terça-feira, 31 de outubro de 2017

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MOMENTO ATUAL

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MOMENTO ATUAL
                                                        
            “Ficai bem atentos à vossa maneira de proceder. Procedei não como insensatos, mas como pessoas esclarecidas... porque estes dias são maus” (Ef 5, 16). “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2).

PROPAGANDA DA IMORALIDADE – ATAQUES À FAMÍLIA:

Junto com a divulgação da imoralidade, fantasiada de arte, e a propaganda maciça do homossexualismo, travestido de respeito à diversidade, reaparece a doutrinação da Ideologia de Gênero, também com ares de liberdade e de orientação sexual.          
Configura-se, visando sua destruição, um verdadeiro ataque à família, santuário da vida, que vai perdendo seus direitos na educação dos seus filhos, os quais se tornam alvo fácil dessa onda destruidora da moral. Os bons ficam acuados. E os meios de comunicação, através de novelas e entrevistas direcionadas, vão divulgando essa mentalidade de modo bem orquestrado.
Se a crise social, política e familiar por que passamos é, sobretudo, moral, essa propaganda em nada a faz diminuir, mas, pelo contrário, aumenta-a rompendo todas as barreiras éticas que deveriam pautar o comportamento humano.
            Ao repetir o Mandamento divino “Não pecar contra a castidade”, a Igreja nos ensina a vencer a luxúria e evitar tudo o que a ela conduz, como a pornografia e a indecência no vestir. A castidade faz parte da temperança, conduz ao domínio de si, que exige um esforço constante em todas as idades da vida, especialmente quando se forma a personalidade, durante a infância e a adolescência (cf. Catecismo da Igreja Católica – CIC - 2331-2356).
São Paulo já advertia: “Fostes chamados à liberdade. Porém, não façais da liberdade um pretexto para servirdes à carne” (Gl 5, 13).
            Sobre a propaganda da imoralidade, recordo as graves palavras do saudoso Cardeal Dom Lucas Moreira Neves, acusando a Televisão, o que poderíamos aplicar também a certos sites da Internet, devido à onda de impureza que traz para dentro dos lares: “Acuso-a de ministrar copiosamente a violência e a pornografia. A primeira é servida em filmes para todas as idades. A segunda impera, solta, em qualquer gênero televisivo: telenovelas, entrevistas, programas ditos humorísticos, spots publicitários e clips de propaganda. A TV brasileira está formando uma geração de voyeurs, uma geração de debilóides. Acuso-a de ser corruptora de menores”.
E não é só contra essa imoralidade que a Igreja levanta a sua voz. Ela também repudia o assassinato de crianças e adolescentes, a prostituição infantil, a morte de crianças para o roubo de órgãos, a mortalidade das crianças nos hospitais públicos, a violência doméstica, o estupro e o feminicídio.  

            PROFANAÇÃO DOS SÍMBOLOS CRISTÃOS:

            Quanto à profanação dos símbolos cristãos, como o crucifixo, a hóstia, a imagem da Padroeira do Brasil, fazendo eco às palavras dos Bispos do Regional Nordeste 1 da CNBB, manifesto a minha indignação e repúdio diante do escárnio público desses nossos símbolos, crime de vilipêndio, condenados também pelo Código penal (Artigo 208).
            E essa indignação e repúdio deve ser a de todos os católicos e pessoas de bom senso e respeito.

            PROPAGANDA DO HOMOSSEXUALISMO:

            Sobre a homossexualidade, observamos primeiramente que se deve fazer a distinção entre pessoas e atos, entre a tendência e a prática.

Na linha do pensamento de Santo Agostinho, que dizia que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador, e em seguimento do Papa Francisco, que pastoralmente nos ensina a aplicar sempre a misericórdia, as pessoas que apresentam essa inclinação, objetivamente desordenada, cuja gênese psíquica continua em grande parte por explicar, devem ser acolhidas com respeito, delicadeza e compaixão, pois, para a maioria, isso constitui uma provação. Evitar-se-á para com elas todo sinal de descriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã (cf. CIC nn. 2357-2358).   
A Igreja, e nós com ela, condenamos e repudiamos, pois, todas as ofensas e, mais ainda, os assassinatos e espancamentos de LGBTIs por conta da intolerância.

Mas não podemos deixar de dizer que a prática do homossexualismo é condenável. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (cf. Gn 19,1-29; Rm 1, 24-27; I Cor 6, 9-10; I Tim 1, 10), a tradição sempre declarou que ‘os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados’ (Congregação para a Doutrina da Fé, declaração Persona Humana, 8). São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados (CIC n. 2357).
            Por isso, a propaganda do homossexualismo como sendo algo natural é maléfica e, por isso mesmo, condenável. 
São Paulo, apóstolo, fala “com lágrimas”, que muitos “se gloriam daquilo de que se deveriam envergonhar” (Fl 3,19). E, referindo-se aos pecados e perversidade dos pagãos, o mesmo apóstolo nos recorda a moral natural: “Por isso, Deus os abandonou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador... Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario” (Rm 1, 24-27).  
Aliás, já no Antigo Testamento, Deus já havia condenado os atos homossexuais: “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável” (Lv 20, 13).
Por isso, São Paulo, desejoso de nossa salvação, nos adverte: “Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados (em latim, molles), nem os homossexuais (em latim ‘masculorum concubitores’), nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10).

IDEOLOGIA DE GÊNERO:

            A ideologia de gênero quer eliminar a ideia de que os seres humanos se dividem em dois sexos, afirmando que as diferenças entre homem e mulher não correspondem a uma natureza fixa, mas são produtos da cultura de um país, de uma época. Algo convencional, não natural, atribuído pela sociedade, de modo que cada um pode inventar-se a si mesmo e o seu sexo.
            O feminismo do gênero, que promove essa ideologia, procede do movimento feminista para a igualdade dos sexos. A ideologia de gênero, própria das associações LGBT, baseia-se na análise marxista da história como luta de classes, dos opressores contra os oprimidos, sendo o primeiro antagonismo aquele que existe entre o homem e a mulher no casamento monogâmico. Daí que essa ideologia procura desconstruir a família e o matrimônio como algo natural. Em consequência, promovem a “livre escolha na reprodução”, eufemismo usado por eles para se referir ao aborto provocado. Como “estilo de vida”, promovem a homossexualidade, o lesbianismo e todas as outras formas de sexualidade fora do matrimônio. Entre nós, querem introduzir essa ideologia, usando o termo “saúde reprodutiva”. E usam a artimanha de palavras, especialmente “discriminação” e "luta contra o preconceito”Sob esse nome sedutor – pois todos somos contra a discriminação injusta e o preconceito – querem fazer passar a ideologia do gênero, a ditadura do relativismo moral, estabelecendo uma nova antropologia anticristã, sob o nome de democracia.
Essa campanha é internacional. Na Itália, por exemplo, os folhetos distribuídos nas escolas pretendem ensinar a todos os alunos que “a família pai-mãe-filho é apenas um ‘estereótipo de publicidade’; que os gêneros masculino e feminino são uma abstração; que a leitura de romances em que os protagonistas são heterossexuais é uma violência; que a religiosidade é um valor negativo; chega-se ao ridículo de censurar os contos de fadas por só apresentarem dois sexos em vez de seis gêneros, além de se proporem problemas de matemática baseados em situações protagonizadas por famílias homossexuais”. 
 O Papa Francisco, alarmado, fala que estamos diante de uma “colonização ideológica”, de uma maldade ao ensinar a ideologia de gênero (Filipinas, janeiro de 2015). E nos alerta: “Na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina, na África, em alguns países da Ásia, existem verdadeiras colonizações ideológicas. E uma delas – digo-a claramente por ‘nome e sobrenome’ - é a ideologia de gênero (gender)! Hoje às crianças – às crianças! –, na escola, ensina-se isto: o sexo, cada um pode escolhê-lo... São as colonizações ideológicas, apoiadas mesmo por países muito influentes. E isto é terrível” (Encontro com os Bispos poloneses, 27/7/2016).

A Igreja nos ensina: “Deus criou o ser humano como homem e mulher, com igual dignidade pessoal, e inscreveu nele a vocação ao amor e à comunhão. Compete a cada um aceitar a sua identidade sexual, reconhecendo a sua importância para a pessoa toda, bem como o valor da especificidade e da complementaridade” (Compêndio do C.I.C. n. 487).




FOGO! SOCORRO! ACUDAM!

É HORA DO PROTESTO DE TODOS:

É preciso dar um basta! É preciso que as forças morais de toda a humanidade se levantem e deem o seu brado de inconformidade com tudo isso. É hora de gritar com São Luiz Maria Grignion de Montfort: “Fogo! fogo! fogo! Socorro! socorro! Socorro!... Socorro, que assassinam nosso irmão! Socorro, que degolam nossos filhos!...”.
A Igreja levanta a sua voz de repúdio a tudo isso: sua doutrina clara já condena esses erros. É preciso que os católicos sejam lógicos e coerentes com o que a Igreja lhes ensina.
            É hora, principalmente de os leigos agirem. Não fiquem se perguntando: o que a Igreja vai falar ou fazer sobre isso? Vocês também são a Igreja. A pergunta deve ser: o que nós estamos fazendo contra tudo isso? Não fiquem esperando pelos pastores. As ovelhas têm o direito de se defenderem dos lobos que as atacam. Falem, protestem, escrevam, alertem os filhos, os amigos. Gritem nas redes sociais! Pais de família, reajam! É preciso que o mundo escute a voz dos bons e saiba que ainda existem famílias corretas, pessoas de bem e de coragem que não concordam com a imposição dessas ideologias.
            “Unindo suas forças, os leigos purifiquem as instituições e as condições do mundo, caso estas incitem ao pecado. Isto de tal modo que todas essas coisas se conformem com as normas da justiça e, em vez de a elas se oporem, antes favoreçam o exercício das virtudes. Agindo dessa forma, impregnarão de valor moral a cultura e as obras humanas” (LG 36).
            Dom Prosper Guérranger (L’Année Liturgique), sobre o episódio em que um leigo, Eusébio, levantou-se em meio à multidão contra a impiedade de Nestório, salvando assim a fé de Bizâncio, comenta: “Há no tesouro da Revelação pontos essenciais, cujo conhecimento necessário e guarda vigilante todo cristão deve possuir, em virtude de seu título de cristão. O princípio não muda, quer se trate de crença ou procedimento, de moral ou de dogma. Traições como a de Nestório são raras na Igreja; não assim o silêncio de certos Pastores que, por uma ou outra causa, não ousam falar, quando a Religião está engajada.  Os verdadeiros fiéis são homens que extraem de seu Batismo, em tais circunstâncias, a inspiração de uma linha de conduta; não os pusilânimes que, sob pretexto especioso de submissão aos poderes estabelecidos, esperam, pra afugentar o inimigo, ou para se opor a suas empresas, um programa que não é necessário, que não lhes deve ser dado”.

            Campos dos Goytacazes, 26 de outubro de 2017

                         Dom Fernando Arêas Rifan
          Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

FONTES DA MORALIDADE


Em se tratando de Teologia, nunca será supérfluo lembrar, de quando em vez, que muitos termos teológicos não coincidem exatamente com a noção que vulgarmente deles se tem. Assim sendo é bom lembrar que MORALIDADE no sentido teológico significa algo que é feito livremente e levando em conta a bondade ou malícia do objeto. Portanto, ato moral não é só o que é bom, mas também pode ser o que é mau. Assim pois,  MORALIDADE, teologicamente falando, é a consideração se a coisa é boa ou má diante de Deus.

FONTES DA MORALIDADE são os elementos que podem contribuir para que um ato seja conforme ou não com a norma de moralidade. E são três: o OBJETO do ato, as CIRCUNSTÂNCIAS do mesmo e o FIM do agente. Todas estas três coisas devem ser inteiramente boas para que o ato seja bom; se, portanto, uma só delas for má, também o ato moral, será mau. Daí aquele célebre axioma teológico: Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu (=para uma coisa ser moralmente boa é necessário que o seja inteiramente, isto é, que o objeto, as circunstâncias e o fim sejam bons; para ser má, basta que uma só destas três coisas seja má).

NB. Desculpem-me os teólogos por eu, às vezes, me estender em explicações, porque falo evidentemente para todos, inclusive para os que não são afeiçoados à Teologia. E como hoje infelizmente, pessoas da hierarquia eclesiástica, estão lançando a verdadeira Teologia às urtigas, é mister que todos os fiéis a conheçam bem claramente, e não venham perder a fé.

Consideremos hoje estas três fontes da moralidade: o objeto, as circunstâncias e o fim.

1. O OBJETO.
É aquilo para o qual o ato moral tende imediatamente e no qual proximamente e por si mesmo termina o vontade do agente. É o que constitui a moralidade essencial e primária, pois, ela aparece antes de qualquer outra proveniente do fim ou das circunstâncias.

A MORALIDADE DO OBJETO: 1º - Pode ser EXTRÍNSICA e INTRÍNSECA.
A moralidade do objeto é extrínseca quando o objeto, indiferente em si mesmo, se torna bom ou mau porque foi mandado ou proibido. A moralidade do objeto é intrínseca se está mandado ou proibido por ser em si mesmo bom ou mau, seja em absoluto, ou seja, independentemente de toda circunstância; seja condicionalmente, isto é, em função de algo que pode mudar. Devemos observar que, às vezes, se diz intrinsecamente mau o que com mais propriedade deveria dizer-se intrinsecamente perigoso, como por ex. o olhar algo incentivo da luxúria.

Na verdade, o objeto é bom, ou mau, ou indiferente, enquanto está de acordo com a razão, a lei ou com a reta ordem (bom) ou não(mau); ou então está fora da lei ou da reta razão (indiferente). Quando o objeto é indiferente, isto é, em si mesmo não é nem bom nem mau, o ato terá sua moralidade determinada ou pelo fim ou pelas circunstâncias. Quando a moralidade é proveniente do objeto, chama-se moralidade (bondade ou malícia) OBJETIVA.

2º - O ATO EXTERNO enquanto é objeto da vontade, comunica ao ato interno sua própria moralidade objetiva, específica; e quando é efeito ou realização, nada acrescenta de per si à moralidade do ato interno; contudo, circunstancialmente a modifica quase sempre, já por seu influxo no ato interno, que intensifica ou faz repetir, já por razão dos efeitos e consequências que se originam do ato externo, como são a edificação, o escândalo, as censuras, o dever de reparar o dano, etc..  Se o ato externo é gravemente pecaminoso, se deve manifestar sempre na confissão, pois, constitui moralmente um mesmo ato com o interno.

Devemos notar que os atos maus podem ser de três classes: a) ABSOLUTAMENTE MAU:  é mau independentemente de toda circunstância; isto porque estes atos envolvem uma repugnância com a reta ordem absolutamente necessária, por exemplo, o ódio a Deus, a blasfêmia etc.. b) INTRINSECAMENTE MAU: não precisamente em si mesmos, mas em razão de algum adjunto ou condição que depende do poder de domínio de Deus ou do homem, por exemplo, tirar coisa alheia, lesar o corpo ou a fama e coisas semelhantes que, às vezes, se tornam lícitas. Resumindo: Intrinsecamente maus são ditos proibidos porque são maus; e extrinsecamente maus são ditos maus, porque são proibidos.  c) MAU SOMENTE EM RAZÃO DO PERIGO que ordinariamente vem acompanhando o ato, como por ex., o olhar de um objeto torpe, a leitura de um livro mau, etc. Estes atos, quando houver uma causa razoável, e o perigo é remoto, se tornam lícitos. 

AS CIRCUNSTÂNCIAS: São as qualificações acidentais do ato, sem as quais este pode existir quanto à substância (substancialmente), e que, no entanto atingem de algum modo a sua moralidade. Em outras palavras: circunstâncias são as condições acidentais que modificam o moralidade substancial que sem elas tinha já o ato humano. São sete, expressas em latim neste frase: "Quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando?". Traduzido: Quem, que coisa, onde, com que meios, por que, como, quando? Vamos explicá-los:
QUEM: isto é, qual o agente? Por ex.: se é solteiro ou casado, se é leigo ou consagrado a Deus, etc.  -  QUE COISA: isto é, qual  a qualidade acidental ou a quantidade do objeto?  -  ONDE: isto é, em que lugar, se sagrado ou profano, etc.  -  COM QUE MEIOS: isto é, que instrumentos, meios etc.  usou o agente?  -  POR QUE: ou seja, com que finalidade, certamente extrínseca?  -  COMO: por exemplo, se de má fé ou boa fé, se de modo intenso ou não, se advertidamente ou não etc.  -  QUANDO: isto é, em que tempo e por quanto tempo? (Cf. S. Tomás, 1-2, q. 7, a. 3 e 4).

O ato humano haure sua verdadeira moralidade das circunstâncias, porque elas, que só podem ser procuradas juntamente com o objeto seja direta ou indiretamente, afetam o ato em si mesmo, enquanto é ato humano, e este depende da regras dos costumes. Ora, muitas vezes têm relação de conveniência ou inconveniência com  a razão e reta ordem. Logo, as circunstâncias afetam no ser do costume ou quanto à moralidade; e nos atos indiferentes, são as circunstâncias que determinam a moralidade do ato.

INFLUXO DAS CIRCUNSTÂNCIAS: umas determinam a moralidade do ato; outras em nada a modificam, e são consideradas indiferentes; umas deixam o objeto em sua própria espécie; e outras mudam a própria espécie do ato, ou acrescentam uma nova espécie. Assim por ex. um único pecado pode ser tornar mais de um: quem rouba comete um pecado contra o 7º mandamento de Deus; com a circunstância de roubar num igreja, acrescenta outro pecado de espécie diferente que é o sacrilégio. Assim sendo, há obrigação de na confissão contar as circunstâncias que mudam a espécie de pecado.  Lembramos também que umas circunstâncias agravam e outras diminuem a malícia do ato. E podem agravar de tal modo a malícia de um ato que, de venial, se torne mortal; como também pode diminuir de tal modo a gravidade que, de mortal, o torne venial. Nestes casos dizemos que o ato permanecendo em sua mesma espécie moral diz-se que mudou quanto à espécie teológica. As circunstâncias GRAVEMENTE pecaminosas danificam gravemente a bondade natural do ato e destroem a sua bondade sobrenatural porque afastam totalmente do fim último. Já as CIRCUNSTÂNCIAS LEVEMENTE pecaminosas (p. ex. orar com tibieza, agir precipitadamente) não tiram TODA bondade do ato, porque este conserva a moralidade essencial que lhe vem do objeto.

O FIM: É aquilo que intenta conseguir aquele que obra. O fim da obra é intrínseco à própria obra e é justamente para ele que a obra por si mesma tende. Já o fim do operante é aquele para o qual o agente livremente dirige sua intenção ou é aquele que o agente preferiu, quer se identifique com o fim da obra, quer lhe seja diverso e extrínseco à obra. Aqui considera-se somente o FIM DO OPERANTE porque, na verdade, só ele é propriamente considerado FIM.

SEU INFLUXO: O FIM DO AGENTE  comunica ao ato humano uma moralidade, não precisamente ESSENCIAL, a não ser que se identifique com o fim da obra. O fim comunica, porém, uma moralidade PRINCIPAL, pois é a causa principal do ato (S. Tomás, 1-2 q. 7 a. 4).
 1 - UM FIM GRAVEMENTE MAU corrompe TOTALMENTE   o ato se ele é o único motivo de obrar. Por ex.: se alguém dá uma esmola tão somente para arrancar a fé ao pobre que socorre. UM FIM GRAVEMENTE MAU também corrompe o ato mas SÓ PARCIALMENTE, quando o fim mau não é o motivo total e adequado da ação, p. ex., alguém vai à Missa para cumprir o preceito dominical e, ao mesmo tempo, para se encontrar com uma pessoa e fomentar maus desejos.
2 - UM FIM LEVEMENTE MAU se é TOTAL , vicia também todo o ato, porque toda a intenção do agente é má, como naquele que reza unicamente para ser visto pelos homens. Se O FIM LEVEMENTE MAU  é PARCIAL,  vicia o ato só parcialmente, pois não destrói a tendência da vontade para a bondade objetiva da ação ou para outro fim extrínseco bom, p. ex., quando alguém se aproxima dos sacramentos com reta intenção e ao mesmo tempo com o vão desejo de agradar aos homens.
3 - Um ato humano é bom na ordem moral, se é buscado como tal e com referência a Deus, com uma relação ao menos virtual implícita. Esta consiste em que a obra, por sua própria natureza e objetivamente, está ordenada ao fim último, isto é, em que seja conforme com a natureza racional e se a realize como tal.

CONSEQUÊNCIAS: Sendo Deus o único fim último,  buscar um prazer não proibido por outros capítulos,COMO FIM ÚLTIMO,  é pecado grave, pois encerra uma grave desordem, com desprezo virtual de Deus. No entanto, quando O FIM NÃO É ÚLTIMO, aí temos duas hipóteses: a) se o agente exclui positivamente o fim que pretende a natureza, pelo menos é pecado venial, pois há nisso alguma desordem; b) se o agente não exclui positivamente, provavelmente não comete nenhum pecado já que com isso não se faz senão secundar a intenção de Deus.

NOTAS: 1ª - ATOS MORAIS INDIFERENTES podem dar-se EM ABSTRATO na ordem natural, se levamos em conta só o objeto; segundo a sentença mais comum, porém, não podem dar-se EM CONCRETO, levando em conta o fim e as circunstâncias: p. ex., passear para recrear-se é uma ação boa, não indiferente, se o recreio é moderado e portanto pode ser referido a Deus; do contrário, é mau.

2ª - Para que o objeto e as circunstâncias comuniquem ao ato sua bondade, devem buscar-se diretamente e por razão dessa bondade; em troca, para que o infeccionem com sua malícia, basta que se os busque ainda indiretamente em sua causa voluntária pecaminosa e sabendo que são maus, ainda que não se queira precisamente por serem maus. 

domingo, 29 de outubro de 2017

JESUS, REI DE AMOR E DE PAZ

Extraído do Livro "Apelo ao Amor": Mensagem de Jesus a Sóror Josefa Menéndez, religiosa da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus (junho de 1923).

Sóror Josefa Menéndez
   "Se desejais paz, Eu sou a Paz. Sou a Misericórdia e o Amor...A vossa alma, criada por um Pai que vos ama, não com qualquer amor, mas com amor imenso, e eterno, encontrará um dia, no lugar da felicidade sem fim que esse Pai vos prepara, resposta a todas as suas necessidades.
   Lá, encontareis a recompensa do trabalho cujo peso houverdes suportado aqui na terra.
   Lá, encontrareis a família que tanto amastes sobre a terra e pela qual vertestes vossos suores.
   Lá, vivereis eternamente, pois a terra é apenas uma sombra que desaparece e o céu não passará nunca.
   Lá, vos unireis ao vosso Pai que é o vosso Deus.
   Se soubésseis que felicidade vos espera!...
   Mas, ouvindo-Me, talvez estejas dizendo: Quanto a mim, não tenho fé! Não creio na outra vida.
   Não tens fé?... Então, se não crês em Mim, por que Me persegues?... Por que te revoltas contra as minhas leis, e fazes guerra àqueles que Me têm amor?... e, se queres liberdade para ti, por que não a dás aos outros?...
   Não acreditas na vida eterna?... Dize-Me se vives feliz na terra e se não sentes necessidade de alguma coisa que não podes encontrar aqui...
   Procuras prazer e, se chegas a consegui-lo, não ficas saciado...
   Andas atrás das riqueza e, se consegues adquiri-la, nunca te julgas assaz rico...
   Tens necessidade de afeição e, se a encontras um dia, dentro de pouco tempo estás cansado!
   Não! coisa alguma destas é o que tu desejas... O que desejas, certamente não o encontrarás na terra... Porque, aquilo de que tens necessidade, é de paz, não a paz do mundo, mas a dos filhos de Deus, e como poderias tu encontrá-la no seio da revolta?
   Por isso é que Eu venho mostrar-te onde está essa paz, onde encontrarás essa felicidade, onde saciarás esta sede que há longo tempo te devora. Não te revoltes, se Me ouves dizer-te: Tudo isso, encontrá-lo-ás no cumprimento da minha Lei; não, não te espantes desta palavra, a minha Lei não é tirania; é Lei de amor!
   Sim, a minha Lei é de amor, porque Eu sou teu Pai.
   Bem sabeis que a disciplina é necessário no exército, e o regulamento na família bem ordenada. Também na grande família de Jesus Cristo, impõe-se uma Lei, mas uma Lei cheia de suavidade.
   Venho ensinar-vos o que é essa Lei e o que é o meu Coração que vô-la dá, esse Coração que vós não conheceis e que tantas vezes tendes ferido! Procurais-Me para Me dar a morte, ao passo que Eu vos procuro para vos dar a vida. Qual de nós triunfará? A vossa alma ficará tão endurecida que se não renda Àquele que vos deu a sua própria Vida e todo o seu Amor?
   Na ordem humana, os filhos usam sempre o nome do pai, sem o que não poderiam ser reconhecidos como da sua família.
   Assim, os filhos que são Meus usam o nome de cristãos, que lhes é conferido pelo sacramento do Batismo, ao nascerem. Vós que recebestes este nome, sois meus filhos, tendes direito a todos os bens de vosso Pai.
   Sei que não Me conheceis nem Me tendes amor, antes, pelo contrário, Me odiais e perseguis. Mas, Eu amo-vos com amor infinito e quero dar-vos parte naquela herança a que tendes direito.
   Crede no meu amor e na minha Misericórdia!
   Vós Me ofendestes: Eu vos perdôo.
   Vós Me perseguistes: Eu vos amo.
   Vós Me feristes com palavras e com ações; Eu quero fazer-vos bem e abrir para vós os meus Tesouros.
   Não penseis que ignoro como até aqui vivestes: sei que desprezastes as minhas graças, talvez mesmo hajais profanado os meus Sacramentos. Pois eu vos perdôo.
   E agora, se quereis viver felizes na terra e assegurar ao mesmo tempo a vossa eternidade, fazei o que vou dizer-vos: Sois pobres? Esse trabalho, que vos é imposto pela necessidade, fazei-o com submissão e ficai sabendo que também Eu vivi trinta anos sujeito à mesma lei, porque fui pobre e até muito pobre.
   Não olheis os vossos patrões como a tiranos. Não desejeis a sua desgraça, mas fazei valer os seus interesses e sede fiéis.
   Sois ricos? Tendes por vossa conta operários, servos? Não exploreis o seu trabalho. Remunerai o seu labor segundo a justiça e provai-lhes a vossa afeição e a vossa bondade. Porque, se tendes uma alma imortal, também eles a têm; se recebestes os bens que possuis, não foi somente para vosso gozo e bem estar pessoais, mas a fim de que, administrando-os com prudência, possais exercer a caridade para como o próximo.
   Depois de terdes, uns e outros, aceitado com submissão a lei do trabalho, reconhecei humildemente a existência de um Ser que está acima de tudo o que é criado. Esse Ser é o vosso Pai.
   Como Deus, exige que cumprais a sua Lei Divina.
   Como Pai, pede-vos filial submissão aos seus Mandamentos.
   Assim, depois de terdes passado uma semana inteira nos vossos trabalhos, nos vossos negócios, nos vossos recreios lícitos, pede-vos que deis uma hora ao menos ao cumprimento do seu preceito. Será exigir muito?
   Ide pois à sua Casa, à Igreja. Ele lá vos espera dia e noite; e, em cada domingo ou dia de festa dai-lhe essa hora, assistindo ao mistério de Amor e de Misericórdia que se chama a Missa.
   Durante ela, falai-Lhe de tudo; da vossa família, dos vossos filhos, dos vossos negócios, dos vossos desejos... Apresentai-Lhe as vossas penas, as vossas dificuldades, os vossos sofrimentos. Se soubésseis como Ele vos ouvirá e com que Amor vos atenderá!
   Talvez Me digais: - "Não sei assistir à Missa. Há tanto tempo que não entro numa igreja!" - Não vos atemorizeis. Vinde; passai simplesmente essa hora a meus pés. Deixai que a consciência vos diga o que deveis fazer, e não cerreis os ouvidos à sua voz. Abri vossa alma... Então a minha graça vos falará. Mostrar-vos-á, pouco a pouco, como deveis proceder em cada circunstância da vossa vida, como haveis de comportar-vos com vossa família ou nos vossos negócios; como deveis educar os vossos filhos, amar os vossos inferiores, respeitar os vossos superiores. Ela vos dirá, talvez, que deveis abandonar esta empresa, quebrar aquela amizade má, afastar-vos energicamente daquela reunião perigosa... Ela vos dirá que odiais tal pessoa sem razão e que, ao contrário, destoutra pessoa que freqüentais e amais, deveis separar-vos e fugir dos seus conselhos.
   Experimentai e, pouco a pouco, vereis como se vai estendendo a cadeia das minhas graças. Porque acontece com o bem como com o mal, basta começar. Os anéis da cadeia prendem-se uns aos outros. Se hoje ouvirdes a minha graça e a deixardes trabalhar em vós, amanhã a ouvireis melhor; mais tarde ainda melhor, e assim, de dia para dia, a luz aumentará, a paz crescerá e preparareis a vossa felicidade eterna!
   Porque o homem não foi criado para ficar sempre neste mundo. É feito para a eternidade. Sendo imortal, deve portanto viver, não para aquilo que morre, mas para o que permanecerá.
   Juventude, riqueza, sabedoria, glória humana, tudo isso passa e acaba. Só Deus subsiste por toda a eternidade...
   Se o mundo e a sociedade estão repletos de ódios e em lutas contínuas, povos contra povos, nações contra nações e indivíduos contra indivíduos, é porque o grande fundamento da fé quase desapareceu.
   Reanime-se a fé, e a paz voltará e a caridade reinará.
   A fé não prejudica a civilização e não se opõe ao progresso. Pelo contrário, quanto mais enraíza nos indivíduos e nos povos, mais crescem neles  sabedoria e a ciência, porque Deus é Sabedoria e Ciência infinitas. Mas onde a fé já não existe, desaparece a paz e, com ela, a civilização e o verdadeiro progresso... pois Deus não está na guerra... Já não há senão ódio entre os povos, lutas de opiniões entre si, levantamento das classes umas contra as outras e, no próprio homem, rebelião das paixões contra o dever.
   Desaparece então tudo o que constitui a nobreza do homem.
   Deixai-vos convencer pela Fé e sereis grandes. Deixai-vos esclarecer pela Fé, e sereis livres. Vivei segundo a Fé e não morrereis eternamente.
   Que todas as almas saibam a que ponto meu Amor as procura, as deseja e as espera para enchê-las de felicidade. Corro no encalço dos pecadores como a Justiça no encalço dos criminosos; mas a justiça os procura para castigá-los e Eu para lhes perdoar.
   Quero perdoar. Quero reinar.
   Quero perdoar às almas e às nações. Quero reinar sobre as almas, sobre as nações e sobre o mundo inteiro.
   Para apagar a sua ingratidão, derramarei uma torrente de Misericórdia.
   Para reinar, começarei derramando misericórdia, pois meu reino é de paz e de amor. Sou a sabedoria e a felicidade.
   Sou o Amor e a Misericórdia.

NB.: Talvez possa haver quem desconheça estas belíssimas mensagens do Coração de Jesus a Sóror Josefa Menéndez e, assim, pergunte qual a autenticidade e, portanto, a segurança destas aparições. Pois bem, no prólogo da edição francesa lemos o seguinte: "As almas que lerem estas páginas terão a alegria filial de encontrar aqui - com consentimento de Sua Santidade, dado pelo próprio punho - o autógrafo do Cardeal Pacelli, então Protetor da Sociedade do Sagrado Coração, abençoando a 1ª edição francesa do "Apelo ao Amor".

sábado, 21 de outubro de 2017

O ATO MORAL


"Muitos dizem: Quem nos fará ver os bens? Gravada está, Senhor, sobre nós a luz do teu rosto" (Salmo IV, 6 e 7)

Vimos anteriormente em que consiste o ATO HUMANO. Mister se faz notar, porém, que formalmente  ato humano não é o mesmo que ATO MORAL. A essência da moralidade primariamente consiste na relação do ato humano com a Lei Eterna, que é a vontade de Deus que manda seja conservada a ordem natural, e proíbe que a mesma seja violada. Somente a vontade de Deus pode ser a regra da moralidade, porque só ela é a suprema norma infalível, indefectível e que tem poder de obrigar em consciência. Somente esta lei eterna dá força obrigatória às outras leis. Secundariamente, porém, a essência da moralidade consiste no modo se ser do ato humano em relação à reta razão. Pois, as ações humanas não podem ser comensuradas pela norma suprema da moralidade senão mediante a razão humana, que é, na verdade, uma certa participação e consequentemente, manifestação da razão divina.

NOÇÃO DE ATO MORAL: É aquele que é feito livremente e atendendo a bondade ou malícia do objeto. A moralidade acrescenta ao ato humano, enquanto tal, a consideração da conveniência, e não conveniência que apresenta o objeto com relação ao ser racional; ou seja, a consideração de sua bondade e malícia [alguns autores, como os Scotistas, acrescentam a indiferença] de maneira que os atos e objetos se dizem morais por esta relação.

É oportuno colocar aqui algumas observações de Santo Afonso de Ligório, que, por sua vez se baseia em Santo Tomás de Aquino: 1- O Ato moral (ou ser moral) é tudo e só aquilo que está sob a regra dos costumes, ou sob a Lei de Deus que manda ou permite. Pois, somente por ele nos ordenamos para o nosso fim último ou dele nos afastamos. 2 - É falso colocar a essência da moralidade somente na liberdade. Pois esta é pré-requerida como condição para que o ato possa ser imputado, mas não é em razão dela que o ato é imputado para o louvor ou o vitupério. Pois, quem age livremente, só por isso não é digno de prêmio, mas somente aquele que, sendo livre, age em conformidade com a divina razão ou vontade de Deus. 3 - É falso também fazer consistir a moralidade somente no voluntário. Pois, o voluntário sem liberdade de nenhum modo é imputável, porque sem ela o homem não seria senhor de suas ações. 4 - É falso, outrossim, colocar a opinião pública como regra da moralidade, porque, ela nem é infalível, nem imutável, e portanto, amanhã poderia dizer ser iníquo o que hoje apregoa como honesto (e vice-versa). 5 - Até mesmo as próprias leis civis não podem ser regra suprema dos costumes, porque as leis tanto determinam a bondade ou a malícia do ato, quanto são honestas e racionais, e portanto enquanto participam de um outro critério superior (Cf. Santo Afonso, n. 34 e 35).  

DIVISÃO DA MORALIDADE: É SUBJETIVA ou FORMAL quando é considerada no mesmo ato afetando o sujeito como uma forma. É OBJETIVA ou MATERIAL quando é considerada no objeto mesmo afetando o sujeito a maneira de matéria sobre que versa o ato.

Devemos observar também que se distinguem duas classes supremas, a saber: bondade e malícia moral [alguns autores acrescentam a indiferença moral, pelo menos num sentido impróprio e incompleto] segundo o que o ato e seu objeto estejam de acordo ou não com a natureza racional [ou lhes sejam indiferentes]. Por conseguinte, como os atos tendem para seus objetos não como são em si, senão como os apreende a inteligência, pode acontecer que um mesmo ato seja bom em si mesmo, e mau por razão do objeto enquanto apreendido pelo intelecto, e também se dá o inverso. Por ex.: Quem desse por esmola um dinheiro que falsamente crê ter sido roubado, faria uma obra boa materialmente falando, mas que seria má formalmente; e no sentido inverso: se fizesse a esmola de um dinheiro recebido de alguém, sendo que não pôde suspeitar ter sido roubado, faria uma obra boa formalmente, embora má materialmente considerada.

Observação: Em se tratando de opiniões discutíveis, não as exporei aqui sobre se há ou não ação moralmente indiferente. Apenas esclareço que Santo Tomás de Aquino, prova na Suma Teológica que não há (Cf. S. T. 1. 2, q. 1, a. 6; q. 18, a. 9). S. Tomás confirma sua opinião de que não existe ato indiferente no indivíduo, pelo próprio fato de o ato indiferente ser ocioso, e portanto mau, segundo se vê em Mateus, XII, 36: "Eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os homens, darão conta dela no dia do juízo". Aliás, S. Paulo diz que tudo deve ser feito para a glória de Deus: "Ou comais, ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1 Cor.  X, 31). Pergunta-se, porém, como fazer para que os nossos atos humanos e morais sejam sempre direcionados para ao fim último, isto é, honestamente bons e  meritórios? É evidente que, dada a fragilidade humana, não é possível ter uma intenção explícita atual de fazer tudo por amor a Deus. Assim Santo Afonso diz que, para tanto, basta a pessoa ter a intenção implícita quer atual quer só virtualmente. Em outras palavras, basta agir sob o influxo da intenção de um bem honesto, pelo menos havido anteriormente, porque é uma verdadeira direção do ato para o fim último. E, na prática, Santo Afonso e outros autores espirituais recomendam (não impõem) que os fiéis muitas vezes por dia ou, pelo menos, de manhã ofereçam explicitamente todas suas ações para Deus. Ademais, todas as vezes que urge o preceito de fazer um ato de caridade, urge também o preceito de, atualmente, referir todos os atos para Deus como o Fim Último (Cf. Santo Afonso, L. 2, Tract. 3, c. 2). Lembro aqui para o maior bem das almas a premente recomendação de S. Francisco de Sales, do uso das orações jaculatórias. É salutar lembrar, outrossim, o que o próprio Deus, Nosso Senhor, disse a Abraão: "Anda sempre em minha presença, e serás perfeito"(Gênesis VII, 1).

NORMA DA MORALIDADE: A moralidade, isto é, a bondade ou malícia [ou indiferença] moral, tem como norma: a) CONSTITUTIVA PRÓXIMA: É  a natureza racional humana em quanto tal, considerada em todos seus aspectos e em todas suas relações com os demais seres; CONSTITUTIVA REMOTA: É a natureza divina, como seu protótipo. b) MANIFESTATIVA PRÓXIMA: É  reta razão humana; MANIFESTATIVA REMOTA: é o entendimento divino. c) PRECEPTIVA PRÓXIMA E SUBJETIVA: É a consciência; PRECEPTIVA REMOTA E OBJETIVA: É a lei eterna de Deus.

CONSEQUÊNCIAS:  A MORAL DE SITUAÇÃO, ou existencialismo ético, em que cada qual se entenderia em particular com Deus, tomando diante d'Ele suas decisões não com base nas leis morais universais mas nas condições e circunstâncias concretas nas quais se obra, segundo o juízo da consciência individual, esta moral, digo, repugna à fé e aos princípios católicos. As leis universais não valem tão somente em abstrato para o homem UT SIC, senão também nos casos particulares para o homem UT HIC,  já que o homem existencial com suas notas individuais se identifica em sua íntima estrutura com o homem real para quem se foram promulgadas as leis universais, e não pode, por conseguinte, aceitá-las ou recusá-las à mercê do conhecimento e valorização que delas faça subjetivamente, ainda que com plena sinceridade e disposição afetiva filial diante de Deus (Cf. Pio XII, Aloc. AAS 44 (1952) 414-418; 45 (1953) 280-281).


domingo, 15 de outubro de 2017

O ideal apostólico de Santa Teresa d'Ávila

   Santa Teresa nascera em 1515 e tinha dois anos quando Lutero começou sua revolta contra a Santa Igreja. Morreu ela no ano de 1582, portanto, com 67 anos. Assim sendo teve a grande tristeza de tomar conhecimento dos estragos que Lutero e seus sequazes iam perpetrando em vários países. Eis o que ela diz no primeiro capítulo do seu livro "CAMINHO DE PERFEIÇÃO": "Nesta ocasião, tive notícias dos prejuízos e estragos que faziam os luteranos na França, e o quanto ia crescendo esta desventurada seita. Deu-me grande aflição, e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava com o Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo".
"Deus te perdoe, frei João, me pintaste feia e
remelosa".
   A crise da Igreja na época era realmente muito grande e penetrara até nos Carmelos. Santa Teresa, vendo ser impossível reformar o Carmelo da Encarnação, onde era Carmelita, construiu um outro Carmelo em Ávila, o Carmelo de São José. Seu intento era seguir a  Regra Primitiva de Santo Alberto de Jerusalém. Fundou 17 Carmelos. Reformou, com ajuda de São João da Cruz, não só os Carmelos femininos, mas também os masculinos. São  chamados Carmelitas descalços(as). Pois bem, continuemos a ler Santa Teresa:
"Confiava na grande bondade de Deus, que nunca falta a quem por Ele se decide a tudo deixar. Sendo elas(as irmãs do novo Carmelo de São José) tais como eu as pintava em meus desejos, entre suas virtudes, desapareceriam minhas faltas, e assim poderia de algum modo contentar ao Senhor. E, ocupadas todas em orações pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse ao nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-Lo de novo, deixando-O sem ter onde reclinar a cabeça. Ó meu Redentor, impossível meu coração não se afligir muito! O que se passa agora com os cristãos? Serão sempre aqueles que mais Vos devem, os que mais Vos fazem sofrer? Aqueles a quem maiores benefícios fazeis, que escolheis para amigos, aqueles entre os quais andais e com os quais Vos comunicais pelos sacramentos? Não lhes bastaram os tormentos que por eles padecestes? Certamente, Senhor meu, nada faz quem agora se aparta do mundo! Se nele Vos tratam com tão pouca lealdade, que podemos nós esperar? Merecemos, porventura, que nos correspondam melhor? Acaso lhes fizemos maiores benefícios para que nos tenham amizade? Que é isto? Que esperamos ainda, nós que pela bondade do Senhor não estamos contaminados por esta sarna contagiosa? Quanto a eles(os luteranos), pertencem ao demônio. Bom castigo  já ganharam por suas próprias mãos. Mereceram com seus deleites o fogo eterno. Lá se avenham! (Ao digitar estas palavras de Santa Teresa, me veio a mente o seguinte: Que teria sentido Santa Teresa, se naquela época o Papa elogiasse Lutero? Penso que, com certeza, ela morreria de dor). "Não deixa de partir-me o coração ao ver como se perdem tantas almas. Quisera eu não ver mais perdas cada dia e, ao menos, impedir em parte o mal. Ó minhas irmãs em Cristo! ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui.(no Carmelo de São José). Esta é a vossa vocação. Estes hão de ser vossos negócios. Estes, vossos desejos. Aqui se empreguem vossas lágrimas. Sejam estes os vossos pedidos e não, irmãs, súplicas por negócios do mundo. Rio-me e até me aflijo de ver certas coisas que nos encarregam de pedir a Deus. Querem que alcancemos de Sua Majestade rendas e dinheiro - e não raro são pessoas que, a meu ver, deveriam antes implorar a Deus graça para calcar tudo aos pés. São bem intencionadas, e condescendemos por ver sua confiança. Mas estou convencida de que nestas matérias nunca me ouve o Senhor."
   "O mundo está pegando fogo. Querem, por assim dizer, de novo sentenciar a Cristo, levantam-Lhe mil testemunhos falsos. Pretendem lançar por terra a Sua Igreja.(Aí está a verdade sobre Lutero). E havemos de gastar o tempo em pedidos que, se fossem ouvidos por Deus, teríamos talvez uma alma de menos no céu? Não, irmãs, não é tempo de tratar com Deus assuntos de pouca importância! Por certo, se não fora em atenção à fraqueza humana, tão amiga de ser ajudada em tudo - e justo é fazê-lo, quando está em nossas mãos - gostaria que se entendesse: não são essas as coisas que se hão de pedir a Deus com tanto empenho".

Carmelo da Encarnação em Ávila onde Teresa tomou
o hábito de Carmelita (1536-1563).
   Quero acrescentar aqui as belíssimas palavras do grande D. Chautard no seu extraordinário Livro "A ALMA DE TODO APOSTALADO":
   "Ordinariamente uma oração curta, mas fervorosa, contribui muito mais para apressar uma conversão do que longas discussões e excelentes discursos. Aquele que ora, trata com a CAUSA PRIMEIRA. Opera diretamente sobre ela. Tem, desta sorte, em mãos todas as causas segundas, visto como estas somente desse princípio superior recebem sua eficácia. Por isso o efeito desejado é então obtido com maior segurança e rapidez. Dez mil hereges, no dizer de uma revelação respeitável, foram convertidos por uma só oração inflamada da seráfica Santa Teresa, cuja alma ardendo em amor de Cristo não podia compreender uma vida contemplativa, uma vida interior que se desinteressasse das solicitudes apaixonadas do Salvador pela redenção das almas. "Aceitaria o purgatório, diz ela, até ao juízo final, para livrar uma só dessas almas. E que me importaria a duração dos meus sofrimentos, se assim pudesse livrar uma só alma e sobretudo muitas para maior glória de Deus". E, dirigindo-se às suas religiosas: "Dirigi para este fim inteiramente apostólico, minhas filhas, vossas orações, vossas disciplinas, vossos jejuns, vossos desejos".

Alguns Pensamentos de Santa Teresa d'Ávila

Teresa e Rodrigo fugindo para terra de mouros
   Introdução: Havia em Ávila uma bela Basílica levantada em memória de três pequenos mártires, Vicente e as suas duas irmãs Cristela e Sabina, que haviam negado a oferecer sacrifícios aos falsos deuses em tempos dos romanos. Flagelados, submetidos ao suplício da roda, tinham perseverado nos seus louvores a Jesus Cristo até lhes arrebentarem a cabeça contra as pedras. Os pagãos tinham proibido que os enterrassem, mas uma monstruosa serpente, temida na região pelos estragos que causava, erigira-se em guardiã dos seus inocentes cadáveres; não espantara somente as aves de rapina, mas ainda os profanadores, e um judeu que se arriscara a aproximar-se só conseguira livrar-se invocando o nome de Jesus e prometendo ao monstro que receberia o batismo. Pois bem! A pequena Teresa já imaginava outra basílica em Ávila: a dos irmãos mártires Rodrigo e Teresa. Sabendo que os turcos muçulmanos matavam os cristãos, Teresa e seu irmão Rodrigo fugiram de casa à procura do martírio. Para tanto,  pensavam em ir à terra dos mouros. Este foi um dos primeiros pensamentos de Teresa: morrer mártir por amor a Jesus. Tinha ela, então, 7 anos.

  Meditemos agora em alguns pensamentos desta Doutora da Igreja, Mestra na Vida Espiritual. Mas antes quero lembrar  o dia 27 de setembro de 1970, quando Sua Santidade o Papa Paulo VI proclamou Santa Teresa, Doutora da Igreja: Finda a cerimônia, retirados os paramentos sagrados, o Santo Padre Paulo VI saudando o Prepósito Geral da Ordem dos Carmelitas Teresianos, exclamou com viva alegria: "São tão oportunos hoje os ensinamentos de Santa Teresa, que, na verdade, o relógio da Providência marcou hoje a HORA  de Santa Teresa. Ela nos ensina o caminho verdadeiro, o "caminho" da oração, da comunhão com Deus. Os demais são veredas, nem sempre chegam ao destino. O Espírito Santo deseja que voltemos ao caminho autêntico: "à oração, à vida íntima com Deus. Eis a lição que nos dá Santa Teresa, Doutora da Igreja".
   Assim sendo, ouçamo-la durante alguns instantes, guardemos no coração os seus sábios ensinamentos, meditando-os intimamente e procurando depois praticá-los com fidelidade:

"Nada te turbe, nada te espante; todo se pasa, Dios no se muda. La paciencia todo lo alcanza; quien a Dios tiene nada le falta. Sólo Dios basta". Em português: "Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança; Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta."

"Ou sofrer, ou morrer!
  "Quando considero a glória que tendes preparada, meu Deus, para os que perseveram em fazer a Vossa vontade, quando medito nos trabalhos e dores com que a ganhou o Vosso Filho e quão mal a tínhamos merecido, e quando penso no muito que Ele merece que não se desagradeça a grandeza de amor que tão custosamente nos ensinou a amar, aflige-se a minha alma. Como é possível, Senhor, que se esqueça tudo isto e que tão olvidados estejam de Vós os homens, quando Vos ofendem? Ó Redentor meu, como é possível que assim se esqueçam de si mesmos? Oh! Como é grande a Vossa bondade se apesar disso Vos lembrais de nós! E, tendo nós caído, por Vos ferirmos com um golpe mortal, Vós esquecido disto nos tornais a dar a mão e nos despertais de frenesi tão incurável para que Vos procuremos e Vos peçamos saúde" Bendito seja tal Senhor! Bendita tão grande misericórdia! Ó alma minha! bendiz para sempre a tão grande Deus! Como é possível voltarmo-nos contra Ele?"
   "Ó Senhor, como são suaves os Vossos caminhos! Mas quem caminhará sem temor? Temo estar sem Vos servir e quando Vos vou a servir não encontro coisa que me satisfaça para pagar algo do muito que Vos devo. Parece que me quisera empregar toda nisto mas, quando bem considero a minha miséria, vejo que não posso fazer nada que seja bom, se Vós não mo concedeis".
   "´E claro que a suma perfeição não está nos regalos interiores nem nos grandes arroubamentos, nem visões, nem no espírito de profecia, mas sim em ter a nossa vontade tão conforme com a de Deus, que não entendemos Ele querer alguma coisa sem que a queiramos com toda a nossa vontade e tomemos tão alegremente o saboroso como o amargo". "Agora, ó meu Deus, livremente Vos dou a minha vontade... Cumpra-se em mim, Senhor, a Vossa vontade sempre e como quiserdes. Se me quereis com trabalhos dai-me força e que venham! Se me quereis entre perseguições e enfermidades, desonras e necessidades, não voltarei as costas, ó meu Pai!"
   "Quanto mais as verdades da fé ultrapassam a ordem natural tanto mais firmemente creio nelas e me dão maior devoção. Todas, todas as grandezas que Vós fizerdes ficam explicadas para mim por serdes todo-poderoso; neste ponto jamais tive dúvidas".
 
Transverberação de Santa Teresa d'Ávila (Escultura
de Bernini).  Um anjo transpassou seu coração com
uma seta de amor.  Morreu não de doença, mas de
amor de Deus.  Seu coração não aguentou o ardor
do amor de Deus que a consumia. 
  "Como poderei ter um amor digno de Vós, meu Deus, se Vós não o reforçais com o amor que Vós mesmo me tendes? Só o amor dá valor a todas as coisas e o mais necessário é que seja tão grande que nada o estorve para amar. Mas eu não tenho senão palavras, pois não valho para mais. Valham-me meus desejos, meu Deus, perante o Vosso divino acatamento e não olheis meu pouco merecer. Que mereçamos todos amar-Vos, Senhor! Já que se há de viver, viva-se para Vós, acabem-se os nossos desejos, e interesses. Que maior coisa pode haver do que merecer contentar-Vos? ... Eu desejo, Senhor, contentar-Vos. Mas o meu contentamento, bem o sei, não está em nenhum dos mortais. Sendo assim, não me culpareis o meu desejo. Vedes-me aqui, Senhor! Se é necessário sofrer para Vos prestar algum serviço, não recuso quantos trabalhos me possam vir na terra... Mas que farei para poder contentar-Vos, ó minha alegria e meu Deus! Já que não Vos sirvo em nada, com alguma coisa tenho de me consolar, pois se, nas grandes coisas, Vos servira, não faria caso das ninharias, Bem-aventurados aqueles que Vos servem com obras grandes! Se o desejo e a inveja que lhes tenho me fossem tomados por conta, não ficaria muito atrás em contentar-Vos; mas não valho nada, Senhor meu! Ponde Vós em mim o valor pois tanto me amais!"

   "Quando penso em Cristo devo sempre lembrar-me... do Vosso grande amor, ó Pai, que em Jesus quisestes dar-nos um penhor de tal amor. Amor gera amor: ainda que esteja muito no princípio e eu muito ruim, procuro ter bem presente esta verdade e despertar-me para amar. Quando Vós, ó Senhor, me fizerdes a mercê de me imprimirdes no coração este amor, tudo se me tornará fácil e poderei em breve passar às obras sem nenhum trabalho. Meu Deus dai-me este amor - pois sabeis o muito que me convém - pelo amor que nos tivestes e pelo Vosso glorioso Filho que, tão à Sua custa, no-lo mostrou".

  

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O MEDO E A VIOLÊNCIA MODIFICAM O ATO HUMANO


"Temei Aquele que, depois, de dar a morte, tem poder de lançar na geena, corpo e alma" (S. Mat. X, 28; S. Luc. XII, 5).

MEDO: É uma vacilação da mente diante da perspectiva de um perigo próximo ou remoto.
DIVISÃO: 1. MEDO GRAVE , segundo o mal que se teme seja grande, corra perigo próximo de sobrevir e seja difícil de evitar; será MEDO LEVE justamente quando faltar alguma destas condições. O MEDO GRAVE  se subdivide: ABSOLUTO  quando por sua natureza faz temer muito a toda classe de pessoas sem distinção; será MEDO GRAVE RELATIVO quando afeito muito a algumas pessoas em particular.
2. MEDO INTRÍNSECO: é quando a causa do medo está dentro da pessoa, ou melhor, quando provém de uma causa necessário, quer interna, quer externa. MEDO EXTRÍNSECO e quando provém de uma causa externa livre. Este medo extrínseco será JUSTO ou INJUSTO, segundo que a causa donde procede seja justa ou injusta.
INFLUXO: 1º. Os atos executados por medo, sempre que não turbem a razão por completo, são voluntários, ainda que com restrições; posto que a vontade os escolhe livremente para evitar o dano que ameaça, ainda que talvez o faça com repugnância.
2º. O medo grave escusa com frequência das leis positiva e pode fazer rescindíveis os compromissos contraídos sob sua ação. e sendo injusto anula os contratos gratuitos, e, segundo parece, isto pela própria lei natural, e certos atos mais transcendentes ao menos por disposição do Direito. Já o medo leve, não é levado em conta no foro externo; no interno, porém, diminui a responsabilidade, e às vezes dá lugar a retratação, indenizações, etc.
CONSEQUÊNCIA: o medo, ao diminuir a liberdade, diminui também a culpa, e às vezes de grave a faz leve; mas, de ordinário, não a suprime, a não ser que escuse da mesma a lei positiva.

VIOLÊNCIA: É a coação por parte de um agente extrínseco e livre contra uma pessoa cuja vontade se resiste. A coação não pode ser feita contra atos elícitos da vontade, mas somente contra os imperados, segundo diz Santo Tomás de Aquino: "É contra a natureza do próprio ato da vontade, que ele seja coagido ou objeto de violência".
INFLUXO DA VIOLÊNCIA: 1º - A violência ABSOLUTA, feita a quem resiste quanto pode e deve, impede por completo o voluntário; já a violência RELATIVA, feita a quem não resiste de todo, diminui o voluntário.
2º - Se alguém resiste EXTERIORMENTE, mas consente interiormente no mal, diminui a responsabilidade, porém não a suprime; se não consente INTERIORMENTE, mas também não resiste exteriormente,  imputa-lhe o ato externo se tinha obrigação de impedi-lo, a não ser em certos casos em que não dispusera para isso senão de meios claramente ineficazes ou muito extraordinários e não pudera aplicá-los sem notável incômodo.
APLICAÇÕES: Uma mulher, na conjuntura de ser violada (estuprada), tem obrigação de resistir quanto pode, mesmo gritando e empregando sua força; se esta resistência positiva, porém, sendo inútil for demasiado difícil, e ainda talvez perigosa, ela está escusada de empregá-la, com a condição de que possa evitar o consentimento. No caso de a pessoa agir passivamente por ver inútil e perigosa sua resistência, houver, porém, perigo de consentimento interno, então terá que resistir mesmo vendo que não conseguirá se livrar da violação. Assim, os autores dizem que ordinariamente, deve-se resistir quanto possa.
O Teólogo Zalba, S. J. ( escreveu em 1954) acrescenta alguns outros impedimentos do ato humano: OS HÁBITOS e AS PERTURBAÇÕES DE ESPÍRITO. O HÁBITO, seja bom ou mau, aumenta a voluntariedade e diminui a liberdade, mas nem por isso destrói a índole perfeitamente humana e imputável do ato; não obstante, o mau costume pode turbar às vezes de tal maneira a razão, que faça o homem incapaz de culpa grave.
AS PERTURBAÇÕES DE ESPÍRITO (MORBUS ANIMI): São as afeições mórbidas do cérebro e dos nervos, que repercutem no entendimento e na vontade, seja com manifestações orgânicas, como p. ex., de enfraquecimento do cérebro, seja com transtornos só funcionais, sem irregularidade apreciável nos órgãos. Tais são:
A NEURASTENIA: Se caracteriza por uma espécie de anarquia psíquica de juízos, emoções, impulsos etc., e tem múltiplas manifestações em ideias fixas, obsessões, em fobias, escrúpulos, tics, manias várias, alternativas de excitação e depressão, etc.; se nutre em temperamentos hereditariamente predispostos e, ainda que não cause perturbações orgânicas nem afeta à inteligência, o enfermo não maneja sua vontade com pleno alvedrio.
A HISTERIA:  Se caracteriza por uma extraordinária aptidão para auto-sugestionar-se, pela exaltação imaginativa, a tendência à ilusões e às concepções utópicas, e sobretudo pela diminuição da consciência da personalidade e da síntese psíquica. Os histéricos têm a especialidade das acusações mentirosas: maledicências, calúnias, invenções incríveis, dissimulações de atentados com ou sem auto-mutilações ligeiras para que a farsa resulte mais verossímil, novelas fantásticas; alguns chegam mesmo a simular o crime; às vezes, recorrem a ataques de nervos; mais frequentemente utilizam um acesso emotivo de explosão brusca para sua cena ou farsa.
A HIPOCONDRIA:  Se desenvolve em um terreno neurastênico ou histérico, sem que somaticamente ofereça nada típico. Se caracteriza pela desfiguração fantástica das sensações sinestésicas, que dá lugar à percepção de sensações somáticas extravagantes e anômalas; a isto se associa a ideia persistente de padecer graves enfermidades, provocada por indícios ridículos. A vontade tem que superar inúmeras dificuldades subjetivas e, sentindo-se deprimida e impotente, às vezes propende ao suicídio.
COMO AGIR MORALMENTE NA PRÁTICA? Deve-se ter em conta que estas perturbações sempre diminuem algo, e mais de uma vez notavelmente, o livre alvedrio; com isso o reato de culpa facilmente pode deixar de ser grave. O diretor de psico-neurópatas, depois de haver-se captado o espírito do enfermo, trabalhe com ele pacientemente, mais por persuasão que por sugestão, e desperte nele a confiança em si  próprio e no bom êxito. Deve proceder com suma cautela com os histéricos, para não ser enganado ou posto em compromissos delicados. Em cada caso anômalo considere as circunstâncias, e saiba duvidar prudentemente atinente à imputabilidade dos atos impulsionados pela perturbação.
APLICAÇÕES: 1 - Os atos dos que padecem alguma perturbação de espírito (ânimo), como não devem julgar-se demasiado facilmente isentos de toda culpa, tão pouco hão de imputar-se a seu autor como se estivesse são; determinar em cada caso o grau de imputabilidade é muitas vezes impossível e há que deixá-lo ao juízo de Deus.

2 - Não se deve imputar as blasfêmias a quem, levado do mau hábito contraído, blasfema inadvertidamente, si, havendo retratado sua má vontade, procura emendar-se; si, não a retratou, se lhe imputarão ao menos como voluntárias em causa, ainda que não cometerá tantos pecados quantas blasfêmias profira, senão quantas vezes teve advertência da obrigação de corrigir-se e não o procurou fazer. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

S. FRANCISCO DE ASSIS E A EUCARISTIA

Nesta crise tão grande por que passa a Igreja, a fé que já era tão diminuta nos corações, corre o risco de se extinguir, e sobretudo atinente à Santíssima Eucaristia, sacramento e sacrifício que são mistérios de fé, "mysterium fidei". Mister se faz aplicar antídotos e, um deles é meditar no que os santos pensavam  e como agiam a respeito. Assim, hoje, festa de São Francisco de Assis, postamos alguns excertos de seus escritos sobre a Eucaristia, como Sacrifício e como Sacramento.

 "Rogo-vos pois, a vós todos, meus irmãos, beijando-vos os pés, e com toda a caridade de que sou capaz, que manifesteis toda reverência e toda honra que puderdes ao santíssimo Corpo e ao Santíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual foram purificadas todas as coisas, assim as da terra como as do céu, e reconciliadas com o Deus onipotente (Col. I, 20). Peço ainda no Senhor a todos os meus irmãos sacerdotes, os que são, vierem a ser ou desejarem ser sacerdotes do Altíssimo, que, ao celebrar a missa, ofereçam o verdadeiro sacrifício do santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, pessoalmente puros, com disposição sincera, com reverência e com santa e pura intenção, jamais levados por qualquer interesse terreno nem por temor ou consideração de qualquer pessoa 'como quem procura agradar aos homens' (Col. III, 22). Seja antes todo vosso querer , na medida que vos ajudar a graça do Onipotente, ordenado para Deus, desejando assim agradar unicamente a Ele, o supremo Senhor, porque só Ele opera ali como for do seu agrado. Pois - como Ele mesmo diz: 'Fazei isto em memória de mim' (Lc XXII, 19)  -  quem proceder de outra maneira tornar-se-á outro Judas traidor e faz-se réu do Corpo e Sangue do Senhor (1 Cor. XI, 27).

Lembrai-vos, irmãos meus sacerdotes, que está escrito sobre a lei de Moisés que quem a transgredia nem que fosse só em coisas exteriores morria sem dó por sentença do Senhor. "Quanto maior e mais terrível castigo merece padecer aquele que pisa aos pés o Filho de Deus e tem em conta de profano o sangue do testamento pelo qual foi santificado, insulta a graça do Espírito" (Heb. X, 28 e 29)! Pois, o homem, segundo diz o Apóstolo, não discernindo nem distinguindo de outros alimentos e obras o santo pão de Cristo, o come indignamente ou, sendo indigno, o come sem o reto espírito e em atitude inconveniente, profana a calca aos pés o Cordeiro de Deus. Porquanto diz o Senhor pelo profeta: "Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor (Jer. XLVIII, 10. E condena na verdade os sacerdotes que não quiserem tomar isto a peito, dizendo: "Quero amaldiçoar as vossas bênçãos!" (Mal. II, 2). Escutai, irmãos meus: Se honramos tanto a Bem-aventurada Virgem Maria, como convém, por haver trazido em seu santíssimo seio o Filho de Deus; se o bem-aventurado (João) Batista estremeceu e não ousou tocar o vértice de Deus; se se presta culta ao sepulcro onde ele repousou por algum tempo  -  que santidade, que justiça, que dignidade não deve ter aquele que toca com as mãos, recebe na boca e no coração e distribui aos outros o Senhor que já não  - como outrora  -  vem para morrer, mas há de viver na glória por toda a eternidade, e "a quem os anjos desejam contemplar" (1 Ped. I, 12)!

Considerai a vossa dignidade, irmãos sacerdotes, e "sede santos porque ele é santo" (Lev. XI, 44)! E assim como o Senhor Deus vos honrou acima de todos, amai-O, reverenciai-O, honrai-O! É uma grande desgraça e uma lamentável fraqueza se vós, tendo-o assim presente, ainda vos preocupais com qualquer outra coisa no mundo inteiro. Pasme o homem todo, estremeça a terra inteira, rejubile o céu em altas vozes quando, sobre o altar, estiver nas mãos do sacerdote o Cristo, Filho de Deus vivo! Ó grandeza maravilhosa, ó admirável condescendência! Ó humildade sublime, ó humilde sublimidade! O Senhor do universo, Deus e filho de Deus, se humilha a ponto de se esconder, para nosso bem, na modesta aparência do pão! Vede, irmãos, que humildade a de Deus! Derramai ante Ele os vossos corações (Sl 61,9)! Humilhai-vos para que Ele vos exalte (1 Ped, V, 6)! Portanto nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá! (Excertos da CARTA AO CAPÍTULO DOS FRADES MENORES).

"Peço-vos ainda com mais insistência do que se pedisse por mim mesmo, supliques humildemente aos clérigos, todas as vezes que o julgueis oportuno e útil, que prestem a mais profunda reverência ao santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo (...) Os cálices e corporais que usam, os ornamentos do altar, enfim tudo quanto se relaciona ao sacrifício, sejam de execução preciosa. E se em alguma parte o Corpo do Senhor estiver sendo conservado muito pobremente, reponham-no em lugar ricamente adornado e ali O guardem cuidadosamente encerrado segundo as determinações da Igreja, levem-no sempre com grande respeito e ministrem-no com muita discrição. Em todas as pregações que fizerdes, exortai o povo à penitência e dizei-lhe que ninguém poderá salvar-se se não receber o santíssimo Corpo e Sangue do Senhor. E quando o sacerdote O oferecer em sacrifício sobre o altar, e aonde quer que o leve, todo o povo dobre os joelhos e renda louvor, de modo que a toda hora, ao dobre dos sinos, o povo todo, no mundo inteiro, renda sempre graças e louvores ao Deus onipotente" (Excertos da CARTA A TODOS OS CUSTÓDIOS DOS FRADES MENORES).

"Todos devemos confessar os nossos pecados ao sacerdote e é dele que recebemos o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois quem não comer a sua Carne e não beber o seu Sangue não pode entrar no reino de Deus (cf. Jo VI, 54). É preciso no entanto que se coma e beba dignamente, porquanto, quem receber indignamente, "come e bebe a sua própria condenação porque não discerne o corpo do Senhor" (1 Cor XI, 29). ... Visitemos também frequentemente as igrejas e honremos e respeitemos os clérigos, não tanto por sua pessoa  -  se forem pecadores  -  mas sobretudo por causa do seu ministério em que nos administram o santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que sacrificam sobre o altar, recebem e repartem aos outros. E estejamos todos firmemente convencidos de que ninguém pode salvar-se e não ser pelas santas palavras e pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os clérigos pronunciam e anunciam essas palavras e ministram o sacramento. E só eles estão autorizados a exercer esse ministérios e mais ninguém" (Excertos da CARTA AO FIÉIS).

"Os meus abençoados irmãos, clérigos e leigos, confessem seus pecados aos sacerdotes da nossa Ordem. Se não for possível, confessem-se a outros sacerdotes prudente e católicos. E saibam claramente e considerem que, tendo recebido de qualquer dos sacerdotes católicos penitência e absolvição, estão absolvidos, sem dúvida alguma, daqueles pecados, se procurarem humilde e fielmente cumprir a penitência imposta. (...) E assim contritos e confessados recebem o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, com grande humildade e respeito, recordando que o próprio Senhor disse: "Quem come a minha carne e bebe o  meus sangue possui a vida eterna" (Jo VI, 55); e: "Fazei isto em memória de mim" (Lc XXiI, 19).

"Mas também o Filho, em sendo igual ao Pai, não pode ser visto por alguém de modo diferente que o Pai e o Espírito Santo. Por isso são réprobos todos aqueles que viram o Senhor Jesus Cristo em sua humanidade sem enxergá-Lo segundo o espírito e a divindade e sem crer que Ele é o verdadeiro Filho de Deus. De igual modo são hoje em dia réprobos todos aqueles que  -  embora vendo o sacramento do Corpo de Cristo que, pelas palavras do Senhor, se torna santamente presente sobre o altar, sob as espécies de pão e vinho, nas mãos do sacerdote  -  não olham segundo o espírito e a divindade nem crêem que se trata verdadeiramente do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Atesta-o pessoalmente o Altíssimo quando diz: "Este é o meu Corpo e o Sangue de nova Aliança" (cf. Mc XIV, 22); e: "Quem comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna" (cf. Jo VI, 55). Por isso é o espírito do Senhor que habita nos seus fiéis quem recebe o santíssimo Corpo e Sangue do Senhor (cf Jo VI, 62). Todos aqueles que não participam desse espírito e no entanto ousam comungar, "comem e bebem a sua condenação" (1 Cor XI, 29).

Portanto, "ó filhos dos homens, até quando tereis duro o coração?" (Sl 4, 3). Por que não reconheceis a verdade "nem credes no Filho de Deus". (Jo IX, 35? Eis que Ele se humilha todos os dias (Fil II, 8); tal como na hora em que, "descendo do seu trono real" (Sab. XVIII, 5) para o seio da Virgem, vem diariamente a nós sob aparência humilde; todos os dias desce do seio do Pai sobre o altar, nas mãos do sacerdote. E como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne, também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado. E do mesmo modo que eles, enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus (cf. Jo XX, 28), assim também nós, vendo o pão e o vinho com os nossos olhos corporais, olhemos e creiamos firmemente que está presente o santíssimo Corpo e Sangue vivo e verdadeiro. E desse modo o Senhor está sempre com os seus fiéis, conforme Ele mesmo diz: "Eis que estou convosco até a consumação dos séculos" (Mt XXVII, 20) (Excertos de: PALAVRAS DE EXORTAÇÃO A TODOS OS IRMÃOS).

"Mas todos aqueles que não vivem em espírito de penitência, nem recebem o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que praticam vícios e cometem pecados, e que vivem segundo suas más concupiscências e desejos perversos, e que não cumprem o que prometeram e com o seu corpo servem ao mundo, porque se deixaram ludibriar por suas concupiscências carnais, pelos cuidados e solicitudes deste mundo, pelo demônio, cujos filhos são e cujas obras praticam: cegos são eles, porque não são capazes de enxergar a verdadeira luz, Nosso Senhor Jesus Cristo. A sabedoria espiritual não na possuem porque não trazem dentro de si o Filho de Deus, que é a verdadeira sabedoria do Pai. E é deles que se diz: "Sua sabedoria foi devorada" (Sl 106, 27). Só enxergam, conhecem, sabem e praticam o mal e perdem deliberadamente suas almas. Reparai, ó cegos, iludidos por nossos inimigos, isto é,  -   pela carne, pelo mundo e pelo demônio  -  que é agradável ao corpo praticar o pecado, e amargo servir a Deus, porque todos os vícios e pecados procedem do coração do homem, como diz o Evangelho (Mt XV, 19). E nada tendes de vós, nem neste mundo nem no futuro. Julgais gozar por longo tempo as vaidades deste mundo, mas estais logrados, porque virá o dia e a hora na qual não pensais e que de todo desconheceis" (Excertos da CARTA AOS FIÉIS).

Carta a Todos os Clérigos: "Consideremos todos nós clérigos o grande pecado e ignorância que alguns manifestam com relação ao santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu santíssimo nome e palavras escritas que tornam santamente presente o Corpo (de Cristo). Sabemos que o Corpo não pode restar presente se antes não for tornado presente pela palavra. Pois nada temos nem vemos corporalmente dele, do próprio Altíssimo, neste mundo, senão o Corpo e Sangue, os nomes e as palavras pelas quais fomos criados e remidos da morte para a vida. Logo, todos aqueles que administram tão sacrossantos mistérios e especialmente aqueles que os ministram sem a reta discrição, considerem no seu íntimo como são vulgares os cálices, corporais e panos de linho sobre as quais é oferecido em sacrifício o Corpo e Sangue de Nosso Senhor. E muitos O guardam em lugares bem comuns e O levam de modo lamentável (pela rua) e O recebem indignamente e O ministram indiscriminadamente. ... Não excitam porventura tais fatos a nossa piedade e devoção por esse bom Senhor quando se digna de vir colocar-se ele próprio em nossas mãos e nós O tocamos e O recebemos todos os dias em nossa boca? Ou ignoramos que um dia havemos de cair em suas mãos?

Emendemo-nos depressa e firmemente dessas e de outras faltas. Onde quer que o santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo for conservado de modo inconveniente ou simplesmente deixado em alguma parte, que O tirem dali para colocá-Lo e encerrá-Lo num lugar ricamente adornado. Sabemos perfeitamente que estamos estritamente obrigados a observar tudo isto, em virtude dos mandamentos do Senhor e dos preceitos da santa Mãe Igreja; e os que o não fazem saibam bem que deverão prestar contas perante Nosso Senhor Jesus Cristo no dia do Juízo" (Excertos da CARTA A TODOS OS CLÉRIGOS).


terça-feira, 3 de outubro de 2017

O Espírito Apostólico das três Teresas Carmelitas

   Refiro-me às três santas carmelitas: Teresa d'Ávila, Teresa de Lisieux, Teresa dos Andes.

Teresa menina, pintada como carmelita.

   SANTA TERESA D'ÁVILA:
   "Tende compaixão de mim, meu Deus, ordenai de modo a que eu possa cumprir em algo os meus desejos, para Vossa honra e glória. Não Vos recordeis do pouco que mereço e da baixeza da minha natureza! Não fostes Vós, Senhor, poderoso para fazer que o grande mar se retirasse, e o grande Jordão deixasse passar os filhos de Israel? Alargai, Senhor, o Vosso poderoso braço; resplandeça a Vossa grandeza em coisa tão baixa, para que entendendo o mundo que nada posso, Vos louvem a Vós. Custe-me o que custar, pois isso quero, e daria mil vidas, se tantas tivera, para que uma só alma Vos lembrasse um pouco mais. Dá-las-ia por bem empregadas e entendo com toda a verdade que nem mereço padecer por Vós um trabalho muito pequeno, quanto mais morrer. Mas vede, Senhor, já que sois Deus de misericórdia, tende-a desta indigna pecadora, deste miserável verme que assim se atreve conVosco! Vede, Deus meu, os desejos e as lágrimas com que isto Vos suplico e olvidai os meus pecados por quem sois, e tende lástima de tantas alma que se perdem e favorecei a Vossa Igreja. Não permitais, Senhor, mais danos na cristandade; dai luz a tantas trevas!"
Santa Teresinha do Menino Jesus.
No claustro do Carmelo de Lisieux.
  
   SANTA TERESA DE LISIEUX:
   "Ser Vossa esposa, ó Jesus... ser, pela união conVosco a mãe das almas, já me devia bastar... Contudo sinto em mim outras vocações, sinto a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de doutor, de mártir; enfim, sinto a necessidade, o desejo de realizar por Vós, Jesus, todas as obras mais heróicas... Sinto na alma a coragem de um Cruzado, quereria morrer num campo de batalha em defesa da Igreja... Quereria iluminar as almas como os Profetas, os Doutores... Quereria percorrer a terra, pregar o Vosso nome e plantar no solo infiel a Vossa Cruz gloriosa... Mas acima de tudo, ó meu Bem Amado Salvador, quereria derramar o sangue por Vós até à última gota... O martírio, eis o sonho da minha juventude! Mais uma vez, sinto que o sonho é irrealizável, pois não poderia limitar-me a desejar um só gênero de martírio... Para me satisfazer precisaria de todos... Ó meu Jesus! que respondereis a todas as minhas loucuras?... Existirá acaso alma mais pequenina, mais impotente do que a minha?! Contudo exatamente por causa da minha fraqueza, tivestes por bem, Senhor, satisfazer as minhas aspiraçõezinhas infantis, e quereis agora, satisfazer outras aspirações mais vastas do que o universo... Compreendo que só o Amor fazia agir os membros da Igreja, que se o amor viesse a extinguir-se, os Apóstolos deixariam de anunciar o Evangelho, os Mártires se recusariam a derramar o sangue... Compreendi que o Amor englobava todas as vocações, que o Amor era tudo, que se estendia a todos os tempos e a todos os lugares... numa palavra, que era Eterno!... Ó Jesus, meu Amor... a minha vocação... encontrei-a finalmente, a minha vocação é o Amor! Sim, encontrei o meu lugar na Igreja e este lugar, ó meu Deus, fostes Vós quem mo deu... no coração da Igreja, minha mãe, serei o Amor... Assim serei tudo, assim será realizado o meu sonho".

Juanita Fernández Solar, estudante.
   SANTA TERESA DOS ANDES: ( Extraído de sua composição literária: "Demolidores e Criadores):
   "Há um poder sempre reinante, uma dinastia que não conhece ocaso, uma luz que jamais se extingue, e esse poder foi sempre combatido, essa dinastia, sem cessar, perseguida, essa luz esteve continuamente circundada de trevas. Eis aqui a eterna história do poder da Igreja, da dinastia do Papado, da luz, da verdade. Enquanto tudo passa e fenece a seus pés, a Igreja se mantém erguida, porque está sustentada pelo poder do alto.
   Corramos o pano de fundo do cenário dos povos modernos e veremos que, em cada século, os filhos da Igreja têm de levar a seus lábios a trombeta guerreira. Essa luta não terminará, porque é eterno o antagonismo entre a sombra e a luz. Enquanto os filhos da sombra destroem, os filhos da luz recriam. Daí o título que adotamos: "Demolidores e criadores".
I


   "O que se passa no século XVI? Os países da Europa se incendeiam no fogo de guerra fratricida. Na Alemanha um astro sinistro se interpõe entre as almas e o sol da verdade. Lutero e seus sequazes dão o grito de guerra. O alvo de seus ataques é a autoridade da Igreja. Crede o que quiserdes!... Qual é o fruto desta rebelião? A destruição da comunhão de idéias. As nações se vêem inundadas de sangue, as almas envoltas nas trevas do erro, e a heresia, como rio a transbordar, arrasta as massas populares, a nobreza, os tronos e até os ministros do altar. Os canais por onde Deus derrama as graças sobre as almas estão, pois, envenenados.
   Mas será possível que o mundo pereça? Não. Um novo astro surge no horizonte: é o ferido de Pamplona, Inácio de Loyola, que cai como soldado de um rei terreno e se levanta como guerreiro do Rei do céu. Vede-o alistar uma Companhia que não há de manejar o canhão nem empunhar a espada. Quereis conhecer suas armas? O crucifixo! Sua divisa? A maior glória de Deus! Seus soldados se espalham por toda a parte e, portadores da luz da verdade, vão deixando atrás de si um rastro luminoso: derramam luz na Europa, na controvérsia, na pregação, no ensino; derramam luz nas Índias com Francisco Xavier, que regenera nas águas do batismo milhões de almas; derramam luz os soldados do nova milícia aonde quer que dirijam seus passos.

Santa Teresa dos Andes, Carmelita.
II
   "Passemos a página do século XVI e veremos no século seguinte o mesmo espetáculo de sombra e luz, de demolidores e criadores. No século XVII vemos destacar-se entre as sombras uma figura de aspecto rígido e severo: Jansênio, que lança o gelo e a sombra por onde passa. A chama do amor vacila e acaba por extinguir-se com um grito ímpio: Cristo não morreu por todos! Já não apresenta o Crucifixo com os braços estendidos para receber a todos, a todos sem exceção, mas com os braços entreabertos para receber alguns e rejeitar os demais. "Fugi do Deus Sacramento, pois podeis afastar sua vontade por causa de vossa indignidade. Fugi, fugi!", clamam os demolidores do século XVII. E as almas, aterradas, fogem... e se esfriam e se perdem...
   Deus estava ferido no mais delicado de seu amor... O Verbo pronuncia uma vez mais a palavra criadora que vai fazer brilhar a luz no meio das trevas. Em Paray-Le-Monial se levanta um sol esplendoroso e vivificante: Jesus Cristo mostra a uma humilde visitandina seu Coração aberto, abrasado em chamas de amor; queixa-se do esquecimento dos homens e os chama todos com insistência. A legião jansenista grita: "Fugi, fugi!"... A voz de Paray-Le-Monial clama entretanto: "Vinde, vinde!" A negra bandeira do terror cederá diante do belo estandarte do amor. Isto é tudo? Não. Ali está o grande apóstolo da caridade, São Vicente de Paulo, que, à imitação do divino Mestre, chama o pobre, o enfermo, a criança. Para todos há lugar em seu coração. Sua bela legião de Irmãs da Caridade arranca ao inferno milhares de almas no instante supremo. O amor desterrado reanima as almas. A luz tira os espíritos das sombras. O coração divino de Jesus e o coração deificado de Vicente de Paulo falam de amor: de amor infinito, um; e de compaixão até o heroísmo, o outro".

III

   "A luta não terminou. O inimigo espreita sempre a Igreja. A tempestade é mais terrível que nunca no século XVIII. Os corifeus da maldade - Voltaire e Rousseau - se mostram, o primeiro com o sorriso zombeteiro nos lábios e a blasfêmia na pena; o segundo, com o sofisma e a confusão nas idéias; e ambos com a corrupção no coração. Os pretensos filósofos querem explicar tudo racionalmente, e proclamam diante do mundo que não há Deus, e arrancam Cristo do coração de nobres e plebeus, e ainda se atrevem a arrancá-lo do coração da criança. Detende-vos, infames! Está bem cheia vossa medida. Esse santuário de inocência não pode ser traspassado. Estas crianças pertencem a Jesus Cristo! Um apóstolo se levanta em nome do Deus da infância. João Batista de La Salle funda as escolas cristãs, encerrando no coração das crianças desvalidas a chama da fé que se extingue por toda a parte.
   Guerra ao Papa! É o grito da falange mortífera. E, em seu frenético entusiasmo, diz que já não haverá quem suceda ao mártir da impiedade, Pio VI. Mas não griteis tão alto. Deus disse que as portas do inferno não prevalecerão e escarnecerá de vossos desígnios. Vede sentado e estabelecido no trono um novo Papa. Lançastes a vossa nobre nação sobre o patrimônio de São Pedro, e eis que os cismáticos cumprem, inconscientemente, sua missão: eles arrojam o invasor e, sob a segurança de suas armas vencedoras, a Igreja nomeia um novo piloto: é Pio VII.

   CONCLUSÃO

   "Oh! Igreja, teu poder jamais será destruído! As trevas cobriram a face do universo na aurora dos tempos, e ao Fiat lux, fugiram vencidas. Mais tarde, as sombras da idolatria cobriram o mundo antigo. Veio o Verbo e dissipou as trevas, porque o Verbo era a Luz. Hoje as sombras cobrem de novo o orbe cristão. Mas aí está a palavra de Cristo, Verdade eterna: "Aquele que me segue e cumpre minha palavra não anda nas trevas". Oh! Palavra de vida! A Ti amor eterno, a Ti eterna fidelidade!"