terça-feira, 29 de maio de 2018

DESEJO ARDENTE DA COMUNHÃO



Além da fé viva, da humildade e máxime da pureza de coração, tão perfeita quanto nos é possível, disposições estas gerais para a sagrada comunhão, devemos ademais ter um desejo ardente por unirmo-nos a Jesus, já que Ele instituiu a Eucaristia desejando ardentemente se unir a nós.

Caríssimos, assim como a fome dos alimentos materiais indica ordinariamente a boa disposição em que está o corpo para os tomar e aproveitar, assim também um grande desejo de receber a Eucaristia é uma excelente disposição para participar abundantemente de seus benéficos efeitos. Santo Agostinho exprime-o com estas palavras: "Panis iste famem hominis interioris requirit" (Trat. XXVI in Joan.). Traduzido: "O homem interior deve ter fome do pão celestial (para o comer santamente)". Comentando o versículo 11 do Salmo 80: "Abre a tua boca e eu te encherei" o grande Santo Padre da Igreja, S. Jerônimo assim muito bem se exprime: "Quereis receber o alimento do Senhor? Ouvi o que Ele vos diz: Abri a vossa boca, e eu a encherei. Abri a boca do coração, porque recebereis à proporção que a abrirdes. A medida das graças que vos serão dadas, não depende de Mim, mas de vós". Caríssimos meditemos profundamente nestas palavras: Se desejas a Jesus Cristo, se O desejas com todo o ardor de que és capaz, recebê-Lo-ás todo, a Ele e todo o bem que quer fazer. Portanto, nunca jamais aproximemos da mesa eucarística com tibieza, por rotina, quase sem pensar na grandeza e sublimidade do ato que realizamos. Porque Jesus por nosso amor quis se ocultar tão humildemente, não vamos esquecer a sua grandeza e santidade, não O desprezemos nem O tratemos com indiferença. Avivemos a nossa fé e procuremos comungar com a mesma devoção e o mesmo respeito como se víssemos a imagem viva de Jesus na Hóstia em atitude de nos abençoar. Mas, "bem-aventurados os que não viram e creram".

Nunca estamos melhor dispostos a receber as graças deste sacramento, do que quando podemos dizer ao divino Salvador: "Minha alma vos desejou de noite; e despertarei de manhã, para vos buscar com o meu espírito e com o meu coração" "Anima mea desideravit te in nocte, sed et spiritu meo in praecordiis meis de mane vigilabo ad te" (Isaías XXVI, 9). Os primeiros cristãos viviam pela Eucaristia, e por isso, "era como se fossem um só coração e uma só alma". E eles chamavam à Eucaristia "DESIDERATA", porque ela era o centro de todos os seus desejos.

Caríssimos, consideremos duas coisas que contribuem precipuamente para excitar em nós o desejo de comungar: a REFLEXÃO e a MORTIFICAÇÃO. Na verdade, que é o desejo? É um movimento da alma, pelo qual, conhecendo o valor de um bem de que está privado, aspira a possuí-lo. É mister pois refletir sobre os maravilhosos frutos da sacramento dos nossos altares. Uma alma apaixonada pela sua união cada vez mais íntima com Jesus, que é já a santidade, e que conhece a virtude da Eucaristia, seja para destruir em si o pecado até à sua raiz (pois Ela amortece as paixões) seja para a elevar à mais sublime perfeição, arde necessariamente em desejos de A receber. Por esta razão quem não medita nos benefícios da comunhão bem feita, termina comungando sem o desejo ardente, e por conseguinte, pouco fruto tira da comunhão. Continua frio como dantes, embora tenha recebido dentro de si uma fornalha de amor, que é o Coração Eucarístico de Jesus. Coisa triste, lamentável e que, no entanto, não parece ser tão rara assim!!!

Mas ainda aqui é necessário juntar o jejum à oração, isto é, a mortificação dos sentidos à meditação dos bens infinitos, que obtém uma fervorosa comunhão. A procura dos prazeres terrestres diminui as forças da alma, e torna-a menos capaz de desejar os celestes. As alegria sobrenaturais têm pouco atrativo para um coração todo ocupado de gozos puramente humanos; mas se o privam desses gozos, como não poderia viver sem prazer, corre com todas as forças pelo caminho que lhe abrem, mostrando-lhe a doçura que experimentará no banquete eucarístico. Os hebreus deviam cingir os rins para comer o cordeiro pascal; deviam misturar com este alimento alfaces bravas e amargosas: para nos ensinar, com estes símbolos de mortificação, quão conveniente é dispor-nos para a comunhão com os exercícios da penitência.

Diz Deus no Livro do Apocalipse: "Darei ao que vencer um maná escondido" (II, 17). Assim Deus não promete o maná e a sua secreta consolação senão ao vencedor, isto é, ao homem que sabe domar as suas paixões. A Eucaristia é uma fonte de inefáveis delícias, mas para os que dominam a sua sensualidade, e não para os que são escravos dela.

Caríssimos, nada melhor do que terminar estas breves reflexões com as sábias e não menos ardentes palavras de Santo Agostinho: "Ó Senhor aproximar-me-ei com fé da Vossa mesa, participando dela para ser por ela vivificado. Fazei, Senhor, que eu seja inebriado pela abundância da Vossa casa, e dai-me a beber da torrente das Vossas delícias. Porque junto de Vós, está a fonte da minha vida: não fora de Vós, mas ali junto de Vós, está a fonte da vida. Quero beber para viver; não quero atuar por mim, pois posso perder-me, não quero saciar-me no meu coração para não ficar árido; quero antes aproximar a minha boca da fonte onde a água não se esgota. Suprirei as desculpas vãs e mesquinhas e aproximar-me-ei da ceia que me deve fortalecer interiormente. Não me detenha a altivez da soberba: não, não me torne orgulhoso a soberba; nem sequer me detenha a curiosidade ilícita, agastando-me de Vós; não me impeça o deleite carnal de saborear o deleite espiritual. Fazei que eu me aproxime e me fortaleça; deixai que me aproxime embora mendigo, fraco, aleijado e cego. À vossa ceia não vêm os homens ricos e saudáveis que julgam caminhar bem e possuir a agudeza de vista, homens muito presunçosos e por consequência, tanto mais incuráveis quanto mais soberbos. Aproximar-me-ei qual mendigo, porque me convidais Vós que, de rico, Vos fizestes pobre por mim, para que a vossa pobreza enriquecesse a minha mendicidade. Aproximar-me-ei como fraco, porque o médico não é para os que têm saúde senão para os doentes. Aproximar-me-ei como aleijado e Vos direi: 'Dirigi Vós os meus passos pelas Vossas veredas'. Aproximar-me-ei como cego e Vos direi: 'Iluminai os meus olhos, a fim de que eu jamais durma o sono da morte'". Amém!

domingo, 27 de maio de 2018

AS SANTAS DELÍCIAS DA COMUNHÃO BEM FEITA



Quem tem fé viva não pode ficar insensível ao comungar com as devidas disposições, pois, está convicto que recebe o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sabe que permanece em Jesus e Jesus nele, sabe que adquire o penhor da vida eterna, da ressurreição gloriosa no Juízo Final. Estar com Jesus é um doce paraíso, é fonte de consolações espirituais inefáveis.

Ao comungar, ainda que eu não experimente alguma consolação sensível, não é para a minha alma uma grande consolação saber com certeza que Jesus Cristo se dá a mim, e que possuindo-O, possuo o sumo bem, a fonte de todo o bem? Caríssimos, quando o Filho de Deus vem a nós, vem com as mãos cheias de dons, e o coração cheio de amor. Mas ainda que, vindo a nós na comunhão, deixasse no Céu as suas riquezas espirituais e os seus favores, e viesse só, não bastaria Ele para a minha felicidade? Afinal não é Jesus o mais precioso de todos os tesouros? Posso eu ignorar que os gozos e as consolações SENSÍVEIS são um dos menores frutos da comunhão, e que este bom Senhor priva deles muitas vezes os seus mais devotos servos e servas, para os levar a estimar mais os seus dons?

Caríssimos, os santos é que sabem falar sobre isso! Vamos ouvir alguns: "Este pão celeste, dizia S. Cipriano, encerra, à semelhança do maná, todos os gozos imagináveis, e por uma admirável virtude, faz sentir a quem o recebe dignamente aquele gosto que eles desejam, e excede em suavidade todos os outros gostos" (Serm. de Coena Domini). S. Macário afirma que a alma bem disposta acha na comunhão delícias inexplicáveis; que descobre nela riquezas que os olhos não viram nem os ouvidos ouviram" (Hom. IV). S. Boaventura põe nos lábios de Jesus estas palavras: "Ó alma, não tens tu conhecido por experiência, ao receber-Me, que saboreavas o mel com o favo que o contém, a doçura da minha divindade unida ao meu Corpo e Sangue?" Todas as obras dos Santos Padres exprimem os mesmos sentimentos.

E a Sagrada Escritura que é a Palavra de Deus escrita por inspiração do Espírito Santo, que diz à respeito da Eucaristia? Ela dá a entender, pelos símbolos de que se serve quando fala da Eucaristia, quão delicioso é este sagrado alimento para as almas bem dispostas. O próprio Jesus lembra o maná que, segundo as Escrituras Sagradas, era um pão descido do céu e que continha em si todos os gostos. E acrescenta o Divino Mestre que Ele mesmo é o Pão vivo descido do Céu; que sua Carne é verdadeira comida, e o seu Sangue verdadeira bebida e que, quem come a sua Carne e bebe o seu Sangue, permanece n'Ele e Ele no que o recebe. E pode haver maior delícia do que ter Jesus como alimento da nossa alma, e nela permanecendo?! O Divino Mestre quis ressaltar que os judeus que comeram o maná no deserto, morreram apesar disso, mas quem come sua Carne e bebe o seu Sangue não morrerá eternamente. E pode haver delícia maior do que ter a certeza de, neste mundo estar sempre com Jesus e mais ainda, ter a segurança de possuí-lo eternamente no Céu?  S. João Bérchmans dizia ternamente: "Ó meu Salvador, que há, depois da divina comunhão, que possa dar-me cá na terra doçura e contentamento?" 

São Francisco de Sales dizia que é muito avaro aquele a quem Deus não basta. Ao comungarmos com as devidas disposições é certo que Jesus nos dá o seu Corpo em alimento, o Seu Sangue como bebida, a sua vida como resgate, a sua divindade como amparo, o seu paraíso como herança. Ele esclarece o nosso entendimento, aumenta o nosso amor, purifica o nosso coração, mortifica os nossos sentidos, enfraquece as nossas paixões; comunica-nos as suas virtudes, em uma palavra: SANTIFICA-NOS!

A nossa alma, pela comunhão bem feita, é embalsamada de celestiais perfumes, abrasa-se em amor divino, canta os louvores Àquele que é todo dela; e dá-se toda a Ele. Dedica-se ao Seu serviço, experimenta suma repugnância a todos os prazeres da terra, e torna-se insensível a todas as adversidades da vida, de sorte que nem a comovem as injúrias, nem as contradições, nem o abandono das criaturas. A vista da perfeições de Jesus e o amor das suas bondades dão à alma do comungante bem disposto, a força para disposições tão heroicas e santas.

Caríssimos, creio que não seja supérfluo observar que estas grandes delícias da comunhão não são concedidas a todos, nem no mesmo grau aos que a recebem; na verdade, são poucas as almas tão puras, tão desapegadas do mundo e de si mesmas, tão crucificadas com Jesus Cristo que saboreiem toda a doçura dessas puras consolações. Quanto ao gozo espiritual, gozo este produzido pelo conhecimento dos grandes bens contidos neste sacramento, não há cristão algum, que não possa senti-lo. Basta para isto estimar os bens da graça, desejar a salvação, suspirar pelo Céu, e não esquecer que a Eucaristia é o melhor meio de realizar estes santos desejos.

Caríssimos, devemos meditar sempre nos misericordiosos desígnios que Jesus teve ao instituir este sacramento que é o amor dos amores. Quis unir-se a nós, quis tronar-Se semelhante a nós, quis encher-nos de delícias, e deste modo, inspirar-nos um amor mais perfeito, em que consiste a vida santa. Este Pão descido do Céu, é o princípio aqui na terra de uma vida santa; e é o penhor da vida eterna no Céu. Ó que nobre e ditosa vida esta de amar a Jesus e ser amado por Ele! Amém!

A SANTÍSSIMA TRINDADE NA ALMA ( Extraído dos escritos teológicos de Tanquerey)

   Era na última Ceia. Jesus Cristo acabava de anunciar aos apóstolos a vinda do Espírito Santo, do divino Paráclito, que ficaria para sempre com eles (S. João, XIV, 19 e 20 ), quando lhes fez esta consoladora promessa: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (S. João, XIV, 23 ).

   Assim, pois, toda a alma que ama a Jesus e guarda os seus mandamentos é amada pelo Pai, e o Pai vem a ela, com o Filho e o Espírito Santo, e vem não para uma simples visita, mas para se fixar e nela fazer a sua morada; portanto, não por um prazo limitado, mas para sempre, enquanto não tiver a infelicidade de o expulsar com um pecado grave.

   Mas como vem até nós a Santíssima Trindade?

   Deus, diz-nos Santo Tomás, está naturalmente nas criaturas de três modos diferentes: pelo seu poder, porque todas elas estão sujeitas ao seu império; pela sua presença, porque ele vê tudo, mesmo os mais secretos pensamentos da alma; pela sua essência, visto que opera em toda a parte e em toda a parte Ele é a plenitude do ser e a causa primária de tudo o que há de real nas criaturas, comunicando-lhes sem cessar não apenas o movimento e a vida, mas o próprio  ser: "porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos, XVII, 28). 

   Entretanto, a Sua presença em nós pela graça é de uma ordem muito superior e mais íntima. É a presença da própria Santíssima Trindade, tal como a fé no-la revelou; o Pai vem até nós e em nós continua a gerar o Verbo; com Ele recebemos o Filho, perfeitamente igual ao Pai, sua imagem viva e substancial, que não cessa de amar infinitamente o Pai como por Ele é amado; deste amor mútuo brota o Espírito Santo, pessoa igual ao Pai  ao Filho, laço mútuo entre os dois, e no entanto distinto de um e de outro. Quantas maravilhas se operam numa alma em estado de graça!

   Se quisermos exprimir em duas palavras a diferença essencial que existe entre a presença de Deus em nós pela natureza e  sua habitação pela graça, podemos dizer que pela sua presença natural Deus está e opera em nós, mas que pela sua presença sobrenatural Ele próprio se nos dá para que gozemos a sua amizade, a sua vida e as suas perfeições: " O amor de Deus está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom. V, 5). Assim, pois, é-nos dado o Espírito Santo e com ele a Santíssima Trindade, pois as três pessoas divinas são inseparáveis.; é nosso e, se disso tivéssemos uma consciência viva e profunda, compreenderíamos que a graça é já um início da vida eterna, desta inefável alegria que se experimenta com a posse de Deus.

   Que relações estabelece a graça entre nós e as três pessoas divinas?

   Para aprofundarmos um pouco mais os nossos conhecimentos desta presença íntima, nada mais apropriado e seguro do que a própria palavra de Deus. Por isso escolhemos alguns textos das Sagradas Escrituras, sobre a ação do Pai e do Filho e do Espírito Santo em nós pela graça.

   a) Pela graça o PAI adota-nos como filhos. Este insigne privilégio brota da nossa incorporação em Cristo; desde o momento em que somos membros de Jesus Cristo e como que um prolongamento, uma extensão da sua pessoa, o Pai envolve-nos com o mesmo olhar paternal que a seu Filho, adota-nos como filhos, ama-nos como Ele o ama, não com um amor igual, mas com um amor semelhante. É o que declara o discípulo amado, São João, que foi de todos o que mais aprofundou os segredos do Mestre: "Vede que amor nos testemunhou o Pai, determinando que sejamos chamados filhos de Deus, e que o sejamos com efeito!" ( 1ª Jo. III, 1). Como vimos na postagem sobre a graça santificante, a nossa adoção não é puramente nominal, mas verdadeira e real, embora distinta da filiação do Verbo Encarnado. Porque somos filhos, somos herdeiros de pleno direito do reino celeste, e co-herdeiros daquele que é nosso irmão primogênito (Rom, VIII, 17).  Em vista disto, Deus manifesta para conosco a dedicação e a ternura de um pai. Mais ainda: de uma mãe: "Poderá a mulher esquecer o seu filho? Não terá compaixão do fruto das suas entranhas? Porém, ainda que ela se esquecesse, eu nunca me esqueceria de ti" (Isaías, XLIX, 15). "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu  Filho unigênito, para que todo o que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna" (S.João, III, 16).

   Poderia Ele dar-nos uma maior prova de amor? Poderemos nós recusar algo Àquele que, para nos salvar e santificar, nos dá o Seu próprio Filho, o Seu Filho unigênito?

   b) O FILHO veio também habitar na nossa alma; chama-nos seus irmãos e trata-nos como amigos íntimos. Ele que é o Filho eterno do Pai, o Verbo gerado desde toda eternidade, em tudo igual ao Pai, trata-nos assim com toda bondade e ternura. Após a Ressurreição, aparece a Madalena, que o seguira até ao Calvário, e, falando-lhe dos discípulos, diz-lhe:"Vai aos meus irmãos e diz-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus" (S. João, XX, 17). São Paulo diz: "Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rom. VIII, 29). Ele terá, pois, para conosco a ternura, a dedicação que um irmão mais velho consagra aos mais novos; irá ao ponto de se sacrificar por nós, a fim de que, lavados e purificados no seu sangue (Apoc. I, 5), possamos participar de Sua vida e entrar com Ele um dia no reino do Pai.

   Quis ser também nosso amigo. Na última Ceia, declara aos apóstolos e, na pessoa deles, a todos os que acreditarem n'Ele: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (S. João, XV, 14 e 15).

   O Filho de Deus deu-nos a maior prova de amor: deu a sua vida por nós. Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos" (S. João, XV, 13). E deu-a numa altura em que, pelo pecado, éramos seus inimigos. Se assim foi, o que não fará por nós,agora que fomos reconciliados pela virtude do seu sangue? Ouçamos o que Ele nos diz: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir  a minha voz e abrir a porta, entrarei nele, cearei com ele e ele comigo" (Apc. III, 20). Podia, se quisesse, entrar como Senhor. Mas não, espera que lho abramos de boa vontade: não quer forçar a entrada, quer que nós mesmos lha vamos abrir, e só depois entrará como amigo. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia com uma candura extraordinária: "Jesus, eu queria amá-lo tanto, amá-lo como nunca foi amado". Em nossas orações, comunhões e visitas ao Santíssimo, procuremos tentar conversar afetuosamente com Jesus, nosso irmão muito amado, com Ele que vem mendigar junto de nós um pouco de amor: "Meu filho, dá-me teu coração" (Prov. XXIII, 26).

   c) O ESPÍRITO SANTO vem habitar em nosso coração a fim de o santificar e adornar com todas as virtudes, produzindo nele a caridade e dando-se a si próprio: "A caridade de Deus é espalhada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rom. V, 5).

   Ao dar-se  ao homem, o Espírito Santo transforma a nossa alma num templo sagrado: "Não sabeis, diz-nos São Paulo, que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós? ... O templo de Deus é santo, e vós sois santos" (1ª Cor. III, 16 e 17). Ele é, com efeito, o Deus de toda a santidade, e, quando vem à nossa alma, esta torna-se um recinto sagrado e onde se compraz em derramar as suas graça com santa profusão.

   Deste modo o Espírito Santo torna-se nosso colaborador no obra da santificação pessoal e ajuda-nos a cultivar a vida sobrenatural que depositou em nós. Por si, o homem nada pode na ordem da graça (S. João, XV,5); mas o Espírito Santo vem suprir a sua fraqueza. Temos necessidade de luz? Eis que Ele desce para nos fazer compreender e saborear os ensinamentos do Mestre: "O Consolador, o Espírito Santo , que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse" S. João, XV, 26). Precisamos de força para pôr em prática as divinas sugestões? O mesmo Espírito "opera em nós o querer e o agir" (Filip. II, 13), isto é, dá-nos a graça de querer e  de pôr em prática as nossas resoluções. Não sabemos orar? "O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que, segundo as nossas necessidades, devemos pedir; porém, o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis" (Rom, VIII, 26). Ora, as preces feitas sob a ação do Espírito Santo e apoiadas por Ele são forçosamente ouvidas.

   Se se trata de combater as nossas paixões, de vencer as tentações que nos importunam, é Ele ainda que nos dá forças para lhes resistirmos e tirar delas proveito: "Deus, que é fiel, não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dar-vos-á o poder de lhe resistir" (1ª Cor. X, 13). Quando, cansados de praticar o bem, caímos no desânimo e receamos pela nossa perseverança, Ele virá até nós par sustentar a nossa coragem abalada e dir-nos-á afetuosamente: "Aquele que começou em vós a obra da vossa santificação há de aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus" (Filip. I, 6).

   Não temos, pois, que temer, desde que ponhamos a nossa confiança nas três pessoas divinas, que vivem e operam em nós expressamente para nos consolar, fortificar e santificar. Nunca estamos sós: temos em nós Aquele que faz a felicidade dos escolhidos! Eis porque, se tivéssemos uma fé viva, poderíamos repetir com a irmã Santa Isabel da Trindade: "Encontrei o céu na terra, porque o céu é Deus, e Deus está na minha alma. No dia que compreendi isto, tudo se esclareceu em mim, e eu quereria dizer este segredo àqueles que amo". Quantas almas foram transformadas, a exemplo desta Carmelita, no dia em que compreenderam, sob a ação do Espírito Santo, que Deus habita nelas! Quantas conheceram então um novo rumo na sua vida, uma ascensão contínua para Deus e para a perfeição, sobretudo se se esforçaram por viver na intimidade com o hóspede divino. E é justamente isto que vamos ensinar na postagem seguinte: OS NOSSOS DEVERES PARA COM O HÓSPEDE DIVINO.
  
  

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A BELEZA QUE ENCANTA

                                                                                                                               Dom Fernando Arêas Rifan*
            Foi lançado recentemente um bom filme, intitulado “Paulo, o Apóstolo de Cristo”, mostrando os primórdios do cristianismo, na pessoa do seu maior evangelizador, que, como os primeiros cristãos, sofreu e deu a vida por algo que valia a pena! 
          Saulo - esse era o seu nome antes da conversão – foi formado no judaísmo como fariseu convicto, por isso odiava o cristianismo, que ele julgava ser uma doutrina perversa, contra as suas tradições, como ele mesmo atesta: “Eu persegui de morte essa doutrina, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres” (At 22,4).  
        Mas, o que teria transformado Saulo, de perseguidor fanático em Apóstolo apaixonado por Jesus Cristo e seu Evangelho, conversão total, imediata e extraordinária? Foi, na estrada de Damasco, seu encontro pessoal com Cristo vivo, que ele julgava morto.  

            Esse seu encontro com Jesus marcou a sua vida. Ele ficou assombrado com Jesus.  Deslumbrado, fascinado, apaixonado por Jesus. É claro que não foi uma emoção passageira, algo apenas sentimental e irracional. Foi algo profundamente sentido e racional, que transformou a sua vida e que permaneceu nele até o fim, fazendo-o capaz de desprezar tudo o mais, de sofrer por ele, de querer salvar a todos, e de morrer por ele: “Julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento do Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e estar com ele..., porque eu também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fl 3, 8-12).  
            O que nos fascina e encanta é a beleza, o belo. Nós só podemos viver com intensidade na medida em que nos sentimos fascinados por alguém ou por algo que consideramos belo. Assim acontece em qualquer trabalho, profissão, luta, estudo, contemplação, utopia, etc. A apatia generalizada dos nossos dias se explica pela ausência deste fascínio por algum ideal.
           A pessoa de Jesus encantou Saulo pela sua beleza. Mas o que é a beleza, que deve nos fascinar? Na filosofia aprendemos que o bem, a verdade e o belo se confundem. A beleza corresponde à compreensão do verdadeiro e do bem, ou seja, do verdadeiro enquanto tem razão de bem. Da verdade, que satisfaz o intelecto, e do bem, que satisfaz a vontade, procede o belo. A estética (que estuda o belo - pulchrum) está integrada na Lógica (que estuda a verdade -verum) e na ética (que estuda o bem - bonum) e delas como que brota.
      
Esse Jesus, que encantou Paulo pela sua beleza e que deve nos encantar, é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Jesus é a beleza personificada, que inclui a verdade e o bem. Essa é a “via pulchritudinis o caminho da beleza! Aconteceu com Paulo aquilo que deve acontecer com qualquer um de nós, quando nos convertemos realmente: “Torna-se cristão não a partir de uma decisão ética ou de uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo (Bento XVI, Deus Caritas est, n. 1).” 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

sábado, 19 de maio de 2018

PREPARAÇÃO PARA A VINDA DO ESPÍRITO SANTO



A Santa Madre Igreja ensina-nos a rezar: "Vinde Espírito Criador, visitai as almas daqueles que são vossos; enchei de graça infinita os seus corações". Caríssimos, quais são os motivos destes santos desejos? Percorrendo os mistérios de nossa salvação, vemos como as três Pessoas da Santíssima Trindade, por assim dizer, fazem da felicidade do homem a sua ocupação especial e contínua. Amemos a Deus, porque Ele nos amou primeiro. É por causa de nós que o Pai criou tudo pelo seu poder, e conserva e dirige tudo pela sua Providência. É por causa de nós que o Filho é Salvador, e o Espírito Santo completa a obra da nossa salvação com as graças santificantes que nos prodigaliza. Caríssimos, como poderíamos ficar insensíveis diante deste amor infinito das três Pessoas divinas?! Devemos render a cada uma um culto particular, pelos benefícios que recebemos delas. Pois bem, o tempo de Pentecostes é destinado a este culto especial ao Divino Espírito Santo. Pois, é ele que sugere à Igreja as piedosas devoções que ela fomenta ou ordena. Devemos desejar ardentemente a visita do divino Paráclito: "Veni Creator Spíritus, mentes tuorum visita, imple superna gratia quae tu creasti pectora".

"O mesmo Espírito, dizia Bourdaloue, que desceu visivelmente sobre os Apóstolos, desce ainda atual e verdadeiramente sobre nós, não com o mesmo esplendor nem com os mesmos prodígios, mas com os mesmos efeitos de conversão e santificação" (Exórdio do Sermão do Espírito Santo). Assim, podemos dizer que, enquanto quase todas as festas do ano se limitam a lembrar-nos um mistério, cumprido de uma vez para sempre (como por ex. o Santo Natal); quando estamos preparados, a festa do Pentecostes é para nós uma nova realização deste mistério.

O Espírito Santo purifica-nos, ilumina-nos, abrasa-nos no divino amor e põe-nos em estado de realizar todos os desígnios da misericórdia do Senhor relativamente à nossa salvação. Pela fé, esperança e caridade, de que Ele é o princípio em nós, coloca-nos na posse de Jesus Cristo; pois, aplica-nos seus merecimentos, constitui-nos seus membros, comunica-nos sua vida, e imprime assim o selo à nossa redenção, que Ele completa. É como que uma fonte divina, que se infunde na alma por sete admiráveis canais: são os seus sete dons. Três deles aperfeiçoam a vontade: o temor de Deus, a piedade e a fortaleza; os outros quatro, que são o conselho, a ciência, a sabedoria e a inteligência, operam de um modo imediato sobre a nossa inteligência. Assim, o TEMOR DE DEUS, temor filial que torna uma alma timorata (não escrupulosa) e delicada em matéria de infidelidades, e lhe inspira sumo respeito para com a Divina Majestade. A PIEDADE nos dá o gozo espiritual que nos faz experimentar em todos os exercícios que se referem à honra e ao serviço de Deus na meditação, na oração vocal, e também nos cânticos espirituais etc. A FORTALEZA é a coragem que nos faz desprezar todos os bens, todos os males da vida presente, e nos tornar capazes dos mais generosos sacrifícios. O dom do CONSELHO:  por ele o Espírito Santo fala-nos, ora como um amigo que dá conselho ao seu amigo nas ocorrências difíceis, sugerindo-nos um ótimo expediente para sairmos delas; ora, como um mestre que nos ensina a mais nobre de todas as ciências, a CIÊNCIA dos Santos, com a qual nós julgamos discretamente de todas as coisas, dando-lhes exatamente o grau de estima ou de desprezo que lhes é devido. Assim, descobrimos claramente o nada de tudo o que passa; vemos na pobreza o preço de um reino eterno, nas enfermidades do corpo a saúde da alma, na mesma morte um princípio de imortalidade. O dom da SABEDORIA preserva-nos da horrível loucura dos pecadores no que respeita à salvação; retira as nossas afeições das criaturas para as levar para Deus; eleva os nossos corações de terra ao Céu. O dom da INTELIGÊNCIA ou ENTENDIMENTO faz-nos penetrar os mistérios e dá-nos uma luz tão viva, que a fé torna-se tão forte como se a gente estivesse no Céu vendo o que cremos. Este dom, outrossim, tira toda obscuridade àquelas verdades práticas, cruciantes para a natureza, como são a abnegação e o amor da cruz. Ele faz-nos compreender o que os mundanos sempre ignorarão, isto é, como pode achar-se a felicidade nos sofrimentos, a honra no desprezo, e como são os Santos os únicos sábios nesta terra.

Caríssimos, devemos alimentar em nós a firme esperança de obter a visita do Espírito Santo. E esta esperança funda-se na mesma natureza do Espírito Santo, nos direitos mais incontestáveis e nas promessas mais infalíveis. "Bonum est sui diffusivum", "O que é bom, procura comunicar-se"; ora, o Espírito Santo é a mesma Bondade; é como o coração de Deus. Além disso, pedindo o Espírito Santo, na verdade, estamos reclamando o nosso bem, pois Ele nos foi obtido pela morte de Jesus Cristo. Temos também as promessas de Deus que não podem enganar-nos. Caríssimos, por nós mesmos não podemos absolutamente nada, em ordem à salvação. Só o Espírito Santo é que pode ajudar eficazmente nossa fraqueza! Desejemos, portanto, ardentemente a vinda e permanência em nós deste Doce Hóspede Divino!!! Diz S. Gregório Nazianzeno: "Sitit sitiri", quer dizer em português: "Deus tem sede da nossa sede". Obriguemo-Lo, pedindo-Lhe que nos obrigue. Amém!


sexta-feira, 18 de maio de 2018

PREPARAR O CORAÇÃO PARA O ESPÍRITO SANTO



 Esta preparação consta de doas coisas: remover os obstáculos e empregar os meios para atrair a nós o Espírito Santo.

Primeiramente é mister remover os obstáculos, ou seja, o pecado, o espírito do mundo, a concupiscência. Falemos um pouco de cada um deles. Caríssimos, o pecado é o grande inimigo do Espírito Santo: o mortal simplesmente expulsa da alma o doce Hóspede Divino; o venial contrista-o, o que também não é algo de somenos gravidade, já que o ofendido é Deus. O pecado mortal obriga o Espírito Santo a se retirar da alma. Por isso adverte S. Paulo: "Não queirais expulsar o Espírito Santo" (1 Tessalonicenses V, 19). O pecado grave destrói a caridade que este divino Espírito derrama em nosso coração segundo afirma o Apóstolo: "A caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Romanos V, 5). Portanto o pecado mortal contraria todos os intuitos de santificação que o Espírito Santo tem a nosso respeito. E assim, o nosso  primeiro cuidado, caríssimos, deve ser combater o pecado mortal, caso haja na alma ainda algum apego a ele, seja lá contra qualquer mandamento. Na explicação de Santo Agostinho, os nossos corações são os vasos destinados a receber o precioso licor da graça divina; daí é necessário que comecemos por purificá-los. E já é uma grande graça o arrependimento que o Espírito Santo nos inspira; o remorso é o primeiro passo, e ele pode levar ao arrependimento, condição sem a qual não há perdão nem mesmo recebendo a absolvição sacramental. Devemos estar profundamente convencidos que o pecado mortal é um mal absoluto, extremo; e depois do mortal, o pecado venial é o maior mal que existe sobre a face da terra, já que trata mal, não a um bispo, a um papa, mas o próprio Deus Onipotente, perfeitíssimo e a própria Bondade.

Embora o pecado venial não chegue ao extremo de expulsar o Espírito Santo, no entanto, contrista este doce Hóspede da alma, o nosso Consolador e Santificador. Por isso diz também o próprio Espírito Santo através do escritor sagrado S. Paulo: "Não queirais contristar o Espírito Santo" (Efésios IV, 30). Os pecados veniais (portanto plenamente deliberados) e máxime se frequentemente repetidos, leva à tibieza que torna a alma de tal modo desagradável a Deus que Ele chega a dizer: "Porque não és nem quente nem frio, mas morno (=tíbio) começarei a vomitar-te de minha boca" (Apoc. III, 15 e 16).  Deus merece que o sirvamos com amor ardente, e o tíbio o faz de maneira negligente. Isto como que causa náuseas ao Espírito Santo. E Ele já não dá ao tíbio tantas forças e tanta luz como faz com os fervorosos. Por bondade, o Espírito Santo aflige os tíbios com salutares remorsos no intuito de abrir os olhos destas almas  que ficam como que cegas pelas suas frequentes negligências no amor e serviço de Deus. O divino Paráclito lança em rosto dos tíbios a facilidade com que Lhe fazem tantas ofensas que julgam leves. O Espírito Santo trazendo à memória dos negligentes esta vida que causa náuseas a Ele, pergunta-lhes se depois de tantos perdões, não deveriam estes tíbios sentir o remorso do coração. Assim o Espírito Santificador excita os tíbios a deplorar suas negligências, sua vontade fraca, seu amor debilitado, e, por conseguinte, seus pecados veniais.

Caríssimos, o espírito do mundo é outro obstáculo à presença e ao reino do Espírito Santo. Este espírito do mundo eleva o estandarte: orgulho, avareza, luxúria.  São Paulo pergunta: "Que união pode haver entre a luz e as trevas" (Cf. 2 Cor. VI, 14), entre a verdade e a mentira? Eis a razão porque o Salvador, rogando a seu Pai que envie o Espírito Santo a seus discípulos, para os santificar na verdade, observa que eles não são do mundo, como também Ele não é do mundo (Cf. S. João XVII, 17; que não roga pelo mundo, incapaz que é de receber este Espírito de Verdade, porque O não vê, e porque é tão grande a sua cegueira, que precisa de apalpar e ver, antes de admitir e crer (Cf. S. João XVII, 14, 17 e 19).

Na verdade as apreciações do mundo e as do Espírito Santo são diametralmente opostas; sucede o mesmo, diz S. Bernardo, com os sentimentos que inspiram: O Espírito Santo aparta os corações do amor das criaturas para os unir a Deus; o mundo aparta-os de Deus para os unir às criaturas.

Caríssimos, durante esta novena do Espírito Santo devemos, mais do que em outro tempo, examinar com cuidado nossos pensamentos e afetos, para conhecer se é o espírito de mentira ou o espírito de verdade que nos anima. Combatendo o espírito do mundo, combateremos ao mesmo tempo o da carne, terceiro obstáculo aos desígnios misericordiosos do Espírito Santo a nosso respeito.

São Paulo diz que a carne e o espírito são duas potências que estão sempre em guerra: "Efetivamente, a carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito desejos contrários à carne; são contrários entre si, para que não façais tudo aquilo que quereis" (Gálatas V, 17). Quando, porém, o Espírito Santo encontra a alma dócil e forte em renunciar à carne por amor a Deus, então a dirige para que tudo seja feito segundo o espírito. É neste sentido que diz Santo Agostinho: "Ama e podeis fazer o que quiseres". O amor de Deus é forte como a morte, e assim vence sempre a carne. Os modernistas são mestres em deturpar o sentido desta palavra de Santo Bispo de Hipona, mas o verdadeiro sentido é este e nem se pode imaginar que o maior gênio do Cristianismo tenha ensinado esta aberração modernista: ama e podes fazer tudo que tua carne apetecer, nada será pecado!

Fujamos o máximo do barulho e das vaidades do mundo; procuremos uma vida de mais recolhimento penitente, cheia de caridade para com o próximo; vida de oração auxiliada pela mediação de Maria Santíssima, como na Santa Novena do Cenáculo. Amém!

sábado, 12 de maio de 2018

ALEGRIA NO SOFRER



 Parece algo estranho, mas, na verdade, Jesus alegrou-se em sofrer porque sabia que seus sofrimentos e morte seria a vitória que Lhe havia de garantir a conquista do mundo: "Quando eu for elevado da terra, (ou seja, quando for crucificado) atrairei tudo a mim" (S. João XIII, 32). Jesus desejou ardentemente o momento de sua Paixão e Morte: "Eu tenho que ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua!" (S. Lucas, XII, 50). E este batismo de sangue Jesus anunciou-o  por diversas vezes aos seus apóstolos como o coroamento de toda a sua missão: "Ponde bem estas palavras em vossos corações: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens que o matarão" (S. Lucas IX, 44); "O Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e esses mesmos o entregarão aos gentios; ele será exposto à zombarias e às injúrias, coberto de escarros, flagelado, depois morto, e ao terceiro dia ressuscitará" (S. Mateus XX, 18 e 19). E ao começar a Paixão disse: "Eis que agora o Filho do homem é glorificado e que Deus é por ele glorificado" (S. João XIII, 31).

E Nosso Senhor Jesus Cristo queria que seus discípulos tivessem também estes mesmos sentimentos: "Bem-aventurados (=felizes) os pobres"; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos... Sereis felizes quando vos insultarem e disserem injustamente toda sorte de mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (S. Mateus V, 10). Jesus queria que seus discípulos tivessem o amor da cruz, levado até ao amor dos sofrimentos. É claro que estranho seria alguém sofrer como um estoico, mas o normal para um cristão é imitar o seu Divino Mestre, amando como Ele e por amor a Ele, os sofrimentos.

O mundo não compreende esta verdade; aliás, nem os Apóstolos, antes do Pentecostes, a entendiam. Vede: Jesus Cristo, sempre tão bondoso e manso, empregou palavras muito severas ao censurar Pedro porque o chefe dos apóstolos não queria admitir que Jesus precisasse padecer e morrer: "Afasta-te, Satanás (=tentador) - disse-lhe Jesus - porque tu me escandalizas, nada compreendes das coisas de Deus, não tens senão pensamentos humanos" (S. Mateus XVI, 23). Também tratou de estultos os discípulos de Emaus, porque não compreendiam que Lhe fosse preciso sofrer para entrar na glória: "Ó estultos e tardos de coração para crer!" (S. Lucas XXIV, 26).

Mais tarde, porém, já santificados e esclarecidos, alegraram-se por terem sido flagelados pelo nome de Jesus (Atos V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e de S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (Atos XIV, 21). Também, a exemplo de seu Mestre, S. Paulo recomenda aos fiéis que suportem tudo, não só com paciência, mas também com alegria: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu [de Deus] poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria"... (Col. I, 11). E S. Tiago escreve: "Meus irmãos, tende por um motivo da maior alegria para vós as várias tribulações que vos afligem..." (S. Tiago I, 2).

Caríssimos, o sofrimento, como veremos a seguir, é tão salutar, que toda alma de fé deveria sentir-se feliz em sofrer. Pois o sofrimento triunfa do pecado e do demônio, que reina pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Na verdade, o pecado não é outra coisa senão o desprezo de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Daí o remédio do pecado está nas privações e nos sofrimentos. Jesus disse: "O reino dos céus padece violência, e só os violentos (i. é, os fortes no sofrimento e nas renúncias) arrebatam-no". 

As cruzes, as renúncias, os sofrimentos e as privações tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, o repouso e as doçuras da vida amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz quando a vê acrisolada pela dor. O sofrimento, outrossim, alimenta a mantém o amor de Deus e do próximo. Caríssimos é mais fácil padecer bem do que agir bem porque hã menos perigo de amor próprio, menos de espírito puramente humano. "Sofrer - dizia S. Francisco de Sales, é quase que o único bem que possamos fazer na terra... uma onça de paciência vele mais que uma libra de ação".

Ademais, os sofrimentos preparam delícias imensas e eternas na Pátria Celestial. As dores suportadas por amor de Deus produzem suaves alegrias: "Vossa tristeza  -  disse Jesus aos seus apóstolos  -  se converterá em alegria" (S. João XVI, 20).
Caríssimos, se uma chuva torrencial, uma tempestade devastar todas as nossas plantações, teríamos imensa alegria, caso os granizos fossem grãos, uns de ouro e outros de diamantes. Pois bem assim, são os sofrimentos desta vida quando aceitos e suportados por amor a Jesus e em união com Ele, são tesouros que ajuntamos para a Vida Eterna. Amém!

sábado, 5 de maio de 2018

A ALMA NO ESTADO DE GRAÇA É MORADA DA SS. TRINDADE



Na parte superior: Vemos um símbolo de uma alma no estado de graça.
Na parte inferior: um símbolo de uma alma em pecado mortal. 
Há duas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo que deixam esta verdade bem clara. Uma sobre o Espírito Santo, terceira Pessoa da Santíssima Trindade; outra sobre o Pai, a primeira Pessoa, e sobre o Filho, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Antes da Ascensão, para consolar os homens da sua ausência, disse-lhes: "Se me amais, observareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito [=Consolador], para que fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós" (S. João XIV, 15-18). E Jesus continua: "Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós. Resta ainda um pouco, e depois já o mundo me não verá. Mas ver-me-eis vós, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós. Aquele que retém os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei também, e me manifestarei a ele... Se alguém me ama guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada" (S. João XIV, 15 e 18-22 e 23).

Assim por estas palavras do Divino Mestre compreendemos perfeitamente que toda a alma que ama a Jesus e guarda os seus mandamentos, isto é, toda alma no estado de graça, é amada pelo Pai, e o Pai vem a ela, com o Filho e o Espírito Santo. A Santíssima Trindade vem não para uma simples visita, mas para se fixar e nela fazer a sua morada. Daí, não existe coisa mais bela e sublime entre os homens do que as almas em estado de graça, pois, são moradas da Santíssima Trindade, são templos de Deus. Que felicidade para Maria Santíssima ter junto de si em sua pobre casa, o Filho de Deus, e isto por trinta anos! Mas, cheia de graça, puríssima, santíssima, o Senhor estava sempre com ela. A Santíssima Trindade preparou para si esta digna morada. Mas, as outras almas, embora nunca tão santas como a Mãe de Deus, mas estando em estado de graça, são também morada da Santíssima Trindade, e isto não por um prazo limitado, mas para sempre, enquanto não tiver  a infelicidade de, com um pecado mortal, expulsar de si a próprio Deus.

É óbvio que quem ainda não sabe, gostaria de saber como a Santíssima Trindade vem até a uma alma em estado de graça. Ouçamos Santo Tomás de Aquino: "Deus está NATURALMENTE na criaturas de três modos diferentes: pelo seu PODER, porque todas elas estão sujeitas ao seu império; pela sua PRESENÇA , porque Ele vê tudo, mesmo os mais secretos pensamentos da alma; pela sua ESSÊNCIA, visto que opera em toda a parte e em toda a parte Ele é a plenitude do ser e a causa primária de tudo o que há de real nas criaturas, comunicando-lhes sem cessar não apenas o movimento e a vida, mas o próprio ser: "porque é n'Ele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos XVII, 29). Entretanto, a Sua presença em nós pela graça é de uma ordem muito superior e mais íntima. Não é somente a presença do Deus criador e conservador que sustenta os seres que criou, mas a da própria Trindade, tal como a fé no-La revelou; o Pai vem até nós e em nós continua a gerar o Verbo; com Ele recebemos o Filho, perfeitamente igual ao Pai, sua imagem viva e substancial, que não cessa de amar infinitamente o Pai como por Ele é amado; deste amor mútuo brota o Espírito Santo, pessoa igual ao Pai e ao Filho, laço mútuo entre os dois, e no entanto distinto de um e de outro" (Cf. Summa Theologica, 1ª Parte, q. VIII, a. 3º).

Caríssimos, quantas maravilhas se operam numa alma em estado de graça! Façamos uma comparação no intuito de entendermos melhor esta maravilha: É só vermos a diferença essencial que existe entre a presença de Deus em nós pela natureza e a sua habitação pela graça. Podemos dizer que pela presença NATURAL de Deus na alma, Ele está e opera em nós, mas pela Sua presença sobrenatural pela graça, Ele próprio se nos dá para que gozemos a sua amizade, a sua vida e as suas perfeições. É o que exprime o Apóstolo S. Paulo: "O amor de Deus está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom. V, 5). Assim, pois, nos é dado o Espírito Santo e com Ele também o Pai e o Filho, pois as três pessoas divinas são inseparáveis; é nosso e, se disso tivéssemos uma consciência viva e profunda, compreenderíamos que a graça é já um início da vida eterna, dessa inefável alegria que se experimenta com a posse de Deus.

Eis porque, caríssimos, se tivéssemos fé viva, poderíamos repetir com Sóror Isabel da Trindade: "Encontrei o céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma. No dia em que compreendi isto, tudo se esclareceu em mim, e eu quereria dizer este segredo àqueles que amo". Quantas almas foram transformadas, a exemplo desta Carmelita, no dia em compreenderam, sob a ação do Espírito Santo, que Deus habita nelas! Quantas conheceram então um  novo rumo na sua vida, uma ascensão contínua para Deus e para a perfeição! Amém!

quinta-feira, 3 de maio de 2018

A AÇÃO DO PENTECOSTES SOBRE OS APÓSTOLOS



É só olhar para a atitude dos Apóstolos antes e depois. Antes, ou seja, na Paixão de Jesus, e depois que receberam o Espírito Santo.

 E vamos começar por S. Pedro, o chefe dos Apóstolos. Na véspera da Paixão de Jesus, Pedro promete seguir a Jesus até à morte. Mas, logo naquela noite, à voz duma criada, nega o divino Mestre; mente, jura, fazer imprecações dizendo que não conhece aquele homem. Se envergonha de Jesus a tal ponto que nem pronuncia Seu Santíssimo Nome! Vamos vê-lo agora no dia do Pentecostes. Anuncia Cristo a milhares de judeus; mais, lança-lhes em rosto, em linguagem cheia de ousadia o terem-No crucificado; prova a sua Ressurreição, exortando-os a fazerem penitência e a receberem o Batismo (Cf. Atos II, 23, 24 e 39). Vemos que não é mais aquele apóstolo tímido que receia o perigo e "fica de longe"; é, ao contrário, a testemunha que proclama diante de todos, com palavras corajosas, que Jesus Cristo é o Filho de Deus. É outro, nem parece ser a mesma pessoa de 50 e poucos dias antes! O que aconteceu? É que a virtude do Espírito Santo transformou-o; o amor que consagra a Jesus é agora forte e generoso. O próprio Nosso Senhor tinha predito esta transformação, quando disse aos Apóstolos, antes da Ascensão: "Ficai em Jerusalém até serdes revestidos da luz do alto".

Vejamos agora a atitude não só de Pedro mas também de todos os Apóstolos: Poucos dias depois da descida do divino Espírito Santo sobre eles, pregam aos judeus e estes se comovem com as suas palavras, com os milagres que operam, com as conversões que fazem invocando o nome de Jesus. Os príncipes dos sacerdotes e os saduceus que mataram a Jesus, chamam os discípulos e proíbem-lhes pregar o Salvador. Responderam: "Não podemos obedecer às vossas ordens, não podemos deixar de dar testemunho do que vimos e ouvimos" (Atos IV, 18-20). Sabemos que na noite da Paixão todos eles tinham abandonado a Jesus e fugiram; e, mesmo depois da Ressurreição de Jesus "ficaram escondidos numa casa, com as portas e janelas fechadas, com medo dos judeus", como agora, isto é depois da vinda do Espírito Santo, falam assim com tanta coragem? É porque o Espírito Santo é o Espírito de verdade, o Espírito de amor, o Espírito de força.

Agora os Apóstolos se entregam aos suplícios porque, pela vinda do Espírito Santo, o seu amor a Jesus é muito mais forte do que antes. E os judeus, vendo que eles não se importavam com a proibição, chamam-nos aos tribunais. Pedro, em nome de todos, declara que devem "obedecer antes a Deus do que aos homens" (Atos V, 29). Os judeus querendo vencer aquela constância, açoitaram os Apóstolos, antes de os soltar. Mas, após aquele suplício humilhante eles "estavam cheios de alegria por terem sido julgados dignos de sofrer opróbrios pelo nome de Jesus" (Atos V, 41). Essa alegria nos sofrimentos e nas humilhações vinha justamente do Espírito Santo, pois, Ele é o Espírito de CONSOLAÇÃO.

Jesus Cristo que é o Filho de Deus feito homem, também é consolador: "Vinde a mim, vós todos, que estais aflitos, e eu vos consolarei" (S. Mat. XI, 20). E como ensina S. Paulo, Ele é um Pontífice que sabe compadecer-se dos nossos sofrimentos, porque Ele próprio foi também sujeito à dor" (Hebr. IV, 15). Este divino Consolador, porém, devia desaparecer das vistas carnais dos discípulos, porque subiu para os Céus. Por isso, pedia ao Pai que lhes enviasse OUTRO Consolador, igual a Ele, Deus como Ele. Este outro Consolador é o Espírito Santo.

Porque é o Espírito de verdade, este Consolador acalma as necessidades da nossa inteligência; porque é o Espírito de amor, satisfaz os desejos do nosso coração; porque é o Espírito de força, sustenta-nos nos combates e lágrimas na conquista da Pátria do repouso eterno.

Rezemos com a Santa Igreja: "Ó Consolador por excelência, doce hóspede da alma, doce refrigério!" Amém!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A VINDA DO ESPÍRITO SANTO SOBRE OS APÓSTOLOS



Antes de subir aos céus, Nosso Senhor Jesus Cristo ordenou que os Apóstolos se reunissem no Cenáculo de Jerusalém e permanecessem ali por alguns dias. Eis o que diz S. Lucas: "Ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas esperassem a promessa do Pai, a qual ouvistes (disse ele) da minha boca; porque João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, daqui a poucos dias... recebereis a virtude do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e me sereis testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até às extremidades da terra... Então voltaram para Jerusalém... Logo que chegaram, subiram ao cenáculo, onde permaneceram Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos estes perseveraram unanimemente em oração, com as mulheres, e com Maria, mãe de Jesus, e com os parentes dele" (Cf. Atos, I, 4 e 8 e 12 -14).

"Quando se completaram os dias do Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar; e, de repente, veio do céu um estrondo, como de vento que soprava impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, e pousou sobre cada um deles. Foram todos cheios de Espírito Santo e começaram a falar várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem" (Atos II, 1-4).  Segundo S. Lucas, o Espírito Santo desceu sobre eles ao décimo dia, e, portanto, foram nove dias de preparação no recolhimento e na oração em companhia de Maria, Mãe de Jesus. Podemos, então dizer, que foi a primeira novena na Igreja, e, coisa admirável e sublime, sob a presidência da Santíssima Mãe de Jesus!!!

Devemos considerar como foi necessária a descida do Espírito Santo. Jesus, para amenizar a tristeza que havia de causar aos Apóstolos a sua ausência, disse-lhes: "Mas eu digo-vos a verdade: A vós convém que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o Paráclito; mas, se for, eu vo-lo enviarei... Quando vier, porém, o Espírito de verdade, ele vos ensinará toda verdade" (S. João XVI, 7 e 13). Daqui se segue que, terminada que foi a obra da Redenção, Jesus subiu aos céus, e o Espírito Santo é o que aplica os méritos dessa obra divina, ele é que a desenvolve nas almas; é a fonte das graças, o inspirador das virtudes, o fogo das luzes. S. Francisco de Sales no Sermão III, pág. 315, afirma que o Espírito Santo é o dom mais excelente que Deus fez à terra, o qualifica como "o dom dos dons"; e compara-o a uma fonte cujas águas jorram para a vida eterna". Devemos meditar que, para enviá-Lo foi necessário que Jesus Cristo viesse ao mundo e morresse na cruz. Devemos considerar, outrossim, que sem o Espírito Santo os outros dons, graças e méritos do Salvador, ainda que inestimáveis, de nada nos serviriam, assim como um remédio de nada serviria ao doente se não houvesse quem o levasse  a tomá-lo. Igualmente, ainda que o sangue de Jesus e sua Paixão sejam um remédio infalível e de uma eficácia tal que podem dar a vida e a saúde a todo o mundo, no entanto, de nada aproveitaria ao pecador que de fato não  recebe sua divina virtude. Pois bem, o Espírito Santo é para a alma do justo o que o sol é para o mundo que ilumina e vivifica, o que é o pai de família que preside, o que é o professor para os alunos a quem ensina; o que é um rei para o País que governa, o que é um jardineiro para o jardim que cultiva. O Espírito Santo é o que nos dá os ouvidos do coração para escutar o que Deus nos fala, olhos para vê-Lo, mãos para obrar o que nos manda, e pés para avançar mais e mais no caminho da perfeição. Sem o Espírito Santo, nosso coração é terra árida que não produz senão abrolhos de vícios, sem o Espírito Santo o homem é um soldado sem armas entregue a seus inimigos. Na verdade, nada há de bom no homem sem a graça de Divino Espírito Santo.

O que é o Espírito Santo na adorável Trindade? É o termo, o remate supremo, a consumação da vida em Deus. E assim, para nos lembrarmos desta propriedade que Lhe é pessoal, a Igreja atribui-Lhe especialmente tudo o que, na obra da graça, da santificação, diz respeito ao fim, complemento e consumação: podemos dizer que o Espírito Santo é o artista divino que, com os últimos retoques, dá à obra a sua divina perfeição. É neste sentido que Ele é chamado no "Veni Creator": "Dextrae Dei tu digitus" (És o dedo da destra paterna). A obra atribuída ao Espírito Santo, na Igreja como nas almas, é levar ao fim, ao termo, à última perfeição, o trabalho incessante da santidade.

Minha consciência não ficaria tranquila se aqui não aproveitasse o ensejo para desfazer uma interpretação errônea que hoje os modernistas procuram dar a estas palavras de Jesus: "Ele (o Espírito Santo) vos ensinará toda verdade". Dizem os modernistas que Jesus não ensinou todas as verdades, e que, portanto, o Espírito Santo até o fim do mundo, vai ensinar novidades.

Um dia falava Jesus ao povo: "Se alguém crer em mim, do seu seio manarão torrentes de água viva". E S. João Evangelista explica: "Dizia isto do Espírito Santo que deviam receber aqueles que cressem n'Ele. O Espírito Santo não tinha ainda sido dado, porque Jesus não fora ainda glorificado" (S. João VII, 38 e 39). A fé era a fonte, para assim dizer, da vinda do Espírito Santo aos discípulos e a todos nós. Ora, enquanto Jesus Cristo vivia neste mundo, a fé dos discípulos era imperfeita. Não seria total senão depois de a Ascensão ter ocultado aos seus olhos a presença humana do divino Mestre: "Por isso que viste, creste", dizia Jesus a Tomé, depois da Ressurreição; "bem-aventurados aqueles que não viram e creram!" (S. João XX, 29). Depois da Ascensão, a fé dos discípulos, mais esclarecida, irá procurar Cristo mais longe, mais alto, sentado junto do Pai, igual ao Pai" (Cf. S. Leão, Sermão II sobre a Ascensão c. 4). Concluímos: Foi porque a fé dos Apóstolos, depois da Ascensão, se tornou mais pura, mais interior, mais viva, mais eficaz, que "os rios de água viva" se derramaram sobre eles com tanta abundância!

Devemos dizer que Jesus já ensinou toda verdade, pois, dizia de si mesmo: "Eu sou a verdade". Viera a este mundo para dar testemunho da verdade (S. João XVIII, 37), e sabemos que cumpriu inteiramente a Sua missão: "Opus consumavi" = terminei a obra. Então devemos dizer que agora que Jesus deixou os Apóstolos, o Espírito Santo é que se vai tornar o mestre interior. "Não falará de Si mesmo", dizia Jesus, querendo com isso significar que o Espírito Santo (que procede do Pai e do Filho e d'Eles recebe a vida divina) nos dará a verdade infinita que recebe pela Sua inefável processão. "Ele vos dirá tudo o que ouviu, isto é, toda a verdade"; "lembrar-vos-á tudo o que vos ensinei"; "dar-me-á a conhecer a vós; mostrar-vos-á quanto sou digno de toda a glória: "Ele me glorificará" (S. João XIV, 26).

 Que mais? Disse Jesus: "Recebereis a virtude do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e me sereis testemunhas em Jerusalém, na Samaria e até às extremidades da terra" (Atos I, 8). Os Apóstolos, afirmou Jesus, não deveriam preocupar-se com o que haveriam de responder, quando os judeus os chamarem aos tribunais; o Espírito Santo lhes inspirará as respostas" (S. João XIV, 26 e XVI, 13 e 14). Deste modo "poderão dar testemunho de Jesus". E como é pela língua, órgão da palavra, que se dá testemunho e a pregação do nome de Jesus se deve espalhar pelo mundo, este Espírito, no dia do Pentecostes, desce visivelmente sobre os Apóstolos em forma de línguas de fogo.  Por que de fogo? Porque o Espírito Santo vem encher de amor os corações dos discípulos. O Espírito Santo comunica-lhes aquele amor que é Ele próprio. É mister que os Apóstolos sejam cheios de amor para que, ao pregarem o nome de Jesus, façam brotar na alma dos seus ouvintes o amor do Mestre; é preciso que o seu testemunho, ditado pelo Espírito, seja tão cheio de vida, que prenda o mundo a Jesus Cristo.

Quando um Papa define um dogma é assistido pelo Espírito Santo para afirmar de maneira infalível que aquela verdade havia sido ensinada por Jesus Cristo, e já estava no Depósito da Revelação Pública que, na verdade, ficou completo com a morte do último Apóstolo. Portanto, nada de novidades, nada de surpresas!  Muitas coisas, sermões e milagres, que Jesus fez não foram escritas mas transmitidas pelos Apóstolos e depois pelos Santos Padres, inclusive a verdadeira interpretação do que foi escrito. Isto é a Tradição que passa como de mão em mão ininterrupta e fielmente pela assistência do Espírito Santo. Assim, as Sagradas Escrituras foram escritas sob a inspiração do Espírito Santo; e o que não foi escrito na Bíblia, foi transmitido pela assistência do Espírito Santo para que não houvesse nenhuma alteração e adição do que Jesus Cristo ensinou.

Caríssimos, devemos, pois, apresentar todas as disposições para receber o Espírito Santo. Vimos acima: "Do monte das Oliveiras, voltaram a Jerusalém, diz S. Lucas, e subiram ao cenáculo, onde permaneceram unânimes em oração com as santas mulheres e Maria, Mãe de Jesus e seus parentes". Vemos, portanto, que fizeram três coisas: recolhimento, oração vocal e meditação. É o que devemos fazer, na medida do possível (porque só num Retiro fechado podemos imitar perfeitamente os Apóstolos) para obtermos a mesma graça; e sempre em companhia da Virgem Mãe de Deus, e Esposa do Espírito Santo. Façamos com toda devoção, a novena do Divino Espírito Santo.

Oh! "Vinde a nós, Pai dos pobres, distribuidor dos bens celestes, Consolador cheio de bondade, doce hóspede da alma, conforto cheio de doçura"! Amem!