sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A SALVAÇÃO PELA FÉ - ( I )

Observação: Transcreveremos, se Deus quiser, em vários posts, a PRIMEIRA PARTE do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA" escrito por LÚCIO NAVARRO. 
CAMPANHA DE INSTRUÇÃO RELIGIOSA
BRASIL-PORTUGAL
RECIFE
1958

CAPÍTULO PRIMEIRO
DESMANTELO E DESEQUILÍBRIO DA TEORIA PROTESTANTE

A TESE DO PASTOR.
   1. Bem se pode imaginar com que ânsia, emoção e contentamento o nosso amigo, pastor protestante, se aproximou do microfone, para fazer a sua dissertação pelo rádio, naquele dia. Tratava-se de uma mensagem sensacional, que ele pensara em transmitir. O seu objetivo era nada mais, nada menos que dar uma bonita rasteira em todas as religiões do mundo, sem respeitar nem sequer a Santa Igreja Católica Apostólica romana, ficando de pé exclusivamente a doutrina dos protestantes. Para isto, idealizou o jovem e fervoroso pastor a argumentação seguinte:
   Todas as religiões ensinam que o homem se salva pelas suas próprias obras; o Protestantismo, ao contrário, ensina que o homem se salva pela fé. Ora, sabemos que a Bíblia é a palavra de Deus revelada aos homens; palavra infalível, porque Deus não pode errar. E a Bíblia em inúmeros textos afirma que o homem se salva pela fé. Logo, se vê pela Bíblia que o Protestantismo é a única religião verdadeira, e assim está refutada a doutrina perigosa (perigosa, sim, foi o que disse o pastor, e é o que dizem, em geral, os protestantes) a doutrina perigosa de que o homem alcança a salvação pelas suas obras.

TEXTOS EVANGÉLICOS.

  2. Não vamos aqui logo repetir todos os textos citados pelo pastor em abono de sua tese, porque temos que analisá-los cuidadosamente mais adiante (capítulos 4º a 8º), não só os apresentados por ele, senão também outros alegados pelos seus colegas sobre o mesmo assunto. Queremos apenas dar uma amostra de como os textos eram mesmo de impressionar o desprevenido ouvinte que não tivesse um conhecimento completo da verdadeira doutrina do Evangelho. Veja-se, por exemplo, o seguinte trecho do Evangelho de S. João: Assim amou Deus ao mundo, que lhe deu a seu Filho Unigênito, para que TODO O QUE CRÊ N'ELE NÃO PEREÇA, MAS TENHA A VIDA ETERNA, porque Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. QUEM N'ELE CRÊ NÃO É CONDENADO, MAS O QUE NÃO CRÊ JÁ ESTÁ CONDENADO, porque não crê no nome do filho Unigênito de Deus. (João III - 16 a 18). Textos como estes que asseveram tão abertamente - quem crê em Jesus se salva, que não crê se condena - seriam suficientes para convencer qualquer pessoa: 1º se nã  fosse tão ímpio, tão absurdo, e, portanto, tão indigno dos lábios de Jesus o que se quer provar com eles, ou seja, a doutrina de que, para o homem salvar-se, basta que tenha fé em Cristo e nada mais; 2º se não houvesse outros textos, igualmente claros, dos Evangelhos, para nos provar a necessidade das boas obras para a conquista do Céu, como este por exemplo: Bom Mestre, que obras boas devo eu fazer para alcançar a vida eterna? ... SE TU QUERES ENTRAR NA VIDA, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX -16 e 17). 

CONCILIAÇÃO DOS TEXTOS.

   3. É claro que fazer uma boa interpretação da Bíblia não consiste em aferrar-se alguém a uns textos, desprezando, esquecendo, refutando, podo de lado outros, igualmente valiosos: tudo quanto está na Bíblia é palavra de Deus. A interpretação imparcial, conscienciosa, legítima, procura harmonizar inteligentemente os textos das Escrituras. E é bastante tomar na devida consideração as duas afirmativas - quem crê em Jesus se salva, quem não crê se condena - para entrar na vida eterna, é preciso guardar os mandamentos - para se chegar à conclusão de que para a salvação eterna, tanto é necessária a fé nas palavras de Cristo, como a obediência aos mandamentos divinos. É o que nos ensina a Igreja Católica, a qual não afirma que o homem se salva só pelas obras, como queria fazer crer o nosso amigo, pastor protestante, baseando a sua argumentação em que todas as religiões assim o ensinam; segundo a teologia católica, a fé no ensino de Cristo que nos é apresentado é também indispensável. Vê-se logo por aí quanto a doutrina da Igreja é desconhecida, até mesmo por aqueles que ardorosamente a combatem. Temos, portanto que expor (e o faremos no capítulo seguinte) a doutrina católica sobre o assunto, máxime porque ele fala de um terceiro elemento, importantíssimo e igualmente indispensável à salvação, como seja, o auxílio da graça de Deus, explicado este ponto, se esclarecem muitos textos da Escrituras que tanta confusão provocam na cabeça dos protestantes. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O MODERNISTA TEÓLOGO

  Diz São Pio X na Encíclica "Pascendi", nº 3: "Pasmem embora homens de tal casta que nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja: não poderá, porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja". 
  Tenho feito uma série de postagens sobre o Modernismo, resumindo o que São Pio X diz na Encíclica "Pascendi". E creio necessário repetir a ressalva feita por São Pio X: "... postas de lado as intenções de que só Deus é juiz". 
   Isto feito, continuemos com a graça de Deus, hoje falando sobre o Modernista Teólogo.
  Os modernistas dizem que a ciência tem primazia sobre a fé. Mas como conciliar ambas? O teólogo modernista se utiliza dos mesmos princípios da imanência e do simbolismo. Diz o filósofo que o princípio da fé é imanente( está dentro do homem); acrescenta o crente: esse princípio é Deus; conclui o teólogo: logo, Deus é imanente no homem. Daí vem a imanência teológica. Outra adaptação: o filósofo tem por certo de que as representações da fé são puramente simbólicas; o crente afirma que o objeto da fé é Deus em si mesmo; conclui o teólogo: logo, as representações da realidade divina são simbólicas. Daí: o simbolismo teológico
 Quanto ao simbolismo: não deve apegar-se demais à fórmula. Usar delas só tanto quanto forem úteis. 
 Quanto à imanência: Três explicações entre os modernistas: Uns: Deus operando no homem, está mais intimamente no homem do que o próprio homem em si mesmo; e esta afirmação, se bem entendida, não merece censura. Outros dizem: a ação divina é uma e a mesma com a ação da natureza. Crítica: isto destruiria a ordem sobrenatural. Outros mais lógicos com os seus princípios, caem no panteísmo. 

  Os modernistas estabelecem ainda outro postulado: a permanência divina. Um exemplo: Dizem os modernistas que não se pode dizer que a Igreja e os Sacramentos foram instituídos pelo próprio Cristo. Explicam: isto não é permitido pelo agnosticismo, que em Cristo, não vê mais do que um homem, cuja consciência religiosa, como a de qualquer outro homem, pouco a pouco se formou; não o permite a lei da imanência, que não admite externas aplicações: proíbe-o também a lei da evolução, que para o desenvolvimento dos germes requer tempo e uma certa série de circunstâncias; proíbe-o enfim a história, que mostra que tal foi realmente o curso dos acontecimentos. Admitem que a Igreja e os Sacramentos foram instituídos mediatamente por Cristo. Como? Todas as consciências cristãs, dizem, estavam, virtualmente incluídas na consciência de Cristo, como a planta na semente. Ora, como os rebentos vivem a vida da semente, assim também deve afirmar-se que todos os cristãos vivem a vida de Cristo. Mas a vida de Cristo segundo a fé é divina; logo, também a vida dos cristãos. Se pois esta vida, no correr dos séculos, deu origem à Igreja e aos Sacramentos, com toda a razão se poderá dizer que tal origem procede de Cristo e é divina. 
   Até aqui sobre a origem e a natureza da fé. E agora, como explicar a origem do DOGMA. Dizem: o dogma nasce da necessidade que o crente experimenta de elaborar o seu pensamento religioso, a fim de tornar sempre mais clara a sua consciência e a de outrem. Deve-se esquadrinhar e polir a fórmula primitiva não pela razão mas segundo às circunstâncias, vitalmente. Assim vão se formando fórmulas secundárias, que mais tarde, sintetizadas e reunidas em um único todo doutrinal, quando forem ratificadas pelo público magistério como correspondentes à consciência comum, são chamados DOGMAS. 

 E quanto ao CULTO E OS SACRAMENTOS.? O culto resulta de um duplo impulso: primeiro, dar à religião alguma coisa sensível para poder se propagar; e segundo, dar à religião atos santificantes que sãos os Sacramentos. Mas, para os modernistas, os sacramentos são meros símbolos ou sinais. A eficácia dos sacramentos está em poder impressionar os ânimos, despertando o sentimento religioso. Os sacramentos, portanto, foram instituídos apenas para nutrirem a fé. (Erro condenado pelo C. de Trento). 

 E os LIVROS SAGRADOS? Deus está dentro de nós e agitados por Ele nós nos inflamamos. Deste modo é que se deve explicar a origem da inspiração dos Livros Sagrados. Os Livros Sagrados para os modernistas seriam uma coleção de experiências extraordinárias

Observação: O que a teologia modernista diz sobre a IGREJA, veremos, se Deus quiser, no próximo post. 




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O MODERNISTA CRENTE

  No sentimento religioso deve reconhecer-se uma espécie de intuição do coração, que põe o homem em contato imediato com a própria realidade de Deus e lhe infunde tal persuasão da existência dele e da sua ação, tanto dentro como fora do homem, que excede a força de qualquer persuasão. Todo aquele que a conseguir, se torna propriamente e realmente o crente. Posta esta doutrina da experiência unida à outra do simbolismo, toda religião, não excetuando sequer a dos idólatras, deve ser tida por verdadeira. O sentimento religioso é sempre o mesmo; e a fórmula intelectual (símbolo) para ser verdadeira basta que corresponda ao sentimento religioso e ao crente. Por exemplo, os muçulmanos dizem ter o sentimento de que sua religião é a verdadeira. Logo, ninguém pode negar a verdade do Islamismo. E assim por diante. 
  Mas os modernistas caminham sobretudo para destruir a Tradição. E para tanto inventaram a doutrina da EXPERIÊNCIA. Os modernistas concebem a tradição como uma comunicação da experiência original, feita a outrem pela pregação, mediante a fórmula intelectual. Esta fórmula tem certa eficácia de sugestão, tanto naquele que crê, para despertar o sentimento religioso e restaurar a experiência, como naqueles que ainda não creem, para despertar neles pela primeira vez o sentimento religioso e produzir a experiência. Por esta maneira a experiência religiosa abundantemente se propaga entre os povos; não só entre os existentes, pela pregação, mas também entre os indivíduos, quer pelo livro quer pela transmissão oral de uns aos outros. Esta comunicação da experiência às vezes lança raízes e vinga; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma e mesma coisa. E daqui mais uma vez se infere que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam. 
   A ciência é independente da fé, mas esta deve se submeter à ciência. Os modernistas, fundados no princípio de que a ciência em nada depende da fé, quando tratam de filosofia, de história, de crítica ostentam certo desprezo das doutrinas católicas, dos Santos Padres, dos concílios ecumênicos do magistério eclesiástico. Um exemplo: quando um modernista escreve história, não faz nenhuma menção da divindade de Cristo; mas se pregar numa igreja, com firmeza a professa.  
   Os modernistas criticam a Igreja porque ela se recusa a acomodar seus dogmas às opiniões da filosofia, e eles, por sua vez, procuram divulgar uma teologia nova, amoldada aos novos tempos. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Fé à luz do Novo Testamento

Excertos do Livro "A Psicologia da Fé" de autoria do Padre Leonel Franca, S. J.

  "No Evangelho, a mensagem de Cristo se nos apresenta como uma doutrina que se deve ensinar e transmitir pela pregação. A este magistério corresponde a adesão livre dos homens; prestá-la é crer  - "Ide por todo o mundo; pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; que não crer sera condenado" . S. Marc., XVI, 15-16; S. Mat. XXVIII, 18-20. Frequentemente, durante o ministério de Jesus, a palavra crer, indica, nos ouvintes, a atitude de resposta a uma verdade proposta, a um ensinamento comunicado pelo Mestre. "Se vos digo a verdade, diz CRISTO aos judeus, por que não me credes?" S. Jo. VIII, 46; Cf. V, 46-47, X, 37, 38. "Eu sou a ressurreição e a vida, diz JESUS a Marta, crês isto?... Sim, Senhor, creio que és o Cristo" S. Jo., XI, 26 sgs. "Porque não creste nas minhas palavras, diz o arcanjo Gabriel a Zacarias, ficarás mudo", etc. S. Luc., I, 20. E as citações poderiam multiplicar-se sem dificuldade.Em todas elas, crer apresenta-se-nos como um ato da inteligência que admite uma doutrina, um fato, uma verdade, sob o testemunho de outrem que afirma."
   "São Paulo não é menos peremptório.(...) Na Epístola aos Colossenses, II, 6, 7, exorta o Apóstolo a que se conservem "enraizados e sobre-edificados n'Ele [no Senhor Jesus] e confirmados na fé, assim como fostes ensinados... que ninguém vos engane com filosofias e vãs subtilezas". Trata-se, portanto, na fé, de doutrina verdadeira, ensinada pelos apóstolos, de convicção sólida que deve resistir aos assaltos dos sofismas e dos erros da heresia. A Timóteo adverte SÃO PAULO que "Hymeneu e Alexandre fizeram naufrágio na fé" I Tim., I, 19, que "Hymeneu e Fileto se apartaram da verdade... e destroem a fé de muitos outros" II Tim., 17, 18. "Nos tempos futuros muitos deixarão a fé para se apegarem a espíritos sedutores e a doutrinas diabólicas". Sempre a fé, como um patrimônio intelectual de verdades, opostas a teorias errôneas e falazes". 
    
   Segundo prova o Padre Leonel Franca, citando as Sagradas Escrituras, a Fé não é fruto de uma procura e esforço em busca da verdade. Portanto não é algo subjetivo, e consequentemente mutável através dos tempos. A fé não é fruto de uma agitação vital do próprio eu. É algo objetivo, e, que vindo de Deus que é a própria verdade e o Bem por essência, deixa o crente tranquilo, sem dúvidas, sem agitação. A autoridade suprema de Deus dá ao crente uma segurança que o engenho humano nunca dará. 
   Os modernistas e os protestantes, como vimos, colocam a fé no sentimento. E este também não tem consistência. É terreno arenoso e movediço. Apoiada que está em Deus, a Fé, pelo contrário, é rocha inabalável, ontem, hoje e sempre. Enquanto os homens mudam como o vento, a Palavra de Deus permanece para sempre. As vicissitudes históricas não são capazes de abalá-la. 
    No próximo post veremos, se Deus quiser, como São Paulo define a Fé, e, então, entenderemos melhor toda esta firmeza da fé. 
   

  No próximo post, se Deus quiser, vamos comentar o texto clássico de São Paulo sobre a Fé: "Sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium" (Heb. XI, 1). "A Fé é a realidade das coisas que esperamos, prova das que não vemos". 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Inimigos da Fé

  Os protestantes e os modernistas foram os principais inimigos da Fé, porque principalmente eles procuraram esvaziar o termo do seu conteúdo intelectual para acentuar-lhe a tonalidade afetiva. Em outras palavras, estas duas heresias tentaram deslocar a Fé da inteligência e da vontade para colocá-la sobretudo no coração ou, se quiserem, no sentimento. Sob a máscara de humildade, tiraram a firmeza da fé que vem da autoridade de Deus que não muda, para colocá-la no homem. Lessing, modernista iluminista dos quatro costados, como gostava de dizer D. Antônio de Castro Mayer, dizia o seguinte: "Se o infinito e onipotente Deus me desse a possibilidade de escolher entre o dom escondido em sua mão direita, que é a posse da verdade, e o dom escondido em sua mão esquerda, que é a busca da verdade, eu rogaria humildemente: Oh Senhor! concedei-me a busca da verdade, porque possuí-la é próprio somente de Vós". Portanto, segundo Lessing, a dignidade do homem não está em ele possuir a verdade que a mão bondosa de Deus lhe dá, mas está no honroso esforço que o homem emprega para alcançar a verdade. Donde vemos, que longe de ser humildade, é sofisticado orgulho. Na psicologia verdadeira da fé, entra a inteligência que é atraída pela verdade, entra a vontade que é solicitada por todas as atrações do bem e ambas casam-se harmoniosamente pela humildade. É por esta virtude que há a submissão da inteligência e da vontade diante dos mistérios que Deus bondosamente se dignou revelar-nos. A Fé é de si inabalável; os dogmas são imutáveis. E ficamos tranquilos na posse da verdade. Pois, não nos apoiamos em uma cana quebradiça qual é nossa inteligência, nem numa cana agitada pelos ventos qual é nossa vontade.No ato de fé a inteligência e a vontade humanas se descansam tranquilamente em Deus, e não em suas próprias luzes e em seu próprio  desejo respectivamente.  Preferir, porém, como fez Lessing, seu próprio movimento subjetivo, sua procura da verdade mesma, isto sim, é orgulho. E por ele cai-se no indiferentismo. Se o homem orgulhosamente pretender ir buscar a verdade por si mesmo, não o conseguirá. Daí é que vem o indiferentismo. 
   Para Lutero a fé que justifica é um sentimento de confiança inabalável nos merecimentos de Cristo que cobrem aos olhos de Deus a corrupção indestrutível da alma pecadora. Depois vamos refutar esta falsidade.
  O pai do modernismo protestante na França, Augusto Sabatier (+ 1901) também colocava a fé no sentimento.  Escreveu vários livros, todos eles eivados de modernismo. Este modernismo percebe-se até pelo título mesmo de um de seus livros: "A Vitalidade dos Dogmas Cristãos, e Seu Poder de Evolução'. Vede como ele definia a fé: "É um ato de confiança, ato de um coração de filho que torna a encontrar com alegria o Pai que ignorava e que, sem orgulho de espécie alguma, se sente feliz de receber tudo das suas mãos".(Cf. "Esquisse d'une philosophie de la religion" Paris, 1897, p. 245).
   Sanday, acentua também o mesmo caráter sentimental da fé: "Fé em Cristo significa um apego a Cristo, uma emoção forte de amor e de gratidão".   
   A concepção da fé, segundo a doutrina católica é bem outra. É verdade que a doutrina católica não desconhece toda a escala de sentimentos (oriundos também de Deus) que podem acompanhar a fé, como harmônicos em cada alma, e que lhe dão o timbre próprio. Mas na sua essência, a fé é um ato de inteligência, a adesão prestada a uma verdade revelada, apoiadas, porém, não em si mesmas, mas na autoridade de Deus que revela.  O Concílio Vaticano I, num ensino autêntico, dá-nos a definição genuína da fé: "É uma virtude sobrenatural, pela qual, prevenidos e auxiliados pela graça de Deus, cremos, como verdadeiro, o conteúdo da revelação, não em virtude de sua verdade intrínseca, vista pela luz natural da razão, mas por causa da autoridade de Deus que não pode enganar-se ou enganar-nos". 
    Mostraremos, se Deus quiser, no próximo post, que este ensinamento sobre a fé é baseado no Novo Testamento, primeiras fontes da Revelação cristã. 
  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Missa é oferecida só em prol dos eleitos?

  INTRODUÇÃO: Antes de respondermos a esta pergunta, será necessário lembrar algumas noções sobre a graça. 
  Primeiramente devemos estar lembrados do seguinte: É de fé que sem a graça interior o homem não pode fazer ato algum sobrenatural, isto é, em ordem à salvação. 
  É também de fé que Deus quer a salvação de todos os homens (1 Tim. II, 4); e como não podem ser salvos sem a graça, deve-se concluir que Deus estende sua Providência sobrenatural a todos, dando a graça suficiente a todos sem exceção. Falamos aqui das graças atuais. É de fé que sem a graça atual o homem não pode sair do estado de pecado; não pode ter o começo da fé; não pode perseverar até o fim na graça. Ora,  a condenação seria injusta se Deus não desse a graça suficiente. Logo, é certo e com certeza de fé que Deus dá as graças atuais suficientes para a salvação de todos. Todos teólogos católicos admitem que a graça suficiente dá verdadeira e realmente ao homem o poder ao menos remoto, de fazer obras sobrenaturais. E isto é o suficiente para justificar a Providência divina.  
   Noções de graças atuais: Graça suficiente e graça eficaz. Considerada em si mesma, toda graça é eficaz. Mas considerada nos seus efeitos, graça suficiente é aquela, pela qual o homem pode verdadeiramente fazer o bem sobrenatural, mas não o faz na realidade. E graça eficaz é quando o homem realmente faz o ato sobrenatural. 
  Toda graça considerada em si mesma é eficaz mas em relação ao homem, ela se torna simplesmente suficiente porque o homem lhe resiste. Diz Santo Estêvão aos judeus obstinados: "Vós resistis sempre ao Espírito Santo" (Atos, VII, 51).
  Talvez alguém possa perguntar por que a graça não é eficaz em todos os homens? É que Deus quer com isto fazer ver que o homem é livre e que tem necessidade ao mesmo tempo de se humilhar sob a poderosa mão de seu Criador, e de trabalhar na sua salvação com temor e tremor, como diz São Paulo. É, na verdade um mistério. Mas não podemos duvidar da Sabedoria infinita de Deus, mas sim adorar seus desígnios mesmo quando nós não os compreendemos. 
  Há também uma discussão interminável entre Molinistas e Tomistas de como conciliar a eficácia da graça com a liberdade humana. Não serei eu, anão diante de gigantes,  que terei a loucura de pretender resolver esta questão! 
   É de fé que Deus dá sua graça gratuitamente. Também a graça é dada de maneira desigual. (Depois, se Deus quiser falaremos  sobre isto). Outra verdade que devemos ter em mente é a seguinte: a graça não é dada a todo momento, ou seja, tem um tempo oportuno que passa. Por isso diz a Bíblia: "Se hoje ouvirdes a voz de Deus, não queirais endurecer o vosso coração". Santo Agostinho dizia: "Timeo Jesum transeuntem et non redeuntem". "Temo a Jesus que passa e não volta mais". 

   Depois desta introdução, passemos à questão expressa no título desta postagem. 
   Vejamos o que dizem os teólogos: Santo Tomás de Aquino Summa Theologica, q. LXXIX, a. 7 apresenta a seguinte questão: Parece que este sacramento (Eucaristia) não aproveita senão a quem o recebe. 
   Faz as objeções e depois mostra que o certo é o contrário e responde dando a solução. E assim responde cada uma das objeções formuladas. Então diz: "Mas, em contrário (sed contra), na celebração deste sacramento faz-se deprecação por muitos outros. O que seria em vão, se ele lhes não aproveitasse. Logo, este sacramento não aproveita só a quem o recebe. 
  SOLUÇÃO:  Como dissemos (a, 5), este sacramento não é somente sacramento, mas também sacrifício. Pois, enquanto nele se representa a Paixão de Cristo, pela qual Cristo se ofereceu como vítima a Deus, como se diz em Efes., V, 2,  tem natureza de sacrifício. Mas enquanto nos confere a graça invisível sob forma visível, tem natureza de sacramento. E assim este sacramento aproveita a quem o recebe, tanto a modo de sacramento, como de sacrifício; pois é oferecido por todos os que o recebem, conforme o reza o cânon de missa: Todos os que, participando deste altar, recebermos o sacrossanto  corpo e sangue de Vosso Filho, fiquemos cheios de toda bênção celeste e graça. Mas, dos que não o recebem aproveita a modo de sacrifício, enquanto oferecido pela salvação deles. Por isso também se diz no cânon da Missa: Lembrai-Vos, Senhor, de vossos servos e servas e de todos os que aqui estão presentes, cuja fé e devoção conheceis, e pelos quais Vos oferecemos, ou eles Vos oferecem, este sacrifício de louvor por si e por todos os seus, pela redenção de suas almas , pela esperança de sua salvação e de sua conservação. E uma e outra coisa o Senhor exprime ao dizer, em S. Mat. XXVI, 28: Que por vós, isto é, pelos que o recebem, e por muitos outros será derramado para remissão dos pecados. 
  Pela própria oração do Ofertório na oblação do cálice, podemos afirmar que o Santo Sacrifício da Missa é oferecido por todos e não somente pelos eleitos, embora se sabe que só os eleitos aproveitam: "Nós vos oferecemos, Senhor, o cálice da salvação, suplicando à vossa bondade que o faça subir como um perfume de suavidade à presença da vossa Majestade, pela nossa salvação e pela salvação de todo o mundo." 
   Portanto, todos são chamados a tirar proveito do santo sacrifício da Missa. Como já vimos, na Igreja primitiva se faziam orações variáveis segundo as diferentes categorias sociais, ás quais se associavam os assistentes com o amen final. Assim, podemos dizer que pelo Santo Sacrifício da Missa são oferecidas graças atuais a todos, graças estas que se tornam eficazes para aqueles que correspondem, e se tornam simplesmente suficientes para àqueles que lhes resistem. 
   Diz o teólogo Hervé: "Há um fruto geral em qualquer sacrifício da Missa, que por instituição de Cristo, é oferecido à toda a Igreja militante e padecente; e isto sem precisar de o sacerdote fazer explicitamente a intenção: porque Cristo na Missa se oferece como Cabeça da Igreja em prol de todos os homens, e a Igreja oferece diretamente "em prol de todos os fiéis vivos e defuntos" e indiretamente por todos os demais homens para que se tornem membros da Igreja: "pela nossa salvação e a de todo o mundo". Se, pois, em virtude da Comunhão dos Santos cada uma das boas obras dos membros da Igreja ajuda á toda Igreja, com muito maior razão, o Sacrifício de Cristo e da Igreja ajudará a todos dos quais Cristo é a Cabeça. 
   Diz, por sua vez o também célebre teólogo Tanquerey: "São beneficiários do Santo Sacrifício até as pessoas que nem em pensamento assistem ao santo sacrifício, mas que nem por isso ficam privadas de todos os seus frutos. A Igreja ora por eles e as suas orações são penhor de graças , que recebem na medida em que as suas almas se abrem aos dons de Deus".
   O padre Francisco Spirago no seu CATECISMO CATÓLICO POPULAR afirma: "Como Cristo morreu na cruz por todos os homens, assim há de ser também na renovação do Sacrifício da Missa: também aqui se oferece Cristo por todos. Se não existisse a Missa, por misericórdia de Deus, já todo o mundo teria perecido em virtude da multidão dos pecados cometidos" (São Leão,P. M.). 
    Se na celebração do Santo Sacrifício da Missa a Santa Igreja reza por todos, é sinal de que o sacrifício é oferecido em prol de todos, "pela salvação de todo o mundo" (Oração do Ofertório do cálice).  
    CONCLUSÃO: Devemos dizer que o Santo Sacrifício da Missa, considerado em relação à sua suficiência, é oferecido a todos. E quanto à sua eficiência, aproveita apenas a muitos. No original grego as expressões que indicam o oblação: Isto é meu corpo, que é dado em prol de vós; Este é o cálice de meu sangue,,, que é derramado em prol de vós e em prol de muitos em remissão dos pecados, estas expressões repito, estão no presente. Isto indica que se referem diretamente ao Santo Sacrifício da Missa e , por conseguinte, se referem aos méritos da Paixão de Cristo realmente distribuídos pela Santa Missa. Ora estes frutos realmente só são recebidos pelos que correspondem e não por todos.
   Em outras palavras: O Santo Sacrifício da Missa  a todos  oferece os merecimentos infinitos da Paixão e Morte de Cristo na Cruz, que seriam suficientes para salvar a todos. Mas, na realidade, muitos resistem a estas graças e não tiram proveito da Santa Missa. E assim, a Missa não beneficia a todos, mas apenas a muitos, e isto, é óbvio por culpa das pessoas, porque o Santo Sacrifício da Missa é de valor infinito e suficiente em si mesmo para salvar a todos. E ainda mais: como diz São Paulo, "onde abundou o pecado, superabundou a graça".
   Talvez alguém pergunte por que tanta dissertação para uma questão tão simples?! Respondo que seria simples na hipótese de não haver heresias e extremos igual e terrivelmente errôneos. Por exemplo os Jansenistas acusam a Igreja Católica de semipelagianismo por ensinar que Cristo morreu por todos os homens quando, na verdade, (dizem eles) não mereceu para todos as graças verdadeiramente suficientes para a salvação.  Um padre ou bispo (Jansênio era bispo) jansenista celebrando a Missa, se celebrar em latim, vai dizer sempre na fórmula da consagração do vinho "pro multis", e, se celebrar em vernáculo vai traduzir sempre "por muitos" entendendo com estas palavras que Jesus Cristo só morreu pelos eleitos e a Missa portanto é oferecida só em benefício dos eleitos.  
    Se, ao contrário um padre ou bispo ultra progressista ou rahneriano, segundo os quais Jesus com sua Paixão e morte já salvou automaticamente a todos os homens, quer saibam quer não saibam,(o chamado cristão anônimo) quer queiram quer não queiram, (e portanto, se o inferno existir, está vazio) vai celebrar a Missa Nova traduzindo o "pro multis" sempre "por todos" entendendo que todos sem exceção são salvos pela Missa.  É claro que estou alertando para uma possibilidade apenas; não posso julgar ninguém. Só Deus vê as intenções. Mas, por outro lado, também é verdade que não podemos dormir, do contrário, o homem inimigo semeia a cizânia entre o trigo. Por isso o Santo Padre, o Papa tem alertado para a tradução do "pro multis" não por todos mas por muitos. Pelo que eu sei, não obrigou e talvez para a maioria dos progressistas as advertências do Santo Padre, caíram no vazio, infelizmente. Digo isto porque o perigo do Jansenismo hoje é mínimo, em comparação do perigo tão atual e atuante dos ultra progressistas.
   Caríssimo leitor! se, por acaso restou ainda alguma dúvida, não deixe de perguntar. Obrigado!
   

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"PRO MULTIS" NA FORMA DA CONSAGRAÇÃO DO VINHO

 Como vimos no post anterior, na consagração do vinho emprega-se a expressão "qui pro multis effundetur". Pergunta-se qual é a tradução correta: ou "que será derramado por muitos, ou "que será derramado "por todos"?
 Primeiramente devemos observar que esta expressão não foi introduzida entre as palavras de Nosso Senhor na forma da consagração do vinho, como foi o caso da expressão "mysterium fidei", mas tirada tal qual das Sagradas Escrituras, como já o provamos. 
  A expressão "pro multis" é tirada da Tradução da Bíblia feita por São Jerônimo (começou a tradução  em 390 e a terminou em 405). E a célebre Vulgata, que tem toda aprovação da Santa Igreja. São Jerônimo ajuntou uma grande quantidade de livros, formando uma valiosa biblioteca. Já conhecia muito bem o latim e o grego e procurou conhecer as línguas hebraica e aramaica (línguas em que Jesus falou) fazendo-se aluno dos rabinos, que iam ensinar de noite, pagando por alto preço as suas lições. São Jerônimo passou na gruta de Belém 35 anos, rezando, fazendo penitência e estudando as Sagradas Escrituras. Em 2000 tive a graça de celebrar a Santa Missa naquela gruta, ou melhor dizendo na gruta reconstruída naquele mesmo local. Que São Jerônimo me ilumine em meus estudos bíblicos!
  Perdoem-me a digressão! E, com a graça de Deus, continuemos o assunto proposto. 
  São Jerônimo não fez outra coisa senão traduzir literalmente o que estava nos originais aramaico, hebraico e grego. Tenho o grego e lá está  "perí pollón, cuja tradução literal é "pro multis" (Latim) e "por muitos" (Portugês). A Hermenêutica ensina-nos a estudar as passagens paralelas ou análogas. É o que vamos fazer, com a graça de Deus e a ajuda de São Jerônimo. 
  Pois bem! há muitas passagens referentes a este assunto de que tratamos no presente post. Comecemos pelo Antigo Testamento, ou seja, pela profecia de Isaías, LIII, 12: "Por isso eu lhe darei por sorte uma grande multidão e ele (o Messias) distribuirá os despojos dos fortes porque entregou a sua vida à morte, foi posto no número dos malfeitores, tomou sobre si os pecados de muitos e intercedeu pelos pecadores". 
  É dito "peccata multorum", isto é, "tomou sobre si os pecados de muitos". No estudo exegético aprendemos pela interpretação dos Santos Padres que "muitos" aí significa "todos". Na verdade, Jesus morreu pela salvação de todos, sem excluir ninguém, embora sabemos que nem todos se salvam, justamente porque rejeitam o Sangue divino que Jesus derramou também em prol deles. . São João na sua 1ª Epístola, II, 2 diz: "Ele (Jesus Cristo) é propiciador pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo". E São Paulo na sua !ª Epístola a Timóteo, II, 6 diz: "O qual (Jesus Cristo) se deu a si mesmo para redenção de todos". 
 Mas há ainda muitas outras passagens da Sagrada Escritura em que se emprega "muitos", (em grego= pollói), e não "todos". Por exemplo, eis algumas passagens de São Paulo: Epístola aos Romanos, V, 15 e segs : "Mas o dom não é como o delito, porque, se pelo delito de um (Adão) morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom são, pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundantemente espalhados sobre muitos... (19) "Porque, assim como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim pela obediência de um só, muitos virão a ser justos". Antes de citarmos outra passagem, expliquemos esta. Baseio-me na explicação feita pelo Padre Jesuíta Prat, que foi membro da Comissão de Estudos Bíblicos, e escreveu o Livro mundialmente célebre "LA THÉOLOGIE DE SAINT PAUL. Neste livro T. I p.515 e 516: Diz Prat que São Paulo quer demonstrar duas coisas: 1- Como Adão pôde nos perder, assim Jesus Cristo poderá nos salvar; 2 - Se Adão por seu pecado nos constituiu pecadores, muito mais Jesus Cristo, por sua justiça, poderá constituir-nos justos. Toda exposição de São Paulo visa mostrar uma única causa que produz múltiplos efeitos. Assim: Um só homem prevarica... Todos os homens são condenados. Um só autor da justiça... Todos os homens são justificados. (V.19) Um só homem desobediente... Um grande número constituídos pecadores. Um só homem obediente... um grande número constituídos justos.
 "O que nós traduzimos por um grande número corresponde em grego "oi pollói" (=os muitos). Diz Prat que, na verdade esta expressão é muito difícil de ser traduzida e diz que "todos" não seria uma tradução mas o resultado de um comentário. Assim conclui: "É evidente, que aqui como em outros lugares (p.ex. Heb., IX, 28) São Paulo quer dizer "todos", mas não é a ideia de totalidade que põe em relevo, mas a "multiplicidade" enquanto se opõe à unidade. O sentido seria: Um só morre por todos os demais, seja qual for o número destes demais.
  Na  Epístola aos Hebreus, IX, 28, São Paulo diz: "...Assim também Cristo se ofereceu uma só vez para apagar os pecados de muitos". Vimos a explicação logo acima: quer dizer "todos" colocando em destaque a multiplicidade em oposição à unidade.
  Jesus Cristo na Cruz, coadunou em torno de si a multidão dos homens passados, presentes e futuros; imolou-se como Cabeça da humanidade, e, por ser Ele Deus, o seu sacrifício expiou todos os crimes, desde o pecado de Adão até o último pecado do derradeiro homem. Deus ofendido se abrandou e a ordem perturbada foi plenamente restaurada. É o que exprime São Paulo na Epístola aos Hebreus, V, 1-10. E o Papa Pio XII, na Encíclica "Mediator Dei", nº 73, 74, assim explica: "Este resgate, porém, não surte imediatamente o seu pleno efeito (...) Para que todos os pecadores se purifiquem no Sangue do Cordeiro, é necessária a colaboração dos fiéis. Efetivamente conquanto Cristo, falando dum modo geral, tenha, por meio de sua morte cruenta, reconciliado com o Pai todo o gênero humano, quis todavia que todos se aproximassem e fossem trazidos à Cruz, sobretudo pelos Sacramentos e pelo Sacrifício Eucarístico, para poderem conseguir os frutos salutares que na Cruz alcançou... Pode dizer-se que Cristo construiu sobre o Calvário uma piscina purificadora e salutar e a encheu com o seu  próprio Sangue; mas se os homens não mergulham naquele banho para lavar as manchas da sua iniquidade, não podem, evidentemente, ser purificados e salvos".
  É, portanto sobretudo pelos Sacramentos e pelo Sacrifício Eucarístico que as almas se beneficiam dos méritos infinitos do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo derramado em sua Paixão e Morte. E o caráter expiatório do Santo Sacrifício da Missa está bem indicado pelas palavras mesmas da instituição: a hóstia é o Corpo entregue por vós, o cálice é o Sangue derramado em remissão dos pecados.
  São beneficiários do sacrifício da Cruz todos os membros do Corpo Místico de Jesus Cristo - aqueles que o são de fato porque foram incorporados n'Ele pelo batismo, e aqueles que o são de direito, isto é, todos os homens que, embora não tendo recebido o batismo, são chamados a recebê-lo. Só os condenados, portanto, ficam excluídos, porque estes estão irrevogavelmente separados do Salvador. Por condenados entendemos os que já faleceram e foram para o inferno. Porque os que vão se condenar(e só Deus o sabe) a estes Deus dá todas as graças suficientes para a salvação até o último instante. Se condenam justamente porque não quiseram se banhar no Sangue do Cordeiro. E assim a graça que era suficiente não foi eficaz por culpa deles mesmos.
  Portanto, todos são chamados (inclusive as almas do purgatório) a tirar proveito do santo sacrifício da Missa. Na Igreja primitiva, esta verdade era inculcada nos fiéis pela recitação de orações, variáveis segundo as diferentes categorias sociais, às quais se associavam os assistentes com o amen final. O mesmo se faz  ainda hoje na Sexta-Feira Santa, depois do canto da Paixão. Hoje, no entanto, para que a Missa se tornasse mais breve, foram suprimidas essas longas orações, embora se tenha conservado o espírito, oferecendo-se explicitamente a hóstia santa não só por todos os cristãos, mas por todo o mundo: "Nós Vos oferecemos, Senhor, o cálice da salvação, suplicando à vossa bondade que o faça subir como um perfume de suavidade à presença da vossa Majestade, pela nossa salvação e pela SALVAÇÃO DE TODO O MUNDO. (Ofertório, oblação do cálice). Também na oblação do pão e no Momento dos vivos o celebrante reza por todos.
  Como já vimos no post anterior, os Evangelistas São Mateus e São Marcos relatando a instituição da Santíssima Eucaristia na última Ceia, na fórmula da consagração do vinho, empregam a expressão "pro multis". Por tudo o que acabamos de explicar, não será difícil perceber qual o significado desta expressão que, repetimos mais uma vez, é tirada das Sagradas Escrituras e assim está nos originais.
   Mas, demos a palavra ao Doutor Angélico, a quem Jesus se dignou aparecer para dizer-lhe: "Tomás, você falou muito bem de mim na Eucaristia, que recompensa queres? Respondeu o Santo: "Senhor, a Vós, só  a Vós! Santo Tomás aprendeu muito mais colocando a cabeça no Sacrário, do que se debruçando sobre os livros. Mas, afinal, vamos ouvi-lo: Suma Teológica, 3ª Parte, q. LVIII, a. 3:
  Santo Tomás formula a objeção e depois responde. Objeção: "A Paixão de Cristo, como se disse, quanto à sua suficiência, aproveita a todos; mas, quanto à sua eficiência, aproveita a muitos. Logo, a forma (na consagração do vinho) devia ser - será derramado por todos, ou por muitos, sem se acrescentar - por vós.
 Resposta: Primeiramente devemos dizer que a Igreja, instruída pelos Apóstolos, usa essa forma na consagração do vinho.( Segundo Santo Tomás, isto já seria suficiente para rejeitar qualquer objeção). Mas apresenta a SOLUÇÃO  e depois dá a resposta. "Donde devemos concluir, que todas as palavras referidas são da substância da forma. Mas as primeiras - "Hic est calix sanginis mei", - significam a conversão mesma do vinho no sangue, do mesmo modo que referimos na forma da consagração do pão. As palavras seguintes designam a virtude do sangue derramado na Paixão, que obra neste sacramento. As quais têm um tríplice fim - (...) O terceiro: para remover os pecados que são impedimentos à herança eterna e à justificação da graça. segundo aquilo do Apóstolo: O sangue de Cristo alimpará a nossa consciência da obras da morte, isto é, dos pecados. E por isso se acrescenta: Que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados". 
  "O sangue, responde Santo Tomás à objeção, da Paixão de Cristo não só tinha eficácia para os judeus eleitos, por quem era derramado o sangue do Testamento Velho, mas também para os gentios (que eram todos os demais povos). Nem só para os sacerdotes, que celebram esse sacramento, ou para os que o recebem, mas também para aqueles por quem é oferecido. Por isso diz a forma sinaladamente - por vós, isto é, os judeus; e - por muitos, isto é, pelos gentios ( a multidão dos demais povos); ou - por vós, isto é,  os que comungais, e  - por muitos por quem é oferecido"
 
  O Padre Prat na seu Livro "LA THÉOLOGIE DE SAINT PAUL"  t. I, p. 149, faz uma pergunta muito importante: "As alusões ao sacrifício, nas diversas fórmulas de consagração, se referem ao sacrifício da Cruz ou ao sacrifício do Altar? Seria forçoso aceitar sem dúvida a primeira alternativa se o futuro  empregado pela Vulgata traduzisse exatamente o texto original. Mas, na verdade, o grego emprega o presente. Então diz Prat: "É preciso admitir que as alusões ao sacrifício visam diretamente o sacrifício do altar e não ao da cruz". 
  É evidente que indiretamente se refere ao Sacrifício da Cruz, porque o Sacrifício do Altar depende inteiramente do Sacrifício da Cruz.

  Ora, quanto ao Sacrifício da Cruz sabemos que Jesus Cristo entregou seu Corpo à Paixão e Morte e derramou todo seu Sangue para a salvação de todos. Sabemos, outrossim, que o Santo Sacrifício da Missa é para aplicar os merecimentos infinitos de Nosso Senhor adquiridos pelo Sacrifício da Cruz.
 
  Então formula-se uma pergunta cuja resposta definirá toda a questão: Que ensina a Sagrada Teologia sobre a aplicação da Santa Missa? É oferecida só aos eleitos, entre os judeus (por vós) e aos eleitos entre os gentios (por muitos) ou é oferecida por todos, embora nem todos as aproveitem e as tornem eficazes? Daremos a resposta no post seguinte, se Deus quiser.
   Observação: Em parte, já respondemos acima . Vamos dar argumentos da Teologia. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

AS PALAVRAS ESSENCIAIS DA FORMA NA CONSAGRAÇÃO DA MISSA

Introdução: A Santa Madre Igreja tem algum poder para determinar a matéria e a forma nos sacramentos. Não tem, porém, nenhum poder de mudar substancialmente aquelas coisas que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo determinou "in specie". A Santa Igreja diz com São Paulo: "Eu recebi do Senhor o que também vos ensinei a vós". Constituem a "forma" de consagrar o pão e o vinho, as palavras com as quais Nosso Senhor Jesus Cristo na última Ceia consagrou e instituiu este sacramento. Mas entre as palavras que Nosso Senhor usou, além das essenciais, há também outras. Cabe à Igreja  indicar quais são as palavras essenciais na consagração do pão e também do vinho. É o que vamos estudar neste post. Antes se faz mister saber exatamente o que quer dizer "palavras essenciais da consagração". Palavras essenciais da consagração na Missa são todas e somente aquelas que significam completa e perfeitamente o que se realiza na consagração, ou seja, o presença do Corpo e do Sangue de Cristo. Isto significa que, se um celebrante omitir ou mudar substancialmente uma só destas palavras, ele não consagra validamente. As outras palavras, (além das essenciais), ou as que vêm antes ou depois, não são requeridas essencial e necessariamente para que haja consagração. São, no entanto, por preceito da Santa Igreja, obrigatórias. Portanto, o celebrante que voluntariamente as omitisse, celebraria validamente, porém, ilicitamente, e assim cometeria pecado grave.
  Para não deixar qualquer dúvida, devemos observar que a Santa Madre Igreja, no que se refere à Fé, segue sempre a Nosso Senhor Jesus Cristo: o que ensina de maneira infalível para toda à Igreja haure em Nosso Senhor através das Sagradas Escrituras e da Tradição.

Forma da Consagração do pão: "Hoc est (enim) corpus meum", "Isto é (pois) o meu corpo". Com exceção do "enim", "pois", as outras palavras são essenciais.

Forma da Consagração do vinho: ""Hic est (enim) calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti: mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum". "Este é, (pois) o cálice do meu sangue, do novo e eterno testamento - mistério de fé - que será derramado por vós e por muitos em remissão dos pecados".

  Pois bem, destas palavras, as essenciais são: "Hic est calix sanguinis mei", ou "Hic est sanguis meus".

 Em relação às palavras essenciais na "forma" da consagração do pão, "Hoc est corpus meum", todos os teólogos concordam unanimemente.
 Em relação, porém, às palavras essenciais na "forma" da consagração do vinho há divergência entre eles. Há os que afirmam serem essenciais apenas estas palavras: "Hic est calix sanguinis mei". (1ª opinião). Alguns teólogos são de opinião que as palavras restantes da consagração do vinho são também essenciais.(2ª opinião)
  Estes teólogos tentam prová-lo com o seguinte argumento: Jesus Cristo fez a transubstanciação para que fosse também sacrifício: por isso a transubstanciação não se realiza simplesmente para que Cristo se torne presente no altar (sacramento) mas também e primariamente, para que Ele próprio seja oferecido e imolado pela salvação dos homens.(sacrifício). Ora, na forma da consagração ou do pão ou do vinho devem haver algumas palavras que signifiquem que Cristo se tornou presente em vítima sacrifical. Logo, estas palavras: novi et aeterni testamenti, mysterium fidei, qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum", são palavras essenciais, na consagração do vinho.
  E estes teólogos acrescentam que todas estas palavras ou são tiradas das Sagradas Escrituras, ou no-las ensinou a Sagrada Tradição que é a intérprete e guardiã da verdade católica.
   E estes teólogos pretendem se basear em Santo Tomás de Aquino, S. T. 3, q. 78, a. 3.

Na verdade, até hoje a Santa Igreja não definiu a questão mas a resolveu na prática: Para que o sacramento não corra perigo de nulidade, obrigou sob pena de pecado mortal que estas palavras destacadas no forma da consagração do vinho, sejam pronunciadas na íntegra.

  Observação: Os Manuais de Teologia Dogmática (Hervé) e de Teologia Moral (Noldin) adotados por D. Antônio de Castro Mayer em nosso Seminário, defendem ambos a primeira opinião. E citam outros vários teólogos de peso.
   Os argumentos destes teólogos parecem-me irrefutáveis: 1) Primeiro desfazem a argumentação acima enunciada pelos teólogos da segunda opinião: Pelo próprio fato de o Sangue ficar, em virtude das palavras, separado do corpo, já suficientemente é significada a sua efusão e virtude para a remissão dos pecados. Portanto, as palavras da consagração que significam tudo isto, não são necessárias para que o Sangue de Jesus se torne presente.
    Segundo muitos autores de grande autoridade, estas palavras: "novi et aeterni testamenti... remissionem peccatorum" embora não pertençam à essência da forma, pertencem, no entanto à integridade e perfeição da forma.
    Outros argumentos para provar a primeira opinião, ou seja, aqueles que afirmam serem palavras essenciais na forma da consagração do vinho, apenas estas: "Hic est calix sanguinis mei":
 a) Nenhum dos autores sagrados referem aquelas palavras na íntegra.
 b) Aquelas palavras da consagração: "novi et aeterni testamenti: mysterium fidei; qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum", na verdade, não se encontram nas formas de outras liturgias, principalmente orientais, e que são aprovadas pela Igreja e reconhecidas como válidas. E a Igreja não tem o poder de subtrair nenhuma palavra de Jesus que seja essencial. Em algumas liturgias faltam algumas destas palavras; em outras são todas omitidas.
  c) Com toda certeza São Paulo conscreveu uma fórmula válida (Cf. 1Cor. XI, 25). Ora, o Apóstolo não refere estas palavras, o que teria feito, caso fossem essenciais. Logo...
  d) Os teólogos que seguem a segunda opinião querem se basear em Santo Tomás de Aquino. Lendo, porém o Doutor Angélico vemos que ele em S.T. 3, q. 78, a. 3 não fala de palavras essenciais mas de palavras que pertencem à substância da forma, pertencem portanto, à integridade, não à essência. E Santo Tomás conclui: "Todas as palavras referidas são da substância da forma. Mas as primeiras: "Hic est calix sanguinis mei", significam a mesma conversão do vinho no sangue".
  Por isso diz o célebre teólogo Arregui, S. J.:"Segundo uma sentença comum e moralmente certa, Santo Tomás no local citado,  fala da substância da forma referindo-se não à sua essência mas à sua integridade.
   e) Dizer que todas as palavras da consagração do vinho são essenciais porque são tiradas das Sagradas Escrituras, não é por si só argumento. Pois, São Lucas XXII, 19 e São Paulo 1 Cor. XI, 24, além das palavras Hoc est corpus meum, trazem estas: "quod pro vobis datur, tradetur". No entanto a Santa Igreja não inclui estas palavras na forma da consagração do pão. E o teria feito, caso estas palavras fossem essenciais. Logo...

sábado, 24 de novembro de 2012

VATICANO II E A CIDADE CATÓLICA (continuação)

Por D.  Lefebvre, obra citada.
Morte do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo

  Se o Estado já não reconhece ter um dever especial a respeito da verdadeira Religião do verdadeiro Deus, o bem comum da sociedade civil já não está ordenado para a cidade celestial dos bem-aventurados, e a cidade de Deus sobre a terra, quer dizer a Igreja, se encontra privada de sua influência benéfica sobre toda a vida pública. Queiram ou não, a vida social se organiza fora da verdade e da lei divina. A sociedade se torna ateia. É a morte do Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. 
  
  É por certo o que fez o Vaticano II, quando Mons. de Smedt, relator do esquema de liberdade religiosa, afirmou três vezes: "O Estado não é uma autoridade competente para fazer o julgamento da verdade ou falsidade em matéria religiosa". Que declaração monstruosa a de afirmar que Nosso Senhor não tem mais o direito de reinar, de reinar sozinho, de impregnar todas as leis civis com a lei do Evangelho! Quantas vezes Pio XII condenou semelhante positivismo jurídico, com pretensão de que se deve separar a ordem jurídica da ordem moral porque não se poderia expressar em termos jurídicos a distinção entre a verdadeira e as falsas religiões. Vamos reler o "Foro dos espanhóis"!

  Mais ainda, para cúmulo da impiedade, o Concílio quis que o Estado liberado de seus deveres para com Deus, passe a ser de agora em diante a garantia de que nenhuma religião "se veja impedida de manifestar livremente a eficácia de sua doutrina para organizar a sociedade e vivificar toda atividade humana" (DH. 4). Assim o Vaticano II, convida a Nosso Senhor para vir organizar e vivificar a sociedade juntamente com Lutero, Maomé e Buda. É o que João Paulo II quis realizar em Assis, projeto ímpio e blasfemo. 

  Em outros tempos, a união entre a Igreja e o Estado católico teve como fruto a Cidade católica, realização perfeita do Reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Hoje a igreja do Vaticano II unida ao Estado que quer que seja ateu, dá à luz, desta união adúltera, a sociedade pluralista, a babel das religiões, a Cidade indiferentista que é o desejo da Maçonaria. 

O Reinado do Indiferentismo Religioso

  Dizem: "A cada qual sua religião!" ou então "A Religião católica é boa para os católicos, mas a muçulmana é boa para os muçulmanos!" Esta é a divisa dos cidadãos da Cidade indiferentista. Como querem que pensem de outro modo quando a igreja do Vaticano II lhes ensina que as outras religiões "não estão desprovidas de significação e de valor no mistério da salvação". Como querem que pensem de outro modo a respeito das outras religiões, quando o Estado concede a todas a mesma liberdade? A liberdade religiosa ocasiona fatalmente o indiferentismo dos indivíduos. Pio IX já condenava no "Syllabus" a seguinte proposição:
     
     "É falso declarar que a liberdade civil de todos os cultos e o poder dado a todos de manifestar aberta e publicamente todos os pensamentos, lancem mais facilmente os povos na corrupção dos costumes e do espírito e propaguem a peste do indiferentismo". 

 É o que nós vemos: depois da Declaração sobre a liberdade religiosa, a maioria dos católicos está persuadida de que "os homens podem encontrar o caminho da salvação eterna e obtê-la no culto de qualquer religião". Também se cumpriu o plano dos maçons: lograram, por um concílio da Igreja católica que ela "assumisse o grande erro do tempo atual, que consiste em (...) pôr em pé de igualdade todas as formas religiosas. 

  Será que todos os Padres conciliares que deram seu voto a "Dignitatis Humanae" e que proclamaram com Paulo VI a liberdade religiosa, perceberam que de fato tiraram o cetro de Nosso Senhor Jesus Cristo, arrancando-Lhe a coroa de sua Realeza social? Deram-se conta de que, concretamente, haviam tirado do trono a Nosso Senhor Jesus Cristo, do Trono de sua Divindade? Terão compreendido que fazendo-se eco das nações apóstatas, faziam subir até Seu Trono estas execráveis blasfêmias: "Não queremos que Ele reine sobre nós" (LC. XIX, 14); "Não temos outro rei, senão César!" (Jo. XIX, 15). Mas Ele, rindo do burburinho confuso de vozes que subia desta assembleia de insensatos, retira-lhes Seu Espírito. 

  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

VATICANO II E A CIDADE CATÓLICA

Ainda extraído do Livro de D. Lefebvre "DO LIBERALISMO À APOSTASIA".

  Procuremos encerrar o assunto. A Declaração conciliar sobre liberdade religiosa se mostra desde logo contrária ao Magistério constante da Igreja, e também não se situa na direção dos direitos definidos pelos últimos Papas. Pelo que vimos, ela também não se apóia em nenhum fundamento revelado. Por último, é importante examinar se ela se acha de acordo com os princípios católicos que regem as relações da cidade temporal com a religião.

Limites da Liberdade Religiosa

  Para começar, o Vaticano II afirma que a liberdade religiosa deve-se restringir aos "justos limites" (DH> I), "de acordo com as regras jurídicas (...) conforme à ordem moral objetiva, que são requeridas para salvaguardar eficazmente os direitos de todos (...) a autêntica paz pública (...) assim como a proteção devida à moralidade pública" (DH. 7). Tudo isto é muito razoável, mas deixa de lado a questão essencial que é a seguinte: o Estado não tem o dever, e por conseguinte o direito de salvaguardar a unidade religiosa das pessoas na Religião verdadeira, e de proteger as almas católicas contra o escândalo e a propagação do erro religioso e somente por isso limitar o exercício dos cultos falsos e inclusive proibi-los, se necessário?

  Tal é a doutrina exposta com veemência pelo Papa Pio IX na "Quanta Cura", onde o pontífice condena a opinião daqueles que, contrariamente à doutrina da Escriturara, da Igreja e dos Santos Padres, não temem afirmar que "o melhor governo é aquele que não se reconhece ao poder a função de reprimir por sanções, aos violadores da Religião católica, salvo se o exigir a paz pública. O sentido óbvio da expressão "violadores da Religião católica", é: aqueles que exercem publicamente um culto diferente do católico, ou que não observam publicamente as leis da Igreja. Pio IX ensina portanto, que o Estado governa melhor quando reconhece em si mesmo o ofício de reprimir o exercício público de cultos falsos, somente pelo motivo de serem falsos e não apenas para salvaguardar a paz pública; somente pelo motivo de que contrariam a ordem cristã e católica da Cidade, e não porque a paz e a moralidade públicas possam ser afetadas.

  Por isso deve-se dizer que os "limites" fixados pelo Concílio à liberdade religiosa são como poeira nos olhos que oculta o seu defeito radical, que é o de não levar em conta a diferença entre a verdade e o erro. Contra toda justiça, pretende-se atribuir o mesmo direito à verdadeira religião e às falsas, e artificialmente procura-se limitar os prejuízos por meio de barreiras que estão longe de satisfazer às exigências da doutrina católica. De bom grado compararia "os limites" da liberdade religiosa aos muros de segurança das auto-estradas, que servem para conter os veículos quando o motorista perdeu o controle deles. Seria preferível entretanto, certificar-se antes se estão dispostos a respeitar os regulamentos de trânsito. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II - (continuação)

Atenção! Continuaremos os artigos de D. Lefebvre sobre A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II   - Livro "DO LIBERALISMO À APOSTASIA". 

A Liberdade do Ato de Fé

  Por último invocam a liberdade do ato de Fé (DH, 10). Aí há um duplo argumento. Eis o primeiro: Por motivos religiosos, impor limites ao exercício de um culto dissidente, seria por via indireta forçar seus adeptos a abraçar a Fé católica. Realmente o ato de Fé deve estar livre de toda coação: "Que ninguém seja coagido a abraçar a Fé católica contra a sua vontade" (Direito Canônico de 1917, can. 1351). 
  Baseado na sã teologia moral, eu respondo que tal coação é legítima conforme as regras do "voluntário indireto". Com efeito, ela tem como objeto direto limitar o culto dissidente, o que é um bem,  e  somente por efeito indireto e remoto o incitar certos não católicos a se converter, mais por temor ou conveniência social do que por convicção, o que não é o ideal, mas que pode ser permitido por razão grave. 

  O segundo argumento é básico e exige maior estudo. Ele se apóia na concepção liberal do ato de Fé. Segundo a doutrina católica, a Fé é uma anuência, uma submissão da inteligência à autoridade de Deus que revela, sob o impulso da vontade livre movida pela graça. Por um lado o ato de Fé deve ser livre, ou seja, deve escapar à toda coação exterior que tivesse por objeto ou por efeito direto obtê-lo contra a vontade da pessoa. Por outro lado, sendo o ato de Fé uma submissão à autoridade divina, nenhum poder ou terceira pessoa tem o direito de se opor à influência da Verdade primeira, que tem o direito inalienável de iluminar a inteligência do fiel. Disto se segue que o fiel tem direito à liberdade religiosa; ninguém tem o direito de o coagir, e ninguém tem o direito de impedi-lo de abraçar a Revelação divina ou de realizar com prudência os atos exteriores de culto.

  Entretanto os liberais, esquecidos do caráter objetivo, completamente divino e sobrenatural do ato de Fé divina, e os modernistas que correm no seu rastro, fazem da Fé uma expressão da convicção subjetiva do sujeito no final de sua procura pessoal, ao tentar responder às grandes interrogações que lhe apresenta o universo. A Igreja que propõe o fato da Revelação divina exterior, dá lugar à invenção criadora do sujeito, ou pelo menos o sujeito deve se esforçar para ir de encontro à fonte... Sendo assim, então a Fé divina é rebaixada ao nível das convicções religiosas dos não cristãos, que pensam ter uma fé divina, quando não têm mais do que uma persuasão humana, pois o motivo para aderir à sua crença não é a autoridade divina, mas o libre julgamento de seu espírito. Está aí sua inconsequência fundamental: os liberais pretendem manter para este ato de persuasão completamente humano, os caracteres de inviolabilidade e isenção de toda coação que não pertencem senão ao ato de Fé divina. Eles asseguram que pelos atos de suas convicções religiosas, os adeptos de outras religiões se põem em relação com Deus, e que a partir daí esta relação deve ficar livre de toda coação que puder afetá-la. Eles dizem: "Qualquer fé religiosa é respeitável e intocável". 

  Mas estes últimos argumentos são visivelmente falsos, pois por suas convicções religiosas os adeptos das outras religiões não fazem mais do que seguir invenções do seu próprio espírito, produções humanas que não têm em si nada de divino, nem em seu princípio, nem em seu objeto, nem no motivo pelo qual aderiram a elas.

   Isto não quer dizer que não há nada de verdadeiro em suas convicções, ou que não possam conservar sinais da Revelação primitiva ou posterior. Mas a presença destas "semina verbi) (=sementes da palavra) não basta por si para fazer de suas convicções um ato de Fé divina. Principalmente porque se Deus quisesse suscitar este ato sobrenatural por sua Graça, na maioria dos casos se veria impedido pela presença de inúmeros erros e superstições aos quais estes homens continuam ligados. 

  Frente ao subjetivismo e ao naturalismo dos liberais devemos reafirmar hoje o caráter objetivo e sobrenatural da Fé divina que é a Fé católica e cristã. Somente ela tem o direito absoluto e inviolável ao respeito e à liberdade religiosa. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

LIBERDADE RELIGIOSA - (continuação)

Por D. Lefebvre , obra citada.


Uma Inclinação Natural de todo Homem para Deus?


  O Concílio (DH. 2-3) além da dignidade da pessoa humana, invoca sua procura natural do divino: todo homem no exercício de sus religião, estaria de fato orientado para o verdadeiro Deus, em procura talvez inconsciente do verdadeiro Deus, "enxertado" em Deus, e portanto teria um direito natural de ser respeitado no exercício de seu culto. Para a teologia católica, se um budista queima varinhas de incenso diante do ídolo de Buda, comete um ato de idolatria; entretanto, à luz da nova doutrina descoberta pelo Vaticano II, este fato expressa o "esforço" supremo de um homem para procurar a Deus. Por conseguinte este ato religioso teria direito de ser respeitado, e este homem teria o direito de não ser impedido de realizá-lo, ele teria direito à liberdade religiosa. 

  Inicialmente há uma contradição em afirmar que todos os homens dedicados aos falsos cultos, estão naturalmente orientados para Deus. Um culto errado não pode mais do que separar as almas de Deus, já que as compromete em um caminho que não as conduz para Deus. 

  Pode-se admitir que em religiões falsas, certas almas possam estar orientadas para Deus, mas é por que elas não se apegam aos erros de sua religião. Não se orientam para Deus graças à sua religião, mas apesar dela. Por conseguinte o respeito que se deveria ter por estas almas, não implica em que se deva respeito à sua religião.

  De todos os modos, a identidade e o número das almas que Deus se digna chamar para Ele por sua graça, permanece oculto e ignorado. Certamente não são muitas. Um sacerdote originário de um país de religião mista, me referia um dia sua experiência a respeito daqueles que vivem nas seitas heréticas; ele me contava sua surpresa ao comprovar como estas pessoas estão endurecidas em seus erros e pouco dispostas a examinar as observações que pode fazer-lhes um católico. Como são pouco dóceis ao Espírito da Verdade...

  A identidade das almas verdadeiramente orientadas para Deus nas outras religiões, fica no segredo de Deus e escapa ao julgamento humano. Por isso é impossível basear sobre ela algum direito natural ou civil, Seria fazer a ordem jurídica das sociedades se basear em suposições fortuitas e arbitrárias. Finalmente seria basear a ordem social sobre a subjetividade da cada um e construir a casa sobre areia...

  Acrescentarei que estive em suficiente contato com as religiões da África (Animismo, Islamismo) e o mesmo se pode dizer da Índia (Induísmo) para poder afirmar que em seus adeptos se constatam as lamentáveis consequências do pecado original, e particularmente o obscurantismo da inteligência e o temor supersticioso. Sustentar, como faz o Vaticano II, a existência de uma orientação naturalmente reta para Deus em todos os homens, é um irrealismo total e uma outra heresia naturalista. Deus nos livre dos erros naturalistas e subjetivistas! São marca inequívoca do liberalismo que inspira a liberdade religiosa do Vaticano II. Eles só podem levar ao caos social e à Babel das religiões. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II (continuação)

"DO LIBERALISMOS Á APOSTASIA", por  D. Lefebvre

  A Liberdade Religiosa, Direito Natural à Imunidade?

  Sem invocar a tolerância, o Concílio definiu um simples direito natural à imunidade: o direito de não ser perturbado no exercício do próprio culto, qualquer que seja. 

  A astúcia ou pelo menos o procedimento astuto, era evidente: por não poder definir um direito ao exercício de todo culto, pois este direito não existe para os falsos cultos, empenharam-se em formular um direito natural somente para a imunidade, que sirva aos  adeptos de todos os cultos.

  Assim todos os "grupos religiosos" (inocente qualificativo para esconder a Babel das religiões) gozariam naturalmente da imunidade a toda coação em seu "culto público à divindade suprema" ( por Deus, ! de que divindade se trata?) e também se beneficiariam do "direito de não ser impedidos de ensinar e de manifestar sua fé (que fé?) publicamente, oralmente ou por escrito (DH. 4).

  É imaginável maior confusão? Todos os adeptos de todas as religiões, tanta da verdadeira como das falsas, absolutamente reduzidos ao mesmo pé de igualdade, gozariam de um mesmo direito natural, sob o pretexto de que se trata somente de um "direito à imunidade". É por acaso concebível?

  É mais do que evidente que os adeptos das falsas religiões, somente por este título, não gozam de nenhum direito natural à imunidade. Permitam-me ilustrar esta verdade com um exemplo concreto: se vocês quisessem impedir a oração pública de um grupo muçulmano na rua, ou perturbar seu culto em uma mesquita, pecariam talvez contra a caridade e seguramente contra a prudência, mas não fariam a estes crentes nenhuma injustiça. Não se sentiriam feridos em nenhum dos bens a que têm direito, nem em nenhum de seus direitos a estes bens; em nenhum de seus bens, porque seu verdadeiro bem não é exercer sem coação seu culto falso, mas poder exercer um dia o verdadeiro; em nenhum de seus direitos, pois eles têm precisamente o direito de exercer o "culto de Deus em particular e em público" e a não ser nisso impedidos, mas o culto de Alá não é o culto de Deus! Realmente Deus revelou, Ele mesmo, o culto com que quer ser honrado exclusivamente, que é o da Religião católica. 

  Por conseguinte, se na justiça natural não se prejudica de nenhum modo a estes crentes ao impedir ou perturbar seu culto, é porque não têm nenhum direito natural de não serem perturbados em seu exercício. 

  Se objetarem dizendo que sou "negativo", que não sei considerar os valores positivos dos falsos cultos, declaro que mais acima já respondi a esta objeção falando da "procura". Poderão me retrucar dizendo que a orientação fundamental das almas dos adeptos dos falsos cultos permanece reta e que deve ser respeitada e portanto deve ser respeitado o culto em que ela está inserida. Não poderia opor-me ao culto sem prejudicar estas almas, sem romper sua orientação para Deus. Assim por causa de um erro religioso, a alma em questão não teria o direito de exercer seu culto. Mas como de qualquer maneira ela estaria enxertada em Deus, teira direito à imunidade no exercício de seu culto. Todo homem teria assim um direito natural à imunidade civil em matéria religiosa.

  Admitamos por um momento esta chamada orientação naturalmente reta para Deus, de toda alma no exercício de seu culto. Não é absolutamente evidente que o dever de respeitar seu culto, seja dever de justiça natural. Falando com propriedade me parece tratar-se de um puro dever de caridade. Sendo assim, este dever de caridade não dá aos adeptos dos falsos cultos nenhum direito civil à imunidade. No entanto, precisamente o Concílio proclama para todos os homens, sem prová-lo, um direito natural à imunidade civil. Pelo contrário, me parece que o exercício dos falsos cultos não pode ir além do estatuto de um simples direito civil à imunidade, o que é bem diferente. 

  Distingamos bem, por um lado a virtude da justiça que ao determinar a uns seus deveres, dá aos outros o direito correspondente, ou seja a faculdade de exigir; e de outra parte, a virtude da caridade, que é verdade, impõe deveres a uns, sem atribuir por isto nenhum direito aos outros. 

sábado, 17 de novembro de 2012

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II - (continuação)

Do Livro "DO LIBERALISMO À APOSTASIA",  por D. Lefebvre


A Liberdade Religiosa, Direito Universal à Tolerância?

   O Padre Ph. André Vincent que se interessava muito pelo assunto, me escreveu um dia para pôr-me em guarda: "atenção, - me dizia, - o Concílio não reclama o direito "afirmativo" de exercer seu culto para os adeptos das falsas religiões, mas somente o direito "negativo" de não serem impedidos no exercício público ou particular de seu culto. Definitivamente o Vaticano não fez mais do que generalizar a doutrina clássica da tolerância".

  Com efeito, quando um Estado católico, por motivo da paz civil, para cooperação de todos ao bem comum, ou de um modo geral para evitar um mal maior, julga que deve tolerar o exercício deste ou daquele culto, pode então "fechar os olhos" por uma tolerância de fato, não tomando nenhuma medida coercitiva a seu respeito; inclusive dar a seus adeptos o direito civil de não serem molestados no exercício de seu culto. Neste último caso, trata-se de um direito puramente negativo. Por outro lado os Papas não deixam de afirmar que a tolerância civil não concede nenhum direito "afirmativo" aos dissidentes, nenhum direito de exercer seu culto, pois semelhante direito afirmativo só pode se firmar sobre a verdade do culto considerado:

     "Se as circunstâncias o exigem,  pode-se tolerar desvios na regra, quando são introduzidos tendo em vista evitar males maiores, sem contudo elevá-los à dignidade de direito, contra as eternas leis da justiça". (Cf. Pio IX, carta "Dum Civilis Societas" de 1 de Janeiro de 1875 para M. Charles Perrin). 

      "Embora não dando direitos senão àquilo que é verdadeiro e honesto, a Igreja não se opõe à tolerância que o poder público acha que tem que usar a respeito de certas coisas contrárias à verdade e à justiça, tendo em vista evitar mal maior ou procurar conservar um bem maior" (Leão XIII, Encíclica "Libertas"). 

    "Qualquer que seja seu caráter religioso, nenhum Estado ou comunidade de Estados, pode dar um mandato positivo ou uma autorização positiva (afirmativa) de ensinar ou fazer o que seja contrário à verdade religiosa ou ao bem moral (...).

      "Outra coisa essencialmente diferente, é o que se formulou nesta pergunta: em uma comunidade pode-se, pelo menos em determinadas circunstâncias, estabelecer que a norma do livre exercício de uma crença ou de uma prática religiosa em vigor em um Estado membro não seja impedida em todo o território da comunidade por meio de leis coercitivas do Estado?" (Cf. Pio XII, alocução "Ci riesce" aos jornalistas italianos em 6 de Dezembro de 1953). O Papa responde afirmativamente: sim, em  certas circunstâncias tal norma pode ser estabelecida.

  O Padre Baucher resume muito bem esta doutrina. Ele escreve: "Decretando a tolerância considera-se que o legislador não quer criar em benefício dos dissidentes, o direito à faculdade moral de exercer seu culto, mas somente o direito de não serem perturbados no exercício deste culto. Sem nunca ter o direito de agir mal, pode-se ter o direito de não ser impedido de agir mal, quando uma justa lei por motivos suficientes, impede tal impedimento". (Cf. D.T. C., T. IX, col. 701, artigo "Liberté").
  Mas acrescenta para esclarecer:
  "É diferente o direito civil à tolerância, quando está garantido por lei tendo em vista o bem comum de alguma nação em determinadas circunstâncias, do pretendido direito natural e inviolável à tolerância, para todos os adeptos de todas as religiões, por princípio e em qualquer circunstância". 

  De fato, o direito civil à tolerância, mesmo se as circunstâncias que o legitimam se multiplicam hoje em dia, continua estritamente relativo às ditas circunstâncias. 

      Escreve Leão XIII na Encíclica "Libertas":
      "A tolerância ao mal, pertence aos princípios da prudência política e deve ser rigorosamente limitada pelos limites exigidos por sua razão de ser, ou seja do bem público. Portanto se ela for prejudicial, ou se for para o Estado causa de um mal maior, como consequência não será permitido usar dela, uma vez que nestas condições falta à razão do bem maior". 

  Teria sido muito difícil ao Vaticano II proclamar um direito natural e universal à tolerância, apoiando-se nos atos do Magistério anterior. E também evitaram cuidadosamente a palavra "tolerância" que parecia muito negativa, pois o que se tolera é sempre um mal; em troca procurou-se destacar os valores positivos de todas as religiões. 
  





sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II (continuação)

Os Direitos da Consciência?

  No começo do Concílio alguns quiseram basear a liberdade religiosa nos direitos de consciência: "A liberdade religiosa seria vã, se os homens não pudessem demonstrar os imperativos de sua consciência em atos exteriores, declarou Mons. de Smedt em seu discurso introdutório ("Documentation Catholique", 5 de Janeiro de 1964, col. 74-75). O argumento era o seguinte: cada um tem  dever de seguir sua consciência, pois ela é para cada um, a regra imediata de ação. Mas isto vale não somente para uma consciência verdadeira como também para uma consciência invencivelmente errada, em particular a de numerosos adeptos das falsas religiões; assim eles têm o dever de seguir sua consciência, e deve-se dar a eles a liberdade de segui-la e de exercer seu culto. 

  O disparate deste raciocínio ficou logo evidente e tiveram que se contentar em fazer fogo com outra madeira. Com efeito o erro involuntário, ou seja, sem culpa, desculpa toda falta moral, mas não por isto passa a ser uma ação boa  e portanto não dá direito a seu autor. O direito só pode se firmar sobre a norma objetiva da lei, e em primeiro lugar sobre a lei divina que regula a maneira como Deus quer ser honrado pelos homens.

  A Dignidade da Pessoa Humana?

  Por não oferecer a consciência um fundamento suficientemente objetivo, julgaram encontrar um na dignidade da pessoa humana. "O Concílio do Vaticano declara (...) que o direito à liberdade religiosa tem seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana" (DH. 2). Esta dignidade consiste em que o homem, dotado de inteligência e de livre arbítrio, está por sua própria natureza preparado para conhecer a Deus, o que não poderá conseguir se não for deixado livre . O argumento é este: o homem é livre, portanto deve ser deixado livre. Ou ainda: o homem é dotado de livre arbítrio, portanto tem direito à liberdade de ação. Vocês já conhecem o princípio absurdo de todo liberalismo, como o chama o Cardeal Billot. É um sofisma: o livre arbítrio se situa no terreno do SER, a liberdade moral e a liberdade de ação se situa no plano do AGIR.  Uma coisa é o que Pedro é por natureza e outra é o que ele chega a ser (bom ou mau, na verdade ou no erro) mediante seus atos. A dignidade humana radical é por certo a de uma natureza inteligente, capaz portanto de uma escolha pessoal, mas sua dignidade terminal (final) consiste em aderir, em ato, à verdade e ao bem. É esta dignidade terminal que dá a cada um a liberdade moral (faculdade de agir) e a liberdade de ação (faculdade de não ser impedido de agir). Mas na medida que o homem adere ao erro ou se apega ao mal, perde sua dignidade terminal ou não a alcança e já não pode firmar-se sobre ela. Isto é o que ensinava magnificamente Leão XIII nos textos escondidos pelo Vaticano II. Falando sobre as falsas liberdades modernas, escreveu Leão XIII na "Immortale Dei":

     "Se a inteligência adera às ideias falsas, e se a vontade escolhe o mal e se une a ele, nem uma nem outra alcançam a perfeição, ambas perdem sua dignidade inicial e se corrompem. Por isso não é permitido vir à luz e mostrar aos olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos colocar isto sob a tutela da proteção das leis". 

  E na Encíclica "Libertas", explica o mesmo Papa em que consiste a verdadeira liberdade religiosa e em que se deve fundar:

     "Outra liberdade que se proclama muito alto, é a liberdade que chamam de liberdade de consciência; e entende-se com isso que cada um pode indiferentemente, a seu gosto, dar ou não culto a Deus. Os argumentos apresentados antes, bastam para refutar".

     "Mas ela também pode ser entendida no sentido de que o homem tem no Estado o direito de seguir, de acordo com  a consciência de seu dever, a vontade de Deus, cumprir seus preceitos, sem que alguém possa impedi-lo. Esta liberdade, a verdadeiramente digna dos filhos de Deus, que protege tão gloriosamente a dignidade da pessoa humana, está acima de toda violência e de toda opressão, ela foi sempre objeto dos desejos da Igreja e de seu particular afeto". 

  Para uma verdadeira dignidade, verdadeira liberdade religiosa; para uma falsa dignidade, falsa liberdade  religiosa!


   Nota: Na verdade, a DIGNIDADE DO HOMEM, está em ele usar bem deste dom de Deus, que é o livre arbítrio e fazer o que Deus manda; empregar sua inteligência para a verdade; e empregar sua vontade para o bem. E se alguém está no erro de boa fé, isso o isenta de culpa moral, mas não lhe dá dignidade. Os homens mais dignos sobre a face da terra são os santos!!! Víctor Hugo, célebre escritor francês, certa vez respondeu a um admirador entusiasta que lhe atribuía uma glória imortal: - "Glória imortal a minha? replicou V. Hugo.  Nunca! Morrerei e, depois de alguns séculos, somente uns poucos eruditos ainda saberão que existiu um Víctor Hugo. Imortal sim, é a glória dos Santos que figuram no calendário litúrgico da Igreja Católica."
   

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II

Extraído do Livro "DO LIBERALISMO À APOSTASIA" escrito por D. Lefebvre

  De acordo com o Vaticano II  a pessoa humana teria direito em nome de sua dignidade, a não ser impedida no culto religioso, qualquer que ele fosse, em particular ou em público, salvo se prejudicasse a tranquilidade ou a moralidade pública (1). Reconheçam que a moralidade pública do Estado "pluralista" promovida pelo Concílio não é do tipo a causar dano a esta liberdade, como também a corrupção avançada da sociedade liberal não limitaria o direito à liberdade do "concubinato" se fosse proclamado indistintamente, em nome da dignidade humana, para casais em união livre ou casados. 

  Assim pois, muçulmanos, rezai tranquilamente no meio de nossas ruas cristãs, construí vossas mesquitas e minaretes junto aos campanários de nossas igrejas, a Igreja do Vaticano II vos assegura que não o podemos impedir; o mesmo para vocês budistas e hindus...!

  Em troca, nós católicos pediremos a liberdade religiosa em vossos países, em nome da liberdade que damos nos nossos... Poderemos assim defender nossos direitos religiosos ante os regimes comunistas, em nome de um princípio declarado por uma assembleia religiosa tão solene e já reconhecida pela O. N. U.  e pela maçonaria... É a declaração que me fez João Paulo II, na audiência que concedeu em 18 de Novembro de 1978: "O senhor sabe, me disse, a liberdade religiosa nos foi muito útil contra o comunismo na Polônia". Eu tinha vontade de contestar: "Muito útil pode ser como argumento "ad hominem", já que os regimes comunistas têm a liberdade de culto inscrita em suas constituições, mas não como princípio doutrinal da Igreja Católica". 


I

Liberdade Religiosa e Verdade

    Era isto ao menos, o que dizia o P. Garrigou-Lagrange: 

        "Nós podemos (...) fazer da liberdade de culto um argumento "ad hominem" contra aqueles que, enquanto proclamam a liberdade de culto, perseguem a Igreja (Estados laicos e socializantes), ou impedem o culto direta e indiretamente (Estados comunistas, islâmicos, etc.). Este argumento "ad hominem" é justo e a Igreja não o despreza, usando-o para defender eficazmente o direito de sua liberdade. Mas não se segue que a liberdade de culto, considerada em si mesma, seja sustentada pelos católicos como um princípio, porque ela é em si absurda e ímpia; com efeito, a verdade e o erro não podem ter os mesmos direitos" (2).

  Gosto de repetir: só a verdade tem direitos, o erro não tem nenhum direito, é o ensinamento da Igreja:

    Escreve Leão XIII: "O direito é uma faculdade moral, e como temos dito e não cansamos de repetir, seria um absurdo crer que ele pertence naturalmente e sem distinção nem discernimento à verdade e à mentira, ao bem e ao mal. A verdade, o bem, tem o direito de ser propagado no Estado com uma liberdade prudente, para que um maior número possa se beneficiar; mas as doutrinas enganosas, a peste fatal do espírito (...), é justo que o poder público empregue seu poder para reprimi-las, a fim de impedir que o mal se estenda para ruína da sociedade" (3). 

  Fica claro que as doutrinas e os cultos das religiões falsas, não têm nenhum direito para se expressar e propagar livremente. Para contornar esta verdade de La Palice (4), objetaram no Concílio que a verdade ou o erro não têm nenhum direito, são as pessoas que têm os direitos, elas são o "sujeito do direito". Assim tentavam desviar o problema, pondo-o em um nível puramente subjetivo e esperando deste modo poder fazer abstração da verdade. Mas este intento foi em vão, como demonstrarei a seguir, situando-me na própria problemática do Concílio. 

  A liberdade religiosa posta em nível subjetivo de "sujeito de direito", daria o mesmo direito àqueles que aderem à verdade religiosa e àqueles que estão no erro. É concebível semelhante direito? Em que se apóia o Concílio? 

NOTAS: (1) - Cf. "Dignitatis Humanae", nº 2.
                 (2) - Cf. Garrigou-Lagrange O. P., "De Revelatione" T. 2, pg. 451, oitava objeção. Ferrari y Gabalda, Ed. 1921.
                 (3) - Cf. Encíclica "Libertas", PIN. 207. 
                 (4) - La Palisse ou La Palice, gentil-homem francês morto na batalha de Pavia em 1525. Esta expressão equivale a uma verdade evidente, (N. do T.). 
           
Continua o mesmo assunto no próximo post. 

QUESTIONAMENTO E DIÁLOGO

Extraído do Livro "DO LIBERALISMO À APOSTASIA", escrito por D. Lefebvre

O Questionamento
   
   Temos visto que o espírito católico-liberal não tem suficiente confiança na verdade. O espírito conciliar, por sus vez, perde a esperança de conseguir chegar à verdade; sem dúvida a verdade existe, mas ela passa a ser objeto de uma procura sem fim.
   Veremos que isto significa que a sociedade não se pode organizar sobre a verdade, verdade que é Jesus Cristo. Em tudo isto, a palavra chave é "questionamento", ou orientação, tendência para a verdade, procura da verdade, caminho para a verdade. Na linguagem conciliar e post-conciliar encontra-se com abundância os termos "movimento" e "dinâmica".
   Com efeito, o Concílio Vaticano II canonizou a procura em sua Declaração sobre a liberdade religiosa: "A verdade deve ser procurada conforme o modelo próprio da pessoa humana e de sua natureza social, ou seja, por meio da livre procura..." O Concílio põe a procura em primeiro lugar, antes do ensino e da educação. Entretanto a realidade é outra: as convicções religiosas são impostas pela educação das crianças, e uma vez que estão fixadas nos espíritos e manifestadas nos cultos religiosos, para que procurá-las? 
   Por outro lado, muito raramente a "livre procura" conseguiu alcançar a verdade religiosa e filosófica. O grande Aristóteles não está isento de erros. A filosofia do livre exame acaba em Hegel... E também, que dizer das verdades sobrenaturais? eis o que diz São Paulo falando aos pagãos: "Como poderão crer, se não lhes fazem prédicas? Como se poderá pregar, se não lhes enviam missões? (Rom. X, 15). Não é o questionamento que a Igreja deve pregar, mas a necessidade das missões: "Ide e ensinai todas as nações" (Mt. XXVIII,19), tal é a ordem dada por Nosso Senhor. Sem a ajuda do Magistério da Igreja, quantas almas poderão encontrar a verdade, permanecer na verdade? A livre procura é um irrealismo total, no fundo um naturalismo radical. Na prática, qual a diferença entre quem se questiona e um livre pensador?

O Diálogo
  O diálogo não é uma descoberta conciliar, Paulo VI em "Ecclesiam Suam" (1) é o seu autor: diálogo com o mundo, com as outras religiões; mas é preciso reconhecer que o Concílio aumentou imensamente sua tendência liberal. Exemplo:

     "A verdade deve ser procurada (...) por meio (...) de um intercâmbio e de um diálogo para que uns exponham aos outros a verdade que encontraram ou pensam haver encontrado para se ajudarem mutuamente na procura da verdade" (DH. 3).
  
  Assim, tanto o crente como o não crente deveriam estar sempre em procura. São Paulo entretanto, denunciou os falsos doutores "que estão sempre aprendendo sem nunca chegar à verdade" (2Tim. III, 7). .Por seu lado, o não crente pensaria em fornecer ao crente elementos da verdade que lhe faltaram! O Santo Ofício, em sua Instrução de 20 de Dezembro de 1949, sobre o ecumenismo, afastava este erro e falando da volta dos cristãos separados para a Igreja católica, escrevia:

     "Deve-se evitar falar sobre isso de um modo tal que ao voltar à Igreja, eles imaginem que tragam para ela algo de essencial que lhe teria faltado até então". (2). 

  O contato com não católicos só pode nos trazer experiências humanas, mas nunca elementos doutrinais!
  Além disso o Concílio modificou consideravelmente a atitude da Igreja diante das outras religiões, em particular das não-cristãs. Na entrevista que eu tive em 13 de Setembro de 1975 com o secretário de Mons. Nestor Adam, então bispo de Sion na Suíça, o secretário estava de acordo comigo: "Sim, algo mudou na orientação missionária da Igreja". Mas ele acrescentava: "...e tinha mesmo que mudar". "Por exemplo, dizia ele ainda, agora nós procuramos naqueles que não são cristãos ou nos que se separaram da Igreja, o que há neles de bom, de positivo; procuramos ver nos seus valores os germes de sua salvação."

  É claro que todo erro tem lados verdadeiros, positivos; não há erro em estado puro, assim como o mal absoluto não existe. O mal é a corrupção de um bem; o erro é a corrupção da verdade, mesmo sendo evidente que a pessoa má ou errada conserva sua natureza, suas qualidades naturais, algumas verdades. Mas há grande perigo em tomar este resto de verdade não atingido pelo erro como base. O que deveríamos pensar de um médico que, chamado para assistir um doente grave chegasse dizendo: - "Ainda há muita saúde neste doente, isso é que conta". Você poderia objetar:  - "Mas é melhor examinar a doença antes que ele morra!" E o médico a insistir: - "Ah! mas ele não está tão doente. Além disso meu método de trabalho é de não prestar atenção à doença de meus pacientes: isso é negativo; eu me volto para a saúde que lhe resta." Então diria eu, deixemos que morram os doentes! O resultado é que à força de se dizer aos não-católicos ou aos não-cristãos: "afinal vocês têm uma consciência reta, vocês têm meios de salvação" eles acabam acreditando que não estão doentes. E depois, como os converter?

  Nunca tal espírito foi o da Igreja. Pelo contrário, o espírito missionário foi sempre o de mostrar abertamente aos enfermos suas chagas, para curá-los e dar-lhes os remédios de que necessitavam. É uma crueldade encontrar-se com não cristãos e não lhes dizer que têm necessidade da Religião cristã, e que somente se podem salvar por Nosso Senhor Jesus Cristo. Sem dúvida no começo de uma conversão se faz uma "captatio benevolentiae", (3) elogiando o que há de honesto em sua religião, ou seja, o que é legítimo; mas fazer disso um princípio doutrinal é um erro, é enganar as almas! "Valores salvíficos das outras religiões": isto é uma heresia! Fazer deles a base do apostolado missionário é querer manter as almas no erro. Este "diálogo" é anti-missionário ao extremo. Nosso Senhor não enviou seus apóstolos para dialogar, mas para pregar. Por ser este espírito de diálogo liberal  o recomendado aos sacerdotes e missionários desde o concílio, entende-se porque a Igreja Conciliar perdeu completamente o zelo missionário, o verdadeiro espírito da Igreja.  

NOTAS: (1) - Esta Encíclica é de 6 de Agosto de 1964.
                 (2) - Instrução "De Motione Oecumenica".
            (3) - "Captar a benevolência". D. Lefebvre era missionário e sabia bem o que significa isto: o missionário ao chegar para início de alguma missão deve em primeiro lugar atrair a simpatia dos ouvintes: mansidão, tolerância de algumas coisas que por prudência vai corrigindo aos poucos ( exemplo: falta de modéstia) e também elogios, como diz D. Lefebvre, das coisas honestas e legítimas;  obras de caridade, como fizeram os santos, por ex. São Vicente de Paulo.
  Estive em Jerusalém em 2000 e, estando perto do muro das lamentações, conversava com o sr. Leão, nosso guia, que era da religião judaica. Perguntei a ele: Não quero só sua opinião particular, queria saber qual foi a reação dos judeus e muçulmanos pelo fato de o Papa ter beijado o livro do Alcorão e ter rezado ali no muro das lamentações e ter ali deixado um escrito pedindo perdão pelas (pretensas) faltas da Igreja com relação a eles. O Sr. Leão respondeu-me: "Todos achamos ótimo. Afinal a Igreja  Católica vem reconhecendo que nós estamos certos!" 
  Quando dissemos ao Sr. Leão que iríamos rezar para ele se converter, respondeu-nos: - "Também irei rezar para vocês católicos se converterem".  
   No monte das Oliveiras, na Igreja do Pater Noster que é também um Carmelo, e lá vemos o "Pater Noster" escrito em todas as línguas. Foi ali que Jesus ensinou o Pai-Nosso. Pedimos, então ao Sr. Leão que lesse para nós o Pai-Nosso em hebraico e aramaico, línguas em que Jesus falou. Ele leu, mas não falou o Amém. E lá está escrito. Perguntamos a ele o porquê. Respondeu: "O 'Amém' confirma o que Jesus ensinou e nós judeus não aceitamos a Jesus". 
   Uma árvore má não pode dar bons frutos!