quarta-feira, 21 de agosto de 2019

NECESSIDADE DA CONFISSÃO

LEITURA ESPIRITUAL. dia 21

Todo pecado ofende a Deus. Como ensinou o próprio Jesus Cristo, Nosso Senhor: toda a Lei se resume em dois mandamentos, ou seja, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Assim, mesmo quando a ofensa é feita ao próximo, ofende a Deus, porque Ele quer que amemos o próximo, pois, todo homem foi feito à imagem e semelhança de Deus e todos somos destinados por Nosso Pai do Céu para a felicidade no Paraíso.

Assim sendo, devemos dizer que Deus é o ofendido pelos pecados dos homens, quer sejam diretamente cometidos contra Deus, como acontece quando são desobedecidos os três primeiros mandamentos, quer sejam indiretamente, como acontece quando são desobedecidos os outros sete mandamentos que se referem diretamente ao próximo. É sempre Deus ofendido pelo pecado.

Ora, só àquele que recebeu a ofensa cabe o poder de perdoar e também de determinar a penitência. Só Deus pode colocar as condições para que Ele possa perdoar. Pois bem! Para nos perdoar, Deus exige que confessemos nossas faltas aos seus ministros, aos padres. A confissão é, pois, necessária e obrigatória para todos os fiéis que perderam a inocência do batismo por qualquer pecado mortal. Muito gente pensa que se perde o inocência só com o pecado mortal contra a castidade. Na verdade, a Teologia ensina que inocência depois do batismo  consiste em conservar a graça santificante nele recebida. E esta graça se perde com qualquer tipo de pecado mortal, mesmo por pensamento e desejo. Só para dar um exemplo: quem aceitasse consciente e voluntariamente um desejo de roubar uma coisa de maior valor, já teria cometido um pecado mortal, e, portanto, com este pecado teria perdido a inocência batismal. Popularmente só se emprega inocência para significar  o desconhecimento de toda malícia no que se refere à pureza. Daí o povo dizer que uma criança perdeu a inocência quando conhece e faz algum pecado contra a castidade. Na verdade, perde-se a inocência batismal quando se cometem estes pecados e/ou qualquer outro tipo de pecado mortal. Inocência, portanto, teologicamente falando, é a conservação da graça santificante recebida no batismo. E neste sentido, esta inocência é privilégio de poucos.

O Sacrossanto Concílio de Trento ensina: "Se alguém disser que a confissão sacramental não é necessária por direito divino, para a salvação: seja anátema. E diz ainda: O Sacramento da Penitência é tão necessário para a salvação daqueles que perderam a inocência batismal, como o batismo o é para aqueles que o não receberam. Como já tivemos ocasião de explicar, é neste sentido que o Sacramento da Penitência é chamado "a segunda tábua de salvação depois do naufrágio". Diz São Bernardo que "depois do batismo, não há nenhum outro remédio para o pecador senão a confissão".

Este remédio divino, como já o provamos, Nosso Senhor Jesus Cristo no-lo deu quando disse aos Apóstolos: "Os pecados serão perdoados àqueles a quem vós os perdoardes", e ainda disse: "tudo que desligardes na terra será desligado nos céus".


Caríssimos, queremos, pois, obter o perdão de nossos pecados? Confessemo-los a um sacerdote que tenha a devida jurisdição. Queremos livrar nossa alma das correntes do pecado e do demônio? Não há outro meio senão a confissão. Ela é necessária ou menos em desejo, como já explicamos no caso de arrependimento perfeito, e é impossível fazê-la em realidade. 

terça-feira, 20 de agosto de 2019

RESPONDENDO OBJEÇÃO CONTRA A HUMILDADE

LEITURA ESPIRITUAL, dia 20

OBJEÇÃO: Esta humildade excessiva, diz a maior parte das pessoas do mundo, enerva a alma e tira-lhe toda a confiança em suas forças. Acham que uma pessoa humilde seja sinônimo de uma pessoa deprimida, sem coragem e energia.

RESPOSTA: Vamos provar que é precisamente o contrário que é a verdade. Mas, antes permitam-me explicar melhor o principal móvel da humildade em sumo grau. Além do amor à verdade e à justiça como motivadores da suma humildade, quero, antes de refutar a objeção, explanar um pouco mais um outro motivo poderoso, um atrativo irresistível que incita as almas grandes às humilhações e desprezo: É O EXEMPLO DO DIVINO MESTRE.

Caríssimos, no Céu não podia o Verbo eterno humilhar-se; é Filho de Deus, em tudo igual a seu Pai. Desce à terra, faz-se homem. Como homem, é inferior, pode abater-se. Vede agora como abraça as humilhações e os desprezos, como percorre todos os graus da abjeção e aniquilamento. Diz S. Paulo: "Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses II, 7 e 8). Nasce num estábulo, passa sua vida na oficina dum pobre carpinteiro; morre numa cruz, saturado de opróbrios e afrontas... Que lição, que exemplo, que estímulo! No mundo afinal, não chega a fascinar os mundanos a paixão por uma vil criatura, de quem o coração se enamorou, até fazer-lhes amar seus defeitos, seus caprichos, até imitá-los?! Não se impõem cada dia os sensuais peníveis sacrifícios para agradar a um ídolo de barro?!

E não pode o amor divino arrebatar uma alma, e inspirar-lhe transportes tão vivos, tão veementes como o amor profano? Não pode um cristão inebriar-se tanto no amor do seu Salvador, que ache sua glória e sua dita em se lhe assemelhar, em ser como Ele escarnecido e pisado? "Fanatismo", dirá o mundo. Mas é que para ele a santa loucura da cruz é um mistério; ignora qual é o preço das humilhações, desde que o Homem-Deus as tomou por divisa. "Devaneio!" insistirá o mundo.

Caríssimos, interrogai a maior parte das pessoas do mundo, mesmo essas que se prezam de sábias e instruídas, e perguntai-lhes: O que é um cristão humilde? Responder-vos-ão: É um homem que só tem aspirações rasteiras. Dizem ainda: é um homem a quem a devoção destituiu de todo o sentimento da sua dignidade, de toda coragem, de toda magnanimidade, isto é, de todas as energias para  grandes ações.

Eis aí como julga das coisas o mundo insensato! Pois, é justamente o contrário que é a verdade. Conheceis um orgulhoso? Toda a sua aspiração é distinguir-se, dar que falar de si [se desculpam dizendo que é para vencer o respeito humano]. Para atingir seus fins, irá agora arrojar-se ante os grandes da terra e adorar seus devaneios, logo adular ignobilmente a alguém que arvoram em ídolo. O orgulhoso descerá às mais vis, às mais vergonhosas intrigas para suplantar um êmulo e elevar-se em sua queda. Adorador de si mesmo, tendo estima só por si, comprimiu-lhe o egoísmo seu coração, paralisou-lhe todas as potências de sua alma. Debalde esperareis dele sacrifícios generosos em prol do bem público. Joguete de suas paixões, adulador, escravo dos que dispõem das honras e das riquezas, ou se desvanece nas fumaças do orgulho, ou se estira na lama.  

Na verdade, só os humildes mantêm a dignidade da natureza humana. Pois, na pessoa humilde nunca o conhecimento do seu nada e de sua miséria está isolado do conhecimento das grandezas e bondades de Deus. É nada, e de si mesmo nada tem; e assim todo bem que vê em si, reconhece ter recebido de Deus. E sabe que Deus o criou para glória d'Ele, que lhe deu um nobre destino, que por graça de sua misericórdia o admitiu à adoção de seus filhos. Não andará à busca da aprovação duma vil criatura. Sabe que é nobre vassalagem depender senão de Deus! Mas sabe que criado por Deus, deve reverter a Deus; que, redimido pelo sangue de Jesus Cristo, tem o Céu como herança. Os humildes deixam que os amadores da vaidade e da ilusão se fatiguem em demanda das honras, das riquezas e prazeres. Eles puseram suas esperanças bem mais alto e assim as comodidades sensuais mas efêmeras deste mundo, as pessoas humildes as calcam aos pés; livram-se de todos os empecilhos  que tolhem os vôos de seus corações nobres e generosos. A alma dos humildes deixa a terra e voa em busca dos bens celestes e imortais.

Caríssimos, basta compulsarmos a vida dos santos para constatarmos a verdade do que acabamos de escrever. E só para indicar alguns exemplos: Santo Agostinho, S. João Batista M. Vianney, S. Bernardo, S. Francisco de Sales, S. Francisco de Assis, S. Vicente Ferrer, S. Francisco Xavier, S. Vicente de Paulo, Santa Catarina de Sena etc. Não eram todos humildes? Claro que sim, em sumo grau, do contrário não seriam os grandes santos que foram. E, no entanto, que sublimidade em seus pensamentos, que maravilhas no predomínio que exerceram em seus contemporâneos, quando se chega ao conhecimento de seus imortais escritos, sermões, cartas e feitos caritativos e apostólicos. Caríssimos, podemos estar certos que os santos acharam o princípio de sua força e grandeza exatamente na virtude da mais alta humildade.

Enquanto o orgulho, enfatuando as almas de presunção e vaidade, obceca o homem a tal ponto que coloca alguém ou a si mesmo como ídolo, a humildade, fazendo-o curvar aos pés do Soberano Senhor, põe-no em via de receber os mais preciosos dons do céu, a luz para conhecer, e a força para operar. Somos nada, mas tudo podemos em Deus quando oramos com humildade. Tudo podemos em Deus que dá sua graça aos humildes. Assim, nos erguemos do nosso pó, tornando-nos de alguma sorte semelhantes a Deus, fortes de sua força, sábios de sua sabedoria, onipotentes de sua onipotência.  Ao contrário, Deus resiste ao soberbo e abandona-o aos seus próprios recursos, isto é, ao seu nada, e todas as suas obras são infecundas. Agora veio-me a mente um fato: quando se tratou de escolher um candidato ao episcopado para conservação da Tradição em Campos, dois dos nossos padres, foram perguntar a D. Antônio de Castro Mayer qual a sua indicação e ele respondeu: "escolham a Monsenhor Licínio porque ele é humilde".

Quando Jesus Cristo apareceu na terra, havia pelo mundo reis e imperadores, não faltavam oradores afamados e profundos filósofos. Jesus escolheu a estes? Não... bem outro foi o plano concebido pela Sabedoria eterna. Escolheu pobres pescadores, rudes e alguns ignorantes. Ninguém os tinha em consideração. Mas, eis aí, os instrumentos que se há mister nas mãos de Deus para fazer coisas maravilhosas. Sua missão era nada menos que conquistar e mais ainda reformar o mundo inteiro. E como o farão: sofrendo a fome, a sede, as calúnias, as perseguições, as zombarias, os suplícios e a morte. E por que? Para que os mais cegos não possam deixar de ver que não são os homens mas a mão do Onipotente, que tudo fez. Ó sabedoria humana, que confia em seu pretensos dotes e em seu dinheiro e renome, confunde-te! Quão diversos são os juízos de Deus! Deus escolhe as coisas fracas para confundir os fortes!

Olhemos agora o outro lado da moeda considerando apenas um exemplo: Martinho Lutero. Tal homem havia recebido do céu talentos raros, um engenho muito grande; era dever seu fazer disto homenagem ao autor de todo dom perfeito, pô-los ao serviço de Sua glória. Mas ele se maravilha de si mesmo, atém-se às suas próprias forças e ideias. Mas, logo Deus se afastou dele; e eis a razão  que se abala das mais altas regiões, cai e desmorona-se, de queda em queda, aos mais vergonhosos desvios, aos mais incríveis delírios diabólicos. Deus rejeitou o orgulhoso!

Donde devemos concluir sem a menor sombra de dúvida: só os humildes podem esperar de Deus ajuda, amparo e proteção. Só eles, portanto, são capazes de efetuar coisas grandes na ordem sobrenatural e levantar monumentos que sobrevivam às catástrofes dos impérios. Eles, na verdade, nada empreendem, cônscios que estão de sua própria impotência, mas oram com humildade, pedem luzes, pedem forças, e Deus sempre os atende. Deus inspira-lhes algum pensamento para a glória Sua, e ei-los à obra com denodo; não há dificuldade que os amedronte; é seu sentir que, a despeito do seu nada pecador, alentados da força do alto, chegariam a revolver o universo. Não têm em vista nem estima nem respeito. Estão conscientes de que toda a glória do bom êxito  deve ser atribuída a Deus que é quem lhes dá a luz e a força. E Deus reconhece aí a sua obra e por vezes se compraz de sinalá-la com o selo da sua imortalidade. Assim entendemos o porquê de tantas maravilhas operadas no Cristianismo por homens simples e desprezíveis no pensar do mundo.

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O NOSSO CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

DOGMA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA: PAPA PIO XII - (1950)

   Apresentamos alguns excertos da CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA "MUNIFICENTISSIMUS DEUS".
   "Nestes nossos tempos refulgiu com luz mais clara o privilégio da Assunção corpória da Mãe de Deus.
   Este privilégio brilhou com novo fulgor quando o nosso Predecessor de imortal memória, Pio IX, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato, estes dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com o própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por este motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa.
   Mas Deus quis excetuar desta lei geral a Bem-aventurada Virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua Conceição Imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos.
   "A razão primária e fundamental diziam (os teólogos) ser o amor filial de Cristo para o levar a querer a Assunção de Sua Mãe ao céu. E advertiam mais , que a força dos argumentos se baseava na imcomparável dignidade da sua maternidade divina em todas as graças que dela derivam: a santidade altíssima que excede a santidade de todos os homens e anjos, e íntima união de Maria com o Seu Filho, e sobretudo o amor que o Filho consagrava à Sua Mãe digníssima...
   Os doutores escolásticos vislumbram igualmente a Assunção da Mãe de Deus não só em várias figuras do Antigo Testamento, mas também aquela mulher, revestida de sol, que o Apóstolo São João contemplou na Ilha de Batmos (Apoc. XII,1 e segs.). Porém, entre os textos do Novo Testamento, consideraram e examinaram com particular cuidado aquelas palavras: "Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres" (S. Luc. I, 28), pois viram no mistério da Assunção o complemento daquela plenitude de graça, concedida à Santíssima Virgem, e uma bênção singular contraposta à maldição de Eva.
   ..."Na festa da Assunção, Santo Antônio de Pádua, ao comentar aquelas palavras de Isaías "glorificarei o lugar dos meus pés (Is. LX, 13), afirmou com segurança que o Divino Redentor glorificou de modo mais perfeito a sua Mãe amantíssima, da qual tomara carne humana. "Daqui vê-se claramente, diz, que o corpo da Santíssima Virgem foi assunto ao céu, pois era o lugar dos pés do Senhor". Pelo que escreve o Salmista: " Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santificação". E assim como, acrescenta ainda, Jesus Cristo ressuscitou triunfante da morte e subiu para a direita do Pai, assim também "ressuscitou a Arca da sua santificação, quando neste dia a Virgem Mãe foi assunta ao tálamo celestial".
   ..."Saõ Bernardino de Sena diz que a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo, - semelhança que nem sequer nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos Céus, - exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Crsito". Outro argumento dado por São Bernardino: "O fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da Santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível da Assunção".
  
"São Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não o levava para o céu?" E Santo Afonso escreve por sua vez: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em Seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que Ele mesmo tomara a própria carne".
DEFINIÇÃO DO DOGMA
   "Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a luz do Espírito de Verdade, para glória de Deus Onipotente que à Virgem Maria concebeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da Sua augusta Mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: A IMACULADA MÃE DE DEUS, A SEMPRE VIRGEM MARIA, TERMINANDO O CURSO DA VIDA TERRESTRE, FOI ASSUNTA EM CORPO E ALMA À GLÓRIA CELESTIAL".
  
   Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta Nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

A CONSCIÊNCIA CRISTÃ

LEITURA ESPIRITUAL, dia 15º


"Tudo o que não é segundo a fé é pecado" (Rom. XIV, 23).

Todo ato cristão  parte do íntimo da alma unida a Deus em conformidade com a Verdade que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim os dois conceitos FÉ e CONSCIÊNCIA CRISTÃ, coincidem perfeitamente. É, pois, a adesão interior a Jesus Cristo que faz nossa fé e nossa consciência. Portanto, quando o cristão unido interiormente a Jesus Cristo, age em desacordo com essa luz divina, peca. É neste sentido que S. Paulo diz: "Tudo o que não é segundo a fé, é pecado". São João Crisóstomo, com todos os intérpretes gregos, ensina que no texto em apreço, "FÉ" quer dizer "CONSCIÊNCIA".

Caríssimos, Nosso Senhor Jesus fez sua Igreja com sua hierarquia para ser a luz do mundo e o sal da terra. O Cristianismo é, por essência, uma doutrina sobrenatural da salvação. Seu fim é ensinar ao homem a sua elevação a um destino superior e subministrar-lhe os meios proporcionados à sua consecução. Mas a graça supõe a natureza. É a natureza do homem que é elevada à ordem sobrenatural. É sobre a natureza reta ou retificada que ele poderá realizar a sua missão sobrenaturalizadora. A moral humana e o direito natural só podem desenvolver-se e formular-se em corpo de doutrina pela Santa Madre Igreja. Por isso, onde e na medida em que o racionalismo laicista ou o materialismo ateu tentam banir a doutrina católica, renascem os ídolos pagãos com as suas servidões humilhantes e a pessoa perde sua dignidade. Enquanto os instintos cegos e as paixões indisciplinadas, onde a impureza, a ambição e o orgulho multiplicam os erros e as desordens, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo será o único meio para difundir claridades para o verdadeiro progresso aqui e máxime para as vias que conduzem à Eternidade Feliz. A Igreja de Nosso Senhor Jesus esclarece as inteligências e possui o segredo de energias sobrenaturais capazes de fortalecer a vontade. É ela, e somente ela, que plasma e ilumina as consciências tornando-as certas, retas e delicadas. Sua ação é interior, profunda e eficaz. Na prática do bem a consciência apura-se numa delicadeza e sinceridade que deve ter por testemunha o olhar de Deus. O amor de Jesus Cristo, modelo de perfeição humano-divina, deve introduzir no dinamismo da vida moral dos verdadeiros católicos uma força misteriosa de dedicação e generosidade, chegando mesmo ao heroísmo do martírio. É o fruto da consciência bem formada, é o exercício da virtude exaltada até à santidade.

Mensageira autorizada da verdade e do bem, a Igreja não poderá jamais deixar de testemunhar a verdade de Jesus, assim como jamais poderá eximir-se de ligar as consciências a esta Verdade, sem que pretenda com isso, é óbvio, violentá-las. O que ela quer é a sua adesão não puramente exterior, mas interior. Quando esta adesão interior lhe é resolutamente recusada, a Igreja não força, mas não pode senão implorar a misericórdia divina que converta os recalcitrantes. Nunca será misericórdia, abraçar o pecador com o pecado e tudo, no caso de o pecador se recusar a voltar atrás e se converter. A Igreja, a exemplo do Divino Mestre, é missionária, e deve ir à procura do pecador para o converter e não para falsear sua consciência no afã de tranquilizá-la no erro e no pecado. Isto é, sim, monstruosa impiedade: enganar as almas com uma paz que não é a de Jesus Cristo, mas a do mundo.
Procurar tirar os pecados das consciências não é fanatismo nem dureza de coração; é simplesmente preocupação de sinceridade e de retidão interior. A Igreja não pode tolerar, nem tem mesmo o direito de fazê-lo, que no número dos seus membros se encontrem católicos que só o sejam de nome. A Igreja Católica, deve ser por excelência, a preservadora e impulsora da moralidade humana. Deve ser o sal da terra para, dando gosto pelas coisas de Deus, preservar a almas e a sociedade da corrupção, seja ela lá de que espécie for. Só o Cristianismo pode ser escola de santos. A graça supõe a natureza, mas uma natureza reta ou retificada. Não será bom católico quem não começar por ser homem honesto.

A Igreja considerou sempre como parte de sua missão divina, elevar e sanear o ambiente moral da família. Se é verdade que, sendo a consciência a regra imediata que se deve seguir, nunca será lícito alguém ir contra ela, não é menos verdade que a intenção de conformar os nossos atos com a regra absoluta, que é a condição essencial do seu valor moral, supõe necessariamente o desejo e a intenção eficaz de a conhecer o mais exatamente possível. Eis porque o erro e a ignorância em semelhante matéria são imputáveis quando provêm da negligência em se instruir ou da prática continuada do mal, que acabou por obscurecer ou falsear a consciência. Assim, toda consciência errônea deve ser endireitada. Portanto, não poderia ser maior a impiedade, por parte de alguém da hierarquia eclesiástica ser o primeiro a exortar a alguém que esteja  procurando esclarecimento, a seguir em frente com sua consciência, ainda que clara e gravemente errônea. Seria a mãe dar uma serpente ao filho que lhe pedisse um peixe; dar uma pedra em lugar dum pão; e pior ainda, dar ao filho doente, em vez de remédio, veneno. Outrossim, é uma impiedade sem nome, a autoridade suprema da Igreja se recusar a esclarecer as consciências que esta mesma autoridade perturbou com alguma ambiguidade em questões de fé e moral. Devemos pedir a Deus pelos quatro (dos quais dois faleceram), cardeais que apresentaram ao papa as "DUBIA" e por todos os que os estão aprovando, para que continuem firmes na defesa da santa doutrina  de Nosso Senhor Jesus Cristo! Devemos também orar para que o Papa Francisco veja que não se trata de coisas de somenos importância, mas sim da Lei suprema da Igreja que é procurar a salvação das almas. Não se trata, pois, de procurar evitar a extinção de espécies animais mas trata-se de evitar a extinção da fé nas almas.

Caríssimos, na religião do homem que hoje se procura instaurar, até quanto ao SER MORAL o homem é deus para si mesmo. Nestes tempos calamitosos e faltos de fé, geralmente não se leva mais em conta a LEI de DEUS; já em muitos países são aprovadas leis contra o Decálogo e até contra a natureza, leis nela já insculpidas por Deus desde à criação.  E  já foram aprovados por lei,  o divórcio e até o aborto, a sodomia, pecados estes que bradam aos céus exigindo vingança. Não poderia ser maior o falseamento das consciências! As novas gerações acharão natural o que na verdade são monstruosos desrespeitos a Deus. Na míngua de sacerdotes que orientem as almas na verdade e no verdadeiro amor e adoração ao Criador, o mundo caminha no sentido de adorar as criaturas. Realizam-se, sem dúvida, as profecias de Nossa Senhora de La Salette. Não foi sem razão que Nossa Senhora apareceu chorando. E neste ano completam-se 47 anos que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima derramou lágrimas várias vezes em Nova Orleans nos Estados Unidos. 

Feita esta breve exposição, torna-se mais fácil compreender o porquê desta crise atual, crise esta que se estende a todos os campos, desde o religioso até ao econômico. É que o sal perdeu a sua força e não presta para outra coisa senão para ser jogado fora e pisado pelos homens. Apagou-se, ou quase, a luz da fé, a doutrina do Divino Mestre é substituída por novidades fabricadas ao sabor do mundo.
A verdadeira Moral, é substituída por uma NOVA: é a Moral de Situação.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

FRUTOS QUE SE DERIVAM DA DEVOÇÃO À SS. EUCARISTIA


"Vinde a mim, vós todos, que estais oprimidos, e eu vos aliviarei" (S Mateus XI, 28).

20. Estes poucos ensinamentos a propósito de um assunto tão vasto serão, não duvidamos, fecundos em frutos de salvação para o povo cristão se, por vossos cuidados, Veneráveis Irmãos, forem em tempo oportuno expostos e recomendados. Mas esse sacramento é tão grande e tão abundante em toda sorte de virtudes, que ninguém poderá jamais nem lhe celebrar assaz eloquentemente os louvores, nem por suas adorações honrá-lo como ele o merece. Quer o meditemos com piedade, quer o adoremos nas cerimônias oficiais da Igreja, quer sobretudo o recebamos, com a pureza e a santidade requeridas, deve ele ser considerado como o centro de uma vida cristão tão completa como pode sê-lo; todas as outras modalidades de piedade, quaisquer que sejam, conduzem e vão ter, em última análise, à Eucaristia. Mas é principalmente neste mistério que se realiza e se cumpre cada dia o benévolo convite e a promessa, mais benévola ainda, de Cristo: Vinde a mim, vós todos, que estais onerados, e eu vos aliviarei (S. Mat. XI< 28).

Procissão de Corpus Christi - 1ª bênção do Santíssimo



Carmelo de Nossa Senhora do Carmo  -  Varre-Sai, RJ.

21. Esse mistério, finalmente, é como que a alma da Igreja; é para ele que se eleva a própria plenitude da graça sacerdotal pelos diversos graus das Ordens. É nele, ainda, que a Igreja haure e possui toda a sua virtude e toda a sua glória, todos os tesouros das graças divinas e todos os bens: por isso ela consagra os maiores desvelos a dispor e a trazer os espíritos dos fiéis a uma íntima união com Cristo por meio do sacramento de seu Corpo e de seu Sangue; é pelo mesmo motivo que ela procura fazê-lo venerar ainda mais pelo esplendor das suas cerimônias mais santas. A perpétua solicitude desenvolvida a este respeito pela Igreja, nossa Mãe, é magnificamente salientada por uma exortação publicada no santo Concílio de Trento, a qual respira uma caridade e uma piedade admiráveis e merece verdadeiramente que a transmitamos integralmente ao povo cristão: "O Santo Concílio adverte com afeto paternal, exorta, pede e conjura, pelas entranhas da misericórdia de nosso Deus, todos  e cada um dos que trazem o nome de cristãos, a se unirem enfim e viverem em boa harmonia nesse sinal da unidade, nesse vínculo da caridade, nesse símbolo de concórdia; a se lembrarem da tão grande majestade e do tão admirável amor de Jesus Cristo Nosso Senhor, que deu sua alma bem-amada como preço da nossa salvação, e que nos deixou seu corpo como alimento; a crerem e a venerarem esses mistérios sagrados do corpo e do sangue de Cristo com uma fé tão constante e tão firme, com uma devoção, uma piedade e um respeito tais, que possam frequentemente receber esse pão supersubstancial, que este seja deveras a vida das suas almas e a saúde perpétua dos seus corações, e que, fortificados por esse alimento, possam, ao sair desta miserável vida, chegar à pátria celeste, onde se nutrirão sem velame desse Pão dos anjos que agora só lhes é distribuído sob os véus sagrados" (Sess. XIII, De Echar., X, c. VIII).

22. Também a história nos atesta que a vida cristã foi especialmente florescente no povo nas épocas em que a Eucaristia era recebida mais frequentemente. Em compensação, e fato é este não menos certo, as pessoas se habituaram a ver o vigor da fé cristã enfraquecer-se sensivelmente à medida que os homens negligenciavam o pão celestial e, por assim dizer, lhe perdiam o gosto. Para que essa fé não desaparecesse completamente, no Concílio de Latrão Inocêncio III tomou uma medida oportuníssima, fazendo para todo cristão uma obrigação gravíssima de não se abster da comunhão do Corpo do Senhor ao menos por ocasião das solenidades pascais. Evidente é, porém, que esse preceito foi dado com pesar e como remédio extremo: porque a Igreja sempre desejou que em cada sacrifício os fiéis pudessem participar desse banquete divino. "O Santo Concílio desejaria que em cada missa os fiéis presentes não fizessem apenas a comunhão espiritual, mas, também que viessem receber sacramentalmente a Eucaristia; assim os frutos desse Santíssimo Sacrifício manariam mais abundantes sobre eles" (Conc. Trid. sess. XXII, c. VI).


(Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS"  de Leão XIII sobre a Santíssima Eucaristia, escrita em 1902). 

TEMOR DE DEUS


LEITURA ESPIRITUAL, dia 14º




"Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; mas temei antes aquele que pode lançar na Geena a alma e o corpo" (S. Mateus X, 28 e cf. também S. Lucas XII, 4 e 5: "A vós, meus amigos,  vos digo:Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, e depois nada mais podem fazer; temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno..."

Não pode haver ninguém mais amigo do que Jesus Cristo, que quis morrer para nos salvar. E quem avisa, amigo é. Como a amigos Jesus nos dá este aviso em Mateus X, 28 e Lucas XII, 4 e 5. Portam-se, porém, como inimigos aqueles que aconselham a atitude da avestruz perante o dogma do inferno: Deus é Pai, não temais, não existe o inferno. Isto é tapar os ouvidos a advertência paternal de Deus. Jesus Cristo manda que se tema o inferno, justamente para nele não vir a cair com a alma, e depois do Juízo Final, também com o corpo.  "O princípio da sabedoria é o temor do Senhor" (Eclesiástico I, 16). Os ninivitas agiram com sabedoria porque temeram os castigos de Deus, quando Jonas lhes foi anunciar a destruição da cidade. Se os primeiros homens temessem a Deus, que é Pai mas também Juiz, não teriam praticado excessos, que moveram o mesmo Deus a afogá-los no dilúvio! Se o temor de Deus tivesse entrado em Sodoma e Gomorra com as advertências de Lot, não teriam sido os seus habitantes reduzidos a um montão de cinzas! Devemos amar a Deus, que dá o céu a quem o merece; e temê-Lo, porque castiga com o inferno os pecadores que, depois de abusar da Misericórdia, desprezam a Justiça divina e não se convertem até ao último instante de vida.

 Existem duas espécies de temor: o temor de servo que teme a culpa  por medo do castigo que Deus pode infligir. Sobretudo teme o extremo e eterno castigo que é o inferno, onde, depois da ressurreição dos corpos no juízo final, os réprobos serão lançados não só com as almas mas também com os corpos. E só Jesus Cristo, Juiz Supremo tem este poder. Os homens só podem lançar o corpo na sepultura. Este temor reverencial embora, não seja perfeito, contudo é bom porque afugenta o pecado: "O temor do Senhor expulsa o pecado" (Eclesiástico I, 27). Mas há outra espécie de temor e este é o melhor porque não é um temor servil mas de filho. Não apenas é bom, mas é um temor santo como diz o Salmo XVIII, 9 e 10: "As justiças do Senhor são retas, alegram os corações, o preceito do Senhor é claro, esclarece os olhos. O temor do Senhor é santo, permanece pelos séculos dos séculos; os juízos do Senhor são verdadeiros, cheios de justiça em si mesmos". O temor filial consiste em temer o castigo também por medo da culpa. E à medida que cresce esse temor, aumenta outrossim o amor que nos une a Deus. Diz Santo Tomás de Aquino que os atos exteriores devem brotar da disposição interior. A humildade é a disposição interior para todas as virtudes. O temor de Deus, a reverência diante da Majestade infinita de Deus procedem da humildade interior mas que mui naturalmente se mostram também no exterior. Pela humildade a alma tem sempre Deus diante dos olhos, sem jamais o esquecer. Teme ofender um Pai que é todo Amor, um Supremo Senhor que é todo Justiça, pois,  premia um copo d'água dado a alguém por Seu amor, como castiga uma palavra ociosa. 

O próprio Nosso Senhor recomenda esse temor reverencial àqueles que se dignou chamar seus amigos: "Digo, porém, a vós, meus amigos..." (S. Lucas XII, 4).  Este temor do inferno, inclui também o amor a Deus, pois, o condenado, além de outros tormentos, sofre ainda mais pela "pena do dano", isto é, ter perdido para sempre o Supremo Bem, o Pai de Bondade. Embora entre assim o amor de Deus, o motivo principal, porém, é o medo do castigo. A alma começa com este temor, mas, é óbvio que, à medida que vai adiantando na vida espiritual, este temor bom mas menos digno, cede pouco a pouco o lugar ao amor, como móbil principal e depois habitual de ação. O Concílio de Trento, no entanto,  fala com muita insistência da incerteza em que estamos a respeito da perseverança final; a nossa vida é uma provação contínua na fé, e nunca devemos largar esta arma do temor de Deus. E mesmo não podemos abandonar nunca o temor do castigo porque o próprio Espírito Santo nos dá este aviso: "Em todas as vossas obras, meditai nos vossos novíssimos e não pecareis jamais" (Ecli. VII, 40). A morte, cuja hora é incerta, abre a porta para a eternidade; logo vem o juízo, e aí a alma já saberá qual será a sua sorte eterna; ou feliz eternamente no Céu, ou infeliz eternamente no inferno.  Afinal, é o próprio Jesus que inculca este temor reverencial de servo.

Caríssimos, e como não temer, se o próprio Divino Mestre nos exorta a isto?! Se um rei do alto de uma torre, sustentasse um criminoso pelos cabelos, de maneira que, abrindo apenas as mãos,  fizesse o inimigo se precipitar numa fossa repleta de serpentes venenosas, ou numa geena cheia de imundícies fumegantes, será que este criminoso teria a ousadia e temeridade de,  com um punhal,  ameaçar o ofendido? E o pecador está em verdade, suspenso por um fio que é a vida, e suspenso sobre um "poço de fogo" (Apoc. IX, 2). Deus tem poder de cortar este fio e lançar na geena, não só o corpo mas também a alma e isto para sempre: "Ide malditos para o fogo eterno preparado para os demônios e seus seguidores" (S. Mat. XXV, 41 ).

 Jó fala sobre si fazendo uma outra comparação: "Eu sempre temi a Deus como a ondas suspensas sobre mim, e nunca pude suportar o peso de sua majestade" (Jó, XXXI, 23) E acrescentamos: se o Espirito Santo diz que os santos devem temer o inferno, que dizer dos pecadores? E este deixariam de sê-lo se temessem o inferno.  O mesmo Deus elogiou a santidade de Jó. E o que ele diz de si, foi sob inspiração do mesmo Espírito Santo! Logo o temor não é contrário à santidade. O temor de Deus, mesmo o servil, é alimento para a santidade. Uma característica da santidade é justamente o desapego universal de todas as coisas humanas. Então entendemos bem a comparação de Jó. Como os navegantes no perigo não pensam em banquetes, em glórias, em passatempos, em prazeres, em riquezas, mas só naquilo que importa, isto é, em salvar a vida, assim no nosso caso, os santos não pensam em outra coisa senão em salvar a sua alma, e assim salvar também o corpo, que Jesus vai ressuscitar brilhante como o sol.

Jó usa esta comparação, para dizer também que sempre se tinha voltado para Deus com aquela confiança intensa com a qual se recomenda quem vê as ondas e uma terrível tempestade, que o ameaçam. E como os navegantes, mesmo no meio de gritos de invocações, não deixam de fazer todo o indispensável para salvar-se a ponto de lançar tudo no mar caso seja necessário, assim fazem em nosso caso também os santos, e Jó com esta metáfora queria indicar que ele tinha também agido sempre assim: "O meu coração não me acusa nada em toda a minha vida" (Jó XXVII, 6).


Caríssimos, procuremos amar a Deus de verdade e veremos como o nosso Deus é digno de um temor tal que não possa haver maior. O TEMOR DO SENHOR É UMA GLÓRIA E UMA HONRA, É UMA ALEGRIA E COROA DA ALEGRIA" (Ecli. I, 11). Amém!

domingo, 11 de agosto de 2019

COMO AUMENTAR A GRAÇA SANTIFICANTE



"Quando fazes alguma coisa boa, diz Santo Agostinho, faze-a por amor da vida eterna. Se por isso a fazes, estás seguro, porque assim o mandou Deus". Aqui na terra os eleitos começaram a amar merecendo, e lá no Céu continuaram a amar eternamente amando por prêmio.

A primeira causa capaz de aumentar os nossos méritos é o GRAU DE UNIÃO COM DEUS. Como sabemos, pelo Batismo o homem é realmente incorporado em Cristo; ora, sendo Ele a fonte de todos os nossos méritos, quanto mais intima, habitual e atualmente estivermos unidos a Ele, mais mereceremos. "Eu sou a videira, disse Jesus, e vós os ramos... Aquele que permanece em mim e eu nele dá muito fruto" (S. João, XV, 1-6). É por isso que a Santa Igreja nos exorta que pratiquemos as nossas ações por Ele, com Ele e n'Ele. POR ELE, porque ninguém vai ao Pai sem passar por Ele (S. João XVI, 6); COM ELE, porque sem Ele não podemos nada, e Ele quer ser o nosso colaborador; N'ELE, isto é, na sua virtude e sobretudo segundo as suas intenções. Assim fazendo, podemos dizer com S. Paulo: "Eu vivo, mas já não sou eu quem vive,é Cristo que vive em mim" (Gal. II, 20). Na vida prática, o cristão deve unir-se frequentemente, sobretudo no começo dos atos que vai praticar, a Jesus Cristo e às suas intenções, com a plena consciência de que é incapaz de fazer qualquer coisa de bom por si mesmo e uma indefectível confiança de que Ele pode remediar a sua fraqueza.

O segundo meio para aumentar a graça santificante é a PUREZA DE INTENÇÃO, isto é, a PERFEIÇÃO DO MOTIVO que nos leva a agir. Assim, como a caridade é a rainha e a forma de todas as virtudes, toda a ação inspirada pelo amor de Deus e do próximo tem mais mérito do que se for inspirada apenas pelo temor ou pela esperança. Portanto, todas as nossas ações, até as mais comuns como as refeições e recreios honestos e moderados, podem tornar-se atos de caridade e participar do valor dessa virtude, sem perderem o seu valor próprio. Demos um exemplo: comer para restaurar as forças é um motivo digno e meritório; mas refazer as forças para melhor trabalhar por Deus e pelas almas é um motivo de caridade muito superior, que lhe confere um valor meritório muito maior. Contudo não deve haver inquietação de espírito: os autores espirituais aconselham que aceitemos as intenções que se nos apresentarem espontaneamente e subordiná-las à caridade divina. Mas como a vontade humana é inconstante, é mister explicitar e atualizar frequentemente estas  nossas intenções sobrenaturais. Pois, pode acontecer que a gente comece merecendo muito, e durante a execução da obra, chegue a perder, pelo menos, uma parte de seu merecimento. O Santo Cura d"Ars dizia que, quando sentimos que o fervor está diminuindo e se desviando, devemos fazer oração jaculatória. Por ex.: MEU JESUS, TUDO POR VOSSO AMOR; MEU PAI DO CÉU, EU VOS AMO.

Daí o terceiro meio para aumentar a graça santificante: A INTENSIDADE DO AMOR, isto é, O FERVOR com que se age. Não basta fazer o bem, é preciso evitar a indolência, o pouco esforço, a negligência. E pode até acontecer de haver pecados veniais nestas negligências. Com certeza, uma obra boa mas feita com indolência trará pouco merecimento para a alma. Pelo contrário, se oramos, trabalhamos e nos sacrificamos COM TODO CORAÇÃO, cada uma das nossas ações merece um grau apreciável de graça habitual. Caríssimos, como vale a pena renovar frequentemente os esforços, com energia e perseverança!

A DIFICULDADE DO ATO, não em si mesma mas porque exige mais amor de Deus, despende um esforço mais enérgico e mais demorado, e enquanto não provém de uma imperfeição atual da vontade, também aumenta o mérito da alma. Devemos prestar atenção no seguinte: adquire-se uma virtude com atos repetidos desta virtude e aí torna-se fácil agir assim. No entanto, isto não diminui o mérito. Essa facilidade, quando dela nos servirmos para continuar e até aumentar o esforço sobrenatural, favorece o FERVOR do ato, e por conseguinte, aumenta, outrossim o mérito. Assim os santos que, pela prática das virtudes, fazem mais facilmente que os outros, atos por exemplo de humildade, de obediência e de religião, não têm menos mérito, pois praticam mais fácil e frequentemente o amor de Deus, e por outro lado, continuam a fazer esforços, sacrifícios, sempre que sejam necessários. A dificuldade aumenta o mérito, mas na medida em que suscita mais entusiasmo e amor.

Devemos ter sempre em mente que ser santo, é ocupar-se tranquilamente em cumprir os deveres do seu estado, para agradar a Jesus, é suportar por seu amor as penas da vida e deixar-Lhe plena liberdade para dispor a seu grado da alma e do corpo, da saúde e de todos os bens. Jesus pede o nosso coração, ou seja, quer o nosso amor. Amando-O, tudo está bem. Genoveva e Pascoal Bailão eram pastores, mas amavam a Jesus e eram santos. Isidoro era um lavrador, Zita uma criada. Crispim um sapateiro, Bento Labre um mendigo. Que importa? Não tinham senão um emprego: amavam a Jesus com o máximo fervor e esqueciam-se de si mesmos.

Devemos santificar todas e cada uma das nossas ações, mesmo as mais comuns. Quanto progresso na santidade podemos fazer num só dia! Não há meio mais eficaz, mais prático, e mais ao alcance de todos para se santificarem do que sobrenaturalizar todas as ações, com estes três meios de que acabamos de falar: recolhermo-nos um momento antes de agir, renunciarmos positivamente a toda a intenção natural ou má, unirmo-nos, incorporarmo-nos em Cristo e oferecermos por Ele a nossa ação a Deus para sua glória e bem das almas. Ponhamos em prática o conselho do Espírito Santo por boca de S. João Apóstolo no Apocalipse, XXII, 11: "Aquele que é justo se torne mais justo ainda; e aquele que é santo se santifique ainda mais". É assim que juntamos um tesouro no Céu, que o ladrão não rouba, a traça não rói e nem a ferrugem consome. Amém!

sábado, 10 de agosto de 2019

PROFECIA QUE CONDENA O MODERNISMO

LEITURA ESPIRITUAL  - Dia 10


"Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino: prega a palavra, insiste, quer agrade quer desagrade, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina, porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas multiplicarão para si mestres ao capricho de suas paixões, (levados) pelo prurido de ouvir novidades. Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas" (II Timóteo IV, 1-4).

Há homens de coração reto que têm sede de uma luz infinita. E esta sede do infinito, só Deus pode saciá-la. E Deus se fez Homem para lhes dar a segurança dizendo: Eu sou a Verdade. E o grande foco da luz divina é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Divino Mestre cingiu a fronte de sua Esposa mística com o diadema visível de Rainha da Verdade. A unidade, a indefectibilidade, a santidade e a infalibilidade refulgem na coroa da Igreja, quais gemas preciosas, prendas que são deste Divino Esposo e que distinguirão a Igreja das rugas das adulterações humanas e das manchas das sociedades heréticas ou cismáticas. Dado o orgulho humano, estas últimas infelizmente sempre existirão. Daí as exortações do Apóstolo  ao seu discípulo e bispo Timóteo, exortações estas sobre as quais vamos ora refletir.

São Paulo, num tom pleno de solene gravidade, conjura o seu discípulo caríssimo, o Bispo Timóteo, a ser fiel à sua missão de pregar a doutrina imutável de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, portanto, deverá insistir, quer agrade quer desagrade, e repreender aqueles que dela se afastarem. O Apóstolo dos Gentios, exorta o seu discípulo a ter sempre firmeza em defender a verdade, a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo que não muda, e, ao mesmo tempo, mostra que é mister fazê-lo sempre com bondade e paciência, isto é, sem discussões e altercações.

Não há a mínima dúvida de que São Paulo faz aqui uma profecia: "virá tempo" afirma ele. Já na primeira carta ao mesmo Bispo Timóteo, o Apóstolo São Paulo já alertava: "O Espírito (Santo) diz claramente que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvido a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios..." (I Tim., IV, 1). E ao terminar esta mesma carta, faz esta exortação: "Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as novidades profanas de palavras e as contradições de uma ciência de falso nome, professando a qual, alguns se desviaram da fé" (I Tim. VI, 20 e 21).

A lídima Palavra de Deus da qual os bons têm sede, causa náuseas aos orgulhos. Não suportam ouvir a sã doutrina. Almejam uma multidão de pregadores que adulem suas paixões. Por isso São Paulo já na primeira epístola, havia dito a Timóteo: "Se alguém ensina, de modo diferente e não abraça as sãs palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo e aquela doutrina que é conforme à piedade, é um soberbo..." (I Tim., VI, 3 e 4). Não suportam ouvir sempre a mesma coisa; desejam ardentemente ouvir novidades. Em lugar do Evangelho, da verdade confirmada com tantos milagres, e assim tornada a mais evidente e incontestável, abraçarão fabulosas, estranhas e inacreditáveis doutrinas. Assim agiram os gnósticos, maniqueus e outros hereges.

Em verdade, esta profecia de São Paulo vem se realizando desde os primeiros séculos; mas, com certeza se realizará plenamente nos últimos tempos, na época do Anti-Cristo. Mas não resta a mínima dúvida de que ela se cumpre ao pé da letra em relação aos modernistas. São Pio X dizia que o Modernismo é a reunião de todas as heresias, e a sua origem está no orgulho humano que procura novidades que agradam. Agravando-se o espírito de contestação contra a Tradição e os dogmas, compreende-se que os modernistas não suportem mais ouvir a verdade. Daí vem a apostasia da fé, e passam a pregar abertamente doutrinas diabólicas. Os modernistas são pessoas ávidas de popularidade, que lançam a divisão na Igreja e nas famílias. Organizam conciliábulos e preparam os cismas dentro da Igreja. Procuram ensinar outras coisas diferentes e rejeitam a linguagem escolástica tradicional. Cabe aqui perfeitamente seguirmos a mesma exortação que S. Paulo fez a Tito: "Foge do homem herege, depois da primeira e da segunda correção, sabendo que tal homem está pervertido e peca, como quem é condenado pelo seu próprio juízo" (Tito, III, 10 e 11).

Caríssimos, um só é o código que liga nossas almas aos destinos eternos: o Evangelho genuíno sem alterações e acomodações humanas. A própria Santa Madre Igreja é infalível enquanto guarda santamente e expõe fielmente o que Jesus ensinou, ensinamento este em parte escrito por inspiração do Espírito Santo (S. Escritura), e em parte (maior) transmitido como de mão em mão através das gerações também sob a assistência do Espírito Santo (Tradição).  Guardemo-lo com toda fidelidade e amor.  A graça de Deus seja com todos vós. Amém. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

HUMILDADE DO CURA D'ARS

Por Abbé A. Monnin

      Para quem não conhecesse o Cura d'Ars pela narração das coisas maravilhosas que se realizavam em torno dele e que lhe mereciam as ovações da multidão, era natural supor que, naquele ambiente de glória que o circundava, o orgulho lhe era, senão a armadilha, ao menos a tentação. Que provação, com efeito, permanecer humilde entre os testemunhos mais expressivos e mais retumbantes da veneração pública! Alguém insinuava certa vez essa ideia diante dele; ele compreendeu, e, levantando os olhos aos céu com uma expressão profunda de tristeza e quase de desalento, disse: "Ah! se ainda eu não fosse tentado de desespero!"
    Um dia recebeu ele uma carta cheia de coisas inconvenientes; pouco depois recebeu outra que só respirava veneração e confiança. e na qual lhe chamavam um santo. Ele o participou às suas caras filhas da Providência: "Vede, diz-lhes, o perigo que há em nos determos nos sentimentos humanos. Esta manhã eu teria perdido a tranquilidade da alma, se tivesse querido dar atenção às injúrias que me dirigiam, e esta tarde teria sido grandemente tentado de orgulho, se me tivesse fiado em todos aqueles cumprimentos. Oh! como é prudente não nos apegarmos às vãs opiniões e aos vãos discursos dos homens, e não fazer nenhum caso deles!"
    Ele dizia ainda a propósito dessas cartas: "Recebi duas cartas pelo mesmo correio; numa diziam que eu era um grande santo, noutra que eu era um hipócrita e um charlatão... A primeira não me acrescentava nada, a segunda nada me tirava: a gente é aquilo que é diante de Deus; e depois, nada mais!"
    Outra vez dizia ele: "O bom Deus escolheu-me para ser o instrumento das graças que ele faz aos pecadores, porque eu sou o mais ignorante e o mais miserável de todos os padres. Se houvesse na diocese um padre mais ignorante e mais miserável do que eu, Deus o teria aproveitado de preferência".
    O Cura d'Ars tinha uma sentença que lhe tornava com frequência à conversação: "Se dizem mal de vós, dizem o que é verdade; se vos cortejam, zombam de vós... Qual é melhor, que vos avisem, ou que vos iludam? que vos tomem a sério, ou que vos escarneçam?"
    O Padre Vianney nunca falava de si primeiro. Se o interrogavam, respondia com uma modéstia que impunha reserva e com um laconismo que reduzia o interlocutor ao silêncio. Depois cortava com tudo que lhe dizia respeito e só procurava desviar a conversa. No mais, esgotava em tais ocasiões todas as formas do desprezo, e a sua humildade era engenhosa em inventar formas novas. Fazia o elogio de um padre a quem estimava, e dizia, na sua linguagem imaginosa e pitoresca, que havia nele algo da andorinha e da águia.
    "- E em V. Revma., sr. Cura, que há?
    " - Oh! o que há em mim? Serviram-se para formar o Cura d'Ars duma pata, duma perua e de uma lagosta".
    "Como V, Revma. é bom", dizia o santo homem a um missionário recém-chegado a Ars, "de vir ajudar-nos!
    "- Sr. Cura, sem falar do prazer que temos de viver junto a V. Revma., é um dever que cumprimos.
    " -Oh não! é caridade!
    "- Sr. Cura não creia isso. Não há caridade da nossa parte. 
    "- Oh! há! Bem vê V. Revma., que, quando V. Revma., está aqui, isto ainda vai; mas quando eu estou sozinho, não valho nada. Sou como os zeros, que só têm valor ao lado dos outros algarismos... Estou velho demais, não presto para nada. 
    "- Sr. Cura, V. Revma. é sempre jovem pelo coração e pela alma.
    "- Sim, meu amigo, posso dizer, como um santo a quem perguntavam a idade, que ainda não vivi um dia".
    Na necessidade que o Padre Vianney sentia de se diminuir e rebaixar, fazia emprego contínuo do termo pobre. Era a sua pobre alma, o seu pobre cadáver, a sua pobre miséria, os seus pobres pecados. Tinha sempre a língua levantada para reconhecer suas faltas, e, a dar-lhe crédito, a sua vida inteira não bastaria para chorá-las. Só acusações tinha a formular contra si próprio.
    A humildade do seu coração fazia-lhe derramar verdadeiras lágrimas sobre a sua fraqueza e ignorância. Essas lágrimas só podiam ser enxugadas pela generosidade do seu ânimo que o premia a lançar-se de olhos fechados, com todas as suas impotências, nos braços de Deus. Ele se exprobrava tudo. Crer-se-ia que ele envelhecera no mal, que era o mais vil e o mais desgraçado dos pecadores. 
    "Como Deus é bom, dizia ele muitas vezes, para suportar as minha imensas misérias!"
    "Deus me fez esta grande misericórdia de não pôr nada em mim em que eu me possa apoiar, nem talento, nem ciência, nem força, nem virtude... Só descubro em mim, quando me considero, os meu pobres pecados. E ainda Deus permite que eu não os veja todos, e que não me conheça todo. Essa vista me faria cair no desespero. Não tenho outro recurso contra esta tentação do desespero senão lançar-me aos pés do tabernáculo, como um cachorrinho aos pés do dono..."
    O servo de Deus era do pequeno número dos que falam da humildade humildemente. "Senhor Cura, como fazer para ser direito? perguntava-lhe um dia alguém.
    "- Meu amigo, é preciso amar a Deus".
    "- Ah! e como fazer para amar a Deus?
    "- Ah! meu amigo, humildade! humildade! É o nosso orgulho que nos impede de nos tornarmos santos. O orgulho é a corrente do rosário de todos os vícios, a humildade é a corrente do rosário de todas as virtudes".
    Eis aqui sobre o mesmo assunto alguns pensamentos do servo de Deus:
   "A humildade é como uma balança; quanto mais a gente se abaixa de um lado, tanto mais é elevada do outro".
    "Os que nos humilham são nossos amigos, e não os que nos louvam".
    "Perguntavam a um santo qual era a primeira das virtudes, e ele respondeu: "É a humildade. - E a segunda? - A humildade. - E a terceira? - A humildade".
    "Jamais compreenderemos a nossa pobre miséria. Faz fremir só o pensar nisto! Deus só nos dá sobre isso uma pequena vista. Se nos conhecêssemos a fundo, como ele nos conhece, não poderíamos viver; morreríamos de pavor".
    "Os santos se conheciam melhor que os outros, e é por isto que eram humildes. Entravam em grandes confusões vendo que Deus se servia deles para fazer milagres. São Martinho era um grande santo e julgava-se um grande pecador. Atribuía aos seus pecados todos os males que sucediam no seu tempo".
    "Ai! não se concebe como e de que uma criatura tão pequena como nós possa orgulhar-se... O diabo apareceu um dia a São Macário, armado de um chicote como para batê-lo, e lhe disse: "Tudo isso que tu fazes eu faço: tu jejuas, eu nunca como; tu velas, eu nunca durmo. Só há uma coisa que tu fazes e eu não posso fazer. - Oh! que é então? - "humilhar-me!" respondeu o diabo; e sumiu-se!...
    "Há santos que punham em fuga o demônio dizendo: "Como sou miserável!"


SÃO JOÃO BATISTA MARIA VIANNEY! ROGAI POR NÓS!

REVESTIR-SE DE JESUS CRISTO

LEITURA ESPIRITUAL


São João Eudes faz um belíssimo comentário destes conselhos do Apóstolo S. Paulo: "Revesti-vos de Jesus Cristo"  (Rom. XIII, 14); "Revesti-vos do homem novo" (Efésios IV, 24); "Animai-vos dos sentimentos que animam a Jesus Cristo" (Filipenses II, 5). Diz o Santo propagador da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria: "Jesus, Filho de Deus e Filho do Homem...  não sendo somente nosso Deus, nosso Salvador e soberano Senhor; mas mesmo, sendo nossa cabeça e nós os seus membros e seu corpo, diz S. Paulo, osso de seus ossos, e carne de sua carne (Ef. V. 30) e, por conseguinte, estando unidos a ele pela união mais íntima que possa existir, tal a dos membros à cabeça; unidos a ele espiritualmente pela fé e pela graça que nos deu no santo batismo; unidos a ele corporalmente pela união do seu santíssimo Corpo com o nosso na santa Eucaristia, segue-se daí necessariamente que, como os membros são animados do espírito da cabeça e vivem de sua vida, assim também devemos estar animados do espírito de Jesus Cristo, viver de sua vida, caminhar em suas veredas, revestir-nos de seus sentimentos e inclinações, fazer todas as nossas ações nas disposições e intenções com que Ele faz as suas, em uma palavra, continuar a realizar a vida, a religião e a devoção que Ele exerceu sobre a terra". E S. João Eudes apresenta vários textos das Sagradas Escrituras e comenta-os: "Não ouvis, diz o santo, aquele que é a própria verdade dizer em diversas passagens de seu Evangelho: "Eu sou a vida; e eu vim para que tivésseis a vida. Vós não quereis vir a mim a fim de ter a vida. Eu vivo e vós vivereis Nesse dia sabereis que eu estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós" (S. João VI, 10; V, 40; XIV, 19 e 20). Isto é, assim como eu estou em meu Pai, vivendo da vida de meu Pai, a qual ele me vai comunicando, assim também vós estais em mim, vivendo da minha vida, e eu estou em vós, comunicando-vos essa mesma vida, e assim eu vivo em vós e vós vivereis comigo e em mim. E o discípulo bem-amado não nos clama também que Deus nos deu uma vida eterna e que essa vida está em seu Filho , e que aquele que tem em si o Filho de Deus tem a vida eterna e que essa vida está em seu Filho, e que aquele que tem em si o Filho de Deus tem a vida; e, ao contrário, aquele que não tem o Filho de Deus em si, não tem a vida (1 João V, 11 e 12); e que Deus nos enviou seu Filho ao mundo, a fim de que vivamos por ele (1 João IV, 9); e que estamos neste mundo como Jesus aqui esteve (Hebreus II, 17), isto é, que estamos em seu lugar e que devemos viver como ele mesmo viveu? E no Apocalipse, não nos anuncia que o esposo bem-amado de nossas almas, que é Jesus, vai sempre pregando e dizendo: "Vinde, vinde a mim e que aquele que tem sede venha e tome água da vida gratuitamente" (Apoc. XXII, 17), isto é, que venha e beba em mim a água da vida? ... (S. João VII, 37). E o que nos prega a cada instante o divino apóstolo S. Paulo, senão que estamos mortos e que a nossa vida está escondida com Cristo em Deus (Col. III, 3); que o Pai eterno nos vivificou com Jesus Cristo e em Jesus Cristo (Efésios II, 5); Col. II, 13), isto é, que não somente nos fez viver como seu Filho, porém em seu Filho, e da vida de seu Filho, e que devemos manifestar e fazer transparecer a vida de Jesus em nossos corpos (2 Cor. IV, 10 e 11), que Jesus Cristo é nossa vida (Col. III, 4)?... Em uma passagem, falando aos cristãos, diz que pede a Deus que os torne dignos de sua vocação (do seu chamado), que realize plenamente nesses cristãos todos os desígnios de sua bondade e da obra da fé, a fim de que o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo seja glorificado neles e eles em Jesus".

Caríssimos, como nos consola esta meditação!!! Estarmos cônscios da presença de Jesus em nós; tão unido a nós que a nossa vida é Ele mesmo, é Ele que trabalha, sofre em nós; Jesus é a Cabeça e nós os membros; somos um instrumento que Jesus mesmo deve pôr em movimento. Por nós mesmos não podemos nada de bom, mas se é Jesus que opera em mim, então, posso dizer com S. Paulo: "Tudo posso n'Aquele que me conforta!"

É preciso, dizia S. Margarida Maria a uma visitandina, que nos consumamos todas nessa fornalha ardente do Sagrado Coração do nosso adorável Mestre... e depois de termos lançado o nosso coração, todo cheio de corrupções, nas chamas divinas do puro amor, aí devemos tomar um outro, novo, que nos faça viver para o futuro de uma vida renovada... é preciso que esse divino Coração de Jesus tome de tal modo o lugar do nosso, que só ele viva e atue em nós e por nós, que sua vontade mantenha a nossa por tal forma aniquilada, que possa agir sem resistência alguma da nossa parte; enfim, que seus afetos, pensamentos e desejos tomem o lugar dos nossos, mas principalmente o seu amor, que se amará a  si mesmo em nós e por nós" (Obras, tomo II, p. 468).

Caríssimos, Jesus Cristo ama cada um de nós com um amor inefável e esse amor faz com que Ele se mantenha unido a todos por uma união que deseja tornar cada vez mais perfeita. Daí, devemos ver Jesus em nós mesmos e também no próximo (que d'Ele recebe ao menos graças atuais). É mister que vejamos Jesus em nós e vivamos intimamente unidos a Ele. É preciso que os nossos sentimentos sejam os de Jesus; devemos unir nossas intenções às Suas; as nossas orações ás Suas orações; nossos trabalhos e nossos sofrimentos aos seus trabelhos e aos Seus sofrimentos. Em uma palavra Jesus fará de nós um outro Jesus.

Um ramalhete espiritual que expressa perfeitamente esta doutrina, é esta sublime exclamação de S. Paulo: "VIVO, MAS NÃO SOU EU QUEM VIVE, É JESUS QUEM VIVE EM MIM!" Amém!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A SANTÍSSIMA TRINDADE NA ALMA ( Extraído dos escritos teológicos de Tanquerey)

   Era na última Ceia. Jesus Cristo acabava de anunciar aos apóstolos a vinda do Espírito Santo, do divino Paráclito, que ficaria para sempre com eles (S. João, XIV, 19 e 20 ), quando lhes fez esta consoladora promessa: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (S. João, XIV, 23 ).

   Assim, pois, toda a alma que ama a Jesus e guarda os seus mandamentos é amada pelo Pai, e o Pai vem a ela, com o Filho e o Espírito Santo, e vem não para uma simples visita, mas para se fixar e nela fazer a sua morada; portanto, não por um prazo limitado, mas para sempre, enquanto não tiver a infelicidade de o expulsar com um pecado grave.

   Mas como vem até nós a Santíssima Trindade?

   Deus, diz-nos Santo Tomás, está naturalmente nas criaturas de três modos diferentes: pelo seu poder, porque todas elas estão sujeitas ao seu império; pela sua presença, porque ele vê tudo, mesmo os mais secretos pensamentos da alma; pela sua essência, visto que opera em toda a parte e em toda a parte Ele é a plenitude do ser e a causa primária de tudo o que há de real nas criaturas, comunicando-lhes sem cessar não apenas o movimento e a vida, mas o próprio  ser: "porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos, XVII, 28). 

   Entretanto, a Sua presença em nós pela graça é de uma ordem muito superior e mais íntima. É a presença da própria Santíssima Trindade, tal como a fé no-la revelou; o Pai vem até nós e em nós continua a gerar o Verbo; com Ele recebemos o Filho, perfeitamente igual ao Pai, sua imagem viva e substancial, que não cessa de amar infinitamente o Pai como por Ele é amado; deste amor mútuo brota o Espírito Santo, pessoa igual ao Pai  ao Filho, laço mútuo entre os dois, e no entanto distinto de um e de outro. Quantas maravilhas se operam numa alma em estado de graça!

   Se quisermos exprimir em duas palavras a diferença essencial que existe entre a presença de Deus em nós pela natureza e  sua habitação pela graça, podemos dizer que pela sua presença natural Deus está e opera em nós, mas que pela sua presença sobrenatural Ele próprio se nos dá para que gozemos a sua amizade, a sua vida e as suas perfeições: " O amor de Deus está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom. V, 5). Assim, pois, é-nos dado o Espírito Santo e com ele a Santíssima Trindade, pois as três pessoas divinas são inseparáveis.; é nosso e, se disso tivéssemos uma consciência viva e profunda, compreenderíamos que a graça é já um início da vida eterna, desta inefável alegria que se experimenta com a posse de Deus.

   Que relações estabelece a graça entre nós e as três pessoas divinas?

   Para aprofundarmos um pouco mais os nossos conhecimentos desta presença íntima, nada mais apropriado e seguro do que a própria palavra de Deus. Por isso escolhemos alguns textos das Sagradas Escrituras, sobre a ação do Pai e do Filho e do Espírito Santo em nós pela graça.

   a) Pela graça o PAI adota-nos como filhos. Este insigne privilégio brota da nossa incorporação em Cristo; desde o momento em que somos membros de Jesus Cristo e como que um prolongamento, uma extensão da sua pessoa, o Pai envolve-nos com o mesmo olhar paternal que a seu Filho, adota-nos como filhos, ama-nos como Ele o ama, não com um amor igual, mas com um amor semelhante. É o que declara o discípulo amado, São João, que foi de todos o que mais aprofundou os segredos do Mestre: "Vede que amor nos testemunhou o Pai, determinando que sejamos chamados filhos de Deus, e que o sejamos com efeito!" ( 1ª Jo. III, 1). Como vimos na postagem sobre a graça santificante, a nossa adoção não é puramente nominal, mas verdadeira e real, embora distinta da filiação do Verbo Encarnado. Porque somos filhos, somos herdeiros de pleno direito do reino celeste, e co-herdeiros daquele que é nosso irmão primogênito (Rom, VIII, 17).  Em vista disto, Deus manifesta para conosco a dedicação e a ternura de um pai. Mais ainda: de uma mãe: "Poderá a mulher esquecer o seu filho? Não terá compaixão do fruto das suas entranhas? Porém, ainda que ela se esquecesse, eu nunca me esqueceria de ti" (Isaías, XLIX, 15). "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu  Filho unigênito, para que todo o que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna" (S.João, III, 16).

   Poderia Ele dar-nos uma maior prova de amor? Poderemos nós recusar algo Àquele que, para nos salvar e santificar, nos dá o Seu próprio Filho, o Seu Filho unigênito?

   b) O FILHO veio também habitar na nossa alma; chama-nos seus irmãos e trata-nos como amigos íntimos. Ele que é o Filho eterno do Pai, o Verbo gerado desde toda eternidade, em tudo igual ao Pai, trata-nos assim com toda bondade e ternura. Após a Ressurreição, aparece a Madalena, que o seguira até ao Calvário, e, falando-lhe dos discípulos, diz-lhe:"Vai aos meus irmãos e diz-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus" (S. João, XX, 17). São Paulo diz: "Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rom. VIII, 29). Ele terá, pois, para conosco a ternura, a dedicação que um irmão mais velho consagra aos mais novos; irá ao ponto de se sacrificar por nós, a fim de que, lavados e purificados no seu sangue (Apoc. I, 5), possamos participar de Sua vida e entrar com Ele um dia no reino do Pai.

   Quis ser também nosso amigo. Na última Ceia, declara aos apóstolos e, na pessoa deles, a todos os que acreditarem n'Ele: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (S. João, XV, 14 e 15).

   O Filho de Deus deu-nos a maior prova de amor: deu a sua vida por nós. Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos" (S. João, XV, 13). E deu-a numa altura em que, pelo pecado, éramos seus inimigos. Se assim foi, o que não fará por nós,agora que fomos reconciliados pela virtude do seu sangue? Ouçamos o que Ele nos diz: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir  a minha voz e abrir a porta, entrarei nele, cearei com ele e ele comigo" (Apc. III, 20). Podia, se quisesse, entrar como Senhor. Mas não, espera que lho abramos de boa vontade: não quer forçar a entrada, quer que nós mesmos lha vamos abrir, e só depois entrará como amigo. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia com uma candura extraordinária: "Jesus, eu queria amá-lo tanto, amá-lo como nunca foi amado". Em nossas orações, comunhões e visitas ao Santíssimo, procuremos tentar conversar afetuosamente com Jesus, nosso irmão muito amado, com Ele que vem mendigar junto de nós um pouco de amor: "Meu filho, dá-me teu coração" (Prov. XXIII, 26).

   c) O ESPÍRITO SANTO vem habitar em nosso coração a fim de o santificar e adornar com todas as virtudes, produzindo nele a caridade e dando-se a si próprio: "A caridade de Deus é espalhada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rom. V, 5).

   Ao dar-se  ao homem, o Espírito Santo transforma a nossa alma num templo sagrado: "Não sabeis, diz-nos São Paulo, que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós? ... O templo de Deus é santo, e vós sois santos" (1ª Cor. III, 16 e 17). Ele é, com efeito, o Deus de toda a santidade, e, quando vem à nossa alma, esta torna-se um recinto sagrado e onde se compraz em derramar as suas graça com santa profusão.

   Deste modo o Espírito Santo torna-se nosso colaborador no obra da santificação pessoal e ajuda-nos a cultivar a vida sobrenatural que depositou em nós. Por si, o homem nada pode na ordem da graça (S. João, XV,5); mas o Espírito Santo vem suprir a sua fraqueza. Temos necessidade de luz? Eis que Ele desce para nos fazer compreender e saborear os ensinamentos do Mestre: "O Consolador, o Espírito Santo , que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse" S. João, XV, 26). Precisamos de força para pôr em prática as divinas sugestões? O mesmo Espírito "opera em nós o querer e o agir" (Filip. II, 13), isto é, dá-nos a graça de querer e  de pôr em prática as nossas resoluções. Não sabemos orar? "O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que, segundo as nossas necessidades, devemos pedir; porém, o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis" (Rom, VIII, 26). Ora, as preces feitas sob a ação do Espírito Santo e apoiadas por Ele são forçosamente ouvidas.

   Se se trata de combater as nossas paixões, de vencer as tentações que nos importunam, é Ele ainda que nos dá forças para lhes resistirmos e tirar delas proveito: "Deus, que é fiel, não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dar-vos-á o poder de lhe resistir" (1ª Cor. X, 13). Quando, cansados de praticar o bem, caímos no desânimo e receamos pela nossa perseverança, Ele virá até nós par sustentar a nossa coragem abalada e dir-nos-á afetuosamente: "Aquele que começou em vós a obra da vossa santificação há de aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus" (Filip. I, 6).

   Não temos, pois, que temer, desde que ponhamos a nossa confiança nas três pessoas divinas, que vivem e operam em nós expressamente para nos consolar, fortificar e santificar. Nunca estamos sós: temos em nós Aquele que faz a felicidade dos escolhidos! Eis porque, se tivéssemos uma fé viva, poderíamos repetir com a irmã Santa Isabel da Trindade: "Encontrei o céu na terra, porque o céu é Deus, e Deus está na minha alma. No dia que compreendi isto, tudo se esclareceu em mim, e eu quereria dizer este segredo àqueles que amo". Quantas almas foram transformadas, a exemplo desta Carmelita, no dia em que compreenderam, sob a ação do Espírito Santo, que Deus habita nelas! Quantas conheceram então um novo rumo na sua vida, uma ascensão contínua para Deus e para a perfeição, sobretudo se se esforçaram por viver na intimidade com o hóspede divino. E é justamente isto que vamos ensinar na postagem seguinte: OS NOSSOS DEVERES PARA COM O HÓSPEDE DIVINO.
  
  

terça-feira, 6 de agosto de 2019

ARTIGOS 2º E 3º DO CREDO


    O segundo artigo do Credo é: "E em Jesus Cristo, um só Seu Filho, Nosso Senhor.
   Na parte superior e central do quadro está representada a Transfiguração de Jesus, na qual Deus Pai proclamou Jesus Cristo seu Filho.
  
Jesus Cristo tendo levado consigo sobre o Monte Tabor três de seus discípulos, Pedro, Tiago e João, de repente, transfigurou-se diante deles. Seu rosto tornou-se brilhante como o sol e suas vestes brancas como a neve. Vemos aí Moisés e Elias que conversam com Jesus à vista de seus discípulos. Do meio da nuvem luminosa que os cobre uma voz fez-se ouvir com estas palavras: "Este é meu Filho dileto em quem pus toda a minha complacência; ouvi-o". A esta voz, os apóstolos que haviam acompanhado a Nosso Senhor tiveram grande medo e caíram de bruços. No meio deles São Pedro diz: "Senhor, bom é nós  estarmos aqui; se quiserdes faremos aqui três tendas: uma para Vós, uma para Moisés e uma para Elias".

  Ainda na parte superior do quadro à esquerda, vemos uma espécie de medalha na qual está representado o Pai Eterno enviando Seu Filho à terra no momento em que o Divino Espírito Santo também vai operar o grande mistério da Encarnação, como vamos explicar a figura logo abaixo, na parte inferior e à esquerda do quadro. Aí estão representados os mistérios da Anunciação e da Encarnação do Filho de Deus
   Temos aqui o 3º artigo do Credo: "...o qual foi concebido do Espírito Santo, (sua 1ª parte),
Vemos representado aí o Arcanjo São Gabriel saudando a  Santíssima Virgem Maria em oração em sua casa de Nazaré, e anunciando-lhe que Deus a escolheu para ser a Mãe do Salvador. No mesmo instante, o Divino Espírito Santo opera nela, por um grande milagre, o mistério da Encarnação.
   À direita do quadro, temos representada a 2ª parte do 3º artigo do Credo: ..."nasceu de Maria Virgem",
   Na parte superior do quadro, vemos numa espécie de medalha, representada uma profecia de Isaías sobre  Nosso Senhor Jesus Cristo (Isaías, XI, 1). "Sairá uma vara do tronco de Jessé (=Isaí, pai de David), e uma flor brotará da sua raiz". Podemos dizer que esta profecia se refere também à Santíssima Virgem Maria porque ela é  descendente da família real de Davi; e sobretudo, porque dela é que nasceu Jesus. Vemos na figura um homem deitado(este homem é Jessé). Do seu peito como que nasce uma árvore(é a família de Davi); por isso vemos a figura de Davi nos galhos da árvore. A árvore não tem muitas folhas, para significar que a estirpe real de Davi estava então quase destruída e apagada. Mas do tronco(cujas raízes estão fixadas no pai de Davi) sai um rebento que, uma vez crescido, termina numa flor sobre a qual está a Santíssima Virgem Maria como rainha, trazendo no colo o Menino Jesus, que, por sua vez, ampara o globo terrestre porque Ele é o Rei dos reis, o Salvador do mundo. 

Na parte inferior do quadro,  vemos  representado o nascimento do Menino Jesus. Nasceu de Maria Virgem. O Menino Jesus nasce num estábulo em Belém. É cercado de todos os cuidados de Sua Mãe e de Seu pai de criação, São José. Perto da manjedoura onde repousa o Menino Jesus vemos um boi e um jumento que, segundo a tradição, se encontravam neste lugar.
   Os pastores dos rebanhos vêm adorá-lo e os anjos cantam o hino de alegria: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade".
  
  

ESPÍRITO DE INFÂNCIA - "Conselhos e Lembranças"




Celina e Teresinha
Celina, irmã de Santa Teresinha e que foi também Carmelita com o nome de Irmã Genoveva da Santa Face, recolheu num livro os "CONSELHOS E LEMBRANÇAS"  de Santa Teresa do Menino Jesus. Aqui resumimos o texto em que ela fala do "PEQUENO CAMINHO DA INFÂNCIA ESPIRITUAL" vivido e ensinado por Santa Teresinha do Menino Jesus.

   NB.: Antes de iniciarmos queria lembrar aos caríssimos leitores que o processo de beatificação de Santa Teresinha teve início no dia 8 de maio de 1908 sendo então Papa Pio X. Em 29 de abril de 1923 houve a Promulgação solene em S. Pedro de Roma, do Breve da Beatificação da Venerável Teresa do Menino Jesus. Era então papa, Pio XI.  Já em 16 de janeiro de 1910 a serva de Deus , Irmã Teresa do Menino Jesus, apareceu à Madre Carmela, prioresa do Carmelo de Gallipoli (Itália) e revelou-lhe que o seu "Caminhozinho era seguro. Celina morreu com 83 anos, e, portanto, teve a graça de dar pessoalmente testemunho no Processo de Beatificação e Canonização de sua irmã Sóror Teresa do Menino Jesus.

 

 "No Processo, quando o Promotor da Fé me perguntou porque desejava eu a beatificação de Sóror Teresa do Menino Jesus, respondi-lhe que "era unicamente para dar a conhecer o seu "caminhozinho". Era assim que ela chamava a sua espiritualidade, a sua maneira de ir a Deus. Ele retorquiu: "Se falar de "Caminho", a causa cairá infalivelmente, como aconteceu já em várias circunstâncias análogas".
 
Pintado por Celina em 1912
          "Tanto pior, respondi eu, o medo de perder a causa de Sóror Teresa do Menino Jesus não seria capaz de me impedir de pôr em relevo o único ponto que me interessa: fazer, em certo modo, que se canonize o "caminhozinho". E mantive-me e a causa não caiu à água. Foi por isso que experimentei mais alegria quando do discurso de Bento XV que exaltava a "Infância Espiritual" do que na beatificação e na canonização da nossa santa. Atingira o meu fim nesse dia, 14 de agosto de 1921.
          "Por outra parte, o Summarium  registou esta resposta que eu dei a respeito dos "Dons sobrenaturais": "Foram muito raros na vida da serva de Deus. Quanto a mim, preferiria antes que ela não fosse beatificada do que não dar dela o seu retrato como eu o creio exato em consciência". ... A sua vida devia ser simples para servir de modelo às "almas pequenas".
                   "É fato que em todos os encontros a nossa querida Mestra indicava-nos o seu "caminhozinho". "Para caminhar na "sendazinha", declarava ela, é preciso ser humilde, pobre de espírito e simples". Como ela teria gostado, se a tivesse conhecido, desta oração de Bossuet: "Grande Deus!... não permitais que certos espíritos, alguns dos quais se classificam entre os sábios, e outros entre os espirituais, possam jamais ser acusados no vosso terrível Tribunal, de terem contribuído de alguma maneira para vos fecharem a entrada de não sei quantos corações, porque vós queríeis entrar neles duma maneira cuja simplicidade os chocava e por uma porta que, por mais aberta que esteja pelos santos desde os primeiros séculos da Igreja, não era talvez assaz conhecida deles; fazei antes que, tornando-nos todos tão pequenos como crianças, como Jesus Cristo manda, possamos entrar uma vez por essa portinha, a fim de que em seguida possamos mostrá-la aos outros, mais segura e mais eficazmente".  Assim seja.

Teresa menina e sua mãe: pintura de Celina

             "Não é para admirar que na sua última hora este homem tenha pronunciado estas palavras comovedoras: "Se pudesse recomeçar a minha vida, quereria não ser outra coisa senão uma criancinha a dar sem cessar a mão ao Menino Jesus".
"Teresa soube maravilhosamente na luz revelada aos pequeninos descobrir essa porta de salvação e indicá-la aos outros. A Sabedoria divina e a sabedoria humana não assinalaram, nesse espírito de infância, a verdadeira grandeza de alma?" ... Para a nossa Santa, esta "sendazinha" consistia praticamente na humildade, como já o disse. Mas traduzia-se ainda por um espírito de infância muito acentuado. E assim ela gostava muito de me recordar estas palavras que tirava do Evangelho: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos Céus... Os seus anjos vêem continuamente a Face de meu Pai Celeste... Quem for como uma criança será o maior no reino do Céu... Jesus abraçava as crianças depois de as ter abençoado". Evangelho. Ela tinha-as copiado no verso duma estampa na qual estavam as fotografias dos nossos irmãozinhos e irmãzinha que voaram para o céu de tenra idade. Deu-ma de presente, guardando outra igual no seu breviário. As fotografias, agora, estão em parte um pouco apagadas pelo tempo. A estes textos evangélicos ela tinha acrescentado outros, tirados da Sagrada Escritura, que a encantavam e sempre em relação com o espírito de infância: "O Senhor conduzirá o seu rebanho às pastagens. Ele juntará os Cordeirinhos e levá-los-á ao colo" (Isaías, XL, 2). "Se alguém é muito pequeno, venha a mim" (Prov.).

Teresa e seu pai: pintura de Celina
"Mostrei-lhe uma memória mortuária com a fotografia duma criança, falecida em tenra idade; ela pôs o dedo sobre o rosto do bebê, dizendo com ternura e ufania: "Estão todos sob meu domínio!", como se já previsse o seu título de "Rainha dos Pequeninos". Sóror Teresa do Menino Jesus era alta, media um metro e sessenta e dois , ao passo que a Madre Inês de Jesus era muito mais pequena. Disse-lhe eu um dia: "Se a tivessem deixado escolher, que preferiria: ser grande ou pequena? Ela respondeu sem hesitar: "Teria escolhido ser pequena, para ser pequena em tudo".
"A Igreja viu sempre em Teresa do Menino Jesus a Santa da Infância Espiritual. Numerosos são os testemunhos dos Papas a este respeito. Limitar-me-ei a citar o do Pontífice reinante Pio XI, através do seu Legado a latere para a Inauguração da Basílica de Lisieux, a 11 de julho de 1937: "Santa Teresa do Menino Jesus tem uma missão, tem uma doutrina. Mas a sua doutrina, como toda a sua pessoa,  é humilde e simples; reduz-se a estas duas palavras: Infância Espiritual, ou a estas duas equivalentes: "Pequeno Caminho".