sábado, 28 de abril de 2018

RESPONDENDO OBJEÇÃO CONTRA A HUMILDADE



OBJEÇÃO: Esta humildade excessiva, diz a maior parte das pessoas do mundo, enerva a alma e tira-lhe toda a confiança em suas forças. Acham que uma pessoa humilde seja sinônimo de uma pessoa deprimida, sem coragem e energia.

RESPOSTA: Vamos provar que é precisamente o contrário que é a verdade. Mas, antes permitam-me explicar melhor o principal móvel da humildade em sumo grau. Além do amor à verdade e à justiça como motivadores da suma humildade, quero, antes de refutar a objeção, explanar um pouco mais um outro motivo poderoso, um atrativo irresistível que incita as almas grandes às humilhações e desprezo: É O EXEMPLO DO DIVINO MESTRE.

Caríssimos, no Céu não podia o Verbo eterno humilhar-se; é Filho de Deus, em tudo igual a seu Pai. Desce à terra, faz-se homem. Como homem, é inferior, pode abater-se. Vede agora como abraça as humilhações e os desprezos, como percorre todos os graus da abjeção e aniquilamento. Diz S. Paulo: "Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses II, 7 e 8). Nasce num estábulo, passa sua vida na oficina dum pobre carpinteiro; morre numa cruz, saturado de opróbrios e afrontas... Que lição, que exemplo, que estímulo! No mundo afinal, não chega a fascinar os mundanos a paixão por uma vil criatura, de quem o coração se enamorou, até fazer-lhes amar seus defeitos, seus caprichos, até imitá-los?! Não se impõem cada dia os sensuais peníveis sacrifícios para agradar a um ídolo de barro?!

E não pode o amor divino arrebatar uma alma, e inspirar-lhe transportes tão vivos, tão veementes como o amor profano? Não pode um cristão inebriar-se tanto no amor do seu Salvador, que ache sua glória e sua dita em se lhe assemelhar, em ser como Ele escarnecido e pisado? "Fanatismo", dirá o mundo. Mas é que para ele a santa loucura da cruz é um mistério; ignora qual é o preço das humilhações, desde que o Homem-Deus as tomou por divisa. "Devaneio!" insistirá o mundo.

Caríssimos, interrogai a maior parte das pessoas do mundo, mesmo essas que se prezam de sábias e instruídas, e perguntai-lhes: O que é um cristão humilde? Responder-vos-ão: É um homem que só tem aspirações rasteiras. Dizem ainda: é um homem a quem a devoção destituiu de todo o sentimento da sua dignidade, de toda coragem, de toda magnanimidade, isto é, de todas as energias para  grandes ações.

Eis aí como julga das coisas o mundo insensato! Pois, é justamente o contrário que é a verdade. Conheceis um orgulhoso? Toda a sua aspiração é distinguir-se, dar que falar de si [se desculpam dizendo que é para vencer o respeito humano]. Para atingir seus fins, irá agora arrojar-se ante os grandes da terra e adorar seus devaneios, logo adular ignobilmente a alguém que arvoram em ídolo. O orgulhoso descerá às mais vis, às mais vergonhosas intrigas para suplantar um êmulo e elevar-se em sua queda. Adorador de si mesmo, tendo estima só por si, comprimiu-lhe o egoísmo seu coração, paralisou-lhe todas as potências de sua alma. Debalde esperareis dele sacrifícios generosos em prol do bem público. Joguete de suas paixões, adulador, escravo dos que dispõem das honras e das riquezas, ou se desvanece nas fumaças do orgulho, ou se estira na lama.  

Na verdade, só os humildes mantêm a dignidade da natureza humana. Pois, na pessoa humilde nunca o conhecimento do seu nada e de sua miséria está isolado do conhecimento das grandezas e bondades de Deus. É nada, e de si mesmo nada tem; e assim todo bem que vê em si, reconhece ter recebido de Deus. E sabe que Deus o criou para glória d'Ele, que lhe deu um nobre destino, que por graça de sua misericórdia o admitiu à adoção de seus filhos. Não andará à busca da aprovação duma vil criatura. Sabe que é nobre vassalagem depender senão de Deus! Mas sabe que criado por Deus, deve reverter a Deus; que, redimido pelo sangue de Jesus Cristo, tem o Céu como herança. Os humildes deixam que os amadores da vaidade e da ilusão se fatiguem em demanda das honras, das riquezas e prazeres. Eles puseram suas esperanças bem mais alto e assim as comodidades sensuais mas efêmeras deste mundo, as pessoas humildes as calcam aos pés; livram-se de todos os empecilhos  que tolhem os vôos de seus corações nobres e generosos. A alma dos humildes deixa a terra e voa em busca dos bens celestes e imortais.

Caríssimos, basta compulsarmos a vida dos santos para constatarmos a verdade do que acabamos de escrever. E só para indicar alguns exemplos: Santo Agostinho, S. João Batista M. Vianney, S. Bernardo, S. Francisco de Sales, S. Francisco de Assis, S. Vicente Ferrer, S. Francisco Xavier, S. Vicente de Paulo, Santa Catarina de Sena etc. Não eram todos humildes? Claro que sim, em sumo grau, do contrário não seriam os grandes santos que foram. E, no entanto, que sublimidade em seus pensamentos, que maravilhas no predomínio que exerceram em seus contemporâneos, quando se chega ao conhecimento de seus imortais escritos, sermões, cartas e feitos caritativos e apostólicos. Caríssimos, podemos estar certos que os santos acharam o princípio de sua força e grandeza exatamente na virtude da mais alta humildade.

Enquanto o orgulho, enfatuando as almas de presunção e vaidade, obceca o homem a tal ponto que coloca alguém ou a si mesmo como ídolo, a humildade, fazendo-o curvar aos pés do Soberano Senhor, põe-no em via de receber os mais preciosos dons do céu, a luz para conhecer, e a força para operar. Somos nada, mas tudo podemos em Deus quando oramos com humildade. Tudo podemos em Deus que dá sua graça aos humildes. Assim, nos erguemos do nosso pó, tornando-nos de alguma sorte semelhantes a Deus, fortes de sua força, sábios de sua sabedoria, onipotentes de sua onipotência.  Ao contrário, Deus resiste ao soberbo e abandona-o aos seus próprios recursos, isto é, ao seu nada, e todas as suas obras são infecundas. Agora veio-me a mente um fato: quando se tratou de escolher um candidato ao episcopado para conservação da Tradição em Campos, dois dos nossos padres, foram perguntar a D. Antônio de Castro Mayer qual a sua indicação e ele respondeu: "escolham a Monsenhor Licínio porque ele é humilde".

Quando Jesus Cristo apareceu na terra, havia pelo mundo reis e imperadores, não faltavam oradores afamados e profundos filósofos. Jesus escolheu a estes? Não... bem outro foi o plano concebido pela Sabedoria eterna. Escolheu pobres pescadores, rudes e alguns ignorantes. Ninguém os tinha em consideração. Mas, eis aí, os instrumentos que se há mister nas mãos de Deus para fazer coisas maravilhosas. Sua missão era nada menos que conquistar e mais ainda reformar o mundo inteiro. E como o farão: sofrendo a fome, a sede, as calúnias, as perseguições, as zombarias, os suplícios e a morte. E por que? Para que os mais cegos não possam deixar de ver que não são os homens mas a mão do Onipotente, que tudo fez. Ó sabedoria humana, que confia em seu pretensos dotes e em seu dinheiro e renome, confunde-te! Quão diversos são os juízos de Deus! Deus escolhe as coisas fracas para confundir os fortes!

Olhemos agora o outro lado da moeda considerando apenas um exemplo: Martinho Lutero. Tal homem havia recebido do céu talentos raros, um engenho muito grande; era dever seu fazer disto homenagem ao autor de todo dom perfeito, pô-los ao serviço de Sua glória. Mas ele se maravilha de si mesmo, atém-se às suas próprias forças e ideias. Mas, logo Deus se afastou dele; e eis a razão  que se abala das mais altas regiões, cai e desmorona-se, de queda em queda, aos mais vergonhosos desvios, aos mais incríveis delírios diabólicos. Deus rejeitou o orgulhoso!

Donde devemos concluir sem a menor sombra de dúvida: só os humildes podem esperar de Deus ajuda, amparo e proteção. Só eles, portanto, são capazes de efetuar coisas grandes na ordem sobrenatural e levantar monumentos que sobrevivam às catástrofes dos impérios. Eles, na verdade, nada empreendem, cônscios que estão de sua própria impotência, mas oram com humildade, pedem luzes, pedem forças, e Deus sempre os atende. Deus inspira-lhes algum pensamento para a glória Sua, e ei-los à obra com denodo; não há dificuldade que os amedronte; é seu sentir que, a despeito do seu nada pecador, alentados da força do alto, chegariam a revolver o universo. Não têm em vista nem estima nem respeito. Estão conscientes de que toda a glória do bom êxito  deve ser atribuída a Deus que é quem lhes dá a luz e a força. E Deus reconhece aí a sua obra e por vezes se compraz de sinalá-la com o selo da sua imortalidade. Assim entendemos o porquê de tantas maravilhas operadas no Cristianismo por homens simples e desprezíveis no pensar do mundo.

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O NOSSO CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

GRAUS DA HUMILDADE



A santidade depende estreitamente da humildade. E, quanto mais um homem é humilde, tanto mais é justo, tanto mais é santo, tanto mais é perfeito. Assim como há três etapas no caminho da perfeição, na humildade há três graus.

Caríssimos, sabemos pelas Sagradas Escrituras que o pecado origina-se do orgulho que não aceita nenhuma submissão. No Céu, no tempo de prova, Lúcifer se rebelou dizendo: "Não servirei!" e muitos anjos seguiram este mau exemplo. Na terra, Eva e Adão caíram também levados pelo orgulho: pensar em ser "iguais a Deus". E este espírito de rebelião passou a todos os homens: é o triste apanágio de nossa natureza decaída. Por efeito do pecado original, somos todos, uns mais outros menos, inimigos da obediência, e da dependência. Como o filho pródigo almejamos liberdade longe de Deus para fazermos o que nos agrada. Ah! que tendência terrível!!! Ai de nós se não adquirirmos a humildade e nela sempre nos esforçarmos por crescer!

PRIMEIRO GRAU DE HUMILDADE: O orgulho está como que entranhado na medula de nossos ossos e infecciona todas as potências de nossa alma. Somos tentados a erigir-nos em pequenos deuses, referindo tudo a nós, como se fôramos o centro e último fim de todas as criaturas.

Mas, quando a luz divina chega a iluminar o nosso espírito e a graça a tocar nosso coração, logo se apressa a despedaçar esse ídolo, isto é, o "Eu". Desvanece-nos o nosso nada e ei-nos convictos de que o primeiro e mais essencial dever da criatura é submeter-se ao Criador, e obedecer a seus mandamentos, dispostos a perder tudo, a sofrer tudo, do que transgredir um só em matéria grave, e ultrajar um Senhor  que é a própria Santidade, onipotente e de suprema Majestade.

Esta disposição é o primeiro grau da humildade. Ele é necessário para a salvação. Portanto, no assalto da tentação, em perigo de ofender a Deus mortalmente, todo o cristão deve prorromper com São Paulo: "Quem me separará do amor de Cristo? Nada, nem o infortúnio, nem a fome, nem a sede, nem a perseguição, nem a espada, nem a morte!" (Rom. VIII, 35). Portanto, quem tiver perseverado até ao fim, resoluto antes a sacrificar seus bens, sua honra, sua vida, do que cometer um pecado mortal, este será salvo; afinal, humilhou-se sob a autoridade do Soberano Senhor, deu a Deus o que essencial e rigorosamente lhe é devido; deve por isso ser contado no número de justos. Mas, se não vai mais longe, não é senão um justo muito imperfeito. E devemos observar, embora de passagem, que as pessoas consagradas a Deus (os clérigos e os religiosos) não podem se contentar só com este grau de humildade.

SEGUNDO GRAU DE HUMILDADE: Consiste em nos submetermos ao nosso Criador com tão profunda entrega, que estejamos devotados a morrer , mas nunca contristá-lo nem na mínima coisa voluntariamente, isto é, de caso pensado. Este estado não aceita afeto nem apego ao pecado venial. As leves faltas em que se cai não são mais que o efeito da fragilidade humana; o coração e a vontade abominam-nas. Fica evidente que esta disposição é bem mais perfeita que a primeira que é o primeiro grau. E assim, quanto mais diante de Deus nos humilhamos, mais nos aproximamos da verdade e da ordem, da justiça e da santidade. E, caríssimos, não será sobremaneira consentâneo à ordem e à justiça que um bom filho jamais dê o mínimo desgosto ao melhor dos pais?

O ínfimo grau de glória vale incomparavelmente mais que nossa vida,e todos os bens deste mundo; porque é Deus o derradeiro fim de todas as coisas, e o fim é sempre de preferência aos meios. Ora a glória de Deus, (refiro-me à sua glória acidental) é que todas as criaturas Lhe sejam totalmente reverentes, que atendam ao mínimo sinal da Sua vontade. Quanto não devemos, logo, abominar o pecado venial, que é uma revolta contra esse Deus; é querer roubar a Sua glória!

Quanto aos eclesiásticos, todos os que possuírem este segundo grau de humildade, serão bispos e padres piedosos, fervorosos, que tratam a miúdo com Deus na oração, e dessas comunicações íntimas haurem as luzes e as graças que tornam seu ministério profícuo entre os povos. Padres assim, até com talentos medíocres farão o que outros não são capazes de fazer com todos os recursos da ciência e do gênio. Exemplo clássico é o do Santo Cura d'Ars!

Quem possui este segundo grau de humildade já é indubitavelmente justo e santo, quando com denodo se sacrifica tudo o que poderia diretamente opor-se à glória de Deus. No entanto, nem por isso se tem chegado a tal desapego das coisas criadas, que não se preze já sua própria reputação, a estima das pessoas virtuosas, certos prazeres inocentes que Deus não reprova. Mas, prestemos bem atenção nisto, sobretudo, nós caríssimos colegas no sacerdócio, que os que estacionam neste segundo grau, sem mirar mais alto, caem a breves passos em faltas impensadas, em muitas imperfeições inevitáveis em tal estado.  É ainda por isso que deixam escapar frequentes ensejos de praticar grandes virtudes. É claro que Deus os ama, e sobre eles derrama copiosas graças. Mas não vê neles a digna generosidade e correspondência, para lhes comunicar os dons extraordinários, os grandes privilégios, de que Lhe apraz cumular os Seus eleitos. É que ainda falta um grau mais excelente da humildade, grau este sim, que constitui o ápice da perfeição evangélica.

TERCEIRO GRAU DE HUMILDADE: De início, devemos observar que o heroísmo da santidade é um dom à parte. Mesmo na perfeição há diferentes graus. É bom, porém, que o conheçamos, mesmo que seja só no intuito de nos humilharmos vendo a imensa distância nossa destes heróis de santidade. Aqui é o lugar de meditarmos nestas palavras do divino Mestre: "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito"; e também nesta exortação do Divino Espírito Santo: "Aquele que é justo justifique-se mais, aquele que é santo, santifique-se mais" (Apocalipse XXII, 11).

O terceiro grau de humildade inspira à alma fiel tal desprezo do mundo, e tão grande amor ao desprezo, que, se dependesse de sua escolha ser honrada ou desprezada dos homens, e por qualquer destas vias viesse a redundar para Deus a mesma glória, essa alma, calcando aos pés a estima própria e das criaturas, abraçaria as ignomínias e os opróbrios com tanto afã como os mundanos empregam na procura de honrarias, renome e glória humana. E a alma faz esta escolha com toda alegria do coração por assim estar imitando o divino Salvador, e também porque assim se faz mais justiça a si mesma.

Mas, com certeza, muitos hão de perguntar: é possível chegar até lá. Digo que sim, desde que compreendamos bem o que é a humildade, se nos conhecemos perfeitamente a nós mesmos, e se amamos deveras a Nosso Senhor Jesus Cristo. Façamos algumas considerações: Haveis cometido em vossa vida um pecado mortal? Merecestes o inferno; por isto já estás ao nível do demônio. Haveis cometido dois? Com isto estás sob seus pés; pois que ele cometeu um só. Calculai agora a estima que vos é devida, pela que tendes para com os demônios, e para com os réprobos. Pois se ainda vos não achais na sua companhia a quem o deveis? Será à vossa virtude ou à bondade meramente gratuita do Divino Redentor?

Mas felizmente há almas que nunca cometeram um pecado mortal! Mesmo assim, se tivemos a dita de haver passado através dos perigos sem perdermos a graça batismal, só a vista de nossa baixeza e de tantas faltas em que cada dia caímos, não é para inspirar-nos o desprezo de nós mesmos? Pois, que somos nós por natureza? Nada. E que é o que se deve ao nada? O esquecimento; não se pensa no que não existe. Que somos nós por vontade? Pecadores, rebeldes mais ou menos, mas sempre rebeldes a Deus. E que merece o pecado, a rebelião? O desprezo, o castigo.

Quando nas epístolas de S. Paulo e na vida dos Santos, lemos que eles se consideravam como o lodo e a imundície do mundo, que se reputavam indignos de ver o dia, que se maravilhavam que Deus os pudesse suportar e que os homens não viessem todos a um tempo cobri-los de injúrias e de maus tratos, talvez pareça exagero. Mas não. Os Santos humilhando-se assim faziam-se justiça, e tanto mais eram agradáveis a Deus, quanto mais exata, e mais rigorosa justiça se faziam.

O homem humilde não gosta de receber louvores porque sabe que os não merece. Gostam que o tenham pelo que são em verdade: um nada pecador, e, portanto, um ser vil e desprezível. Eis o conceito que a pessoa humilde faz de si mesma, e folga que os outros pensem como ela. E mais, se alegram se a tratam segundo este julgamento que corresponde a realidade. Já o orgulhoso é um mentiroso, um usurpador, e por isso é que Deus o abomina, e repele com indignação.

A tal ponto nos perverteu a culpa original, que este terceiro grau de humildade constitui um heroísmo. Mas como chegar a termo-nos por pequenos, vis e desprezíveis, quando não podemos deixar de ver que temos feito coisas grandes? Respondo que é só ver isto que diz o Espírito Santo: "E que tens tu, que não recebesses? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tiveras recebido? ((1 Cor. IV, 7). Portanto devemos dizer: Como Deus tem feito por nós coisas grandes! Então é o caso de só admirar o poder e a sabedoria desse Deus grande, que, com instrumentos tão vis, quando Lhe apraz, opera prodígios! Na verdade, humildade não é desconhecer os dons de Deus e o poder de suas obras; é sim, não se arrogar a sua glória. Que perfeito modelo não é o proceder da Santíssima Virgem Maria: "Minha alma engrandece o Senhor... Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso!"...

Quando alguém nos rende louvores, ilude-se; é uma injustiça que faz a Deus; e nós deveríamos ficar envergonhados, confundidos.

No próximo artigo, se Deus quiser, responderei esta objeção, infelizmente não tão rara: Esta humildade excessiva enerva a alma, e tira-lhe toda a confiança em suas forças, deprime e impede a coragem e a fortaleza.

JESUS, MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

COMO JUNTAR UM TESOURO NO CÉU



Como é necessário e ao mesmo tempo tão consolador meditar no que disse o Apóstolo S. Pedro em sua 2ª Epístola! Ele mesmo assegura: Não cessarei de vos admoestar sempre sobre estas coisas... porque considero meu dever durante minha vida despertar-vos com admoestações... e terei cuidado de que, mesmo depois da minha morte, tenhais com que recordar muitas vezes estas coisas.

No capítulo I, S. Pedro fala da necessidade de crescer na prática da virtude: "Assim como o seu divino poder (de Jesus Cristo)nos deu todas as coisas que dizem respeito à vida e à piedade, por meio do conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude, (assim também) por Ele mesmo nos deu as maiores e mais preciosas promessas, a fim de que por elas VOS TORNEIS PARTICIPANTES DA NATUREZA DIVINA, fugindo da corrupção da concupiscência que há no mundo. Ora, vós aplicando todo o cuidado, juntai à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, ao amor fraterno a caridade. Com efeito, se estas coisas se encontrarem e abundarem em vós, elas não vos deixarão vazios nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem não tem essas coisas é cego e anda às apalpadelas, e esquece-se de que foi purificado dos seus pecados antigos. Portanto, irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais. Desde modo vos será dada largamente a entrada no reino eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo". 

Caríssimos, destaquei estas palavras: "VOS TORNEIS PARTICIPANTES DA NATUREZA DIVINA",  porque elas constituirão a ideia central das nossas considerações.

Na parte superior: figura simbolizando a alma
no estado de graça. Na parte inferior: símbolo
da alma no estado de pecado mortal.
Ser participante da natureza divina. Que isto significa? Ah! não pode haver maior dignidade concedida ao homem por Deus!!! Sendo a própria Bondade, nos criou semelhantes a Ele. Nos deu uma participação, limitada, é verdade, porque somos criaturas finitas, mas uma participação REAL. É a graça habitual santificante que nos torna participantes da natureza de Deus, e faz-nos entrar, como diz S. Paulo, em comunhão com o Espírito Santo (2 Cor. XIII, 13); e S. João acrescenta que "entramos em sociedade com o Pai e o Filho (1 João, I, 3). Assim S. Paulo afirma que, pela graça santificante, ficamos a pertencer à família de Deus: "Já não sois estrangeiros, nem hóspedes de passagem, mas sois cidadãos dos santos e membros da família de Deus" (Efésios II, 19). Em outras palavras: pela graça tornamo-nos FILHOS ADOTIVOS DE DEUS. O Verbo, ou seja, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade recebe do Pai toda a natureza divina. Evidentemente que não somos filhos de Deus neste sentido, porque somos criaturas limitadas. Mas, também devemos observar que somos filhos adotivos de Deus de uma maneira muito superior à adoção aqui na terra. Aqui alguém é adotado como filho, mas é questão puramente burocrática, é por efeito de documento passado no cartório. Na verdade, porém, este filho adotivo, não tem nada haver com o DNA de seus pais adotivos. Pela graça santificante, no entanto, o batizado recebeu uma participação real da natureza divina, embora, é claro, (é bom sempre repetir), em medida limitada. Tendo o cuidado de evitar o perigo do panteísmo, devemos sempre explicar que esta participação da natureza divina pela graça, não nos torna IGUAIS mas SEMELHANTES A DEUS, ou DEIFORMES.  Quão grande é a dignidade do cristão no estado de graça: É SEMELHANTE A DEUS!!! Os eleitos no Paraíso vêem a Deus face à face, sem nenhum intermediário, vêem-No como Ele é. Que felicidade sobretudo amar a Deus como Ele se ama, sem reserva!!!

Verdade importantíssima: o grau de graça que houvermos alcançado aqui na terra, determinará o grau de glória no Céu. Que fazer para garantir este TESOURO no Céu? É o que veremos a seguir.

As faculdades de nossa alma, a inteligência e a vontade, abandonadas às suas próprias forças, nunca poderiam praticar atos sobrenaturais e meritórios de vida eterna. Pois bem, a liberalidade de Nosso Pai do Céu nos outorga generosamente, já no Batismo, um conjunto de virtudes e dons sobrenaturais no próprio momento em que recebemos a graça santificante. O Sacrossanto Concílio de Trento fala sobre esse cortejo glorioso de virtudes infusas que acompanha a graça. Dizem os autores espirituais que o início da vida espiritual é mais difícil e exige mais esforço para praticar as virtudes, mas, feito isto, o Espírito Santo nos conduz com seus dons. Comparando: praticar as virtudes seria como navegar a remo; pelos dons é como navegar à vela. Assim, as virtudes são, fundamentalmente energias ativas; os dons são docilidades e receptividades que, tornando a alma mais passiva sob a mão de Deus, a tornam ao mesmo tempo mais apta a seguir as suas moções e a produzir atos mais perfeitos e até heroicos.

Mas além da graça santificante, que é habitual na alma, Deus nos dá graças atuais, que são transitórias. São iluminações interiores na nossa inteligência; e são também inspirações e moções na vontade. O divino Espírito Santo está na alma no estado de graça sempre agindo, no intuito de a santificar sempre mais. Mas é evidente que devemos corresponder à esta tão grande generosidade de Deus; devemos acolher com reconhecimento esta vida e aperfeiçoá-la com cuidado, sob a ação das graças atuais. Eis o conselho de S. Paulo: "Exortamos-vos a não receberdes em vão a graça de Deus" (2 Cor. VI, 1).  Como Deus é Misericórdia e Justiça, se o homem não corresponder virá o castigo: "A terra, que absorve a chuva que cai muitas vezes sobre ela e produz erva proveitosa a quem a cultiva, recebe a bênção de Deus; mas, se ela produz espinhos e abrolhos, é reprovada e está perto da maldição, o seu fim é a queima" (Hebr. VI, 7 e 8). Donde caríssimos, devemos receber e guardar a graça com todo respeito e reconhecimento e logo fazê-la frutificar, aumentando diariamente a graça santificante produzindo atos sobrenaturais e meritórios. Em outras palavras: devemos estimar a graça mais do que todos os tesouros da terra e todas as dignidades terrenas. S. Paulo diz que a graça vale mais que o dom preternatural de fazer milagres.

É evidente que devemos evitar todo pecado mortal e continuar lutando para evitar também os pecados veniais deliberados. Devemos lutar até para evitarmos as imperfeições voluntárias, isto é, as resistências deliberadas às inspirações da graça. Assim, dia a dia, devemos desenvolver a vida da graça. Sozinhos, sem o divino Espírito Santo, não podemos nada. Mas a verdade é que o Espírito Santo opera em nós e conosco, e a sua ação dá às nossas ações um valor proporcional à grandeza do fim a atingir. Divinizados na nossa própria substância pela graça habitual, divinizados nas nossas faculdades pelas virtudes sobrenaturais, podemos produzir, sob a influência da graça atual, atos sobrenaturais e meritórios da vida eterna.

Caríssimos, três fatores aumentam os méritos de uma alma que já se encontra em estado de graça: A UNIÃO COM DEUS; A PUREZA DE INTENÇÕES E O FERVOR.

NB.: Como já me estendi muito, deixarei para falar sobre estes três pontos em outra postagem, se Deus quiser. Amém!

COMO AUMENTAR A GRAÇA SANTIFICANTE



"Quando fazes alguma coisa boa, diz Santo Agostinho, faze-a por amor da vida eterna. Se por isso a fazes, estás seguro, porque assim o mandou Deus". Aqui na terra os eleitos começaram a amar merecendo, e lá no Céu continuaram a amar eternamente amando por prêmio.

A primeira causa capaz de aumentar os nossos méritos é o GRAU DE UNIÃO COM DEUS. Como sabemos, pelo Batismo o homem é realmente incorporado em Cristo; ora, sendo Ele a fonte de todos os nossos méritos, quanto mais intima, habitual e atualmente estivermos unidos a Ele, mais mereceremos. "Eu sou a videira, disse Jesus, e vós os ramos... Aquele que permanece em mim e eu nele dá muito fruto" (S. João, XV, 1-6). É por isso que a Santa Igreja nos exorta que pratiquemos as nossas ações por Ele, com Ele e n'Ele. POR ELE, porque ninguém vai ao Pai sem passar por Ele (S. João XVI, 6); COM ELE, porque sem Ele não podemos nada, e Ele quer ser o nosso colaborador; N'ELE, isto é, na sua virtude e sobretudo segundo as suas intenções. Assim fazendo, podemos dizer com S. Paulo: "Eu vivo, mas já não sou eu quem vive,é Cristo que vive em mim" (Gal. II, 20). Na vida prática, o cristão deve unir-se frequentemente, sobretudo no começo dos atos que vai praticar, a Jesus Cristo e às suas intenções, com a plena consciência de que é incapaz de fazer qualquer coisa de bom por si mesmo e uma indefectível confiança de que Ele pode remediar a sua fraqueza.

O segundo meio para aumentar a graça santificante é a PUREZA DE INTENÇÃO, isto é, a PERFEIÇÃO DO MOTIVO que nos leva a agir. Assim, como a caridade é a rainha e a forma de todas as virtudes, toda a ação inspirada pelo amor de Deus e do próximo tem mais mérito do que se for inspirada apenas pelo temor ou pela esperança. Portanto, todas as nossas ações, até as mais comuns como as refeições e recreios honestos e moderados, podem tornar-se atos de caridade e participar do valor dessa virtude, sem perderem o seu valor próprio. Demos um exemplo: comer para restaurar as forças é um motivo digno e meritório; mas refazer as forças para melhor trabalhar por Deus e pelas almas é um motivo de caridade muito superior, que lhe confere um valor meritório muito maior. Contudo não deve haver inquietação de espírito: os autores espirituais aconselham que aceitemos as intenções que se nos apresentarem espontaneamente e subordiná-las à caridade divina. Mas como a vontade humana é inconstante, é mister explicitar e atualizar frequentemente estas  nossas intenções sobrenaturais. Pois, pode acontecer que a gente comece merecendo muito, e durante a execução da obra, chegue a perder, pelo menos, uma parte de seu merecimento. O Santo Cura d"Ars dizia que, quando sentimos que o fervor está diminuindo e se desviando, devemos fazer oração jaculatória. Por ex.: MEU JESUS, TUDO POR VOSSO AMOR; MEU PAI DO CÉU, EU VOS AMO.

Daí o terceiro meio para aumentar a graça santificante: A INTENSIDADE DO AMOR, isto é, O FERVOR com que se age. Não basta fazer o bem, é preciso evitar a indolência, o pouco esforço, a negligência. E pode até acontecer de haver pecados veniais nestas negligências. Com certeza, uma obra boa mas feita com indolência trará pouco merecimento para a alma. Pelo contrário, se oramos, trabalhamos e nos sacrificamos COM TODO CORAÇÃO, cada uma das nossas ações merece um grau apreciável de graça habitual. Caríssimos, como vale a pena renovar frequentemente os esforços, com energia e perseverança!

A DIFICULDADE DO ATO, não em si mesma mas porque exige mais amor de Deus, despende um esforço mais enérgico e mais demorado, e enquanto não provém de uma imperfeição atual da vontade, também aumenta o mérito da alma. Devemos prestar atenção no seguinte: adquire-se uma virtude com atos repetidos desta virtude e aí torna-se fácil agir assim. No entanto, isto não diminui o mérito. Essa facilidade, quando dela nos servirmos para continuar e até aumentar o esforço sobrenatural, favorece o FERVOR do ato, e por conseguinte, aumenta, outrossim o mérito. Assim os santos que, pela prática das virtudes, fazem mais facilmente que os outros, atos por exemplo de humildade, de obediência e de religião, não têm menos mérito, pois praticam mais fácil e frequentemente o amor de Deus, e por outro lado, continuam a fazer esforços, sacrifícios, sempre que sejam necessários. A dificuldade aumenta o mérito, mas na medida em que suscita mais entusiasmo e amor.

Devemos ter sempre em mente que ser santo, é ocupar-se tranquilamente em cumprir os deveres do seu estado, para agradar a Jesus, é suportar por seu amor as penas da vida e deixar-Lhe plena liberdade para dispor a seu grado da alma e do corpo, da saúde e de todos os bens. Jesus pede o nosso coração, ou seja, quer o nosso amor. Amando-O, tudo está bem. Genoveva e Pascoal Bailão eram pastores, mas amavam a Jesus e eram santos. Isidoro era um lavrador, Zita uma criada. Crispim um sapateiro, Bento Labre um mendigo. Que importa? Não tinham senão um emprego: amavam a Jesus com o máximo fervor e esqueciam-se de si mesmos.

Devemos santificar todas e cada uma das nossas ações, mesmo as mais comuns. Quanto progresso na santidade podemos fazer num só dia! Não há meio mais eficaz, mais prático, e mais ao alcance de todos para se santificarem do que sobrenaturalizar todas as ações, com estes três meios de que acabamos de falar: recolhermo-nos um momento antes de agir, renunciarmos positivamente a toda a intenção natural ou má, unirmo-nos, incorporarmo-nos em Cristo e oferecermos por Ele a nossa ação a Deus para sua glória e bem das almas. Ponhamos em prática o conselho do Espírito Santo por boca de S. João Apóstolo no Apocalipse, XXII, 11: "Aquele que é justo se torne mais justo ainda; e aquele que é santo se santifique ainda mais". É assim que juntamos um tesouro no Céu, que o ladrão não rouba, a traça não rói e nem a ferrugem consome. Amém!

sábado, 14 de abril de 2018

APREÇO À LITURGIA


De 1958 a 1962 ajudei meu pároco em todos as cerimônias da Igreja: Santa Missa, Adoração e Bênção do Santíssimo, Via-Sacra e Semana Santa. Era minha maior alegria já que tinha vocação ao sacerdócio.  E pude acompanhar a derrocada da bela e piedosa Liturgia da Igreja, desde os preparativos do Concílio Vaticano II até chegarmos a este descalabro fatídico da Liturgia com os Progressistas. Quando entrei no Seminário já percebia que lá fora com o caminhar do Concílio toda a beleza e elevação da Liturgia Tradicional estavam sendo destruídas. Pela graça de Deus, em 08/12/1974 fui ordenado sacerdote. Pela formação recebida de D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória, conservo e, com a graça de Deus, conservarei a Liturgia Tradicional.  Venho acompanhando com muita tristeza, que depois do Concílio até hoje, os progressistas vêm cada vez mais desmoralizando a Liturgia da Igreja no Rito Latino.

Jesus Cristo nunca falou contra a suntuosidade e riqueza
do Templo, pois fora tudo ordenado pelo próprio Deus.
Quis, porém, que seus discípulos fossem pobres.
Infelizmente, muitos eclesiásticos estão invertendo o
exemplo e o ensinamento do Divino Mestre!
Liturgia é o conjunto das regras estabelecidas pela Igreja, em todas as coisas que dizem respeito ao culto público: os lugares (edifícios do culto), os objetos, os atos e os tempos do culto. Não entra no domínio da liturgia nenhum ato de culto externo particular. A Santa Igreja, Corpo místico de Cristo e cuja cabeça é o próprio Jesus Cristo e cuja alma é o Espírito Santo, e do qual somos os membros, eleva a sua voz ao Pai, ou seja, tem a sua oração organizada pela Liturgia. Liturgia não é, pois, satisfação estética com a qual, infelizmente, muitos penetram num templo com muita erudição artística, com o mais refinado gosto pelo simbolismo, com a alma fascinada pela arte ou pelo perfume do incenso, mas não penetram na fonte da vida litúrgica. Caríssimos, nunca alguém poderá obter o sobrenatural com a superficialidade. Não é também Liturgia só as cerimônias externas. Comparando, seria como alguém que lesse os sermões de grandes oradores sacros só apreciando a aplicação da gramática, da sintaxe e da eloquência.

Caríssimos, a Liturgia tem por fim promover a dignidade do culto e alimentar a piedade. A Liturgia nos ritos do Antigo Testamento era apenas figura do que seria no Novo Testamento, e, no entanto o próprio Deus a estabelecia em todos seus detalhes. Na verdade, o homem deve ao Criador a vassalagem do seu ser inteiro, tanto do corpo como da alma. Portanto, as atitudes do corpo, os gestos das mãos, as palavras dos lábios, os monumentos que se erguem majestosos para o alto, os paramentos ricos são outros tantos meios de que podemos lançar mão para adorarmos a Deus. A Igreja, antes do Concílio Vaticano II, nunca deixou nada à fantasia individual. Ela sempre intervinha e formulava leis garantidoras da dignidade do culto. Basta lembrarmos o que fez o Papa São Pio V em relação ao Santo Sacrifício da Missa. É evidente que a piedade verdadeira nasce da alma, ou, como se costuma dizer, do coração. E realmente, o culto externo não passaria de hipocrisia, se não fosse baseado no culto que vem da alma, isto é, do culto interior. Mas, como somos alma e corpo, é óbvio também que o culto externo facilita o culto interior, e a imponência, a pompa das cerimônias públicas, afervoram a devoção da alma e elevam-na para Deus.  Por isso que a bagunça da liturgia nova banaliza até os mistérios da Santa Religião.  Na verdade, até o Concílio Vaticano II e ainda hoje na verdadeira Tradição, a Igreja com toda a sua vida íntima, o seu pensamento, sua aspirações, tradições e toda a sua alma, se transfundiram em sua linguagem que é a oração e justamente a oração litúrgica.

Pela ORAÇÃO LITÚRGICA o homem já não é uma gota d'água tomada isoladamente mas se acha unido a Jesus Cristo e a toda Igreja e participa da força da imensidade do oceano, e por isto, - como diz D. Chautard - sua oração se diviniza e atinge todos os séculos desde a criação dos anjos e sua primeiro adoração até nossos dias. A oração litúrgica abrange todas as gerações de almas santas que a Igreja criou desde o dia de Pentecostes.

Os primeiros cristãos, quando ao cair da noite se reunião para assistirem o Sacrifício e receberem a comunhão, sentiam-se verdadeiros irmãos em Cristo, isto é, unidos a Ele no organismo da Igreja. Ao falar da santa Liturgia, S. Pio X esperava dela o reflorescimento do verdadeiro espírito cristão. Os modernistas estão destruindo este verdadeiro espírito cristão exatamente pela ruína e desmoralização da Liturgia.

Caríssimos, lutemos pela conservação da Liturgia Tradicional, a começar pela Santa Missa. Em toda santa Liturgia Tradicional façamos soar uma nota: a nossa divinização. Amém!

terça-feira, 10 de abril de 2018

CREIO NA IGREJA CATÓLICA

CREIO NA IGREJA CATÓLICA
                                                                                                                       Dom Fernando Arêas Rifan*           


A fé é a convicção das realidades que não se veem (Hb 11, 1), baseada na Palavra de Deus, que nos revela a sua verdade.  Um dia, no Céu, a fé será substituída pela visão. Se vejo, não é preciso mais fé. Quando digo no Credo, nossa profissão de Fé, “Creio na Santa Igreja Católica”, não quero dizer “creio na existência do Papa, dos Bispos, da estrutura da Igreja etc”, porque essas coisas são visíveis, portanto não são objeto da fé. “Creio na Santa Igreja Católica” significa que eu creio na sua origem divina, na sua santidade, na presença contínua do Divino Espírito Santo nela, na garantia que lhe deu o seu Divino Fundador de que as portas do inferno jamais prevaleceriam sobre ela etc. São coisas que não se veem, por isso são objeto da nossa fé.
Depois que Jesus anunciou aos Apóstolos que iria sofrer a sua Paixão e Morte, ele, na Transfiguração, mostrou-se a eles como Deus, para que, na hora da tragédia da cruz, se recordassem da sua divindade, que eles contemplaram no monte Tabor, e não perdessem a fé na hora da tribulação. Assim também agora, quando vemos a Santa Igreja desfigurada na sua paixão, vilipendiada por seus inimigos externos e, pior ainda, internos, desfigurada por eles na sua doutrina, chicoteada na sua liturgia, conspurcada pelo mal comportamento dos seus membros, sentimos também uma grande tentação em nossa fé na divindade da Igreja. Mas não nos deixemos vencer por essas tentações! Essa é a hora de dizermos com mais força ainda: eu creio na Santa Igreja Católica!
Não é porque tal ou tal membro da Igreja, seja ele quem for, ou tal comissão ou grupo, em nome deles próprios e não da Igreja, tomou atitudes ou defendeu posições não condizentes com a sua doutrina, já claramente exposta no seu Magistério, no seu Catecismo, nas suas leis litúrgicas e disciplinares, que devemos ficar escandalizados a ponto de perdermos a nossa fé na Igreja. Não! Pelo contrário, é hora de reagirmos com coragem contra todos esses erros e defendermos a Igreja, distinguindo entre os erros pessoais e a Igreja com suas instituições. Tais pessoas, com suas atitudes equivocadas e erros adotados, não nos representam como católicos.
Oportunamente, vale sempre lembrar o que ensinou o Papa São João Paulo II aos Bispos do Brasil, do Regional Sul l da CNBB, na visita “ad limina” em 21 de Março de 1995: “Os ministros sagrados, bem como os religiosos e religiosas consagrados, devem evitar cuidadosamente qualquer envolvimento pessoal no campo da política ou do poder temporal, como ainda recentemente recordava o “Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros”: “O sacerdote, servidor da Igreja que em virtude da sua universalidade e catolicidade não pode ligar-se a nenhuma contingência histórica, estará acima de qualquer fação política. Ele não pode tomar parte ativa em partidos políticos ou na condução de associações sindicais, e isso para poder “permanecer o homem de todos num plano de fraternidade espiritual” (n. 33).
  Dom Prosper Guérranger (L’Année Liturgique), sobre o episódio em que um leigo, Eusébio, se levantou contra a impiedade de Nestório, salvando assim a fé de Bizâncio, comenta: “Há no tesouro da Revelação pontos essenciais, cujo conhecimento necessário e guarda vigilante todo cristão deve possuir, em virtude de seu título de cristão. O princípio não muda, quer se trate de crença ou procedimento, de moral ou de dogma... Os verdadeiros fiéis são homens que extraem de seu Batismo, em tais circunstâncias, a inspiração de uma linha de conduta; não os pusilânimes que, sob pretexto especioso de submissão aos poderes estabelecidos, esperam, para afugentar o inimigo ou para se opor a suas empresas, um programa que não é necessário, que não lhes deve ser dado”.
Estamos no ano do laicato. É hora, portanto, principalmente de os leigos agirem. “Vocês também são a Igreja!” Como diz o Papa Francisco, a Igreja é mãe, mas não é babá. As ovelhas têm o direito de se defenderem dos lobos que as atacam, mas sempre dentro dos limites do respeito e da caridade, especialmente para com os membros da hierarquia.
O bom e verdadeiro católico sabe distinguir entre erros pessoais e a Igreja, a Santa Madre Igreja, nossa mãe. Quando se trata de membros da hierarquia eclesiástica, o nosso dever de resistência e até de crítica não pode suplantar o nosso respeito e consideração pelo cargo que ocupa. Se não, destruímos mais do que construímos. Não se deve atribuir à Igreja e às suas instituições os erros pessoais de seus membros. Jesus escolheu seus Apóstolos. Nem todos eram perfeitos. Só ficaram santos depois da vinda do Espírito Santo. E, mesmo assim, ainda conservaram sua natureza humana frágil. Quem ousaria atacar Jesus por ter escolhido Pedro e, mesmo Judas Iscariotes, ladrão e futuro traidor, e, ainda por cima, lhe confiar a bolsa do colégio apostólico? Seria também insensato atribuir os erros de Judas a todo o colégio apostólico!
Eu creio na Santa Igreja Católica, que vai continuar sendo santa, apesar de nós, pecadores!

                                                      * Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
                                                                           http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A INFALIBILIDADE - CÂNON 212 §§ 1º,2º, 3º. ( VII )

   Nosso Senhor Jesus Cristo fez a Sua Igreja hierárquica, isto é,seus membros não são todos iguais. Há dois grupos distintos: Igreja docente e Igreja discente. Docente: é a parte da Igreja que ensina. Em latim: "docere", quer dizer ensinar. Discente: é a parte da Igreja que é ensinada. Em latim "discere", que quer dizer: receber o ensino, aprender.
   1º - Igreja DOCENTE: A) Tem na frente o Papa. É o chefe supremo. Possui a plenitude dos poderes concedidos por Jesus Cristo à Igreja.
                                            B) Abaixo do Papa e submetidos à jurisdição dele, estão os Bispos, gozando como ele da plenitude do sacerdócio, mas com poderes de ensino e governo limitados na respectivas dioceses.
   No último degrau da hierarquia, temos os padres, cujo poder de ensinar não lhes pertence por direito, mas em virtude da delegação do bispo.

   2º - Igreja DISCENTE: São os fiéis. Não têm autoridade eclesiástica. São instruídos, governados e santificados por seus pastores. Têm na Igreja direito aos bens espirituais: recepção dos sacramentos e audição da Palavra divina. Ainda com relação aos fiéis, diz o Código de Direito Canônico: cânon 211 - "Todos os fiéis têm o dever e o direito de trabalhar para que a mensagem divina da Salvação chegue cada vez mais a todos os homens de todos os tempos e do mundo inteiro". E o cânon 212 diz: § 1º -"Os fiéis, conscientes da sua responsabilidade, têm obrigação de prestar obediência cristã àquilo que os sagrados Pastores, como representantes de Cristo, declaram na sua qualidade de mestres da fé, ou estabelecem como governantes da Igreja".
   Explicação deste parágrafo: Ser consciente da própria responsabilidade significa que não se deve obedecer simplesmente porque está mandado, mas porque o mandado é legítimo, e que se deve obedecer com iniciativas, quando o mandamento deixe margem para elas. É preciso ter espírito de colaboração. Contudo, juridicamente não se pode exigir outra obediência que a determinada pela justiça legal.
   Cânon 212, § 2º "Os fiéis têm a faculdade de expor aos Pastores da Igreja as suas necessidades, sobretudo espirituais e os seus anseios".
   Explicação deste parágrafo: Trata-se do direito de petição, individual e coletiva. A petição pode fazer-se por via oral ou escrita. Este direito exige ser ouvido, mas não traz consigo a obrigação de outorgar o pedido, a não ser que o pedido constitua um verdadeiro direito. Exemplo: O Padre José Maria Scrivá (hoje canonizado), se esforçando por obedecer a Santa Sé, começou a celebrar a "Missa Nova". Seus padres e fiéis perceberam a angústia de seu diretor ao deixar de celebrar a Missa de São Pio V, ou seja, a Santa Missa de Sempre, e passar a celebrar a Missa Nova, então expuseram a Santa Sé os seus anseios. Não sei dizer como o fizeram, se diretamente, por escrito ou oralmente, mas afinal isto não importa, nem vem ao caso. O fato é que o Papa permitiu que o Padre José Maria Scrivá, continuasse a celebrar a Missa de Sempre. Só celebrou duas vezes a Missa Nova. A razão de sua angústia facilmente se advinha. Nem precisaria ser santo, basta ser verdadeiro devoto da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, para se sentir angustiado ao ter que celebrar uma missa que agrada aos Protestantes.
   Cânon 212 § 3º: "Os fiéis, segundo a ciência, a competência e a proeminência de que desfrutam têm o direito e mesmo, por vezes, o dever de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de a exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas."
   Explicação deste parágrafo: Este parágrafo reconhece o direito que os fiéis têm à liberdade de expressão e de opinião pública dentro da Igreja. A ciência, a perícia e o prestígio são requisitos do reto exercício do direito ou para que o dever - moral - tenha maior ou menor força: o fundamento, porém, não são os requisitos, mas a condição de fiel. Quando se trata de dogmas da Santa Igreja (= integridade da fé e dos costumes, em que a Igreja é infalível) é claro que não existe o direito a livre opinião à liberdade de expressão. Fora destes casos, existe o direito e até o dever de manifestar à hierarquia da Igreja sua opinião, mas  é sempre necessário fazê-lo com todo repeito e reverência devidos às autoridades hierárquicas da Santa Igreja. E também só se pode expor sua opinião quando há real utilidade comum para as almas. É interessante notarmos que o fiel, dentro das condições acima expostas, tem o direito e às vezes, o dever de manifestar não só às autoridades da Igreja, sua opinião, mas também de expô-la aos restantes fiéis, isto é, o fiel tem o direito e às vezes, até o dever não só de manifestar sua opinião privadamente mas até mesmo publicamente, ou seja, ele pode, e às vezes, deve falar também para os demais fiéis.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O INFERNO




 Nossa alma é imortal. Com o último suspiro cessa o TEMPO DA PROVA e se entra no ESTADO DO TERMO.  Agora é o tempo de semear; depois da morte isto não é mais possível: o que o homem semear, isto ele vai colher. Criados por Deus, caminhamos para Deus. Durante esta vida devemos decidir: queremos estar unidos a Deus por meio da graça? Queremos estar separados de Deus pelo pecado mortal? Perseverando no primeiro estado, teremos, depois da morte o CÉU; perseverando no segundo estado, teremos o INFERNO (alhures já expliquei um pouco sobre o PURGATÓRIO). O prêmio e o castigo são eternos. Esta eternidade é afirmada clara e repetidamente por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Vamos explicá-lo à luz do amor de Deus. Caríssimos, Deus nos amou e nos ama infinitamente, e as provas do seu infinito amor são abundantes tanto no campo natural como no sobrenatural. Deus nos criou, nos remiu e nos santifica para nos unir a Ele. Na verdade, Deus é infinitamente feliz em si mesmo, mas sendo a própria Bondade e o Sumo Bem, nos criou para Ele, pois só assim, poderíamos ser felizes. Deus quer a união de nossos corações e a união sobrenatural das almas com Ele neste mundo, para começar já aqui no mundo a união que será perfeita no céu. S. Paulo diz que tudo é nosso, mas nós somos de Jesus Cristo. Todas as coisas criadas com suas grandiosidades e belezas,  a Igreja com seus sacramentos e apostolado, pela eficácia do Sangue de Jesus Cristo, tudo isto nos conduz a Deus que é nosso último fim.

Mas Deus não nos quer forçados no Céu. Isto não coaduna com a Bondade e Perfeição divinas. Deus quer que sejamos felizes amando-O e servindo-O livremente e de boa vontade, isto é, por amor. Daí Ele respeita a nossa liberdade. Deus quer uma adoração livre e consciente.

É imensa e monstruosa a nossa estupidez quando nos revoltamos contra Deus e nos voltamos para as criaturas buscando em vão o que possa encher o nosso coração. Se Deus fez o nosso coração só para Ele é porque só Ele o pode tornar inteira e eternamente feliz; e assim, é claro,  estaremos sempre inquietos, se não repousarmos em Deus.

Devemos dizer que é, em certo sentido, infinita a gravidade de nossos pecados, porque esta se mede pela dignidade da pessoa ofendida. E, aqui se ofende a Deus de infinita grandeza. Daí é infinita a nossa culpabilidade, quando nos revoltamos contra o Onipotente e nos voltamos para as criaturas. Ora, o inferno não pode ser infinito, porque é uma criatura. A justiça divina, torna-o, no entanto, em certo sentido INFINITO, pela ETERNIDADE. A justiça exige que depois do período da misericórdia, haja proporção entre o pecado e o castigo.

Caríssimos, é inominável a nossa ingratidão para com Deus quando nos revoltamos contra Ele. Deus nos deu o que possuímos, elevou-nos à dignidade de filhos Seus, divinizou-nos, morreu por nós na cruz, cumulou-nos de graças e quis ser o nosso alimento pela Santíssima Eucaristia. E até o último instante nos dá a graça suficiente de salvação. Deus quer a salvação de todos, mas, como dissemos, respeita a liberdade. E quem se condena, abusa desta liberdade, e prefere morrer no pecado rejeitando até ao último suspiro a graça suficiente que Deus lhe dá. Por culpa do pecador, a graça que era de si suficiente, torna-se ineficaz. Portanto, quem morre em pecado mortal opõe a um amor infinito, uma ingratidão infinita. Assim, se os incrédulos meditassem estas duas coisas: o infinito amor divino de um lado, e de outro a infinita ingratidão humana, sentiriam morrer nos lábios qualquer objeção contra o inferno eterno.

Acontece que após a morte, isto é, já na eternidade, a outra vida já não nos oferece a possibilidade da emenda do pecado ou a aquisição de novos méritos. A união ou a separação de Deus será definitiva. Na oitava estação da Via Sacra meditamos naquelas palavras de Jesus às santas mulheres que batiam no peito e O lamentavam: "Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque eis que virá tempo em que se dirá: Ditosas as estéreis, e ditosos os seios que não geraram e os peitos que não amamentaram. Então começarão os homens a dizer aos montes: Caí sobre nós; e aos outeiros: Cobri-nos". E também S. João no Apocalipse, falando sobre o fim do mundo diz: "E diziam aos montes e aos rochedos: caí sobre nós, escondei-nos da face daquele que está sentado sobre o trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira de ambos" (Apocalipse VI, 16). Na verdade, os condenados preferirão ser aniquilados. Mas a Justiça divina, da mesma forma que dará a recompensa aos bons: "Vinde benditos de meu Pai, possuí o reino que vos foi preparado desde o início do mundo" ( S. Mateus XXV, 34); também dará o castigo aos maus: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para os demônios e seus seguidores"(S. Mateus XXV, 41).

O homem deve estar unido a Deus em razão da ordem natural e sobrenatural. O inferno, ao contrário, é a eterna e definitiva separação de Deus. Se fosse  infinitamente maiores as penas que sofrem os condenados mas não estivessem sujeitos à pena do dano, não existiria o inferno. Mas agora isto não é compreendido. Os grandes santos compreendem-no mais um pouco. Mas o pecador que se engolfa nas coisas sensíveis e perecedoras, como não pensa em Deus, não chega a compreender como o verdadeiro inferno possa consistir na separação do Senhor. A perda de Deus será para o condenado o seu verme roedor e principal tormento.

Mas Jesus Cristo fala também da pena dos sentidos. Já que os condenados enquanto estavam aqui no mundo, pecaram não só se afastando de Deus como também fazendo uso de seu corpo para se voltarem para as criaturas, é justo que sejam castigados também desta maneira, isto é, nos seus sentidos pelo tormento do fogo e outros de acordo com os pecados cometidos.

Caríssimos, se o pensamento do inferno e das suas penas deve despertar em nós sentimentos de temor, nem por isto devemos chegar ao desespero. Sigamos o conselho do primeiro Papa: "Irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais" (2 Pedro I, 10). Amém!