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sábado, 1 de outubro de 2016

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( V )

A castidade do sacerdote

   Eu amo as almas puras. A minha Mãe era Imaculada. O meu Pai Nutrício era o justo e casto José, o meu discípulo amado o Apóstolo virgem.
   Assim, no decorrer dos séculos, acho também prazer em me rodear de uma legião de sacerdotes castos. Nada manchado pode abeirar-se do meu altar.
   Oh, como é bela aos meus olhos esta geração de almas puras! São a minha coroa de glória, o ornamento e defesa da minha Igreja, a confusão e o terror dos demônios.
   Eu chamei-te, meu filho, para fazeres parte da minha corte de honra, e no Céu ocuparás um lugar no cortejo do Cordeiro imaculado.
   Oh, como eu te tenho amado!
   A castidade sacerdotal é uma pérola preciosa; mas tu a levas num vaso frágil.
  Deixei-te a natureza humana com as suas tendências para o mal, com as suas paixões e as suas conivências secretas com o pecado. Mas ao mesmo tempo prodigalizei contigo a minha força divina, a graça da tua ordenação e o apoio das minhas inspirações.
   Deixei-te um corpo mortal com as suas fraquezas, as suas inconstâncias e as suas revoltas; mas também te preparei um alimento celestial: o Pão dos anjos, o meu corpo e o meu sangue, para extinguir em ti o fogo do pecado, para reparar as tuas forças e suster a tua coragem.
   Eu permito ao anjo de Satã armar-te ciladas, e lançar contra ti incessantes ataques; mas ao mesmo tempo deixei-te entregue à minha Mãe, que quebrantou a cabeça da serpente. Ela lutará por ti se fores fiel em chamá-la em teu socorro. Com a sua ajuda estás certo do triunfo.
   Mas sabe que é necessário vigiar e orar, até à velhice, até à morte.
   Aceita, corajosamente, a luta. Ninguém é tentado acima das próprias forças. Mas também ninguém será coroado, se não combateu fielmente.
   Meu Padre, sê casto. Tens parte na maternidade da Virgem das virgens. Ela deu-me o ser humano, e tu dás-me o ser sacramental. Oh, como tu, a seu exemplo, deves ser puro e sem mácula!
   Foste separado do resto dos homens para unicamente me pertenceres. Os teus pensamentos, as tuas aspirações, os teus desejos, os teus sentimentos, a tua atividade, tudo é meu!
   Como eu estive e estou, deves tu igualmente estar ao serviço das almas. Deves ser mediador entre Deus e os homens, instruir os fiéis, corrigi-los, confortá-los e perdoar-lhes os seus pecados.
   Sê casto! Sem esta virtude, como ousas tu arrostar os olhares dos homens, sentar-te sem corar no tribunal da Penitência, ouvir sem remorsos as confidências dos pecadores, arrancar-lhes delicadas e dolorosas declarações, inspirar-lhes horror a este cancro espantoso da impureza, se eles vêem o teu próprio coração roído?
   Como te atreves a pregar em público sobre a pureza dos costumes, e exaltar a beleza da inocência, a lançar em rosto os escândalos, se não podes dizer sem temor de seres desmentido: "Quem de vós me acusará de pecado?"
   E que miserável seria o teu coração simulando a virtude, quando a tua consciência é infame!
   Meu sacerdote, pelo teu ministério estás em contato perpétuo com a lama do pecado. O vício impuro fala-te, encara-se contigo, rodeia-te e acotovela-te e por toda a parte te persegue.
   Como evitarás as suas salpicaduras, se não estás sempre vigilante, se não te seguras sem cessar na minha divina mão?
   Tu não te podes contentar com uma semi-pureza. A senda do vício é escorregadia; se nela dás um passo por ligeiras imprudências, poderás deter a marcha sem caíres no abismo?
   Sê humilde e desconfia de ti mesmo. Colunas da minha Igreja tenho visto cair que pareciam tão inabaláveis como Jerônimo no deserto. 
   Não te creias mais virtuoso, nem menos exposto aos perigos, ou menos sensível aos atrativos do mal do que os outros. Se até agora não caíste, sabe que eu mesmo te preservei dos aliciantes do vício por comiseração da tua fraqueza. A tua secreta presunção obrigar-me-ia a retirar-te o meu apoio deixando-te entregue à tua miséria.
   Sê casto nos teus pensamentos, nos teus desejos, na tua imaginação, nos teus olhares, nas tuas palavras, nos teus atos e nos teus passos.
   Sê grave e reservado no teu trato, na conversa e em todo o procedimento.
   Sê acolhedor para todos, mas familiar com ninguém. Prodigaliza o teu tempo, as forças, o talento, mas guarda com zelo a virgindade de teu coração.
   Vela sobre os teus sentidos. Uma só faísca, um olhar imprudente, pode atear o fogo oculto sob a cinza e destruir a virtude mais provada.
   Mortifica a tua carne e reduz o teu corpo à servidão, não seja que, pregando aos outros, tu próprio pereças.
   Foge, como da serpente, da ocasião de pecado. Se para a evitares for preciso sacrificar o teu olho ou a tua mão, não duvides. Sem isto cairás, perecerás.
   Confessa humildemente as tuas faltas. Recorre à tua Mãe, à Virgem toda pura, e, em seguida, retoma a luta com energia e confiança.
   
   

domingo, 5 de junho de 2016

Jesus pregando Retiro para os seus sacerdotes - ( VII )

A solidão do sacerdote

   Meu filho, durante a tua curta existência sobre a terra vive só com Deus. Que nada turbe o trato interior da tua alma comigo.
   Esforça-te por teres só um ideal, uma tendência única. Sê outro Jesus, reveste-te do meu espírito, ama-me e faze-me amar dos outros.
   Evita a disjunção das forças e a multiplicidade dos negócios. Não deixes o teu espírito embaraçar-se com dúvidas, escrúpulos, preocupações sobre o passado, o presente e o futuro, não o escravizes pelo apego desregrado a uma ocupação ou a uma pessoa.
   O espírito foi-te dado para conheceres o teu Deus, para propor à vontade o Bem supremo e fazer-lhe adotar na ação os meios melhores de o atingires. Tudo o que fora dessa ordem dás às criaturas, tira-lo a Deus.
   Guarda a liberdade de teu coração e serás feliz, e encontrar-me-ás no centro da tua alma.
   Modera a multiplicidade dos teus desejos. Acaba com os sonhos de prazer, de bem-estar, de honrarias que te inquietam.
   No dia da tua ordenação escolhes-te-me como a parte da tua herança. Com este fim separei-te do resto das criaturas, par seres unicamente meu.
   Compreendes os meus divinos ciúmes? Aniquilei-me para te vir procurar no teu nada e no teu pecado. Guarda--me pois, íntegro o carinho do teu coração sacerdotal. 
   A caridade, a gratidão, as conveniências sociais, e ainda os deveres do teu ofício põem-te em frequente contato com o mundo.
   Todavia, enquanto tratas com as criaturas, o teu coração deve ficar perto de mim. Não lhe permitas expandir-se livremente e apegar-se a tudo o que fascina. Sem isto levarás uma vida preocupada e um dia cobrirás de vergonha a tua dignidade sacerdotal.
   Não te creias mais forte do que os outros, que se deixaram arrastar pela sedução.
   Evita a ocasião de pecado. Corta corajosamente certas afeições perigosas para a tua virtude ou nocivas à tua reputação.
   Confia teu coração sacerdotal à Virgem das virgens, à Mãe do sacerdote.
   Ela guardar-lhe-á as entradas e as saídas e dar-lhe-á a graça de me poder amar com um amor perfeito. Ela duplicará as suas energias, obrigando-te ao trabalho, à dedicação e ao sacrifício.
   Tu estás neste mundo, mas não és deste mundo.
   Quando os teus deveres de sacerdote estiverem cumpridos, e tiveres satisfeito as conveniências da vida social, recolhe-te comigo ao silêncio e à solidão.
   A mola, perdida a tensão, volta à sua posição natural. A tua posição e o teu lugar de repouso, após as tuas ocupações e enredos de cada dia, sou eu, é o meu divino Coração. Aqui virás repousar e tomar de novo forças.
   Guarda os teus sentidos. Nenhuma necessidade tens de fixar os teus olhares nas vaidades deste mundo. Sem esta preocupação bem depressa serás seu vil escravo.
   Evita com cuidado todas as relações inúteis, todo o comércio epistolar supérfluo, toda a curiosidade com respeito às novidades do mundo.
   Possuís em ti mesmo todo um mundo, o mundo sobrenatural. Acostuma-te a viver comigo, teu Irmão que tanto te ama, com nosso Pai e nossa Mãe do Céu, com os anjos e com os santos.
   Lembra-te constantemente que és sacerdote. O que diz bem nos homens do mundo, não diz bem em ti.
   Só deves entrar em contato com os outros para lhes levares os meus benefícios: para os instruíres, para os alentares, para os consolares e sarares, e, quando andarem extraviados, para os trazeres ao meu redil.
   Não mendigues as consolações dos mortais. És tu quem por mim foi constituído para, da minha parte, lhes levar a felicidade e a paz. Esta felicidade procurá-la-ás em mim, porque eu sou o Deus de toda a consolação: sou teu amigo, teu Irmão, com quem tu participas graça e privilégios.
   Procura frequentemente viver na solidão. Falar-te-ei nela mais intimamente ao coração, mostrando-te as lacunas da tua vida sacerdotal e a maneira de as encheres, e descortinando-te os inefáveis segredos do meu divino Coração.

domingo, 29 de maio de 2016

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes ( III )

O sacerdote deve ser santo

   Meu Padre, tu vives desde sempre no pensamento de Deus, associado a Mim, o Santo dos santos, e à minha Mãe Imaculada. Oh!, como esta nobreza divina te obriga a ser santo!
   Durante a Missa vês-me estendido diante de ti sobre o altar, revestido de humildes aparências e inteiramente ao teu dispor.
   Não deves tu ser santo e inocente para te inclinares sobre a mesma Santidade e Inocência?
   Os teus olhos não devem ser puros e singelos como os da pomba para poderes suportar o olhar da infinita Pureza?
   Não devem as tuas mãos ser sem mancha para ousares tocar e oferecer o Cordeiro imaculado?
   Considera a que grau de inocência eu elevei minha Mãe para lhe permitir satisfazer as obrigações do seu augusto ofício, para a fazer digna de me albergar no seu seio e levar-me em seus braços. 
   Mas pensa ao mesmo tempo em ti próprio, tão semelhante a Ela na dignidade e no poder, destinado igualmente a dar-me a existência no altar e a fazer-me nascer nas almas.
   Como o humilde José, foste associado à divina Família. Eu quis que ele fosse santo e puro porque em suas mãos havia de por a guarda da minha Mãe e de mim mesmo.
   Mas quanto mais santo ainda que o justo José não deverias ser tu! A ti confiei também a honra da minha Mãe, a ti me entreguei eu próprio como criancinha sem defesa; a ti deixei o cuidado de me procurares almas, nas quais eu possa nascer como outrora na gruta de Belém.
   Quando celebras, milhares de anjos enchem o meu santuário, abismados na adoração e nos louvores. Eles são meus servidores, mas tu és meu sacerdote. Tu sobes ao altar com plenos direitos; mandas-me descer dos céus e nascer em tuas mãos.
   Oh, como eu te preferi aos anjos e como a tua santidade deveria eclipsar a deles!
   Tu és mediador comigo entre Deus e os homens. É-lo pela tua ordenação, e para sempre.
   Deves apresentar a meu Pai as homenagens de adoração e de reconhecimento das criaturas. Mas, como as aceitaria meu Pai, se as tuas mãos estivessem manchadas?
   Estás encarregado de abrandar a cólera do Juiz justamente irritado, e de pedir perdão pelos inumeráveis crimes dos homens. Mas, como aplacarás se tu mesmo és pecador?
   Estás na obrigação de alcançar para os teus semelhantes as graças de que estão necessitados. Mas, como te ouvirá Deus, se és seu inimigo?
   Eu ti confiei o cuidado das almas resgatadas com o meu sangue, o dever de proteger a inocência daqueles que me pertencem. Mas tem cautela! Se não és um anjo de pureza, o teu hálito fanará a candura destas almas.
   Eu vim para lançar fogo à terra, e tu és o facho flamejante que o ateará nas almas. Mas, como atearás tu este fogo nos outros, se o teu próprio coração é de gelo?
   Tu foste escolhido para ires à procura das ovelhas desgarradas, carregá-las sobre os teus ombros e trazê-las ao redil. Mas, se tu não és o bom Pastor, as ovelhas fugirão de ti; não conhecem a voz do estranho. E assim eu perderei essas almas queridas pelas quais derramei o meu sangue, e será por tua culpa.
   Tu és a luz do mundo. Coloquei-te nas alturas como farol luminoso para que os teus bons exemplos lancem ao longe o seu fulgor. Mas, como iluminarás se está apagado o teu brilho? Não me obrigarás a arrancar do seu lugar o candelabro?
   Oh, não te aflijas, meu filho, à vista de tantas responsabilidades! Não percas a coragem, considerando a tua fraqueza!
   Bem sei que confiei a minha graça a um vaso frágil. Bem sei que és pó e que a tua natureza te inclina para o mal desde a juventude. Eu conheço o número dos teus inimigos e as ciladas que te armam, precisamente porque és meu sacerdote.
   Reza. Recorre a mim sem cessar e obterás o triunfo. Não és sozinho a pedir. A Virgem, minha Mãe, pede contigo. O meu divino Espírito marcou-te com o seu selo e pede dentro de ti com gemidos inenarráveis.
   Que tens a temer? Todos os meus bens são teus e os teus interesses são meus. A minha própria glória vai unida ao teu triunfo. 
   Podia eu confiar-te tanto poder sem te dar a graça de o exerceres dignamente? Quereria impor sobre ti uma obrigação e depois recusar-te a graça para a cumprires?
   Não percas a coragem à vista da tua miséria. O inferno nada pode contra mim, nem contra aqueles que põem em mim o seu apoio.
   Eu sou o Senhor dos senhores, o Deus dos exércitos. Todos os meus inimigos e os teus são menos que a gota de água que brilha num copo.
   Se queres ser santo, podes sê-lo com a minha ajuda. Recomenda-te sem cessar à minha Mãe. Eu a constituí teu Perpétuo Socorro. 
   Ninguém pode arrancar das minhas mãos as almas que me amam e invocam o meu nome. 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( X )

A  Paixão

   
Jesus Cristo: Pintura de Giotto na Capela Scrovegni
Pádua  -  ITÁLIA
   Como a mãe conta emocionada a seu filho os sofrimentos que passou para lhe salvar a vida, assim eu, meu filho, quero fazer-te meditar as dores da minha paixão. Não sou eu para ti mais do que uma mãe?
   Todos os dias durante o santo sacrifício convido-te, a ti e a teus fiéis, para virdes junto da minha cruz, e ali recordar-te as angústias que sofreu o meu divino Coração, as espantosas torturas e as humilhações infinitas que aceitei para te livrar da morte eterna e dar-te a vida.
   Oh, como é para mim doloroso ver as minhas igrejas quase desertas, enquanto se desenrolam todos os dias as pungentes cenas da tragédia do Calvário!
   E tu mesmo, meu sacerdote, assistes talvez a elas sem emoção, e fazes as cerimônias com uma precipitação e uma irreverência, que no meu Coração tiveram bem doloroso eco!
   Por ordem de meu divino Pai a angústia, o temor e a tristeza invadiram o meu Coração.
   Oh, como me senti só e estranho sobre a terra, sem amigos verdadeiros, no meio de homens perversos, sensuais e ingratos!
   Como suspirava pelo Céu, pela casa de meu Pai, pela companhia dos anjos, santos e puros, pela união amorosa com o meu divino Pai!
   Mas vi o seu rosto irritado pelos pecados com que me apresentava coberto e fui repelido. Mandou-me de novo à terra e conduziu-me a um medonho deserto, sem caminhos e sem água, e ali deu-me ordens de estar, na cruz, humilhado e desprezado.
   O terror apoderou-se do meu Coração e lançou-me em espantosas angústias. Tremia à vista dos cruéis  flagelos que iam lacerar a minha carne, dos espinhos compridos que deviam  perfurar a minha cabeça, e dos cravos que transpassariam as minhas mãos e os meus pés. 
   Vi com espanto aparecer os indignos e cruéis carrascos que me maltratariam escarnecendo-me e me escarrariam no rosto, e os fariseus hipócritas que me insultariam a caminho do Calvário, até mesmo nas agonias da morte.
   O meu Coração confrangeu-se de espanto considerando a minha Mãe Imaculada exposta, por minha causa, às zombarias e aos grosseiros insultos da populaça.
Coroação de espinhos: pintor Anton van Dyck
   Uma confusão inexprimível invadiu-me à vista das humilhações que me esperavam.
   Vi-me coberto com o roupão de insensato no palácio de Herodes, desnudo de todos os meus vestidos e exposto ignominiosamente aos olhares de multidão escarnecedora e sensual, ridicularizado como rei de espetáculo no corte de Pilatos, tido por mais vil que Barrabás e suspenso num patíbulo entre dois facínoras. E, pendente da cruz, o próprio Satanás lançou-me o seu desafio dizendo: "Se tu és o Filho de Deus, desce da cruz. Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo".
   Vi-me como que submerso num mar de pecados. Os crimes dos homens, quais vagas tumultuosas, cobriram-me de toda a parte. Abismado na minha confusão não ousava levantar os olhos ao meu Pai três vezes Santo, nem pedir-lhe que me livrasse de tantos opróbrios.
   Estava triste, triste até morrer, por causa dos inúmeros crimes e torpezas sem conta, cujo peso, eu, o Filho de Deus, levava, e que ultrajavam e irritavam o meu Pai muito amado.
   O meu Coração confrangeu-se de dor ao verificar a esterilidade dos meus sofrimentos para um grande número de almas, vendo o abandono dos meus próprios apóstolos, a negação de Pedro, a traição e perdição de Judas.
Nossa Senhora ao pé da Cruz
Pintor: Anton von Dyck
   O meu olhar penetrou tristemente o futuro e contei um a um todos os sacerdotes que me entregariam um dia a Satanás e lhe venderiam as almas compradas com o meu sangue. Oh, que horror!
   Estava triste não vendo em volta de mim ao pé da cruz senão um pequeno grupo de almas compassivas. Era aquilo toda a minha Igreja, o fruto de tantas fadigas, a recompensa de tantos benefícios, o resultado de tantos milagres!
   A aflição inundou o meu Coração pensando na minha pobre Mãe junto da cruz. Na véspera, as despedidas destroçaram o seu coração como o meu, e o pensamento da sua angústia não me abandonou mais, até à morte.
   Presente ao meu suplício, via bem claramente que era por ela que eu sofria mais que por todos os outros juntos, que sem os méritos dos meus sofrimentos previstos ela não seria a Imaculada. Sabia que, se eu a não tivesse amado tanto, não teria tanto que sofrer. Julgava-se, portanto, a causa das minhas dores, verdugo do seu próprio Filho. Via-se na necessidade de desejar ver-me sofrer e este desejo esmagava o seu coração maternal.
   A piedade de Filho fez com que eu fixasse sobre ela, de pé junto da cruz, um prolongado e doloroso olhar. E este olhar, velado já pelas sombras da morte, penetrou até à medula a sua alma, sem nunca mais o poder afastar de si.
   E enquanto a minha alma estava assim de todo oprimida, um oceano de sofrimentos corporais invadia todo o meu ser.
   A minha carne estava lacerada por unhas de ferro, a minha cabeça atormentada por cruéis espinhos, as minhas mãos e os meus pés trespassados com cravos, os meus ombros martirizados pela pesada cruz, os meus joelhos sangrentos pelas repetidas quedas, os ossos deslocados, os músculos enervados, a língua ressequida por uma sede cruel.
   Os algozes torturavam-me, mas a justiça do meu Pai dirigia certeiros os seus golpes.
   O meu corpo humano era uma harpa misteriosa, maravilhosamente delicado e sensível à dor. A onipotência divina tinha-se deleitado em afinar este instrumento para o fazer vibrar ao menor contato com o sofrimento. O próprio Deus, fazendo violência ao seu Coração paternal, reservou-se a incumbência de tocar todas as suas cordas arrancando-lhes, sem piedade, todos os acordes da dor.
   Sob a sua ação inexorável, mas justa, todas as fibras do meu corpo se abalaram em gemidos, e estas vibrações, como ondas dolorosas, passaram e repassaram todo o meu ser, propagando-se e repercutindo-se até ao infinito.
   Com a alma invadida de mortal angústia e com o corpo martirizado pelos sofrimentos, escarnecido dos meus inimigos, abandonado pelos meus, agonizante de vergonha e de dor, levantei ainda os olhos ao meu Pai, rogando-lhe que se compadecesse do seu Filho e que mostrasse à minha Humanidade esmagada o seu rosto paternal.
   Mas a resposta do justo Juiz foi terrível. O Deus três vezes Santo, vendo-me ainda coberto com a lepra afrontosa dos pecados de toda a humanidade, retirou de mim o seu rosto e senti-me abandonado do meu próprio Pai...!
   Eu aceitei esta suprema desolação para que os meus irmãos não se vissem dele separados e, inclinando a cabeça, morri nas angústias da mais extrema dor. 
   

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

FIM DO HOMEM


LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA: Dia 1 de fevereiro

   Para que fim Deus criou o homem: Para conhecer, amar e servir a Deus aqui na terra e assim ser feliz depois para sempre no céu. 

   Deus é o meu princípio; é o meu fim e é a minha recompensa. 

   1- Deus, meu princípio: Percorrendo toda a cadeia dos seres, chego ao primeiro elo, chego a Deus. Deus é o Ser que existe por Si mesmo e é eterno: não teve princípio, nem terá fim. Ser único antes da criação. Devo adorá-Lo nessa eternidade que precedeu o mundo. Mas Deus é a própria Bondade. A Sagrada Escritura diz que Deus nos amou primeiro, porque nos amou sempre, antes mesmo de ter criado o mundo. E assim, de preferência a tantos outros que poderiam ter vindo ao mundo e nunca virão, amava-me e me criou. E como não tenho em mim a razão de minha existência, Deus ao criar-me continua me sustentando no ser. Seria como uma criação continuada. Deus é meu Pai. "Pai Nosso que está no Céu". Ah! a quanto reconhecimento e amor estava eu obrigado! Ouço, no entanto o Divino Espírito Santo dizer-me: "Abandonaste a Deus que te criou, e esqueceste-te de teu Senhor e Criador" (Deut.XXXII, 18). 

   2 - Deus é o meu fim. Assim como, sendo Deus a própria Bondade, amou-me deste toda eternidade e depois criou-me, assim também sendo a própria Sabedoria, teve um fim, ao dar-me a vida: conhecê-Lo, amá-Lo e servir a Ele. Isto porque Deus sabia que o homem só poderia ser feliz cumprindo esta finalidade. Se, preencho este fim, tudo está salvo para mim. Fim único, fim necessário, fim glorioso, fim de todo o meu ser. Sou de Deus em todos os tempos, em todos os lugares. Tudo o que sou e tudo o que faço deve ser de Deus. 

   3 - Deus é a minha recompensa. Como servi-Lo é o meu fim próximo, assim possuí-Lo é o meu fim último. A minha existência na terra só começou; há de completar-se no Céu. "Para mim é bom unir-me a Deus!" Salmo 72, 28). 

   Resumindo: Sou todo de Deus, sou todo para Deus e Deus é tudo para mim.

   a) Sou todo de Deus. Se tudo em mim é d'Ele, tudo em mim lhe pertence. Sou mais de Deus que o súdito do seu soberano, o filho de seu pai, o painel do pintor que o fez.

   b) Sou todo para Deus. O que sou, é obra sua; deu-me o que possuo, para lhe render a obediência que lhe devo. Que nobre é meu fim! Assemelha-me aos Anjos, a Jesus Cristo, ao próprio Deus, que nada faz que não seja para sua glória.

   c) Deus é tudo para mim. Quis que a minha felicidade estivesse vinculada ao seu serviço: felicidade eterna, felicidade presente. Quero ser feliz; sei onde está a felicidade; como tenho eu podido obstinar-me, tanto tempo, em buscá-la onde sei que ela não está? Deus é meu Pai; quero ser feliz com Ele agora e depois para sempre no Céu!

EXEMPLO

   São Francisco de Assis topou certa vez um pedreiro que trabalhava, e amistosamente o interrogou: "Que fazeis, meu irmão?" - Faço paredes da manhã à noite". - "E por que fazeis paredes?" - "Ora essa! para ganhar dinheiro!" - "E para que quereis ganhar dinheiro?" - E o outro meio aborrecido: "Para comprar pão e viver", - "Bem, prossegue São Francisco; e para que fim viveis?" -  Desta vez o pedreiro não sabia o que responder; mas São Francisco aproveitou para explicar para aquele homem o fim para qual estamos aqui na terra. Vamos morrer e não estará tudo acabado, como acontece com os irracionais. Temos uma alma e Jesus Cristo disse: "Que adianta o homem ganhar o mundo todo se vier a perder a sua alma?"

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( XI )

O sacerdote pregador

   Como meu Pai me enviou, assim eu envio os meus sacerdotes a pregar o Evangelho a todas as nações, ensinando-as a observar tudo aquilo que eu mandei.
   Prega, portanto, a minha palavra a tempo e fora de tempo, persuade, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina.
São João Batista dizia a Herodes:
"Não te é lícito viver no adultério"
   Que a tua voz retina sem cessar como alarido de trombeta. Não canses de dizer ao meu povo os seus crimes e prevaricações. 
   Eu te constituí pregador e pus a minha palavra nos teus lábios; encarreguei-te de arrancar e de plantar, de destruir e de edificar.
   Se descurares de dizer ao ímpio: "Serás punido de morte" e não te esforçares com estas ameaças em o arrancar ao pecado, o ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue reclamá-lo-ei das tuas mãos.
   Eu dei a vida para deixar ao meu rebanho verdadeiros pastores. Mas ai, quantos de entre eles se deslizaram, entrando no meu redil lobos rapaces!
   Ai destes pastores indignos, que a si próprios se apascentaram em vez de apascentarem o meu rebanho! Bebem o leite das suas ovelhas, vestem-se da sua lã, e desleixam-se de as levar a bons pastos.
   Ai deles! que em lugar de ampararem os fracos, sararem os doentes e buscarem as ovelhas desgarradas, contentam-se com lhes intimarem as suas ordens com severidade e rigor. 
   Desta sorte as minhas ovelhas dispersam-se e são presa das feras selvagens.
   Meu filho, que desgraça se estas ameaças fossem escritas para ti!
   És fiel em pregar a minha doutrina àqueles que eu te confiei? Estão no direito de ouvir da tua boca palavras de vida eterna.
   A ignorância da religião, a indiferença e a impiedade invadiram uma grande parte do campo da minha Igreja. A ti toca exterminar estes males e, em vez deles, semear a boa semente.
   Não te queixes da esterilidade dos teus esforços. Já limpaste bastante o campo, e tiraste a cizânia, e remexeste suficientemente a terra?
   Dás atenção especial aos rebentos das plantas novas, às criancinhas que são a parte preferida do meu jardim?
   Explicas claramente, pacientemente, e com perseverança as verdades do catecismo?
   Não descuras os que por necessidade, por ignorância ou por abandono não frequentam a igreja e crescem como plantas selvagens no meio dos campos?
   Sem a tua solicitude paternal, eu perderia estas almas imortais para sempre.
   Prega a minha palavra em toda a ocasião. Não esperes que venham ouvi-la, junto do púlpito. Vai à procura das ovelhas arredias. Esforça-te em ganhá-las com uma advertência paternal, com uma palavra amável, com um proceder caridoso ou com uma santa indústria. Jamais temas a pena nem a afronta, quando se trata de salvar um dos meus filhos.
   Não tens na tua freguesia alguma ovelha sarnosa, um pecador público, um miserável por todos repelido, um incrédulo obstinado? Oh, como estas almas estão abandonadas e como tu devias deixar as noventa e nove no redil para ires à procura desta pobre ovelhinha tresmalhada!
   Tu és o mordomo da minha casa. E eu te encarreguei de dar a seu tempo e a todos os que nela moram, a medida de trigo que lhes está destinada.
   Ai do sacerdote, se um dia o Mestre o surpreender a maltratar as almas que lhe estão confiadas, ou a fazer causa comum com os pecadores e a armar ciladas às próprias ovelhas!
   A minha doutrina não é minha, é do Pai que me enviou.
   Cuida, portanto, de a não desvirtuares com a demasiada sabedoria humana, com a ciência vã ou com rebuscas literárias.
   Não deves adulterar o vinho bom do Evangelho com a água do teu próprio espírito.
   O verdadeiro Pastor esforça-se por haurir do seu tesouro o velho e o novo. Adapta as verdades velhas às necessidades presentes dos seus ouvintes, consulta humildemente os livros escritos, a seu uso, não poupa sacrifício nem tempo, a fim de preparar alimento espiritual a seu povo.
"É preciso que Cristo cresça e que eu diminua"
   Meu filho, não te pregues a ti mesmo. Que os teus fiéis, ouvindo-te, se esqueçam de admirar o teu talento para pensarem na reforma dos seus costumes.
   De ti mesmo não é mais do que um bronze sonoro ou um címbalo que retine. Sou eu quem dá às almas a graça de entenderem as tuas palavras e de se converterem.
   Guarda-te bem de fazeres da cadeira da verdade um estrado para, aos domingos, defenderes a tua própria honra ou para invectivares os teus paroquianos.
   Isto seria profanar o meu santuário e aviltar o teu santo ministério.
   O sacerdote é o meu porta-voz. Deve pregar a minha bondade e a misericórdia sem limites da minha Mãe Santíssima, o refúgio dos pecadores. Deve inspirar a meus pobres filhos, já tão débeis e desgraçados, confiança, e não acabrunhá-los com lamentos sem fim e com invectivas amargas.
   Deve saber, em ocasião oportuna, repreender com firmeza, mas com doçura, sem corromper o remédio com o veneno da sua própria impaciência.
   Meu filho, jamais te canses de semear a boa palavra. Lança por toda a parte, em toda a ocasião, em público e nas conversas privadas, os grãozinhos da minha doutrina.
   Não te preocupes com o sucesso dos teus trabalhos. Eu terei cuidado em fazer nascer nas almas bem dispostas o germe que tu nelas deixaste.
   Uma simples reflexão, uma boa palavra dita como que ao acaso, produzirá os seus frutos, porque tu és somente o humilde e obscuro semeador. Sou eu, o teu Jesus, o Onipotente, quem dá o crescimento. 
   




   

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Jesus pregando o Retiro aos seus sacerdotes - ( IX )

A Santa Missa

   Recolhe-te, meu Padre, vem mais pertinho de mim. Os anjos enchem o meu santuário. Os querubins e os serafins envolvem, trementes, o meu altar, e tu, mísera criatura, vais subir os seus degraus para me ajudares a continuar o meu sacrifício do Calvário.
   Eu sou a vítima como sou também o sacrificador, e é ao meu divino Pai a quem ofereço minha vida.
   Todavia quis ter necessidade de ti para me dares a existência no altar.
   Considera, pois, a que profundeza eu me abati e a que altura te elevei.
   Como o corpo humano unido à alma constitui o homem, e como o homem enriquecido pela graça forma o cristão, assim, de maneira análoga, o cristão revestido do caráter sacerdotal dá o sacerdote, outro Jesus. 
   Quando tu pronuncias a fórmula da consagração, não é um simples mortal quem a pronuncia; sou eu mesmo, o supremo Sacerdote, que vivo em ti, quem a pronuncia contigo e por tua boca.
   Não tremes pensando que és com o Onipotente um só e mesmo princípio de ação para produzir o Homem-Deus?
    E não se sente comovido e reconhecido teu coração, vendo-te objeto de tanta confiança e de tanta ternura por parte de Deus?
   As coisas santas devem ser tratadas santamente. Prepara-te todas as vezes para o grande ato da celebração dos divinos mistérios.
   Os meus anjos ficaram abismados em adoração diante do meu altar durante todo o tempo, esperando a tua chegada com santa impaciência e profundo respeito.
   Que tristeza e que espanto para eles, quando te vêem chegar turbulento e apressado, sem sequer suspeitares a sua presença, sem lançares um olhar ao divino Prisioneiro a quem eles fazem guarda de honra!
   Se tua alma fosse ao menos bastante pura para te pores em contato com o Cordeiro sem mácula!
   Oh!, meu filho, guarda-te bem de jamais celebrares com a consciência manchada com um pecado mortal.
   Jura-me que jamais no altar me darás o beijo de Judas!
   O zelo pela casa de meu Pai devora-me. Eu não posso sofrer no meu santuário a desordem ou a indiferença. A igreja é o palácio do Rei dos reis.
   Tem um cuidado cioso da pureza da mesa do altar. É o trono do qual desce a Majestade divina. 
   Vela pela limpeza dos vasos sagrados que hão de tocar o Cordeiro imaculado, pela decência dos ornamentos que devem cobrir-me na tua pessoa, enquanto nós ambos oferecemos o santo sacrifício.
   Meu filho, se verdadeiramente me amas, observarás com dignidade e com imenso respeito as mais pequenas cerimônias da santa Liturgia.
   Celebra com atenção e com o espírito e o coração unido a mim, o Sacerdote supremo.
   Comigo adora, ama e dá graças ao Pai do céu, de quem vêm todos os benefícios.
   Comigo implora do Juiz supremo o perdão dos teus pecados e dos pecados do meu povo.
   Comigo e por mim apresenta afoitamente as tuas petições.
   Tudo o que pedires em meu nome ao meu Pai, obtê-lo-ás.
   Após a Santa Missa não me abandones precipitadamente. Fica comigo algum tempo ainda, em trato íntimo, de coração a coração, para me agradeceres  e pedires o meu amor e para obteres o perdão das irreverências cometidas durante as augustas cerimônias.
   Desde que és sacerdote, és como o compêndio e o pai comum de toda a Igreja. Leva-la na tua alma dia a dia e oferece-la como vítima, comigo, ao Pai celestial. Nenhum homem sobre a terra pode encontrar-te indiferente aos seus destinos. 
   Quando celebras, as almas do Purgatório estendem para ti, súplices, as suas mãos. Conjuram-te a que sobre elas faças destilar algumas gotas do meu sangue precioso.
   Suplicam-te que acolhas os seus ardentes desejos, os seus prantos amorosos e os seus gemidos, de si mesmos estéreis; que os faças passar pelo teu coração sacerdotal, permitindo-me assim aliviá-las e libertá-las.
   Quando celebras, até o céu se inclina para ti com respeito e reconhecimento. 
   Os anjos e os bem-aventurados rodeiam-te com veneração e dão-te pressa para ofereceres a divina Hóstia. Pedem-te que unas as suas adorações às adorações da divina Vítima que tens nas tuas mãos.
   A minha própria Mãe, a Rainha de todos os sacerdotes, está presente cada dia ao teu santo sacrifício. Sente-se feliz de poder renovar, graças a ti, seu filho, a oferta que entre lágrimas fez um dia ao pé da cruz.
   

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro para seus sacerdotes - ( VIII )

O recolhimento do sacerdote

   Meu filho, tu que me és fiel, acolhe-me no íntimo da tua alma. Permite-me repousar em ti e consolar-me das minhas muitas e penosas decepções.
   Tu estás sempre comigo e tudo o que me pertence é teu. Tenho em ti as minhas delícias: tu és a minha casa, o meu templo. Toma consciência do mistério de amor que te envolve e te penetra por toda parte.
   Feliz quem caminha na verdade! Feliz quem compreendeu que o reino de Deus está dentro de si mesmo, e que ali participa já da vida eterna!
   O homem animal não compreende as coisas de Deus. Vive absorvido pelo mundo sensível que é apenas uma aparência enganosa, um véu encobrindo as realidades do Além.
   Tu ao menos, meu sacerdote, faze-me companhia no fundo da tua alma. Fica unido a mim como os membros estão unidos ao corpo, como os sarmentos incorporados na cepa.
   Tu vives, mas não és tu que vives, sou eu que vivo em ti pela minha graça. Esta graça é uma participação de natureza divina. Ela santificou a minha humanidade e dela faço participantes a todos os que me amam. 
   A minha graça penetra até à essência a tua alma, enobrece-a, diviniza-a. Assim eu estou em ti como um novo ser, o cristão: um só e mesmo princípio de atividade. 
   Todas as tuas ações, feitas em união comigo, procedem ao mesmo tempo de ti e de mim como de uma só e mesma causa. Desta arte, eu continuo a viver sobre a terra, a trabalhar e a estender o meu reinado até o fim dos tempos em cada um dos meus fiéis.
   Todos os teus sofrimentos, suportados com a minha ajuda, são nosso bem comum, porque ambos somos somente um. Assim eu continuo sobre a terra a minha Paixão. Cada alma, que sofre com paciência, ajuda-me a acabar o que ainda faltava à minha vida de vítima.
   Juntos glorificamos o Pai, juntos lhe damos graças, juntos o amamos, e juntos no Céu nos sentaremos à sua mão direita e gozaremos da mesma felicidade.
   Meu filho, há tanto tempo que estou contigo, e tu ainda mal me conheces. 
   Eu te convido de novo a gozar no amor da tua união comigo pela graça, e, por mim, com a Santíssima Trindade. Penetra em ti mesmo por um simples movimento da tua inteligência e da tua vontade. Não tens necessidade alguma dos esforços da imaginação e do sentimento. Deus é Espírito e em espírito e em verdade quer ser adorado.
   Que horas deliciosas passaremos juntos, se te quiseres prestar aos meus desejos, e quantos segredos eu tenho a comunicar-te a respeito da tua santificação pessoal e do bom sucesso do teu sagrado ministério!
   As três divinas Pessoas moram em ti, porque eu te comuniquei a minha graça.
   Em ti estabeleceram o Céu e fazem em ti a sua vida infinitamente feliz.
   Em ti o Pai, a cada momento, por um mistério inefável dá-me o ser, e do Pai e de mim precede o Espírito Santo, nosso mútuo Amor.
   E tu és, não somente o palácio onde se realizam estes mistérios e a testemunha de vista, admitido a contemplá-los, mas ainda tu mesmo tens parte ativa neles. 
   Comigo, Filho de Deus encarnado, tu amas o Pai porque és uno comigo. Em mim tu és amado do Pai, porque és comigo o Cristo. E este Amor do Pai e do Filho é o Espírito Santo. Ele estreita num abraço comum de amor a minha humanidade, a tua pessoa, e todas as almas justas.
   Assim tu vives em mim no seio do Pai. Não és já um mercenário. És o filho da família, e quão ternamente amado!. O teu divino Pai administra por si próprio os teus interesses, só querendo de ti o amor, a docilidade à sua voz, e a fidelidade ao dever de cada dia. 
   Sendo filho de Deus, és também meu irmão muito amado. Minha própria Mãe torna-se igualmente tua Mãe. Comigo tens direito à herança do céu. Todos os bens do nosso Pai do Céu são propriedade nossa.
   Oh, vivamos juntos no céu da tua alma! Cuidemos dos interesses do nosso Pai comum. Estendamos o seu reinado sobre a terra, salvando e santificando as almas. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jesus pregando o Retiro aos seus sacerdotes - ( VI )

O sacerdote deve ter o coração desprendido de todos os bens terrenos. Deve fugir de toda avareza e amar a santa pobreza.

    O teu Redentor não se buscou a si mesmo. Eu fiz sobre a terra, por obediência, a obra imposta pelo meu Pai, e esta obra não foi outra que a Redenção dos homens pelo trabalho, pela fadiga, pela pobreza, pela humilhação, pelo sofrimento e pela morte.
    Vim para ser Hóstia da humanidade, para tomar sobre mim os seus pecados, e sofrer por ela o castigo, para lhe alcançar pela minha paixão e pelo meu sacrifício a vida eterna.
    E tu, meu sacerdote, tu também voluntariamente aceitaste continuar sobre a terra a minha vida de Hóstia para salvar os homens.
    Fiz-me alimento das almas. Da mesma forma deves permitir que os teus fiéis assimilem como um alimento o teu tempo, as tuas forças, o teu talento; que usem e abusem da tua paciência, da tua saúde, dos teus bens, sem neste mundo teres nisto proveito algum.
    O cacho de uvas tem o destino de ser sujeito à prensa. Se o não for, jamais dará o seu precioso licor.
   O sacerdote, a meu exemplo, foi criado para, de alguma forma, ser prensado e pisado pelas almas, consagrando-lhes o seu tempo, as suas comodidades e a mesma vida.
    Que decepção para mim se, no entardecer da tua vida, encontrares o teu cacho ainda intacto e o teu cálice vazio!
    Eu não tive onde repousar a cabeça. Nasci e cresci na pobreza. Morri despojado e nu sobre a cruz e não tive para sepultura senão um sepulcro emprestado.
"Todos os que criam estavam unidos e tinham
tudo em comum. Vendiam suas propriedades e
os seus bens, e distribuíam o preço por todos,
segundo a necessidade que cada um tinha".
Atos dos Apóstolos, II, 44-45.
    Como te fica mal, meu filho, preocupares-te tanto com o bens da terra! O nosso reino não é deste mundo. Nós não temos sobre a terra morada permanente. Por que tu hás de apegar então às coisas que passam?
    Portanto não te inquietes dizendo: Que hei de comer, que hei de beber, com que me hei de vestir? Os pagãos é que se preocupam com estas coisas. Mas tu, tu tens no céu um Pai onipotente que é quem cuida de ti. Até as avezinhas do céu alimenta. 
    Procura, em primeiro lugar, estender o meu reinado sobre a terra. Sê sacerdote comigo, e tudo o mais ser-te-á dado a seu tempo pelo nosso Pai que está nos céus.
    Tu és comigo Redentor, Hóstia e Pastor do meu rebanho.
    O bom pastor não espolia as suas ovelhas; pelo contrário, dá por elas a vida.
    Está pronto a agir desta sorte e as minhas ovelhas ouvirão a tua voz e salvar-se-ão por teu meio.
   Não entres nunca em altercações com os teus paroquianos por causa de bens terrenos. Este procedimento do Pastor escandalizaria e afastaria de mim as minhas ovelhas. 
    Se alguém te quiser roubar o manto, dá-lhe também a túnica. Eu fui tratado sobre a terra por aqueles que vinha resgatar, como homem que não tem direitos.
    De igual sorte serás tratado pelos teus próprios fiéis: o discípulo não está acima do Mestre.
    Tu mesmo, filho, amiúde me fizeste cruéis injúrias, ofendendo-me após tantos benefícios.
    Que teria sido de ti, se eu tivesse agido a teu repeito segundo o rigor dos meus direitos? E que será do meu rebanho, se o sacerdote exige sempre dele a estrita justiça? Não é na terra que deves reclamar os teus direitos. Na terra tu és vítima comigo, destinado a seres sacrificado e calcado aos pés. É necessário partilhares comigo a Cruz até ao Calvário. 
    Nada temas. Na eternidade a ordem será restabelecida. Lá, os meus sacerdotes, os que me seguiram na pobreza e na humilhação, julgarão as doze tribos de Israel; sentar-se-ão à minha direita entre os príncipes de meu povo.
    Faze o bem enquanto há tempo para o fazeres. Renuncia às tuas comodidades, ao teu repouso, aos cuidados excessivos da tua saúde. 
    Gratuitamente recebeste, dá gratuitamente, sem peso e sem medida.
    Se quiser ter necessidade de ti para a minha Obra, eu te conservarei as forças. Se te mando a doença, sabe que o faço por um desígnio de minha misericórdia. 
    Eu vim para servir e não para ser servido. Tu deves ser igualmente o servidor de todos e acudir ao menor chamado de uma alma em perigo.
    Que desordem, se por te poupares desamparas uma alma imortal, comprada com o meu sangue!
    Que desgraça para ti, se um dia eu tivesse que te lançar em rosto esta queixa: Os pequeninos pediam pão e não houve que lho partisse!
    Quem quer ser o primeiro, considere-se último. Se estás elevado pela dignidade, abate-te pela humildade. És grande pelas tuas funções, sê pequeno na tua estima. Estás colocado acima dos teus fiéis pela tua eleição ao sacerdócio; deves estimar-te como o mais indigno de exercer as augustas cerimônias.
    Não esperes com orgulho que os pecadores te venham procurar; previne-os, obsequioso pela tua bondade.
    Eu desci dos esplendores do céu para buscar a ovelha tresmalhada. Não podes tu descer do pedestal da tua dignidade para te abeirares com doçura dos pobres pecadores?
    A tua aproximação fácil e acolhedora ganhar-te-á mais almas de que os teus eloquentes discursos.
    A tua doçura e a tua humildade dar-te-te-ão a chave dos corações mais hermeticamente fechados.
    Sê perfeito como nosso Pai celestial é perfeito. Ele tanto faz cair a chuva no campo do pecador como no campo do justo. E continua a dar existência e os bens temporais ao ímpio, e precisamente no momento em que este abusa deles para o blasfemar.
    Aceita o reconhecimento da gratidão, se os homens to mostrarem. Não é a ti que este reconhecimento vai dirigido, mas sim Àquele a quem tu, como sacerdote, representas.
    Mas não estranhes encontrar no caminho a ingratidão. Eu fui dela saturado, e permito que tu igualmente lhe saboreies a amargura.
    Não tens necessidade do amor e da gratidão dos mortais. Lembra-te que pelo sacerdócio tu tens o teu lugar junto de mim e da minha Mãe muito amada.
    Comparado com a nossa ternura e dedicação por ti, todo outro amor te deve parecer vão e frágil.
    

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( IV )

A humildade do sacerdote

   A minha substância humana é diante de Deus como o nada. Assim aniquilei-me perante a majestade do meu Pai! Tomei a forma de escravo. Fui semelhante a um verme de terra, e quis ser considerado como o último dos homens, um homem devotado ao sofrimento.
   A Ele, meu Pai, Princípio de todas as coisas, Ser infinito, Mestre soberano, seja dada honra e glória pelos séculos dos séculos.
  A mim, o Filho do homem, criatura do nada segundo a minha humanidade, seja dado abatimento e confusão.
   Eu sou o Santo dos santos, essencialmente separado dos pecadores; e, todavia, tomei sobre mim o teu pecado e os pecados de todos os homens.
   Assim mereci todos os golpes da ira de Deus. Fui com toda a justiça saciado de opróbrios e como que esmagado debaixo da sua mão onipotente.
   A maldição devida ao pecado, com razão aderiu a mim como um vestido, precipitando-se como a torrente nas minhas entranhas e penetrou como o óleo até à medula dos meus ossos.
  Se eu fui com toda a justiça, tratado desta sorte por haver tomado sobre mim o pecado alheio, que castigo não merece quem cometeu o pecado?
   Se assim foi tratado o lenho verde, com o seco que se fará?
   Ó meu filho, a que espantosa condição te reduziu o pecado! Não é justo que passes a tua vida na abjeção voluntária diante de meu Pai, diante dos homens e perante a tua própria consciência!
  Tu és essencialmente criatura, infinitamente dependente, sob todas as formas, do teu Criador, do teu Redentor, de teu Santificador.
   Não podes existir, nem agir, nem mover-te, sem o socorro atual do seu braço onipotente. 
  Na ordem sobrenatural, nem sequer podes conceber um simples desejo salutar, nem ter um único pensamento bom, nem fazer movimento algum para te acercares de Deus.
   És incapaz de permanecer, embora por um só instante, na sua amizade, incapaz de nela progredir e mais incapaz ainda de perseverar nela, se não és levado pela graça.
   A tua natureza caída é de si capaz de todos os crimes.
   Não és mais que uma gota de água perdida no seio dos mares; e todavia esta gota de água encerra, em germe, toda a malícia e todas as abominações do mundo. Se a minha graça te não prevenisse, eras capaz de cometer realmente todos os crimes. 
   Humilha-te diante do meu Pai. Reconhece a tua infinita miséria, e Deus aproximar-se-á de ti, purificará a tua alma e amar-te-á. 
   Traze sempre à minha presença um coração contrito e humilhado. Não te atribuas quaisquer talento, sucesso, boa obra ou dom de Deus. Sobretudo não te glories de teres sido levantado à dignidade infinita de sacerdote, porque foi gratuitamente que a recebeste.
   Separa bem em ti o que é de Deus e o que é teu. De ti mesmo tens o nada, o pecado, e o direito ao inferno. Tudo o mais é propriedade minha, efeito da minha bondade e da minha misericórdia. 
  Ama e busca a vida escondida. Não é o brilhantismo do talento, nem a atividade natural, nem o movimento a que muitos se entregam, que a mim conduz as almas.
   Elimina da tua vida tudo o que nela há de humano, para seres exclusivamente meu instrumento, um eco de mim mesmo.
   Sê humilde diante de teu próximo. Suporta as suas fraquezas, escusa os seus defeitos. Atrai as almas pela paciência, pela doçura e pela amenidade do teu proceder. 
   Leva com gosto o fardo de teu próximo. Faze-te o servidor de todos. Como sacerdote vieste para servir e não para seres servido. 
   Sê humilde contigo mesmo. Reconhece de boa mente as tuas faltas, aceita a humilhação que te proporcionam a tua impaciência, o insucesso e os desprezos.
   Segue-me pelo caminho do Calvário. Saboreia em silêncio os opróbrios e os insultos com que o mundo me fere na minha pessoa e na pessoa dos meus sacerdotes. 
   E se sentires dificuldades para compreender esta lição de humildade, roga-me, roga à Virgem humilde de Nazaré, minha Mãe e também tua, suplica-me que abra os teus olhos e verás como dos pés à cabeça estás coberto das chagas do teu orgulho, como todas as potências da tua alma estão roídas por este cancro, como todas as fibras do teu ser estão infectadas deste veneno.
   Meu pobre filho, nem sequer vês e julgas-te são, bom, virtuoso e digno de respeito e de admiração!
   Pede-me e eu farei cair dos teus olhos essas cataratas que te impedem de ver a tua alma em toda a sua indigência e em toda a sua nudez.
   Para quem me inclinarei eu, senão para o coração contrito e humilhado?
  O coração humilde vive na verdade, está contente do seu nada, não usurpa os direitos que apenas pertencem a Deus, o Ser soberano.
   Se alguém é pequeno, venha a mim.
   O coração soberbo, pelo contrário, inspira-me horror; leva na sua fronte o estigma de Satanás, pai do orgulho e da mentira.
   Aprende de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrarás o sossego para a tua alma.  
   
    
   
   
     

domingo, 5 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes ( I )

MENSAGEM DE JESUS AO SEU SACERDOTE
pelo Pe. José Schrivers, C. SS. R.

   Farei apenas algumas postagens extraídas deste livro que pode ser adquirido na Editorial Perpétuo Socorro; Rua da Firmeza, 161, PORTO, PORTUGAL

NA VÉSPERA DE TARDE

   Venha a mim, meu filho. Eu convido-te a subir a montanha santa como outro Moisés. Desejo entreter-me contigo de coração a coração. Não és tu o chefe de meu povo?
   Não temas a minha divina Majestade. Sou o teu Jesus, o teu Redentor. Não te escondas de mim como Adão no paraíso terrestre, apesar, talvez, da tua nudez espiritual. Eu vim, não para te repelir com os meus rigores, mas para te atrair à minha intimidade e revestir da minha graça.
   Não recuses, portanto, o meu convívio. A quem irias então? Não tenho Eu palavras de vida eterna? Para onde fugirias tu, longe de mim, se estás envolvido pela minha divindade e és levado nos meus braços onipotentes? Em mim tens o ser, o movimento e a vida.
   A minha conversação não tem amargura. Sou a alegria dos anjos e as delícias dos eleitos. Criei o coração do homem, e o teu, particularmente, para o encher da minha graça e da minha felicidade. Sem mim serás culpável e infeliz.
   Não te espantes de ver a minha grandeza infinita abater-se até ao teu nada e convidar-te a um diálogo íntimo. Sou teu irmão, feito semelhante a ti. Não te fiz eu meu sacerdote, outro Jesus? Não te escolhi entre milhares para te revestir do meu poder e confiar-te na terra a minha obra de amor? 
   Recolhe-te na minha presença. Estou no centro da tua alma. Se afastares de teu coração todos os mais cuidados, ouvirás a minha voz.
   Presta-me atento ouvido, porque te quero falar. E tenho tantas coisas que te ensinar, tantos interesses a tratar, que a ambos atingem e importam ao nosso Pai comum que está nos Céus!
   Quantas vezes, quando no altar me tinhas nas tuas mãos, quis entrar em contato contigo, meu filho, e dizer-te: meu amor! Mas estavas despreocupado e distraído.
   Agora, está atento à minha voz. Deixa para mais tarde as tuas solicitudes e vem entreter-te comigo.
   Tem confiança, meu filho, meu Padre. Vim para te esclarecer, para sarar com o meu contato as chagas da tua alma, até as mais inveteradas. Oh! conheço-as todas, ainda aquelas que tu a ti próprio quererias dissimular!
   Não me impeças de te fazer bem. Não te furtes a mim pela desconfiança. Se o meu sacerdote se distancia de mim, admitindo-o quotidianamente à minha mesa, quem me  fará companhia na solidão do meu Tabernáculo? Quem me ajudará a glorificar o meu divino Pai?
   Durante estes exercícios não te dedique a buscar grandes pensamentos e ideias sublimes. O teu espírito é só trevas... eu sou a luz do mundo. Se és humilde, eu me revelarei a ti.
   Não procures a doçura e a consolação. O meu reinado em ti não é sentimento. O amor, que quero fomentar em ti, é sobrenatural. Ele transformará a tua alma, mesmo sem tu o saberes, e deixá-la-á pronta para fazer a minha vontade.
   Reza. Recomenda-te à minha Mãe, à Mãe do Perpétuo Socorro, a Rainha dos sacerdotes, e ela te fará dócil à minha voz.