do Juízo" (Mt 12,36).
     Faça, pois, cada um de vós uma balança para as suas palavras, e freios retos para a sua boca, a fim de não pecar e cair pela sua língua, de sorte que seja incurável e mortal a sua queda (cf. Eclo 28,29e 30); guarde com o Profeta os seus caminhos para que não peque com a sua língua (cf. Sl  38,2), e procure com diligência e cautela guardar o silêncio, no qual está todo o culto da justiça (cf. Is 32,17).

19.    Tu, porém, B(rocardo), e qualquer outro que depois de ti for eleito Prior, tem sempre na lembrança e põe por obra o que o Senhor diz no Evangelho: "Todo aquele que quiser ser o maior entre vós será vosso ministro, e o que entre vós quiser ser o primeiro será vosso servo" (Mc 10, 43-44; cf. Mt 20, 26-27).

20.     Vós também, demais irmãos, honrai com humildade o vosso Prior, considerando nele Jesus Cristo, que o pôs sobre vossas cabeças e diz aos Prelados da Igreja: "Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza a mim despreza" (Lc 10,16), para que não sejais julgados pelo desprezo, mas para que mereçais, pela obediência, o prêmio da vida eterna.

21.     Tudo isto vos escrevemos brevemente, determinando a forma e regra do vosso Instituto, conforme a qual deveis viver. Mas, se alguém fizer mais alguma coisa do que isto, o Senhor, quando vier a julgar, dar-lhe-á a paga. Use-se, porém, de discrição, que é a reguladora das virtudes.

Observação: Esta regra foi entregue por Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém, aos Carmelitas, entre os anos de 1206 e 1214. Aprovou-a primeiramente Honório III em 30 de janeiro de 1226. Logo a sancionaram Gregório IX, em 6 de abril de 1229, e Inocêncio IV, em 8 de junho de 1245. Por fim, ratificou-a este último Pontífice em 1º de outubro de 1247. Seguimos aqui o texto como presente na bula "Quae honorem Conditoris (Reg. Vat. 21, ff. 465v-466r). As citações bíblicas foram acrescentadas. Faltam também  no Registro original, os números dos artigos.
    

O ESCAPULÁRIO DE NOSSA SENHORA DO CARMO



Quero falar aqui do escapulário reduzido, o que se compõe de dois pedacinhos de lã de cor marrom e que hoje quase sempre vêm acompanhados com as imagens do Sagrado Coração e da de Nossa Senhora do Carmo.

Através deste escapulário que deve ser trazido sempre pendente do pescoço e, com ele, deve-se morrer, o devoto de Nossa Senhora, não só se consagra a Ela diante do altar, demonstrando assim o seu íntimo amor à Mãe de Deus, mas também, através do escapulário, está sempre declarando publicamente este seu amor à sempre Virgem Maria. Ainda que a essência da devoção deva ser interior, é claro que aquela pessoa que recebe o escapulário e o traz ao pescoço com devoção, mostra, outrossim, que se gloria de trazer o hábito da Mãe de Deus, de lhe pertencer, de a respeitar como Rainha, e de a amar como Mãe.

Ademais, enquanto as nossas práticas piedosas são subordinadas a tempos e a lugares, a devoção do escapulário é de todos os lugares e momentos. Trazendo sempre este meu  hábito, pequeno no tamanho mas grande no significado e nos privilégios, em qualquer parte que eu esteja, qualquer que seja a minha ocupação, Maria Santíssima vê sempre pendente do meu pescoço a prova autêntica do meu apego ao seu culto e do meu amor a Ela.  Em toda parte e sempre a honro, e lhe dirijo súplicas, porque em toda parte e sempre o meu escapulário lhe fala por mim, me recomenda à sua ternura, e lhe diz que a amo e que lhe confio toda minha vida, todos os meus empreendimentos, e, especialmente a salvação de minha alma. O meu escapulário está sempre lembrando a Maria Santíssima que ela peça ao seu divino Filho que transforme a água da minha tibieza no vinho do amor fervoroso a Deus; que alcance para mim junto ao seu Filho a graça de fazer sempre o que Ele manda.
Vamos, com a graça de Deus, meditar um pouco sobre os privilégios do escapulário, ou seja, sobre as três graças inapreciáveis:  defender-me nos perigos durante minha vida;  ajudar-me a bem morrer; e proteger-me depois da morte no purgatório.

1 - DEFENDER-ME NOS PERIGOS: e sobretudo naqueles perigos que ameaçam a minha salvação. Sabemos que, como ensina S. Pedro, o demônio, nosso adversário, anda em torno de nós, rugindo e procurando nos devorar, isto é, perder nossa alma. O demônio é invejoso e homicida desde o início do mundo. Mas, a Santíssima Mãe de Deus sempre foi sua inimiga e sempre lhe esmaga a cabeça. Portanto, se Maria Santíssima me protege, que tenho eu que recear? Estou seguro debaixo do seu manto maternal. Que consoladora certeza! Caríssimos, conheceremos um dia, todos os dardos envenenados que o demônio lançou sobre nós, mas que Maria Santíssima os quebrou antes. Conheceremos também um dia todas as tentações, cuja veemência ela terá diminuído, em atenção a este penhor do meu amor para com ele; quantas vezes, depois das minhas quedas, me terá preservado do desalento mais funesto que estas mesmas quedas.

2 - NOSSA SENHORA PROMETE SALVAR-ME: "Aquele que morrer revestido deste hábito, será preservado das chamas eternas". Estas palavras significam que Maria Santíssima nos garante o Céu. Eis as suas palavras na bula do Papa João XXII, conhecida pelo nome de SABBATINA: "Tempus bene vivendi; Locum bene agendi; constantiam bene perseverandi". Em Português: tempo de bem viver, ocasião e meio de fazer boas obras; constância para perseverar na justiça, isto é, na prática das virtudes e no estado de graça. "Tudo o que a Igreja pede para ti, quando te admite na minha confraria - disse Nossa Senhora na aparição ao Papa João XXII - te será dado a meu rogo: tempo de bem viver, ocasião e meio de fazer boas obras, constância para perseverar na justiça. Ainda quando tenhas a desgraça de incorrer no desagrado de meu Filho ofendendo-O, não te abandonarei, se vir pendente do teu pescoço o sinal da minha aliança. Tirarei para ti dos tesouros divinos uma graça tão eficaz, que comoverá teu coração e o transformará. A não ser que, resistindo obstinadamente a todos os esforços da minha ternura, me obrigues a expulsar-te da minha família, e a privar-te do meu escapulário, a minha bondade para contigo chegará a tal ponto, que, purificado pelos sacramentos ou pelo ato de contrição, te livrarás das penas eternas, se morreres tendo este santo hábito ao pescoço". É bom sabermos que o Papa Bento XIV e um grande número de outros papas, entenderam que deviam preconizar estes favores e exortaram os fiéis a trazer o escapulário; podemos citar os seguintes papas: Alexandre V, Clemente VII, Paulo III, S. Pio V, Gregório XIII, Paulo V, Clemente X, Inocêncio XI, etc.

3 -  MARIA SS. PROMETE PROTEGER-ME EFICAZMENTE NO PURGATÓRIO E ABREVIAR A SUA DURAÇÃO. Visitará, segundo a sua promessa, os confrades do Carmo na triste morada, onde acabarão de expiar as suas faltas; como duvidar que este visita lhes leve refrigério, luz e paz? Além disso ela o declara: "Quando tiverem deixado o século presente e entrado no purgatório, eu descerei, como sua terna Mãe, ao meio deles no sábado seguinte à sua morte; livrarei aqueles que lá encontrar, e os conduzirei à montanha santa, à feliz morada da vida eterna". Estas palavras estão também na bula "SABBATINA" do Papa João XXII.

Caríssimos, vejamos agora como praticar esta devoção do escapulário para merecermos tão insignes favores de nossa Mãe do Céu? Para alcançar o privilégio de uma boa morte é necessário entrar nesta confraria, recebendo e trazendo o escapulário, e tê-lo pendente do pescoço na hora da morte. Para gozar do privilégio da bula SABBATINA,  além das condições precedentes, exige-se que o confrade guarde a castidade própria do seu estado, reze o pequeno Ofício da Santíssima Virgem ou faça abstinência de carne nas quartas-feiras e sábados (evidentemente também nas sextas-feiras pelo mandamento da Igreja); caso não puder, por justa causa, fazer esta abstinência, reza-se no dia um terço por comutação; e, quando não puder nunca fazer abstinência da carne, então, deve rezar todos os dias, sete Padres-Nossos e sete Ave-Marias. Devemos observar ainda que a antiga Congregação das Indulgências , 12 de agosto de 1840 e depois em 22 de junho de 1842 etc. permite que os sacerdotes que impõem o escapulário deem outras comutações.

Caríssimos, o santo hábito da Virgem Imaculada prega-me a inocência e a fuga de todo o pecado. Ele está sempre me exortando a regular os meus passos, a velar sobre todas as minhas ações, a purificar todas as minhas intenções, a nada omitir de tudo quanto pode contribuir para a minha santificação e para a edificação do próximo. Mas, pergunta-se: se alguém tiver a fraqueza de faltar com estas condições ou, pelo menos, com alguma delas, como por exemplo a castidade segundo o próprio estado, como fazer? Ou estaria tudo perdido? Se alguém tiver esta desgraça, peça a Jesus através de Sua Mãe Santíssima, a graça de fazer uma santa confissão, e continue vigiando, fazendo penitência e rezando para alcançar a graça da perseverança.

Ó Maria Santíssima, seja sempre o vosso hábito o meu adorno e a minha defesa. Esteja eu dele revestido na hora da morte; seja para mim agora uma veste de justiça, para se transformar um dia em veste de glória e imortalidade feliz. Amém!

ORIGENS DA ORDEM CARMELITANA

Era o ano 860 antes de Cristo. As Sagradas Escrituras no 1º Livro dos Reis, XVIII, 16 a 45 assim nos narram: "Acab saiu a encontrar-se com Elias. E, vendo-o, disse: Porventura és tu aquele que trazes perturbado Israel? Elias respondeu: Não sou eu que perturbei Israel, mas és tu e a casa de teu pai, por terdes deixado os mandamentos do Senhor, e por terdes seguido Baal. Mas, não obstante, manda agora, e faze juntar todo o povo de Israel no monte Carmelo, como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, os quatrocentos profetas dos bosques, que comem da mesa de Jezabel. Mandou, pois, Acab chamar todos os filhos de Israel e juntou os profetas no monte Carmelo.


  Elias, aproximando-se de todo o povo disse: Até quando claudicareis vós para dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o; se, porém, é Baal, segui-o. O povo não respondeu palavra. Elias tornou a dizer ao povo: Eu sou o único que fiquei dos profetas do Senhor; mas os profetas de Baal chegam a quatrocentos e cinquenta homens. Deem-nos dois bois: escolham eles para si um boi, e, fazendo-o em pedaços, ponham-no sobre a lenha, mas não lhe ponham fogo por baixo; eu tomarei o outro boi, pô-lo-ei sobre a lenha e também não lhe porei fogo por baixo. Invocareis vós os nomes dos vossos deuses, e eu invocarei o nome do meu Senhor. O Deus que ouvir, mandando fogo, esse seja considerado o ( verdadeiro ) Deus. Todo o povo, respondendo, disse: Ótima proposta. Disse, pois Elias aos profetas de Baal: Escolhei para vós um boi e começai vós primeiro, porque sois em maior número; invocai os nomes dos vossos deuses e não ponhais fogo por baixo.

  
Eles,pois, tomando o boi que lhes foi dado, sacrificaram-no, e invocaram o nome de Baal, desde manhã até o meio-dia dizendo: Baal, ouve-nos. Mas não se percebia voz, nem havia quem respondesse. E saltavam diante do altar que tinham feito. Sendo já meio-dia, Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou em viagem, ou dorme e necessita que o acordem. Eles, pois, gritavam em alta voz, e retalhavam-se segundo o seu costume, com canivetes e lancetas, até se cobrirem de sangue. Mas, passado o meio-dia, e enquanto eles profetizavam, chegou o tempo em que era costume oferecer-se o sacrifício, e não se ouvia voz, nem havia quem respondesse, nem ouvisse os seus rogos. Disse Elias a todo o povo: Aproximai-vos de mim. Aproximando-se o povo dele, Elias reparou o altar do Senhor, que tinha sido destruído. Tomou doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dirigira a sua palavra, dizendo: Israel será o teu nome. Com estas pedras edificou um altar em nome do Senhor. Fez um regueiro como dois pequenos sulcos, em volta do altar, acomodou a lenha, dividiu o boi em quartos, pô-lo sobre a lenha, e disse: Enchei de água quatro talhas, entornai-as sobre o holocausto e sobre a lenha. Disse outra vez: Fazei isto ainda segunda vez. E, tendo-o eles feito segunda vez, disse: Fazei ainda terceira vez, isto mesmo. Eles o fizeram terceira vez. As águas corriam em volta do altar e o regueiro encheu-se.

   Sendo já o tempo de se oferecer o holocausto, chegando-se o profeta Elias, disse: Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo aprenda que tu és o Senhor Deus e que converteste novamente o seu coração.

   O fogo do Senhor baixou do céu, devorou o holocausto, a lenha e as pedras, consumindo o mesmo pó e a água que estava no regueiro. Todo povo vendo isto, prostrou-se com o rosto em terra e disse: O Senhor é o Deus! O Senhor é o Deus! Elias disse-lhes: Apanhai os profetas de Baal, não escape deles nem um só. Tendo-os o povo agarrado, Elias levou-os à torrente de Cison, onde os matou.

   Elias disse a Acab: Vai, come e bebe, porque já se ouve o ruído duma grande chuva. Acab retirou-se a comer e beber; Elias, porém, subiu ao alto do Carmelo, e, inclinado por terra, pôs o seu rosto entre os joelhos, e disse ao seu criado: Vai e olha para o lado do mar. Tendo este ido e tendo olhado, disse: Não há nada. Elias disse-lhe segunda vez: Torna a ir sete vezes. À sétima vez, eis que se levanta do mar uma pequena nuvem, como a pegada dum homem. Disse-lhe Elias: Vai e dize a Acab: Manda atrelar os cavalos no seu carro e corre, não te apanhe a chuva.
   E, quando ele voltava para uma e para outra parte, eis que se cobriu o céu de trevas, vieram nuvens e vento e caiu uma grande chuva". Até aqui as palavras das Sagradas Escrituras. ( 1Reis, XVIII, 16 a 45 ).

   Esmagada que foi a cabeça do demônio que suscitara a idolatria, destruído aquele nefasto ecumenismo, exterminados os falsos profetas, apareceu no céu o sinal da Virgem, e na terra, terão início a sua Ordem e o seu culto, oitocentos e poucos anos antes de seu nascimento.

   Num futuro não tão longe, doutores da Igreja como Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São João Damasceno e outros, explicarão ao mundo como esta nuvenzinha, erguendo-se pura do mar amargo, e deixando atrás as impurezas do mar, é figura de uma Virgem Imaculada, que sairá pura do mar da humanidade, liberta de toda impureza do pecado original.

   Dois mil e cento e dez anos mais tarde, São Luiz IX, rei de França, ouviu falar da santidade de certos monges do Carmelo, dos quais alguns haviam emigrado para a Europa, por causa das vitórias dos sarracenos na Palestina. E São Luiz IX foi a Palestina , subiu o Monte Carmelo. Desejava conhecer aqueles monges que a si mesmos se denominavam Eremitas de Santa Maria do Monte Carmelo. Queria-os também em França e ficou maravilhado ao ouvir da boca daqueles monges o relato da tradição da Ordem. Dizem que são descendentes do profeta Elias. E este lhes ensinara que vira numa nuvem com a forma de pegada humana, que pelo poder divino, se levantara do mar, uma imagem profética da Virgem Maria Imaculada, a qual havia de trazer a salvação dos homens, e vencer o orgulho de satanás, com o seu calcanhar de humildade. Elias ensinara a seus discípulos a implorar a vinda desta Virgem, dizendo que a planta do pé que a nuvem apresentava manifestava em si a maldição divina contra o demônio. "Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência dela: tu armarás ciladas ao seu calcanhar e Ela esmagará a tua cabeça". ( Gen. III, 15 ).

   Contaram, também, a São Luiz IX que, na plenitude dos tempos, tendo aparecido a Virgem Imaculada, e depois da Encarnação do Verbo, a própria Virgem Maria se dignou visitá-los; e a Sagrada Família ao voltar de seu exílio de sete anos no Egito, havia descansado algum tempo com eles. Por eles fora construída ali no Monte Carmelo, a primeira capela do mundo dedicada à Mãe de Deus.

   São Luiz IX ficou edificado e cheio de reverência ao ver a santidade daqueles monges e ao ouvir este relato.

   E uns trinta anos antes da ida de São Luiz IX ao Monte Carmelo, alguns destes monges haviam se transferido para a Inglaterra. Ali tinha-se-lhes reunido um homem muito santo chamado Simão. Recebera o apelido de "stock"por ter vivido solitário na concavidade do tronco de uma árvore no interior de uma floresta inglesa, tal como Elias havia vivido nas grutas naturais do Carmelo.

   Dadas as perseguições,muitos carmelitas passaram para a Europa. Foi mister, então, nomear um Vigário Geral na Europa. Simão Stock foi o escolhido e, seis anos mais tarde foi eleito geral de todo Ordem.

  
O demônio que tem ódio a Maria Santíssima e a sua descendência, fomentou toda espécie de discórdias e perseguições tanto fora como dentro da Ordem do Carmelo. Vemos por isso no ano de 1251 Simão retirar-se para o Mosteiro de Cambridge, curvado sob o peso dos seus 90 anos e do de tantas provações. Ajoelhado na sua pequenina cela derrama a sua alma em ardentíssimos suspiros: "Flor do Carmelo, vinha florífera, esplendor do céu, virgem fecunda, singular. Ó Mãe benigna, sem conhecer varão, aos carmelitas dá privilégios, ó Estrela do mar"!

   E ao levantar os olhos velados pelas lágrimas, a cela enche-se-lhe de uma grande luz: Rodeada por uma multidão de anjos a Rainha do Céu desce até ele, trazendo na mão e Escapulário marrom castanho dos monges e diz-lhe;"Recebe filho queridíssimo, este hábito da minha Ordem: isto será para ti e para todos os carmelitas um privilégio. Quem morrer revestido dele não sofrerá o fogo eterno". Era o dia 16 de julho de 1251.

   A partir daí veio a paz, e a Ordem tornou-se objeto de simpatia no mundo inteiro. Eis Maria Santíssima esmagando a cabeça da infernal serpente.

   A Santa Madre Igreja reconhece o profeta Elias como o fundador da Ordem Carmelitana.Na Basílica de São Pedro no Vaticano, por ordem dos papas, foram colocadas as imagens de todos os santos fundadores de Ordens Religiosas. E, assim, lá foi colocada, por ordem do papa Bento XIII em 26 de junho de 1725, a imagem do Santo Profeta Elias, reconhecido por toda Ordem Carmelitana como o seu Fundador.






quinta-feira, 5 de julho de 2018

TOTAL CONFORMIDADE DE NOSSA VONTADE COM A DE DEUS



A vontade de Deus é a do Senhor; a minha é a do servo. A vontade de Deus é infinitamente esclarecida; a minha é sujeita a erros sem conta. A vontade de Deus é a mesma santidade e nunca muda; a minha é depravada, inconstante, capaz de todo o mal. É justo, portanto, que eu me deixe dirigir pela vontade de Deus, submetendo-Lhe a minha. A união da nossa vontade com a de Deus, ou melhor dizendo, a fusão da nossa vontade na de Deus, de tal modo que a nossa desaparece, ficando só a vontade divina,  digo, isto é algo sumamente admirável, sublime e santo. Aliás, é a mesma santidade. E aqui, logo nossos olhos, nosso pensamento, se voltam para a Mãe de Deus, pois, entre as simples criaturas humanas (porque Jesus é também Deus) Maria é santíssima justamente, porque mais do que qualquer outro santo, uniu sua vontade à de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra".

Depois da união da natureza humana com a divina, que adoramos em Jesus Cristo, e da união da maternidade  com a virgindade, que honramos em Maria Santíssima, não há nenhuma mais admirável que a da nossa vontade com a do Senhor. Parece que Deus queria mostrar-nos a alegria que lhe causa este sacrifício da nossa vontade à sua, quando disse: "Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, e que fará todas as minhas vontades" (Atos XIII, 22). Este abandono filial, que nos entrega inteiramente nas mãos de Deus, é a mais bela vitória da graça sobre a nossa vontade, sem ofender o nosso livre arbítrio. Este triunfo da graça sobre a vontade humana, é sem nenhum prejuízo da sua liberdade, porque o vencido quer sê-lo, e se julga infinitamente obrigado para com o seu vencedor. Estou consciente de que assim Deus livra-me de qualquer outra sujeição, para só depender d'Aquele, cujos servos são outros tantos reis, eleva-me até à vida dos Anjos, até à vida de Jesus Cristo, que é a vida do mesmo Deus. Caríssimos, pode haver algo mais honroso?! Diz o Espírito Santo: "Bendizei o Senhor, vós todos os seus anjos, que sois poderosos e fortes, que sois executores da sua palavra, prontos para obedecer à voz das suas ordens" (Salmo 102, 20 e 21). Que honra para quem se conforma com a vontade divina! Eleva-se à altura dos Anjos, cujo único móvel é a vontade de Deus. Mas, há algo mais sublime ainda: adquiro uma admirável semelhança, uma espécie de parentesco com Jesus Cristo, o Rei dos Anjos. Elevo-me até Deus, tomando a sua vontade por norma da minha. Querendo o que Deus quer, como Ele o quer, porque o quer, tenho o mesmo alimento que o Salvador: "Meu alimento é que eu faça a vontade d'Aquele que me enviou" (S. João IV, 34).

Pela total conformidade de nossa vontade à vontade de Deus, participamos de dois atributos divinos, que parecia que a nossa fragilidade nunca poderia alcançar: a infalibilidade e a impecabilidade; porque, quando faço a vontade do Senhor e obedeço à direção de sua suma sabedoria, posso enganar-me? Quando procedo conforme com a santidade infinita, posso pecar? Por tudo isto devemos concluir que o maior empenho em nossa vida espiritual dever ser o de conformar inteiramente e sempre a nossa vontade com a vontade de Deus.

Ademais, querendo sempre o que Deus quer, pratico todas as virtudes: a fé, a confiança, a mortificação, a paciência, a humildade. E pratico-as pelo motivo mais excelente, isto é, o amor e o amor mais puro. E assim, querer o que Deus quer, é amá-Lo como Ele se ama, é querer-Lhe todo o bem que Ele quer a si, e do modo que Ele quer. Caríssimos, quão agradável é encontrar a santidade em uma só virtude que posso praticar a cada instante, e que enche a alma de uma suavidade celeste!
Finalmente, com esta virtude da conformidade com a vontade de Deus, livro-me de todo o mal, e tenho todo bem que desejo. Não mais mal moral, não mais pecado, pois o pecado não é senão a oposição à vontade divina. Não mais mal no ordem natural; porque um sofrimento que eu amo, que me agrada, que eu desejo, longe de ser um mal para mim, é um bem. Refugiando-me na vontade de Deus, evito todos os verdadeiros males.

Digamos com Santa Teresa d'Ávila: "Ó Senhor meu, misericórdia minha e Bem meu, que posso desejar de melhor na terra do que estar de tal maneira unida a Vós que não haja divisão alguma entre Vós e eu?" Amém!

terça-feira, 3 de julho de 2018

A VIRTUDE DA HUMILDADE



"Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes! (S. Tiago IV, 6; 1 S. Pedro V, 5).

Por estas palavras do divino Espírito Santo, podemos concluir que, sem humildade não se chega ao céu, pois para se salvar é necessária a graça de Deus. E prestemos bem atenção nestas palavras: "Deus resiste aos soberbos", porque se, de um lado Deus dá a graça aos humildes, por outro, RESISTE aos soberbos. Ora, ser resistido por Deus é coisa muito séria. Donde se, fazendo um exame de consciência, alguém chegar à conclusão que é orgulhoso deve empregar todo empenho, todos os meios para combater a soberba e, conseguintemente, adquirir a virtude da humildade. São Gregório escreveu uma palavra que deveria fazer tremer a todos aqueles que não são humildes: "O sinal mais evidente da reprovação é o orgulho". Na verdade, quando este pecado não condena diretamente por si mesmo os homens que o cometem, condena-os por uma multidão de obras más que nascem dele como de uma fonte envenenada. Aliás, a característica deste vício capital é a estreita conexão que tem com os outros vícios. E podemos dizer que assim como a virtude da humildade está presente em todas as outras virtudes, assim também o orgulho está de uma maneira ou outra, ligado intrinsecamente a todos os pecados. E lamentamos como poucas pessoas julgam o orgulho tão nocivo, como efetivamente é. E assim muitos não o combatem e o acolhem sem desconfiança e pior, há pessoas que, dentro de certas entidades, confundem-no à fortaleza de alma no escopo de pretensamente combater o respeito humano. E o demônio empurra tais pessoas para o fanatismo. E não há quem os possa convencer mesmo citando as Sagradas Escrituras e os Santos Padres! E esta disposição, que por certo não é rara, é nimiamente perigosa. Por exemplo: separe-se um homem da Igreja pela heresia, e todos dizem: "o infeliz perdeu a fé". É verdade, mas antes de perder a fé, tinha perdido a humildade; e foi por não querer submeter humildemente seu juízo ao da Igreja, que arvorou o estandarte da rebelião.  Que horror, caríssimos, se, esquecendo do nada que é, o homem se deixar dominar pelo orgulho, odioso vício que o Divino Salvador tem em especial abominação: "O que é excelente segundo os homens, é abominação diante de Deus" (S. Lucas XVI, 15).

Todo o edifício de nossa santificação deve estar construído sobre um alicerce sólido, sobre a rocha. Esta rocha é o conhecimento de si mesmo, que leva o homem a fazer-se justiça, a colocar-se no seu lugar, a ser humilde. A humildade é verdade e é justiça. Vamos explicá-lo: A humildade é o justo juízo que de nós mesmos fazemos, e segundo o qual pautamos a estima de nossa própria excelência. Esta virtude faz que, reconhecendo-nos tais como somos, não nos arroguemos a nós mesmos, nem queiramos que os outros nos arroguem senão o que nos é legitimamente devido. Se, pois, descobrimos que em nós não há, como procedente de nós, bem algum, perfeição nenhuma, seja natural ou sobrenatural, requer a humildade que, restringindo-nos ao nada que é nosso apanágio, nos remontemos até Deus, a quem é devida toda a honra e glória.

Devemos observar, porém, que ninguém é humilde por haver compreendido que é nada, que de si próprio nada se tem. Os filósofos da antiguidade haviam  reconhecido esta verdade, e eram soberbos; a vista da sua baixeza e do seu nada irritava-os e revoltava-os. O primeiro elemento da humildade é este: reconhecer o nosso nada. Esta é a verdade. Mas a humildade não é só isto que está na inteligência. Ela tem sua base na vontade: ela é justiça e assim faz-nos aceitar o que nós merecemos; leva-nos a comprazer-nos nisso, como no que por justiça nos toca. Infere-se daqui que a humildade é uma virtude baseada na verdade conhecida, amada, abraçada com todas as suas consequências, por amor à ordem e à justiça.

Em cima: Fé e humildade do Centurião
A humildade é o fundamento de todas as virtudes, como o orgulho a fonte de todos os vícios. Assim, o maior perigo do orgulho não consiste tanto na falta, que faz cometer contra a humildade, como nas graças, de que priva, e nos numerosos vícios a que conduz infalivelmente suas vítimas. Infelizmente a terra está cheia desses mundanos soberbos, que são verdadeiramente idólatras, e idólatras de si mesmos. Quando estão sós, concentrados em seu espírito, com em santuário profano, colocam-se em face de sua própria excelência e, de turíbulo na mão, admiram-se, extasiam-se  e gabam-se de seu pretendido mérito, preferem-se àqueles com quem se comparam, estão ali diante de seu ídolo, como o selvagem do deserto diante do sol, a quem adora. Pensam só em si mesmos! Deus é como se não existisse!

Devemos concluir que quanto mais uma pessoa é humilde, tanto mais é justa, tanto mais é santa, tanto mais é perfeita. Há, portanto, na humildade tantos graus, como na mesma santidade. No próximo artigo, se Deus quiser, falaremos dos graus da humildade.

Caríssimos, sejamos humildes, sejamo-lo profundamente. Expulsemos do nosso espírito todo o pensamento, todo o sentimento que tiver por origem o orgulho. Esqueçamo-nos de nós mesmos para não pensar senão em Deus. Oponhamos incessantemente às vãs concepções de nosso orgulho o pensamento de nossa miséria e de nossa indignidade.

Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo perfeito de todas as virtudes, mas quis dar toda ênfase sobre a humildade e a mansidão (aliás gêmeas): " Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!" (S. Mat. XI, 29).

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

segunda-feira, 2 de julho de 2018

A SANTIDADE E O ECUMENISMO


"Que relação tem um homem santo com um cão?"

"Não deis aos cães o que é santo" (S. Mateus, VII, 6).

"Não vos sujeiteis ao mesmo jugo que os infiéis. Pois, que união pode haver entre a justiça[santidade]e a iniquidade? Que sociedade entre a luz e as trevas? E que concórdia entre Cristo e Belial? E que relação entre o templo de Deus e os ídolos? Com efeito, vós sois o templo de Deus vivo, como Deus diz: 'Eu habitarei neles e andarei entre eles, serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Portanto, saí do meio deles e separai-vos, diz o Senhor, e não toqueis o que é impuro: e eu vos receberei e serei vosso pai, e vós sereis meus filhos e minhas filhas, diz o Senhor todo poderoso' (2 Cor. VI, 14-18).
"Tendo, pois estas promessas, meus caríssimos, purifiquemo-nos de toda a imundície da carne e do espírito, levando ao fim a santificação no temor de Deus" (2 Cor. VII, 1).

"Os seus sacerdotes desprezaram a minha lei, mancharam meu santuário; não distinguiram entre o santo e o profano; não distinguiram entre o que é puro e o é impuro" (Ezequiel, XXII, 26).

"Revesti-vos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeira" (Efésios IV, 24).

Os que possuem a verdadeira santidade são missionários e não ecumênicos. E toda eficácia do apostolado dos santos reside exata e totalmente no fato de estarem revestidos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sua vida é a vida de Jesus Cristo. O divino Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo perfeito que os santos seguiram com toda fidelidade possível, sem adaptações e interpretações humanas, desde um São João Batista até um São Pio de Pietrelcina, e assim será até o fim do mundo,  porque Jesus Cristo é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre.

Quando a Santa Madre Igreja é atacada  fisicamente (as perseguições a ferro e fogo) ou moralmente e doutrinariamente (os escândalos e as heresias) foram e serão sempre os SANTOS os seus verdadeiros reformadores. São os santos que, para empregar uma expressão popular atual, fazem toda diferença! Os que se revestem de Jesus Cristo e vivem na verdadeira justiça e santidade (Cf. Ef. IV, 24) imitam o Divino Mestre. Quero, neste artigo, chamar a atenção para duas coisas: o amor da pobreza para si mesmos, e o amor da riqueza e suntuosidade para a Casa de Deus; o amor das humilhações e perdão das ofensas feitas a suas pessoas, e o zelo ardente e intrépido em defender os direitos e interesses de Nosso Senhor e de sua imaculada esposa, a Santa Madre Igreja.

Os falsos reformadores fazem exatamente o contrário: pregam tanto a pobreza na Igreja, mas eles mesmos não se preocupam  tanto em imitar a pobreza de Jesus Cristo; quando as ofensas são feitas às suas pessoas, imediatamente e com todo ardor pulam em cima dos ofensores como víboras e leões; mas quando vêem a Santa Igreja espezinhada e humilhada pelos escândalos, profanações e heresias, ou fazem vistas grossas, ou, pior, se colocam do lado dos inimigos de Nosso Senhor Jesus Cristo, do lado dos zombeteiros de Maria Santíssima, do lado dos perseguidores. São orgulhosos, covardes e vingativos. E o protótipo destes falsos reformadores foi o fatídico, debochado, libidinoso, diabolicamente rebelde e orgulhoso Martinho Lutero.  O Vaticano  não fez mais do que a obrigação ao emitir um selo comemorativo do centenário de Fátima (aliás sem aludir em nada ao principal que é a mensagem de Nossa Senhora e os segredos). Mas o mesmo Vaticano(por conseguinte Francisco) "horribile dictu" fez um em comemoração dos 500 anos da Pseudo-Reforma de Lutero, e este, sim, bem significativo para Lutero e horrivelmente blasfemo para Jesus e Maria Santíssima.

Como dissemos acima, os santos procuram imitar verdadeiramente a Jesus Cristo, no qual reside toda a plenitude da divindade. "Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito" (S. Mat. V, 48 ). Todos os verdadeiros santos, a exemplo de S. Paulo, podem dizer: "Sede meus imitadores como eu o sou de Jesus Cristo" (1 Cor. IV, 16).

 Nos dois aspectos acima enunciados, qual foi o exemplo de Jesus Cristo? Nasceu pobre, viveu mais pobre ainda e morreu paupérrimo. Como diz S. Paulo: "Sendo rico (pois o Criador do céu e da terra) fez-se pobre por vós, a fim de que vós fôsseis ricos pela sua pobreza" (2 Cor., VIII, 9). A Casa de Deus no tempo de Jesus era o Templo de Jerusalém. Pois bem, a primeira manifestação de Jesus na ocupação das coisas de Seu Pai, foi aí no Templo quando tinha apenas doze anos de idade; e na sua vida pública muitas e muitas vezes esteve no Templo e aí pregou. Inclusive dele, certa vez, expulsou com chicote os vendilhões e disse: "Minha casa é casa de oração e vós fizestes dela um covil de ladrões" (S. Luc. XiX, 46). Nunca Jesus falou contra a riqueza e suntuosidade do Templo, pois toda esta riqueza e suntuosidade foi orientada e ordenada pelo próprio Deus e, portanto, por Ele mesmo como Verbo Eterno do Pai.  Quando Jesus predisse a destruição do Templo, não foi obviamente em castigo pela sua suntuosidade e riqueza mas pelos pecados do seu povo, máxime pelo maior, o deicídio.

Quanto ao amor das humilhações S. Paulo resume tudo nestas palavras: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que houve em Jesus Cristo, o qual, existindo na forma(ou natureza) de Deus, não julgou que fosse uma rapina o seu ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz!" (Filipenses II, 5-8).  E a sua primeira palavra no alto da cruz foi de perdão: "Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem".  Jesus fez-se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado e sempre combateu o pecado e os falsos profetas: os fariseus e os saduceus. O missionário por antonomásia, Jesus não veio para abolir a lei mas para aperfeiçoá-la. Procurava os pecadores para convertê-los e não para os abraçar com o pecado e tudo. Disse para o mulher adúltera: "Nem eu te condeno; vai e não peques mais"(S. João VIII, 11). Disse ao paralítico da Piscina Probática: "Eis que estás curado, mas não voltes a pecar para que não te aconteça alguma coisa pior" (S. João V, 14). E gostaríamos de citar muitos e muitos outros textos dos Santos Evangelhos, mas não nos é possível por falta de espaço no âmbito de um simples artigo. Aliás os verdadeiros católicos conhecem bem os Santos Evangelhos! Aconselho-lhes que sempre os meditem com o auxílio das explicações dos Santos Padres da Igreja. E aproveitando o ensejo, quero advertir a todos que tomem muito cuidado para não adquirir Bíblias ecumênicas. Sigamos, com toda segurança que a Santa Igreja nos deu, a Vulgata de S. Jerônimo.

Na míngua de espaço, quero apresentar apenas um santo que fez a verdadeira reforma na Igreja que estava se desmoronando: S. Francisco de Assis. É evidente que são inúmeros os Santos que defenderam a Santa Madre Igreja. Aliás é a santidade que eleva o mundo todo! Mesmo assim, sobre o Poverello exporei sucintamente o que em sua vida se relaciona aos dois aspectos supra mencionados e exibidos no Divino Mestre.

São Francisco de Assis, renunciou toda riqueza de seu pai, muito bem sucedido comerciante. Desposou a santa Pobreza. Com muita justeza é conhecido como o "Poverello de Assis". Todos sabem bem que a pobreza foi a característica deste santo reformador, e assim não preciso me deter  sobre isto. Mas os falsos reformadores, querem se basear em S. Francisco para pregar uma Igreja pobre no que se refere às coisas de Deus. E estão totalmente errados.  A exemplo de Jesus, São Francisco de Assis começou a fazer e a ensinar: "quando ainda jovem aconteceu-lhe, muitas vezes, comprar ornamentos preciosos e objetos para a celebração do Santo Sacrifício, e dá-los em segredo aos padres e às igrejas pobres"; "Numa peregrinação que fez a Roma, estranhou a modicidade das esmolas com que se contribuía para a manutenção da Basílica de S. Pedro; "Apesar de sua extrema pobreza quis mesmo mandar Irmãos pelo mundo com preciosos cibórios, para pôr em lugar conveniente o preço da nossa redenção"; também sempre se sentiu instado a restaurar as igreja pobres e, desde o princípio  de sua conversão se pôs a reparar o santuário de S. Damião. Logo depois consertou uma velha igreja beneditina, dedicada a S. Pedro. Em seguida restaurou a Igreja  de S. Maria de Josofat, mais tarde chamada a Porciúncula, ou Nossa Senhora dos Anjos. E até construiu uma igreja em honra da Santa Virgem. Encontramos em seus escritos várias passagens semelhantes a esta:"Onde quer que o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo for conservado de modo inconveniente ou simplesmente deixado em alguma parte, que o tirem dali para colocá-Lo e encerrá-Lo num lugar ricamente adornado"(Carta a Todos os Clérigos). E é interessante notarmos que S. Francisco, exortava os seus discípulos a amarem os homens sem distinção, e proibia-os severamente de julgarem os ricos: 'Deus  -  dizia ele  -  é seu Senhor, como o é também dos pobres, e pode chamá-los e santificá-los' . Ordenava mesmo que respeitassem os ricos como irmãos e senhores: irmãos diante do Criador; senhores porque proveem às necessidades dos filhos de Deus e ajudam-nos assim a levar a sua vida penitente'.

Agora em relação ao amor das humilhações e do perdão das ofensas, bastaria lermos  o c. VIII do "I FIORETTI":  Como a caminhar expôs S. Francisco a frei Leão as coisas que constituem a perfeita alegria" o qual é seguido desta conclusão: "Irmão Leão, acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, será o  de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos".  Em outro lugar lemos também: "Ide meus bem-amados, parti dois a dois, para as diferentes regiões do universo, e pregai aos homens a paz e a penitência para remissão dos pecados. Sede pacientes na tribulação e ficai certos de que Deus realizará os seus desígnios e cumprirá a sua promessa. Se vos interrogarem, respondei humildemente; abençoai os que vos perseguirem; dai graças aos que vos cobrirem de injúrias e vos caluniarem, pois, em troca dessas tribulações, o reino eterno vos aguarda". Disse ainda: "Atendemos todos, meus irmãos, nestas palavras do Senhor: 'Amai os vossos inimigos e fazei o bem àqueles que vos odeiam', pois, Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem devemos seguir o exemplo, deu a um traidor o título de amigo e entregou-se espontaneamente aos seus algozes. Nossos amigos são, pois, todos aqueles que injustamente nos causam pesares e aflições, humilhações, injúrias, dores, tormentos, o martírio e a morte. Cordialmente os devemos amar, pois o que eles nos fazem alcança-nos a vida eterna".

 Mas, em se tratando de combater o pecado e todo e qualquer erro, qual foi a atitude de São Francisco? O estado da humanidade na época é assim estigmatizado pelo erudito discípulo de S. Francisco, Frei Tomás Celano: "O esquecimento de Deus era tão profundo e negligenciavam-se tanto as suas leis, que mui grande dificuldade havia em sacudir o torpor causado por males antigos e inveterados". O mesmo célebre escritor latino assim fala da ação missionária do Poverello: "No tempo em que a doutrina evangélica era estéril, não só em seu país, mas em todo universo, foi enviado por Deus para pregar a verdade pelo mundo inteiro, como os Apóstolos. Provava à evidência, com os seus ensinamentos, que toda a sabedoria do mundo não passa de loucura e, em pouco tempo, guiado por Cristo, levou os homens à verdadeira sabedoria de Deus pela loucura da sua pregação. Este novo evangelista dos nossos tempos espalhou por todo o universo, como um rio do paraíso, as águas vivas do Evangelho, e pregou com o seu exemplo o caminho do Filho de Deus e a doutrina da verdade. Nele e por ele conheceu o universo um inesperado ressurgimento, uma primavera de santidade, e a semente da antiga religião rejuvenesce de repente este mundo decrépto. Infundiu-se um novo espírito no coração dos eleitos e espalhou-se em sua alma a unção da salvação, quando, como um dos luminares do céu, o santo servo de Cristo brilhou na Terra. Todo tempo que ainda vivia entre os pecadores, percorria o mundo e pregava a todos" . S. Francisco era missionário. Não foi aos muçulmanos para beijar o Alcorão, mas apresentou-se diante do Sultão Malek-Khamil. "Era, diz Frei Celano, essa uma temerária empresa, pois que o príncipe dos Sarracenos pusera a prêmio, e alto prêmio, a cabeça dos cristãos. Mas Francisco apresentou-se a ele com tal mansidão e tal brandura, e, ao mesmo tempo, com uma fé tão intrépida e uma tão santa liberdade, que o tirano não ousou fazer-lhe mal, ouviu-o mesmo com benevolência e permitiu-lhe que pregasse a doutrina cristã. Logo soube, porém, que o mensageiro da fé atacava o erro maometano, fê-lo conduzir com honras militares ao campo dos cristãos". São Francisco de Assim dizia aos seus Irmãos da Ordem: "A obediência suprema, em que a carne e o sangue não tomam parte alguma, é atingida quando, levados por uma inspiração divina, vamos para junto dos infiéis, quer para salvar as almas, quer para colher a palma do martírio".

Caríssimos, podemos dizer que S. Francisco de Assis foi, desde os tempos apostólicos, o primeiro mensageiro da fé que inscreveu na sua bandeira a conversão do mundo inteiro, cumprindo assim à risca a ordem dada pelo divino Salvador, de evangelizar o universo: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a todas as criaturas". E como era a pregação deste arauto de Cristo? Darei apenas uma amostra: "Fazei penitência; produzi frutos dignos de penitência, pois deveis saber que dentro em pouco morrereis. Dai, e dar-se-vos-á. Perdoai, e sereis perdoados. E se não perdoardes aos homens as suas ofensas, não perdoará tão pouco o Senhor os vossos pecados... Bem-aventurados os que morrem penitentes, pois irão para o reino dos céus. Infelizes dos que não morrem penitentes, pois serão filhos do demônio, cujas obras cometem, e irão para o fogo eterno. Vigiai e abstende-vos de todo o mal e perseverai no bem até o fim" (Regula I, c. 21). Amém!