sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A INFRAÇÃO DO DECÁLOGO. O PECADO



(Excertos do capítulo IV do livro "OS DEZ MANDAMENTOS" de autoria de Mons. Tihamer Tóth)

A infração da Lei de Deus, o pecado, é o maior mal do mundo; assim ensina a nossa religião sacrossanta. E por isso nos repete a cada momento esta sentença: 'Antes morrer que manchar-se'. (...)
QUE PENSA O MUNDO A RESPEITO DO PECADO?

O grande defeito, o principal, da nossa época, está justamente nisto: não se toma nada a sério, em nada vemos pecado. (...)

Se não vemos pecado em nada é porque não somos bastante sérios para o descobrir. Só o nosso divino Salvador podia dizer: Quem de vós me convencerá de pecado? (S. João VIII, 46). (...). Não há sinal mais espantoso do atual processo de decomposição: estamos submersos no pecado até ao pescoço, mas não o sentimos; ainda mais: nem gostamos de falar nele.

Os pecados são inúmeros; e apesar disso veremos os homens amontoarem-se em torno dos confessionários de manhã até à noite? Não. Porque morreu a consciência do pecado. (...)

Ao contemplar a cruz do Redentor dão-nos ânsias de gritar, de gritar com força, para que todo o mundo ouça e grave as palavras do seu coração: 'Homens, olhai e vede o que é o pecado! O que é o pecado que exige tal expiação!'

Deus criou o homem para a felicidade para que seja feliz já nesta vida terrena. No plano primitivo de Deus, o homem depois de passar a vida em tranqüilo gozo nesta terra, sem experimentar sequer as amarguras da morte, havia de entrar no reino do Céu.

E por que não é assim? Por que sofre e sofre tanto esse homem criado para a felicidade? Responde S. PAULO: 'Por um só homem entrou o pecado neste mundo e pelo pecado, a morte' (Rom. V, 12). Foi o pecado que nos perdeu, que tornou desgraçada a nossa vida. (...). O mundo inteiro não é mais que enorme escola de pecado em que todos gabem só o pecado. Vem um pintor e com o seu pincel traça o pecado, cheio de sedução, para que nos agrademos dele. 'É pecado?' Não é pecado! É arte moderna!' Vem o escultor e comunica vida à pedra; o poeta, às palavras. É pecado? Não é pecado! É arte, é literatura moderna!' O filósofo diz que não há pecado, que só há debilidade, defeito, falha, imperfeição... Eis como o mundo decide a respeito do pecado.
Mas...
QUE PENSA DEUS A RESPEITO DO PECADO?
(...)Possuímos um livro antigo que sabemos escrito por inspiração de Deus (a Bíblia). Este livro pinta-nos o primeiro pecado, a primeira queda.(...) A história do Paraíso Terrestre é a descrição não só do primeiro pecado, mas, em certo modo de todos os pecados. (...)

Qual a consequência do pecado? Que lhes (a Adão e Eva) prometeu o tentador? "Abrir-se-vos-ão os olhos...' Pois... abriram-se. Mas que foi que eles viram? Vergonha, temor, remorso. É a única ciência que o pecado comunica ao homem. A vergonha é a consequência de todo o pecado. O pecador pode ocultar-se do mundo, das leis, mas não de si próprio. Poderá haver homem tão depravado que se vanglorie do seu pecado. Pode haver um pseudo-filósofo que apresente o mal com aspecto de bem; um poeta que dedique hinos ao pecado!... Virão, porém, dias, momentos, em que a alma do depravado, do pseudo-filósofo, do pagão, do poeta, soluce, abatida sob a terrível vergonha do pecado. Ninguém pode evitar este castigo.

Principalmente se se acrescentar a segunda consequência do pecado: o temor. 'Ouvi a tua voz no Paraíso e tive medo' (Gen. III, 6). Tive medo! Medo de Deus? Ah! Quando não tínhamos pecados, que alegria para nós era conversar com Deus! Como nos ajoelhávamos diante do seu altar! Por que tens medo da Igreja, do confessionário? Porque gostarias de poder esquecer que há Deus, que tens alma, que há uma vida eterna, que terás de prestar contas. Porque tens medo de Deus!

Em vão pretenderia o pecador esconder-se. Aí temos o terceiro efeito do pecado: o remorso. Deus fala e pergunta a Adão: Onde estás? (ib. 10). Que é a voz da consciência senão a voz de Deus? Que fizeste? Onde está a tua inocência? que significa esta lama na tua alma? (...)

Se não tivéssemos outro argumento, bastava a consciência para provar com bastante evidência que há Deus e para nos dizer a maneira de pensar de Deus a respeito do pecado e como o próprio Deus vigia o cumprimento das suas leis. Por muito que te esforces, por mais que discutas com ela, não poderás calar-lhe a voz. Fala, testemunha, acusa. Não é tudo, arvora-se em juiz severo, em verdugo. Tem látego com que açoita; tem fogo com que toca a rebate; tem aguilhão com que pica. Nem de dia em de noite nos deixa em paz.

A alma pecadora espanta-se de si própria; repugna-lhe a sociedade; e, no meio das suas terríveis lucubrações, exclama muitas vezes: antes a morte do que este constante e terrível remorso!

Depois chega a morte. E neste ponto nos detemos agora, porque nele podemos ver com toda a claridade quanto Deus aborrece o pecado.

O CASTIGO DO PECADO: A MORTE.
Que é a morte? Chega o nosso corpo ao fim da sua vida. Decompõe-se, desfaz-se.

Costuma dizer-se que o homem é a criatura mais perfeita que Deus pôs na terra. E isto afirma-se não só pelo que diz respeito à alma, mas do mesmo modo pelo que se refere ao corpo. O nosso corpo é realmente uma obra-prima da mão de Deus; é o ser mais formoso de toda a criação visível. Que brilho nos olhos do homem! Que nobreza no seu porte! Que expressão inteligente no seu rosto! Mas, sobretudo, que instrumento mais adequado e obediente é o corpo para a alma imortal!

É possível que Deus tenha criado esta obra-prima para viver apenas uns minutos na terra e depois se desfazer em pó? Que pintor, que escultor cria a sua obra-prima para, no momento seguinte, a destruir? Que arquiteto constrói um palácio magnífico e logo que o dá por acabado o faz saltar com dinamite?

Pois era isto o que Deus fazia se criasse o corpo do homem para vida tão breve. Não. Originariamente, Deus não quis a morte. O pecado é que trouxe a morte.

Amigo leitor; medita um instante no que seja a morte. Chega-te junto desta cama  -  não tenhas medo; aqui tens um moribundo. Descansa; não te falo agora das suas dores atrozes, não te digo como anseia o seu coração, como lhe falta o alento, que espantosos fantasmas o aterram... Não. Por todos esses tormento passou já. Agora mal respira. E, contudo, era um rei poderoso, um sábio inventor, um riquíssimo Diretor de Banco, uma atriz de fama universal, uma jovem em plena primavera. E os vestidos que ela possuía! Que vestidos tão atrevidamente curtos e decotados! E como dançava um dia, a semana passada, o tango e o fox-trot! Olha esta cabeça tão nobre! quantos pensamentos nela e agora jaz silenciosa, amarela como cera, sobre a almofada. Olha para este braço robusto que, no ardor do combate, era senhor da vida e da morte. Vê lá: agora não pode mover-se. Olha para aqueles olhos maravilhosos que, com a força do seu encanto, arrastavam multidões de almas ao pecado, que sabiam olhar com coqueteria e sedução, que sabiam beber o pecado; olha para aqueles olhos: como estão apagados, gastos, vidrados, como são espantosos agora...

Mas espera. Tudo isto não é mais que o princípio do castigo. Deus castiga também o pecado cá em baixo, antes da morte, embora o castigue principalmente depois, na outra vida.

Ainda acabastes de morrer já vão abrir um frasco de perfume, porque o ar começa a corromper-se. Já começa a decomposição. Depois... apenas rezaram um Pai-Nosso junto do teu cadáver, e já vem a agência mortuária para te levar para o "depósito", a casa mortuária do cemitério. Não é possível manter-te em casa, porque estás a "corromper o ar". (...)

E depois do enterro? Que será de ti a poucas semanas da morte? Se alguém te visse, uns dias depois do enterro, gelaria de espanto. (...)

Aproxima-te agora e dize-me: "Que é o pecado? Nada. Um espantalho fabricado pelos sacerdotes" Vem agora repetir-me: "Gozo tanto, divirto-me tanto com este ou com aquele pecado. Não é possível que Deus leve a mal a minha felicidade". Podes falar-me com o coração nas mãos.

Irmãos! Que será o pecado, se Deus imediatamente, pelo primeiro pecado, infligiu ao homem, a sua criatura mais excelsa, um castigo tão grave: a morte humilhante, horripilante, inexorável! Meu Deus! quanto deve ofender-te o pecado!

Ainda há alguma coisa que nos surpreenderá mais.
Vivia na terra um homem que ao mesmo tempo era Deus. E também teve de morrer? Sim. Ele submetia-se à terrível sentença. Vede-o: como sua sangue no Monte das Oliveiras e como balbucia a comovedora oração: "Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice" (S. Mat. XXVI, 39). Qual foi a resposta? Não é possível. Por ter querido tomar sobre si os pecados dos homens, teve de suportar os sofrimentos mais atrozes e expirar no meio de terríveis afrontas. Meu Deus! como há de ofender-te o pecado, se não perdoaste ao teu Filho Unigênito!

Mas, ao menos, visto que se consumou o grande sacrifício, visto que o Filho de Deus morreu por causa do pecado, terá acabado, enfim, a devastação da morte, não morrerão já os homens! Está à vista: o homem morre, mesmo depois daquele grande sacrifício.

Ao menos, porém, ter-se-á apagado o fogo da condenação? Não! Arderá eternamente.
Mas, decerto, os que lá estão hão de libertar-se um dia. Nem um só.
Oh! Senhor! Senhor! Então por que morreste? Que é a Redenção? A Redenção consiste em que os que querem, fixai-o bem, os que querem chegar a Deus, recebem a sua graça, mediante os santos Sacramentos; podem cancelar os pecados cometidos; adquirem forças para os não tornar a cometer; e por isso Deus tem misericórdia para com eles e ama-os. Mas os que continuam a querer os seus pecados e se obstinam, não serão introduzidos no Céu à força. Deus não os quer, Deus aborrece-os, porque deixaria de ser Deus no momento em que não aborrecesse o pecado.

Pelo exposto, vê-se o que significa o pecado aos olhos de Deus.

Meu Deus! Ajudai-nos a viver de tal modo que possamos assegurar o nosso sorriso... e não para dez anos, mas para a eternidade, para aquela eternidade serena, ditosa, das almas que vos são fiéis!
AMÉM!

A existência do Purgatório é dogma de Fé

 "Quem deixa esta vida, como membro do Corpo de Cristo, como sarmento vivo na Vide que é Nosso Senhor Jesus Cristo, tem a Vida eterna: não se poderá perder. Sem dúvida, a maior parte dos homens, deixando esta vida, não tem a necessária pureza para entrar no Amor vital mais íntimo com o Deus que é a própria Santidade. Por isso existe um estado de purificação, ao qual se devem submeter essas almas e - como podemos bem afirmar - também se submetem de boa vontade, pois elas conhecem a distância que separa a sua alma de Deus. A este estado chamamos Purgatório. A Igreja nada definiu até hoje, a respeito do modo dessa purificação; os Orientais, mesmo os unidos à Igreja de Roma, evitam a palavra Purgatório. A existência do Purgatório, no entanto, que a própria razão insinua, é também expressamente revelada. Já no Antigo Testamento, no Segundo Livro dos Macabeus está escrito: "É um pensamento santo e salutar, rezar pelos mortos, para que sejam libertados de seus pecados" (2 Macab. XII, 46). Judas Macabeu fez oferecer um sacrifício em Jerusalém por aqueles soldados mortos, que se haviam munido de objetos provenientes de sacrifícios aos ídolos. É certo que as almas do Purgatório sofrem sem aumentar os seus merecimentos, isto é, não podem crescer no amor. Sem dúvida, seus sofrimentos são grandes. Antes de tudo sentem amargamente por se verem excluídos da visão de Deus, até a total purificação. Igualmente certo é que nós, pelo Santo Sacrifício e pela oração, podemos correr em seu auxílio. Não menos certo é também que elas estão absolutamente seguras de sua salvação, o que para elas constitui motivo de grande consolação. O Purgatório torna-se deste modo um lugar de amor e submissão à vontade de Deus". (Extraído da Pequena Teologia Dogmática, autores: D. Rudloff e D. Keckeisen, ambos O. S. B.)
  
  "Em verdade, Senhor, para os Vossos fiéis, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a casa deste exílio terrestre, uma eterna morada se adquire nos céus". Assim, bem mais do que um fim inexorável, a morte é para o cristão uma porta aberta para a eternidade, porta esta que o introduz na vida eterna. 
  Devemos aproveitar este dia para pensarmos também na nossa morte. Temos uma vantagem e uma desvantagem com relação às almas do Purgatório: Elas não podem mais merecer, como acabamos de meditar. Nós, os vivos, podemos. No entanto, elas já estão seguras da salvação. Nós não. Temos que trabalhar com muito esforço para a garantirmos. 
  Terminemos, então, com as palavras de Santo Agostinho: "Concedei-me, ó Senhor, que com a morte dos entes queridos experimente uma aflição razoável, derramando lágrimas resignadas sobre a nossa condição mortal, depressa reprimidas pelo consolador pensamento de fé, a qual me diz que os fiéis, ao morrerem, somente se afastam um pouco de nós para irem a um lugar melhor. Não consintais que eu me entristeça como os gentios que não têm esperança. Poderei de fato experimentar tristeza, mas quando estiver aflito, que a esperança me conforte. Com uma esperança tão grande, não fica bem, Senhor, que o Vosso templo esteja de luto. Aí morais Vós, que sois o consolador, aí morais Vós, que não faltais às Vossas promessas. 
  Fazei, Senhor, que durante minha vida, sofra sempre com paciência, pratique a caridade, seja manso e humilde, desapegado do mundo e da carne; e quando Vós me chamardes, pela Vossa misericórdia, me alegrarei em encontrar junto de Vós os meus entes queridos que aí já estão. Amém! 

NO PURGATÓRIO

Por Mons. Ascânio Brandão


Quando levamos nossos mortos queridos à sepultura, costumamos dizer: descansaram!... Sim, descansaram das fadigas e lutas desta vida que é um combate no dizer expressivo de Jó: "militia est vita hominis super terram - a vida do homem neste mundo é um combate. Porém, descansaram já no seio de Deus? Estão já no eterno repouso no céu? Ai! é tão grande a fragilidade humana, que bem poucos, raríssimos, são os que deixam esta vida e entram logo no céu. Os mortos entram, sim, na paz do Senhor, mas na paz da justiça, geralmente na paz da expiação do purgatório. O purgatório é o lugar da paz. Lá habita a doce paz dos eleitos, dos que resignados e cheios de amor e de dor cumprem a sentença e se purificam à espera do céu. Já se chamou ao purgatório, e com razão, o vestíbulo do paraíso. É o pórtico da eternidade bem-aventurada
   Sim, nossos mortos descansaram, mas sofrem, e sofrem muito mais do que tudo quanto padeceram nesta vida.... Não digamos comodamente: estão no céu! estão no céu!. Com isto padecem as almas do purgatório. A Igreja, pelas lições impressionantes da sua liturgia quer que associemos ao pensamento da morte o da eternidade. E diz o prefácio da Missa dos defuntos: se a condição da nossa morte nos entristece, console-nos a promessa da imortalidade futura.
   E depois, quantas vezes gemendo sobre nós, clama: Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno! Dai-lhes o descanso eterno! Implora misericórdia para nossa pobre alma, lembra o juízo tremendo de Deus, e quer nos aliviar nas chamas expiadoras do purgatório. Nunca meditemos na morte sem meditarmos no purgatório. É este o sentido da liturgia nos funerais.
   Estas preces tocantes e belas, estes ritos impressionantes e cheios de majestade, lembram-nos a nossa dignidade de cristãos, a dignidade de nosso corpo, sacrário de uma alma imortal e templo do Espírito Santo, destinado a ressuscitar um dia e comparecer no tribunal do juízo. Lembram-nos a triste condição de uma pobre alma ao comparecer diante de Deus, e implora misericórdia ao Juiz dos vivos e dos mortos. Sim, não podemos, como cristãos e filhos da Igreja, separar o pensamento da morte do da eternidade. E como sabemos qual é a justiça de Deus, não deixaremos de considerar que após a morte, aí vem o purgatório para quase todos nós, e que lá na expiação, há muitas almas queridas pelas quais somos obrigados a orar por dever de justiça e de caridade. Eis, pois, repito, o sentido da meditação da morte e da liturgia dos mortos. Não é um pensamento de morte, não estão vendo? É ao invés um pensamento de vida. Vita mutatur non tollitur, diz o prefácio dos defuntos. A vida não foi tirada, nem desapareceu, mudou-se apenas. De terrena passou a ser eterna. Eis como o cristão pensa na morte.
   É certo, diz um autor, a ingratidão não pode existir no purgatório. Aquelas benditas almas hão de proteger e socorrer os que as aliviam nesta vida com seus sufrágios...
   São Filipe Neri era devotíssimo das almas e cheio de caridade, nunca deixou de socorrê-las em toda sua vida. Muitas vezes lhe apareceram para lhe testemunhar uma gratidão profunda. Depois da morte do santo, um dos seus confrades o viu na glória do céu, cercado de uma multidão de bem-aventurados no esplendor da glória eterna. - Que corte é esta que vos cerca? pergunta o padre. - São as almas que livrei do purgatório e que salvei. Vieram me acompanhar na glória. (...) Na morte e depois da morte, seremos recompensados pelo que tivermos feito em sufrágio da benditas almas do purgatório. (...) A pobre criatura humana tão miserável nem sempre ao deixar a terra, é bastante pura e santa e merece a presença do Senhor, a visão beatífica. E também como há de ser condenada às chamas eternas a alma que, embora não tivesse pago a dívida dos seus enormes pecados na penitência desta vida, não é, todavia, merecedora do castigo eterno? Há de entrar no Céu? Não. Lá só se encontram os santos e os puros de coração. E que pureza angélica requer a divina justiça para o céu! Há, então, de ser condenada ao inferno? Oh!, também, não. A misericórdia divina jamais o permitiria. Faltas veniais, imperfeições, falta de penitência dos pecados graves, tudo isto, é bem verdade, exige castigo e sem a penitência não se há de entrar no céu. Porém, a justiça e a misericórdia divina se uniram - Justitia et pax osculatae sunt. - O pecado será castigado, a dívida exigida pela justiça será paga até o último ceitil, mas a infinita misericórdia há de salvar a pobre alma culpada, há de lhe abrir um dia as portas do céu.
   Existe um purgatório! Não é consoladora e racional a doutrina da Igreja neste dogma?
   Sobre o Purgatório, há só dois pontos, perfeita e claramente definidos pela Igreja, e que, portanto, constituem objeto de nossa Fé: 1) - Existe um lugar de purificação temporária para as almas justificadas que saem desta vida sem completa penitência dos seus pecados. 2) Os sufrágios dos fiéis e especialmente o santo Sacrifício da Missa são úteis às almas.
   Já nos primeiros séculos, segundo o testemunho de Tertuliano e dos Santos Padres e os monumentos, os cristãos, sufragavam os mortos com orações, e pelo santo Sacrifício da Missa celebrado sobre as sepulturas. Nas inscrições, nos epitáfios se encontram nas catacumbas belas preces pelos mortos. No Século IV em 302, Santa Perpétua nos conta uma visão do Purgatório. Diz ela:
   "Estávamos em oração na prisão, depois da sentença que nos condenava a sermos expostas às feras, e de repente chamei por Demócrito. Era um meu irmão segundo a carne. Morrera com um câncer na face. A lembrança da sua triste sorte me afligia. Fiquei admirada de me ter vindo à lembrança este irmão e me pus a rezar por ele com todo fervor, gemendo diante de Deus. Na noite seguinte, tive uma visão na qual vi Demócrito sair de um lugar tenebroso no qual se acham muitas pessoas. Estava abatido e pálido, com a úlcera que o levou à sepultura. Tinha uma grande sede. Junto de mim estava uma bacia com água, mas ele em vão tentava beber e não conseguia. Conheci que meu irmão estava sofrendo e era preciso rezar por ele. Pedi por ele a noite com muitas lágrimas, para que fosse libertado. Alguns dias depois tive outra visão, na qual Demócrito me apareceu todo brando, brilhante e belo, e se inclinou e bebeu à vontade a água que antes não pôde tirar. Conheci por isto que estava livre do suplício".
   Eis um belo trecho que vem provar a antiguidade da crença do purgatório.
   Santo Agostinho reconhece a autenticidade das Atas de Santa Perpétua e nota que o irmãozinho da Santa deveria ter cometido alguma falta depois do batismo. (...).
   Vemos tantos entes queridos que deixaram esta vida, é verdade, em boas disposições, mas como eram culpados de certas faltas e não haviam feito uma penitência devida, receamos às vezes pela sua salvação. Todavia nos diz o coração que não podiam se perder. Eram bons, tinham qualidades apreciáveis, foram talvez caridosos e fizeram algum bem nesta vida. Admitir que esteja no céu depois de tantas faltas e defeitos e ausência de penitência, não o podemos. Dizer que estejam condenados, é muito duro, e, apesar de tudo, como poderiam ter se perdido almas tão caridosas e boas e que fizeram algum bem neste mundo? A ideia do purgatório se impõe necessariamente à nossa razão ou, antes, se impõe à nossa fé. (...).
   Havemos de chorar nossos mortos e a religião não nos pode proibir as lágrimas tão justas, quando sentimos nosso coração ferido pelo golpe duro da saudade. Todavia, havemos de chorar cristãmente nossos defuntos queridos. É mister lembrar-nos deles mais com orações e sufrágios do que com lágrimas estéreis. O pensamento do purgatório é um consolo. Sabemos que podemos ainda auxiliar, valer e socorrer nossos entes queridos. É bem possível que padeçam no purgatório.
   A Religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não proíbe que choremos os nossos mortos queridos. Podemos, pois, render a estes o tributo de nossas lágrimas e de nossa saudades. Com esta pobre natureza, como ficarmos insensíveis ante a morte de um ente estremecido? Como nos custa ver arrebatados pela morte os entes com quem convivemos, nosso pai, nossa mãe, nosso filho, nosso irmão, nosso amigo"... A religião, se bem que nos ensine a ser fortes na dor e a meditar  na Paixão de Jesus Cristo, não nos veda aquelas lágrimas e saudades. Ela não tem o estoicismo pagão, estúpido e anti-natural. Pois, Jesus não chorou na sepultura de Lázaro? Não choraram, na Paixão, Maria Madalena e as Santas mulheres? A religião nos permite chorar do mesmo modo os nossos mortos. Quer apenas que o façamos, não como os pagãos, desesperados e desiludidos, mas como quem tem esperança na vida eterna e crê na imortalidade. Choremos a separação dolorosa, mas com a doce esperança de que, um dia, numa pátria melhor, onde não haverá nem luto, nem dor, ou sofrimento de qualquer espécie, nem separação, tornaremos a ver todos aqueles que amamos aqui na terra. Como esta esperança consola! O cristão não deve dizer com desespero, ante o cadáver gelado de um ente querido: - "Nunca mais te verei" Adeus para sempre!" Não! Embora em pranto, suas palavras devem ser estas: - "Até ao céu! Lá nos tornaremos a ver e seremos para sempre felizes".
   O dogma do purgatório, tão em harmonia com nosso coração, nos diz que podemos ainda ajudar nossos mortos queridos para podermos dizer-lhes: até o céu!.
   Deus revelou muitas vezes à Bem-avemturada Ana Taigi a sorte das almas do purgatório. Ela pedia continuamente pelas pobres almas, num misterioso sol que sempre lhe aparecia. Foi Ana Taigi uma grande mística do século XIX. Em 30 de maio de 1920, S. S. Bento XV declarava bem-aventurada a humilde e pobre mãe de família, que durante tanto tempo chamou a admiração de Roma e do mundo com tantos prodígios sobrenaturais. A beata Ana Taigi, romana de nascimento, via os acontecimentos futuros e a sorte dos mortos.
   Um homem, conhecido de Ana, morreu, e ela o viu nas chamas do purgatório, salvo do inferno pela divina Misericórdia, porque socorreu um pobre que o importunava muito pedindo esmola. Viu um conde cuja vida se passou em delícias e divertimentos, mas que na hora da morte teve um grande arrependimento e se salvou, mas deveria sofrer no purgatório tormentos incríveis tanto tempo quanto passou neste mundo sem se preocupar com a penitência e com a salvação eterna.
  Viu homens de grande virtude sofrendo porque se deixaram levar pela vaidade e amor próprio, muito apegados aos elogios e à amizade dos grandes da terra.
   Um dia Nosso Senhor lhe disse: levanta-te e reza, meu Vigário na terra está na hora de vir me prestar contas. Ana Taigi sufragou a alma do Papa e depois o viu como um rubi ainda não de todo brilhante, pois, lhe faltava se purificar mais.
   Faleceu em Roma o cardeal Dória, que deixou grande fortuna, e naturalmente celebraram-se por sua alma centenas de Missas. Foi revelado à beata Ana Taigi que as missas celebradas por alma do cardeal eram aproveitadas para as almas dos pobrezinhos abandonados e que não tinham quem mandasse celebrar por eles.
   Via-se assim a divina Justiça que não olha a riqueza nem as possibilidades dos ricos em arranjar sufrágios, com descuido às vezes neste mundo da verdadeira penitência.
   Viu Ana no purgatório um sacerdote muito estimado por suas virtudes e sobretudo pelas brilhantes pregações que fazia e o tornavam admirado de todos. Sofria muito este pobre padre. Foi revelado à beata Ana que ele expiava a falta de procurar com muito empenho a fama de bom pregador e um pouco de vaidade ao pregar a palavra de Deus, sobretudo nas complacências com os elogios.
   Viu dois religiosos muito santos no purgatório, em sofrimentos duros. Um deles expiava o seu apego ao próprio juízo e pouca submissão ao modo de ver de outros, e outro a dissipação, a falta de recolhimento e piedade no exercício do ministério sacerdotal.
   Enfim, a beata Ana trouxe com a sua bela e impressionante mensagem do sobrenatural no século XIX, muitas luzes sobre o purgatório e impressionantes lições da Justiça de Deus, e também não há dúvida, da Misericórdia que salva tantas almas pelas chamas expiadoras do purgatório.
  

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A PAZ APÓS AS ELEIÇÕES E A PAZ APÓS A MORTE

ENFIM, A PAZ

                                                                                                                                                        Dom Fernando Arêas Rifan*

            Após o período tumultuado das eleições, esperamos que reine agora a paz entre todos, para o bem comum da nação. Um dia, todos nós, descansaremos em paz, após a morte. Mas não essa a paz que almejamos agora: desejamos a paz da convivência e harmonia entre as pessoas, nas famílias, na sociedade, com respeito à consciência de cada um. 
          Na próxima sexta-feira, dia 2, faremos a comemoração de todos os fiéis defuntos, dos nossos falecidos, daqueles que estiveram conosco e hoje estão na eternidade, os “finados”, aqueles que chegaram ao fim da vida terrena e já começaram a vida eterna. 
            É tempo de reflexão sobre a humildade que devemos ter, sabendo que a morte nos igualará a todos. Todos compareceremos diante de Deus, para dar contas da nossa vida. Ali não haverá distinção entre ricos e pobres, entre reis e súditos, entre presidentes, parlamentares e magistrados e os cidadãos comuns, entre Papa, Bispo, Padres e simples fiéis. A distinção só será entre bons e maus, e isso não na fama, mas diante de Deus, que tudo sabe. 
        Olhemos a morte com os olhos da fé e da esperança cristã, não com desespero. Confiemos na misericórdia de Deus, que é nosso Pai, que nos enviou seu Filho, Jesus, que morreu por nós, para que não nos condenássemos, mas que tivéssemos a vida eterna.  
        “Deus não criou a morte e a destruição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou todas as coisas para existirem... e a morte não reina sobre a terra, porque a justiça é imortal” (Sb 1, 13-15). O pecado é que fez entrar a morte no mundo. Mas a esperança da ressurreição nos consola.
            Os santos encaravam a morte com esse espírito de fé e esperançaAssim São Francisco de Assis, no cântico do Sol: Louvado sejais, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum homem pode fugir. Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Felizes dos que a morte encontra conformes à vossa santíssima vontade! A estes não fará mal a segunda morte”. “É morrendo que se vive para a vida eterna!”. Santo Agostinho nos advertia, perguntando: “Fazes o impossível para morrer um pouco mais tarde, e nada fazes para não morrer para sempre?”
            Quantas boas lições nos dá a morte. Assim nos aconselha São Paulo: “Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos” (Gl 6, 10). “Para mim o viver é Cristo e o morrer é um lucro... Tenho o desejo de ser desatado e estar com Cristo” (Fl 1, 21.23). “Eis, pois, o que vos digo, irmãos: o tempo é breve; resta que os que têm mulheres, sejam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem, porque a figura deste mundo passa” (1 Cor 7, 29-31). Diz A Imitação de Cristoque bem depressa se esquecem dos falecidos. O dia de Finados foi estabelecido pela Igreja para não deixarmos nossos falecidos no esquecimento.
            Três coisas pedimos com a Igreja para os nossos falecidos: o descanso, a luz e a paz. Descanso é o prêmio para quem trabalhou. O reino da luz é o Céu. E a paz é a recompensa para quem lutou. Que nossos falecidos descansem em paz e a luz perpétua brilhe para eles. Amém. 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/