sábado, 25 de março de 2017

CARTA PASTORAL SOBRE A PRESERVAÇÃO DA FÉ E DOS BONS COSTUMES


Escrita por D. Antônio de Castro Mayer por ocasião do 250º  do encontro da milagrosa imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida e do 50º aniversário das aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

 N.B.:  Hoje, cinqüenta anos depois, vamos, com a graça de Deus publicar em nosso blog ZELO ZELATUS SUM, esta Carta Pastoral, colocando apenas tricentenário em lugar de 250º anos, e centenário em lugar de 50º anos. Cada dia postaremos um trecho desta apologia da devoção a Nossa Senhora, que o então Bispo de Campos, RJ, Brasil, fez como homenagem a Mãe de Deus e nossa. O nosso estimado Bispo, de santa memória, escreveu esta Carta Pastoral na festa da Purificação de Nossa Senhora; vamos iniciar sua publicação na festa da Anunciação.

I
"A HISTÓRIA da humanidade é escrita pela bondade de Deus e a ingratidão dos homens. E nossa miséria é tanta, que nos levaria ao desespero se maior não fosse a inefável misericórdia divina, que em nós deposita a esperança. Porquanto ao coração contrito e humilhado, Deus nunca recusa seu perdão, sua graça, seu amor. Mais. A Revelação nos mostra o Salvador como que a perseguir os pecadores, a esmolar-lhes um ato de arrependimento para inundá-los com sua Redenção. E o que aconteceu nos abençoados dias da vida pública do Salvador continua no decurso dos séculos. As irrupções celestes na vida dos homens são outras tantas manifestações da misericórdia com que Deus Se empenha na conversão e salvação eterna dos pecadores. Neste ano, temos a felicidade de comemorar duas dessas celestes irrupções. Estamos [no 250º ano] no tricentenário do encontro da milagrosa Imagem de Nossa Senhora da Conceição aparecida, no rio Paraíba, junto ao porto de Itaguaçu, no Estado de São Paulo, e no [50º ano] centenário das aparições de Nossa Senhora do Rosário na Cova da Iria, em Fátima de Portugal. E estes dois aniversários são novos convites da graça que a nós nos importa muito aproveitar.

Há [duzentos e cinquenta anos] trezentos anos, em outubro de 1717, uns humildes e bondosos pescadores, empenhados numa pesca noturna no Rio Paraíba, perto do porto de Itaguaçu, nada obtinham, quando, já meio desanimados, colhem na rede uma imagem de barro de Nossa Senhora da Conceição, com traços perfeitos, belos e artísticos. Animados com a descoberta, lançam novamente as redes e colhem uma multidão de peixes que a custo levaram à margem do rio. O fato miraculoso encheu-os de gratidão para com a Mãe Celeste. Construíram no local uma ermida, que se constituiu desde logo alvo de peregrinações piedosas, avolumadas cada vez mais à vista das graças especiais obtidas pela intercessão da Virgem Aparecida. Levantou-se mais tarde a bela Basílica  que encima o morro vizinho. Em 1904 o Cabido da Basílica Vaticana decretou a coração da Imagem, realizada pelo então Bispo de São Paulo, D. José de Camargo Barro, circundado por inúmeros Prelados do País; em 1930 Pio XI constituiu a Virgem Santíssima da Conceição Aparecida Padroeira do Brasil, e hoje a nação inteira esforça-se por dar à sua Patrona celeste um santuário maior que possa acolher todos os peregrinos que vão venerá-la, agradecer-lhe uma graça recebida, ou pedir um auxílio novo para uma necessidade grave.

A preparar condignamente o povo brasileiro para a comemoração [deste] do 250º aniversário, a Imagem milagrosa da Aparecida percorreu os Estados do País, como que a convidar seus filhos a uma visita ao seu santuário. Assim, tivemos a graça inefável de hospedá-la nos dias 9 a 13 de dezembro passado. Cumpre-nos agora retribuir tão honrosa visita. Para mais nos animar a essa peregrinação ao santuário da Padroeira do Brasil, o Santo Padre concedeu um jubileu a ser lucrado em Aparecida durante este ano de 1967. Como a experiência demonstrou ser praticamente impossível uma peregrinação de toda a Diocese, recomendamos vivamente que nossos Párocos e Vigários organizem peregrinações das respectivas freguesias, de maneira que no decurso deste ano a Diocese de Campos tenha sempre aos pés da Padroeira celeste quem suplique pela muitas necessidades desta região.

Não nos esqueçamos, no entanto, de que a melhor maneira de honrar a Virgem Mãe Aparecida é a emenda de vida, mediante a prática das virtudes cristãs, o espírito de penitência e mortificação.


Fato que de si se impõe, uma vez que ele encerra toda a pregação de Jesus Cristo a seus Apóstolos; mas que se torna ainda mais evidente quando consideramos a mensagem de Fátima, cujo [cinquentenário] centenário estamos a comemorar". 

quinta-feira, 23 de março de 2017

BOM PROPÓSITO DE NÃO MAIS PECAR

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

O Santo Concílio de Trento declara que o verdadeiro arrependimento é uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, COM O BOM PROPÓSITO DE NÃO MAIS PECAR. Donde concluímos que o arrependimento e o bom propósito vêm necessariamente juntos. Em outras palavras: não pode haver verdadeiro arrependimento se não houver ao mesmo tempo o propósito firme, universal e eficaz de não mais pecar. E o propósito só será sincero e verdadeiro, se  apresentar estas três condições: ser firme, ser universal e ser eficaz. Vamos explicar estas três características do bom propósito. Neste artigo veremos que o bom propósito deve ser FIRME.

1. PROPÓSITO FIRME: É firme quando o penitente está resolvido a sofrer tudo antes do que a ofender a Deus. Deve poder dizer com São Paulo: "Quem nos separará, pois, do amor de Jesus Cristo? Será a fome, a sede, a pobreza, a perseguição, a espada, a morte? Não, nem a morte, nem a vida, nem nenhuma criatura qualquer que seja, poderá separar-nos do amor de Deus. (Rom. VIII, 35, 38).

Dirá alguém: Quereria não mais ofender a Deus; mas as ocasiões e a minha fraqueza far-me-ão recair. Quem fala assim é porque não tem um verdadeiro propósito. Por isso diz: "quereria". Podemos afirmar que tal pessoa que assim fala só tem uma simples VELEIDADE, isto é, simples capricho passageiro. O verdadeiro propósito, como foi dito acima, é uma resolução de sofrer toda a espécie de mal, antes do que recair no pecado. Sem dúvida, as ocasiões estão aí, e somos fracos, principalmente se contraímos algum hábito vicioso, enquanto o demônio é forte; mas Deus é mais forte do que o demônio: com o socorro de Deus podemos vencer todas as tentações do inferno. Assim dizia S. Paulo: "Tudo posso n'Aquele que me fortalece" (Filip. IV, 13). É verdade que, por causa da nossa fraqueza, devemos sempre temer, e sempre desconfiar das nossas próprias forças. Mas devemos esperar em Deus, confiando em que a sua graça nos fará vencer todos os ataques dos nossos inimigos. Davi dizia: "Invocarei o Senhor, e serei livre dos meus inimigos" (Salmo 17, 4).


Quem se recomenda a Deus nas tentações nunca sucumbirá. Muitos ainda dizem: Mas tenho-me recomendado a Deus, e a tentação continua. - Caríssimos que assim falais: - Então! continuem a reclamar o socorro do Senhor, enquanto durar a tentação, não sucumbireis. "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças" (1 Cor. X, 13). Deus prometeu conceder o seu socorro àqueles que o pedem, e prometeu a todos, justos e pecadores: "Quem pede recebe" (Mat. VII, 8). Não há, portanto, desculpa para o pecador, pois, se ele se recomendasse a Deus, o Senhor estenderia sua mão para o sustentar. Assim, aquele que cai no pecado, nele cai por sua culpa, ou porque não quer pedir a Deus o socorro de que necessita, ou porque não quer aproveitar o socorro que Deus lhe dá. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

MEIOS PARA SE OBTER A ATRIÇÃO E A CONTRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

1.  ORAÇÃO: O primeiro meio e o principal é recorrer a Deus pela oração. Com as forças da nossa livre vontade, infelizmente podemos pecar, mas com essas forças só não nos podemos levantar. Ainda mais: fazer de um pecador um justo é a obra prima da onipotência de Deus; é uma obra muito maior do que criar um novo sol ou um mundo novo, maior do que dar a vida a todos os cadáveres que povoam um cemitério. Caríssimos, devemos refletir na negligência imperdoável desses cristãos que não cuidam em se recomendar a Deus para ter essa verdadeira dor. Vemos como muitos recomendam-se a Deus para obter uma grande colheita de café, ganhar processo, curar-se de uma moléstia; conseguir um emprego etc.. Nestes meus mais de 42 anos de sacerdócio, posso contar nos dedos das mãos as pessoas que me pediram missas para alcançar a graça da contrição. Daí, quantas confissões sem o devido arrependimento!

2. FAZER FREQUENTES ATOS DE CONTRIÇÃO: Como se aprende uma arte qualquer? Pelo uso e o exercício. Certamente, quem quer aprender uma língua estrangeira, não bastaria pegar no livro, três ou quatro vezes por ano. E o perigo é, além de fazer poucas vezes o ato de contrição, ainda pior, é que, às vezes, fazem-no de um modo maquinal, sem pensar no que dizem. Devemos tomar o santo hábito de fazer de manhã e à noite o ato de contrição e, mais importante ainda, procurar fazê-lo o melhor possível. Devemos fazê-lo, é claro, antes de nos confessarmos e antes de recebermos a absolvição. Na verdade, o Ato de Contrição maior, aquele tradicional, inclui o pedido da contrição e depois também da atrição: "Senhor meu Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, porque Vos amo e estimo, pêsa-me de todo coração de Vos ter ofendido [até aqui o Ato de Contrição], pêsa-me também por ter perdido o céu e merecido o inferno [ato de atrição]... etc.

3. FAZER EM ESPÍRITO TRÊS VIAGENS: Ao inferno, ao céu e ao Calvário. As duas primeiras para se obter a atrição; e a terceira para se conseguir a contrição. MEDITAR NO INFERNO: Entrar ali em pensamento naquele lugar de tormentos, e ver o lugar que merecemos pelos pecados mortais (mesmo que seja um só), no meio do fogo eterno, na companhia dos demônios e dos réprobos. Então agradecer a Deus não nos ter precipitado ali, e suplicar que tenha misericórdia de nós. Esta meditação serve par excitar em nossa alma um vivo temor de Deus, que pune o pecador de uma maneira tão terrível.  MEDITAR NO CÉU: Ali contemplar esta morada da Glória e da Felicidade. Lamentar à sua entrada, que o pecado fechou as suas portas, e suplicar ao Senhor que as abra. Esta meditação serve para formar em nosso coração uma doce confiança na misericórdia do Senhor, que não quer a morte do pecador, mas a sua conversão e a sua vida. MEDITAR NO CALVÁRIO, ou seja, NA PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO: Aí, fixando o Salvador crucificado, devemos dizer: Eis ali a minha obra: eu sou a causa das dores de Jesus Cristo; cooperei, por meus pecados, com os outros pecadores, para cobrir de chagas este corpo sagrado, para crucificá-Lo, para lhe dar a morte. Ó Jesus, que mal me tínheis feito? Como pude tratar-Vos assim a Vós, que me amastes até ao excesso, a Vós, a quem eu deveria amar com um amor infinito, se pudesse amar infinitamente. É porque sois infinitamente amável que eu Vos amo e que me arrependo de Vos ter ofendido.

Caríssimos, oh! se nós seguíssemos este método, quanto fruto tiraríamos das nossas confissões!

4. FAZER A VIA SACRA:  Havendo tempo, é sumamente recomendável porque completa a meditação anterior sobre a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. É mais uma oração e ação muito eficazes para se obter de Deus o arrependimento perfeito, ou contrição.


5. PEDIR ESTA GRAÇA A MARIA SANTÍSSIMA: Mãe das Dores e reconciliadora dos pecadores com Deus, ou seja, Advogada dos pecadores, ela ouve nossa oração e pede a Jesus que mude a água lodosa dos nossos pecados no vinho delicioso da graça divina. Amém!

domingo, 19 de março de 2017

MAIS EXPLICAÇÕES SOBRE A CONTRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

A dor perfeita ou contrição é, na verdade, um tesouro inestimável, a tal ponto que a ela podemos aplicar as palavras da Escritura Sagrada: "Todos os bens me vieram com ela" (Sabedoria, VII, 11). Daí dizer S. Leonardo de Porto Maurício: "Quem poderia jamais exprimir as riquezas imensas que a dor derrama no coração, principalmente a dor perfeita ou a contrição! Ah! meus bem amados, desta pérola preciosa, eu queria ver-vos de posse dela mesmo que fosse pelo preço do vosso sangue, pois com ela possuís todos os bens".

Caríssimos, e ainda que sejais livres de vos contentardes com a atrição, é bom, entretanto, excitar sempre em vós a contrição, porque esta faz logo a alma amiga de Deus, reveste-a com a veste nupcial da graça, e apaga todos os pecados, mesmo antes da absolvição, o que não pode fazer a atrição, que, sem a intervenção da absolvição dada pelo sacerdote, fica estéril e não produz efeito algum. A dor perfeita, pela qual detestamos os nossos pecados pelo amor de Deus amado sobre todas as coisas, é como um segundo batismo, que imediatamente purifica a alma de todas as suas iniquidades.

Façamos algumas comparações para que possam, caríssimos, ver como um ato de contrição é tão precioso! Tomai na mão uma balança, colocai de um lado um ato de contrição, e do outro todos os bens do paraíso; comparai: um ato de contrição pesa tanto quanto todos estes bens, pois que só por esse ato fazeis jus a todos estes bens. Vede, por outro lado, os suplícios eternos do inferno: uma só lágrima, um só suspiro de um coração contrito basta para os suprimir totalmente. Dai-me, outrossim, um homem carregado de todos os pecados; se excita em sua alma um ato de verdadeira contrição, todos esses pecados se dissipam logo, como a neve diante do fogo. Como a contrição perfeita é abençoada!!!... Ademais, ajuntai a isto que a contrição espalha nos corações o mais rico tesouro que podemos possuir sobre a terra, quer dizer: a paz interior e a tranquilidade da alma.

Caríssimos, pode acontecer que o demônio coloque em vossas cabeças e nos vossos corações, escrúpulos. Mais ou menos assim: dissestes todos os pecados? Destes, de fato, todas as explicações? Será que o confessor compreendeu-vos bem? Pois bem! se apesar de todos estes pensamentos extravagantes, quereis viver tranquilos e trazer vosso coração em paz, fazei o possível para ter uma contrição verdadeira, detestando o pecado pelo amor de Deus, soberano bem; esta dor perfeita curará por si só todas as vossas feridas e suprimirá todos os defeitos que teriam podido resvalar, contra vossa vontade, nas confissões passadas. Ó amável contrição, que nos faz gozar um paraíso antecipado!... Por isso, o melhor conselho que um sacerdote possa dar a alguém, máxime, aos escrupulosos é esse: "caríssimos, em lugar de ficar atormentando vossas cabeças com exames de consciência demasiadamente demorados, meditai na Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Pai nos amou de tal modo que nos enviou do céu seu próprio Filho, e Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, amou-me de tal modo, que não podia fazer mais do que fez para que eu com um único ato de amor a Ele, recebesse pelo seu Sangue derramado na Cruz, o perdão de todos os meus pecados, bastando ter, mesmo só implícito, o desejo de receber o sacramento da Penitência.


Suponhamos que vos achais em estado de pecado mortal. Que seria de vós se não tivésseis tempo de vos confessar? Que seria se morrêsseis no meio dos campos, se fôsseis surpreendido por um acidente imprevisto, e que não tivésseis um confessor ao vosso alcance? Eis aqui um grande motivo de consolação: fazendo um ato de contrição, sereis justificados tão bem como se estivésseis confessado, ainda que fique sempre a obrigação de confessar os pecados dos quais se tem arrependimento, e se não deva diferir por muito tempo a confissão. Ó amável contrição, que nos abre as portas do céu, nos fecha as do abismo, põe em fuga os demônios, nos dá o glorioso caráter de filhos e amigos de Deus, e nos faz gozar desde este mundo as delícias do céu! Amém!

sábado, 18 de março de 2017

MAIS EXPLICAÇÕES SOBRE A ATRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

1. Não basta, para a atrição, o temor dos castigos temporais que Deus inflige aos pecadores nesta vida; pois os teólogos dizem que, assim como o castigo do pecado mortal é eterno, do mesmo modo o motivo do arrependimento deve ser o temor das penas eternas.

2. No ato de atrição, não basta que nos arrependamos somente de ter merecido o inferno; devemo-nos arrepender também DE TER OFENDIDO A DEUS, merecendo por isso o inferno.

3. O Sacrossanto Concílio de Trento diz que o ato de atrição deve ser acompanhado, não só da esperança do perdão, mas ainda da vontade de não mais pecar. De modo que, se alguém se arrependesse das suas faltas por causa do inferno que mereceu, ficando, porém, disposto a não deixar de pecar, caso o inferno não existisse, uma tal dor de nada lhe serviria; torná-lo-ia mais culpado ainda por causa da sua má vontade.

4. É preciso observar, além disso, que, ainda que a atrição, como foi dito, baste para se obter a graça neste sacramento, o penitente, confessando-se, deve juntar ainda assim ao ato de atrição o de contrição, tanto para sua maior segurança, com para seu maior bem.

Caríssimos, no próximo post, se Deus quiser, falaremos mais sobre a contrição e aí, comparando com a atrição teremos uma noção clara de ambas. Mas, ou nos catecismos para os jovens, ou para as crianças, e até mesmo nos retiros que já preguei, quase sempre ao falar da contrição e da atrição, contava um exemplo como parábola. Embora ele seja mais próprio para as crianças, peço permissão para contá-lo aqui para todos os caríssimos leitores. Em se tratando de algo um tanto subtil, nunca é demais empregarmos todos os recursos para se chegar a uma total clareza.


EXEMPLO QUE MOSTRA A DIFERENÇA ENTRE CONTRIÇÃO E ATRIÇÃO: O Padre Giuseppe Mortarino, I. C., no seu livro "A PALAVRA DE DEUS EM EXEMPLOS", conta às crianças a seguinte parábola: Dois jovens, irmãos, que tinham a mãe enferma, foram mandados pelo pai à farmácia a fim de buscarem um remédio. Mas na rua viram uma porção de jovens que iam atrás de um homem que levava um urso. Aí os dois irmãos seguiram também o homem, para verem o urso dançar, não pensando mais no remédio. Quando se lembraram, fizeram o mandado. E, de volta para casa, dizia magoado um deles: "Ai de mim! que fizemos! Agora estou com medo das pancadas que papai me dará". - O outro no entanto exclamava com grande desgosto: Como fomos maus! Desgostamos papai, que é tão bom!"  Ao primeiro se parece o pecador que se arrepende por temor dos castigos divinos (dor imperfeita ou atrição). Ao outro se assemelha quem se arrepende por ter ofendido um Deus tão bom (dor perfeita, ou contrição). É claro que toda comparação claudica. Mas meditando nos detalhes que expusemos sobre a atrição, todos terão facilidade em entender a atrição em seu pleno sentido. E agora, na próxima postagem sobre este assunto, vamos dar maiores detalhes sobre a contrição, se Deus quiser. Amém!

sexta-feira, 17 de março de 2017

DOR PERFEITA E DOR IMPERFEITA DOS PECADOS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Caríssimos, vimos na postagem anterior sobre este assunto, quais as condições que deve ter a nossa dor, para nos dispor ao perdão das nossas faltas na confissão. Vamos ver neste artigo que esta dor pode ser perfeita ou imperfeita. A dor perfeita chama-se contrição, e a imperfeita, atrição. A CONTRIÇÃO  é a dor que se tem do pecado, porque ofende a bondade de Deus. Os teólogos dizem que a contrição é um ato formal de perfeito amor para com Deus; porque, para aquele que tem a contrição, o que excita a arrepender-se de ter ofendido a Deus é o seu amor para com a bondade de Deus; é, pois, muito útil fazer, antes do ato de contrição, um ato de amor a Deus, desta maneira: "Meu Deus, porque sois a Bondade infinita, eu vos amo acima de todas as coisas; e, porque vos amo, pesa-me, acima de tudo, de vos ter ofendido". Resumindo: o motivo predominante da dor não é o temor do inferno nem a fealdade do pecado, mas o amor de Deus.

A ATRIÇÃO  é também uma dor de ter ofendido a Deus, mas proveniente de um motivo menos perfeito, como a fealdade do pecado, ou o dano que ele causou, seja o inferno merecido, seja o paraíso perdido.

Assim, a contrição é um arrependimento do pecado por causa da injúria feita a Deus, e a atrição é um arrependimento do pecado por causa do mal que dele resulta para nós.

Pela contrição, recebe-se no mesmo momento a graça santificante, antes de receber a absolvição do confessor, contanto que se tenha intenção, ao menos implícita, de receber o sacramento. Mas pela atrição não se obtém a graça santificante senão recebendo a absolvição. É o que ensina o Santo Concílio de Trento.

Pergunta-se se, para receber a absolvição, é necessário que a atrição esteja unida ao AMOR INICIAL,  quer dizer: a um começo de amor. É claro que sobre isto não paira nenhuma dúvida, porque o próprio Concilio Tridentino ensina que uma das disposições que devem ter os pecadores para serem justificados é que comecem a amar a Deus. A dúvida está em saber como deve ser este começo de amor. Aí, há muitas opiniões entre os teólogos, mas sabemos qual é a aprovada pela Igreja, como veremos abaixo.

Alguns querem que seja um ato de amor predominante. São desta opinião os que têm laivos de Jansenismo. E, portanto, não é aprovada pela Igreja. Vejamos; dizem que o pecador ame a Deus acima de todas as coisas. Mas não raciocinam bem; pois, quem ama a Deus acima de todas as coisas, ama com um amor perfeito, o qual perdoa e apaga o pecado. O Papa Gregório XIII condenou uma proposição de Baio, afirmando que o amor de Deus pode existir com o pecado. Baio falava do amor, que é, segundo S. Paulo, a plenitude da lei (Rom. XIII, 10). Ora, qual é este amor que cumpre a lei? É o amor predominante, pelo qual se ama a Deus sobre todas as coisas. Santo Tomás de Aquino ensina que, amando a Deus sobre todas as coisas, cumprimos este preceito de Jesus Cristo: "Amareis o Senhor vosso Deus de todo o vosso coração" (Mat. XXII, 37): "Quando nos é ordenado, diz S. Tomás, amar a Deus de todo o nosso coração, isto significa que devemos amá-Lo sobre todas as coisas". Daí conclui que o amor de Deus não pode existir com o pecado mortal.

Temos, além disso, vários textos da Sagrada Escritura, para nos assegurar que quem ama a Deus é amado por Deus: "Eu amo aqueles que me amam" (Prov. VIII, 17); "Aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei também" (Jo. XIV, 21). "Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo. IV, 16); "O amor resguarda a multidão dos pecados" (1 Pedro, IV, 3).

Segue-se daí que toda a contrição, que é um ato de amor, mesmo em um fraco grau, contanto que seja realmente contrição, perdoa todos os pecados graves. Suposto isto, resulta que pelo começo de amor, que deve estar unido à atrição, não se pode entender o amor predominante; pois, por mais fraco que fosse este amor, seria sempre o amor perfeito, e conseguintemente, em lugar de atrição, ter-se-ia contrição; de modo que, se uma tal disposição fosse necessária, todos os penitentes já estariam absolvidos antes de se confessar; e então o sacramento da Penitência não seria mais um sacramento de mortos, mas um sacramento de vivos; a absolvição não seria mais uma verdadeira absolvição, antes uma simples declaração da absolvição já recebida, como pretendia Lutero; o que se não pode dizer, segundo o Concílio de Trento.


CONCLUSÃO: Não é pois, necessário que o começo de amor, que deve acompanhar a atrição, seja um ato de amor predominante; basta que seja um simples começo de amor, tal como é o temor dos castigos eternos, entre os quais, aliás, o maior é a perda de Deus. "O temor de Deus, diz-nos o Espírito Santo, é o começo do seu amor" (Eclesiástico XXV, 16). A vontade de não mais ofender a Deus é também um começo de amor; da mesma maneira, a esperança do perdão e dos bens eternos, que Deus promete aos penitentes. Quando se espera pelo bem de alguém, diz Santo Tomás, começa-se a amar esse alguém. É por isso que, quando nos vamos confessar, é bom juntar ao ato de dor um ato de esperança de obter o perdão das nossas faltas pelos méritos de Jesus Cristo, segundo o que ensina, ainda o Concílio de Trento, pois, sabe-se que é por esta esperança que os penitentes se devem preparar para receber de Deus a remissão dos seus pecados.   

quarta-feira, 15 de março de 2017

O SACERDÓCIO COMUM DOS FIÉIS


   O Apóstolo São Pedro, ao exortar os primeiros cristãos a unirem-se a Cristo para progredir na santidade, lembra-lhes os seus títulos de nobreza. Falando sobre Cristo ele diz: "Chegai-vos para Ele, como para a pedra viva  que  os homens tinham rejeitado, mas que Deus escolheu e honrou; também sobre ela vós mesmos, como pedras vivas, sede edificados em casa espiritual, em SACERDÓCIO SANTO, para oferecer SACRIFÍCIOS ESPIRITUAIS, que sejam aceitos a Deus por Jesus Cristo... Vós sois a GERAÇÃO ESCOLHIDA, O SACERDÓCIO REAL, A GENTE SANTA, UM POVO QUE DEUS CONQUISTOU, para que publiqueis as grandezas d'Aquele que das trevas vos chamou à sua maravilhosa luz" (1 São Pedro, II, 4 e 5-9).

   São Pedro fala aí de um sacerdócio, mas não no sentido próprio, em toda a extensão da palavra. Fala no sentido lato. Sacerdote no sentido próprio é aquele que é conferido pelo sacramento da Ordem. Este sacerdócio secundário vem do  batismo  que nos enxerta em Cristo. E com Cristo formamos então um só organismo sobrenatural.

  Resumindo: O Sacerdócio existe de maneira real mas diversa: 1º em Cristo; 2º no padre; 3º no leigo. Em Cristo o Sacerdócio se realiza em sua plenitude; no padre, se realiza de maneira própria pelo sacramento da Ordem mas como uma participação do sacerdócio de Cristo; e no leigo o sacerdócio vem pelo batismo, mas de uma maneira muito mais apagada e limitada. É deste último que estamos tratando. Devemos explicar bem este ponto porque os protestantes que pregam que Jesus é o ÚNICO sacerdote, curiosamente, baseados neste texto de São Pedro, dizem que todos os fiéis são sacerdotes (!) E os progressistas também abusam desta passagem para dizer que os fiéis concelebram com o padre, o que também não é verdade como veremos depois.

   Mas, antes de continuarmos, vejamos bem o sentido verdadeiro do texto de São Pedro, na sua 1ª Epístola, II, 9. Uma coisa logo atrapalha aquele que só tem em mãos o texto em português, é que S. Pedro diz: " Vós sois ... UM SACERDÓCIO REAL. Mas, acontece que a palavra REAL tem dois sentidos em português: REAL no sentido = que existe de fato, que é verdadeiro. E REAL no sentido = relativo ao rei, digno de rei, régio. E São Pedro emprega a palavra neste segundo sentido. Ele escreveu esta sua 1ª epístola em grego, e a palavra que ele empregou é: BASÍLEION  que só tem este segundo sentido ( = régio). Por isso São Jerônimo traduziu para o latim empregando a palavra REGALE. Se fosse no 1º sentido teria empregado a palavra REALE.  Mas que vem a ser um SACERDÓCIO RÉGIO? Equivale a UM CORPO RÉGIO DE SACERDOTES; equivale a REINO SACERDOTAL.  São Pedro, neste versículo 9º de sua 1ª epístola, faz apenas reproduzir, aplicando aos cristãos, aquilo que já havia sido dito aos judeus no livro do Êxodo XIX, 5 e 6: "Se, portanto, ouvirdes a minha voz e observardes o pacto que eu fiz convosco, sereis para mim a PORÇÃO ESCOLHIDA dentre todos os povos, porque minha é toda terra; e vós sereis o meu REINO SACERDOTAL e uma NAÇÃO SANTA". 


   Deus chamou aos judeus uma REINO SACERDOTAL. Que se segue daí? Que entre os judeus todos eram sacerdotes? Não. Porque este sacerdócio efetivo da lei judaica era privativo dos descendentes de Arão. Confira: Ex. XXVIII, 1; Números, XVI, 39 e 40 e muitos outros textos. 


   Uma NAÇÃO SACERDOTAL, portanto, não quer dizer uma nação em que todos são sacerdotes, no sentido rigoroso da palavra, mas uma nação que é toda consagrada a Deus, assim como os sacerdotes são a Ele consagrados e é neste sentido que São Pedro chama um REAL SACERDÓCIO  o povo cristão. 

   Depois, basta a gente ver como Jesus separou do meio do povo os seus Apóstolos, educou-os carinhosamente, revelando só a eles os mistérios do reino de Deus (Mat.XIII, 11) dando-lhes só a eles na intimidade da última Ceia o poder de realizar o mistério eucarístico (S. Luc. XII, 19), dando a eles numa casa de portas fechadas, o poder de perdoar pecados (S. João, XX, 23), enviando-os só a eles a ENSINAR e a batizar ( S. Mat. XXVIII, 19) , fazendo deles uns ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus (1 Cor. IV, 1). Depois o próprio São Pedro nesta mesma epístola fala de rebanhos e pastores. Portanto não tem o mínimo cabimento para interpretar esta passagem de São Pedro no sentido de dizer que todos os fiéis são sacerdotes. 

   Concluo, então, repetindo o que já disse no início: O sacerdócio existe de maneira REAL porém essencialmente DIVERSA: ou seja, JESUS CRISTO É O SACERDOTE SUPREMO EM TODA SUA PLENITUDE;  O SACERDÓCIO REALIZA-SE DE MANEIRA PRÓPRIA, EMBORA PARTICIPADA NO SACERDÓCIO HIERÁRQUICO, OU SEJA NOS PADRES. O SACERDÓCIO EXISTE TAMBÉM NOS LEIGOS MAS DE UMA MANEIRA LIMITADA, POR VIRTUDE DO SACRAMENTO DO BATISMO. 

   Portanto, só o Sacramento da Ordem confere o poder e a capacidade para operar a transubstanciação no Sacrifício da Santa Missa. O simples fiel, ou leigo, é pois incapaz de o fazer. Vamos mostrar melhor em que consiste, então ESTE SACERDÓCIO COMUM DOS FIÉIS.


 Como vimos, São Pedro (1ª Pedro, II, 9) chama o povo cristão de "regale sacerdotium", isto é, "sacerdócio régio". O próprio Apóstolo mostra que se trata do sacerdócio que dá aos fiéis o poder e dever de apresentar a Deus vítimas espirituais, e em primeiro lugar a si mesmos,,transformados em vítimas pela imitação de Jesus Cristo, renúncia do amor próprio, mortificação, prática das virtudes.

   Santo Tomás de Aquino declara que o caráter batismal confere ao que se batiza uma assimilação ao sacerdócio de Jesus Cristo.. Eis o que ensina o doutor Angélico: "O leigo justo está unido a Cristo pela união espiritual da fé e da caridade, mas não pelo poder sacramental. Por isso tem o sacerdócio espiritual para oferecer hóstias espirituais, das quais diz a Escritura: "Sacrifício para Deus é o espírito atribulado" (Salmo 50, 19); e "Oferecei os vossos corpos como uma hóstia viva" (Rom. XII, 1); e ainda 1 Petr. II, 6: "Em sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais" (Cf. S. Theol. 3ª p., q. 82. a. 1 ad 1). E Santo Tomás explica o porquê: "Todos os sacramentos tornam o homem participante do sacerdócio de Cristo, porque recebe assim um certo efeito dele. Mas nem por todos os sacramentos somos destinados a fazer alguma coisa ou a receber o que pertença ao culto do sacerdócio de Cristo. O que, porém, se exige para isso é que o sacramento imprima caráter" (Cf. S. Theol., 3ª p., q. 63, a. VI ad 1). Este sacerdócio comum a todos os membros da Igreja, dá-lhes a capacidade de se beneficiarem das graças com que Jesus enriqueceu a sua Igreja, especialmente os sacramentos que os não batizados não podem receber. Neste sentido, são eles passíveis de se beneficiarem dos frutos do Sacrifício Eucarístico, que é o Sacrifício da Igreja. Os leigos batizados, além disso, têm a possibilidade de participar ativamente neste mesmo sacrifício da Santa Missa, enquanto são membros da Igreja, e portanto fazem parte do Corpo Místico de Cristo, em cujo nome Jesus oferece sua oblação sacrifical na Santa Missa. Os fiéis leigos tomam assim parte no Sacrifício do Altar. Diz o Papa Pio XII na "Mediator Dei": "Pelo sacramento do batismo, os cristãos tornam-se, por título comum, membros do Corpo Místico de Cristo Sacerdote e, em virtude do "caráter" que se lhes imprime na alma, são deputados para o culto divino, participando assim, de modo conveniente ao seu estado, no sacerdócio de Cristo". 


   Na Igreja há uma razão especial que justifica a intervenção do sacerdócio hierárquico nos atos do culto divino. É que o centro para o qual converge o culto católico, e a fonte de onde dimana a vitalidade da Igreja, é a Santíssima Eucaristia, Sacrifício que renova a oblação reparadora do Filho de Deus, e o Sacramento que O  contém real e verdadeiramente como está no Céu. Se no Antigo Testamento, a Arca da Aliança, mera figura das realidades futuras, exigia mãos santificadas para nela tocarem, que diremos da Santíssima Eucaristia? 


   Para os fiéis participarem da Missa segundo "o modo conveniente  ao seu estado" mostraremos o que não podem fazer, por lhes faltar o poder. E o que podem e devem fazer na qualidade de membros do Corpo Místico de Cristo. 

    O padre na Missa, imola e oferece a vítima; o fiel não imola, só oferece. Falta-lhe, como já dissemos, a capacidade para transubstanciar. O fiel não é ministro do Sacrifício da Missa. Em compensação o fiel oferece o Sacrifício em virtude do seu sacerdócio batismal. E oferece num sentido real, e não simplesmente metafórico. Ele oferece como "membro", nunca como "instrumento de Cristo". Só o sacerdote pelo sacramento da Ordem pode ser ministro e instrumento de Cristo. 

   Diz Pio XII: "Que os fiéis oferecem o Sacrifício pelas mãos do sacerdote, claramente se deduz do fato de que o ministro do Sacrifício do Altar age como representante de Cristo, enquanto Cabeça, que oferece em nome dos membros todos; é por isso que com razão se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, faz a oblação da vítima". (Mediator Dei). 

   Para ilustrar a estreita união dos fiéis com o Sumo Sacerdote, no Sacrifício da Missa, recorre São Cipriano ao simbolismo do vinho e da água misturados no cálice, o vinho figurando a Cristo, a água figurando os fiéis.
   Santo Tomás faz uma explanação mostrando que na Missa há a consagração que o Sacerdote realiza como representante de Jesus Cristo, e há as preces sacerdotais, especialmente as do cânon, que ele recita sozinho, mas como representante da Igreja, dos fiéis.

   De maneira que , na realização do ato sacrifical da Missa, os fiéis não tomam parte, É executado só pelo Sacerdote que, no momento representa a pessoa de Jesus Cristo. E para que se tornasse capaz desse ato, recebeu o Sacerdote a unção sagrada no Sacramento da Ordem. E de fato, a Igreja é, por instituição divina, uma sociedade hierárquica, que não pode ser concebida à maneira das democracias regidas pelo sufrágio universal, onde os governos, eleitos pelo povo, são mandatários da comunidade.

    Os fiéis, no entanto, devem considerar elemento essencial de suas vidas, participar ativamente no Santo Sacrifício da Missa. A Santa Missa deve ocupar o centro de toda a nossa existência.

   Nas palavras de Inocêncio III, temos a norma da participação ativa dos fiéis no Santo Sacrifício do Altar: o que realizam em particular os Sacerdotes, o povo deve realizá-lo universalmente em voto. E no ato mesmo sacrifical, isto é, na consagração, a participação do povo fiel não pode ir além do voto, ou seja, da aprovação interna, da união de sentimentos aos do Sacerdote que celebra, e aos do próprio Jesus Cristo, que é imolado sobre o altar.

   Aliás, em toda a Missa, o elemento essencial da participação do fiel consiste em unir os próprios sentimentos da adoração, ação de graças, expiação e impetração ao que teve Jesus Cristo ao morrer por nós, e que devem animar o Sacerdote que oferece o Sacrifício da Missa. Esta união do culto interno, é que torna proveitosa a participação do fiél na Santa Missa. É um grande erro achar que participar da Missa é apenas seguir os gestos e repetir as palavras. Pio XII considera isto: "rito vão e formalismo sem sentido". 

   O Papa Pio XII insiste na "Mediator Dei" sobre a importância do culto interno. "É necessário, diz ele, que os fiéis se imolem a si mesmos como vítimas". Em que consista esta imolação, declara o papa em outro lugar da mesma encíclica: "Considerem os fiéis suma honra participar no Sacrifício Eucarístico de maneira que a "união como o Sumo Sacerdote não possa ser mais íntima, conforme a palavra do Apóstolo: "Tende em vós os mesmos sentimentos de Jesus Cristo." (Fil. II, 5), o que "exige de todo cristão que reproduza em si, quanto, está nas possibilidades humanas, o mesmo estado de alma que tinha o Divino Redentor quando realizava o Sacrifício de si mesmo: a humilde submissão do espírito e a adoração, honra, louvor e ação de graças à Suprema Majestade de Deus; mais, reproduza em si mesmo a condição de vítima, a abnegação segundo os preceitos do Evangelho, o voluntário e espontâneo exercício da penitência, a dor e expiação dos próprios pecados; numa palavra: que todos espiritualmente morramos com Cristo na Cruz, de modo a podermos dizer com São Paulo: "Estou pregado na Cruz com Cristo" (Mediator Dei). 

   Não é despropósito dizer que na patena, ao lado da hóstia, estão as almas do celebrante e dos assistentes.
Dignou-se o Senhor, na sua misericórdia, fazer de nós "cooperadores de Deus" (1 Cor. III, 9). Ora bem, a obra de Cristo foi a Redenção; cooperar nela é sofrer, como ele sofreu, para remir as almas. Não por indigência, mas por bondade, Ele aceita que unamos nossos padecimentos aos d'Ele, por nossos irmãos, "Alegro-me nos sofrimentos por vós, e que complete o que falta aos sofrimentos de Cristo, pelo seu Corpo que é a Igreja" (Col, I, 12). 

   Oh! se os fiéis compreendessem profundamente e perfeitamente praticassem a participação no Santo Sacrifício da Missa. Mais do que assistir à Missa, participar da Missa no seu decurso, mais do que tudo isto é prolongar a Missa na sua vida, é viver a Santa Missa!!!



CONDIÇÕES PARA UMA CONTRIÇÃO VÁLIDA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Caríssimos, em se tratando de um assunto capital para a salvação, é necessário fazer uma análise completa a não deixar nos fiéis a mínima dúvida ou ignorância. Assim, sendo a CONTRIÇÃO ou a dor dos pecados absolutamente necessária para a validade da confissão, e sendo esta nas maioria dos casos necessária para a salvação, entendemos que se trata de assunto extremamente importante e mesmo urgente.

Então, para que a nossa dor nos alcance o perdão dos pecados, deve reunir CINCO CONDIÇÕES: é preciso que seja verdadeira, sobrenatural, absoluta, universal e confiante. Vamos dar a explicação de todas estas condições:

1ª - VERDADEIRA: Quer dizer, a dor não pode estar só na boca, mas também no coração. É uma dor íntima e não meramente externa. Eis aí porque o Santo Concílio de Trento a chama uma dor da alma. A Sagrada Escritura é clara sobre este ponto: "Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, e dilacerai os vossos corações e não os vossos vestidos" (Joel, II, 12 e 13). É o coração, isto é, a vontade que deve arrepender-se, pois que foi o coração que pecou querendo o mal, comprazendo-se nele, desobedecendo a Deus. "Todos os crimes vêm do coração, dizia Nosso Senhor Jesus Cristo (Cf. S. Mateus, XV, 18). É, pois, o coração que deve converter-se detestando o mal e amando o bem. Davi dizia: "Odeio a iniquidade; e acrescentava, e amo a vossa lei" (Salmo 118). É nisto que consiste a conversão verdadeira que o Senhor quer quando diz: "Fazei-vos um coração novo" (Ez. XVIII, 21) e (Salmo 21). Quando se perde a Deus pelo pecado, como encontrá-Lo? Diz Deus em Deut. IV, 29: "Encontrá-Lo-eis, se o procurardes de todo o coração".

2ª - SOBRENATURAL: Esta dor deve ser sobrenatural, quer dizer, deve ser produzida por um motivo sobrenatural, e não natural; por exemplo: se alguém se arrependesse de uma falta, por ser ela prejudicial à sua saúde, aos seus bens, ou à sua reputação, seria isto um motivo natural, que não serviria para nada. Para que o motivo da dor seja sobrenatural, como deve ser, é preciso que nos arrependamos do pecado, seja por causa da sua fealdade, seja porque ele ofendeu a bondade infinita de Deus, seja porque ele nos fez merecer o inferno ou perder o paraíso; teremos assim a dor perfeita, chamada contrição. ou a dor imperfeita, chamada atrição, como explicaremos depois, se Deus quiser.  
3ª - SOBERANA, isto é, SUPREMA, ABSOLUTA, MÁXIMA: A dor dos pecados é suprema ou máxima quando a ofensa feita a Deus nos desagrada mais do que outro qualquer mal. Caríssimos, por a dor ser soberana, isto não significa que ela deve necessariamente ser acompanhada de lágrimas e duma sensibilidade positiva. Ela reside essencialmente na VONTADE,  e circunstancialmente também na sensibilidade. Falo isto pensando nas almas timoratas que, às vezes, se inquietam por não experimentar sensivelmente a dor dos seus pecados. Fiquem tranquilas tais almas, porque é bastante que a dor dos pecados esteja na vontade, ou queiram arrepender-se, preferindo ter perdido tudo no mundo, do que ter ofendido a Deus. Daí o sábio ensinamento de Santa Teresa d'Ávila: "Para conhecer se temos uma verdadeira dor dos nossos pecados, a melhor regra é saber se a pessoa penitente está disposta a perder tudo, antes do que a graça de Deus; então, sem dúvida alguma, temos uma verdadeira dor".  E isto diz respeito somente aos pecados mortais, pois, não é necessário ter arrependimento de todas as faltas veniais para se obter o perdão de alguma delas, atendendo a que aquelas, cujo arrependimento é sincero, podem ser perdoadas sem as outras. Mais uma observação: Sabemos, pelo que já escrevi, que Deus não pode perdoar nenhum pecado, seja mortal, seja venial, sem que o culpado tenha um verdadeiro arrependimento. Resulta disto que uma pessoa, confessando somente pecados veniais, sem o arrependimento necessário, faz uma confissão nula; por esta razão, se quer receber a graça da absolvição, é preciso que tenha ao menos arrependimento de algum dos pecados veniais dos quais se confessa, ou que acrescente uma outra matéria certa, acusando-se de algum pecado da vida passada, do qual tenha uma verdadeira dor.

4ª - UNIVERSAL: Quanto, porém, aos pecados mortais, é absolutamente necessário ter arrependimento de TODOS  os pecados mortais cometidos, e um verdadeiro propósito de não mais os cometer, sem o que nenhum pecado será perdoado. A razão disto é que nenhum pecado mortal é perdoado sem a infusão da graça na alma; ora, não podendo esta graça achar-se com o pecado mortal, logo, segue-se que nenhum pecado mortal pode ser perdoado, sem que todos os outros o sejam ao mesmo tempo. Portanto, de nada serve detestar os pecados mortais, quando não se detestam todos sem exceção. Gostaria de fazer uma observação importante, sobretudo para as consciências escrupulosas: Quem cometeu vários pecados mortais, não é necessário que deteste cada um em particular; basta que aborreça todos os pecados mortais em geral, como ofensas graves a Deus; porque, se qualquer pecado tivesse ficado esquecido, será perdoado com os outros.


5ª - CONFIANTE: Judas Iscariotes se arrependeu, mas foi um arrependimento sem confiança: se desesperou. A dor deve ser CONFIANTE, quer dizer: unida à esperança do perdão; doutro modo, seria semelhante à dor dos condenados, que se arrependem também dos seus pecados, mas sem esperança de perdão. Pois eles se arrependem, não porque os seus pecados tenham ofendido a Deus, mas tão somente porque são a causa das suas penas. Outro exemplo ilustrativo é o de Caim. Reconheceu o pecado que tinha cometido, matando seu irmão Abel; porém, desesperou igualmente do perdão: "Minha iniquidade é muito grande, dizia ele, para que eu possa obter a remissão"  (Gen. IV, 13). São Francisco de Sales diz que a dor dos verdadeiros penitentes é cheia de paz e de consolação, porque, quanto mais o verdadeiro penitente lastima ter ofendido a Deus, tanto mais confiança tem em obter o perdão das suas faltas; o que muito aumenta a sua consolação. Daí também esta exclamação de São Bernardo, dirigindo-se a Deus: "Se é tão agradável chorar por vós, quão delicioso não será alegrar-se em Vós!". Amém!

terça-feira, 14 de março de 2017

O MAIS TERRÍVEL FLAGELO NA IGREJA

   O sacerdócio na Antiga Lei era apenas figura do sacerdócio deixado por Nosso Senhor Jesus na Sua Igreja. O que a Sagrada Escritura diz dos sacerdotes no Antigo Testamento muitas vezes se aplica também aos do Novo Testamento e, às vezes, até com mais propriedade. É o caso de que tratamos no presente artigo: o castigo da existência de pastores maus, escandalosos e omissos. 

   Consideremos algumas passagens das Sagradas Escrituras: "Ouvi isto, ó sacerdotes, e tu, ó casa de Israel, ouve com atenção; escuta, ó casa real, porque sobre vós se vai exercer o juízo, pois, devendo ser sentinela, lhe tendes armado laços e sido para ele como uma rede estendida sobre o monte Tabor" (Oséias V, 1). Oh! Sacerdote de Jesus Cristo, oh! Pastor de almas, que terrível juízo sofrereis um dia! Oh! Eclesiásticos que escandalizais! Então vós, que sois os protetores natos da inocência, armais-lhe laços? Estendeis as vossas abomináveis redes sobre o mesmo Tabor, sobre esse monte santificado por tantos e tão veneráveis mistérios. 

   "O meu povo tornou-se um rebanho perdido; os seus pastores enganaram-nos e fizeram-nos andar desgarrados pelos montes; dos montes passaram aos outeiros e esqueceram-se do lugar do seu repouso" (Jeremias L, 6).  

   Assim, o mais terrível flagelo que Deus podia empregar para punir uma paróquia, uma diocese, uma província, um país e até todo orbe, seria permitir que lhes fossem enviados pastores escandalosos. Eis o que Deus mesmo diz por um profeta: Como castigarei os pecadores obstinados? Que novo golpe lhes infligirá a minha justiça indignada? Eis o castigo: "Os seus pastores enganaram-nos..." (Jeremias citado acima).

  Observemos que os Pastores na Igreja podem escandalizar também por omissão. Eis o que diz a Bíblia sobre eles: "As suas sentinelas estão todas cegas, todas se mostraram ignorantes; são cães mudos, que não podem ladrar, que vêem coisas vãs, que dormem, e que amam os sonhos. E estes cães tão sem-vergonha não podem saciar-se; os mesmos pastores não têm nenhuma inteligência; todos declinaram para o seu caminho, cada um para sua avareza, desde o mais alto até o mais baixo" (Isaías LVI, 10 e 11). E logo em seguida o profeta acrescenta: "O justo perece, e não há quem lhe dê atenção..." (Isaías LVII, 1). 

   Caríssimos, temos que rezar muito e fazer penitências pelos eclesiásticos desde "o mais alto até o mais baixo".

   Fala-se hoje em um "Deus das surpresas". O próprio Deus, pela boca de São Paulo disse que "Jesus é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre". Portanto, caríssimos, devemos rezar e fazer penitência para conseguirmos a graça da perseverança: seja nosso falar "Sim, sim; Não não"; e rejeitemos toda doutrina nova e estranha. Até as revelações particulares só são aprovadas pela Igreja se estiverem em consonância com a Revelação Pública que terminou com a morte do último Apóstolo. Não pode haver "surpresa" de novidades na doutrina. Como dizia São Vicente de Lérins: "Nove, non nova", Não podem haver doutrinas novas na Igreja, embora possam ser apresentadas de maneira nova.  

   

   

segunda-feira, 13 de março de 2017

A DOR E DETESTAÇÃO DOS PECADOS OU CONTRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 O Sacrossanto Concílio de Trento assim define a contrição: "É uma dor da alma e detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar para o futuro". A contrição foi necessária em todos os tempos para obter o perdão, e é ela que prepara o homem para a remissão dos pecados.  Daí o mesmo Concílio Tridentino declarar que a contrição não compreende somente a cessação do pecado e o começo de uma vida nova, mas ainda o ódio `a vida passada, segundo estas palavras do Espírito Santo: "Lançai para longe de vós todas as vossas iniquidades, e fazei em vós um coração novo e um espírito novo" ( Êxodo, XVIII, 31).

E, na verdade, quem considerar atentamente estes lamentos dos santos: "Pequei contra vós só, ó meu Deus, fiz o mal em vossa presença" (Salmo 50); "Todas as noites rego meu leito com lágrimas; recordarei todos os anos da minha vida na amargura do minha alma" (Salmo 6).

Caríssimos, todo aquele que meditar bem nestes lamentos dos santos, compreenderá que eles provêm de um verdadeiro ódio à vida passada e de uma profunda detestação dos seus pecados. E justamente por força deste arrependimento interno, não perdiam oportunidade de fazer penitências exteriores, e aceitavam todos os sofrimentos e tribulações como merecidas pelos seus pecados. O exemplo clássico que se dá no Antigo Testamento é o do Rei Profeta Davi. É muito salutar meditarmos nos Salmos penitenciais que, pela Vulgata tradicional, são: o 6, 31, 37, 50, 101, 129, 142. Os dois mais conhecidos são: O "Miserere" (Salmo 50) e o "De Profundis" (Salmo 129).

A dor ou arrependimento dos pecados cometidos é de tal modo necessária para se obter a remissão deles, que, sem esta disposição, Deus não perdoa. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Se não fizerdes penitência, todos perecereis". E, como já explicamos, trata-se primeiro da penitência interior, ou seja, a dor ou contrição do coração. Como dizia o Espírito Santo pelo profeta Joel: "Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes" (Joel, II, 13).

Pode acontecer que alguém se salve sem exame de consciência e sem confissão, como quando, não podendo confessar-se, por falta de tempo ou de sacerdote, faz um ato de verdadeira contrição perfeita à hora da morte; mas sem arrependimento é impossível salvar-se, mesmo que conte direitinho todos os pecados.


É preciso assinalar aqui o erro de certos penitentes que, em sua preparação para a confissão, não procuram senão lembrar-se dos seus pecados, e não se aplicam absolutamente a conceber uma verdadeira dor. Esta dor devemos nós pedi-la insistentemente a Deus; antes de nos apresentarmos ao confessionário, tenhamos cuidado de dirigir uma Ave-Maria à Santíssima Virgem, Mãe das Dores, afim de que nos obtenha um verdadeiro arrependimento dos nossos pecados. Lemos na vida do Santo Cura d'Ars como ele avisava sempre seus paroquianos sobre isso. Costumo pregar nos retiros que antes de tomarmos o caminho do confessionário, devemos fazer mentalmente três viagens: irmos até ao Céu que perdemos; até ao inferno que merecemos; até ao Calvário onde vemos Jesus chagado e morto na cruz por causa de nossos pecados. Amém!

sábado, 11 de março de 2017

A CONFISSÃO GERAL PODER SER PREJUDICIAL, INÚTIL OU ÚTIL

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

1. É PREJUDICIAL:  A confissão geral para os escrupulosos, podemos dizer que é prejudicial. As almas escrupulosas são obrigadas a sujeitar-se, neste ponto, às decisões do seu confessor.

2. É INÚTIL às pessoas que já as têm feito várias vezes com todo o cuidado conveniente, e que continuam a fazer bem as suas confissões ordinárias.

3. É ÚTIL: Salvo raras exceções, podemos dizer que a confissão geral, mesmo que não fosse necessária, é útil a todos os fiéis, principalmente àqueles que nunca a fizeram. Quem já a fez bem feita, sobretudo no tempo mais propício que é o Retiro, e depois ficou inteiramente tranqüilo, não precisa fazer senão confissão extraordinária, ao seja, a partir da confissão geral bem feita. É o que fazem as pessoas que todos os anos têm a graça de participar do Retiro. Só no primeiro retiro se faz a confissão geral. Os santos recomendam a confissão geral nas épocas mais importantes da vida, por exemplo: na primeira comunhão, em tempo de missão, no retiro, antes de entrar para a vida religiosa, e, principalmente no leito de morte.
Caríssimos, nada mais vantajoso que a confissão geral, quando é feita com cuidado e preparada com reflexão e oração, sobretudo quando feita no Santo Retiro. Para várias pessoas é o começo e o fundamento de vida melhor. Uma senhora, fazendo retiro, escreveu a sua confissão geral. Ora, no momento em que acabava de meditar no inferno e estava muito comovida com o pensamento dos suplícios eternos, lançou os olhos sobre o papel em que tinha escrito todos os pecados da sua vida. `A vista de tantas faltas, exclamou: "Oh! quanta lenha para o fogo eterno! Não haveria meio de a destruir?" Esta reflexão determinou-a a renunciar para sempre às frivolidades do século e a levar vida retirada e edificante.

Além disso, a confissão geral repara as negligências e os defeitos que se deixam passar tão facilmente nas confissões ordinárias, alivia essas mil inquietações e essas dúvidas que por vezes assaltam a consciência; anima a alma adormecida no serviço de Deus, vivendo na tibieza e na frouxidão; enfim, redobra o ardor daqueles que trabalham para a sua perfeição. S. Carlos Borromeu costumava fazê-la todos os anos. S. Francisco de Sales, entre outros elogios que faz da confissão geral, diz: "Ele nos inspira salutar confusão da nossa vida passada, e nos faz admirar os rasgos da misericórdia de Deus, que nos excitam a amá-Lo e a servi-Lo com mais fervor".
A confissão geral é muito particularmente uma fonte de paz para o hora da morte. Oh! que consolação para um moribundo ter feito bem as suas contas em plena saúde! O homem sensato tem cuidado de prover a tempo o seu futuro. No reino de Aragão, um fidalgo da corte foi lançar-se aos pés de um missionário, e lhe disse: "Padre, eu queria fazer uma confissão geral". O padre lhe perguntou qual o motivo que o induzia a essa resolução. "Ah! respondeu ele suspirando: não devo morrer? Então, depois de ter levado uma vida tão criminosa, como poderia eu morrer tranquilamente sem ter feito uma confissão geral com todo o cuidado possível? Se espero, continua ele, o último momento, minha mulher, meus filhos, as ocupações, o temor da morte, a moléstia, tirar-me-ão a presença de espírito: que imprudência a minha, deixando para fazê-la no meio de tantas penas e embaraços! Consenti que eu aproveite uma tão boa ocasião".

Caríssimos, procedamos como este homem sensato. Se ouvirmos a voz de Deus, não endureçamos o nosso coração. Aquele fidalgo, ouviu a inspiração da graça, e esta não foi vã para ele. Segui-a imediatamente. Façamos o mesmo! E assim a confissão geral será para nós, como afirmam os santos, um segundo batismo, uma quitação de todas as nossas dívidas para com a justiça divina, um passaporte em regra para a entrada no céu. Amém!

quinta-feira, 9 de março de 2017

SINAIS DA FALTA DE ARREPENDIMENTO E PROPÓSITO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Consideremos atentamente os sinais certos pelos quais podemos reconhecer se a confissão foi feita sem dor dos pecados e sem resolução de não mais recair neles. Em outras palavras, veremos os sinais que mostram quando não há arrependimento verdadeiro (nem imperfeito=atrição) e não há por conseguinte propósito firme e eficaz de fugir das ocasiões próximas de pecados. Pela confissão Deus perdoa quaisquer pecados; mas nunca perdoa quando há vontade de continuar nos pecados.     

  1.  Quando nos confessamos sem querer renunciar o ódio ao próximo.
  2.  Quando se pode e não se quer reparar uma injustiça grave feita ao próximo, em seus bens ou em sua reputação.
  3.  Quando se reincide no pecado de hábito, quer dizer, quando, advertidos pelo confessor, não deixamos, entretanto, de recair com a mesma frequência nos mesmos pecados mortais do costume, sem nenhuma correção, e sem que sejam empregados os meios de emenda.
  4. Quando nos confessamos sem querer sinceramente deixar a ocasião próxima voluntária do pecado mortal.


Os defeitos que acabamos de enumerar e explicar tornam as confissões inválidas, quer dizer, nulas; e portanto, é preciso renová-las, como se nunca tivessem sido feitas desde a época em que são nulas. São, além disso, sacrílegas quando assim feitas cientemente. O sujeito está consciente de não ter os sinais de arrependimento, sabe que quer continuar fazendo todos ou alguns ou mesmo que seja um só dos pecados mortais e faz a sua confissão assim mesmo. Faz sacrilégio, e, se comunga faz outro sacrilégio.

A esta altura, talvez haja quem pergunte: padre, devo fazer uma confissão geral? Caríssimo, é a tua consciência que cabe resolver esta questão, conforme tudo o que acabamos de dizer.

Ser-me-á impossível, dizeis, fazer uma confissão geral. Tenho já idade: como poderei lembrar-me de todos os pecados da minha vida?  -  Caríssimos, com boa vontade é possível e mesmo fácil fazer uma confissão geral.

Primeiro que tudo, recordai com mágoa todos os anos da vossa vida (Isaías, XXXVIII, 16). Tomai para este negócio o tempo suficiente para vos recolherdes, pois trata-se de uma coisa muito séria.

Para indicar o número dos vossos pecados, eis aqui como podeis fazer. Deixai de lado os pecados veniais, ou não os acuseis senão no fim; não resta, pois, senão a confissão dos pecados mortais, que serão   -  ou casos particulares ou pecados habituais. Se são casos particulares, um pouco de reflexão bastará para vos lembrardes deles. Se são pecados habituais, examinai por quanto tempo durou este hábito  e quantas vezes, pouco mais ou menos, caístes no pecado por ano, ou por mês ou por semana, ou mesmo por dia. Não é verdade que desta maneira é fácil fazer uma confissão geral?

Contudo, se encontrardes alguma dificuldade em fazê-la, dizei ao confessor: "Padre, desejo fazer uma confissão geral, peço-vos que me ajudeis". No mesmo instante, o confessor vos interrogará, de modo que vos basta responder-lhe com sinceridade. Oh! como é consolador para um ministro de Deus ver a seus pés uma alma bem disposta e arrependida! A alegria do padre é indescritível, e levá-la-á para o túmulo. Bem feita a confissão geral, grande outrossim é a alegria do penitente.


Vou contar-vos um fato lido na vida de São Vicente de Paulo: Este grande santo da caridade, foi um dia chamado para confessar um fazendeiro que estava perigosamente doente. Conquanto tivesse sempre gozado da reputação de homem honrado, o padre Vicente de Paulo o excitou a fazer uma confissão geral, para pôr a sua salvação em maior segurança. Ora, o resultado provou que aquele pensamento vinha de Deus, que queria retirar aquela pobre alma do abismo eterno em que ia cair. Era rico mas certamente praticava a caridade para com os pobres. Quem o acreditaria, se não conhecesse a fraqueza do coração humano? Ainda que esse homem tivesse recebido várias vezes os últimos sacramentos, em várias moléstias muito graves, que tivera, achava ele que tinha a consciência carregada de sacrilégios desde a mocidade. Na alegria que experimentava em ter feito a confissão com o padre Vicente de Paulo, ele mesmo anunciava abertamente a todos que iam vê-lo: "Ah! eu estaria condenado se não tivesse feito uma confissão geral, por causa dos pecados que nunca ousei confessar". Morreu três dias depois, com os mais vivos sentimentos de reconhecimento para com Deus. A senhora Duquesa de Gondi ouviu as declarações muito admirada: Ah! que acabamos de ouvir? Se este homem, que passava por um homem honrado, estava em perigo de condenação, que será dos outros que vivem tão mal!". Ela empregou desde então a sua fortuna em estabelecer e fundar missões, considerando-as uma obra necessária à salvação das almas. São Vicente de Paulo fundou a Ordem dos Missionários Lazaristas. 

DESDE QUANDO SE DEVE FAZER O EXAME DE CONSCIÊNCIA?

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Desde a última confissão bem feita.

Antes vamos falar um pouco sobre a CONFISSÃO GERAL.  Sobre ela podemos assim resumir: a confissão geral pode ser necessária, útil, inútil, prejudicial.

Quando a CONFISSÃO GERAL é NECESSÁRIA?

É necessária às pessoas que fazem confissões inválidas.

Não perdoando de modo nenhum os pecados, tais confissões devem ser renovadas desde a época em que foram inválidas e más. Comparando: Se eu ao abotoar minha batina, ou no início ou já tendo abotoado alguns botões nas suas respectivas casas, aí salto uma casa, a partir daí  todos os botões ficarão errados e  depois de já ter abotoado até ao fim é que percebo o erro. Para desfazer este erro, tenho que desabotoar até onde comecei errando, porque foi a partir daí que todas os botões ficaram abotoados erradamente. Para corrigir não basta corrigir só o primeiro ou alguns; tendo que desabotoar todos os errados e depois, abotoar todos certos.  Quando a primeira confissão foi mal feita, é inválida e invalida todas as outras. Assim só uma confissão geral de toda vida poderá corrigir. Quando alguém já tendo feito algumas ou muitas confissões bem feitas e portanto válidas, mas aí faz uma confissão mal feita e inválida, sacrílega, para corrigir, a confissão geral deve abranger todos os pecados cometidos depois da última confissão bem feita, e mais, a primeira coisa que a pessoa penitente deve confessar é aquele primeiro sacrilégio e o número (se não sabe exatamente, pelo menos aproximadamente, de confissões e comunhões sacrílegas (ou se recebeu qualquer outro sacramento neste tempo, todos foram sacrilégios que devem ser contados nesta confissão geral.

Mas quando são más as confissões?

A)   POR FALTA DE FÉ.  Isto acontece por 4 motivos:

1. - Quando se recebe a absolvição na ignorância, mesmo involuntária, dos pontos de fé indispensáveis (por necessidade de meio, i. é, sem eles não se pode salvar), a saber: que há um só Deus; que em um só Deus há três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo; que Deus Filho se fez homem para nos resgatar; que, depois desta vida, Deus recompensará os bons e castigará os maus eternamente (= Deus remunerador).

2. - Quando se recebe a absolvição na ignorância voluntária das coisas necessárias que se deviam conhecer por necessidade de preceito, tais como o Pai-Nosso, o Credo, a Ave-Maria, os mandamentos de Deus e da Igreja, os sacramentos, principalmente aqueles que se devem receber.

3. - Quando queremos fazer uma religião a nosso modo, recusando crer tudo que ensina a santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, conservando dúvidas voluntárias sobre a fé, e também vivendo na revolta contra o Magistério Vivo e Perene da Igreja.

B) POR FALTA DE EXAME. Isto acontece quando, depois de uma notável negligência no exame de consciência, se omite a acusação de faltas graves.

C) POR FALTA DE SINCERIDADE. O que se dá quando, por vergonha, por hipocrisia ou por malícia, escondemos na confissão um pecado mortal, ou que julgamos mortal; quando se ocultam circunstâncias necessárias; quando se diminui o número dos pecados mortais cometidos; ou, finalmente, quando se acusa, de propósito, de modo a não ser compreendido pelo confessor em matéria grave.

D) POR FALTA DE CONTRIÇÃO E BOM PROPÓSITO. Como este é o ponto capital, de tal modo que uma confissão feita com todas as condições anteriores, faltando esta, é nula se a pessoa foi se confessar achando que tinha contrição e bom propósito, mas, na verdade, não tinha. É nula mas não sacrílega. Se, porém, se confessa consciente de não estar arrependido e de não ter propósito firme e eficaz, então é sacrílega. Assim, toda confissão sacrílega é nula também, mas nem toda confissão nula é sacrílega. Daí, vamos, na próxima postagem, se Deus quiser, falar sobre isso, a saber, vamos estudar os sinais para sabermos quando a confissão foi feita sem arrependimento e sem propósito firme de não mais recair nos pecados. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

A FAMÍLIA

 
LEITURA ESPIRITUAL

   Vemos com tristeza, como a sociedade está moralmente enferma, totalmente invadida e convulsionada pelo paganismo e a imoralidade. Mas não bastam lamentações. Mister se faz atacar o mal pela raiz. Ora, as famílias são as raízes que elaboram o alimento moral da sociedade. É a célula da sociedade; pois esta se forma de indivíduos e estes por sua vez se formam na família.

   Temos, então, que dedicarmos todos os nossos cuidados à família, para termos realmente uma sociedade sadia. A família é obra da mão de Deus. É inútil querer corrigir a crise da sociedade, se não se põe o primeiro cuidado em conservar a família. Os filhos das trevas, como disse Jesus Cristo, são muito espertos e nós vemos com tristeza, como as ideias comunistas estão se espalhando pelo mundo como um gás sumamente venenoso e que destrói em primeiro lugar as famílias, Pela imoralidade, imodéstia nas vestes, televisão, pornografia na Internet, divórcio, maus exemplos, principalmente nos colégios que vão se tornando focos de imoralidade e heresias, etc, etc. a indissolubilidade do matrimônio católico está em risco de dissolução quase total.  E, por outro lado, o sal na Igreja está perdendo sua força, deixando a corrupção reinar soberana. As paixões têm campo livre, os vícios, campeiam como chamas num canavial. 

   E não bastassem os comunistas por fora, há-os internos. E, horribile dictu, o próprio Sumo Pontífice reconhece que as últimas mudanças que ele fez nos processos matrimoniais quanto à declaração de nulidade podem colocar em risco a indissolubilidade do matrimônio. Muitos casamentos se dissolveram não porque nulos, mas por causa da ausência total ou quase das virtudes cristãs, e, por outro lado pelo reinado desenfreado das paixões as mais nefandas. Para estes não só a "a misericórdia" do divórcio mas a possibilidade de se casarem novamente e até comungarem. 

   Deus fez bem todas as coisas e se existe o mal no mundo, sua causa deve ser procurada na malícia humana que perverte a harmonia do Criador. A formação da família, poderia parecer algo profano, ao passo que, na realidade, ela tanto tem de santo como de sublime. O casamento não é um mal (como muitos hereges pensaram), pelo contrário, é um bem. Foi Deus quem o fez desde o Paraíso Terrestre. É bem verdade que devido o pecado original, o casamento decaiu de sua primitiva dignidade. Mas o Filho de Deus que veio ao mundo para remir a humanidade e iluminá-la restituiu o casamento à sua primitiva santidade elevando-o à dignidade de sacramento.

   Jesus Cristo, quis assistir em companhia de sua Mãe Santíssima a uma festa de casamento em Caná da Galileia, aprovando e santificando com sua divina presença. o vínculo conjugal, operando também nesta ocasião o seu primeiro milagre.

   Um dia os fariseus interrogaram a Jesus: "É lícito ao homem repudiar sua mulher? Ele, porém, lhes respondeu: Desde o princípio, Deus criou o homem e a mulher, logo o homem deixará seu pai e sua mãe e viverá com sua mulher. Não separe, portanto, o homem o que Deus uniu".

   Ter esta firme e inabalável convicção sobre a divina instituição do matrimônio, sempre foi de extrema necessidade, mas, hoje, ademais, tornou-se muito urgente. Pois são tantos os homens que ignoram de todo a grande santidade do matrimônio cristão. São inúmeros os que a negam e calcam aos pés. 

   Lacordaire, o grande conferencista francês, queria que seus amigos Ozonam e Luis Veuillot o imitassem e renunciassem o casamento. Mas Veuillot, com todo direito achou por bem se casar. E quando Lacordaire soube, exclamou: "Mais um que ficou na armadilha". Relataram ao papa a frase de Lacordaire e sorrindo comentou o Santo Padre: "Eu não sabia que Nosso Senhor havia instituído 6 sacramentos e 1 armadilha". 

   Outro exemplo bem diferente deste: São Francisco de Sales hospedava em sua casa um amigo. E o santo bispo, com aquela sua grande caridade, tratava o seu amigo com as maiores finezas, inclusive todas as noites ia acompanhá-lo até ao seu quarto. E o hóspede, confundido por tanta delicadeza, disse a São Francisco de Sales que não era digno de ser tratado assim por um bispo, ele que era um simples leigo. Mas o santo bispo perguntou-lhe: "Então o meu amigo não é casado?" - Ainda não, respondeu o amigo.  -  "Ah! , retrucou São Francisco de Sales, então tem razão de protestar: de hoje em diante tratá-lo-ei com mais confidência e com menores finezas". É que o Santo da mansidão pensava que uma pessoa casada devia ser cercada de uma veneração maior, pela dignidade do sacramento do matrimônio que confere aos esposos uma graça que os torna capazes de se amarem sobrenaturalmente, de educarem os seus filhos e de suportarem com serenidade os pesos da vida. 

   O matrimônio é portanto um sacramento, fonte de bênçãos, rico em simbolismos, expressivo no seu programa que é a comunhão da vida toda até a morte com todas as suas manifestações: Comunhão de vida natural: "serão os dois uma úncia carne", disse Deus. Comunhão de interesses: e portanto os bens materiais e as perdas andam em conjunto. Os afetos também se entrelaçam. E é por isso que São Paulo manda que o homem ame a sua esposa como a si próprio. Comunhão de fidelidades e deveres: ambos geram o corpo da criança e ambos concorrem para a geração moral, isto é, para a educação da mesma. Por isso é que Nosso Senhor impôs aos filhos o precito de honrar "pai e mãe". Comunhão de trabalhos: juntos devem cultivar o mesmo campo e nos mesmos espinhos sangram as mãos e ferem os corações. Comunhão de lutas e vitórias: em todas as fases da vida, e até a morte. 

   Assim é que deveria ser compreendido e sobretudo vivido o matrimônio. Como são belos os componentes de uma família verdadeiramente cristã! A família cristã tem Jesus que a consola e nunca será desolada. Diz o próprio Divino Espírito Santo na Bíblia: "Ditoso o homem que tem uma virtuosa mulher". "A mulher virtuosa é o prêmio dos que temem a Deus, e será dada ao homem em recompensa pelas sua boas obras".  "Cooperadora da Providência e complemento do homem, a mãe gera, nutre, educa, dá forma, brilho e esmalte à existência. É autora maravilhosa e destra escultora dos seres" (Palavras de um poeta castelhano). 

   Uma mãe verdadeiramente cristã, não é mais uma simples mulher, é uma santa! "Me deem mães verdadeiramente cristãs, e eu salvarei este mundo decadente" (S. Pio X). 

   Outro dom tão precioso na família são os filhos: Frederico Ozonam, o grande literato católico, fundador das conferências de São Vicente de Paulo escrevia estas linhas junto ao berço de sua primeira filhinha:  "Ah! que momento aquele em que ouvi o primeiro vagido de minha filha e vi a criatura imortal que Deus confiava ao meu cuidado, e que tantas doçuras e obrigações era portadora para mim! Não consigo mirar esses olhos que destilam suavidade e pureza, sem descobrir neles, menos apagado que em nós, o retrato sagrado do Criador". Na verdade, os filhos são um dom de Deus.

   Como é belo também o homem virtuoso na família, como a cabeça, o chefe, com a sua autoridade suave, com a sua proteção, como São José na Sagrada Família.  Vêm-nos à mente as palavras de Santa Terezinha: "Deus deu-me pais mais dignos do céu que da terra". Pai e mãe santos! Que graça!

   Não esqueçamos nunca que toda esta beleza e sublimidade da família estão na observância da lei de Deus. Por isso é que São Paulo diz que "o casamento é santo, mas no Senhor". Quantos casamentos, hoje embora válidos, são sacrílegos. Quantos pecados, quantos crimes! Uma coisa tão sublime, tão santa e, no entanto, tratada hoje com tanta leviandade, feita sem nenhuma preparação, . Pior: toda santidade, toda bênção são afastados por tantos pecados cometidos antes e depois do casamento. 

   Não consigo terminar este artigo, embora já longo, sem relatar pelos menos algumas palavras do Papa Pio XII: "Aqueles, pois, que nas igrejas exercem funções diretivas ou de magistério, exortem assiduamente os fiéis a que constituam e mantenham famílias segundo a norma da sabedoria do Evangelho - buscando assim com assíduo cuidado preparar para o Senhor um povo perfeito. Pelo mesmo motivo, cumpre também sumamente atender a que o dogma, que por direito divino afirma a unidade e indissolubilidade do matrimônio, seja compreendido em sua importância religiosa e santamente respeitado por todos os que contraem núpcias. Que tão capital ponto da doutrina católica tenha validíssima eficácia para a sólida estrutura da família, para o bem-estar crescente da sociedade civil, para a saúde do povo e para uma civilização cuja luz não seja falsa..." (Pio XII, "Sertum laetitiae). 


segunda-feira, 6 de março de 2017

COMO FAZER O EXAME DE CONSCIÊNCIA?

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

O exame deve ser feito principalmente sobre os pecados que somos obrigados a confessar. Ora, segundo o Santo Concílio de Trento, é necessário confessar todos e cada um dos pecados mortais, de que houver lembrança depois de ter neles refletido convenientemente e com cuidado, mesmo que sejam secretos e cometidos somente por pensamento e desejo, assim como as circunstâncias que mudam a espécie de pecado.

Na verdade, há na confissão matéria necessária e matéria não necessária. Por exemplo os pecados mortais são matéria necessária; já os pecados veniais constituem matéria não necessária, embora seja louvável contar também os pecados veniais dos quais deve haver arrependimento. Depois falaremos mais sobre isto. Quanto as circunstâncias que mudam a espécie de pecado, darei apenas um exemplo para que todos possam entender: na confissão não bastaria dizer que pecou contra a castidade. Circunstâncias que mudam a espécie: por exemplo, se foi pecado solitário; e se foi com outrem tem que dizer se é casado(a)  (adultério) ou não, se é parente(incesto) ou não, se é consagrado(a) a Deus (sacrilégio) ou não; se é com pessoa do mesmo sexo (sodomia) ou não etc. Assim poderíamos dar exemplos em relação a outros mandamentos.

Caríssimos, se quereis fazer um exame conveniente, retirai-vos para qualquer lugar isolado ou para a igreja. De início, agradecer a Deus por ter esperado até este momento, e rogar-Lhe que faça conhecer a gravidade e o número dos pecados. Lembrar depois dos lugares em que estivemos, das pessoas com quem nos comunicamos, das leituras, dos divertimentos, das ocupações em que tivermos empregado depois da nossa última boa confissão. Devemos, também, refletir em todas a faltas que pudéssemos cometer por pensamentos, palavras e ações; é preciso examinar-nos particularmente sobre os pecados de omissão e sobre as obrigações do nosso estado como por exemplo: sacerdote, pai de família, magistrado, médico, advogado, comerciante etc.. Porque cada estado ou profissão tem obrigações próprias.  Mas para um exame mais exato e mais claro, quando se têm cometido diferentes espécies de pecados, é melhor pôr sob os olhos os mandamentos de Deus e da Igreja, e examinar quais as faltas em cada mandamento.

Quanto aos PECADOS VENIAIS, é bom confessá-los, visto que são também perdoados pela absolvição do confessor, mas não há obrigação disso, pois podemos obter a remissão da faltas veniais, como diz o Santo Concílio de Trento, por outros meios, seja fazendo atos de contrição ou de amor, seja recitando devotamente o Pai-Nosso.

Não havendo matéria certa depois da última confissão é preciso, se queremos receber a absolvição, acusar um pecado da vida passada, do qual se tem verdadeira contrição. Dir-se-á, por exemplo: Eu me acuso especialmente das faltas que outrora cometi contra a pureza (ou contra a caridade, ou contra a justiça, ou contra a obediência). Observem bem isto: o confessor não pode dar absolvição ao penitente que não apresentar pecados a absolver.


Assim, cada vez que uma pessoa piedosa se aproxima do tribunal da penitência, ser-lhe-á muito útil renovar, ao menos de modo geral, a confissão de uma falta notável da vida passada. Demais, é isto um ato de humildade muito agradável a Deus, e excelente meio de afastar toda a inquietação quanto à validade das suas confissões. Por não observar esta norma, muitas confissões são nulas. É claro que o confessor exorta a pessoa a fazer assim. Mas se ela não fizer, ele avisa que só lhe dará uma bênção. Então, para evitar este perigo (confissão nula), já no exame de consciência, se deve propor a confessar tal pecado mais grave da vida passada, excitando-se a uma viva dor desse pecado particular antes de chegar ao confessionário. Caríssimos, este conselho é da mais alta importância. Mas infelizmente não é compreendido ou desprezado por pessoas piedosas.