domingo, 28 de janeiro de 2018

São Pio X: "Um dos graves erros do "Sillon" é o interconfessionalismo"

   Apresentamos aqui apenas alguns excertos da Encíclica "Notre Charge Apostolique" com que São Pio X condenou o movimento nascido na França e chefiado por Marc Sangnier: "Le Sillon" ( = Sulco).
   No início foi bom. Eis como São Pio X fala dos bons tempos do "Sillon":
 "O "Sillon" levantou, entre as classes operárias, o estandarte de Jesus Cristo, o sinal da salvação para os indivíduos e as nações, alimentando sua atividade social nas fontes da graça, impondo o respeito da religião nos ambientes menos favoráveis , habituando os ignorantes e os ímpios a ouvir falar de Deus..."
  Era um movimento da juventude. Infelizmente, os sillonistas, como demonstra São Pio X, caíram em vários erros e se tornaram anti-clericais. São Pio X desmascara e condena os seus erros. Mas aqui vamos transcrever o que São Pio X diz sobre o "INTERCONFESSIONALISMO":
"Houve um tempo em que o Sillon , como tal, era formalmente católico. Em matéria de força moral, só conhecia uma: a força católica, e ia proclamando que a democracia havia de ser católica, ou não seria democracia. Em dado momento, entretanto, mudou de parecer. Deixou a cada um em sua religião ou sua filosofia. Ele próprio deixou de se qualificar de "católico", e a fórmula "A democracia há de ser católica" substituiu-a por esta "A democracia não há de ser anti-católica", tanto quanto, aliás, antijudaica ou antibudista. Foi a época do "maior Sillon". Todos os operários de todas as religiões e de todas as seitas foram convocados para a construção da cidade futura. Outra coisa não se lhes pediu a não ser que abraçassem o mesmo ideal social, que respeitassem todas as crenças e que trouxessem um saldo de forças morais. Certamente, proclamava-se, "Os chefes do Sillon põem sua fé religiosa acima de tudo. Mas podem recusar aos outros o direito de haurir sua energia moral lá onde podem? Em troca, querem que os outros respeitem seu direito, deles, de hauri-la na fé católica. Pedem, pois, a todos aqueles que querem transformar a sociedade presente no sentido da democracia, que não se repilam mutuamente por causa de convicções filosóficas ou religiosas que os possam separar mas que marchem de mãos dadas, não renunciando a suas convicções, mas experimentando fazer, sobre o terreno das realidades práticas, a prova da excelência de suas convicções pessoais. Talvez que neste terreno de emulação entre almas ligadas à diferentes convicções religiosas ou filosóficas a união se possa realizar" (Marc Sangnier, discurso de Rouen, 1907); ... "Os camaradas católicos se esforçarão entre si próprios, numa organização especial, por se instruir e se educar. Os democratas protestantes e livre-pensadores farão o mesmo de seu lado. Todos, católicos, protestantes e livre-pensadores terão em mira armar a juventude não para uma luta fratricida, mas para uma generosa emulação no terreno das virtudes sociais e cívicas" (Marc Sangnier, Paris, maio de 1910). Estas declarações e esta nova organização da ação sillonista provocam bem graves reflexões. Eis uma associação interconfessional, fundada por católicos, para trabalhar na reforma da civilização, obra eminentemente religiosa, porque não há civilização verdadeira sem civilização moral, e não há verdadeira civilização moral sem a verdadeira religião: é uma verdade demonstrada, é um fato histórico. E os novos sillonistas não poderão pretextar que só trabalharão "no terreno das realidades práticas" onde a diversidade das crenças não importa. Seu chefe tão bem percebe esta influência das convicções do espírito sobre o resultado da ação, que os convoca, qualquer que seja a religião a que pertençam, a "fazer no terreno das realidades práticas a prova da excelência de suas convicções pessoais". E, com razão, porque as realizações práticas revestem o caráter das convicções religiosas, como os membros de um corpo, até às últimas extremidades, recebem sua forma do princípio vital que o anima. Isto posto , que deve pensar da promiscuidade em que se acharão agrupados os jovens católicos com heterodoxos e incrédulos de toda espécie, numa obra desta natureza? Esta não será mil vezes mais perigosa para eles do que uma associação neutra? Que se deve pensar deste apelo a todos os heterodoxos e a todos os incrédulos para virem provar a excelência de suas convicções no terreno social, numa espécie de concurso apologético, como se este concurso já não durasse há 19 séculos, em condições menos perigosas para a fé dos fiéis e sempre favorável à Igreja Católica? Que se deve pensar deste respeito a todos os erros e deste estranho convite, feito por um católico a todos os dissidentes, fortificarem suas convicções pelo estudo e delas fazer as fontes sempre mais abundantes de novas forças? Que se deve pensar de uma associação em que todas as religiões, e mesmo o livre-pensamento, podem manifestar-se altamente à vontade? Porque os sillonistas que, nas conferências públicas e em outras ocasiões proclamam altivamente sua fé individual, não pretendem certamente fechar a boca aos outros e impedir que o protestante afirme seu protestantismo e o cético, seu cetiscismo. Que pensar, enfim, de um católico que, ao entrar em seu círculo de estudos, deixa na porta seu catolicismo, para não assustar seus camaradas que, "sonhando com uma ação social desinteressada, têm repugnância de a fazer servir ao triunfo de interesses, de facções, ou mesmo de convicções, quaisquer que sejam"?  Tal é a profissão de fé na nova Comissão Democrática da Ação Social, que herdou a maior tarefa da antiga organização, e que, assim afirma, "desfazendo o equívoco em torno do maior Sillon, tanto nos meios racionários como nos meios anticlericais", está aberta a todos os homens "respeitadores das forças morais e religiosas e convencidos de que nenhuma emancipação social verdadeira será possível sem o fermento de um "generoso idealismo". Ah, sim! O equívoco está desfeito; - conclui com ironia São Pio X - a ação social do Sillon não é mais católica; o sillonista, como tal não trabalha para uma facção, e "a Igreja, ele o diz, não deveria, por nenhum título, ser a beneficiária das simpatias que sua ação possa suscitar". Insinuação estranha, em verdade! Teme-se que a Igreja se aproveite, com objetivo egoísta e interesseiro, da ação social do Sillon, como se tudo o que aproveita à Igreja não aproveitasse à humanidade! Estranha inversão de idéias: a Igreja é que seria beneficiária da ação social, como se os maiores economistas já não houvessem reconhecido e demonstrado que a ação social é que, para ser real e fecunda, deve beneficiar-se da Igreja. Porém, mais estranha ainda, ao mesmo tempo inquietantes e acabrunhadoras, são a audácia e a ligeireza de espírito de homens que se dizem católicos, e que sonham refundir a sociedade em tais condições, e estabelecer sobre a terra, por cima da Igreja Católica, "o reino da justiça e do amor", com operários vindos de toda parte, de todas as religiões ou sem religião, com ou sem crenças, contanto que se esqueçam do que os divide: suas convicções religiosas e filosóficas, e ponham em comum aquilo que os une: um generoso idealismo e forças morais adquiridas "onde possam". Quando se pensa em tudo que foi preciso de forças, de ciência, de virtudes sobrenaturais para estabelecer a sociedade cristã, e nos sofrimentos de milhões de mártires, e nas luzes dos Padres e dos Doutores da Igreja, e no devotamento de todos os heróis da caridade, e numa poderosa Hierarquia nascida no céu, e nas torrentes da graça divina, e tudo isto edificado, travado, compenetrado pela Vida e pelo Espírito de Jesus Cristo, a Sabedoria de Deus, o Verbo feito homem; quando se pensa, dizíamos, em tudo isto, fica-se atemorizado ao ver novos apóstolos se encarniçarem por fazer melhor, através da atuação dum vago idealismo e de virtudes cívicas. Que é que eles querem produzir? Que é que sairá desta colaboração? Uma construção puramente verbal e quimérica, em que se verão coruscar promiscuamente, e numa confusão sedutora, as palavras liberdade, justiça, fraternidade e amor, igualdade humana, e tudo baseado numa dignidade humana mal compreendida. Será uma agitação tumultuosa, estéril para o fim proposto, e que aproveitará aos agitadores de massas, menos utopistas. Sim, na realidade, pode-se dizer que o Sillon escolta o socialismo, o olhar fixo numa quimera. Tememos que ainda haja coisa pior. O resultado desta promiscuidade em trabalho, o beneficiário desta ação cosmopolita só poderá ser uma democracia, que não será nem católica, nem protestante, nem judaica; seria uma religião (porque o sillonismo, como seus chefes o afirmam, é uma religião) mais universal do que a Igreja Católica, reunindo todos os homens tornados enfim irmãos e camaradas no "reino de Deus". - "Não se trabalha pela Igreja, dizem, trabalha-se pela humanidade".

Que é a Igreja para o Teólogo Modernista?

  É um parto da consciência coletiva, isto é, da coletividade das consciências individuais, que, por virtude da permanência vital, estão todas pendentes do primeiro crente, que para os católicos foi Cristo. 
  Afirmam os modernistas que foi erro das eras passadas pensar-se que a autoridade da Igreja emanou de princípio estranho, isto é, imediatamente de Deus; e por isso, com razão, era ela considerada autocrática. Estas teorias, porém, já não são para os tempos modernos. Assim como a Igreja emanou da coletividade das consciências, a autoridade nasce também da consciência religiosa, e por esta razão fica dependente da mesma; e se faltar a essa dependência, torna-se tirânica. Nos tempos que correm o sentimento de liberdade atingiu o seu pleno desenvolvimento. No estado civil a consciência pública quis um regime popular. Mas a consciência do homem, assim como a vida, é uma só. Se, pois, a autoridade da Igreja não quer suscitar e manter uma intestina guerra nas consciências humanas, há também mister curvar-se a formas DEMOCRÁTICAS. Seria loucura pensar que o vivo sentimento de LIBERDADE, ora dominante, retroceda. Dizem os modernistas que se a Igreja quiser reprimir e enclausurar este sentimento de liberdade, ele transbordará mais impetuoso, destruindo conjuntamente a religião e a Igreja. 

A IGREJA E A SOCIEDADE CIVIL: São as mesmas regras que serviram para a ciência e a fé. Falava-se outrora do temporal sujeito ao espiritual; nas questões mistas, a Igreja intervinha qual senhora e rainha, porque então se tinha a Igreja como instituída  imediatamente por Deus, enquanto autor da ordem sobrenatural. Mas, dizem os modernistas, estas crenças já não são admitidas pela filosofia, nem pela história. Deve, pois, a Igreja separar-se do Estado, e assim também o católico do cidadão. E é por este motivo também que o católico, não se importando com a autoridade, com os desejos, com os conselhos e com as ordens da Igreja, e até mesmo desprezando as suas repreensões, tem direito e dever de fazer o que julgar mais oportuno ao bem da pátria. Querer, sob qualquer pretexto, impor ao cidadão uma norma de proceder, é por parte do poder eclesiástico verdadeiro abuso, que se deve repelir com toda a energia. (Estas heresias já tinham sido condenadas por Pio VI na "Auctorem fidei").

Observação importante: Hoje que os modernistas comandam e estão nos postos mais elevados da hierarquia, dizem que o povo deve obedecer à hierarquia e em tudo. Assim, o modernismo vai se alastrando também entre os fiéis. Sabemos que, sendo a Igreja divina, nunca faltará o "sensus fidei", isto é, sempre haverá, nem que seja em pequeno número, fiéis que guardem íntegra a Tradição e não aceitem a evolução dos dogmas. Muitos guardam o bom senso de que a Igreja está em crise, e fora do campo da infalibilidade a hierarquia pode fazer e ordenar coisas que favoreçam  à heresia e da parte de bispos, vêem muitas heresias. Assim sendo sabem que não devem obedecer tais ordens. Infelizmente é muito mais cômodo obedecer em tudo e fechar os olhos por conveniência. Talvez, hoje, a maioria age desta maneira e não dá testemunho da verdade.

  Na coisas temporais a Igreja tem que sujeitar-se ao Estado dizem os modernistas. Os protestantes liberais caíram em mais um erro que é a religião individual. 
   O que acabamos de explicar, refere-se à autoridade disciplinar. Agora, as afirmações modernistas em relação à autoridade doutrinal e dogmática. Aí são ainda mais graves e perniciosas. Dizem: A sociedade religiosa não pode deveras ser uma, sem unidade de consciência nos seus membros e unidade de fórmula. Daí tiram o conceito de Magistério eclesiástico: Não é mais do que um produto das consciências individuais, e só para cômodo das mesmas consciências lhe é atribuído ofício público. Assim sendo, ele, dependendo dessas consciências, deve inclinar-se a formas DEMOCRÁTICAS. É abuso da autoridade querer impedir a necessária evolução dos dogmas. Protestando embora o seu profundo respeito à autoridade, o católico deve continuar sempre a trabalhar à sua vontade. Em geral, os modernistas admoestam a Igreja de que, sendo o fim do poder eclesiástico todo espiritual, não lhe assenta bem essas exibições de aparato exterior e de magnificência, com que sói comparecer às vistas da multidão. São Pio X, de imediato, refuta tão descabida crítica modernista: "E quando assim o dizem procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que as honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que a instituiu. 

   A DOUTRINA MODERNISTA DA EVOLUÇÃO NA IGREJA. Têm eles por princípio geral que, numa religião viva, tudo deve ser mutável e mudar-se de fato. Por aqui abrem caminho para uma das suas principais doutrinas, que é a da EVOLUÇÃO.  O dogma, a Igreja, o culto, os livros sagrados a té mesmo a fé, se não forem coisas mortas, devem sujeitar-se às leis da evolução. Dizem ainda os modernistas: A Igreja mostra-se inimiga dos progressos das ciências naturais e teológicas; A verdade não é menos imutável do que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele; Cristo não ensinou um corpo fixo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares; A Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno; O progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, a Criação, a Revelação, a Pessoa do Verbo Encarnado e a Redenção; O Catolicismo atual não pode harmonizar-se com a verdadeira ciência a não ser que se transforme num cristianismo sem dogmas, isto é, num protestantismo largo e liberal. 

sábado, 27 de janeiro de 2018

O PAPA HONÓRIO I E SÃO MÁXIMO, O CONFESSOR

   Honório I foi um papa legitimamente eleito em 625 e que governou a Santa Igreja até sua morte que se deu no ano de 638. Portanto governou a Igreja durante 13 anos.Na lista dos papas legítimos da Igreja, Honório I ocupa o 70º lugar. Dizem os historiadores que ele foi um ótimo administrador. Reconstruiu o Aqueduto de Trajano e o teto da Basílica de São Pedro construída por Constantino. Transformou muitos ambientes pagãos em igrejas cristãs. O essencial, porém, é que um papa seja um muro de bronze contra as heresias. Mas, infelizmente, não o foi.
   Baseada nas Sagradas Escrituras e na Tradição a Teologia Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa (a Pessoa Divina do Filho de Deus); mas são duas naturezas, a divina e a humana, que tem cada uma sua vontade e sua operação; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana.
   A heresia que ensinava haver em Jesus Cristo uma só vontade e uma só operação, chamava-se Monotelismo. E os seus principais chefes foram dois Bispos e Patriarcas: Sérgio e Pirro. É bom saber que Patriarca era a maior autoridade no Oriente. O Bispo Sérgio era Patriarca de Constantinopla; e o Bispo Pirro era Patriarca de Alexandria. Diz São João Bosco que estes dois hereges empregaram toda sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro. E também o Imperador que, na época, era Constante, favorecia os hereges. Para este fim o Bispo Patriarca Sérgio escreveu uma carta mui subtilmente insidiosa ao Papa Honório I. Nesta carta o Bispo Patriarca Sérgio dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente para se evitar tais discussões e escândalos, proibir que se afirmasse haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. E o Papa Honório I não tendo advertido o laço que lhe havia armado o Bispo e Patriarca Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este herege. O Papa Honório I em duas cartas dirigidas ao Bispo Sérgio (Cf. D. 251 e 252) além de expor a doutrina de maneira ambígua (sobre as duas vontades em Jesus Cristo) cai também na cilada do Bispo e Patriarca Sérgio. Eis, em resumo, o que escreveu o Papa Honório I nestas cartas ao Bispo e Patriarca de Constantinopla: 1º - a ambigüidade: Ele afirma que em Jesus Cristo há uma só vontade. A primeira vista e não lendo todo o contexto, e, sobretudo, escrevendo para o Bispo Sérgio que erradamente dizia haver uma só vontade em Jesus Cristo, esta afirmação de Honório I parecia herética. Mas, na verdade, ele queria apenas dizer uma vontade moral, e não física; em outras palavras, ele queria dizer que em Jesus Cristo não podia haver duas vontades contrárias, como acontece conosco pecadores, em que pela concupiscência encontram-se em nós a vontade do espírito e a vontade da carne. Então todos os teólogos dizem que no contexto a doutrina era ortodoxa, mas dado o contexto histórico, ou seja, naquelas circunstâncias, o Papa Honório I deu ocasião para ser mal interpretado, ou melhor dizendo, ele deu azo para ser malevolamente interpretado pelos hereges monotelitas.
   Além desta falha, ou seja a ambigüidade, que é sempre um mal, mas que se torna mais desastrosa na época de heresia, Honório I teve uma outra falha não menos perniciosa: foi negligente e consequentemente imprudente, fazendo não o que os teólogos ortodoxos, como São Máximo monge e São Sofrônio bispo, ensinaram segundo a Tradição e as Sagradas Escrituras, mas deu ouvidos com facilidade, para não dizer com displicência, aos Bispos e Patriarcas hereges Sérgio e Pirro.
   Eis algumas de suas palavras: "Não nos devemos preocupar em dizer ou entender que em Jesus Cristo, por causa das obras da divindade e da humanidade, seja uma ou duas operações. Deixamos estas coisas para os gramáticos discutirem... Nós, porém, não percebemos pelas Sagradas Escrituras, se (em Jesus Cristo) é uma ou se são duas operações, mas vemos que Ele opera de muitas maneiras."... "Portanto, para evitar o escândalo de uma nova invenção, não nos interessa pregar definindo se é uma ou se são duas operações". E depois o Papa Honório I diz que se pode falar em duas naturezas, mas não se deveria empregar a expressão "duas operações". Em latim está assim: "ablato geminae operationis vocabulo".
   Agora vejamos a atitude de São Máximo, o Confessor. Na verdade, não foi só ele que não obedeceu ao Papa Honório I, mas, entre muitos outros podemos citar ainda: São Sofrônio que era Bispo e dois discípulos de São Máximo ambos chamados Anastácio. Um era núncio do Papa, e o outro era monge. Mas vamos falar só de São Máximo, o Confessor. D. Antônio de Castro Mayer na sua carta pastoral "Aggiornamento e Tradição" diz: "Entre os que continuaram a ensinar as duas vontades em Jesus Cristo está o grande São Máximo, chamado o Confessor porque selou com o martírio sua fidelidade à doutrina católica tradicional".
   São Máximo se tornou um dos homens mais sábios do século VII. Sua capacidade era tanto mais notável quanto a cobria uma grande humildade.
   Embora em consciência viu claramente que não podia obedecer ao Papa Honório I, no entanto, nunca lhe faltou o respeito, e na medida do possível, procurou até defender o Papa Honório I. Por exemplo, numa carta a um padre chamado Marino, São Máximo faz ver que os Santos Padres da Igreja reconhecem em Jesus Cristo duas vontades e diz: "Eu estou mesmo persuadido de que o Papa Honório, falando em sua carta a Sérgio de uma vontade, não negou as duas vontades naturais, mas ao contrário, as estabelece. Pois ele somente negou a vontade carnal e viciosa. A razão que dá prova-o, isto é, que a divindade tomou nossa natureza e não nosso pecado".
   São Máximo, apesar da proibição do Papa Honório I, teve uma disputa pública com o Bispo Pirro, Patriarca de Alexandria, e companheiro de heresia do Bispo e Patriarca Sérgio. Pois bem! São Máximo conseguiu refutar o Bispo Pirro e este terminou abjurando a heresia do monotelismo. Mas, talvez influenciado pelas fraquezas que teve o papa Honório I, infelizmente recaiu na heresia.
   Como acontecera com o Arianismo, favorecido pelo Papa Libério (embora isto seja nebuloso) e pelos imperadores, e, por outro lado, combatido por mais de quarenta anos seguidos por Santo Atanásio, o Monotelismo foi favorecido pelo Papa Honório I e também pelos imperadores.
   Quase 1200 anos mais tarde, se discutia no Concílio Vaticano I, a proclamação do dogma da Infalibilidade papal, e os adversários da definição, puseram sobre o tapete a chamada questão de Honório I, e se procedeu a um estudo de todas as fontes documentais e se rechaçou a objeção como infundada.
   1º - A defesa de Honório I, feita pelo próprio São Máximo, como já vimos.
   2º- A defesa feita por alguns papas. Por exemplo: o Papa João IV (640-642) dá, das palavras de seu antecessor o papa Honório I, a mesma explicação dada por São Máximo, que referimos acima.
   3º - A maior objeção contra Honório I, foi o III Concílio de Constantinopla, que foi o VI Concílio Ecumênico na Igreaja (680). Neste Concílio os bispos (que eram em número de 160) condenaram os monotelitas como hereges e entre eles o papa Honório I. Mas é preciso lembrar uma verdade básica sobre um Concílio Ecumênico. E é o seguinte: Os bispos num Concílio Ecumênico são infalíveis em questão de fé e moral. Mas não podemos esquecer que para tanto é absolutamente necessária a confirmação do Papa. Do contrário não é infalível. Pois bem! O que aconteceu neste Concílio de Constantinopla III? Todos os bispos condenaram o Papa Honório como herege. Mas o Papa São Leão II, não aprovou esta condenação de Honório I como herege. É certo que aprovou a condenação dos monotelitas como hereges. Mas quanto ao Papa Honório I, aprovou a sua condenação, ou seja, o lançamento do anátema, não por ter sido herege, mas por ter favorecido a heresia por sua ambiguidade, negligência e omissão. Eis então a condenação do Papa Honório I feita pelo Papa São Leão II: "Anatematizamos também Honório (Papa) que não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por sua traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada (...) "e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica, a chama incipiente da heresia, mas a estimulou por sua negligência". ( Denz-Sch. 563 e 561).
   O Papa Adriano II diz que Honório I foi condenado pelos bispos orientais como herético. Sabemos que os bispos reunidos no 3º Concílio de Constantinopla realmente incluíram o papa Honório I na condenação dos monotelitas como hereges. Mas, como acabamos de ver, a decisão de um Concílio mesmo Ecumênico, depende da aprovação do Papa. E São Leão II aprovou o anátema contra os monotelitas por serem heréticos, mas, quanto ao papa Honório I, lançou um anátema em separado, ou seja, como favorecedor de heresia por ambiguidade, negligência e omissão. E, em um papa, estas faltas são realmente merecedoras de anátema.
   Vamos resumir aqui as falhas do Papa Honório I:
   1º - O Papa Honório I foi ambíguo em expor a verdade. E isto é objetivamente muito grave da parte de um papa. E se torna mais grave ainda se a ambiguidade é sobre uma verdade pregada pela Tradição da Santa Igreja e que está sendo negada pelos hereges como foi o caso. E vejam bem, caríssimos leitores. Apesar de alguns papas sucessores de Honório I terem procurado dar a interpretação ortodoxa da exposição ambígua de Honório I, no entanto, a heresia continuou, alimentada sempre pela fraqueza de Honório I. A ambiguidade é como algo inflamável. Mas, se uma tubulação de gaz está com algum vazamento, é claro que as pessoas de bem evitarão qualquer faísca; mas, não faltará um terrorista para lançar de propósito a faísca.  Então, não é suficiente, colocar um aviso alertando para o perigo. Chama-se imediatamente o Corpo de Bombeiros para eliminar o vazamento. Na verdade, o papa Honório I fora ambíguo. Não resolveu o problema o fato de alguns papas sucessores de Honório alertarem para não se lançar nenhuma faísca herética. Mas a ambiguidade continuava. Consequentemente também o perigo. Então, que fez o Papa Leão II. Eliminou a causa, eliminou o mal pela raiz. Condenou o Papa Honório I pela sua ambiguidade e negligência. E, assim, a heresia do Monotelismo só acabou mesmo depois que São Leão condenou expressamente e de maneira enérgica, as falhas de Honório I. E, para sermos mais preciso, a heresia ainda sobreviveu alguns poucos anos após a condenação de Honório  feita pelo Papa São Leão II; mais ou menos como uma roda de uma máquina que, mesmo depois de desligada da energia elétrica, ainda trabalha mais um pouco pelo impulso anteriormente recebido. É bom, caríssimos leitores, para se avaliar melhor o mal que Honório I causou à Igreja, saber que a heresia do Monotelismo durou mais de 40 anos. O papa Honório I morreu no ano de 638 e o Papa São Leão II condenou-o no ano 680.
   2º- Além da ambiguidade, a segunda falha do Papa Honório I foi a imprudência.
   Se o pastor e guia, não vigia, ai do rebanho!!! Os hereges, sobretudo os saídos da própria hierarquia da Igreja (e a maioria o é) são astutos, são lobos com peles de ovelha. Então, o guia supremo da Igreja, o Papa, deve estar muito atento para não cair nas ciladas dos seus inimigos. Aliás, não é precisamente isto que a Santa Madre Igreja nos ensina a rezar?! ..."et non tradat eum in animam inimicorum ejus"? (Oração pelo Sumo Pontífice na bênção do SS. Sacramento). E pedimos a Deus na Ladainha de Todos os Santos: "Para que Vos digneis conservar em santa Religião o Sumo Pontífice".
   Como diz São Leão II, a atitude de Honório I foi uma "traição sacrílega", porque, como papa, ele tinha obrigação de vigiar e, notando que a fumaça, ou melhor, a chama de Satanás estava começando, ele, como autoridade apostólica e suprema, tinha o grave dever de extingui-la inteira e imediatamente; e, não só não o fez, mas alimentou esta mesma chama com a ambiguidade e negligência e, sobretudo tendo a fraqueza de impor silêncio aos santos e doutos homens da Igreja, São Máximo e São Sofrônio que defendiam a verdade contra os bispos e patriarcas hereges. Ainda bem que estes homens, hoje canonizados pela Igreja, não obedeceram ao Papa Honório I. Não faltaram o respeito ao Papa Honório I, que favorecia a heresia; nem tão pouco caíram no SEDEVACANTISMO.
   Para terminar,vejamos as lições que nos dá São Máximo, o Confessor: Quando um papa, por sua negligência e/ou imprudência, favorece a heresia, em consciência diante de Deus, não podemos obedecer; não podemos segui-lo. Aí, devemos obedecer antes a Deus que aos homens. O Papa Honório I proibiu que se falasse em duas operações em Jesus Cristo. São Máximo não obedeceu e continuou pregando a verdade da Tradição. Talvez, na época, o monge Máximo fosse considerado desobediente e rebelde. Mas hoje sabemos que um papa e aliás, um papa santo, ou seja São Leão II condenou o Papa Honório I como Traidor da Tradição; e o monge Máximo foi canonizado pela Igreja e recebeu o epíteto de "o Confessor". De fato desobedeceu ao Papa, para confessar a Tradição.
   O que o Papa Honório I fez moralmente contra São Máximo, fê-lo também fisicamente o Imperador que era monotelita. Este também proibiu São Máximo de continuar pregando que em Cristo há duas operações e duas vontades. Como São Máximo não obedeceu, o imperador mandou o carrasco lançá-lo na prisão, açoitá-lo e finalmente mandou cortar-lhe a língua e a mão direita.
   São Máximo é venerado na Igreja como mártir e "o Confessor" no dia 13 de agosto.
   Caríssimos e amados leitores, invoquemos a São Máximo que nos obtenha junto a Nosso Senhor Jesus Cristo as luzes e a força necessárias para defendermos a Santa Madre Igreja contra as ciladas dos modernistas, contra a fumaça de Satanás, contra a autodemolição desta amada "Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo". Peçamos, outrossim, a Nosso Senhor Jesus Cristo que nos livre do Sedevacantismo; que nos livre de toda rebelião contra a autoridade em si. Que nos dê a firmeza para obedecermos antes a Deus que aos homens, quando as autoridades legítimas nos mandarem algo contra a Lei de Deus. Mas, mesmo nestes casos de resistência às autoridades, que Deus, Nosso Senhor, nos guarde de qualquer desrespeito, insulto à autoridade em si mesma. Amém!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A BATINA

ORIGEM
   Padres e fiéis vestiam-se da mesma túnica de mangas largas, toga e manto, na primitiva Igreja. Veio depois, com as invasões bárbaras, o uso de vestes curtas e exóticas, Só então é que, no Concílio de Macom em 581, a Igreja tornou obrigatório aos clérigos o uso da toga. Começa daí a distinção entre leigos e clérigos, no modo de trajar. E os cânones castigavam com penas severas os clérigos que ousassem trajar vestes seculares. No século XIII introduziram-se abusos na toga. Usavam-na muitos clérigos de cores berrantes e de ricos tecidos. Diversos Concílios protestaram  contra estas vaidades pouco edificantes em homens consagrados ao serviço de Deus. Foi regulamentado o uso das cores: o vermelho e o verde eram reservados só aos bispos. Os sacerdotes e clérigos inferiores podiam escolher entre o roxo, o preto e o branco. Mas, ai! a impenitente vaidade humana ainda achou pábulo na veste clerical. Vieram as golas plissadas  e  bordadas com arte e fino gosto, as sobre-mangas de seda, etc. Era mister uma reforma. Vem Xisto V, o severo Pontífice das reformas. Em 1588 pela Bula "Sacrosanctum", fica definitivamente introduzido o uso da batina como hoje a temos. Os termos da Bula de Xisto V são enérgicos. A veste eclesiástica será toda preta, longa e bem fechada. A vaidade de alguns clérigos e os alfaiates encontraram, na batina da Bula "Sacrosanctum" , uma barreira intransponível. Que fariam diante desta mortalha preta e simplificada ao extremo (Dictionaire des connaissances religieuses....(soutaine)  tomo VI).
  
SIMBOLISMO
   A Igreja de Deus, dirigida pelo Divino Espírito santo, faz transparecer nas coisas sensíveis e exteriores o quanto possível, o que há de mais oculto nos seus mistérios. Pelos gestos, vestes litúrgicas, cerimônias etc. Traduz na medida do possível o que se passa nas profundezas da alma. A veste clerical, a batina, não foi arbitrariamente imposta ao clérigo. Tem um simbolismo profundo e belo. Ela nos repete as palavras de Jesus Cristo aos discípulos: "Vos de mundo non estis". "Vós não sois do mundo". E como não é o padre do mundo, diz Bossuet, nos recorda que ela é a bandeira mortuária do mundo.
   E sob este aspecto é que é preciso considerá-la. Estamos mortos para o mundo para vivermos com o Cristo para sempre. O beato Olier no seu admirável "Traté des saintes Odres" nos dá o simbolismo da batina, da santa batina, "la sainte soutaine", como ele sempre a chamava. "A santa batina, diz o bem-aventurado Olier, é um sudário que nos traz sepultados, e exprime ao bispo o estado de morte e de sepultura em que pela obediência o clérigo se apresenta diante de seu prelado. Eu digo a santa batina, porque sendo a Igreja um mundo novo, um mundo de santidade, na qual fomos chamados a representar Deus e Jesus Cristo, Seu Filho, nada pode aí haver que não seja santo. A santa batina diz que o clérigo morreu para o século e dele há de se separar pelo coração como está separado pelo hábito. A santa batina cobre todo o seu corpo para testemunhar que toda a carne está morta em Jesus Cristo. São Paulo diz que todo cristão deve estar cercado em todo o seu corpo da morte de Jesus Cristo: "Semper mortificationem Jesu in corpore nostro circumferentes" (2 Cor., IV, 10).
   É o que simboliza a santa batina cobrindo todo o corpo do clérigo como um hábito de morte, que só deixa ver a cabeça, os pés e as mãos. A cabeça para nos dizer a nós padres, que somos: "Viri caput Christus"; mãos livres, para as boas obras, para a luta pelo reino de Deus; dos pés para a evangelização; " Bem-aventurados os pés daqueles que evangelizam"... Quanta lição no simbolismo da santa batina!!!
  
Exortação do Santo Padre João Paulo II (hoje santo) ao Clero de Bolonha, no dia 19 de abril de 1979.
   Não é cedendo às sugestões de uma fácil laicização que se exprima, ou no abandono do hábito eclesiástico, ou na assimilação dos costumes mundanos, ou na adoção de um ofício profano, não é assim que se aproxima eficazmente do homem de hoje. Tal assimilação poderia talvez, à primeira vista, dar a impressão de vantagem nos contatos imediatos mas que vantagem haveria se ela devesse ser paga com a perda da específica função evangelizadora e santificadora que faz do sacerdote "Sal da terra" e "Luz do mundo"? O risco que o sal se torne insípido e que a luz se apague, é claramente previsto por Jesus no Evangelho. A que serviria um sacerdote assim "assimilado" ao mundo que se torne diminuído e não seja mais o fermento transformador"?
   Exortação do Papa João XXIII, santo: " Convém saber usar por toda a parte e com grande dignidade o traje eclesiástico, nobre e distinto: imagem da túnica de Cristo, sinal resplandecente da veste interior da graça".
    Gosto imensamente do testemunho de convertidos, almas profundamente trabalhadas pelo Divino Espírito Santo: Em primeiro lugar uma poesia escrita por um protestante convertido:
   Aquela simples batina
   Que o Sacerdote trazia
   Aos meus olhos de menino
   Lindas coisas traduzia.
               
          Era o emissário divino,
          Tinha  que ser diferente,
           Fosse grande ou pequenino,
           A consolar sempre a gente.

                    Hoje me vai adiante
                    Um moço todo frajola
                    Será "aquele estudante",
                    Ou o padre que vem da escola?

                             Meu padre, estou muito triste...
                             Poderei chamá-lo assim?
                             Será que em ti ainda existe,
                             O pai de todos enfim...?!

                                       Se do pastor protestante
                                       Tu fizeste à imitação,
                                       Deve ter sido um instante
                                       De uma grande tentação.

                                                   Pode o pastor protestante
                                                   Ser um grande pregador. 
                                                   Tu, porém, vais adiante:
                                                    És um Ministro do Senhor!

                                                               Se um ministério do mundo
                                                               Ao protocolo obedece, 
                                                               Ministério tão profundo
                                                               Ser distinguido carece!
  
   Agora o testemunho também de uma convertida, não em versos mas não menos  valioso. É da caríssima Juliana Fragetti Ribeiro Lima já de todos muito conhecida e estimada pelo seu blog "Diligit anima mea". Eis apenas um trecho de seu post "Até um cético vê": "Acreditem, padres, não há coisa mais linda que ver um sacerdote que ama e tem orgulho - no bom sentido desta palavra - do chamado que Deus lhe fez. Que não se envergonha de ser sacerdote, ao contrário. Isso é um colírio numa sociedade secularizada. O padre nos lembra do sagrado, nos lembra de rezar, nos lembra de Deus. Se estivermos afastados, irá nos tocar a consciência: volta a Deus. Se estivermos bem, iremos procurar com mais desejo que nunca a santidade, seremos lembrados que temos muito que caminhar nessa senda da santidade ainda. É lindo andar no centro de uma metrópole como Rio de Janeiro, São Paulo etc e ver um sacerdote de batina. Faz você parar e pensar: dediquei tempo hoje para Deus? Saímos dessa inércia que muitas vezes nos toma."

   A batina também é uma defesa para o padre e para o próximo. Hoje nem tanto, mas nas décadas de 70 e 80 nós padres que conservamos a santa batina, sofremos muito. Comigo mesmo se deram algumas passagens tristes ou melhor divertidas. Uma vez, em plena rua, umas pessoas me chamaram de urubu.  Mas continuei andando e pensando com os botões de minha santa batina: não é que elas têm razão?! Quem tira a podridão e o mau cheiro dos pecados e vícios do mundo? Não é o pobre sacerdote?! Com uma grande diferença: os sacerdotes ressuscitam os mortos espirituais, uns, como a filha de Jairo , logo após a morte; outros, como o jovem filho da viúva de Naim, já sendo levados à sepultura; e outros, como Lázaro, já cheirando mal na sepultura dos vícios e pecados. E também os padres devem por muito tempo ficar pairando nas alturas dos ares puros do silêncio, da oração e da contemplação, bem perto de Deus, para que não se deixem contaminar pelos miasmas do mundo. Outro exemplo:  Umas moças ficaram rindo e dizendo: quem será que morreu? Eu respondi: "Quem morreu foi eu mesmo.. Morri para o mundo, e talvez haja uma outra defunta: a fé de vocês". Mas isto mostra como a batina mexe nas consciências, como bem explicou a Filotéia. "O mundo vos odeia", disse Jesus. São  Paulo diz: "Aqueles que querem viver piedosamente com Jesus Cristo, hão de sofrer perseguições". Afinal muitos acham que os padres de batina são tristes. Não é verdade: somos felizes por sofrer por amor a Jesus as ofensas dos maus e também felizes por ter o apoio e alento dos bons. Como diz São Paulo: "Parecemos tristes, mas sempre alegres..."
Vale a pena terminar com mais uma poesia, esta de autoria de Dom Aquino Correia:

     A MINHA BATINA
Minha pobre batina mal cerzida,                                    
Tu vales mais que todos os amores,                               
Pois, negra embora, enches-me de flores                   
E de esperanças imortais a vida.

Com seus sorrisos escarnecedores,                                 
Zomba o mundo de ti, de ti duvida,                                  
Porque não sabe a força, que na lida,                               
Tu me dás, do teu beijo aos resplendores.

Tu serenas de orgulho as brutas vagas,
E a mostrar-me do mundo a triste sina,
Toda volúpia das paixões apagas.

Oh! como o bravo envolto na bandeira,
Contigo hei de morrer, minha batina,
Ó minha heroica e santa companheira.




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

 DE PERSEGUIDOR A APÓSTOLO

                                                                                                                            Dom Fernando Arêas Rifan*

Celebraremos amanhã a conversão do grande apóstolo São Paulo, uma das colunas da Igreja ao lado de São Pedro. São Paulo foi o apóstolo dos gentios, dos povos não judeus, instrumento da propagação da Igreja fora da Judéia; o verdadeiro propagador do cristianismo.
           O primeiro livro de História da Igreja, os Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, discípulo de São Paulo e testemunha dos fatos, narra-nos que Saulo - esse era o seu nome antes - era um fariseu fanático, cheio de ódio pelos discípulos de Cristo. Ele, quando jovem, já havia participado, como coadjuvante, do apedrejamento de Santo Estevão, diácono. Quando ia pelo caminho de Damasco, capital da Síria, com ordens dos Sumos Sacerdotes, para prender os cristãos da cidade, foi violentamente derrubado do cavalo por uma luz misteriosa, que o cegou, da qual saia uma voz tonitruante que o invectivava: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E ao perguntar quem era aquele a quem ele perseguia, a voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Jesus atribuía a si a perseguição feita aos seus discípulos, os cristãos.
           A partir daí, Saulo foi instruído na Fé cristã e batizado. Tornou-se o grande Apóstolo Paulo, escolhido por Deus para evangelizar os gentios, os povos não judaicos. É o autor de 14 epístolas endereçadas às primeiras comunidades cristãs, mas de valor e ensinamento perenes.
            Foi martirizado em Roma, na perseguição de Nero. Sua grande basílica é a homenagem cristã àquele que, com São Pedro, é uma das colunas da Igreja Romana.
Jesus tinha escolhido 12 apóstolos para evangelizarem o mundo. Mas eles eram pessoas simples. Deus tudo pode, mas usa dos meios humanos mais apropriados, conforme ele quer e capacita. Para espalhar sua doutrina no mundo greco-romano pagão, ele quis escolher alguém, perito em diversas línguas, douto na doutrina judaica, cidadão romano, conhecedor do mundo grego e homem de decisão e forte personalidade. E o escolheu entre os seus piores inimigos: os fariseus. E esse fariseu fanático tornou-se, pela graça de Deus, o grande São Paulo.
            A admirável conversão de São Paulo é a mostra do que pode a Graça de Deus. E essa Graça tem operado maravilhosas conversões no decurso dos séculos. Temos, entre tantos, os exemplos de Agostinho, gênio intelectual que, de gnóstico e herege, tornou-se o grande Santo Agostinho, doutor da Igreja, convertido pela força das lágrimas de sua mãe e pela convincente pregação de Santo Ambrósio; de Francisco de Assis que, de mundano tornou-se o grande santo da pobreza; de Santo Inácio de Loyola, convertido ao ler a vida dos santos, num leito de hospital; de Dr. Aléxis Carrel, prêmio Nobel de medicina, ao examinar um milagre de Lourdes.
            Conversão é a saída do pecado para a Graça de Deus. É mudança de mentalidade e de vida. Para melhor. É por isso que todos nós precisamos nos converter. Todos os dias.
            “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (Francisco, Evangelii gaudium, 1).
                                                                                      *Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney
                                                                                                             http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

O HÁBITO NÃO FAZ O MONGE, MAS MOSTRA-O

   O fato que primeiro vamos contar foi ocorrido em Brasília há muitos anos atrás.
   Uma freira, vestida em trajes mundanos, queixou-se a um policial de que estava sendo importunada por um galanteador que a seguia. Travou-se, então, o seguinte diálogo:
   Policial -  O que é que a senhora quer que eu faça?
   Freira  -   O senhor é uma autoridade, portanto é de sua obrigação tomar providências.
   Policial -  Como é que a senhora sabe que eu sou um policial?
   Freira  -   Pelo seu uniforme, é claro!
   Policial -  Pois a senhora use o seu hábito religioso, que é o seu uniforme, e ninguém ousará importuná-la.
   
"A BATINA É O UNIFORME DA MILÍCIA SANTA"
Santo Antônio Maria Claret.

   Agora vou contar um fato sobre a batina, ou melhor, sobre a falta da batina, fato este que também se deu há muitos anos, mas que infelizmente é de aplicação bem atual.
  
O BISPO E A BAILARINA
   Com este título o jornal "A Província do Pará" de 13 de setembro de 1977 publicou a seguinte nota:
   "Um espetáculo totalmente inesperado foi assistido pelos espectadores que participaram da apresentação, sexta feira última, do Holiday on ice, quando uma das bailarinas ao terminar seu número, sentou-se ao colo de D. Alberto Ramos, cobrindo-o de beijos.
   A maior surpresa foi do próprio arcebispo que corado e constrangido, ficou visivelmente incomodado com a inesperada demonstração de carinho da jovem e bonita integrante do balé de gelo. A atitude da jovem, é bom deixar claro, não teve nenhuma intenção desprimorosa, já que a "cena" é feita por ela, ao fim de cada espetáculo, com os espectadores da primeira fila. O que deve ter levado a jovem a cometer a "gaffe" foi o fato de estar D. Alberto Ramos trajando uma roupa de passeio, e por isso mesmo se confundindo com os espectadores comuns".

 Estivesse revestido de sua batina, este bispo, que por sinal não era dos piores, teria evitado um escândalo dessa natureza. A bailarina que se sentou ao seu colo certamente teria respeitado a sua condição de religioso. Talvez, se ele não deixasse a batina, nem lá iria. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

SÃO SEBASTIÃO

      SÃO SEBASTIÃO

                                                                                                                                        Dom Fernando Arêas Rifan*
            No próximo dia 20, celebraremos a solenidade do glorioso mártir São Sebastião, padroeiro da Cidade maravilhosa e do nosso Estado do Rio de Janeiro.
          Segundo nos explica Dom Orani João Tempesta, Cardeal Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, ele nasceu em Narbona, uma cidade ao Sul da França, no século III. Era filho de uma família ilustre. Ficou órfão do pai ainda menino, e então, foi levado para Milão por sua mãe, onde passou os primeiros anos da infância e juventude.
          A mãe educou-o com esmero e muito zelo. Ele ingressou no exército imperial, e, por sua cultura e grande capacidade atingiu os mais altos graus da hierarquia militar, chegando a ocupar o posto de Comandante do Primeiro Tribunal da Guarda Pretoriana durante o reinado de Diocleciano, um dos mais severos imperadores romanos, perseguidor dos cristãos.
          Foi denunciado ao Imperador como sendo cristão. Mesmo sendo um bom soldado romano, suas atitudes demonstravam sua fé cristã, e, diante de todos, confessou bravamente sua convicção. Foi acusado, então, de traição. Na época, o imperador tinha abolido os direitos civis dos cristãos. Por não aceitar renunciar a Cristo, São Sebastião foi condenado à morte, sendo amarrado a um tronco de árvore e flechado. Porém, não morreu ali. Foi encontrado vivo por uma mulher cristã piedosa que tinha vindo buscar o seu corpo. Diante do ocorrido, recuperada a saúde, apresentou-se diante do Imperador e reafirmou sua convicção cristã. E nova sentença de morte veio sobre ele: foi condenado ao martírio no Circo. Sebastião foi executado, então, com pauladas e boladas de chumbo, sendo açoitado até a morte e jogado nos esgotos perto do Arco de Constantino. Era 20 de janeiro.
          Seu corpo foi resgatado e levado para as catacumbas romanas com grande honra e piedade. Sua fama se espalhou rapidamente. Suas relíquias repousam sobre a Basílica de São Sebastião, na via Apia, em Roma. O Papa Caio escolheu-o como defensor da Igreja e da fé.
          Nesses tempos de grande negação da fé e de valores espirituais e religiosos, humanos e sociais, São Sebastião torna-se um grande modelo de ajuda para nós hoje, principalmente aos jovens, envoltos em grande confusão moral e espiritual. Ele é um sinal de fidelidade a Cristo mesmo com as pressões contrárias. Dessa forma, ele continua anunciando Jesus Cristo, por quem viveu, até os dias de hoje. Ele nos ensina a não desanimarmos com as flechadas que recebemos e a continuarmos firmes na fé.
          Um mártir não deve ser um estranho para nós. Ainda em pleno século XXI encontramos irmãos e irmãs nossas que são mortos em tantos países, outros têm ainda seus direitos civis cassados por serem cristãos, outros são condenados à prisão ou à morte por aderirem ao Cristianismo, e ainda são expulsos de suas cidades e suas igrejas queimadas. Além disso, muitos são martirizados em sua fama, em sua honra e tantas outras maneiras modernas de “matar” pessoas por causa da fé ou de suas convicções cristãs.



                                                             *Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
                                                                                      http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O ZELO PELAS ALMAS


LEITURA ESPIRITUAL 


  "À medida que o amor de Deus vai tomando posse dos nossos corações, faz nascer e alimenta neles um amor cada vez maior para com o próximo, amor que, sendo sobrenatural, tende acima de tudo ao bem sobrenatural dos nossos semelhantes e converte-se em zelo pela salvação das almas.
   Se amamos pouco a Deus, também amaremos pouco as almas e, vice-versa, se o nosso zelo pelas almas é fraco, também o é o nosso amor a Deus. Efetivamente, como seria possível amar muito a Deus sem amar muito os que são Seus filhos, os que são objeto do Seu amor, dos Seus cuidados, do Seu zelo? As almas são, por assim dizer, o tesouro de Deus. Ele criou-as à Sua imagem e semelhança por um ato de amor, remiu-as com o Sangue do Seu Unigênito por um ato de amor ainda maior. "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna" ( Jo. III, 16 ). Quem penetrou o mistério do amor de Deus aos homens, não pode permanecer indiferente pela sua sorte: à luz da fé compreendeu que tudo quanto Deus opera no mundo é para seu bem, para sua felicidade eterna e quer de algum modo participar nesta ação, sabendo que não pode fazer coisa mais agradável a Deus do que prestar a sua humilde colaboração na salvação dos que Lhe são caros. Foi sempre este o desejo ardente dos santos, desejo que os impeliu a realizar heroísmos de generosidade, ainda que fosse para o bem de uma só alma. "Esta - escreve Santa Teresa d'Ávila- é a inclinação que o Senhor me deu. Parece-me que Ele aprecia mais uma só alma que Lhe ganhemos com as nossas indústrias e orações mediante a Sua misericórdia, do que todos os serviços que Lhe possamos fazer" ( Fd. 1, 7 ).
   É verdade que o fim primordial da ação de Deus é a Sua glória, mas Ele, infinitamente bom, gosta de a procurar particularmente através da salvação  e felicidade das Suas criaturas. De fato nada exalta tanto a Sua bondade, o Seu amor, a Sua misericórdia, como a obra salvífica em favor dos homens. Por isso, amar a Deus e a Sua glória significa amar as almas, significa trabalhar e sacrificar-se pela sua salvação.
   O zelo pelas almas nasce da caridade, da contemplação de Jesus crucificado: as Suas chagas, o Seu Sangue, os sofrimentos dilacerantes da Sua agonia, dizem-nos como valem as almas na presença de Deus e como Ele as ama. Este amor, porém, não é correspondido e parece que os homens ingratos querem fugir cada vez mais à Sua ação. É  o triste espetáculo de todos os tempos que ainda hoje se repete, como se quisessem insultar Jesus e renovar a Sua Paixão. "Todo mundo está em chamas: os ímpios querem, por assim dizer, voltar a sentenciar a Cristo, pois levantam contra Ele mil falsos testemunhos e querem deitar por terra a Sua Igreja". Se Teresa d'Ávila ( Caminho 1, 5 ) podia afirmar isto do seu século atormentado pelo protestantismo, com muito maior razão podemos afirmá-lo nós do nosso, em que a luta contra Deus e contra a Igreja aumentou desmedidamente e alastra por todo o mundo. Felizes de nós se pudéssemos também repetir com a Santa: "Despedaça-me o coração a perda de tantas almas. Quisera não ver perder-se mais nenhuma... Mil vidas sacrificaria eu para salvar uma só alma das muitas que se perdem" ( ib. 4 e 2 ). Mas não se trata só de formular desejos; é preciso agir, é preciso trabalhar e sofrer pela salvação dos irmãos.
   São João Crisóstomo afirma que "nada há de mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos  outros". Esta frieza  é consequência de uma caridade muito frouxa; acendamos, reavivemos a caridade e acender-se-á em nós o zelo pela salvação das almas. Então o nosso apostolado deixará de ser um dever imposto do exterior  que devamos  cumprir    necessariamente por obrigação do nosso estado, para se tornar uma exigência do amor, uma chama que se inflama espontaneamente no fogo interior da caridade.
   Dar-se à vida interior não significa fechar-se numa torre de marfim para gozar tranquilamente as consolações divinas, desinteressando-se do bem alheio, mas significa concentrar todas as energias na busca de Deus, no trabalho da santificação pessoal para agradar a Deus e adquirir um poder de ação e intercessão capaz de obter a salvação de muitas almas". ( Extraído do Livro "Intimidade Divina" de autoria do P. Gabriel de Sta. M. Madalena, O.C.D. ).
      Vamos completar este artigo com alguns excertos do livro "Tratado do Amor de Deus" de autoria de São Francisco de Salles.
   "Não há dúvida, meu caro Teótimo, de que Moisés, Fineas, Elias, Matatias, e muitos servos de Deus se serviram da cólera, para exercerem o zelo em muitas ocasiões assinaladas.
   Convém, porém, notar que eram pessoas com a capacidade suficiente para bem manejarem as paixões e dominarem a cólera.
   São Dionísio, falando a Demófilo que pretendia chamar zelo à fúria e raiva que o dominavam, disse-lhe: "Quem quiser corrigir os outros deve, em primeiro lugar, empregar o máximo cuidado,  de impedir que a cólera exceda a razão do império e domínio que Deus deu à alma, e provoque revolta, sedição ou confusão em nós mesmos. E por isso nunca podemos aprovar vossos ímpetos de zelo indiscreto, ainda que mil vezes aponteis o exemplo de Fineas e Elias, porque tais palavras não agradaram a Jesus Cristo, quando lhe foram dirigidas pelos Discípulos, que não tinham ainda participado do seu doce e benigno espírito".
   Quando Fineas, continua São Francisco de Salles, viu aquele desgraçado Israelita ofender a Deus com uma Moabita, matou-os ambos; Elias predissera a morte de Ocozias, que, indignado com a profecia, enviou dois capitães, um depois do outro, com cinquenta soldados para o prender; o homem de Deus fez descer o fogo do céu, que os fulminou.
   Ora um dia Nosso Senhor, passando na Samaria, mandou a uma cidade pedir hospedagem, mas os habitantes, ao saberem que Nosso Senhor era Judeu de nação e ia para Jerusalém, recusaram-lha.
   À vista desta recusa, São João e São Tiago, disseram a Jesus: Quereis, Senhor, que façamos descer sobre eles fogo que os devore? Mas Nosso Senhor, voltando-se para eles, repreendeu-os com estas palavras: Vós não compreendeis de que espírito sois; o Filho do Homem não veio para perder as almas, veio para as salvar ( Luc. IX, 52-56. ).
   Ora, é isto que quer dizer São Dionísio a Demófilo quando este alegava em sua defesa o exemplo de Fineas e de Elias. São João e São Tiago queriam imitar a Elias, fazendo descer o fogo do céu  sobre os homens, mas Nosso Senhor repreendeu-os e fez-lhes perceber que o Seu zelo, era doce, bondoso e afável e que empregava a cólera rarissimamente só quando não houvesse esperança alguma de tirar resultado doutra sorte.
   Aqueles grandes santos eram inspirados imediatamente por Deus e conseguiam por isso empregar a cólera sem perigo. O mesmo Espírito que os incitava, segurava também as rédeas da sua justa cólera, para que esta não excedesse os limites que lhe fixava.
   Porque São Paulo uma vez chamou aos Gálatas de insensatos; porque descobriu aos de Cândia as suas depravadas inclinações; porque resistiu de frente ao glorioso São Pedro, seu superior, segue-se daí que nos seja lícito injuriar os pecadores, difamar as nações, desautorizar e censurar os nossos superiores e prelados? Não, porque nós não somos S. Paulos, para sabermos fazer essas coisas com cabimento.
   Porém os espíritos avinagrados, descontentes, presumidos e maldizentes, servindo apenas as inclinações, humores, aversões e temeridades próprias, querem encobrir a sua injustiça com a capa de zelo e deixam-se, sob o nome deste fogo sagrado, devorar pelas próprias paixões.
   O verdadeiro zelo é filho da caridade, porque reside no ardor; como ela é paciente, benigno, imperturbável; não quer debates, não tem ódios, nem invejas, e compraz-se na verdade.
( Confira: Tratado do Amor de Deus, de S. Francisco de Salles, livro X, capítulo XVI ).

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

UM SANTO CAMPISTA

UM SANTO CAMPISTA
                                                          Dom Fernando Arêas Rifan* 
A grande devoção em nossa região a Santo Amaro, cuja festa celebraremos no próximo dia 15, é explicada pela presença dos monges beneditinos que foram os valorosos missionários da zona rural de Campos dos Goytacazes, em cujo município se situa o célebre Mosteiro de São Bento, em Mussurepe. Vale a pena recordar um pouco a sua vida, por muitos desconhecida.
Santo Amaro, ou São Mauro, foi monge e abade beneditino, ou seja, da Ordem de São Bento. Nascido em Roma, de família senatorial, Amaro, quando tinha apenas doze anos, foi entregue no mosteiro por seu pai, Egrico, homem ilustre pela virtude e pela nobreza do nascimento, confiando-o aos cuidados de São Bento, em 522.
Correspondeu tão bem à afeição e à solicitude do mestre, que foi em breve proposto como modelo aos outros religiosos. São Gregório exaltou-o por se ter distinguido no amor da oração e do silêncio. Sempre se lhe notou profunda humildade e admirável simplicidade de coração. Mas nele sobressaia a virtude da obediência, sendo por isso recompensado por Deus, com o milagre semelhante ao de São Pedro no lago de Tiberíades, caminhando sobre as águas. Foi o caso de um jovem chamado Plácido, que caiu num lago perto de Subiaco, onde ficava o mosteiro. São Bento soube-o por revelação e, chamando Amaro, disse-lhe: “Irmão Amaro, vai depressa procurar Plácido, que está prestes a se afogar”. Munido com a bênção do mestre, o discípulo correu sobre a água a socorrer Plácido, a quem agarrou pelos cabelos e trouxe para a margem, não se apercebendo Amaro ter saído da terra firme. Quando deu pelo milagre, atribuiu-o aos méritos de São Bento. Mas este o atribuiu à obediência do discípulo.
“O homem obediente contará vitórias” (Pr 21,28). A obediência é a virtude cristã pela qual a pessoa sujeita sua própria vontade à de seu superior, no qual vê um representante de Deus. O maior exemplo de obediência temos em Jesus Cristo, obediente até a morte de Cruz (Fl 2, 8), reparando assim a desobediência de Adão (Rm 5, 19-20). Assim, o conselho evangélico da obediência, professado na vida consagrada, assumido livremente com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até a morte, leva o consagrado à submissão da vontade aos legítimos superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias constituições (cf. CDC cân. 601).
Santo Amaro foi fiel ao seu ideal monástico, a ponto de todos o considerarem o perfeito herdeiro espiritual de São Bento. Segundo uma tradição, foi Santo Amaro que substituiu São Bento quando este se transferiu para Monte Cassino. Consta também que Santo Amaro se distinguiu particularmente por sua aplicação aos estudos. Sendo enviado à França, lá fundou o Mosteiro de Glanfeuil, em Anjou, vindo a falecer em 15 de janeiro de 584.
Possa o exemplo de Santo Amaro levar os filhos a serem mais obedientes aos seus pais, os alunos aos seus mestres, os cidadãos às leis e superiores civis, os católicos aos seus superiores hierárquicos. “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5, 21).

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

domingo, 7 de janeiro de 2018

NÃO PERSEGUIR OS UNGIDOS DO SENHOR


"Não toqueis nos meus cristos" (Salmo CV, 15).

No tocante a este assunto seríssimo por se tratar de uma advertência do próprio Divino Espírito Santo, decidi não empregar uma só palavra minha. Lembrei-me do "DIÁLOGO"  do próprio Deus com Santa Catarina de Sena. Eis o que Deus lhe disse atinente ao título do artigo em apreço:

   "Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: "Não toqueis nos meus cristos" (Sl 105, 15). Quem os punir cairá na maior infelicidade. Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim. Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-lo é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros; não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. A reverência é dada a mim e a meu Filho encarnado, que somos uma só coisa pela união da natureza divina com a humana. Mas também o desrespeito. Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: "Não quero que mãos humanas toquem nos meus cristos"!

Nem poderá alguém escusar-se, dizendo: "Eu não ofendo a santa Igreja, nem me revolto contra ela; apenas sou contra os defeitos dos maus pastores"! Tal pessoa mente sobre a própria cabeça. O egoísmo a cegou e não vê. Aliás, vê; mas finge não enxergar, para abafar a voz da consciência. Ela compreende muito bem que está perseguindo o sangue do meu Filho e não os pastores. Nestas coisas, injúria ou ato de reverência dirigem-se a mim. Qualquer injúria: caçoadas, traições, afrontas. Já disse e repito: não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros. No entanto, homens ímpios continuam a revelar a irreverência que têm pelo sangue de Cristo, o pouco apreço que possuem pelo amado tesouro que deixei para a vida e santificação de suas almas. Não poderíeis ter recebido maior presente que o todo-Deus e todo-Homem como alimento. Cada vez que o conceito relativo aos meus ministros não coloca em mim sua principal justificativa, torna-se inconsistente e a pessoa neles vê somente muitos defeitos e pecados. De tais defeitos falarei em outro lugar. Mas quando o respeito se fundamenta em mim, jamais desaparece, mesmo diante de defeitos nos ministros; a grandeza da Eucaristia não é diminuída por causa dos pecados. A veneração pelos sacerdotes não pode cessar; se tal coisa acontecer, sinto-me ofendido.


São muitas as razões que fazem desta ofensa a mais grave. Vou lembrar apenas três. A primeira, é porque os perseguidores agem contra mim em tudo o que fazem em oposição aos meus ministros. A segunda, é porque desobedecem àquela ordem pela qual proibi que meus sacerdotes fossem tocados. Ao persegui-los, os homens desprezam a riqueza do sangue de Cristo recebida no batismo. Desrespeitando o sangue de Jesus e perseguindo os ministros, rebelam-se e tornam-se membros apodrecidos, separados da jerarquia eclesiástica. Caso venham a morrer obstinados em tal revolta e desrespeito, irão para a condenação eterna. Se reconhecerem a própria culpa na última hora, humilhando-se e desejando a reconciliação, mesmo que não o consigam fazer exteriormente, serão perdoados. Mas não devem esperar pelo momento da morte, pois será incerto o próprio arrependimento. A terceira razão, pela qual este pecado é o mais grave, está no seguinte: é uma falta maldosa e deliberada. Os perseguidores têm consciência de que o não devem cometer, sabem que vão pecar; cometem um ato de orgulho, em que não entram atrações sensíveis, muito pelo contrário. Tais pecadores arriscam a alma e o corpo: a alma, privando-se da graça, muitas vezes em meio a remorsos da consciência; o corpo, gastando seus bens a serviço do diabo e indo morrer como animais. Não, este pecado cometido contra mim não possui características de satisfação ou prazer pessoais; acompanham-no apenas os desvarios e a maldade do orgulho! Um orgulho que nasce do egoísmo e daquele medo próprio de Pilatos, quando matou meu Filho por temor de perder o cargo. É o que sempre fizeram e fazem os perseguidores. Os demais pecados procedem de uma certa simploriedade, de ignorância ou satisfação pessoal desordenada, de certo prazer ou utilidade presentes no ato mau. Naqueles pecados, o homem prejudica a si mesmo, ofende a mim e ao próximo. Ofende-me por não me glorificar; ao próximo, por não o amar. Na realidade, não se ergue frontalmente contra mim; ergue-se contra si mesmo, e isso me desagrada. Já no pecado de perseguição contra a santa Igreja, sou ofendido diretamente. Os outros vícios possuem uma justificativa, uma razão intermediária. Já afirmei que todo pecado e virtude são feitos no próximo. O pecado é ausência de amor por mim e pelos homens; a virtude é amor caritativo. Neste pecado, os maus perseguem o próprio sangue de Cristo ao se investirem contra meus ministros, e privam-se de sua riqueza espiritual. Entre todos os homens, os distribuidores do sangue do meu Filho, em quem vossa natureza está unida à minha. Quando consagram a Eucaristia, os ministros, o fazem na pessoa de Jesus. Como vês, realmente este pecado é dirigido contra meu Filho; por conseguinte, contra mim, pois somos um. É uma falta gravíssima. Não se dirige aos ministros, dirige-se a mim. Também o respeito demonstrado para com eles, considero-os como se fossem para mim e meu Filho. Por tal motivo te dizia que, se colocasses de um lado todos os demais pecados e este, sozinho, do outro, o último ser-me-ia mais ofensivo. (...) Em suma, ninguém deveria perseguir meus sacerdotes por causa de defeitos seus!"

O SACERDOTE PREGADOR

Extraído do Livro "MENSAGEM DE JESUS AO SEU SACERDOTE" pelo Padre José Schrijvers, C. SS. R.

   Como meu Pai me enviou, assim eu envio os meus sacerdotes a pregar o Evangelho a todas as nações, ensinando-as a observar tudo aquilo que eu mandei.
   Prega, portanto, a minha palavra a tempo e fora de tempo, persuade, ameaça, repreende com toda a paciência e doutrina.
   Que a tua voz retina sem cessar como alarido de trombeta. Não te canses de dizer ao meu povo os seus crimes e prevaricações.
   Eu te constituí pregador e pus a minha palavra nos teus lábios; encarreguei-te de arrancar e de plantar, de destruir e de edificar.
   Se descurares de dizer ao ímpio: "Serás punido de morte" e não te esforçares com estas ameaças em o arrancar ao pecado, o ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue reclamá-lo-ei das tuas mãos.
  
   Eu dei a vida para deixar ao meu rebanho verdadeiros pastores. Mas, ai, quantos de entre eles se deslizaram, entrando no meu redil lobos rapaces!
   Ai destes pastores indignos, que a si próprios se apascentaram em vez de apascentarem o meu rebanho! Bebem o leite das suas ovelhas, vestem-se da sua lã, e desleixam-se de as levar a bons pastos.
   Ai deles! que em lugar de ampararem os fracos, sararem os doentes e buscarem as ovelhas desgarradas, contentam-se com lhes intimarem as suas ordens com severidade e rigor.
   Desta sorte as minhas ovelhas dispersam-se e são presa das feras selvagens.

   Meu filho, que desgraça se estas ameaças fossem escritas para ti!
   És fiel em pregar a minha doutrina àqueles que eu te confiei? Estão no direito de ouvir da tua boca palavras de vida eterna.
   A ignorância da religião, a indiferença e a impiedade invadiram uma grande parte do campo da minha Igreja. A ti toca exterminar estes males e, em vez deles, semear a boa semente.
   Não te queixes da esterilidade dos teus esforços. Já limpaste bastante o campo, e tiraste a cinzânia, e remexeste suficientemente a terra?
   Dás atenção especial aos rebentos das plantas novas, às criancinhas que são a parte preferida do meu jardim?
   Explicas claramente, pacientemente, e com perseverança as verdades do catecismo?
   Não descuras os que por necessidade, por ignorância ou por abandono não frequentam a igreja e crescem como plantas selvagens no meio dos campos?
   Sem a tua solicitude paternal, eu perderia estas almas imortais para sempre.

   Prega a minha palavra em toda a ocasião. Não esperes que venham ouvi-la, junto do púlpito. Vai à procura das ovelhas arredias. Esforça-te em ganhá-las com a tua advertência paternal, com uma palavra amável, com um proceder caridoso ou com uma santa indústria. Jamais temas a pena nem a afronta, quando se trata de salvar um dos meus filhos.


   Não tens na tua freguesia alguma ovelha sarnosa, um pecador público, um miserável por todos repelido, um incrédulo obstinado? Oh!, como estas almas estão abandonadas e como tu devias deixar as noventa e nove no redil para ires à procura desta pobre ovelhinha tresmalhada!
   Tu és o mordomo da minha casa. E eu te encarreguei de dar a seu tempo e a todos os que nela moram, a medida de trigo que lhes está destinada.
   Ai do sacerdote, se um dia o Mestre o surpreender a maltratar as almas que lhe estão confiadas, ou a fazer causa comum com os pecadores e a armar ciladas às próprias ovelhas!

   A minha doutrina não é minha, é do Pai que me enviou. Cuida, portanto, de a não desvirtuares com a demasiada sabedoria humana, com a ciência vã ou com rebuscas literárias.
   Não deves adulterar o vinho bom do Evangelho com a água do teu próprio espírito.
   O verdadeiro Pastor esforça-se por haurir do seu tesouro o velho e o novo. Adapta as verdades velhas às necessidades presentes dos seus ouvintes, consulta humildemente os livros escritos, a seu uso, não poupa sacrifício nem tempo, a fim de preparar alimento espiritual a seu povo.


  Meu filho, não te pregues a ti mesmo. Que os teus fiéis, ouvindo-te, se esqueçam de admirar o teu talento para pensarem na reforma dos seus costumes.
   De ti mesmo não és mais do que um bronze sonoro ou um címbalo que retine. Sou eu quem dá às almas a graça de entenderem as palavras e de se converterem.
   Guarda-te bem de fazeres da cadeira da verdade um estrado para, aos domingos, defenderes a tua própria honra ou para invectivares os teus paroquianos.
   Isto seria profanar o meu santuário e aviltar o teu santo ministério.

   O sacerdote é o meu porta-voz. Deve pregar a minha bondade e a misericórdia sem limites da minha Mãe do Céu, o refúgio dos pecadores, Deve inspirar a meus pobres filhos, já tão débeis e desgraçados, confiança, e não acabrunhá-los com lamentos sem fim e com invectivas amargas.
   Deve saber, em ocasião oportuna, repreender com firmeza, mas com doçura, sem corromper o remédio com o veneno da sua própria impaciência.
  
   Meu filho, jamais te canses de semear a boa palavra. Lança por toda a parte, em toda a ocasião, em público e nas conversas privadas, os grãozinhos da minha doutrina.
   Não te preocupes com o sucesso dos teus trabalhos. Eu terei cuidado em fazer nascer nas almas bem dispostas o germe que tu nelas deixaste.
   Uma simples reflexão, uma boa palavra dita como que ao acaso, produzirá os seus frutos, porque tu é somente o humilde e obscuro semeador. Sou eu, o teu Jesus, o Onipotente, quem dá o crescimento.
   

ZELO SACERDOTAL

Zelo e padre são duas palavras, pode-se dizer, sinônimas e correlativas. O que a primeira exprime é condição essencial que a segunda exige. Todavia, passando da teoria à prática, podemos bem distinguir quatro espécies de padre no ministério.
   1- Há padres zelosos da sua própria salvação e da salvação do povo. São verdadeiramente padres. Santos e apóstolos. Santos, porque não se descuidam da sua perfeição sacerdotal. Apóstolos, porque se atiram à luta para levar ao céu o rebanho que lhes foi confiado. Felizes pastores  e felizes rebanhos!
   2- Há padres zelosos de sua salvação e indiferentes pela salvação do povo. São bons cristãos, mas não são bons padres. Seriam santos, se não fossem padres, mas já que o são, é preciso ver neles padres imcompletos.
   3- Há padres zelosos da salvação do povo e indiferentes de sua própria salvação. São operários cheios de probidade no serviço da Igreja. Não alteram nem a matéria nem a forma dos sacramentos. São pregadores que não deixam a verdade cativa em seus lábios. Tais padres não são traídores do povo, mas são traidores de si próprios. Seriam apóstolos, se fosse possível ser apóstolo, sem ser santo.
   4- Há padres indiferentes pela sua própria salvação e indiferentes também pela salvação do povo. Não são apóstolos nem santos. Nem salvadores de almas, nem cristãos de consciência. São padres  simplesmente infìéis à sua vocação. Não querem abrir o céu nem para os outros nem para si.
   Um bispo francês, em um retiro eclesiástico, pregava ao auditório, com acentos de dor: "Dizeis que a fé se vai extinguindo dia a dia: Vos estis lux mundi! Dizeis que a corrupção dos costumes hoje avassala a sociedade e conquista todas as idades e condições, entretanto: Vos estis sal terrae! A luz teria se apagado? O sal tornou-se insípido? A palavra de Deus não está em vossos lábios? O sangue de Jesus Cristo não está em vossas mãos? Tantos padres, tantos padres, e o cristianismo a se enfraquecer em nossa terra! Há nisto um mistério!!! (Pe. Valuy, S.J.)
  Um dia, certo professor de medicina, acompanhando os seus jovens ouvintes a uma sala de hospital, perguntava-lhes, depois de os ter colocado no meio da enfermaria: "Observemos a distância; dizei-me qual é o doente mais gravemente atingido?"  - ? - "Vede, é aquele lá ao fundo que tem moscas pousadas no rosto. Quando um doente suporta em total apatia que as moscas lhe ataquem o rosto, isso é só por si, sinal de morte próxima". Este fato acontecido há muito tempo, serve, hoje de parábola: Quando um padre consente que tudo se faça contra Deus, na sua paróquia (ou na sua obra) sem se mexer, sem reagir, isto é um sinal: o seu zelo está morto.
EXEMPLO DE ZELO
   Numa pequena paróquia, está moribundo o velho pároco: pregado no seu leito, aguarda a hora de partir, e a hora aproxima-se. Dizem-lhe que um dos seus paroquianos, desde há muito tempo revoltado contra Deus e a Igreja, está também moribundo. Envia-lhe o seu coadjutor. Este vai, mas volta sem ter conseguido coisa alguma. "Ó meu Deus, exclama o velho pároco ao seu coadjutor; peço-lhe que volte lá e diga a este infeliz que ele me prometeu não morrer sem se reconciliar com Deus." O coadjutor obedece, mas o moribundo responde zombando com ar sinistro: "Vai-te embora; a quem eu prometi isto foi ao pároco."
   O bom pároco ao saber isto, levanta os braços e os olhos ao céu e depois, sob o influxo duma inspiração súbita, diz: "Tragam-me uma padiola!" Manda colocar sobre ela um enxergão; faz-se transportar para cima dele e envolver em mantas, e ordena: "Vamos! levem-me lá".
   E, nas trevas da noite, iluminado por uma tocha que vacila, o moribundo é levado através de ásperos e longos caminhos. Quando o impenitente vê entrar no seu quarto aquela padiola e aquele velho pálido que vem ter com ele, ergue-se no seu leito com extrema dificuldade, e exclama: "Oh! que vem o senhor fazer aqui?!" - "Venho salvá-lo, responde o padre".
   Aproximam a padiola da cama do doente e deixam sós os dois moribundos. Quando, passado algum tempo, voltam ao quarto, os dois choram e pela última vez o velho pároco abençoa o doente e diz-lhe: "Meu querido filho espiritual, até breve, no céu!"
   O cortejo retoma a sua marcha nas trevas da noite, silencioso, como um cortejo fúnebre. Todos choram comovidos diante de tão heróica caridade. Chegados ao plesbitério, quando pousam a padiola e retiram as mantas, o corpo, cadavérico, fica imóvel; a alma tinha partido!
   Ó Jesus, que vos responderei eu, se a mim vos queixardes da inutilidade de vosso sangue: "Quae utilitas in sanguine meo?" Venha sobre mim, este Sangue divino, para me purificar, inflamar e transformar num sacerdote santo! Derramá-lo-ei, então, sobre as almas com mais zelo e eficácia. Amém!