quinta-feira, 29 de setembro de 2016

NEM PROSSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( III )

VIGÁRIO DE CRISTO

Autor: D. Antônio de Castro Mayer

   Vigário de Cristo. É como identificamos o Papa. Assim o definem os Concílios, como o de Florença e primeiro do Vaticano.
  
   Como Vigário de Jesus Cristo, o Papa é o chefe da Igreja. Jesus Cristo edificou sua Igreja sobre a rocha de Pedro, e o Papa é o sucessor de São Pedro no cargo de Chefe. Daí a frase "ubi Petrus ibi Ecclesia", para dizer que onde está o Papa aí está a Igreja. Eis que o primeiro Concílio do Vaticano destaca que ao Papa se deve obediência não somente nas questões de Fé e Costumes mas também nas relativas à disciplina e ao governo da Igreja, e declara que na comunhão com o Papa conservamos a união com a Igreja.

   Com efeito, o Papa é essencialmente o Vigário de Jesus Cristo. Em outras palavras, ele assume a Pessoa de Jesus Cristo. Ele faz suas vezes. Deve-se-lhe o acatamento e a obediência que se presta a Jesus Cristo, a quem ele representa. Seu poder, porém, sua jurisdição é vicária. De si, ele é de Jesus Cristo, pois, como escrevia o Papa Inocêncio III ao Patriarca de Constantinopla, em 12 de novembro de 1199, "o primeiro e precípuo fundamento da Igreja é Jesus Cristo". O Divino Salvador, no entanto, confiou seu poder a Pedro: "Como meu Pai me enviou, Eu vos envio", disse Ele aos seus Apóstolos, especialmente ao Chefe deles, São Pedro. Esta outorga foi de modo permanente, e para sempre, para que o Papa o exerça em seu lugar, fazendo-lhe as vezes, "vicens eius gerens".

   Este aspecto é essencial ao Papado. Não pode ser olvidado. Seu esquecimento pode ter nefastas conseqüências. Pode levar a pessoa a pensar que o Papa é dono da Igreja, que pode fazer o que quiser, mandar e desmandar o que melhor lhe pareça, estando os fiéis obrigados sempre a simplesmente obedecer. Refletindo um pouco, vê-se que esta concepção atribui ao Papa a onisciência e a onipotência que são atributos exclusivos de Deus. Outra coisa não faz a idolatria que transfere à criatura o que é peculiar à divindade.

   Por este motivo, o primeiro Concílio do Vaticano ao definir os poderes do Papa, tomou o cuidado de definir também sua finalidade e seus limites. Deve o Papa conservar intacta a Igreja de Cristo, através da qual o Divino Salvador torna perene sua obra de salvação. Manterá, pois, a estrutura da Santa Igreja como o Senhor a constituiu, e velará para conservar e transmitir intacta a Fé e a Moral recebida da Tradição Apostólica. Para este fim e dentro destes limites, goza o Papa da assistência divina que lhe assegura a impossibilidade de errar e desorientar os fiéis sempre que definir um ponto de Fé e Moral.

   Não é despropósito pensar que, precisamente para fixar bem o poder vicário do Papa, tenha a Providência permitido que , no trono de São Pedro, se tenham assentado indivíduos, em cuja doutrina e/ou procedimento, encontram-se pontos gravemente prejudiciais à Fé e/ou à Moral. Não ensinavam com sua autoridade suprema e definindo matéria de Fé, ou davam mau exemplo com seu modo de proceder. Explica-se assim o julgamento emitido sobre Honório I quer pelo Concílio de Constantinopla quer por São Leão II, ou seja, que ele (Honório I) "com profunda traição permitiu que se maculasse a imaculada Fé desta Igreja Apostólica". E de modo semelhante, verificaram-se fatos dolorosos na História de Igreja.

   Resistir a tais ensinamentos e maus exemplos não é recusar obediência ao Papa, ou à sua pessoa. Quem assim procede concede sua adesão ao Vigário de Jesus Cristo. E é somente como Vigário de Jesus Cristo que o Papa é dotado dos poderes de jurisdição em toda a Igreja. De onde, os Padres de Campos, ao recusar a nova Missa não estão recusando nem João Paulo II, nem a comunhão com toda a Igreja, uma vez que a nova Missa é prejudicial à Fé, pois, entre outros pontos, na sua ambigüidade, não se destaca suficientemente da heresia protestante". (Jornal Monitor Campista, 17/10/1982).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A TRADIÇÃO


LEITURA ESPIRITUAL 

"Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições, que aprendestes, ou por nossas palavras ou por nossa carta" (II Tess. II, 14).



   São Paulo atribui o mesmo valor ao que ensinou por escrito e ao que ensinou oralmente. E a Santa Madre Igreja, baseando-se principalmente neste texto do Apóstolo, atribui o mesmo valor ao que recebeu oralmente por uma sucessão contínua, assistida pelo Divino Espírito Santo, e ao que recebeu mediante a Sagrada Escritura divinamente inspirada.

   São duas, portanto, as fontes da Revelação: a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura. A Sagrada Tradição compreende aquelas verdades reveladas que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou e que os Apóstolos pregaram sem consigná-las por escrito. O mesmo Espírito Santo, que inspirou os santos escritores a escreverem o que está na Escritura Sagrada, também assistiu com seu poder divino, para que se conservasse intacto e fielmente fosse passado de século em século, como de mão em mão, tudo o mais que Jesus Cristo e os Apóstolos ensinaram. Diz o mesmo São Paulo ao Bispo São Timóteo: "Os ensinos que de mim recebeste, em presença de muitas testemunhas, confia-os a homens fiéis, que os possam comunicar a outros" (II Tim., II, 2). 

   "Os irmãos separados", "os evangélicos", "os crentes", ou melhor, sem usar aspas, os protestantes recusam toda Tradição divina distinta e separada da Escritura Sagrada ou Bíblia. Segundo o espírito do Concílio Vaticano II, há de se ressaltar, disse Sua Santidade, o Papa João Paulo II: "o empenho que a Igreja deve dedicar ao ecumenismo" (Cf. Const. "Sacrae Disciplinae Legis" de 1983). Por isso no concílio, o esquema sobre as fontes da Revelação: a Sagrada Escritura e a Tradição, foi alvo de acirrado debate entre grupos conservadores e grupos progressistas. Daí entendemos porque o Cardeal progressista Frings, condenou o esquema feito pelo Cardeal conservador Ottaviani, como "ofensivo para com os irmãos separados". 

   Sabemos, porém, que a Santa Igreja, no Concílio de Trento e depois no Concílio Vaticano I, já havia definido como artigo de fé que a Sagrada Tradição é fonte da revelação distinta da Escritura Sagrada, merecedora, porém, da mesma fé. Hoje, a Sagrada Tradição está consignada principalmente nos Símbolos de fé, nos Escritos dos Santos Padres, nas decisões dos Concílios dogmáticos e na Liturgia da Igreja. Só para dar um exemplo desta última: nos missais de todos os tempos houve preces pelos defuntos na missa. É um dos argumentos na Teologia para provar a existência do Purgatório. 

   Não devemos ignorar que a Sagrada Tradição é anterior à Escritura Sagrada. No Antigo Testamento, desde a origem do gênero humano até Moisés, a revelação dada por primeiro por Deus, fora transmitida unicamente pela tradição oral, pois não havia ainda nenhuma Escritura. No Novo Testamento, a Revelação foi feita pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, o Divino Mestre. Ele, porém, não escreveu nada; e dissera aos Apóstolos: "Ide, ensinai a todas as nações" (Mat., XXVIII, 19); "Pondo-vos a caminho, pregai, dizendo: Está próximo o reino dos céus" (Mat., X, 7). Ele não disse: "Ide, escrevei o que vos ensinei e sirvam estes vossos escritos para instruir aos mais". Donde, entendemos que nem todos os Apóstolos escreveram, e, no entanto cumpriram perfeitamente a ordem dada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Se Jesus tivesse dado ordem de ESCREVER, com certeza todos teriam escrito. Na verdade, foi a catequese o primeiro e principal modo de ensino empregado pelos Apóstolos. Apenas em circunstâncias excepcionais, enviaram às igrejas que tinham fundado, instruções por escrito. O próprio Evangelho, era espalhado, de primeiro, só por pregação. São Paulo diz que a fé vem pelo ouvido, isto é, pela audição da pregação. 

   Outra coisa que devemos saber é que o domínio da Sagrada Tradição é mais extenso que o da Escritura Sagrada. Realmente, se Jesus não escreveu e nem mandou escrever, é compreensível que a Tradição oral tenha um conteúdo muito maior que o da Escritura. São João ao terminar seu Evangelho, adverte: "Muitas outras coisas há que fez Jesus, as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever" (Jo., XXI, 25). É evidente que aqui o Apóstolo do amor, emprega uma hipérbole, É um modo de dizer muito expressivo que ele usa para frisar que, para narrar todos os sermões e milagres que Jesus fez, haveria necessidade de escrever muitos volumes. E São Lucas nos mostra Jesus dando instruções especiais aos Apóstolos nos dias que mediaram entre a Ressurreição e a Ascensão: "Aparecendo-lhes por quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus" (Atos, I, 3). Quais foram estas instruções a Bíblia não nos revela; mas com elas estavam os Apóstolos completando os seus conhecimentos para ensinar ORALMENTE aos fiéis. 

    Vinde Espírito Santo, iluminai a nossa inteligência! Amém!

domingo, 25 de setembro de 2016

AS SAGRADAS ESCRITURAS OU BÍBLIA


LEITURA ESPIRITUAL - Dia da Biblia


"Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a obra boa". (II Tim., III, 16 e 17).


   Aqui o Apóstolo São Paulo faz um justo e belíssimo elogio da Sagrada Escritura divinamente inspirada. Além de indicar sua inspiração divina, diz que é útil para: ensinar as verdades da fé; refutar os erros contrários a estas verdades santas; combater e reformar os maus costumes; dirigir as almas em todos os caminhos da justiça e da santidade. Estes são, como observa Santo Tomás, os quatro efeitos produzidos pelo estudo da Sagrada Escritura. Na verdade, um homem não tem direito de se impor a outro homem. Só Deus domina os espíritos e os corações.

   Um dos benefícios que Tobias reconhecia haver recebido do Anjo São Rafael, era restituir-lhe a vista; quanto maior benefício é haver-nos, não um Anjo, mas o Espírito Santo aberto os olhos, não do corpo, mas da alma, para vermos a luz, não a material do sol, mas a espiritual das doutrinas de nossa santa Fé Católica!

   Caríssimos, grassa no mundo uma conspiração contra a Verdade e o Decálogo. A iniquidade multiplica-se sobre a face da terra. A fé extingue-se nos corações. Estarrecidos e tristes, assistimos a destruição da família cristã. E, neste afã iníquo em aniquilar a célula da sociedade,  não bastassem os comunistas e maçons, bispos progressistas, sob a capa de misericórdia, parecem empenhados em tranquilizar as consciências no pecado, ao invés de o tirar delas como fizera o Cordeiro de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. 

   Para obstar a tantos males só a palavra de Deus! Pois diz ainda o Apóstolo na Epístola aos Hebreus, IV, 12: "A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que toda a espada de dois gumes; chega até à separação da alma e do espírito, das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração". Por isso o escritor (ou pregador) que tem por base a Palavra de Deus, apóia-se em terreno sólido. Seu escrito (ou pregação) não é feito "só de palavras, como diz São Paulo, mas da virtude do Espírito Santo e da abundante plenitude dos seus dons".

   Lemos no antigo Testamento que os Israelitas ouvindo a leitura do livro de Baruc, choravam e oravam; oxalá que os povos modernos, convencidos e convertidos, chorem igualmente sobre as suas faltas e orem, ao lerem a Palavra de Deus, e sobre ela refletirem!

   Não quero terminar sem antes trazer à lembrança aquela cena comovente de um São Paulo apresentando-se diante de Félix. Assim, com eloquência, a descreve o cardeal Gibbons:  "O Apóstolo, carregado de cadeias, de rosto emagrecido pelas privações sofridas durante dois anos na prisão, de pé, em face dum governador escravo duma mulher adúltera, levanta as mãos ligadas pelos grilhões e prega a justiça, a castidade, o juízo derradeiro. Félix perturba-se, sente o remorso duma consciência culpada e tem pressa em sair do tribunal. Tinha razão de sobra para temer: a justiça, desconhecia-a; a castidade, havia-a ultrajado; e as vinganças divinas, devia receá-las". (Cf. Atos, XXIV, 24 e 25). Será possível pintar com mais relevo o ascendente da inocência em ferros sobre a corrupção coroada? Caríssimos, que tocante exortação para o ministro de Deus que tenha de denunciar a iniquidade e o vício!

   Para empregar uma comparação feita pelo Cardeal Maffi:"Náufrago no mar tempestuoso, o pobre Camões com uma das mãos batia as ondas e com a outra levantava fora d'água o manuscrito dos Lusíadas que o haviam de imortalizar". E fazendo minha a sua aplicação: Sobre as ondas ameaçadoras e lodosas dos pecados  do mundo moderno está a palavra, não de um simples mortal, mas do Altíssimo, palavra esta que elevarei pelo alto. Ela será minha guia, minha força, minha esperança;  e, oxalá para muitos e muitos seja salvação. Amém! 

sábado, 24 de setembro de 2016

UM HEDONISMO ANTICRISTÃO

 
   O hedonismo é o desvio  moral que faz do prazer a finalidade da vida e o elemento último a procurar nos atos dela.

   O Papa Pio XII de feliz memória, na alocução que fez sobre o apostolado das parteiras, fala sobre isto. É o que aqui transcreveremos:

   "Ai! vagas incessantes de hedonismo invadem o mundo e ameaçam submergir na maré montante dos pensamentos, dos desejos e dos atos toda a vida conjugal, não sem criar sérios perigos e grave dano para a função primária dos esposos.

   Esse hedonismo anticristão, sobejas vezes as pessoas não se envergonham de erigi-lo em doutrina, inculcando o desejo de tornar sempre mais intenso o gozo na preparação e na realização da união conjugal, como se, nas relações conjugais, toda a lei moral se reduzisse ao cumprimento regular desse ato, e como se tudo o mais, de qualquer maneira que o façam, se achasse justificado pela efusão do amor mútuo, santificado pelo sacramento do Matrimônio, digno de louvor e de recompensa perante Deus e perante a consciência. Com a dignidade do homem e com a dignidade do cristão, que põem um freio nos excessos da sensualidade, com isto ninguém se preocupa!

   Pois bem! não. A gravidade e a santidade da lei moral cristã não admite uma satisfação desenfreada do instinto sexual, nem essa tendência exclusiva ao prazer e ao gozo; ela não permite ao homem racional deixar-se dominar até esse ponto, nem no que diz respeito à substância nem no que concerne às circunstâncias do ato. 

   Alguns quereriam sustentar que a felicidade no casamento está na razão direta do gozo recíproco nas relações conjugais. Não; pelo contrário, a felicidade no casamento está na razão direta do respeito mútuo entre os esposos, mesmo nas suas relações íntimas; não porque eles julguem imoral e repilam aquilo que a natureza oferece e o que o Criador deu, mas porque esse respeito e a estima mútua que ele gera são um dos elementos mais sólidos de um amor puro e por isto mesmo, tanto mais terno. 

   (,,,) Fazei ver como a natureza deu, é verdade, o desejo instintivo do gozo e o aprova nas núpcias legítimas, mas não como fim em si, e sim, em suma, para o serviço da vida. Bani da vossa mente esse culto do prazer, e fazei como melhor puderdes para impedir a difusão de uma literatura que se julga obrigada a descrever em todas as suas minúcias as intimidades da vida conjugal, a pretexto de instruir, de dirigir e de tranquilizar. Para tranquilizar as consciências timoratas dos esposos, basta, em geral, bom senso, instinto natural e uma breve instrução sobre as claras e simples máximas da lei moral cristã. Se, em algumas circunstâncias especiais, uma noiva ou uma esposa novata precisasse de amplas informações sobre algum ponto particular, pertencer-vos-ia dar-lhes delicadamente uma explicação conforme à lei natural e à sã consciência cristã. 

   Este nosso ensino nada tem a ver com o maniqueísmo e com o jansenismo, como alguns querem fazer crer para se justificarem. Ele é pura e simplesmente uma defesa da honra do casamento cristão e da dignidade pessoal dos esposos. 

  NB:   Com certeza, não faltará quem me chame de retrógrado por transcrever estas normas. Mas respondo que, se elas tivessem sido observadas não estaríamos com tantos casamentos desfeitos. Porque muitos casamentos são feitos colocando Deus fora de si mesmos e entregando-se às paixões como o cavalo e o jumento. É o que aconteceu com os sete que sucessivamente se casaram com Sara, e o demônio Asmodeu matou-os no primeiro dia, como lemos na Bíblia. Leiam Tobias VI, 16 e 17. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A ORAÇÃO VOCAL


"É preciso orar sempre, e nunca deixar de o fazer" (S. Lucas XVIII, 1).

Deus é o manancial único e inesgotável de todos os bens. Ele mesmo se chama "Omne Bonum", o "Bem Total". Sendo a plenitude de todos os bens, de nada, de ninguém precisa. A criatura, ao invés, por si mesma não tendo nada, só pode viver do que recebe, o que faz dizer a Santo Agostinho que somos os mendigos de Deus. Por isso devemos continuamente bater à porta do Pai das misericórdias para Lhe pedir o pão de cada dia, isto é, tudo o que precisamos na ordem temporal e na espiritual. A oração é, pois, a chave dos tesouros, dos auxílios divinos, o canal das graças e, conseguintemente, o grande meio de salvação.

Mas o que é oração? Eis a definição dada pelo grande teólogo Tanquerey: "Elevação do nosso espírito a Deus para Lhe prestar nossos deveres e Lhe pedir suas graças a fim de nos tornar melhores para Sua glória". Explicando os termos desta definição: A palavra ELEVAÇÃO é uma metáfora, indicando o esforço que fazemos para nos desatar das criaturas e de nós mesmos, para pensar em Deus, que não só nos envolve por todas as partes mas reside no mais íntimo da alma. Esta elevação se chama conversa, colóquio, porque a oração, quer seja adoração, quer pedido, chama uma resposta de Deus e supõe assim uma entrevista com Ele.

Nesta entrevista, nosso primeiro ato deve ser evidentemente prestar a Deus nossos deveres de religião, como, quando se faz uma petição a uma pessoa, se começa pelo dever elementar de cumprimentá-la. Muitos o esquecem e é uma das razões pelas quais seus requerimentos ficam às vezes sem despacho. E mesmo quando pedimos graças de santificação e de salvação, não devemos esquecer que o fim principal deve ser a glória de Deus; daí as últimas palavras de nossa definição: "para se tornar melhor para Sua glória".

A oração é necessária para a salvação e vamos demonstrar que se trata de uma necessidade absoluta. É mister que tenhamos uma profunda, forte e eficaz convicção desta verdade. Segundo Santo Afonso Maria de Ligório, a oração é o grande meio de salvação, de tal modo que chega a dizer: "Quem reza se salva; e quem não reza se condena".

A necessidade da oração para se alcançar a salvação prova-se pelas palavras e os exemplos de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Apóstolos e dos Santos:

1 - NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. Não cessa de recomendar a oração de modo urgente. "Vigiai e orai para que não entreis em tentação" (S. Mat. XXVI, 41); "Vigiai, pois, orando sem cessar" (S. Luc. XXI, 36); "É preciso orar sempre, e nunca deixar de o fazer" (S. Luc. XVIII, 1). Vai até ensinar-nos o que devemos pedir naquela oração que chamamos dominical e que devemos sempre trazer em nossos lábios: "Vós, pois, orai assim: Pai Nosso..." (S. Mat. VI, 9-13). À autoridade de sua palavra, Jesus Cristo acrescenta o peso de seu exemplo. A oração era contínua em sua alma, mas querendo dar aos seus discípulos testemunhos exteriores, rezava em toda parte: no Templo, em casa, em terra, no mar. Procurava a solidão, subia a montanha para rezar como que mais perto do céu, e às vezes passava a noite toda em oração: "Exiit in montem orare et erat pernoctans in oratione Dei", "Retirou-se para o monte a orar e estava passando toda a noite em oração a Deus" (S. Luc. VI, 12).

2 - OS APÓSTOLOS. São Paulo reproduz as insistências e os exemplos do divino Mestre: "Perseverai na oração" (Col. IV, 2); "Orai sem cessar" (1 Tess. V, 17). Do mesmo modo falam os outros apóstolos: "Vigiai nas orações" (1 S. Pedro IV, 7). "Nós, porém, ocupar-nos-emos totalmente na oração e no ministério da palavra" (Atos VI, 4).

3 - OS SANTOS. A oração foi sempre a ocupação principal dos Santos. A Igreja no-los representa quase sempre na atitude de oração. "Toda a vida de um santo está na oração", diz Santo Hilário. E Santo Agostinho diz: "Sabe viver bem aquele que sabe rezar bem". "A oração é para a alma, diz S. Vicente de Paulo, o que a comida é para o corpo. O homem que não se alimenta bem, é fraco, não tem disposição para o trabalho, não pode ganhar a vida; ao contrário, quem se alimenta bem, é forte, corajoso, trabalha e prospera. Igual coisa se dá com a alma; se reza bem, será forte, lutará vitoriosamente contra os inimigos da salvação; se reza mal será fraca, cairá, será vencida". Costumava dizer ainda o Santo da Caridade: "O homem de oração é capaz de tudo; e o missionário que não reza é um cadáver de missionário".

4 - ARGUMENTO TEOLÓGICO. Prova-se a necessidade da oração pela necessidade da graça atual: "Sem mim, diz Nosso Senhor Jesus Cristo, nada podeis fazer"; nem sequer ter um bom pensamento, acrescenta S. Paulo; porque "é Deus que opera em nós o querer e o fazer" (Filip.  II, 13). E ainda diz o Apóstolo: "Não que sejamos capazes por nós mesmos de pensar alguma coisa [sobrenaturalmente boa], como vinda de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus... (2 Cor. III, 5). É pois uma verdade de fé, que sem a graça atual, achamo-nos na impotência radical de nos salvar, quanto mais de chegar à perfeição. Ora, com exceção da primeira graça que nos foi concedida gratuitamente, sem a pedirmos, visto que ela é o princípio mesmo da oração, certo é que a oração é o meio normal, eficaz e universal pelo qual Deus quer que alcancemos todas as graças atuais. "Pedi e recebereis". É como se dissesse, acrescentam quase todos os comentadores: Se não pedirdes não recebereis. Lembra-nos Jesus Cristo esta necessidade da oração principalmente quando se trata de resistir à tentação: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (S. Mat. XXVI, 41).É princípio geral ser a graça atual necessária para todo ato sobrenatural, sendo que deve haver proporção entre o efeito e o seu princípio. Ora, sem oração não há graça atual, por conseguinte, nem conversão nem perseverança final. "Quem começou em nós a obra da salvação, diz S. Paulo, é o único que pode levá-la a bom termo" (Filip. I, 6).

Concluindo podemos dizer que a oração é tão necessária à vida sobrenatural como o ar à vida física. Atraímos o ar pela respiração. a oração é a respiração da alma. Devemos orar como respiramos. Eis o que diz o Divino Espírito Santo pela boca do real Profeta: "Abri a minha boca e respirei, porque desejava os teus preceitos" (Salmo 118, 131). Assim, quem reza certamente se salvará; o que não reza certamente se condenará.


A oração é portanto, o grande meio de salvação. É supérfluo dizer que para tanto é mister que a oração seja feita com as devidas condições. Sem elas, aliás, não haveria propriamente oração.   
  

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


  " Dirão, porém, os protestantes:

   - Não nos revoltamos contra os católicos, quando dizem que o homem não pode salvar-se sem obedecer aos mandamentos de Cristo, que o são também de Deus. Não concordamos é com o dizerem que a salvação DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS. Ora, isto é o mesmo que dizer que nós nos salvamos a nós mesmos, quando nosso Único Salvador é Jesus Cristo.

   - Dizemos [nós católicos] que a salvação depende das nossas obras. E onde está o erro ou a heresia desta afirmação? Não estamos afirmando com isto que ela depende SOMENTE de nossas obras, mas sim que ela depende TAMBÉM de nossas obras. Sabemos muito bem que sem a graça de Cristo não nos podemos salvar, mas a graça de Cristo não nos salva sem a nossa cooperação. A salvação depende de uma coisa e de outra.

   Toda a repugnância de Vocês [protestantes] em aceitar esta ideia baseava-se principalmente naqueles dois textos de São Paulo: O homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28) e no outro da Epístola aos Efésios: Pela graça é que sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, porque é um dom de Deus, não vem das nossas obras (Efésios II-8 e 9). Já explicamos convenientemente estes textos (capítulo 6º e nº 133). Desde que Vocês agora sabem que o primeiro exprime apenas que para nos salvar, não estamos mais obrigados a obedecer à lei de Moisés, como estavam os judeus antes de Cristo; e o segundo, que a graça da conversão ao Cristianismo, que foi a chave da salvação, não foi concedida por causa da obras que tivessem sido feitas anteriormente a ela, não há mais motivo para tanta repugnância a esta proposição: A SALVAÇÃO DEPENDE TAMBÉM DAS NOSSAS OBRAS. 

   Quando um homem perguntou a Nosso Senhor o que devia fazer para obter a vida eterna, que foi que o Senhor lhe respondeu? Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). Eis aí claramente a salvação DEPENDENDO DAS OBRAS. 

   Quando Nosso Senhor diz: Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo, PORQUE TIVE FOME E DESTES-ME DE COMER etc, etc. Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... PORQUE tive fome e não me destes de comer etc, etc. (Mateus XXV- 34 e 35, 41 e 42) que está dizendo Nosso Senhor, senão que a salvação ou a condenação DEPENDEM da nossa caridade ou falta de caridade?

   Quando Nosso Senhor diz: Pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado (Mateus XII-37), que nos está dizendo, senão que tenhamos cuidado com as nossas palavras, porque do nosso modo de falar DEPENDE a nossa salvação ou a nossa condenação?

   Não nos podemos salvar sem o perdão, a misericórdia, a benignidade de Deus. Quando Nosso Senhor diz: Perdoai e sereis perdoados (Lucas VI-37), bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (Mateus V-7), não julgueis e não sereis julgados (Lucas VI-37, que nos está ensinando senão que do nosso perdão e benignidade para com o próximo DEPENDE a misericórdia com que o Senhor nos há de julgar?

   É a própria Bíblia, Palavra de Deus Eterna e Infalível, portanto, a nos ensinar que a salvação TAMBÉM DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS".
(Do livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro).
 

 (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


   "Quanto à expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO, pode ser errônea ou pode ser admissível, de acordo com o sentido em que seja ela empregada. Se dizemos que o homem salva a si mesmo, no sentido de que ele o faz sozinho, por seu próprio esforço e boa vontade, independentemente da graça de Deus, que Cristo nos mereceu na cruz, seria um erro já desde o começo condenado pela Igreja: o pelagianismo.

   Mas o próprio Protestantismo reconhece que existe, na nossa salvação, a parte de Deus e a nossa. Temos que cooperar com a graça, sem isto não nos salvamos, pois Cristo não nos salva violentando a nossa liberdade, nós cooperamos livremente. Se cooperamos com a graça, estamos salvando a nós mesmos. Se não cooperamos, é a nós mesmos que estamos condenando, a condenação será por nossa culpa.

   Mas o protestante só se convence , se ler na Bíblia empregada esta expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO. Neste caso leia o trecho da 1ª Epístola de São Paulo a Timóteo: OLHA POR TI e pela instrução dos outros, PERSEVERA nestas coisas, porque, fazendo isto, TE SALVARÁS tanto A TI MESMO, como aos que ouvem (1ª Timóteo IV-16).

   É inútil querer iludir os mais rudes, apelando para o texto grego, porque aí é o verbo sôzo, o mesmo verbo grego que São Paulo emprega, quando diz que Jesus pode SALVAR perpetuamente aqueles que por Ele mesmo se chegam a Deus (Hebreus VII-25, que se lê nas palavras do Anjo, quando anunciou a Maria, referindo-se a Jesus: Ele SALVARÁ o seu povo dos pecados deles (Mateus I-21) ou, se não quisermos sair desta mesma 1ª Epístola a Timóteo, é o mesmo que o Apóstolo das Gentes empregou no 1º capítulo: Jesus Cristo veio a este mundo para SALVAR os pecadores, dos quais o primeiro sou eu (1º Timóteo I-15). É o verbo empregado frequentemente no Novo Testamento para exprimir a salvação eterna.

   Se quisermos outro exemplo do mesmo Apóstolo São Paulo, vejamos este: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com receio e com tremor (Filipenses II-12). Ferreira de Almeida diz, num português mais moderno: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com temor e tremor (Filipenses II-12).

   Outra vez dizemos: Não adianta querer impressionar os incautos com despropositadas alusões ao texto grego, porque na frase OBRAI a vossa salvação, o verbo OBRAR corresponde no verbo grego: KATERGÁZOMAI.

   Vejamos o dicionário de Bally: KATERGÁZOMAI = executar, cumprir, acabar, procurar para si, obter, elaborar, trabalhar.

   Ainda mesmo que se quisesse escolher a significação ACABAR, não se alteraria o sentido: cabe-nos ACABAR a obra que Deus começou, mas que Ele não quer realizar sem nós. O fato de São Paulo referir-se logo em seguida à ação de Deus na salvação de nossa alma: Deus é o que obra em vós o querer e o perfazer, segundo o seu beneplácito (Filipenses II-13) não exclui a nossa parte no obter a salvação, exprime apenas que nada podemos querer, nada podemos fazer sem o auxílio, a moção de Deus, a nossa ação é entrelaçada com a ação divina."
(Do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

   (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS



   "Nas seguintes frases: eu não aprovo o que FAÇO (Romanos VII-15) o querer o bem eu o acho em mim, mas não acho o meio de o FAZER perfeitamente (Romanos VII-18) a ira do homem não CUMPRE a justiça de Deus (Tiago I-20) o que aqui é para nós duma tribulação momentânea e ligeira, PRODUZ em nós... um peso eterno de glória (Coríntios IV-17), os verbos FAZER, CUMPRIR e PRODUZIR correspondem no grego ao mesmo verbo KATERGÁZOMAI. 

   Os dois textos, em que vemos expressa na Bíblia a ideia de que Jesus é o ÚNICO SALVADOR,  não excluem absolutamente a outra ideia de que, uma vez recebidos de Cristo os meios INDISPENSÁVEIS para a salvação e suposto que sem Cristo a salvação não pode ser realizada, o homem, como criatura livre que é, tenha, por sua vez, que salvar-se a si mesmo.

   Para usarmos uma comparação: o náufrago que só encontrou UM HOMEM capaz de lhe fornecer embarcação e bússola e mantimentos, tem neste homem o seu único Salvador, embora precise salvar-se a si mesmo, guiando a embarcação para chegar em terra.

   Um dos textos é o dos Atos: Não há salvação em nenhum outro, PORQUE do céu abaixo NENHUM OUTRO NOME FOI DADO aos homens PELO QUAL nós devamos ser salvos (Atos IV-12). O homem que foi batizado em nome de Jesus, que recebeu o perdão de seus pecados em nome de Jesus, e que em nome de Jesus vai recebendo a graça, isto é, em virtude dos merecimentos infinitos de Redentor, uma vez que o Batismo, o perdão dos pecados e a graça são necessários para a salvação, é claro que é em nome de Jesus que está sendo salvo. Mas isto não impede que ele, para salvar-se, TENHA QUE CUMPRIR com os mandamentos (e os cumpre livremente, portanto, tem que salvar-se a si mesmo) e só os pode cumprir, ajudado pela graça de Jesus. Até mesmo, portanto, quando está cooperando com a graça, a sua salvação está sendo realizada com Jesus, por meio de Jesus, e, portanto, em nome de Jesus e não em seu próprio nome.

   O segundo texto é o de São Paulo a Timóteo: SÓ HÁ UM MEDIADOR entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem (1ª Timóteo II-5). Dizendo que o homem salva a si mesmo, neste sentido de que tem que cooperar livremente com a graça NAS SUAS AÇÕES, NO SEU MODO DE PROCEDER, não se está negando absolutamente que Jesus Cristo foi o Único Mediador que reconciliou os homens com Deus e que nos alcançou a graça, sem a qual ninguém pode salvar-se." 

(Do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

domingo, 18 de setembro de 2016

AS OBRAS


 A FÉ SEM AS OBRAS É MORTA.

   A necessidade das nossas obras para a salvação é tão lógica e tão evidente, que os próprios protestantes tiveram que retroceder neste ponto. A doutrina de salvação só pela fé, que pregaram os Primeiros Reformadores, era tão perigosa e subversiva, que para cristãos logo se mostrou insustentável. Aquilo já não era Cristianismo, era a confiança cega de que Jesus tudo perdoa conduzindo logicamente o homem ao mais desenfreado materialismo.

   Quando viram os protestantes a devastação tremenda que essas Ideias produziam no seio do povo, com a propaganda do desprezo pelas boas obras como meio para obter a salvação, perceberam claramente que não era possível prosseguir com tais ensinos.

   Mas toda a sua tática tem consistido em recuar até à doutrina católica nesta matéria, mas recuar conservando mais ou menos a mesma linguagem que usavam antigamente, recuar sem querer que se perceba que estão recuando.

   Já vimos que a antiga fórmula: SÓ A FÉ é necessária para a salvação foi substituída pela outra: SÓ A FÉ E O ARREPENDIMENTO são necessários para a salvação. 

   Entrando neste terreno, exigindo agora o arrependimento como indispensável para a conquista da vida eterna, entraram na doutrina católica da necessidade das obras para a salvação. Já tivemos ocasião de demonstrá-lo [anteriormente].

   Quaisquer fórmulas que inventem dentro deste novo sistema, por mais manhosas que elas sejam, mostram desde logo, depois de um pouco de reflexão, que são fórmulas católicas disfarçadas com a máscara de protestantes: Exigir ARREPENDIMENTO é exigir as OBRAS para a salvação: não há para onde correr.

   Vejamos, por exemplo, este modo de argumentar:

   - Os católicos afirmam que o homem se salva pela FÉ COM AS OBRAS, ajudado pela GRAÇA DE DEUS. Nós, protestantes, achamos que esta doutrina está errada. O que salva o homem é só a fé, e não as obras. O que acontece é que a fé é manifestada pelas OBRAS. Aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ. Portanto, é só a fé que salva.

   - Ouçam, caros amigos. Dois indivíduos estavam discutindo: um deles possuía um automóvel e garantia que o seu carro podia andar sem gasolina. O outro apostava que não. Mas acontece que, aproveitando um descuido de seu antagonista, o primeiro colocou a gasolina no seu automóvel e o fez andar. Ganhou a aposta? Provou que tinha razão? Absolutamente não; porque o outro, como é natural, podia muito bem proceder à verificação no automóvel e, certificando-se de que este agora estava COM GASOLINA, podia muito bem desmascarar o seu opositor. 

   É o que se dá entre nós.

   Como começou o Protestantismo? Afirmando que a FÉ salva sem as obras e dizendo que esta fé consiste apenas em ACEITAR A JESUS COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL. É a confiança de que Jesus nos salva, isto independentemente de obras, de arrependimento da nossa parte.

   Já fizemos a refutação desta doutrina. Mostramos com muitos textos da Bíblia, que esta noção de fé não é exata, que fé é ACREDITAR nas verdades eternas, ACREDITAR na palavra de Deus. Fizemos ver que esta fé é o PONTO DE PARTIDA para a salvação, porque a aceitação da doutrina de Jesus inclui necessariamente a aceitação de SUA MORAL, o reconhecimento dos DEVERES impostos por Cristo e que, portanto, a fé que salva é a fé coerente, a fé que não entra em contradição com as obras, a fé que não está morta, mas OPERA PELA CARIDADE (Gálatas V-6), sendo a caridade o amor de Deus sobre todas as coisas e amor ao próximo como a nós mesmos. Mostramos que se trata de uma promessa de vida eterna, e se Deus promete o Céu àquele que tem fé, é esta mesma fé que o leva a aceitar na própria Bíblia AS CONDIÇÕES em que esta promessa será cumprida (nº 80 a 84): sem praticar a virtude, sem observar os mandamentos, sem receber os sacramentos que Cristo instituiu para nossa salvação, esta não pode ser alcançada.

   Em todo este sistema de argumentação, estamos considerando a FÉ como uma virtude especial, distinta das demais virtudes, como distinta das nossas obras, do nosso modo de proceder. Acaso estávamos errados em considerá-la assim? Não é a própria Bíblia que distingue a fé das outras virtudes, quando nos diz: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém a maior delas é a caridade (1ª Coríntios XIII-13)? Não é a própria Bíblia que nos diz que também os demônios CREEM (Tiago II-19)?

   É, portanto, neste sentido, considerando a fé como uma virtude distinta das outras, que nós dizemos que a fé sozinha não pode salvar, ela não salva sem as obras, as quais também são necessárias; e dizemos isto, apoiados no ensino claríssimo da Bíblia: Não vedes como PELAS OBRAS É JUSTIFICADO O HOMEM, E NÃO PELA FÉ SOMENTE? (Tiago II-24). Aqui não há meio de subterfúgio: São Tiago não diz que o homem é salvo pela fé, mas esta fé só se pode conhecer nas obras etc, etc. como Vocês estão dizendo; mas que o homem é salvo PELAS OBRAS, e não somente pela fé. 

   Ora, que acontece com quem quer discutir e argumentar COM CLAREZA E COM LEALDADE, porque quer realmente defender a VERDADE ou chegar ao conhecimento dela? Quem é sincero na argumentação procura, antes de tudo, explicar, de modo que não deixe margem para nenhuma dúvida, em que sentido está tomando as palavras que emprega na sua exposição. A questão é sobre A FÉ, não é assim? A obrigação de quem vai sustentar uma tese sobre a fé, é dizer bem claramente o que é que entende por esta palavra FÉ.

   Ora, quando perguntamos a Vocês o que é que entendem por FÉ, Vocês recorrem àquele velho conceito dos primeiros tempos do Protestantismo: FÉ É ACEITAR A JESUS CRISTO COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL.

   Agora perguntamos: a fé tomada neste sentido ESTÁ INCLUINDO A OBEDIÊNCIA À LEI DE DEUS? ESTÁ INCLUINDO AS BOAS OBRAS, OS ATOS DAS DEMAIS VIRTUDES?

   Não, não está. A fé aí está reduzida apenas à confiança que tenho em que Jesus me salva.

   Esta definição não exclui o pecado. A prova é que de acordo com esta noção de fé os Primeiros Reformadores ensinavam que o pecador se salva SEM ARREPENDIMENTO. "Sê pecador e peca fortemente, mas confia e rejubila-te mais fortemente ainda no Cristo vencedor do pecado, da morte e do mundo", dizia Lutero na sua carta a Melanchton, em 1521, este mesmo Lutero que dizia que " a contrição que se prepara pelo exame e recapitulação e detestação dos pecados, pelos quais alguém relembra os seus anos na amargura de sua alma, ponderando a gravidade, multidão e fealdade dos pecados, a perda da eterna felicidade e aquisição da condenação eterna, ESTA CONTRIÇÃO FAZ HIPÓCRITA O HOMEM E ATÉ MAIS PECADOR" (Lutero. Edição Weimar VII-13).

   Esta definição de maneira alguma supõe que a fé se manifesta pelas obras. Pois, em que sentido se toma aí a expressão: Jesus é o nosso Único e Suficiente Salvador? Não no sentido de que o resgate foi feito por Jesus e só Ele o podia fazer, e o fez da maneira mais completa e satisfatória para nos alcançar e merecer a graça. Mas é empregada maliciosamente no sentido de que, tendo Cristo feito tudo por nós, o homem não precisa fazer mais nada; não lhe resta, portanto, salvar-se a si mesmo pela prática da virtude, pois só Cristo é quem nos salva sem a nossa cooperação. Ou, em outros termos, a cooperação do homem consiste apenas em CONFIAR. Confiando, a salvação lhe é dada de graça.

   Seria, por conseguinte, um contra-senso, uma verdadeira contradição, que o homem, afim de DEMONSTRAR que Cristo é o seu Único e Suficiente Salvador, neste mau sentido da expressão, tivesse agora que esforçar-se, obedecendo à lei divina, praticando atos de virtude etc. Assim estaria procurando salvar-se a si mesmo, para demonstrar que não se salva a si mesmo, que Jesus é o seu Único e Suficiente Salvador.

   Agora acontece que, enquanto Vocês protestantes, continuam a sustentar esta mesma definição - Crer é aceitar a Jesus como nosso Único e Suficiente Salvador, como nosso Salvador Pessoal - quando a gente menos espera, surgem Vocês mesmos dizendo que a fé se manifesta pelas OBRAS, que aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ.

   Isto quer dizer que de repente passaram a tomar a palavra FÉ noutro sentido bem diferente. Fazem como o homem que às escondidas meteu a gasolina no automóvel.

   Bem, fé neste sentido de que todo aquele que peca está mostrando que não tem fé, quer dizer ADESÃO TOTAL A CRISTO, COM A INTEIRA OBEDIÊNCIA A TUDO QUANTO CRISTO ENSINOU. É não só na nossa mente, mas também no nosso modo de agir, a aceitação de Cristo, não só como Salvador, mas também como  nosso Mestre, nosso Legislador e como o Rei que domina toda a nossa vida.

   Se é neste sentido que Vocês querem tomar a palavra FÉ, então nós, católicos, não temos nenhum receio ou dúvida em dizer que BASTA A FÉ para a salvação, porque NÃO BRIGAMOS POR MERAS QUESTÕES DE PALAVRAS; o que nos interessa são as realidades da vida cristã. Mas há uma coisa: aí já não se trata de FÉ SEM AS OBRAS, trata-se de FÉ COM AS OBRAS, porque as obras já estão incluídas neste conceito de fé. Trata-se de fé COM A OBEDIÊNCIA DOS MANDAMENTOS DE CRISTO.

   Fica, sempre, de pé que a fé sem as obras não salva, porque a fé sem as obras é morta (Tiago II-26). 


sábado, 17 de setembro de 2016

A GRAÇA



   NECESSIDADE DA GRAÇA.

   Firmada em vários textos bíblicos, os quais podem resumir-se nesta palavra de Jesus: Sem mim não podeis fazer nada (João XV-5), a Igreja nos ensina a necessidade da GRAÇA para a salvação. Necessidade absoluta, porque ninguém pode entrar no Céu sem a graça santificante; é preciso possuir a VIDA sobrenatural da GRAÇA, para entrar na VIDA sobrenatural da GLÓRIA CELESTE. E para praticar a virtude, é necessária a ajuda constante da GRAÇA ATUAL, a qual Deus sempre nos oferece, porque quer salvar a todos. 

   A ninguém, que esteja de boa fé, é negada a possibilidade de conseguir a graça santificante: embora sejam os sacramentos do Batismo e da Penitência os meios ordinários para adquiri-la ou recuperá-la, até os próprios pagãos que nunca tiveram conhecimento de Cristo, dela podem ser revestidos, desde que, crendo em Deus Remunerador, tenham também as disposições necessárias para recebê-la. E para conseguirem ou conservarem esta GRAÇA SANTIFICANTE, Deus lhes dá também A GRAÇA ATUAL suficiente, pois Deus quer a salvação de todos, de ninguém exigindo o que é impossível. Não há, portanto, no ensino da Igreja, nenhum vestígio da revoltante doutrina de que Deus predestina certas almas para o inferno, doutrina esta que é ensinada por muitos protestantes.

   E sobre este assunto da influência da graça na salvação, nós, católicos, que contra os protestantes sustentamos a necessidade da fé, no legítimo sentido da palavra, nós que sustentamos a necessidade das nossas obras, que uns têm negado de fato e abertamente, e outros apenas fingem negar, nós temos ainda que defender contra MUITOS PROTESTANTES  a necessidade da graça, que, antes de tudo, é um DOM SOBRENATURAL. Já dissemos que, no 5º século, a Igreja teve que condenar a heresia dos pelagianos, os quais afirmavam poder o homem salvar-se por suas próprias forças naturais, sem o auxílio sobrenatural da graça. Pois bem, muitos protestantes, indo ao extremo oposto com relação aos demais, têm renovado lamentavelmente o erro de Pelágio. São os Socinianos, Unitários e Protestantes Liberais que usam este nome GRAÇA mas adulteram de tal forma a sua noção, que na realidade a negam por completo. São protestantes que negam a divindade de Cristo, considerando-O como um simples homem. Para eles a graça consiste apenas em Cristo nos instruir com sua doutrina sublime e nos confortar com seu maravilhoso exemplo. Deste modo, na doutrina deles, a graça deixa de ser um dom sobrenatural, uma força interior, para ser apenas um estímulo externo que tanto vem de Cristo como poderia vir de outro homem qualquer que nos ensinasse uma bela doutrina e nos edificasse com um notável exemplo de virtude.

   Quantos estragos tem feito o livre exame na doutrina do Evangelho!

   

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

COMO É PERIGOSA A TEORIA PROTESTANTE SOBRE A CRENÇA!



   Mas os protestantes, pondo a CRENÇA em segundo plano e reduzindo a fé salvadora apenas à CONFIANÇA de que Jesus nos salva, chegam a uma incrível situação de balbúrdia e de anarquia.

   Mesmo quando torcem miseravelmente, ridiculamente os mais claros textos da Bíblia, já não sentem remorso de injuriar assim a palavra de Deus; acham que não perdem com isto o direito à recompensa do Céu: eles têm a confiança de que se salvam, e é quanto basta...

   Além disto, são muitos os protestantes que se mostram ou fingem mostrar-se satisfeitos com esta confusão tremenda de doutrinas, as mais diversas, que se nota no seio da Reforma e que dizem que assim mesmo é que está certo: a palavra de Deus deve ser sujeita à discussão e cada um se manisfesta sobre ela de acordo com o seu modo de ver pessoal.

   Na América do Norte e na velha Europa, onde a árvore do Protestantismo já amadureceu bastante para produzir os seus verdadeiros frutos, são muitos os protestantes que foram progredindo de negação em negação, até rejeitarem não só a divindade, mas até a infalibilidade do próprio Cristo e a divina autoridade das Escrituras. Com a Bíblia na mão, mas ao mesmo tempo depositando na razão humana uma confiança ilimitada no interpretá-la, o Protestantismo leva naturalmente ao Racionalismo.

   Tudo isto tem sido resultado deste erro de falsear a noção de fé salvadora. 

   Não é isto o que quer o Divino Mestre; quer que os homens se santifiquem, NA VERDADE, só podendo haver verdade, onde existir a unidade da fé: SANTIFICAR-SE NA VERDADE. A tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E eu me santifico a mim mesmo por eles, para que também eles sejam SANTIFICADOS NA VERDADE. E eu não rogo somente por eles, mas rogo também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra; para que ELES SEJAM TODOS UM, como tu, Pai, o és em mim e eu em ti (João XVII-17 a 21).

   E é aí que nós percebemos claramente a legitimidade, a firmeza da Igreja, sempre zelosa e intransigente em conservar o DEPÓSITO (2ª Timóteo I-14) da fé, guiada nisto pelo Divino Espírito Santo, mostrando-se inabalável em sustentar todas as verdades, todos os dogmas que ela vem ensinando desde o tempo dos Apóstolos e sem admitir os quais não pode haver salvação. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

DONDE VEM A FÉ?



   Mas dirão os protestantes:

   - O Sr. está enganado. Há, de fato, divergências entre nós. Mas não negamos que se deve CRER em tudo o que Jesus ensinou e a prova é que vivemos a citar as palavras da Bíblia. Apenas ensinamos que a fé que salva não é mera credulidade. Não é um ato da inteligência, porque, se fosse assim, seriam os sábios, seriam os mais inteligentes que mais poderiam ter fé. A fé que salva é aquela que parte do âmago do nosso coração. É a CONFIANÇA em Nosso Salvador Jesus Cristo e no seu Sacrifício Redentor.

   - Eis aí precisamente o erro de Vocês. Querem salientar, como condição para nos salvarmos, o papel da CONFIANÇA que é apenas uma consequência da nossa FÉ, no sentido de CRENÇA, e procuram obscurecer, relegar para um plano secundário o valor desta mesma CRENÇA. Por isto Vocês se esforçam por desfigurá-la primeiro, para poder desprezá-la.

   Quem lhes disse que a nossa CRENÇA em Jesus Cristo, na Bíblia e nos seus ensinos é MERA CREDULIDADE? Credulidade é acreditar numa coisa sem o mínimo fundamento, é dar alguém crédito a uma afirmativa, por ingenuidade, por ser tolo demais. A nossa CRENÇA em Deus, em Jesus, no seu Evangelho não é desta natureza, e sim baseada nos mais sólidos argumentos capazes de convencer a razão mais exigente. Crer na veracidade dos Evangelhos não é mera credulidade, é crer num fato que nos é provado com todo o rigor de uma demonstração histórica.

   Daí, porém, não se segue que a fé seja um ato puramente da inteligência: tanto pode ter uma FÉ PROFUNDA o mais sábio, o mais erudito dos teólogos, com o mais rude camponês. E são precisamente os simples, os rudes e os pequeninos que se mostram mais esclarecidos na FÉ, do que os sabichões, do que os intelectuais, o que não impede que estes possam ter também a sua crença: Graças te dou, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as REVELASTE AOS PEQUENINOS. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado (Lucas X-21).

   Não é pelo simples fato de se empregar, por vezes, uma palavra mais difícil, de se chamar a FÉ= CRENÇA no conceito dos católicos com o nome de FÉ INTELECTUAL, e a FÉ= CONFIANÇA no conceito dos protestantes com o nome de FÉ FIDUCIAL,  que a CRENÇA se torna um ato só para intelectuais.

   A fé é um ato da inteligência que ACREDITA na palavra de Deus, sendo movida pela VONTADE que se dispõe a crer, e ajudada desde o início pela GRAÇA DIVINA. 

   Se ela também procede da vontade, é porque tem as suas raízes profundas no coração humano.

   Diante de textos como este: O que crê no Filho tem a vida eterna (João III-36) e alguns outros, os protestantes ainda poderão teimar, querendo fazer prevalecer a sua hipótese sem fundamento, de que aí não se trata de CRENÇA e sim de uma cega CONFIANÇA.

   Mas nada melhor para compreender um texto da Escritura do que compará-lo com outro.

   E podemos apresentar-lhes um texto que não só prova que a fé que encaminha o homem para a salvação é a CRENÇA (sendo, portanto, a confiança já uma consequência desta crença, pois da fé nasce a esperança), mas também que esta crença procede do coração humano, onde tem as suas raízes: Se confessares com a tua boca ao Senhor Jesu e CRERES NO TEU CORAÇÃO que Deus O ressuscitou dentre os mortos, SERÁS SALVO. Porque COM O CORAÇÃO SE CRÊ para alcançar a justiça; mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação (Romanos X-9 e 10).

   Primeiro que tudo, ninguém pode daí deduzir que basta crer que Jesus ressuscitou dentre os mortos para só por isto ser salvo. Neste caso cairia também toda a doutrina, tanto católica, como protestante, de que é preciso crer que Jesus é o nosso Salvador. Mas é este o sistema da Bíblia: ensina-nos a verdade parceladamente, pedacinho por pedacinho. São Paulo não vai aí nesta simples frase expor minuciosamente todos os artigos de fé; seria escrever um livro e não uma frase. Apresentar dez ou vinte artigos, mas no final das contas, não apresentá-los todos, seria pior ainda do que apresentar um só. Por isto tomou como exemplo a Ressurreição, que é um ponto básico para a DEMONSTRAÇÃO de todas as outras verdades da fé: Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé (1ª Coríntios XV-17). São Paulo, é claro, não podia fazer uma redução naquilo que devemos crer, quando o mesmo Cristo que disse aos Apóstolos, no dia em que os enviou a pregar: Ide, pois, e ensinai todas as gentes... ensinando-as a observar TODAS AS COISAS  que vos tenho mandado (Mateus XXVIII-19 e 20), disse-lhes também: Pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-15 e 16).

   Esclarecido isto, para que os protestantes não queiram tirar dai conclusões absurdas, como FAZEM MUITOS, o que se deduz claramente da frase é que a fé salvadora é a crença, e a crença nasce no nosso coração.

   Também aos discípulos de Emaús que não ACREDITAVAM que Cristo havia ressuscitado, Nosso Senhor lhes diz: Ó estultos e TARDOS DE CORAÇÃO para CRER tudo o que anunciaram os profetas! (Lucas XXIV-25). Tratava-se de DAR CRÉDITO às profecias e ficar certos da ressurreição do Mestre; mas o coração deles era duro e ronceiro demais para chegarem até a convicção de que Jesus havia de fato ressuscitado.

   E a prova de que a fé se processa na inteligência, mas nasce do coração, nós a temos nos judeus do tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo: mesmo depois de tantos milagres, depois da própria ressurreição do Mestre, NÃO ACREDITARAM. É que o seu coração estava endurecido e cheio de maldade.

   Não faltam hereges nos dias de hoje que, apesar de se dizerem cristãos, ainda mesmo que tivessem presenciado, se fora possível, todos os milagres de Lourdes e Fátima, verificados desde o princípio até os nossos dias, mesmo assim NÃO ACREDITARIAM na Igreja Católica, tal é o ódio, a má vontade, a obstinação, a teimosia que anda lá pelo seu coração. 

   O que é fato, portanto, é que o ponto de partida para a salvação é o ato pelo qual o homem se dispõe, com a graça de Deus a ACREDITAR tudo o que o Divino Mestre ensinou e que Ele depois encarregou a sua Igreja de transmitir a todos os povos. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

SALVAÇÃO

 TRÊS ELEMENTOS.

   Desde o começo deste livro vem sendo focalizado à luz dos textos bíblicos, o problema da nossa salvação eterna e por isto vem tendo o leitor sob suas vistas muitas e muitas passagens das Sagradas Escrituras. Agora, se quiser sinceramente chegar a uma conclusão ditada pela VISÃO EM CONJUNTO de todos esses ensinos da palavra de Deus, tem que concordar numa coisa: tem razão a Igreja Católica, quando ensina que a FÉ, a GRAÇA DE DEUS e as nossas OBRAS são elementos indispensáveis para a nossa salvação. 

   A Igreja conta 20 séculos de existência e já tem lutado com heresias múltiplas e diversas; já está bem acostumada a ver como a tendência dos hereges é ter uma VISÃO PARCIAL do assunto, dar importância a um elemento e não a outro, e assim muitas vezes querer fazer a salvação mais fácil do que é na realidade, tendência que não é de estranhar naqueles que querem interpretar a seu modo os ensinamentos do Evangelho.

A FÉ

    NECESSIDADE DA FÉ.

   A fé é necessária, como se vê por todos aqueles textos em que Jesus nos mostra que quem crê n'Ele se salva, quem não crê se condena.

   Jesus não é apenas um filósofo que nos tenha vindo ensinar a sua doutrina sublime. É muito mais do que isto: é o próprio Filho de Deus, igual ao Pai; nenhuma de suas palavras pode ser rejeitada, nem torcida no seu sentido, nem relegada ao esquecimento. Por isto erram aqueles que, como os espiritistas em geral, dão muito realce à doutrina de caridade e de amor ao próximo que Jesus nos apresenta (no que fazem muito bem), mas não dão nenhuma importância à fé, começando logo por negar a divindade de Cristo (no que fazem muito mal). Nisto há um contra-senso, porque a fé é a base de toda a virtude cristã, e o amor do próximo que não nasce da verdadeira fé, pode chamar-se filantropia, mas não é a verdadeira caridade.

   E nesta luta contra as heresias é interessante observar que até aos próprios protestantes que falam tanto em fé e que pretendem resumir só na fé a nossa contribuição para a salvação eterna, a eles próprios, nós, católicos, somos obrigados a lembrar: que A FÉ É NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO. Porque os protestantes adulteraram a noção de fé: fazem dela apenas uma convicção cega de que já estão salvos pela morte de Cristo, quando, como provamos, a fé é aceitar toda a doutrina do Mestre. Diante das inúmeras divergências (e sobre pontos da maior importância) que há no Protestantismo, se chega à conclusão de que entre os "evangélicos" a fé não consiste em aceitar a doutrina de Jesus; consiste em DISCUTIR sobre esta doutrina, como se discute sobre questões de história, filosofia ou literatura. E, enquanto a Igreja Verdadeira de Jesus Cristo é quem ensina aos seus adeptos a legítima doutrina, pois tem autoridade para isto, uma vez que é a coluna e firmamento da verdade (1ª Timóteo III-15), no Protestantismo, desde o princípio, tem sido o contrário: são os fiéis que ensinam a doutrina às Igrejas, pois são os adeptos mais atilados, mais sabichões que discordam de suas comunidades e vão fundando outras Igrejas, às quais passam a indicar o que elas devem crer. E assim sucessivamente. Por isto é que as seitas são tão numerosas e tão variadas. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

JUSTIFICAÇÃO - UMA ALEGORIA ( a )

   136. UMA ALEGORIA (a).

   Suponhamos um homem que vive aqui na terra, sabendo, portanto, que um dia há de morrer. De vez em quando vem à sua procura o Rei dos Céus, que sempre lhe está propondo uma ótima ideia: deixar esta terra e ir para o Céu, um lugar maravilhoso, onde se tem a vida eterna. Afinal um dia se resolve a aceitar a proposta. Quer ir para o reino deslumbrante de imensas riquezas, onde se vive eternamente a verdadeira vida, a vida bem-aventurada. 

   - Que devo fazer para chegar até o Céu? - pergunta ele.

   - Bem, diz-lhe o Rei dos Céus, o Céu é lá em cima. Você não pode chegar até lá, se continua a caminhar aqui com seus pés fincados na terra. Tem que subir, tem que tomar um avião.

   - A empresa já se está tornando mais difícil. Onde hei de ir conseguir este avião?

   - É muito fácil. Você dá comigo algumas passadas e um pouco mais adiante, eu lhe darei um belo avião de presente, para que Você possa subir aos Céus. Não lhe custa nada; porque este avião eu já o paguei e por muito bom preço. E há também uma coisa: Você é quem vai dirigi-lo.

   Paremos aqui um pouco a nossa alegoria para explicar logo os seus símbolos. O homem que vive aqui na terra simboliza aquele que se acha em estado de pecado mortal. Enquanto ele está aqui na terra, isto é, enquanto está em pecado, o fim que o está aguardando é a morte que no caso representa a morte da alma, ou seja, a condenação eterna. Aqueles primeiros encontros com o Rei dos Céus simbolizam A GRAÇA ATUAL que procura iluminar, comover e atrair a alma do pecador. O dia em que se resolve a seguir a sua viagem é o dia em que se resolve a seguir a Cristo para ganhar o Céu. O avião que ele deve tomar é a GRAÇA SANTIFICANTE, que o eleva a uma grandeza sobrenatural, que faz o homem subir, altear-se acima de sua própria natureza, e só assim com a graça santificante é que o homem está em marcha para o Céu; enquanto não a possui, ele está na terra, ou melhor, no lodo, está em pecado, e não está fazendo nada para a conquista da vida eterna. As poucas passadas que o homem dá até alcançar o avião representam as disposições necessárias para o homem receber a graça como são a fé, o arrependimento, a esperança etc., unidas ao Batismo, se é um adulto que o recebe, ou à absolvição sacramental, se já foi batizado em criança. Ele vai dirigir, porque desde que é livre, ele próprio é que deve encaminhar-se para o Céu. Se é uma criança que o recebe, não precisa dar passada alguma para alcançar o avião; graças ao interesse dos pais dela, o Rei dos Céus a coloca na GRAÇA SANTIFICANTE  e Ele mesmo vai dirigindo, até que um dia a criança desperte à luz da razão e nesta hora a direção lhe é confiada. Se o Rei dos Céus a chama para o seu reino antes disto: eis aí uma pessoa que alcançou o Céu sem as obras, justamente como querem os protestantes. O avião da GRAÇA SANTIFICANTE  nos é dado gratuitamente, porque já foi pago por Cristo na Cruz, o qual por sua morte redentora, mereceu para nós toda a graça que nos é necessária para a salvação.  

JUSTIFICAÇÃO - UMA ALEGORIA ( c )

 UMA ALEGORIA (c).

   Agora finalizemos a alegoria.

   Afinal, depois de muitas vicissitudes, o Rei dos Céus dá por terminada a viagem. 

   Bem, - diz ao homem - Você trabalhou e se esforçou para chegar até aqui; também mostrou que confiava na minha palavra. Ora, acontece que aqui na casa de meu Pai há muitas moradas (João XIV-2). Aqui se tem que fazer justiça: Cada um receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho (1ª Coríntios III-8). Nem todos aqui têm o mesmo grau de felicidade, da mesma forma que há diferença de estrela a estrela na claridade (1ª Coríntios XV-41). Você, portanto, vai ter o grau de felicidade que lhe cabe, de acordo com o tempo que passou em viagem (pois o que Você passou na terra não se conta) e de acordo com o grau de boa vontade, de amor, de obediência, de confiança que mostrou para comigo. 

   É nesta ocasião que o homem diz:

   - O Sr. diz que o lugar que vou ter no Céu é um prêmio pelo que fiz. Eu me acanho até de ouvir falar nisto. Que é o que fiz, em comparação com o que o Sr. fez comigo? Como eu poderia subir até aqui, se o Sr. não me desse "de graça" aquele avião que par amim tão generosamente adquiriu por tão salto preço? Como eu poderia chegar até o Céu, se o Sr. não estivesse sempre ao meu lado, indicando-me o caminho, ajudando-me e confortando-me a todos os instantes? Como eu poderia sair vitorioso nesta empresa, se todas as vezes que por minha culpa fiz despedaçar-se o avião, o Sr. não me protegesse com o pára-quedas de sua misericórdia e não me desse, mais uma vez gratuitamente, outro avião para subir? O meu lugar nos Céus pode ser prêmio de meus esforços, como o Sr. diz com tanta bondade, porém mais, muitíssimo mais do que isto, deve ele ser considerado um grande benefício do Sr. para comigo.

   Não é preciso mais explicar a significação do resto. É assim o prêmio do Céu. É como se a criancinha de 3 anos que escreveu a carta, com sua Mamãe a sustentar por cima a sua mãozinha, ainda recebesse um belo prêmio pela carta enviada, que de um certo modo é também obra sua. Afinal algum merecimento teve, porque não emperrou e se prontificou a colaborar. 

   Compreenderam agora os nossos prezados amigos protestantes? É por isso que São Paulo, depois de dizer que o estipêndio, o salário, o preço do pecado é a morte, quando nós esperávamos que ele dissesse que, por sua vez, o prêmio, o estipêndio, a recompensa da virtude é a vida eterna, termina a frase de uma maneira imprevista; ele nos diz que a graça, o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Nosso Senhor Jesus Cristo: O estipêndio do pecado é a morte; mas A GRAÇA DE DEUS é a vida perdurável em Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos VI-23).

   A vida eterna, o prêmio do Céu, que está acima da nossa natureza, é uma dádiva que Deus oferece àquele que estava submerso no pecado e que passa, pela misericórdia divina, a revestir-se da graça santificante, gozando da amizade de Deus. E já é vida eterna esta graça que habita no coração do homem, mas vida eterna que precisa ainda ser mantida pela fidelidade, pela cooperação deste mesmo homem.

   Por maior que seja a nossa cooperação, se bem considerarmos toda a história da salvação de uma alma, desde o começo até o fim, em última análise o prêmio do Céu é sempre um benefício de Deus, pois Ele nos ajudou em toda a altura.

   O fato de dizermos que as nossas obras influem na salvação não nos impede de considerar a salvação um dom de Deus, dom que Ele misericordiosamente oferece a todos; nem tira o valor do sacrifício oferecido por Jesus Cristo na cruz, pois daí é que nos vieram os meios, que nunca teríamos, de nos elevarmos acima de nós mesmos, afim de conquistar o Céu. Toda a graça que os homens recebem, desde a queda de Adão até hoje, é graça de Cristo adquirida pelo seu sangue no Calvário; e por isto toda a glória dos salvos, dos santos, dos eleitos reverte em louvor e glória do próprio Cristo, o qual se fez para nós sabedoria e justiça e santificação e redenção (1ª Coríntios I-30) e sem o qual nada poderíamos fazer.

   E o fato de termos que dizer, em vista do nosso nada, da nossa insuficiência: Somos uns servos inúteis (Lucas XVII-10) não impede a Deus de nos oferecer a sua coroa de justiça: Bem está, servo BOM e FIEL; já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; ENTRA NO GOZO DE TEU SENHOR (Mateus XXV-23). Extraído do Livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro).

   

JUSTIFICAÇÃO - UMA ALEGORIA



   Mas continuemos com a nossa história.

   O Rei dos Céus dá ao homem todas as instruções necessárias para bem conduzir-se na viagem. Avisa-o de que esta não deixará de ter as suas dificuldades. Exigirá uma vigilância contínua, muita força de vontade para não afastar-se do roteiro e para enfrentar as tempestades que não faltarão pelo caminho. Mas não deve desanimar, porque o Rei dos Céus irá com ele, dando-lhe instruções durante toda a viagem, ajudando-o em todo o seu percurso. Estará ao seu lado para atendê-lo com gosto, sempre que necessitar de alguma coisa. Dar-lhe-á a alimentação necessária para não desfalecer em meio da sua empresa. Mas é preciso obedecer-lhe, do contrário pode suceder um lamentável desastre. Dadas estas explicações, levantam voo. 

   O homem, a caminho do Céu, vai seguindo o seu roteiro, mas nem sempre está firme na direção. Comete algumas falhas, que fazem pequenas avarias no avião. Amedronta-se às vezes com as tempestades, mas junto dele está sempre o Rei dos Céus, instruindo-o, aconselhando-o, fortalecendo-o. No entanto, apesar de toda a assistência de seu guia e protetor, o homem nem sempre se porta com a firmeza e perfeição desejadas. E em dada ocasião, comete uma falta grave, porque teima em desobedecer ao seu guia e zás... o avião se desarranja e despenca daquelas alturas. Só não morre o aviador, porque o Rei dos Céus lhe fornece um PÁRA-QUEDAS. Está novamente na terra e novamente sujeito à morte. Mas está unicamente por culpa sua.

   Volta assim ao princípio a nossa história: o Rei dos Céus o convida a subir outra vez. Tem que dar com ele algumas passadas e (maravilhosa bondade do Rei dos Céus!), outro belo avião é oferecido de presente, porque já foi pago por Ele na cruz, uma vez que as riquezas de sua morte redentora são infinitas. Para encurtar a história, raros são os que fazem a viagem para o Céu no primeiro avião que tomaram (a não ser as criancinhas que vão ao Céu sem o uso da razão). Muitos são os que despencam de lá de cima repetidas vezes. O nosso herói, por exemplo, já perdeu a conta das vezes em que caiu e voltou para a terra.

   Paremos mais uma vez para dar a explicação.

   As instruções que dá o Rei dos Céus para a viagem são os ensinos de sua doutrina, de sua lei que nos apontam o exato roteiro para o Céu. As tempestades que aparecem no caminho são AS TENTAÇÕES que ameaçam fazer desaparecer da alma do cristão a graça santificante. O Rei dos Céus sempre ao seu lado, ajudando-o, iluminando-o, fortalecendo-o é ainda A GRAÇA ATUAL, da qual precisa o cristão constantemente, para manter-se no seu estado de união com Deus. O alimento que lhe dá o Rei dos Céus é a SANTÍSSIMA EUCARISTIA, sem a qual não tereis vida em vós (João VI-54). As pequenas avarias são os PECADOS VENIAIS. Mas o falha grave que provoca o lastimável desastre é o PECADO MORTAL, que faz desaparecer em nós a graça santificante e nos torna novamente mortos pelo pecado, fora do caminho da salvação. O pára-quedas é a MISERICÓRDIA DIVINA que dá tempo e espaço ao pecador para regenerar-se, porque Deus não quer a morte do pecador, e sim, que ele se converta e viva (Ezequiel XXXIII-11). As passadas que ele dá para conseguir novamente um meio de subir para o Céu são o exame de consciência, a contrição e a confissão pelos quais recebe outra vez a graça santificante, no Sacramento da Penitência. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

JUSTIFICAÇÃO E GRAÇA NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS



    Também à PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O ESTADO DE GRAÇA SANTIFICANTE se refere São Paulo no seguinte trecho: Ao que obra, não se lhe conta o jornal por graça, mas por dívida, mas ao que não obra e crê n'Aquele que JUSTIFICA O ÍMPIO, a sua fé lhe é imputada a justiça, segundo o decreto da graça de Deus. Como também Davi declara a bem-aventurança do homem a quem Deus atribui justiça sem obras: Bem-aventurados aqueles CUJAS INIQUIDADES FORAM PERDOADAS e cujos pecados têm sido cobertos (Romanos IV-4 a 7). São Paulo se refere à justificação do ímpio, ou seja, ao momento em que o homem ímpio passa a tornar-se um justo diante de Deus. Isto não é conquistado pela suas obras, mas por UM DECRETO DA GRAÇA DE DEUS. Exigem-se, apenas, algumas disposições da alma que São Paulo resume na palavra FÉ, porque a fé é a base, é o ponto de partida para aquelas disposições preparatórias. É claro, por exemplo, que Deus não vai perdoar o pecador que não está contrito e arrependido, mas este arrependimento já deve nascer da fé; o arrependimento que não nascesse da fé, que fosse baseado nalgum motivo natural e humano e não sobrenatural (p. ex. o ímpio se arrepende apenas porque perdeu a saúde, o dinheiro ou a liberdade) não seria suficiente para a justificação. 

   - Mas, podem objetar os protestantes, São Paulo aí não fala nem no Batismo que, segundo os católicos, é necessário para receber a graça santificante pela primeira vez, nem na Confissão Sacramental que, conforme o ensino da Igreja, é necessário para recuperar a graça santificante que já se perdeu. Fala somente na fé.

   - É fácil explicar porque São Paulo aí não fala no Batismo, nem na Confissão. São Paulo aí está falando no homem, seja ele qual for e em qualquer época, em que ele viva. A prova é que acabara de falar em Abraão, que foi justificado quando não havia Confissão, nem Batismo; mais ainda, foi justificado antes que Deus ordenasse a circuncisão (Romanos IV-10) e daí tira São Paulo um argumento contra os judaizantes, os quais pensavam que para haver justificação tinha que haver necessariamente a circuncisão, não sabiam separar uma da outra. 

   Já foi abolida a circuncisão outrora prescrita por Deus; agora em seu lugar Cristo prescreve o Batismo. Aquele que conhece a doutrina de Cristo, a fé o impele a receber o Batismo (João III-5) se ainda não o recebeu, ou a receber a absolvição sacramental, porque também assim estabeleceu Cristo (João XX-23). E a própria Igreja ensina que os pagãos que nenhum conhecimento têm da Religião Cristã podem justificar-se sem o Batismo e sem a Confissão Sacramental, pois tudo isto neles pode ser suprido pelo ato de caridade perfeita; e este ato de puro amor a Deus ou de caridade perfeita tem que nascer da fé: Sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6). A fé é sempre o PRIMEIRO PASSO para o homem que cometeu pecados ( e é o assunto de que trata São Paulo: JUSTIFICAÇÃO DO ÍMPIO) se aproximar de Deus e conseguir a regeneração.

   Falando sobre o homem, em geral seja ele qual for, desde Adão até o último homem que existir sobre a terra e não só sobre os homens que existem agora depois de Cristo haver pregado a sua doutrina (e por isto cita o que já no seu tempo dizia o Profeta Davi), ele não podia falar no Batismo, nem na Confissão, Apresenta uma fórmula geral: a fé. A fé ditará a cada um aquilo que é necessário fazer para alcançar a justificação. (Extraído do livro "Legítima Interpretação da Bíblia", autor: Lúcio Navarro). 

   Continua no próximo post.

Justificação e Graça na Epístola aos Romanos

   Dadas estas explicações (no post anterior), vamos agora apresentar o exemplo de um homem a quem Deus atribuiu JUSTIÇA SEM OBRAS, a quem Deus concedeu a justificação, não como quem paga um salário por dívida, mas por um decreto da sua graça em vista da fé n'Aquele que justifica o ímpio, tal qual como descreveu São Paulo.
   Este foi o bom ladrão que morreu juntamente com Cristo no Calvário. Era um criminoso, seu passado tinha sido deplorável. Mas a graça divina toca o seu coração. Ele é iluminado pela fé: apesar de ver Cristo tão humilhado no suplício da cruz, n'Ele enxerga o Rei Divino, cujo reino não é deste mundo. Da fé nasce a esperança de alcançar a sua complacência: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino (Lucas XXIII-42). Da fé nasce a caridade, o amor a Cristo pelo qual defende o Divino Mestre contra as blasfêmias do seu companheiro, não temendo proclamar abertamente, perante os algozes, a inocência do Salvador, quando os próprios Apóstolos não tiveram coragem de vir assim proclamá-la, da fé nasce o reconhecimento de seus erros, o arrependimento sincero de todos os seus crimes: Nem ainda tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? E nós outros o estamos na verdade justamente, porque recebemos o castigo que merecem as nossas obras; mas este nenhum mal fez (Lucas XXIII-40 e 41). Diante de tais disposições que havia no coração de um homem que tinha sido um ímpio, Cristo não indagou quais eram as suas boas obras passadas para lhe dar a justificação, Cristo não lhe disse que só se tornaria justo se praticasse tais e tais obras, tornou-o um justo imediatamente, fê-lo de um pecador um santo: Em verdade te digo que hoje serás comigo no paraíso (Lucas XXIII-43). 

   Que se conclui daí? Simplesmente que a graça santificante não nos é dada como prêmio das obras, mas como benefício de Deus, embora se exijam certas disposições para recebê-las: "Nós somos justificados gratuitamente neste sentido de que nada do que precede a justificação, nem a fé nem as obras, podem merecer a graça da justificação" (Concílio de Trento VI-8).

   Uma vez justificado, uma vez tornado um justo, o bom ladrão, se queria ir para o Céu tinha que evitar o pecado mortal, observar a lei divina; aliás o seu arrependimento, para ser sincero, teve que incluir a intenção de nunca mais roubar, de levar outra vida, de proceder como um verdadeiro discípulo de Cristo, se por acaso o livrassem daquele suplício e ele tivesse ainda mais uns dias, ou meses, ou anos de vida. A intenção das obras estava, portanto, incluída no seu arrependimento. 

   Mais ainda: Ele teve, pelo menos, três horas de vida, pois quando o Mestre tão bondosamente lhe perdoou, era, então, quase a hora sexta (Lucas XXIII-44). À hora nona, Cristo ainda estava falando (Marcos XV-34). Ora, Cristo foi dos três crucificados o primeiro a exalar o último suspiro: Vieram, pois, os soldados e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com Ele fora crucificado. Tendo vindo depois a Jesus, como viram que estava já morto, não Lhe quebraram as pernas (João XIX-32 e 33). Pelo menos durante três horas, o bom ladrão, ajudado pela graça, perseverou nas suas boas disposições, aceitando com resignação as suas dores, por ele mesmo consideradas bem merecidas; isto influiu na sua salvação porque, se depois de justificado por Cristo, caísse no desespero, não poderia salvar-se. Foi precisamente prevendo na sua ciência infinita que, uma vez recebido o perdão e tornado um justo, ele passaria a agir como um justo, que Cristo lhe disse: Hoje serás comigo no paraíso (Lucas XXIII-43).

   Nós, católicos, vemos algumas vezes estes casos especialíssimos da misericórdia divina em que um pecador se arrepende e se converte nos últimos momentos. Deus lhe dá a graça santificante e, como não há mais tempo para que este pecador tornado justo Lhe mostre sua submissão pela observância da lei de Cristo e pelas boas obras, Deus se contenta com a intenção, em que está, de praticar os mandamentos e fazer o bem, pois Deus não é como nós que só vemos as obras, Ele conhece perfeitamente os mais profundos segredos dos corações.

   Mas tirar daí a conclusão de que as nossas obras são inúteis para a salvação seria um grande absurdo. Bem como seria a maior das loucuras querer deixar o arrependimento para o instante final, porque muitos morrem repentinamente, sem ter tempo para arrepender-se e mesmo porque sendo o arrependimento uma graça de Deus, arrisca-se quase infalivelmente a não recebê-la, quem por malícia e cobardia, só por livrar-se de servir a Deus durante a sua vida, pretendesse deixar a conversão para os momentos finais da existência. Como diz um piedoso autor, a Escritura só fala de um caso de conversão na hora da morte, o do bom ladrão: fala de um, para jamais cairmos no desespero; fala de um só para não nos iludirmos, caindo na temeridade. Porque a regra geral, com muitos poucas exceções, é esta: Talis vita, finis ita. Assim como é a vida do homem, assim é também o seu fim.

CATECISMO EM IMAGENS - COM EXPLICAÇÃO DO QUADRO


  
...Criador do céu e da terra;                                                                                                                                                        
 Este quadro representa a obra de Deus por seis zonas circulares, das quais cada uma representa um dos seis dias da criação do mundo e o gesto de Deus operando sua obra.
   A primeira zona circular (de cima para baixo)  representa a obra do primeiro dia, isto é, Deus criando a luz. 
   A segunda zona circular representa a obra do segundo dia, isto é, Deus criando o firmamento e separando-o da terra e das águas.
   A terceira zona circular  representa a obra do terceiro dia, isto é, Deus separando a terra das águas, e ordenando à terra que produza toda espécie de plantas.
   A quarta zona circular representa a obra do quarto dia, isto é, Deus criando o sol, a lua e as estrelas.
   A quinta zona circular representa a obra do quinto dia, isto é, Deus criando as aves no ar e os peixes nas águas.
   A sexta zona circular representa a obra do sexto dia, isto é, Deus criando os animais terrestres e fazendo o homem à Sua imagem e a Sua semelhança.
   No alto do quadro Deus repousa no sétimo dia e consagra-o ao Seu serviço. Este repouso é simbolizado pelo sol que se põe cercado de nuvens e os astros que presidem à noite: a lua e as estrelas. O triângulo formado por uma nuvem na qual Deus repousa, significa que as três Pessoas Divinas cooperaram todas na obra da criação. É isto que nos revelam estas palavras (no plural): "Façamos o homem à nossa imagem e nossa semelhança".
  

domingo, 11 de setembro de 2016

JUSTIFICAÇÃO E GRAÇA NA EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS



   Sobre a PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O DE GRAÇA SANTIFICANTE fala também um versículo da Epístola aos Efésios, muito citado pelos protestantes. É a ressurreição espiritual dos que estavam mortos pelo pecado.
   Vejamos as palavras de São Paulo, referindo-se a Cristo: Ele é quem vos deu a VIDA, quando vós estáveis MORTOS PELOS VOSSOS DELITOS E PECADOS, em que noutro tempo andastes segundo o costume deste mundo, segundo o príncipe das potestades deste ar, o príncipe daqueles espíritos que agora exercitam o seu poder sobre os filhos da infidelidade, entre os quais vivemos também TODOS NÓS em outro tempo SEGUNDO OS DESEJOS DA NOSSA CARNE, FAZENDO A VONTADE DA CARNE E DOS SEUS PENSAMENTOS, E ÉRAMOS POR NATUREZA FILHOS DA IRA, como também os outros (Efésios II- 1 a 3).

   Tendo descrito o estado deplorável em que se encontravam antes da conversão os Efésios, a quem escreve, São Paulo mostra que DESTA DEPRAVAÇÃO, DESTE HORRENDO E MISERÁVEL ESTADO DE PECADO agora eles ESTÃO SALVOS (pois este é o sentido da palavra SALVOS empregada pelo Apóstolo, conforme já provamos no nº 88) e passa a frisar que esta transformação foi realizada pela graça mediante a fé, pois iluminados pela fé que os arrancou das trevas do paganismo, vieram depois a alcançar a graça santificante. Esta transformação não veio como prêmio ou consequência DAS OBRAS, pois, antes de se converterem, que faziam eles? Obras más, como faziam os outros. Não foi porque tivessem realizado melhores obras do que os não convertidos, que eles se converteram. Não veio deles, pois A VOCAÇÃO PARA A FÉ é um DOM DE DEUS. 

   Assim não podem gloriar-se de sua superioridade moral sobre os gentios, porque sua conversão da gentilidade, para o Cristianismo, sua passagem da vida de pecado para o estado de graça foi uma dádiva, um benefício de Deus.

   Ninguém pode gloriar-se de suas virtudes, pois a virtude não é possível sem a graça, e a graça não é dada em prêmio das obras: a graça é dada "de graça": Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela sua extremada caridade com que nos amou, ainda QUANDO ESTÁVAMOS MORTOS PELOS PECADOS, nos DEU VIDA juntamente EM CRISTO (POR CUJA GRAÇA SOIS SALVOS)  e com Ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos Céus com Jesus Cristo, para mostrar nos séculos futuros as abundantes riquezas da sua graça, pela sua bondade sobre nós outros em Jesus Cristo. Porque PELA GRAÇA é que SOIS SALVOS, MEDIANTE A FÉ, e isto não vem de vós, porque é UM DOM DE DEUS; não vem das nossas obras, para que ninguém se glorie (Efésios II-4 a 9).

   Uma vez recebida a graça santificante, a alma que estava morta pelo pecado torna-se uma NOVA CRIATURA,  uma criação de Deus, criação maravilhosa, superior a toda criação material, agora pode produzir frutos para a vida eterna, pois foi sobrenaturalmente criada, justamente para isto, para caminhar pela estrada das boas obras. E, assim termina São Paulo: Porque somos FEITURA DELE MESMO, CRIADOS em Jesus Cristo, para BOAS OBRAS que Deus preparou, para caminharmos nelas (Efésios II-10).

   Deus prepara as boas obras, pois Ele pela sua Providência é quem encaminha os nossos passos: se nos faz viver em tal época e em tal localidade, conviver com estas e aquelas pessoas, das quais uma necessita de nossa ajuda material, outra nos rouba o sossego, outra nos faz um benefício etc, Deus assim nos vai oferecendo ocasião para a esmola, para a paciência, para a gratidão. Deus prepara as nossas obras também oferecendo-nos sempre o auxílio de sua graça, sem a qual não podemos praticá-las. Mas daí não se segue absolutamente que sejam obras exclusivas de Deus: uma vez que somos livres, e está no nosso poder fazer o mal ou fazer o bem, Deus prepara as boas obras afim de nelas caminharmos LIVREMENTE para o Céu. O Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então dará a cada um a PAGA segundo as suas OBRAS (Mateus XVI-2). Todos os que se acham nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que OBRARAM BEM sairão para a ressurreição da vida; mas os que OBRARAM MAL sairão ressuscitados para a condenação (João V-28 e 29).