domingo, 30 de abril de 2017

Precisa-se de uma Catarina de Sena

Artigo escrito por Gustavo Corção,  de saudosa memória. 
Extraído do livro "A TEMPO E CONTRA TEMPO".


   ANTEONTEM, dia 30 de abril, [foi escrito em 02 de maio de 1968], a Igreja comemorou mais um aniversário no céu de Catarina Benincasa, nascida em Sena, em 1347, e falecida, aos trinta e três anos de idade, no esplendor da santidade. O Introito da missa resume toda a contrastada vida da terceira dominicana, padroeira da Itália: "Dilexisti justitiam e odisti iniquitatem".

   Sim, foi o amor das coisas do Reino de Deus e o ódio do pecado que polarizaram toda a extraordinária vida do moça pobre, filha de um tintureiro, frágil, iletrada, e todavia capaz de manifestar diante dos homens as grandezas de Deus. [Nota minha: Sua mãe, embora pobre, foi agraciada por Deus, com 24 filhos, e da última Deus tinha desígnios grandiosos para a Santa Igreja]. Até aos vinte e um anos viveu obscuramente na sua casa modesta, servindo uma família enorme e exigente. Sua boa mãe não entendia os sacrifícios e os jejuns que a filha desde cedo se impunha. Com paciência heroica, Catarina suportou e venceu todas as dificuldades familiares e conseguiu viver uma intensa contemplação nos vagares que a casa lhe permitia. 

   Aos vinte e um anos, numa noite de terça-feira de carnaval, fechada em sua cela, Catarina recebeu visitas deveras extraordinárias: apareceu-lhe o Senhor com vestes nupciais, acompanhado de sua Mãe, de São João e São Paulo, e do profeta Davi, com sua harpa. Colocando em seu dedo um anel de ouro, disse-lhe o Senhor: "Eu, teu Criador e teu Salvador, te esposo na Fé que guardarás sem mancha até o dia em que te esposarei no céu".

   Começa então a vida de Catarina, e sua extraordinária influência junto aos dirigentes do mundo. Depois de poucos anos de pregação do pequeno grupo que a acompanhava, Catarina empreendeu a aventura de restaurar o trono de Pedro em Roma. O Papa Gregório XI estava em Avignon, entre seus cortesões que levavam vida escandalosa. Expulso de Roma pelas intrigas que fervilhavam em torno do Vaticano, o Papa se deixara entregar às más influências de parentes e seguidores mundanos. E é nesse meio que a filha do tintureiro vai buscá-lo e vai trazê-lo para Roma quase de rastros.

   Os intrigantes querem obstar de todos os modos a partida do Papa, mas a palavra de Catarina, moça humilde de vinte e quatro anos, soa aos ouvidos do Papa com um acento irresistível: "Ide" , lhe diz ela numa carta, "correi depressa à Esposa que vos espera pálida e moribunda. Restituí-lhe a vida!".

   O Papa embarca com sua corte. Em Gênova, os cardeais querem convencê-lo a voltar para Avignon. O Papa hesita, e declara que quer ouvir Catarina, que voltara a Roma por terra. O Papa sabe que Catarina está em Gênova, mas não consegue de seus seguidores que ela venha a bordo do navio. Para lograr tal encontro, o Papa lança mão de um estratagema de romance policial: disfarça-se, e consegue desembarcar para ter uma entrevista com a alma de fogo que tinha palavras do céu.

   Encontra-se, afinal, com Catarina, que lhe diz como tantas vezes disse ao seu confessor Raimundo Cápua: "Sê homem!" E fala-lhe longamente do palácio de sangue e fogo onde o Rei celebra as bodas de seu Filho. Volta o Papa reanimado, e os cortesões, os maus prelados, os demonii incarnati, como os chamava Catarina, não conseguem mais detê-lo. Dias depois a galera pontifical sobe o Tibre, e o Papa desembarca em meio da multidão delirante.

   Mais tarde, morto Gregório XI e eleito Urbano VI, os demonii incarnati produzem o grande cisma que afligirá a Igreja durante muito tempo, e que prepara a ferida maior da Reforma. Abandonado por seus cardeais, Urbano chama Catarina e diz: "Esta mulher fraca nos envergonha a todos nós!"

   Catarina organiza o combate: suas armas são o jejum, a penitência e a oração. Escreve aos seus discípulos, escreve ao rei de França, escreve à rainha de Nápoles que vacila. A cristandade está dividida entre duas obediências; ninguém mais se entende. Onde está a Igreja? O provérbio clássico tornou-se ambíguo: Ubi Petrus, ibi Ecclesia. Mas onde está Pedro? Seria o caso de dizer: Ubi Caterina, ibi Petrus. 

   É nesse tempo de gravíssimas perturbações na Igreja que Catarina escreve o seu "Diálogo da Divina Providência"... Disse eu, mais de uma vez, que ela escreve, mas seria mais correto dizer que ela dita as cartas que hoje enchem seis volumes, porque ela não sabia escrever. Sim, dita, e dita o Diálogo em êxtase, com palavras que recebe de Deus. Ela sabe que, nos momentos mais aflitivos da Igreja, é preciso ouvir a palavra de Deus, voltar à palavra de Deus, meditar a palavra de Deus. 

   Dias depois, oferecendo a vida pela Igreja, pela Navicella, Catarina morre gritando súplicas de perdão: "- Miserere.... miserere... Tu me chamas, Senhor, e eu vou, eu vou, não por meus méritos, mas por teu sangue. "Ó sangue!"

   Meditando esses e outros passos da vida fecundíssima de Santa Catarina de Sena, tive hoje a ideia de elevar a Deus uma súplica em forma de anúncio de jornal: precisa-se de uma Catarina de Sena. O mundo de hoje está em situação pior do que esteve no trecento.  E creio que não são menos abundantes, em torno do Papa, e pelo mundo todo, nem menos perniciosos hoje, aqueles que a Santa chamava de demonii incarnati. Tudo indica que devemos organizar o combate com as mesmas armas de Deus: a penitência, o sacrifício e a oração. 
2-5-68

NOTA: Creio que não são menos abundantes, na Igreja e pelo mundo todo, nem menos perniciosos hoje, aqueles que a Santa chamava de "demônios encarnados". Tudo indica que devemos organizar a verdadeira resistência,  com as mesmas armas de Deus: a penitência, o sacrifício e a oração.  Deus resiste aos soberbos e só dá a sua graça aos humildes. Santa Catarina de Sena é a concretização viva desta verdade. Toda resistência que vier do orgulho, tem um pai: o demônio, ou o próprio ou incarnado nos orgulhosos e rebeldes. Esta foi a "Resistência" de Lutero, Henrique VIII, Döllinger e "caterva". 

ORAÇÃO DE SANTA CATARINA DE SENA PELO MUNDO E PELA IGREJA

   "Rogo-Vos, agora, Pai Eterno, tende piedade do mundo e da Santa Igreja. Não demoreis em usar de misericórdia para com o mundo. Escutai e realizai o desejo dos vossos servidores. Vós mesmo Vos fizestes clamar; escutai, pois, as suas vozes. Vosso Filho aconselhou que chamássemos, pois obteríamos resposta; que batêssemos, que a porta nos seria aberta; que pedíssemos, pois haveríamos de receber".
   "Ó Pai, vossos servidores imploram misericórdia; respondei-lhes, pois. Sei que a misericórdia é atribuída a Vós; não podeis deixar de concedê-la a quem suplica. Vossos servidores batem à porta do Vosso Filho; eles conhecem o amor que tendes pelo homem e por isso batem à vossa porta. A chama do Vosso amor não pode, não há de recusar a quem insiste com confiança. Abri, pois. Descerrai, despedaçai os corações endurecidos dos Vossos filhos. Eles mesmos nada pedem; escutai, porém, em força de Vossa infinita bondade e por amor dos Vossos servidores, que suplicam por eles. Vede como se acham ante a porta do Vosso Filho e clamam".
   "Que Vos pedem eles? O Sangue do Vosso Filho. Em tal Sangue lavastes o pecado e apagastes a mancha da culpa de Adão. É Sangue nosso, nele nos lavastes. Não ireis desdizer-Vos, nem o quereis diante de quem Vos implora. Concedei, pois, aos homens o fruto do Sangue. Colocai no prato da balança o preço do Sangue de Jesus, para que o demônio não mais arrebate as ovelhinhas. Vós sois o Bom Pastor, pois nos destes o Vosso Filho. Por obediência Ele morreu pelas ovelhas, lavando-as no Sangue. É esse Sangue que Vossos servidores pedem, como mendigos à Vossa porta. Rogam pelo mundo: que o perdoeis. Que a Santa Igreja floresça novamente com bons e santos pastores; que desapareça a iniquidade dos ministros maus".
   "Ó Eterno Pai! Prometestes misericórdia para o mundo, prometestes reformar a Santa Igreja, prometestes dar-nos conforto pelo amor que tendes aos homens e em atenção à oração dos Vossos servidores, bem como pela paciência que demonstram nas adversidades. Não demoreis em volver-nos um olhar piedoso. Já que amais dar resposta antes mesmo que peçamos, dizei uma palavra de perdão. Abri a porta da Vossa inestimável caridade, manifestada a nós no Verbo Encarnado. Bem sei que a abris antes de pedirmos. Baseando-Vos no próprio amor que lhes destes, Vossos servidores clamam à procura de Vossa glória e da salvação das almas. Concedei-lhes o pão da vida, ou seja, o fruto do Sangue. Eles o imploram para a glória do Vosso nome e para a santificação dos homens. Ao que parece, a salvação de numerosas pessoas dá maior glória a Vós, do que se todos fossem deixados no obstinação do mal. Tudo Vos é possível, Pai Eterno! Embora nos tenhais criado sem nossa colaboração, sem ela não nos quereis salvar; rogo-Vos, pois, que façais tais pessoas desejar quanto os vossos servidores imploram. Eu o imploro por Vosso infinito amor. Vós nos criastes do nada; agora existimos. Perdoai e reformai os vasos construídos à Vossa imagem e semelhança; reformai-os para a graça na misericórdia do Sangue do Vosso Filho".
                                               ( Livro "O Diálogo" de Santa Catarina de Sena, Terceira Parte, Cap. 29.2 ).

   Caríssimos e amados leitores, a exemplo dos santos, rezemos com fé, humildade e confiança, pela Santa Igreja, hoje invadida e dominada pelos modernistas, os piores inimigos da Igreja, como declarou São Pio X.
   As Sagradas Escrituras comparam os maus pastores a cães mudos que não podem ladrar: (Cf. Isaías, LVI, 10 ). Assim a Bíblia nos autoriza a comparar os bons pastores a cães que ladram.    Ora, a Santa Igreja, como denunciou São Pio X e mais tarde confirmou o Papa Pio XII, está invadida pelos inimigos. Penso que  os bispos e padres que lutam para defender a Fé e que foram injustamente suspensos têm que aproveitar a oportunidade de poder estar dentro da sua casa para mais eficazmente expulsar os invasores. Quando uma casa é invadida e os donos e seus verdadeiros filhos são expulsos, pouco adianta os cães ficarem latindo no terreiro. Têm que entrar com cuidado é claro; mas, embora a luta seja mais renhida, corpo a corpo, será mais eficaz e meritória. Temos que fazer como Santa Joana d'Arc, mas na ordem espiritual. Até acho que atualmente, não é a hora azada para se pensar em regularização canônica. Por isso entendo a prudência de D. Fellay em se preocupar em ser recebidos como sempre foram, pela graça de Deus, verdadeiros católicos.  
   É óbvio que os verdadeiros católicos têm que procurar fazer exatamente o que os modernistas não querem; e ter o cuidado em não fazer o que querem. Os modernistas tripudiam sobre as lamentáveis rebeliões e consequentes divisões provocadas entre os tradicionalistas. Alguns julgam estar resistindo ao progressismo, mas, na verdade, estão enfraquecendo a verdadeira "RESISTÊNCIA"  a esta terrível crise dentro da Igreja e em toda Sociedade. 
Todos aqueles que pretendem estar trabalhando para o Reinado do Sagrado Coração de Jesus, mas não têm o espírito reto de, como os Santos, resistir sem faltar com o respeito devido à dignidade divina do sacerdócio, na verdade não estão edificando mas escandalizando e fazendo coro aos inimigos da Santa Madre Igreja. 

   São José, Patrono da Santa Igreja, rogai por nós!


domingo, 23 de abril de 2017

AS VESTES À LUZ DA BÍBLIA SAGRADA ( II )



"Por ventura é aos homens que pretendo agradar? Se agradasse aos homens não seria servo de Jesus Cristo" (Gálatas, I, 10).

  Respondendo à algumas objeções

   1ª OBJEÇÃO: Vestes é uma questão secundária. O que importa é o coração.
   RESPOSTA: Vimos já na postagem anterior "As vestes à luz da Bíblia Sagrada ( I )" que Deus não pensou assim. Ele mesmo fez questão de cobrir Adão e Eva com túnicas depois que nossos primeiros pais pecaram (Gênesis, III, 21). Depois, na verdade, nós não dizemos que toda aquela que se veste de acordo com a virtude da modéstia tem forçosamente o coração bom e perfeito, e estará isenta de outras faltas. Em outras palavras, nós não queremos dizer que a modéstia no vestir seja tudo o que a pessoa deve ser, mas é uma das coisas necessárias para se agradar a Deus e até é uma das coisas pelas quais se pode conhecer a pessoa segundo declara a própria Bíblia no livro do Eclesiástico, XIX, 27: "A veste do corpo, o riso dos dentes, e o andar do homem, dão a conhecer o que ele é". Uma coisa é certa: Sob uma veste imodesta e impudica nunca encontraremos uma alma pura. Vimos na postagem anterior sobre as vestes, que a modéstia é exigida por Deus na Sagrada Escritura e é com a convicção de coração no sentido de agradar mais a Deus e com empenho de fazer sempre o que está mais de acordo com a Sua vontade, que a pessoa deve se vestir com modéstia. O que importa é o coração reto que procura fazer o que Deus manda.

   2ª OBJEÇÃO: Este negócio de vestes é relativo. Hoje, vestes que antes eram proibidas, são permitidas e não impressionam mais.
   RESPOSTA: Diz a Bíblia Sagrada: "Os olhos não se fartam de ver" (Eclesiastes I, 8). É a concupiscência dos olhos de que faz menção o livro do profeta Ezequiel, XXIII, 14-16. Esta concupiscência dos olhos leva a pessoa a procurar ver sempre o pior, ou seja, o que é mais sensual. Assim a veste desde que começa a ser menos decente, vai provocando desejos mais perversos. E a sensualidade, embora encontrando o que deseja, nunca se satisfaz. Daí, de um lado, se compreende porque o mundo tende sempre a uma maior imodéstia nas modas. E, por outro lado, entende-se porque a Igreja sempre lutou por uma maior modéstia nos trajes. E antigamente exigia-se até mais do que o mínimo para impedir que as vestes fossem piorando sempre mais. E, a medida que o progressismo foi dando liberdade, a coisa foi só piorando e vai piorar mais se todos os padres da Igreja não voltarem a combater a imodéstia como a Igreja sempre fez. Dizem que tudo é natural. Mas pelos frutos se conhece a árvore. O que nós estamos vendo é uma sociedade cada vez mais entregue aos pecados da carne. É o desprezo completo pelos mandamentos de Deus, que, no entanto, continuam e continuarão de pé. É o que diz o Salmo CX, 8: "Todos os Seus mandamentos (Senhor) são imutáveis, confirmados em todos os séculos, fundados na verdade e na equidade".

   3ª OBJEÇÃO: Mas é muito difícil seguir estas normas da modéstia. Impondo-as, vai ficar um número muito pequeno na igreja.
   RESPOSTA: Quanto a ser difícil nós não negamos. Jesus mesmo já dissera: "O Reino do Céus padece violência, e só os violentos é que o arrebatam" (São Mateus, XI,12). Quanto a ser um número pequeno o daqueles que seguem as normas da modéstia, nós devemos primeiramente observar que: se todos os padres, baseados na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, ensinassem a modéstia, os fiéis se convenceriam melhor e o número seria maior, embora continuasse a ser minoria em relação aos maus. Nosso Senhor Jesus Cristo já disse: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida e quão poucos são os que dão com ele!" (São Mateus, VII, 13 e 14). Jesus é o caminho a verdade e a vida (São João, XIV, 6). Compreende-se que o caminho do céu e estreito quando se pensa naquela palavra de São Paulo na Epístola aos Gálatas, V, 24: "Aqueles que são de Jesus Cristo crucificaram a sua carne com os seus vícios e concupiscências"
   A História Sagrada confirma o que acabamos de dizer sobre o pequeno número: Quando Deus destruiu a humanidade pelo dilúvio, só oito pessoas se encontraram fiéis a Deus e se salvaram. O resto se entregara aos pecados da carne. Confira Gênesis capítulos VI e VII. Quando Deus destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra só quatro pessoas se salvaram, porque só elas não tinham se contaminado pela homossexualidade. Leia na Sagrada Escritura o capítulo XIX do livro do Gênesis.
  
   4ª OBJEÇÃO: Mas Deus é pai e não vai exigir tanto sacrifício e nem vai castigar alguém por seguir a moda.
   RESPOSTA: Bom! Primeiramente, é necessário deixar bem claro que Deus não proíbe seguir a moda. Já vimos que Santo Tomás de Aquino, cintando inclusive Santo Agostinho, diz que se deve seguir o costume de cada país. Mas já vimos outrossim que a  Bíblia Sagrada  condena unicamente a moda que não seja conforme a decência. Condena também a moda,(mesmo decente), mas que é usada com travestimento.
   Vimos nas Sagradas Escrituras que Deus castigou várias vezes os homens por causa dos pecados da carne. E São Pedro diz que estes castigos foram para servir de exemplo àqueles que venham viver também impiamente segundo a imunda concupiscência. (2 São Pedro, II, 4-10). Vimos, também, que aqueles que desejarem ser de Jesus Cristo têm que renunciarem a si mesmos, aos seus vícios e concupiscência. (Gálatas, V, 24).
   Porque Deus é Pai bondoso e paciente eu não vou ofendê-Lo, mas, pelo contrário, devo procurar a Sua vontade e segui-la. "Quem me ama, disse Jesus, guarda os meus mandamentos". "Quem é meu amigo procura fazer o que eu mando" (São João, XIV, 15 e XV, 14).
   Os que querem seguir esta mentalidade progressista de que Deus é pai e não castiga ninguém e por isso posso fazer o que quero, ouçam o que diz a Bíblia Sagrada em Eclesiástico, V, 2 a 9: "Não te abandones na tua fortaleza,  aos  maus desejos de teu coração; e não digas: Como sou poderoso! Quem poderá obrigar-me a dar-lhe conta das minhas ações? Porque Deus certamente se vingará delas. Não digas: Eu pequei e que mal me veio daí? Porque o Altíssimo, ainda que paciente, é justiceiro, Não estejas sem temor da ofensa que te foi perdoada, e não amontoes pecados sobre pecados.E não digas: A misericórdia do Senhor é grande, Ele se compadecerá da multidão dos meus pecados. Porque a Sua misericórdia e a Sua ira estão perto uma da outra, e Ele olha para os pecadores na sua ira. Não tardes em te converter ao Senhor, e não o difiras de dia para dia porque virá de improviso a Sua ira." Confira também Epístola aos Romanos, II, 4: "Ou desprezaste as riquezas da Sua bondade e paciência e longanimidade? Ignoras que a bondade de Deus te convida à penitência?"
  
   5ª OBJEÇÃO: Mas se a gente não seguir a moda, as pessoas do mundo zombam e chama a gente de atrasada, cafona etc.
   RESPOSTA: Primeiramente, sempre resta uma moda decente; pois os criadores das modas querem o dinheiro de todo mundo, assim como os políticos querem de todo mundo, os votos. Mas, mesmo na hipótese de não haver nenhuma moda  decente no país, devemos estar dispostos a sofrer zombarias por amor a Jesus. O fato é que não podemos ser do mundo, porque a Sagrada Escritura diz a todas as classes de pessoas; "Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo" (1 de São João, II, 15). O fato de o mundo zombar daqueles que seguem a Jesus, isto sempre existiu. Jesus mesmo disse: "Porque não sois do mundo, o mundo vos aborrece" (São João XV, 19). São Paulo também diz: "Aqueles que querem viver piamente em Jesus Cristo, sofrerão perseguição" (2 Timóteo, III, 12). Já os Apóstolos pela pregação da fé, e os cristãos por permanecerem firmes nesta fé, foram objeto de zombarias e de toda espécie de sofrimentos. Confira Atos dos Apóstolos, XVII, 32 a 34; e Hebreus, XI, 36 a 40; e 1 São Pedro, IV, 4. Medite, entretanto, no que disse o Divino Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo: "No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele quando vier na glória de Seu Pai com os santos anjos" (São Marcos, VII, 38).

   6ª OBJEÇÃO: Mas a Igreja tem que seguir o progresso; se adaptar aos novos tempos; não pode ficar parada no tempo e nos espaço.
   RESPOSTA: Esta objeção faz parte da doutrina modernista, hoje praticada pelos progressistas, mas já condenada anteriormente por São Pio X.
   O progresso nas coisas boas, a Igreja nos ensina a procurar sempre. Em outras palavras: a Igreja deve levar os homens ao progresso no bem. Isto sim! Porque Jesus fez a Igreja para ser o sal da terra e a luz do mundo. Para a Religião ser verdadeira e ter firmeza, a quem se deve seguir? A Jesus ou aos homens? É claro que se deve seguir a Jesus. Eis o que diz São Paulo: "Porventura é aos homens que eu pretendo agradar? Se agradasse aos homens, não seria servo de Cristo" (Gálatas, I, 10). Diz ainda a Sagrada Escritura: "Jesus Cristo é sempre o mesmo, ontem, hoje e o será por todos os séculos. Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas" (Hebreus, XIII, 8 e 9).

Nossa Senhora revelou à Jacinta, vidente de Fátima: "VÃO APARECER MODAS QUE OFENDERÃO MUITO O MEU DIVINO FILHO".

sábado, 22 de abril de 2017

A IGREJA E O MUNDO (III)

A IGREJA E O MUNDO (III)
"Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida".

D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória, em sua CARTA PASTORAL "AGGIORNARMENTO" E TRADIÇÃO escreveu em 1971 que o esforço na adaptação ("aggiornamento") foi além da simples expressão mais ajustada à mentalidade contemporânea. Declara que, em largos meios eclesiásticos, este "aggiornamento" atingiu a própria SUBSTÂNCIA  da Revelação. Diz D. Mayer: "Não se cuida de uma exposição da verdade revelada, em termos em que os homens facilmente a entendam; procura-se, por meio de uma linguagem ambígua e rebuscada, mais propriamente, propor uma nova Igreja, ao sabor do homem formado segundo as máximas do mundo de hoje. Com isso, difunde-se, mais ou menos por toda parte, a ideia de que a Igreja deve passar por uma mudança radical, na sua Moral, na sua Liturgia, e mesmo na sua Doutrina".

Fico a imaginar que quando o Papa João XXIII, anunciou um Concilio, e este pastoral e para fazer "aggiornamento" (o verdadeiro sentido dado pelo Papa, certamente entrou num ouvido e saiu pelo outro) os modernistas esfregaram as mãos e disseram: "Ou agora ou nunca mais; o prato não podia estar melhor pronto para nós mudarmos esta Igreja 'fechada e ultrapassada'!!!" E pior: são unidos e incansáveis nesta tarefa diabólica! Talvez não ousaram imaginar o que infelizmente está acontecendo: um Papa a seu favor, diametralmente oposto a S. Pio X. Atualmente é o reinado das trevas, mas como eclipse. Por fim Nosso Senhor Jesus Cristo dará um basta ao Modernismo, ao Comunismo e ao Liberalismo  e triunfará o Imaculado Coração de Maria e teremos o Reinado do Sacratíssimo Coração de Jesus. Tenhamos fé, pois, a Igreja é divina!

Feita esta introdução, vamos ver como a verdadeira Igreja, (não a  modernista) mas a tradicional, age em relação ao MUNDO, no sentido dado pelo texto em apreço.

A Igreja Tradicional, sempre baseada na Sagrada Escritura e na Tradição, combate o mundo ( no sentido exposto acima) e adverte os homens contra os seus perigos e as suas seduções. Ela admite e elogia os legítimos progressos da ciência e da sociedade. Aliás a Igreja deu grandes cientistas e homens célebres à sociedade. A doutrina e moral de Nosso Senhor Jesus Cristo, no entanto, são perfeitas, e como tais, não podem sofrer adições, subtrações, alterações ou transformações. Podem sim esclarecer-se. É como um ser vivo que se desenvolve e aperfeiçoa, porém na mesma natureza, que faz com que o indivíduo seja sempre o mesmo.

Apenas um parêntese: Antigamente dizia-se simplesmente SANTA MADRE IGREJA, todos sabiam que se tratava da única e verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Hoje, dominando na Igreja os Modernistas, faz-se mister adicionar a qualificação TRADICIONAL, em oposição à ala progressista, que, como diz D. Mayer na citação acima, "procura-se propor uma nova Igreja, ao sabor do homem formado segundo as máximas do mundo de hoje".

A Igreja Tradicional procura ver o que disse Jesus Cristo, que disseram os Apóstolos e os seus sucessores sobretudo os santos, no decorrer dos séculos.

1. QUE DISSE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO?

a) Jesus afirma que Ele não é do mundo e que seus seguidores também não são do mundo: Na oração ao Pai: "Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os guarde do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo" (S. João, XVII, 14-16). Após a Última Ceia, dirigindo-Se aos seus discípulos:  "Se o mundo vos aborrece, sabei que primeiro do que a vós me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque vós não sois do mundo[...] por isso o mundo vos aborrece" (S. João, XV, 18 e 19).

b) Jesus afirma que venceu o mundo: "Haveis de ter aflições no mundo, mas tende confiança, eu venci o mundo" (S. João, XVI, 33).

c) Jesus afirma que a sua paz não é a mesma do mundo: "Deixo-vos a paz: dou-vos a minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo" (S. João, XIV, 27).

d) Jesus explicando a parábola do semeador, disse que são os cuidados do mundo com seus deleites desordenados e a ilusão das riquezas que impedem o homem de se converter quando ouve a palavra de Deus: "Os que recebem a semente entre os espinhos são aqueles que ouvem a palavra; mas as solicitudes do mundo e a ilusão das riquezas e os afetos desordenados, entrando, afogam a palavra e ela fica infrutuosa" (S. Marcos, IV, 18).

e) Jesus fala contra os escândalos e na necessidade da mortificação: "Ai do mundo por causa dos escândalos! Porque é inevitável que sucedam escândalos, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo! Por isso, se a tua mão ou o teu pé te escandaliza, corta-o e lança-o fora de ti; melhor te e entrar na vida com um pé ou mão a menos, do que, tendo duas mãos e dois pés, ser lançado no fogo eterno" (S. Mateus, XVIII, 7-9).

f) Jesus exige abnegação, penitência e renúncia do mundo: "E chamando a si o povo com seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida[neste mundo]a perderá [a eterna]; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, a salvará. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca pela sua alma? No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos" (S. Marcos, VIII, 34-38).

g) Jesus no sermão da montanha mostra as suas máximas que são diametralmente opostas à máximas do mundo: Caríssimos, aconselho que leiam e meditem este sermão do Divino Mestre, sermão este que o Evangelista São Mateus relata nos capítulos 5º, 6º e 7º.

2. QUE DISSERAM OS APÓSTOLOS SOBRE O MUNDO?

SÃO JOÃO EVANGELISTA: "Eu vos escrevo, jovens, porque sois fortes, e porque a palavra de Deus permanece em vós e porque vencestes o maligno. Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo. Ora o mundo passa, e a sua concupiscência com ele, mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente" (1 S. João, II, 14-17). Hoje se dirigem aos jovens (JMJ) com linguagem bem diferente!!!

SÃO PAULO: "E não vos conformeis com este século (=mundo), mas reformai-vos com o renovamento do vosso espírito, para que reconheçais qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita" (Rom. XII, 2). "Digo-vos pois: andai segundo o espírito de Deus e não satisfareis os desejos da carne. Porque a carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito desejos contrários à carne; porque estas coisas são contrárias entre si, para que não façais tudo aquilo que quereis. As obras da carne são manifestas: são o adultério, a fornicação, a impureza e a luxúria, a idolatria, os malefícios, as inimizades, as contendas, as rivalidades, as iras, as rixas, as discórdias, as seitas, as invejas, os homicídios, a embriaguez, as glutonarias e outras coisas semelhantes, sobre as quais vos previno, como já vos disse, que os fazem tais coisas não possuirão o reino de Deus"  (Gálatas, V, 16, 17 e 19-21). "Nem sequer se nomeie entre vós a fornicação ou qualquer impureza ou avareza como convém a santos; nem palavras torpes, nem loucas nem chocarrices que são coisas inconvenientes" (Efésios, V, 3-6). "Não vos deixeis seduzir; as más conversações corrompem os bons costumes". "Não reine, pois, o pecado no vosso corpo mortal de maneira que obedeçais às suas concupiscências" (Romanos, VI, 12). "E vós estáveis mortos pelos vossos delitos e pecados nos quais andastes outrora, segundo o costume deste mundo, segundo o príncipe que exerce o poder sobre este ar, espírito que agora domina sobre os filhos da incredulidade entre os quais também todos nós vivemos outrora, segundo os desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e da concupiscência e éramos por natureza filhos da ira como todos os outros"  (Efésios, II, 1-3). "Aqueles que são de Jesus Cristo crucificaram a sua carne com os seus vícios e concupiscências" (Gálatas, V, 24).

SÃO PEDRO: "Por Ele mesmo [Jesus] nos deu as maiores e mais preciosas promessas a fim de que por elas vos torneis participantes da natureza divina, fugindo da corrupção da concupiscência que há no mundo" (2 S. Pedro, I, 4). "Caríssimos, rogo-vos que, como estrangeiros e peregrinos, vós abstenhais dos desejos carnais que combatem contra a alma" (1 S. Pedro II, 11).

SÃO TIAGO: "Adúlteros, não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus? Portanto, todo aquele que quiser ser amigo deste século constitui-se inimigo de Deus (S. Tiago, IV, 4). "A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai é essa: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo" (S. Tiago, I, 27).

A Teologia Moral tradicional sempre ensinou que temos obrigação de fugir das ocasiões perigosas; ambientes onde reinam a imoralidade e a imodéstia por causa da concupiscência dos olhos e da carne: "Quem ama o perigo morre nele" (Eclesiástico, III, 27). Daí também o conselho de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Vigiai e orai para não cairdes em tentação" (S. Marcos, XIV, 38). "Não frequentes o trato com a bailarina, nem a ouças, para que não suceda pereceres à força de seus atrativos (...). "Não deixes errar os olhos pelas ruas da cidade, nem andes  vagueando pelas suas praças. Afasta os teus olhos da mulher enfeitada, e não olhes com curiosidade para a formosura alheia. Por causa da formosura da mulher pereceram muitos, e por ela se acende a concupiscência como fogo" (Eclesiástico, IX, 4, 7-9).

Aquelas que vivem em excessos de vaidades e na imodéstia devem meditar no seguinte: Se a Sagrada Escritura tem tão detalhadas e exigentes advertências contra os perigos da simples vaidade e atrativos femininos quanto mais não será exigente em relação a maldade da imodéstia feminina. Jesus disse: "Ai da pessoa que der escândalos!"

Por outro lado, aquelas pessoas que possam ficar perturbadas diante destes textos, já que são obrigadas a viver num mundo tão corrupto, queremos esclarecer que este texto da Bíblia adverte o homem contra a maldade de procurar o mal e se expor voluntariamente ao perigo. Mas se nós guardamos no coração a vontade decidida de não ofender a Deus, embora tendo que trabalhar em ambientes perigosos, tendo que andar nas ruas e praças das cidades e até que tratarmos com pessoas perigosas , nós não pecamos mesmo sendo inevitável a vista de muitas imoralidades e imodéstias, porque de um lado não procuramos estas coisas e por outro, quando se apresentam, não aceitamos. Procurar, então, mortificar a vista o quanto for possível e Deus nos dará a graça suficiente para não nos contaminarmos. E assim não perdemos também a alegria do espírito.

Coisa bem diferente é quando a pessoa procura o mal como por exemplo: se alguém sai às ruas e praças sem necessidade e já com o intuito de procurar ver o que não deve, ou vai ao baile (que foi sempre perigoso e hoje deixou de ser sem maldade), se vai ao carnaval etc., nestes casos já pecou, porque aceitou a maldade no coração. Os modernistas dizem que o que manda é o coração; os tradicionalistas dizem: sim, o que manda é o coração reto que procura fazer o que Deus manda, e evitar o que Ele proíbe.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

A IGREJA E O MUNDO (II)


"Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo" ( 1 S. João, II, 15 e 16).

Desde o Concílio Vaticano II que vem se instalando e se avolumando uma desastrosa revolução dentro da Santa Madre Igreja. Na época em que escrevi este artigo já se falava em uma Nova Igreja, com uma Moral Nova e uma Liturgia Nova. Tudo mudou no sentido em que os Modernistas sempre tanto almejavam. Tivemos a grande graça de sermos orientados por um Bispo, sábio, humilde, homem de oração e de penitência, D. Antônio de Castro Mayer. Em abril de 1971 escrevia ele, citando Paulo VI: "muitos fiéis se sentem perturbados na sua fé por um acumular-se de ambiguidades, de incertezas  e de dúvidas, que atingem essa mesma fé no que ela tem de essencial. Estão neste caso os dogmas trinitário e cristológico, o mistério da Eucaristia e da Presença Real, a Igreja como instituição de salvação, o ministério sacerdotal no seio do Povo de Deus, o valor da oração e dos Sacramentos, as exigências morais que dimanam, por exemplo da indissolubilidade do matrimônio ou do respeito pela vida. Mais: até a própria autoridade divina da Escritura chega a ser posta em dúvida, em nome de uma 'desmitização radical" (Exortação Apostólica de Paulo VI, A.A.S., 63, p. 99). Comentando estas palavras do Papa Paulo VI, diz D. Mayer: "Como vedes, amados filhos, a crise na Igreja não poderia ser mais profunda. Lendo as palavras do Papa, nós nos perguntamos: que ficou de intacto no Cristianismo? pois, se não há certeza sobre o dogma trinitário, mistério fundamental da Revelação cristã, se pairam ambiguidades sobre a Pessoa adorável do Homem-Deus, Jesus Cristo, titubeia-se diante da Santíssima Eucaristia, se não se entende a Igreja como instituição de salvação, se não se sabe a que o Sacerdote entre os fiéis, nem há segurança das obrigações morais, se a oração não tem valor, nem a Sagrada Escritura, que há de Cristianismo, de Revelação cristã? (...) Depois D. Mayer mostra que havia um empenho por construir uma nova Igreja psicológica e sociológica: "Tanto mais, escreve o ínclito Bispo, quanto a Exortação do Santo Padre deixa entrever que há uma verdadeira conspiração para demolir a Igreja. É o que se deduz do trecho seguinte ao acima citado, no qual o Pontífice observa que às dúvidas, ambiguidades e incertezas na exposição positiva do dogma, somam-se o silêncio "sobre certos mistérios fundamentais do Cristianismo" e a "tendência para construir um novo cristianismo a partir de dados psicológicos e sociológicos" no qual "a vida cristã esteja destituída de elementos religiosos"(p. 99). Há, pois, continua D. Mayer, entre os fiéis, um movimento de ação dupla convergente para a formação de uma nova Igreja, que só pode ser uma nova falsa religião; de um lado, criam-se incertezas sobre os mistérios revelados; de outro, estrutura-se uma vida cristã ao sabor do espírito do século". (Carta Pastoral, "Aggiornamento e Tradição", L. "Por um Cristianismo Autêntico, p. 358 e 359).

Feita esta introdução, vamos agora ver o modo de agir dos modernistas em relação ao mundo.

No texto último citado, no fim diz D. Antônio de Castro Mayer: "Estrutura-se uma vida cristã ao sabor do espírito do século". SÉCULO é sinônimo de MUNDO no sentido explicado no texto em apreço.

É de todos evidente como a postura dos modernistas e dos tradicionalistas na Igreja, em relação ao mundo, é muito diferente. Os modernistas não se preocupam em combater o mundo; em advertir os féis contra suas máximas, seus perigos, suas seduções. O que é preciso, dizem eles, é satisfazer à mentalidade moderna. Dizem que a Igreja para não soçobrar precisa acomodar sua doutrina ao mundo de hoje. Não pode ficar parada no tempo e no espaço. Esta igreja nova estabelece a religião do homem e elimina tudo quanto possa significar uma imposição à liberdade ou uma repressão à espontaneidade humana. Desconhece assim a queda original e extenua a noção de pecado. Faz esquecer a austeridade cristã, não fala em penitência. Tem toda indulgência para o prazer mesmo venéreo, para os pecados da carne. Na vida conjugal e familiar, a religião do homem sobrepõe o prazer ao dever. Os filhos são considerados como um fardo pesado. Justificam os métodos anticoncepcionais. A moral nova é indulgente e até favorável a homossexualidade, e a co-educação. A imodéstia nos trajes, a frequentação de ambientes perigosos e pecaminosos, como: carnaval, praias, piscinas, bailes; os namoros mais indecentes e avançados, tudo isso é olhado com muita indulgência pela moral-nova da ala progressista. E como os homens ou procedem como pensam ou terminam pensando de acordo com seu procedimento, numa sociedade toda ela mergulhada na sensualidade, começam a perder a noção do bem e do mal (hoje já perderam) e a criar para si uma moral subjetiva que lhes não censure a conduta irregular. Daí a ojeriza a tudo que lhes avive a consciência do estado moralmente deplorável.  Parece que os modernistas querem tranquilizar as consciências no pecado. Como as consciências, na maioria talvez, já estejam cauterizadas, vão se familiarizando como o pecado, com os ambientes e costumes pecaminosas e bebem o pecado como por brincadeira, "per risum": "É um divertimento para o louco fazer o mal" (Prov. X, 23).

Por isto, a sociedade de hoje não tolera que se lhe fale no inferno, que se lhe lembre que o demônio existe e é o príncipe deste mundo. Não gosta que se fale em castigos. Como gostaria que tudo isso não passasse de ilusões, quer viver como se nada disso tivesse consistência. Faz como a avestruz que esconde a cabeça na areia para não ver o perigo. E além do mais, os fautores e seguidores desta moral nova dos modernistas se colocam do lado do mundo, e nisto não são incomodados pela imprensa, televisão, rádio e hoje, Internet (Mídia), mas, pelo contrário, recebem todo apoio destes meios de comunicação que, na maioria das vezes,(ainda bem que a Internet tem sua aplicação para o bem, só depende de cada um) são, na verdade, agentes do mundo. Os próprios sacerdotes da ala modernista deixam a batina e até o clergiman e se sentem assim mais à vontade no mundo participando de ambientes dissipantes e até pecaminosos. Jesus Cristo ia à casa de pecadores para convertê-los, mas estes vão a ambientes onde se cometem pecados, e os pecadores ficam ainda mais confirmados em sua enganosa tranquilidade de consciência . Mas sua verdadeira conversão torna-se menos viável.

No próximo artigo, se Deus quiser, falaremos do modo de agir da verdadeira Igreja, ou seja dos que seguem a Sagrada Escritura, segundo a interpretação dos Santos Padres, ensinamento este transmitido pelo Magistério vivo, perene e infalível da Igreja. Amém!

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A IGREJA E O MUNDO (I)


"Não ameis o mundo nem as coisas do mundo" (1 João, II, 15).

Escrevi este artigo quando ainda seminarista, ou mais precisamente, há 45 anos. Mostrei-o à S. Ex.cia Rev.ma D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória, que, então,  bondosamente o leu e deu a sua aprovação.

 Hoje, vemos como os modernistas, mais do que nunca, dominando na Igreja, fazem uma mistura das coisas sagradas com as mundanas, como foi o fato sacrílego acontecido no carnaval deste ano em São Paulo, quando o Cardeal Odilo Pedro Scherer permitiu que o bloco carnavalesco União de Vila Maria, sob pretexto de homenagear os 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora Aparecida, misturasse samba com cânticos religiosos, e colocasse a imagem de Nossa Senhora Aparecida, inclusive com o manto e coroa bentos por um padre do Santuário de Aparecida, colocasse, digo, num ambiente o mais mundano e pecaminoso possível, que é o carnaval, máxime o do Brasil. Assim sendo, achei por bem publicar este artigo. Oxalá as almas possam ver onde está a verdadeira doutrina de Nosso Senhor, e, outrossim, vejam como os modernistas são realmente os maiores inimigos da Igreja.

Feita que foi esta introdução, vamos iniciar as nossas reflexões sobre este texto das Sagradas Escrituras, acima enunciado.

Demos, em primeiro lugar, a noção correta de MUNDO, sentido este expresso no texto em apreço e nos muitos outros que aqui citaremos.

Tomamos aqui o termo MUNDO  não enquanto significa as obras da criação ou o conjunto das pessoas que vivem na terra (bons e maus), mas enquanto significa o complexo daqueles que são escravos da tríplice concupiscência e cujas máximas são contrárias às de Jesus Cristo. Mundo neste último sentido é explicado pelo Apóstolo São João na sua Primeira Epístola: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo. Ora o mundo passa, e a sua concupiscência com ele, mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente" (1 João, II, 15-17). 

Baseados sempre nas Sagradas Escrituras e na Tradição, vamos explicar esta definição do mundo dada por S. João Evangelista.

1. CONCUPISCÊNCIA DA CARNE: Sobre ela eis o que diz São Paulo: Caminhemos como de dia, honestamente; não caindo em glutonarias e na embriaguez, não em desonestidades e dissoluções; não em contendas e emulações, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não vos ocupeis da carne em suas concupiscências" (Rom. XIII, 13 e 14). "Caminhemos como de dia, honestamente". As obras dos filhos das trevas são feitas comumente à noite. São todas as desonestidades provenientes da concupiscência da carne. É o amor desordenado dos prazeres dos sentidos. Em primeiro lugar o amor sensual ou luxúria, espalhado por todo o corpo: ver, ouvir, falar, fazer tudo aquilo que acende e alimenta as chamas do amor impuro. Também os excessos no comer e beber e a moleza da vida.

Em outras passagens, o Apóstolo mostra como devem agir os "filhos da luz": Aqueles que são de Jesus Cristo, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências" (Gálatas, V, 24). Caríssimos, vede que S. Paulo não diz: "crucificaram seus vícios e concupiscências", mas "sua carne com seus vícios e concupiscências". O bom médico vai à raiz do mal. A carne, depois do pecado original, é a raiz dos males.

Ouçamos ainda S. Pedro, o primeiro Papa: "O Senhor sabe livrar os justos da tentação e reservar os maus para o dia do juízo a fim de serem atormentados, principalmente aqueles que vão atrás da carne na imunda concupiscência" (1 Pedro, II, 9 e 10).

2. CONCUPISCÊNCIA DOS OLHOS: Compreende duas coisas: a) a curiosidade doentia ou seja o desejo imoderado de ver, ouvir e conhecer o que se passa no mundo, alimentando e excitando assim a sensualidade. Neste sentido eis o que diz o Espírito Santo nas Sagradas Escrituras: "Ooliba [figura da corrupção de Jerusalém] foi aumentando sempre a fornicação porque tendo visto alguns homens pintados na parede, umas imagens dos caldeus delineadas com cores... pela concupiscência dos seus olhos concebeu por eles uma paixão louca"  (Ezequiel, XXIII, 14 e 16). "Os olhos não se fartam de ver..." (Eclesiastes I, 8). "Eu(Jesus), porém, digo-vos que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a já cometeu adultério com ela no seu coração" ( S. Mateus V, 28). 

Como a concupiscência vem do mundo, este promove tudo aquilo que provoca e fomenta a concupiscência dos olhos, e através desta, a concupiscência da carne, como por exemplo: revistas pornográficas, filmes, novelas e espetáculos imorais, bailes, imodéstia no vestir, sobretudo em certos ambientes como praias, piscinas, e festas mundanas, sobressaindo entre elas o Carnaval (máxime aqui no Brasil), namoros indecentes mesmo em público, (assim eu escrevia há 45 anos, e hoje? nem preciso dizer o que são!). Entra ainda o papel da televisão, do cinema, da maioria dos jornais e hoje máxime da Internet usada para o mal, como veículos de propagação destas imoralidades.

b) A concupiscência dos olhos pode ser interpretada também como o amor desordenado do dinheiro, ou avareza. Com efeito, o dinheiro, ou apegando o homem a terra e afastando seu pensamento de Deus ou provocando o luxo e o comodismo, oferece maior facilidade para tudo aquilo que fomenta a concupiscência dos olhos e promove a concupiscência da carne. Aliás é por aí que o demônio começa como ensina S. Paulo: "Os que querem enriquecer caem na tentação e no laço do demônio e em muitos desejos inúteis e perniciosos que submergem os homens na morte e na perdição. Com efeito a raiz de todos os males é o amor do dinheiro" (1 Timóteo, VI, 9 e 10). Jesus disse: "Não procureis (com cuidados excessivos) o que haveis de comer e beber e não andeis com espírito preocupado. Porque são os homens do mundo que buscam todas estas coisas" (S. Lucas, XII, 29). E explicando a parábola do semeador diz ainda: "A semente que caiu entre espinhos, representa aqueles que ouviram a palavra, porém, vão e ficam sufocados pelos cuidados do mundo, pelas riquezas e prazeres desta vida e não dão fruto" (S. Lucas, VIII, 14).

Eis como a Sagrada Escritura fala da concupiscência dos olhos tomada no sentido de AVAREZA: "O olho do avaro não se sacia com uma porção injusta; não se fartará, enquanto não tiver consumido e secado a sua vida. O olho mau tende para o mal, e não se saciará de pão, mas estará faminto e melancólico à mesa" (Eclesiástico, XIV, 9 e 10).

3. A SOBERBA DA VIDA: É o orgulho. É primeiramente a vaidade mais vulgar que gosta da ostentação e do luxo. O dinheiro ajuda a soberba. Esquecido de Deus e entregue a si mesmo, o homem considera-se o seu próprio deus. Daí vêm: avareza, espírito de independência, egoísmo, vã complacência, vanglória, jactância, ostentação, hipocrisia etc.. O homem orgulhoso confia em si mesmo; por isso se expõe aos perigos, aos ambientes mundanos, não aceita uma norma de vida, um moral fora e acima dele. Ele mesmo é o árbitro de suas ações, ele é que determina a sua moral, o seu modo de agir. Em uma palavra: ele faz a sua religião. Compreende-se assim facilmente com o orgulhoso, que, na verdade, é rejeitado por Deus, tem o caminho aberto para toda concupiscência, entregando-se aos pecados e baixezas da carne, o que aliás constitui um castigo de seu próprio orgulho.

Vejamos apenas alguns textos da Sagrada Escritura sobre a soberba da vida: "Mas vós, pelo contrário, elevai-vos na vossa soberba" (S. Tiago, IV, 16). "O princípio da soberba do homem é afastar-se de Deus" (Eclesiástico, X, 14). "Não há coisa mais detestável do que o avarento. Por que se ensoberbece a terra e a cinza? "Tua arrogância enganou-te, assim como a soberba do teu coração" (Jeremias, CLIX, 16).

O mundo, que tem como príncipe o demônio (Cf. S. João, XII,31; XIV, 30; XVI, 11).  ) e por estandarte a tríplice concupiscência, como age? Caríssimos, depois da queda original a natureza humana é inclinada para a concupiscência que atrai e alicia, e esta é alimentada pelo mundo que por sua vez é governado pelo demônio. Estes são os três inimigos das nossas almas: o mundo, a carne, e o demônio. Eis a explicação dada pelo próprio Espírito Santo através de S. Tiago: " Cada um é tentado pela sua própria concupiscência que atrai e alicia. Depois a concupiscência quando concebeu dá à luz o pecado" (S. Tiago, I, 14). S. João diz por sua vez: "Aquele que comete o pecado é filho do demônio, porque o demônio peca desde o princípio" (1 S. João, III, 8). E no capítulo V, 19 diz: "Sabemos que somos de Deus, mas o mundo está sob o maligno". Nosso Senhor Jesus Cristo na parábola do joio explicou que é o demônio o homem inimigo que suscita os maus sobre a terra (Cf. S. Mateus, XIII, 39).

O mundo então através da tríplice concupiscência e excitado pelo demônio persegue os bons de duas maneiras:

 1 - Seduzindo-os através de suas vaidades e prazeres; promove, como vimos acima, tudo aquilo que favorece os olhares lascivos e enlaces sensuais, mas apresenta tudo isso como coisas necessárias para fomentar o amor; como úteis para a saúde, recreações, higiene, etc.. E assim, procura enganar as consciências. Depois o mundo elogia os que sabem gozar a vida. Prega o amor desordenado do prazer: "Coroemo-nos de rosas antes que elas murchem" (Sab. II, 8). É um dever sagrado, dizem os mundanos, aproveitar a mocidade, gozar a vida. O mundo seduz ainda pelos seus maus exemplos. Com mostra a trilhar o caminho largo, apresenta como argumento supremo a maioria. Todos os mandamentos se resumem neste: todo mundo faz assim; é a moda, etc..

2 - Quando não pode seduzir os bons, o mundo trata de os aterrar movendo-lhes perseguições: Assim, desviam-se da prática da religião os tímidos, metendo a riso os devotos, os que fazem penitência, os "ingênuos" que acreditam em dogmas imutáveis, motejam das mães que têm muitos filhos, e que vestem modestamente suas filhas, zombam daqueles que fogem dos ambientes perigosos: como bailes, praias, piscinas, carnaval, etc..

Já disse a Sagrada Escritura: "Aqueles que querem viver piedosamente sofrerão perseguição" (2 Timóteo, III, 11).

Diante da opressão que o mundo lhes faz, consolem-se com o diz a Sagrada Escritura: Em realidade se Deus não perdoou ao mundo antigo; mas somente salvou com outros sete a Noé, pregador da justiça, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo dos ímpios, e se condenou a uma total ruína as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as as cinzas para servir de exemplo aqueles que venham a viver impiamente, se, enfim, livrou o justo Lot oprimido pelas injúrias e pelo viver luxurioso destes infames (esse justo que habitava entre eles sentia diariamente a sua alma atormentada, vendo e ouvindo as suas obras iníquas), é porque o Senhor sabe livrar os justos da tentação e reservar os maus para o dia do juízo, a fim de serem atormentados, principalmente aqueles que vão atrás da carne na imunda concupiscência e desprezam a soberania (de Cristo)" (2 S. Pedro, II, 4-10).
Caríssimos, desculpem-me por eu ter me estendido demais. Mas, na verdade, o artigo ainda continua.  Veremos ainda, se Deus quiser, o modo de agir dos modernistas e o da Tradição em relação ao mundo. Faremos depois mais dois artigos sobre A MODÉSTIA NO VESTIR. Sempre me baseando nas Sagradas Escrituras.


terça-feira, 18 de abril de 2017

AS VESTES À LUZ DA BÍBLIA SAGRADA ( I )

   Escrevi este artigo há 4 décadas. O que é palavra de Deus, permanece para sempre e vale para todos.
   Como muitos padres não usam mais falar contra a imodéstia das modas, muitas pessoas, sobretudo as mais novas, ficam pensando que as exigências do modéstia são invenções de alguns padres. Por isso, quero tratar deste assunto baseado na Sagrada Escritura, que é a palavra de Deus escrita para nosso ensinamento.
   1 - Deus criou Adão e Eva no estado de inocência, sem a concupiscência, isto é, sem o desregramento das paixões. Daí, antes do pecado, Adão e Eva estavam nus e não se envergonhavam. (Confira Gênesis, II, 25). E eles conversavam familiarmente com Deus. Mas, a partir do momento que pecaram, perderam a inocência, começaram a ter maldade e então, tiveram vergonha em se verem nus, e coseram folhas de figueira e fizeram para si cinturas. (Confira Gênesis, III, 7). Foi o que eles puderam conseguir naquele momento após o pecado. Mas embora assim cobertos na cintura, se julgaram ainda nus, tiveram vergonha e se esconderam de Deus: "E o Senhor Deus chamou por Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele respondeu: Ouvi a tua voz no paraíso, e tive medo, porque estava nu, e escondi-me" ( Gênesis, III, 9 e 10). E notai que o próprio Deus não achou suficiente esta veste sumária. Eis o que diz a Bíblia em Gênesis, III, 21: "Fez também o Senhor Deus a Adão e à sua mulher umas túnicas de peles e os vestiu".
   2 - Consideremos bem isto, porque é uma ação do próprio Deus. Quem ousará contestá-la?! Se veste fosse assim algo secundário, Deus teria deixado à critério de Adão e Eva. Considere-se, primeiramente, que Deus os vestiu assim com modéstia, embora fossem esposos e os únicos que existiam até então sobre a terra. Como tudo que Deus faz é bom, disto tiramos duas conclusões: 1ª- aqui aplica-se também a palavra de São Paulo que recomenda a modéstia "porque Deus está perto" (Filipenses, IV, 5). - Deus assim agiu para servir de ensinamento à toda posteridade. A pessoa deve se vestir com modéstia não só na igreja, mas em toda parte. É claro que na igreja exigir-se-ão modéstia e decoro ainda maiores. São Paulo diz: "Do mesmo modo orem também as mulheres em trajes honestos, vestindo-se com modéstia e sobriedade" (1 Timóteo, II, 9). Considere-se também que Deus vestiu nossos primeiros pais com TÚNICAS. A túnica, por sua própria natureza, é uma veste que satisfaz as exigências da modéstia, porque oculta inteiramente o corpo, não só enquanto o cobre, mas também enquanto não deixa transparecer a sua forma.
   3 - Sobre veste, há ainda no Antigo Testamento uma outra passagem: "A mulher não se vestirá de homem nem o homem se vestirá de mulher, porque aquele que tal faz é abominável diante de Deus" (Deuteronômio, XXII, 5). Estas palavras da Bíblia indicam duas coisas: 1ª - Que havia diferenciação entre o modo de se vestir dos homens e das mulheres. A própria ordem natural feita por Deus exige que as diferenças entre os sexos sejam manifestadas. Já que depois do pecado original, os corpos têm de ser cobertos, as vestes têm que ser adequadas a cada sexo. Fica assim condenada toda moda unissex. 2ª - Em segundo lugar, a Bíblia condena o travestimento, ou seja, a mulher vestir as  roupas próprias de homem, e o homem vestir as roupas próprias de mulher. A Bíblia Sagrada não fala  que tipo de veste se deveria usar. Por isso Santo Tomás, citando Santo Agostinho, diz que se deve usar as vestes segundo o costume de cada região ou país, desde que sejam modestas e apropriadas para cada sexo. No Antigo Testamento, quando homens e mulheres usavam túnicas, havia diferença, sobretudo por causa dos véus que as mulheres usavam. E nos primeiros séculos do Cristianismo o véu para as mulheres era obrigatório, como diz Santo Agostinho. Santo Tomás de Aquino atesta que este costume caiu, embora a queda deste costume não fosse uma coisa louvável. Mas o uso do véu para o sexo feminino continua obrigatório na igreja: pelo menos, assim fazem os fiéis tradicionalistas, obedecendo o que diz São Paulo: "Julgai vós mesmos: é decente que uma mulher faça oração a Deus, não tendo véu? (1 Cor. XI, 13). E, como disse Jesus, a igreja é casa de oração.
   Entre o povo fiel a Deus, procurando obedecer ao Seu preceito, desde os primeiros tempos, procurou-se um feitio de túnica para cada sexo, além das vestes complementares que davam naturalmente uma diferenciação maior, sobretudo o uso do véu para as mulheres, como já foi dito. Há, no entanto, testemunhos de que os pagãos não obedeciam estas normas. Não reconheciam o verdadeiro Deus e a Sua Lei.
   Os sacerdotes da Antiga Lei também usavam túnicas cujo modelo era bem diferente e foi indicado pelo próprio Deus. Confira Êxodo, XXVIII, 31. Nosso Senhor Jesus Cristo também se cobria com túnica. Confira S. João, XIX, 23. Há muitas outras passagens do Antigo e do Novo Testamento que mostram ser a túnica usada entre o povo. Por exemplo: Gênesis XXXVII, 32; São Mateus, V, 40; (fala também da capa); Atos, IX, 39 etc. Até hoje, os padres ( pelo menos alguns) usam a batina que é uma veste talar que lembra a túnica de Jesus. Ninguém vai dizer que é veste feminina. O feitio da batina é muitíssimo diferente de um vestido como hoje é usado pelas mulheres. Além disso há o colarinho que é obrigatório; e a faixa que é facultativa.
   Além da primeira razão da decência para as vestes (o repeito à presença de Deus; a concupiscência própria e a vergonha natural depois do pecado original), há também uma outra razão que diz respeito ao próximo. Como depois do pecado original passou a existir no homem a concupiscência da carne e a concupiscência dos olhos pelos quais entram no coração os maus desejos, a lascívia, os adultérios etc., as vestes cobrindo direito o corpo se tornam necessárias também em relação ao próximo, ou seja, para se evitar o escândalo, isto é, tropeço que leva as pessoas a cair no pecado. E neste particular, indecente e condenável é não só a veste que não cubra bem o corpo, mas também quando deixa transparecer a forma do corpo ou em razão do seu próprio feitio ou por ser ajustada. Aliás, roupa muito ajustada, só pode ter uma razão de ser: a maldade. Além de ser incômoda, é, segundo a medicina, prejudicial à saúde.  
   Nosso Senhor Jesus Cristo deixou os princípios, os avisos, as regras da Moral pelos quais todos os homens devem guiar o seu modo de proceder. Segundo diz a Sagrada Escritura na Epístola aos Hebreus, XXII, 8 e 9: "Jesus Cristo é sempre o mesmo, ontem e hoje, e por todos os séculos". E, por outro lado, os homens, quanto à concupiscência, são também sempre os mesmos. Daí, não pode ninguém dizer que os tempos mudaram e por isso, as advertências de Jesus não têm mais valor hoje. Consideremos, então, algumas destas advertências de Jesus. Ele falou contra os escândalos, isto é, as seduções que levam os outros ao pecado. Disse Jesus: "Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é inevitável que sucedam escândalos; mas ai daquele por quem vem o escândalo!" (São Mateus, XVIII, 7-9). Jesus advertiu igualmente: "Quem olhar para uma mulher desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração" (São Mateus, V, 28). Agora, quem é que não reconhece que uma pessoa vestida menos decentemente é causa destes maus desejos e adultérios contra os quais fala Jesus acima ?
   E há também o escândalo das crianças que se sentem tentadas a imitar as adultas e assim vão perdendo o recato, o pudor e a pureza já desde pequenas. Jesus advertiu: "É melhor uma pessoa amarrar uma pedra de moinho ao pescoço e se lançar no fundo do mar do que escandalizar uma criança" (São Mateus, XVIII, 6). Já imaginaram as contas que vão dar a Deus as mães que dão este mau exemplo às suas filhas!!! Os pais procurem, pois, seguir o conselho que a Bíblia Sagrada lhes dá em relação aos filhos: "Tens filhos? Ensina-os bem, e acostuma -os à sujeição desde a sua infância. Tens filhas? Conserva a pureza de seus corpos" (Eclesiástico, VII, 25 e 26). Quantas mães, no entanto, desculpam seus filhos dizendo que são jovens e devem aproveitar a mocidade. Estas ouçam o que diz a Sagrada Escritura: "Regozija-te, pois, ó jovem na tua mocidade e viva em alegria o teu coração na flor de teus anos, segue as inclinações de teu coração e o que agrada a teus olhos, mas sabe que Deus te chamará a dar contas de todas estas coisas" (Eclesiastes, XI, 9 e 10). Meditem, outrossim, nos elogios que a Bíblia faz a castidade e pureza: "Oh! quão formosa é a geração pura com o seu brilho!" (Sabedoria IV, 1). "Graça sobre graça é a mulher santa e cheia de pudor! Todo preço é nada em comparação de uma alma que pratica a castidade" (Eclesiástico, XXVI, 19 e 20).
   CONCLUSÃO: A Sagrada Escritura e a Tradição são as duas bases sólidas sobre as quais se funda a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se alguém não as aceita, então vai se basear em quê? No seu modo de pensar? Nas máximas do mundo? Mas quem age assim, não é de Jesus Cristo.
NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DE FÁTIMA!   CONVERTEI OS PECADORES! 
  


domingo, 16 de abril de 2017

SANTA PÁSCOA!


SANTA PÁSCOA



Desejo aos caríssimos leitores uma FELIZ E SANTA PÁSCOA!



"Vós não sabeis que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Nós fomos, pois, sepultados com Ele, a fim de morrer (para o pecado) pelo batismo, para que assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim nós vivamos uma vida nova" (Rom. VI, 3 e 4).

Os méritos de Jesus Cristo adquiridos pela sua Paixão e Morte, subsistem para depois da Sua gloriosa Ressurreição. Para isto significar, quis conservar as cicatrizes das chagas: apresenta-as ao Pai em toda a sua beleza, como títulos à comunicação da sua Graça. Como diz São Paulo: "... (Jesus) porque permanece para sempre, tem um sacerdócio que não passa. Por isso pode salvar perpetuamente  os que por Ele mesmo se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós"(Hebr. VII, 25).
É logo no Batismo que participamos da graça da Ressurreição. É também o que diz S. Paulo, como acima transcrevemos.  A água santa em que mergulhamos no Batismo é, segundo o Apóstolo, a imagem do sepulcro (Na época se administrava o batismo também por imersão). Ao sair dela, fica a alma purificada de toda a falta, de toda a mancha, livre da morte espiritual e revestida da graça, princípio da vida divina. Jesus Cristo tem infinito desejo de nos comunicar a Sua vida gloriosa, assim como teve um ardente desejo de ser batizado com o batismo de sangue para nossa salvação. E o que é mister seja feito para correspondermos a este desejo divino e nos tornarmos semelhantes a Jesus ressuscitado? É preciso viver no espírito do nosso Batismo: renunciar de verdade (e não só de lábios) a tudo o que na nossa vida é viciado pelo pecado; fazer "morrer" cada vez mais o "velho homem". Continuando o texto supracitado no início: "Porque, se nos tornarmos uma só planta com Cristo, por uma morte semelhante a d'Ele, o mesmo sucederá por uma ressurreição semelhante, sabendo nós que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com Ele, a fim de que seja destruído o corpo do pecado, para que não sirvamos jamais ao pecado" (Rom. VI, 5 e 6). Assim, tudo em nós deve ser dominado e governado pela graça. Nisto consiste para nós toda a santidade: afastar-nos do pecado, das ocasiões do pecado, desapegarmo-nos das criaturas e de tudo o que é terreno, para vivermos em Deus e para Deus com a maior plenitude e estabilidade possíveis.  E São Paulo continua explicando: "De fato aquele que morreu, justificado está do pecado. E, se morremos com Cristo, creiamos que viveremos também juntamente com Cristo"...

Caríssimos, esta obra de santidade inaugurada no Batismo, continua durante toda a nossa existência. São Paulo dizia: "Eu morro todos os dias". É certo que Jesus Cristo só morreu uma vez; deu-nos assim o poder de morrer com Ele para tudo o que é pecado. Nós, porém, devemos "morrer" todos os dias, pois conservamos em nós as raízes do pecado, raízes estas que o demônio trabalha para fazer brotar de novo. Portanto, destruir em nós essas raízes, fugir de toda a infidelidade, desapegar-se de todo criatura amada por si mesma, afastar das nossas ações todo o motivo, não só culpável, mas puramente natural; libertar-nos de tudo o que é criado, terreno, conservar o coração livre duma liberdade espiritual, - eis, caríssimos, o primeiro elemento da nossa santidade. Mostra-o S. Paulo em termos os mais expressivos: "Purificai-vos do velho fermento para serdes uma massa nova; pois, desde que Jesus Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado por nós, tornastes-vos pães ázimos. Participemos portanto do banquete, não com o fermento antigo, o fermento do mal e da perversidade, mas com os ázimos da verdade e da sinceridade".

Aqui também faz-se mister uma explicação: Entre os Israelitas, nas vésperas da festa da Páscoa, deviam desaparecer das casas toda a espécie de fermento; No dia da festa, depois de imolado o cordeiro pascal, comiam-no com pães ázimos, isto é, sem fermento, não levedados (Cf. Ex. XII, 26 e 27).  Pois bem! Tudo aquilo eram apenas "figuras e símbolos" da verdadeira Páscoa, a Páscoa cristã. Naquele momento da regeneração batismal, participamos da morte de Cristo, que fazia morrer em nós o pecado: tornamo-nos, e assim devemos permanecer pela graça, uma nova massa, isto é, "nova criatura", "novo homem", a exemplo de Jesus Cristo saído glorioso do sepulcro.

Os judeus, chegada a Páscoa, se abstinham de todo  o fermento para comer a cordeiro pascal, "assim também vós, cristãos,  que quereis participar do mistério da Ressurreição e unir-vos a Jesus Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado por vós, deveis, doravante, levar uma vida isenta de todo o pecado; deveis abster-vos desses maus desejos que são como que um fermento de malícia e perversidade; deveis conservar em vós a graça que vos fará viver na verdade e na sinceridade da lei divina.

Não podemos servir a dois senhores ao mesmo tempo. E, se renunciamos ao demônio, suas obras que são os pecados, e suas pompas e vaidades que levam ao pecado, digo, se renunciamos a tudo isto, é justamente para vivermos para Deus. E este viver para Deus encerra em si uma infinidade de graus. Supõe em primeiro lugar afastamento total de todo pecado mortal; pois, entre este e a vida divina há incompatibilidade absoluta. Há depois a separação do pecado venial, das raízes do pecado, de todo o motivo natural; desapego de tudo quanto é criado. Quanto mais completa for esta separação, mais libertados estamos, mais livres espiritualmente e mais se desenvolve e desabrocha também em nós a vida divina; à medida que a alma se liberta do humano, abre-se para o divino, vive na verdade a vida de Deus.

Caríssimos, permaneceremos em Jesus que é a Vida, pela graça, pela fé que n'Ele temos, pelas virtudes de que Ele é o modelo perfeito. E é preciso que Jesus Cristo reine em nossos corações. É mister que tudo em nós Lhe seja submetido.  Jesus deve ser a nossa vida. Oxalá pudéssemos dizer com todo verdade como São Paulo: "Vivo, mas não sou mais que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim!"


Vamos resumir tudo também com palavras de São Paulo: "Portanto, se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são lá de cima, onde Cristo está sentado à destra de Deus; afeiçoai-vos às coisas que são lá de cima, não às que estão sobre a terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus" (Col. III, 1-3). Amém!

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O CALVÁRIO E A MISSA. Autor: Fulton Sheen

   Há certas coisas na vida que são demasiado belas para serem esquecidas como, por exemplo, o amor de mãe. O retrato daquela que nos deu o ser é para cada um de nós uma espécie de tesouro.
   O amor dos soldados que sacrificaram as suas vidas pelo seu país é também demasiadamente belo para que o deixemos cair no olvido e, por isso, prestamos homenagem à sua memória. A maior bênção, porém, de quantos vieram ao mundo, foi, certamente, a visita do Filho de Deus, sob o forma humana. A sua vida, superior a todas as vidas, é demasiadamente bela para ser esquecida, e é por isso que exaltamos a divindade dos Suas palavras na Sagrada Escritura, e a caridade dos Seus feitos nas nossas ações de cada dia.

   Infelizmente, algumas almas limitam-se apenas a estas lembranças quando, na verdade, por muito importantes que sejam essas palavras e ações, não são a maior característica do Divino Salvador.
   O ato mais sublime da história de Cristo foi a Sua Morte.

   A morte é sempre importante porque sela um destino. Qualquer homem moribundo representa um cenário, e este é sempre um lugar sagrado. A literatura do passado deu especial relevo às emoções que rodeiam a morte, e é essa a razão pela qual ela nunca passou de moda. De todas as mortes registadas no mundo dos homens, nenhuma, no entanto, foi tão importante como a morte de Cristo.

   Todo aquele que nasceu veio ao mundo para viver. Nosso Senhor veio ao mundo para morrer.

   A morte foi um triste ponto final para a vida de Sócrates, mas foi uma coroa para a vida de Cristo. Ele próprio nos disse que veio "para dar a Sua vida pela redenção de muitos". Ninguém poderia tirar-lha, mas Ele podia dá-la voluntariamente.

   Se, portanto, a morte foi o principal momento para o qual Cristo viveu, ela foi também a única coisa pela qual Ele quis ser lembrado. Jesus não pediu aos homens que registrassem as Suas palavras numa Escritura, nem tão pouco que a Sua bondade para os pobres ficasse gravada na história; mas pediu que os homens recordassem a Sua morte. Para que essa memória não fosse entregue ao acaso das narrativas humanas, Ele próprio instituiu a maneira como devia ser lembrada.

   Essa memória foi instituída na noite anterior à Sua Morte e, desde então, se chamou "A Última Ceia". Tomado o pão nas Suas mãos, Jesus disse: "Isto  é o Meu Corpo que se dá por vós; fazei isto em memória de de Mim. Tomou também depois, da mesma maneira, o cálice, dizendo: "Este é o cálice do Novo Testamento em Meu Sangue que será derramado por vós" (S. Lucas, XXII, 19 e 20).

   E, assim, num símbolo incruento da separação do Sangue e do Corpo, pela consagração do Pão e do Vinho, Cristo ofereceu-se à morte, à vista de Deus e dos homens, e representou a Sua morte que devia ocorrer às três horas da tarde do dia seguinte. Ele oferecia-Se para ser imolado como vítima, e para que os homens nunca esquecessem que jamais homem algum dera maior prova de amor do que Aquele que renunciava à vida, em favor dos Seus amigos, e deu à Igreja esta ordem divina: "Fazei isto em memória de Mim".

  No dia seguinte, Jesus realizou cruentamente o que já havia antecipado de maneira incruenta na véspera. Foi crucificado e o Seu Sangue foi derramado pela redenção do mundo.
   A Igreja que Cristo fundou, não só preservou a palavra que Ele proferiu como ainda o ato que praticou, no qual nós recordamos a Sua morte na Cruz, e que é o Sacrifício da Missa - memória da última Ceia e renovação incruenta do Sacrifício do Calvário.
  
Por esta razão, a Missa é, para nós, a ato culminante da amizade cristã. O púlpito, onde as palavras de Jesus são repetidas, não nos une a Ele; o coro, no qual os suaves sentimentos são cantados, não nos aproxima tanto da Sua Cruz. Um templo sem altar de sacrifício não existiu entre os próprios povos primitivos, e nada significa entre os cristãos. Na Igreja Católica é, pois, o altar, e não o púlpito, ou o coro, ou o órgão, que representa o centro da amizade, pois  é ali que se renova a memória da Paixão. O valor da ato não depende daquele que o celebra, mas sim e apenas do Sumo Sacerdote e Vítima, Nosso Senhor Jesus Cristo.

   Ali estamos unidos com Ele, a despeito da nossa insignificância; unimos o nosso espírito, a nossa vontade, o nosso corpo, a nossa alma e o nosso coração tão intimamente com Jesus que o Pai Celeste não é a nossa imperfeição que vê, pois contempla-nos através de Aquele que é o Seu Filho Bem-Amado, no qual Ele pôs toda a Sua complacência.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A PAIXÃO E MORTE DE JESUS CRISTO: AMOR INFINITO


O Eterno Pai nos amou tanto, que nos deu o seu único Filho, e o Filho amou tanto os homens que se ofereceu voluntariamente aos opróbrios, sofrimentos e à morte na cruz para, com seu sangue, ser o nosso resgate. Assim, este amantíssimo Salvador ofereceu o seu amor imenso para satisfazer a vontade do Pai e a salvação da humanidade. Jesus suou sangue no Jardim das Oliveiras, foi açoitado, coroado de espinhos, condenado, escarnecido, destinado a suportar os opróbrios e ignomínias, sofrendo a punição devida a todos os pecados e servindo de sacrifício geral pelo pecado, tendo-se tornado como se fosse um pecado vivo, como um anátema. Jesus quis morrer em amor, por amor, e para mostrar o seu amor. "Foi sacrificado, diz Isaías, porque o desejou". Sendo o seu corpo por direito, imortal e impassível, por causa da glória de sua alma, tornou-o mortal e passível por milagre e por amor. Quis até depois da morte ter o lado aberto para que víssemos e adorássemos aquele Coração que tanto amou os homens. Assim a imagem de Jesus Cristo, pisado, ferido, chagado, crucificado e trespassado, foi sempre um belo espelho de amor, onde os anjos e santos nunca se cansam de se verem até ficarem abismados  pelo amor. Ver Jesus assim sacrificando-se a si mesmo numa cruz! Este sacrifício é a origem de todas as graças que recebemos, fonte de todas as resoluções santas, de sorte que é por Ele que as conservamos, nutrimos  e fortificamos.

Pois, já que Jesus nos amou tanto, que todos remiu, regando-nos com o seu sangue divino; já que se fez todo nosso para nos fazer todos seus , dando-nos a sua vida e morte para nos isentar da morte eterna, e fazer-nos conseguir o gozo da vida eterna, para que sejamos seus, não só nesta vida mortal, mas também na eterna, devemos tomar a resolução de não vivermos mais para nós, mas por Aquele que morreu por nós. Devemos consagrar-Lhe todos os momentos da nossa vida, encaminhando para a glória sua todas as obras, pensamentos e afetos.


Ó Pai Eterno! que vos pode oferecer o mundo pelo presente que lhes fizestes do  vosso Filho? Ah! para remir uma coisa tão vil como eu, deu-se e entregou-se a si mesmo, e, embora miserável, ainda irei hesitar-me em dar-me a Jesus Cristo, em abandonar-Lhe este meu nada, a Ele que tudo me deu? Ó doce Jesus, compreendo a expressão de São Paulo: "Quem não amar a Jesus, seja anátema". Jesus, dai-me mais este graça: que eu Vos ame de verdade, com generosidade, sem reservas, de todo meu coração, com toda minha alma, com todas as minhas forças! Amém!

terça-feira, 4 de abril de 2017

OCASIÃO NECESSÁRIA E ABSOLVIÇÃO


Primeiramente quero lembrar que certas ocasiões, remotas para muitos, serão próximas ou quase próximas para aqueles que são mais inclinados ou mais habituados a algum vício, principalmente à impureza; vício este, que como diz Santo Tomás de Aquino, é de grande aderência. Se não afastam essas ocasiões, recairão sempre nas mesmas desordens.

Mas, dirá alguém, não me é possível separar-me dessa pessoa, não deixar aquela casa, sem ter com isso um grande prejuízo. Neste caso esta pessoa quer dizer que a sua ocasião não é voluntária, mas NECESSÁRIA. Dada a fraqueza humana, sobretudo nesta matéria de castidade, é evidente que o confessor não pode acreditar assim tão facilmente. Mas em casos indubitavelmente constatados, como agir? A pessoa que realmente se achar numa ocasião necessária,  deve empregar dois meios para transformar a ocasião próxima em remota, e  são: 1). oração, pedindo muito a Deus a fortaleza para não cair, e 2) evitar toda familiaridade com a pessoa com quem pecava. O confessor deve diferir a absolvição, afim de que o (a) penitente se aplique a fazer uso destes dois meios que consistem em se recomendar frequentemente a Deus e a evitar a familiaridade. É preciso que desde a manhã, ao levantar-se renove o bom propósito de não mais pecar, e suplique ao Senhor, não só de manhã mas ainda várias vezes no dia, diante do Santíssimo Sacramento, ante o crucifixo, ou a imagem da santa Virgem, a graça de não recair.

E que significa evitar toda familiaridade? Primeiro, nunca ficar a sós com a pessoa que foi cúmplice no pecado,  nunca lhe falar senão em caso de necessidade, e, apresentado-se a necessidade não o fazer senão com pesar e o estritamente necessário. Tornamos a frisar: ambos, devem passar algum tempo, e não muito breve, sem receber os sacramentos da penitência e da comunhão.

E perguntamos: Se, apesar de todos estes meios, os penitentes recaírem sempre em seus pecados, que remédio restaria para eles? Então o único é o que o divino Mestre prescreveu no Evangelho: Se o vosso olho vos escandaliza, arrancai-o e lançai-o longe de vós. Vale mais perder o vosso olho do que conservá-lo e ir para o inferno. Assim, em um tal caso, é preciso resolver-se absolutamente, ou a afastar a todo preço a ocasião, ou a sujeitar-se à eterna condenação.


E, caríssimos, hoje muitos dirão que isto é falta de misericórdia, é uma interpretação rigorista dos Evangelhos. Respondemos que as palavras de Jesus foram sempre assim interpretadas pelos Santos Padres da Igreja. E assim, devemos dizer que agir de modo diverso é monstruosa falta de caridade. Porque podemos perder tudo neste mundo, mas nunca podemos perder a nossa alma.  É bom e salutar meditarmos mais na vida dos santos mártires. Pedir uma fé mais viva e um amor mais ardente a Nosso Senhor. Amém!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

OCASIÃO PRÓXIMA VOLUNTÁRIA E ABSOLVIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Como já vimos anteriormente em outro artigo, todos os teólogos tradicionalistas concordam em que o mesmo preceito que nos proíbe pecar nos proíbe também de nos expor à ocasião próxima voluntária. Daí conclui-se que aqueles que estão na ocasião próxima voluntária não podem ser absolvidos, a menos que se proponham firmemente a fugir destas ocasiões; pois, só o fato de se exporem a elas é para todos um pecado grave, mesmo quando lhes acontecesse por vezes não sucumbir.

Quando a ocasião voluntária está atualmente presente, como ensina São Carlos Borromeu, o penitente não pode ser absolvido antes de ter afastado a ocasião; pois, sendo o afastamento de uma tal ocasião um ato que lhe custa muito, se o penitente não o executa antes de receber a absolvição, dificilmente se resolverá a isso depois de a ter recebido.

Com muito maior razão não poderia ser absolvido aquele que se recusasse a afastar a ocasião, prometendo apenas não mais recair no pecado.  Uma comparação: é possível alguém colocar uma estopa no fogo e ela não se queimar? Assim, como pode alguém ter a confiança de evitar o pecado, permanecendo na ocasião? E isso sobretudo em se tratando de ocasião de pecados contra a castidade com outrem. Na verdade,  a mulher é estopa, o homem fogo, e o demônio o soprador e atiçador.  Cabe aqui aplicarmos a palavra do próprio Espírito Santo: "Vossa fortaleza será como uma mecha de estopa, e a vossa obra como uma faísca; uma e outra se queimarão ao mesmo tempo e não haverá quem as apague" (Isaías, I, 31).

Um sacerdote ao exorcizar um possesso, obrigou o demônio a dizer qual de todos os sermões lhe desagradava mais, e confessou: "O sermão sobre ocasião". Contanto que a ocasião permaneça, pouco importa ao demônio que se façam bons propósitos, promessas, juramentos e mesmo muitas penitências; enquanto não se afastar a ocasião, o pecado permanecerá. A penitência que indica o verdadeiro arrependimento é justamente o fugir da ocasião próxima. Por exemplo: aquele e aquela que vivem em adultério, só podem ser absolvidos si se separarem de fato, não só de leito, mas também de casa. E para comungar exige-se um certo tempo que seja suficiente para todo mundo ver que realmente se converteram. Sem isto, dar a comunhão, seria motivo de escândalo, e, portanto, um enorme prejuízo para as almas.

A ocasião, principalmente em matéria sensual, é como que um véu que se tem ante os olhos, e que não mais permite ver nem Deus, nem inferno, nem paraíso. Enfim, a ocasião cega o homem; ora, quando cego, como poderá distinguir o caminho do céu? Tomará o caminho do inferno, sem saber para onde vai. É preciso, pois, que aquele que está em ocasião de pecar se esforce por sair dela; de outro modo, ficará sempre no pecado. Alguém dirá: ninguém pode ir para o inferno sem saber que está indo. Resposta: primeiro para os modernistas que procuram tranquilizar as consciências no pecado, devem ficar sabendo que isto pode enganar, mas não salva, porque o demônio é astuto. Que faz ele: leva a pessoa a encontrar argumentos facilmente com a cumplicidade das pessoas da Igreja, leva-a achar até santo aquilo que lhe é agradável à natureza. Mas o demônio tira esta venda dos olhos do moribundo e tenta-o ao desespero. E muitas almas podem se condenar por isso. Só a verdade é que salva. A mentira e o erro são  obras do demônio e só podem levar à condenação.  


domingo, 2 de abril de 2017

O PROPÓSITO DEVE SER EFICAZ

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Que isto significa? O propósito EFICAZ  deve nos fazer empregar todos os meios para evitar o pecado no futuro. Ora, um dos meios mais necessários é fugir e afastar as ocasiões de recair no pecado. É um ponto que merece toda nossa atenção: pois, se os homens tivessem cuidado de fugir das más ocasiões, evitariam muitos pecados, e muitas almas escapariam ao inferno. Sem a ocasião, o demônio pouco aproveita, pouco consegue; mas quando nos expomos voluntariamente à ocasião, principalmente em matéria de pecados desonestos, é moralmente impossível não sucumbirmos nela. "Quem ama (procura)  perigo, morre nele" diz a Bíblia. Assim, todos os teólogos concordam em que o mesmo preceito que nos proíbe pecar nos proíbe também de nos expor à ocasião próxima voluntária de pecar.

E argumento mais importante são estas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Divino Mestre: Se o vosso olho, é para vós uma ocasião de pecado, arrancai-o e lançai-o longe de vós. Do mesmo modo, se a vossa mão ou o vosso pé é para vós uma ocasião de pecado, cortai-os e lançai-os para longe de vós" (    ). Talvez alguém ache esta ordem muito severa. Primeiramente devemos entender que não se trata de mutilar-se fisicamente, é claro. Nosso Senhor faz uma comparação e ele mesmo proíbe a mutilação. O significado da comparação é o seguinte: Jesus quer dizer que, mesmo quando uma pessoa , uma leitura, uma profissão, um divertimento, etc., nos fossem tão caros como o nosso olho ou tão necessários como a nossa mão e o nosso pé, se, entretanto, são para nós uma ocasião de pecar e de nos condenar, devemos, custe o que custar, fazer o sacrifício deles. É o que Jesus explica quando acrescenta: "Vale mais para vós ir para o céu não tendo senão um olho, ou uma só mão, ou um só pé, do que ser precipitado no inferno com dois olhos, duas mãos e dois pés" (S. Mateus, IX, 13). Jesus Cristo disse o mesmo com outras palavras: "Que adiante a pessoa possuir o mundo todo, se vier a perder a sua alma?"  Portanto, o Divino Mestre deixou bem claro que é de absoluta necessidade a gente fugir da ocasião próxima de pecar, mesmo que esta ocasião seja uma coisa que nos é muito querida e/ou muito necessária. Assim devemos entender esta outra sentença de Jesus Cristo: "O reino do Céu sofre violência e só os violentos o arrebatam". Temos realmente de fazer-nos uma grande violência para renunciarmos certos apegos à alguma coisa ou pessoa que se constitui uma ocasião próxima de pecado, máxime, as de pecados contra a pureza.

São Francisco de Sales dizia que há certas coisas que são NÓS (plural de nó) que devem desaparecer, e não podemos ficar tentando desfazê-los, devemos cortá-los imediatamente. Por isso Jesus não disse que simplesmente a pessoa deva fechar os olhos, ligar a mão e o pé. Deve arrancar o olho, e cortar a mão e o pé e ainda Jesus acrescenta: e lançá-los longe. Portanto, por tudo que Jesus Cristo disse, fica claro que quem não quiser fazer uma verdadeira violência para deixar inteiramente as ocasiões próximas de pecado mortal, cairá inevitavelmente em pecado mortal e aí já está no perigo de morrer assim e ir para o inferno. Então, vale à pena a gente fazer esta violência e assim ir para o céu!

Tudo que dissemos acima se refere à ocasião próxima. Mas temos que ressaltar a distinção entre ocasião próxima e ocasião remota. A ocasião remota é aquela que se apresenta por toda a parte, ou aquela na qual raramente se peca. Já a ocasião próxima é aquela que por si mesma ordinariamente induz ao pecado; tais como são certos lugares, certas tabernas, certas amizades, certas leituras, certos divertimentos, certos serões, etc. que levam ao pecado por sua natureza. Estas ocasiões próximas chamam-se absolutas porque são perigosas para todos, não importa a que espécie de pecados mortais elas conduzam. De todas estas ocasiões, as mais funestas são sem contradição, aquelas que nos expõem ao perigo de perder o dom tão precioso da fé, como são as más escolas, os maus livros, jornais e revistas e, hoje em dia, os maus filmes, cinemas, e televisão e quando se usa a Internet para o mal.

Chamam-se também ocasião próxima, para certa pessoa, aquela que muitas vezes a tem feito cair no pecado; pois, há ocasiões que não são próximas para a maioria, e que o são para algumas pessoas em particular, visto suas quedas reiteradas, sua má inclinação, ou o mau hábito contraído. Estas ocasiões são por esta razão chamadas relativas. Eis aqui alguns casos de ocasião próxima: quando se conserva em casa uma pessoa com a qual se cai em pecado; quando se vai a uma taberna ou a uma casa particular, onde se tem muitas vezes pecado por excessos de bebida, por brigas ou por ações, palavras, pensamentos impuros; quando se têm cometido fraudes, provocado rixas ou proferido blasfêmias, etc., etc.


Na próxima postagem, se Deus quiser, mostraremos que aqueles que estão na ocasião próxima voluntaria não podem ser absolvidos.