quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

NOSSOS PADROEIROS

NOSSOS PADROEIROS


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

            Neste mês de janeiro, celebramos vários santos padroeiros, que, ao mesmo tempo que nossos intercessores junto de Deus, são exemplo de vida cristã e heroicidade nas virtudes.
Dia 15, celebramos Santo Amaro, cuja devoção é muito cultivada aqui em nossa região, explicada pela presença dos monges beneditinos que foram os valorosos missionários da zona rural de Campos dos Goytacazes, em cujo município se situa o célebre Mosteiro de São Bento, em Mussurepe.
Santo Amaro, ou São Mauro, foi monge e abade beneditino, ou seja, da Ordem de São Bento. Nascido em Roma, de família senatorial, Amaro, quando tinha apenas doze anos, foi entregue no mosteiro por seu pai, Egrico, homem ilustre pela virtude e pela nobreza do nascimento, confiando-o aos cuidados de São Bento, em 522.
Correspondeu tão bem à afeição e à solicitude do mestre, que foi em breve proposto como modelo aos outros religiosos. São Gregório exaltou-o por se ter distinguido no amor da oração e do silêncio. Sempre se lhe notou profunda humildade e admirável simplicidade de coração. Mas nele sobressaía a virtude da obediência, sendo por isso recompensado por Deus, com um milagre, quando, para obedecer, foi salvar um irmão que estava se afogando e caminhou sobre as águas.
Possa o exemplo de Santo Amaro levar os filhos a serem mais obedientes aos seus pais, os alunos aos seus mestres, os cidadãos às leis e superiores civis, os católicos aos seus superiores hierárquicos. “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5, 21).
Dia 20, festejaremos São Sebastião, padroeiro da Cidade maravilhosa e, por ser o patrono da capital, é também protetor do nosso Estado do Rio de Janeiro.
Foi soldado do exército imperial, chegando a ocupar o posto de Comandante do Primeiro Tribunal da Guarda Pretoriana durante o reinado de Diocleciano, um dos mais severos imperadores romanos, perseguidor dos cristãos.
Mesmo sendo bom soldado romano, suas atitudes demonstravam sua fé cristã, e, sendo interrogado, confessou bravamente sua convicção. Por não aceitar renunciar a Cristo, São Sebastião foi condenado à morte, sendo amarrado a um tronco de árvore e flechado. Porém, não morreu ali. Foi encontrado vivo por uma mulher cristã piedosa que tinha vindo buscar o seu corpo. Recuperada a saúde, apresentou-se diante do Imperador e reafirmou sua convicção cristã. E nova sentença de morte veio sobre ele: foi condenado ao martírio no Circo. Sebastião foi executado, então, com pauladas e boladas de chumbo, sendo açoitado até a morte e jogado nos esgotos perto do Arco de Constantino. Era 20 de janeiro.
            E dia 25, celebraremos a conversão de São Paulo, que, de perseguidor ferrenho dos cristãos, tornou-se o grande Apóstolo, que trabalhou na conversão dos pagãos, tornando-se, como São Pedro, uma das colunas da Igreja. É o padroeiro da cidade e do Estado de São Paulo.

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal
                                                                         São João Maria Vianney

                                                                       http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

domingo, 12 de janeiro de 2020

VIRTUDES PARA UMA FAMÍLIA CRISTÃ


LEITURA MEDITADA 

"Irmãos: revesti-vos como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, modéstia e paciência, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver queixas contra o outro; assim como o Senhor vos perdoou, perdoai-vos também. Mas sobre tudo isto: tende a caridade que é o vínculo da perfeição; e reine em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. Habite em vós abundantemente a palavra de Cristo, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando em vossos corações, com a ação da  graça, louvores a Deus. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças por Ele a Deus Pai. Mulheres, estai sujeitas a vossos maridos, como convém ao Senhor. Maridos, amai vossas mulheres, e não sejais ásperos para com elas. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. Pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que se não tornem pusilânimes" (Colossenses, III, 12-21).

Nestas exortações de S. Paulo temos os elementos indispensáveis para a felicidade das nossas famílias. Assim, o Apóstolo,  às opiniões do modernismo, destruidor dos mais sagrados vínculos, opõe os preceitos e virtudes criadores de uma felicidade e de uma paz ainda possível neste mundo. Aí está o segredo da paz familiar. Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que os filhos das trevas são mais prudentes nos seus negócios que os filhos da luz nos seus. Só para dar dois exemplos: O comerciante, aos clientes oferece prontamente suas mercadorias, ocultando a sua irritação quando as desprezam e sem ofender-se quando as recusam. Que "misericórdia"; que "paciência"; que "benignidade"; que 'humildade"; que "perdão das ofensas"; que "que sorrisos de amabilidade!". O político, a todos acolhe com amabilidade, tolerante com quem o importuna e prestimoso com quem lhe pede auxílio.  O comerciante faz tudo isto como se fosse um santo, mas não: é só para ganhar dinheiro. (Não quero com isto negar que há comerciante santo também). O político parece praticar virtudes heróicas, mas, na verdade, pensa só em conseguir votos, e consequentemente: honra e sobretudo, dinheiro. (Também aqui não pretendo negar que possa existir político santo: é difícil, mas para Deus nada é impossível).
Mas, caríssimos, qual destes motivos compara-se ao grande bem na paz familiar? Dádiva do céu, ela transforma o lar em um vestíbulo do paraíso, as agruras da vida em oásis de bênçãos. A paciência, a humildade, a benignidade, a misericórdia, ensinam aos cônjuges  a arte de se suportarem uns aos outros. Sigam os cônjuges os conselhos de São Paulo supracitados, e as divergências que pareciam separá-los virão a soldar ainda mais o vínculo matrimonial. Saibam os cônjuges perdoar-se mutuamente. Enquanto um momento de silêncio restituirá a bonança; um revide protrairá a tempestade por longos dias e semanas inteiras. Tal como Jesus generosamente perdoou nossos graves crimes, perdoem-se os esposos, com igual generosidade, as discrepâncias de temperamento e de caráter.

A caridade é o liame destinado a unir os fiéis entre si e com Deus. Nesta união consiste toda a perfeição cristã. O amor da paz deveria inspirar todos os sentimentos dos esposos como convém a membros de um só corpo. O lar verdadeiramente cristão deveria estar sempre agradecido a Deus pelos favores d'Ele recebidos. Os ensinamentos e máximas de Nosso Senhor Jesus deveriam ser a bússola em toda a sua conduta e empreendimentos. De um lar cristão são banidas e execradas as máximas do mundo.  "Exortai-vos uns aos outros por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais", insiste o Apóstolo, assim apontando-nos na oração a maior garantia de paz para o lar. A oração é a fonte de onde haurimos as energias necessárias para os momentos trágicos que não faltam na existência de cada indivíduo, como não faltam na vida de toda família. Repudiando os maus conselhos de um mundo colocado no Maligno, busquem os esposos na Santa Religião e no seu Deus o conforto que anima, e da prece fervorosa de um coração que sofre sairá a arma vitoriosa que tudo suporta. "Onde quer que dois ou três se acharem reunidos em meu nome - diz Jesus Cristo - estarei eu no meio deles" (S. Mateus XVIII, 20). Na verdade, nunca um lar se sente mais unido como quando todos os componentes se voltam para Deus repetindo todos a mesma prece divina: "Pai Nosso que estais no céu". O lar, porém, que ignora a oração encaminha-se para o desmoronamento, enquanto o lar que ora, que reza todos dias o Santo Terço, sela com o nome de Deus e a intercessão de Sua Mãe Santíssima, a sua união e garante a sua felicidade. Seguindo, pois, os conselhos do Apóstolo São Paulo, não será difícil aos nossos lares realizar aquela felicidade que fará das famílias cristãs outros tantos vestíbulos do céu.

Para terminar, lembremos algo sobre a MISERICÓRDIA. O Rei Davi era um homem santo. A própria Bíblia mostra-o para os outros reis, como um modelo de fidelidade a Deus. Mas, num momento de ociosidade e fraqueza cometeu o gravíssimo pecado de adultério e, em consequência o homicídio, outro pecado muito grave. Deus, através do profeta Natan, abriu-lhe os olhos e tocado de sincero arrependimento exclamou: "Pequei".  Davi chorou a vida toda estes seus graves pecados. Não perdia oportunidade de fazer penitência e escreveu o Salmo 50, Miserere. Eis apenas alguns versículos deste belíssimo salmo de penitência: "Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia; segundo a multidão das tuas clemências, apaga a minha iniquidade" (vers. 1-3); "O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito, não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado" (vers. 19).


A FAMÍLIA



   Vemos com tristeza, como a sociedade está moralmente enferma, totalmente invadida e convulsionada pelo paganismo e a imoralidade. Mas não bastam lamentações. Mister se faz atacar o mal pela raiz. Ora, as famílias são as raízes que elaboram o alimento moral da sociedade. É a célula da sociedade; pois esta se forma de indivíduos e estes por sua vez se formam na família.

   Temos, então, que dedicarmos todos os nossos cuidados à família, para termos realmente uma sociedade sadia. A família é obra da mão de Deus. É inútil querer corrigir a crise da sociedade, se não se põe o primeiro cuidado em conservar a família. Os filhos das trevas, como disse Jesus Cristo, são muito espertos e nós vemos com tristeza, como as ideias comunistas estão se espalhando pelo mundo como um gás sumamente venenoso e que destrói em primeiro lugar as famílias, Pela imoralidade, imodéstia nas vestes, televisão, pornografia na Internet, divórcio, maus exemplos, principalmente nos colégios que vão se tornando focos de imoralidade e heresias, em cátedras de pestilências comunistas etc, etc. a indissolubilidade do matrimônio católico está em risco de dissolução quase total.  E, por outro lado, o sal na Igreja está perdendo sua força, deixando a corrupção reinar soberana. As paixões têm campo livre, os vícios, campeiam como chamas num canavial. 

   E não bastassem os comunistas por fora, há-os internos. E, horribile dictu, o próprio Sumo Pontífice reconhece que as últimas mudanças que ele fez nos processos matrimoniais quanto à declaração de nulidade podem colocar em risco a indissolubilidade do matrimônio. Muitos casamentos se dissolveram não porque nulos, mas por causa da ausência total, ou quase, das virtudes cristãs, e, por outro lado pelo reinado desenfreado das paixões as mais nefandas. Para estes não só a "a misericórdia" do divórcio mas a possibilidade de se casarem novamente e até comungarem. 

   Deus fez bem todas as coisas e se existe o mal no mundo, sua causa deve ser procurada na malícia humana que perverte a harmonia do Criador. A formação da família, poderia parecer algo profano, ao passo que, na realidade, ela tanto tem de santo como de sublime. O casamento não é um mal (como muitos hereges pensaram), pelo contrário, é um bem. Foi Deus quem o fez desde o Paraíso Terrestre. É bem verdade que devido o pecado original, o casamento decaiu de sua primitiva dignidade. Mas o Filho de Deus, que veio ao mundo para remir a humanidade e iluminá-la, restituiu o casamento à sua primitiva santidade elevando-o à dignidade de sacramento.

   Jesus Cristo, quis assistir em companhia de sua Mãe Santíssima a uma festa de casamento em Caná da Galileia, aprovando e santificando com sua divina presença. o vínculo conjugal, operando também nesta ocasião o seu primeiro milagre.

   Um dia os fariseus interrogaram a Jesus: "É lícito ao homem repudiar sua mulher? Ele, porém, lhes respondeu: Desde o princípio, Deus criou o homem e a mulher, logo o homem deixará seu pai e sua mãe e viverá com sua mulher. Não separe, portanto, o homem o que Deus uniu".

   Ter esta firme e inabalável convicção sobre a divina instituição do matrimônio, sempre foi de extrema necessidade, mas, hoje, ademais, tornou-se muito urgente. Pois são tantos os homens que ignoram de todo a grande santidade do matrimônio cristão. São inúmeros os que a negam e calcam aos pés. 

   Lacordaire, o grande conferencista francês, queria que seus amigos Ozonam e Luis Veuillot o imitassem e renunciassem o casamento. Mas Veuillot, com todo direito achou por bem se casar. E quando Lacordaire soube, exclamou: "Mais um que ficou na armadilha". Relataram ao papa a frase de Lacordaire e sorrindo comentou o Santo Padre: "Eu não sabia que Nosso Senhor havia instituído 6 sacramentos e 1 armadilha". 

   Outro exemplo bem diferente deste: São Francisco de Sales hospedava em sua casa um amigo. E o santo bispo, com aquela sua grande caridade, tratava o seu amigo com as maiores finezas, inclusive todas as noites ia acompanhá-lo até ao seu quarto. E o hóspede, confundido por tanta delicadeza, disse a São Francisco de Sales que não era digno de ser tratado assim por um bispo, ele que era um simples leigo. Mas o santo bispo perguntou-lhe: "Então o meu amigo não é casado?" - Ainda não, respondeu o amigo.  -  "Ah! , retrucou São Francisco de Sales, então tem razão de protestar: de hoje em diante tratá-lo-ei com mais confidência e com menores finezas". É que o Santo da mansidão pensava que uma pessoa casada devia ser cercada de uma veneração maior, pela dignidade do sacramento do matrimônio que confere aos esposos uma graça que os torna capazes de se amarem sobrenaturalmente, de educarem os seus filhos e de suportarem com serenidade os pesos da vida. 

   O matrimônio é portanto um sacramento, fonte de bênçãos, rico em simbolismos, expressivo no seu programa que é a comunhão da vida toda até a morte com todas as suas manifestações: Comunhão de vida natural: "serão os dois uma úncia carne", disse Deus. Comunhão de interesses: e portanto os bens materiais e as perdas andam em conjunto. Os afetos também se entrelaçam. E é por isso que São Paulo manda que o homem ame a sua esposa como a si próprio. Comunhão de fidelidades e deveres: ambos geram o corpo da criança e ambos concorrem para a geração moral, isto é, para a educação da mesma. Por isso é que Nosso Senhor impôs aos filhos o preceito de honrar "pai e mãe". Comunhão de trabalhos: juntos devem cultivar o mesmo campo e nos mesmos espinhos sangram as mãos e ferem os corações. Comunhão de lutas e vitórias: em todas as fases da vida, e até a morte. 

   Assim é que deveria ser compreendido e sobretudo vivido o matrimônio. Como são belos os componentes de uma família verdadeiramente cristã! A família cristã tem Jesus que a consola e nunca será desolada. Diz o próprio Divino Espírito Santo na Bíblia: "Ditoso o homem que tem uma virtuosa mulher". "A mulher virtuosa é o prêmio dos que temem a Deus, e será dada ao homem em recompensa pelas suas boas obras".  "Cooperadora da Providência e complemento do homem, a mãe gera, nutre, educa, dá forma, brilho e esmalte à existência. É autora maravilhosa e destra escultora dos seres" (Palavras de um poeta castelhano). 

   Uma mãe verdadeiramente cristã, não é mais uma simples mulher, é uma santa!
"Me deem mães verdadeiramente cristãs, e eu salvarei este mundo decadente" (S. Pio X). 

   Outro dom tão precioso na família são os filhos: Frederico Ozonam, o grande literato católico, fundador das conferências de São Vicente de Paulo escrevia estas linhas junto ao berço de sua primeira filhinha:  "Ah! que momento aquele em que ouvi o primeiro vagido de minha filha e vi a criatura imortal que Deus confiava ao meu cuidado, e que tantas doçuras e obrigações era portadora para mim! Não consigo mirar esses olhos que destilam suavidade e pureza, sem descobrir neles, menos apagado que em nós, o retrato sagrado do Criador". Na verdade, os filhos são um dom de Deus.

   Como é belo também o homem virtuoso na família, como a cabeça, o chefe, com a sua autoridade suave, com a sua proteção, como São José na Sagrada Família.  Vêm-nos à mente as palavras de Santa Terezinha: "Deus deu-me pais mais dignos do céu que da terra". Pai e mãe santos! Que graça!

   Não esqueçamos nunca que toda esta beleza e sublimidade da família estão na observância da lei de Deus. Por isso é que São Paulo diz que "o casamento é santo, mas no Senhor". Quantos casamentos, hoje embora válidos, são sacrílegos. Quantos pecados, quantos crimes! Uma coisa tão sublime, tão santa e, no entanto, tratada hoje com tanta leviandade, feita sem nenhuma preparação, . Pior: toda santidade, toda bênção são afastados por tantos pecados cometidos antes e depois do casamento. 

   Não consigo terminar este artigo, embora já longo, sem relatar pelos menos algumas palavras do Papa Pio XII: "Aqueles, pois, que nas igrejas exercem funções diretivas ou de magistério, exortem assiduamente os fiéis a que constituam e mantenham famílias segundo a norma da sabedoria do Evangelho - buscando assim com assíduo cuidado preparar para o Senhor um povo perfeito. Pelo mesmo motivo, cumpre também sumamente atender a que o dogma, que por direito divino afirma a unidade e indissolubilidade do matrimônio, seja compreendido em sua importância religiosa e santamente respeitado por todos os que contraem núpcias. Que tão capital ponto da doutrina católica tenha validíssima eficácia para a sólida estrutura da família, para o bem-estar crescente da sociedade civil, para a saúde do povo e para uma civilização cuja luz não seja falsa..." (Pio XII, "Sertum laetitiae).




quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

ÚNICO REDENTOR

1º - A PARTE REALIZADA POR JESUS CRISTO (continuação)

(Excertos do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, de autoria de Lúcio Navarro).

   15. NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, O ÚNICO SALVADOR.

   Quando chegou a plenitude dos tempos (Gálatas IV-4) Deus, para restaurar em Cristo todas as coisas (Efésios I-10), enviou o seu próprio Filho Unigênito, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós (João I-14) e se fez para nós sabedoria e justiça e santificação e redenção (1ª Coríntios I-30).

   A salvação é obra de Jesus Cristo, que é o Único Salvador, o Único a nos poder resgatar, porque Ele é que era homem e Deus ao mesmo tempo; homem, para poder sofrer e expiar por nós; Deus, para que seu sofrimento, sua expiação tivessem um valor infinito. E é neste sentido que São Paulo o chama: Único Mediador entre Deus e os homens. Só há um Mediador entre Deus e os homens que é Jesus Cristo homem, que SE DEU A SI MESMO PARA REDENÇÃO DE TODOS (1ª Timóteo II-5 e 6). Sobre isto falaremos mais longamente no futuro, se Deus quiser. E disse São Pedro falando a respeito do mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo: Não há salvação em nenhum outro, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual nós devamos ser salvos (Atos IV-12).

   16. NOTA: EM QUE SENTIDO MARIA SANTÍSSIMA É CHAMADA CO-REDENTORA.

      Quando alguns escritores católicos chamam a Maria Santíssima co-redentora do gênero humano, eles empregam este termo não no sentido de que os merecimentos de Maria Santíssima pudessem acrescentar alguma coisa aos merecimentos de Jesus Cristo quanto ao resgate do gênero humano; os merecimentos de Cristo eram infinitos, e os de Maria, finitos, como de criatura que é; além disto, os próprios merecimentos da Virgem já são efeitos dos merecimentos de Jesus. Nem é no sentido de que o Messias necessitasse da ajuda de Maria para realizar a sua obra salvadora. 

   O que estes escritores querem significar com tal denominação é o papel que Deus nos desígnios de sua Providência, fez com que Maria Santíssima, embora simples criatura, exercesse na obra da Redenção. Pelo poder divino, Cristo podia ter aparecido neste mundo, como homem feito; mas tendo que mostrar-se em todas as coisas à nossa semelhança, exceto o pecado (Hebreus IV-15) era preciso, segundo os desígnios de Deus, que nascesse de um ventre materno. Uma mulher, Eva, se associara ao primeiro homem no pecado, oferecendo-lhe o fruto da árvore proibida. Outra mulher, Maria, foi associada ao novo homem, Jesus Cristo, na obra da salvação, pois foi escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador. 

   Para isto era preciso, em atenção à honra e dignidade do próprio Filho, que Deus escolhesse uma mulher pura, imaculada, sem a mínima sombra de pecado, afim de ser o sacrário onde havia de formar-se o corpo de Jesus Cristo. Deus lhe manda o anjo Gabriel para anunciar-lhe que ela, cheia de graça, havia sido escolhida para a grande honra da maternidade divina. E só depois que Maria vê resolvido o problema de sua virgindade, é que dá o consentimento: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lucas I-38).  E é em seguida a este consentimento que o Verbo se faz carne e habita entre nós, tornando-se Maria, nessa hora, a esposa do Espírito Santo: O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá de sua sombra (lucas I-35). Se o Verbo se faz carne para nossa salvação, Maria contribui para isto, pois a carne de Cristo é carne de Maria, o sangue de Cristo é sangue de Maria, pela íntima união que há entre o filho e a mãe, a mesma união que há entre o fruto e a árvore que o produz, e por isto diz Santa Isabel, falando cheia do Espírito Santo: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre (Lucas I-42).

   Aquele Menino que ela trouxe no seu ventre puríssimo e virginal durante 9 meses, Maria depois O nutriu, O guardou,  durante trinta anos e Jesus lhe foi obediente: E era submisso a eles (Lucas II-51). E na cruz, no momento da Redenção, Maria que pela ação preservativa de Deus, graças aos merecimentos de Cristo, jamais teve o mínimo pecado, ali estava sofrendo juntamente com Jesus Cristo, fazendo resignada e heroicamente o sacrifício de seu Filho Amantíssimo para a redenção do gênero humano.

   É frisando esta atuação que Maria, embora simples criatura, foi destinada a exercer junto a seu Divino Filho, que esses escritores dizem que Maria Santíssima é DE UM CERTO MODO co-redentora do gênero humano. 

   Se o termo está bem ou mal empregado - é uma questão de gramática e de linguagem. Mas os católicos nada querem significar além do que está exposto, quando dão a Maria Santíssima o aludido título. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

SANTO NATAL

   Aos caríssimos e amados fiéis de minha reitoria, aos leitores e seguidores de meu blog desejo um FELIZ E SANTO NATAL, repleto de graças e bênçãos escolhidas do Menino Deus e de Sua Mãe Santíssima!

 "Sendo rico, fez-se pobre  para que, com Sua pobreza nos enriquecesse a todos" (2 Cor. VIII, 9).

   Jesus nasceu pobre; é aos pobres que se manifesta primeiro; eles recebem seus primeiros favores, assim como serão sempre o objeto de sua predileção. Envia Anjos por embaixadores, não a monarcas poderosos, mas a pastores, a homens simples, trabalhadores e vigilantes. Viverá com eles e no meio deles durante trinta anos. Quando chegar o tempo de pregar o reino de Deus, a eles se dirigirá primeiro porque é por causa deles que seu Pai o enviou: "Enviou-me para evangelizar os pobres". Já dali de seu trono, a mangedoura de palhas, Ele nos ensina que os bens deste mundo, o dinheiro e as riquezas, não são a felicidade. Que os ricos aprendam a caridade e o desapego desses bens passageiros; e os pobres aprendam a libertar o coração de qualquer inveja e cobiça.
   Mas Jesus não despreza os ricos e os sábios. Chamou através de uma estrela, os Reis Magos do Oriente, para arrancá-los das trevas do erro e ensinar-lhes a Fé católica. Jesus já condenava o ecumenismo que tenta parificar as religiões. Jesus, outrossim, combate a luta de classes: pois, ali estão os pobres - os pastores; e também os ricos - os Reis. Todos tem o seu lugar no coração do Menino Jesus.
   Verdadeiramente, o Nascimento de Jesus é motivo de alegria para todos. Basta ter boa vontade de segui-Lo. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. O mistério do Natal só inspira confiança. O Céu hoje só tem bênçãos a derramar sobre a terra. É por causa da humanidade que nasceu, é por nossa causa que é Salvador. Se os nossos pecados ainda clamam vingança, os vagidos que partem do presépio, chegam até ao coração do Pai das misericórdias. Paz nos corações de todos os homens! Jesus vem expulsar deles os remorsos que os atormentam, as paixões que os agitam. E que nos pede para gozarmos desta paz? A boa vontade; uma vontade decidida, não uma veleidade, que não é uma vontade boa. Os Anjos não dizem: Paz às almas justas e inocentes; paz aos Santos penitentes, que expiaram os seus pecados; mas dizem: Paz aos homens de boa vontade! Desde que eu esteja disposto a conformá-la com a vontade de Deus, tenho direito a contar com a paz. Tanto os pastores como os Reis Magos tiveram esta boa vontade. Mas na verdade, os pobres entendem melhor a linguagem da cruz, acostumados como estão às privações e sofrimentos. Todos correram a visitar Jesus. Consta que só três Reis foram fiéis: "Vimos a estrela e viemos adorar o Rei dos Judeus".
   Hoje vamos considerar o exemplo dos pastores. Na Epifania, se Deus quiser, falaremos mais dos Reis Magos.
   Os pastores são cercados de refulgente luz; vêem um Anjo e têm muito temor, mas é substituído logo pela confiança: "Não temais, diz o espírito celeste, anuncio-vos uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje em Belém o Salvador. Mas como reconhecereis vós este Messias tão ardentemente desejado durante séculos? São três os sinais, ou sejam, as insígnias de sua grandeza, de sua realeza: a humildade; a pobreza; a mortificação dos sentidos. Diz o anjo: "Invenietis infantem, pannis involutum, positum in praesepio". Invenietis infantem: encontrareis um menino recém-nascido que não fala - é a humildade. Jesus é o Verbo ou a Palavra do Pai, mas aqui não fala, só sabe chorar. Pannis involutum: envolvido em pobres paninhos - é a pobreza. E Ele é o Verbo pelo qual foram feitas todas as coisas, todo ouro, todas as pedras preciosas. Positum in praesepio: colocado numa mangedoura - é a mortificação dos sentidos. Deixou o Céu, a Pátria do Repouso eterno, da Glória infinita, e está aqui sobre palha, exposto às intempéries.
   Os pastores crêem nas palavras do Anjo, por mais opostas que sejam a todos os juízos humanos; confiam na sabedoria, no poder, na bondade de Deus. E vão ver e adorar esse Salvador recém-nascido. Partem, apressam-se. Ó prudente docilidade! Ó santa prontidão! "Acharam Maria, José e o Menino, que estava reclinado no presépio". Eis o fruto de sua retidão e obediência. Longe de se entibiarem à vista desta pobreza, sentem ainda mais fervor em se aproximar de um Salvador, que se mostra tão acessível, e em honrá-Lo e contemplá-Lo. Ali ficaram extasiados por muito tempo. Entregavam seu coração ao Menino Deus, e deixavam-no atuar neles livremente, limitando-se a cooperar com a ação de Jesus, sem a estorvar. Imitemos esta candura, e Jesus orará em nós, como orou neles. Saem dali anunciando o Salvador por toda parte.
  Caríssimos e amados leitores, vamos sem demora ao Altar do Salvador! O Altar deve ser para nós hoje, o que o presépio foi para os piedosos pastores. Procuremos nos aproximar de Jesus com os mesmos sentimentos, dispondo-nos para ali receber não nos braços mas no coração Aquele mesmo Jesus, na Comunhão. Este o verdadeiro Santo Natal que desejo para todos vós! Amém!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O CORAÇÃO IMACULADO DE MARIA SANTÍSSIMA

   A devoção a este Coração Puríssimo tem por finalidade honrar o amor de Maria Santíssima encerrado porém no seu coração como em vaso precioso. O seu amor é a joia e o seu coração o cofre que a encerra. Na verdade, todo ato de culto tributado ao Coração de Maria, é um ato que abrange toda a sua pessoa.

   Consultando o Dicionário Bíblico pude verificar que o Divino Espírito Santo nas Sagradas Escrituras emprega a palavra "coração" por mais de 600 vezes. Julgo, no entanto, suficiente citar uma única passagem: "Praebe, fili mi, cor tuum mihi" (Prov. 23, 26). Em Português: "Dá-me, meu filho, o teu coração". Com esta palavra, Deus está pedindo todo o nosso ser.

   Beijamos a mão de um superior, mas sabemos que com este gesto queremos demonstrar o nosso respeito e afeto a toda a sua pessoa e não apenas à sua mão. Assim, comparando, ao honrarmos, ao prestarmos um culto de veneração ao Coração de Maria Santíssima, temos em vista honrar  toda a grandeza e santidade de sua pessoa. Queremos honrar e venerar sobretudo o seu amor do qual o coração é símbolo. Olhemos para o Coração de Nossa Mãe do Céu e não esqueçamos que ela é também Mãe de Deus. Deus empregou o sua onipotência, a sua sabedoria e todo o seu amor ao preparar o Coração de Sua Mãe Santíssima. É a obra-prima saída das mãos de Deus Onipotente. Se Maria Santíssima havia de amar a Deus e aos homens com um amor só inferior ao de Deus, como seria o coração que encerraria tal amor? 
   O coração de carne de Maria Santíssima (objeto material desta devoção) foi o instrumento de que se valeu o Espírito Santo para a Encarnação. Daquele Coração puríssimo e imaculado, brotou o sangue preciosíssimo de que se formou o corpo sacrossanto e até o próprio Coração Sacratíssimo de Jesus! Ali formou o Altíssimo aquele sangue que Jesus havia de oferecer na cruz pela salvação da humanidade.

   Não podemos conceber nenhum mistério da vida da Santíssima Virgem ao qual não correspondam neste Coração novas pulsações. O Coração Imaculado de Maria era o órgão sensível do seu amor, como instrumento que recebia todas as impressões do corpo e da alma para se transformar em amor, para se abrasar cada vez mais no fogo do amor de Deus e do próximo. Por isso o representamos encimado de chamas.

 Caríssimos, na verdade a devoção ao Imaculado Coração de Maria é o melhor caminho , a melhor preparação para a prática da devoção ao Coração de Jesus. "Eis o Coração que tanto amou os homens", disse Jesus, para nos incitar ao seu amor. Pois bem, depois do de Jesus, nenhum coração nos amou como o de Maria, nenhum coração pode servir-nos de modelo como o de Maria. Portanto, a devoção ao Coração de Jesus, exige uma devoção terna ao Coração da Santíssima Virgem. E esta é a vontade de Deus. Daí, estes dois Corações, o de Jesus digno de toda veneração e também adoração na Eucaristia; e o de Maria, digno não de adoração mas de uma veneração toda especial, isto é, digno de uma hiperdulia, devem estar sempre juntos. Esta é a vontade de Deus. Neste particular podemos também dizer: "Não separe o homem o que Deus uniu". Como disse São Luiz Grignon de Montfort: "Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele deve reinar no mundo". Assim podemos dizer que o próprio Deus deseja que o Sacratíssimo Coração de Jesus reine no mundo através do Imaculado Coração de Sua Mãe Santíssima. Devemos, pois, pedir ao Coração Imaculado da Santíssima Virgem que nos ensine a conhecer e a amar o Coração Divino de Jesus.

   Sabemos pela Sagrada Teologia que Maria Santíssima, pela sua dignidade de Mãe de Deus, foi introduzida na participação do mesmo Deus, quanto isso é permitido a uma pura criatura.  Filha predileta de Deus Pai; Mãe amorosíssima de Deus Filho; Esposa santíssima e fidelíssima do Divino Espírito Santo. Teve um período na vida de Maria Virgem e Mãe em que realmente a vida de Deus era a vida de Maria. O Coração de Deus pulsava pelos impulsos do Coração de sua Mãe Santíssima. E, por isso era tal a união entre os dois Corações, que viviam uma vida perfeitamente comum.

    O único Coração que ama a Deus com o amor que merece é o Coração Sacratíssimo de Jesus, e depois, mas juntamente com Ele e por Ele, o puríssimo Coração de Maria Santíssima. A sempre Virgem Maria poderia dizer com muito mais razão e propriedade do que São Paulo: "Vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus que vive em mim". Aí fica patente a santidade do Coração de Maria! Pois, a santidade consiste na participação de Deus, no amor que transforma a alma em Deus, em chegar a ser uma verdadeira imagem de Deus. O Coração de Maria é o tabernáculo da divindade, o templo vivo onde Deus se dignou fixar a sua morada. Donde, tudo neste Coração é santo, nada há nele, até o mais imperceptível movimento, que o não seja: pensamentos, desejos, amores, palavras, obras, tudo, tudo é santo. Digno Coração da digna Mãe de Deus! E toda língua se cale! E se o Coração de Maria Santíssima é santo com a santidade participada de Deus, é também formosíssimo com a beleza de Deus. Santo Agostinho define a beleza como: O esplendor da ordem". Haverá ordem no coração e em todo o nosso ser, quando se seguir a vontade de Deus, manifestada interiormente pelos impulsos da graça e pelas inspirações divinas. Tudo que Deus fez era bom, estava tudo em ordem. Reinava a paz. O pecado trouxe a desordem. O coração humano abusando do poder da sua vontade, e do dom da sua liberdade, desprezou esta ordem divina e passou a viver em contínua desordem.  Pois bem! O Coração de Maria é puríssimo e imaculado desde o primeiro instante de sua existência. Que ordem, que paz, que beleza, que simplicidade reúnem-se no Coração Imaculado de Maria! No Coração de Maria Santíssima temos o modelo que Deus nos concede, não só para que o admiremos, mas sobretudo para o imitarmos. 
Imagem de Nossa Senhora das Dores
Encontra-se na 13ª estação da Via-Sacra,
no Monte Calvário. Foi doada, assim como grande parte
dos presentes em ouro e pedras preciosas, por D. Maria I
 Rainha de Portugal.
   Mas o Coração de Maria tinha de ser um Coração de Mãe, mas de Mãe Dolorosa. Seu Coração aparece sempre trespassado por uma espada cruel e penetrante. Representamo-lo também cercado de rosas. Mas não esqueçamos que debaixo das rosas estão os espinhos. Segundo as profecias, Jesus devia ser o Homem das dores. Como foi da vontade de Deus que sua Mãe fosse Corredentora, assim ela devia ser também a Mãe das dores. Não devia sofrer em seu corpo tormentos físicos; e por isso todos os sofrimentos se lhe acumularam forçosamente no Coração. De acordo com os Santos Padres, todos os padecimentos sofridos por Jesus em seu Corpo Sacrossanto, sofreu-os Maria todos, um por um, no seu Coração Imaculado de Mãe. Como uma sacerdotisa, estava de pé junto à cruz de seu Divino Filho, oferecendo-O, segundo a vontade do Pai, como vítima pela salvação dos homens; oferecendo em consequência, igualmente o seu Coração Imaculado para ser transpassado por aquela espada de dor predita pelo velho Simeão, para que desta ferida aberta na sua alma, nascêssemos todos nós, os filhos de sua dor. Diante de seus olhos, Jesus foi morrendo aos poucos derramando gota a gota, todo o seu sangue. E, assim, vendo extinguir-se a Vida que ela gerou sem dor, deu-nos a vida, gerando-nos na dor.  Nossa Senhora é nossa  Mãe espiritual. O amor de seu Puríssimo Coração por nós, é amor de mãe. Sabemos o que isto significa. Tudo o que na terra é amor, está compendiado no coração de uma mãe. O próprio Deus, quando quer falar do seu amor aos homens e que estes saibam até onde chega o seu amor,compara-se a uma mãe: "Será possível a uma mãe esquecer o seu filho"? O coração de mãe é como um  oceano de amor que não tem limites.

   E, caríssimos, quem mais mãe do que a Virgem Santíssima? Se é Mãe de Deus!!! e mãe de todos os homens, como será então os seu Coração? Que amor nele haverá!!! Há sim maravilhas infinitas! Depois, devemos considerar que o Filho de Deus era exclusivamente seu filho, sem intervenção de nenhuma outra paternidade, além da de Deus; por isso é mais mãe que nenhuma outra mãe: Deus e Ela, ninguém mais interveio nesta admirável maternidade. Mãe alguma pode dizer com maior razão do que Ela, ao estreitar o filhinho sobre o coração: "és meu e todo meu".
   E nunca certamente o Coração de Maria esteve separado em seu amor, do de seu divino Filho! Ele foi principalmente o objeto do seu amor. Mas n'Ele e com Ele e também num sentido certo e verdadeiro, éramos outrossim seus filhos. Que amor do seu Coração maternal para conosco! Na verdade, com o seu fiat na Anunciação Maria aceitou ser Mãe de Deus e Mãe nossa. Sabendo que esta era a vontade de Deus, o seu Coração amantíssimo abraça-se com as duas maternidades .   Deus é nosso Pai amantíssimo e bondoso. O Coração misericordiosíssimo da Santíssima Virgem é efeito desta bondade e deste amor de Deus para com os homens. É um Coração compassivo que sente como próprias as necessidades e misérias alheias; um Coração misericordioso que chora com os que choram, sofre com os que sofrem e também alegra-se com os que estão alegres. Basta pensarmos nas Bodas de Caná, na visita a sua prima Santa Isabel, no Calvário, no Cenáculo após a Ressurreição e Ascensão de Jesus.  Que exemplo maravilhoso de bondade! O Coração de Maria Santíssima nunca desanima, nem se cansa. Espera sempre, confia sempre em poder remediar a situação dos filhos. Como que voa por toda parte fazendo o bem!
   Maria Santíssima é a Onipotência Suplicante e emprega-a total e generosamente para socorrer os seus filhos. E a compaixão de Seu Coração nunca é inútil, como acontece frequentemente com as outras mães que desejam fazer o melhor pelos seus filhos, mas não sabem ou não podem.
   E o mais admirável é que esta misericórdia maternal de Nossa Senhora não terminou com a morte, como sucede com a das mães terrenas. Agora que está no céu o seu Coração é o mesmo. Se alguma mudança sofreu no Céu o Coração de Maria, foi para ser ainda mais compassiva, mais clemente e misericordiosa para se aproveitar melhor da sua condição de Imperatriz em favor dos degredados filhos de Eva.

   "CORAÇÃO IMACULADO DE MARIA! SEDE A NOSSA SALVAÇÃO JUNTO AO CORAÇÃO DE JESUS! AMÉM!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

NOSSA SENHORA DE QUADULUPE

PADROEIRA DA AMÉRICA
                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

Amanhã festejaremos Nossa Senhora de Guadalupe, patrona do México e Padroeira da América Latina, por ter ocorrido a sua aparição nos primórdios do Novo Mundo.
Em 1531, um índio convertido, Juan Diego, a caminho da Missa na missão franciscana, nos arredores da cidade do México, recebeu um chamado para subir à colina de Tepeyac, onde viu uma jovem de radiosa beleza, que o encheu de felicidade e lhe disse: “Eu sou a sempre Virgem Mãe do Deus verdadeiro, no qual vivemos, Criador e Autor do Céu e da Terra. É meu desejo que se construa aqui um templo em minha honra, onde eu derramarei o meu amor, socorro e proteção...”. E disse-lhe que fosse à casa do Bispo, transmitindo-lhe o seu pedido.
O Bispo o recebeu, mas não acreditou muito na sua história. Juan Diego foi dizer à Senhora que arranjasse outra pessoa mais digna para essa missão e não ele, pobre índio. A Senhora lhe disse que poderia ter escolhido outros, mas o queria para essa incumbência. Voltou ao Bispo, o qual lhe disse que deveria pedir à Senhora um sinal como prova de que ela era a Mãe de Deus. A Senhora mandou que ele colhesse ali, naquela colina rochosa e árida, onde nem vegetação havia, no frio do mês de dezembro, abundantes rosas de cor e perfume maravilhosos, as colocasse em sua manta e as levasse ao Bispo, como sinal. Apresentando-se ao Bispo, derramou na sua presença as rosas e o prelado caiu de joelhos maravilhado, não tanto pelas rosas, mas por algo mais extraordinário: na manta de Juan Diego aparecia impressa com beleza surpreendente a Senhora que o pobre índio tinha visto na colina de Tepeyac. Era o dia 12 de dezembro de 1531.
Essa manta do índio é a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, venerada por milhões de peregrinos no grande Santuário construído em sua honra, imagem que se constitui em um grande milagre até hoje. Sábios, técnicos, pintores e especialistas, usando os meios modernos da Química, Física e Raios X, não foram até hoje capazes de explicar como é que se combinam na mesma pintura a aquarela e o óleo, sem vestígio de pincel. O tecido, feito de cacto, não dura mais de 20 anos e este já dura há mais de quatro séculos e meio. A imagem nunca foi retocada e até hoje os peritos de pintura e química não encontraram na tela nenhum sinal de corrupção. Com a invenção e ampliação da fotografia, descobriu-se um prodígio ainda maior: tal como a figura das pessoas com quem falamos se reflete nos nossos olhos, foram descobertas três figuras refletidas nos olhos de Nossa Senhora, na tela. Exames feitos com todo o rigor científico por oftalmologistas americanos concluíram que essas três figuras não são pinturas, mas imagens gravadas nos olhos de uma pessoa viva. As três imagens são João Diego, o intérprete e o Bispo.
Por sua fidelidade, fé simples e humildade, Juan Diego foi canonizado pelo Papa São João Paulo II em 2002.  O nome “Guadalupe” em espanhol é a tradução da frase asteca que significa “aquela que esmaga a serpente”, a quem os astecas costumavam oferecer sacrifícios humanos. Nossa Senhora de Guadalupe é também invocada como protetora dos nascituros.

                                                                                                                                                                                 *Bispo da Administração Apostólica Pessoal
                                                                                                                                                                                                   São João Maria Vianney

                                                                                                                                                                                     http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

domingo, 8 de dezembro de 2019

PIO IX DEFINE EM 1854 O DOGMA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA SANTÍSSIMA VIRGEM E QUATRO ANOS DEPOIS N. SENHORA APARECE EM LOURDES

Um só acontecimento bastaria para tornar o Pontificado de Pio IX eternamente célebre na Igreja: é a Definição do Dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, pronunciada a 08 de dezembro de 1854, na presença de 200 bispos, formando a mais augusta assembléia eclesiástica, havida desde o Concílio de Trento.
   "É raro, diz o Padre Rivaux, que a Igreja defina um dogma para satisfazer somente aos piedosos desejos e à devoção dos fiéis. O motivo deste ato de poder, o maior que se possa exercer sobre o homem, foi sempre a condenação de algum erro perigoso; por isso os espíritos mais justos notam uma ligação e relação íntimas entre a definição dogmática da Imaculada Conceição e a condenação de todos os erros monstruosos, que infeccionavam o mundo, de sorte que uma dessas duas coisas não pode fazer-se sem a outra.
   Desde o aparecimento do protestantismo, a guerra contra a Igreja tomou proporções gigantescas. Dessa grande heresia, continua o Padre Rivaux, nasceu o racionalismo, primeiramente teológico, depois teológico e filosófico, mais tarte teológico, filosófico e político, e finalmente teológico, filosófico, político e social. Este racionalismo, aplicado de mil modos pelas seitas modernas e sociedades secretas, abrange ao mesmo tempo o homem religioso e social, e forma um vasto sistema de erros, que invade e corrompe religião, moral, ciências, literatura, artes, política, família, tudo enfim, e ameaça arrancar de seus fundamentos toda a sociedade humana, para a reconstruir segundo as suas utopias, e dar-lhe uma nova organização humanitária.
   "O princípio fundamental deste racionalismo de mil formas é a deificação da razão humana, que uns elevam ao nível e outros acima do dogma e da verdade revelada, e que finalmente os panteístas identificam com Deus mesmo. Deus confundido com o grande todo não subsiste e não se revela como pessoa senão na humanidade inteira; e os indivíduos da espécie humana somente dele são partículas ou modificações finitas e transitórias. - Como se vê, é um regresso para a antiga e absurda mentira de Satanás, tentando enganar a primeira mulher por estas palavras: Sereis com uns deuses.
   "A conseqüência inevitável deste monstruoso sistema, ou antes o seu fundamento lógico necessário, é a negação do pecado original. Porque, segundo este sistema, o homem é isento de corrupção, é perfeito, é santo de sua natureza; os seus instintos, sejam quais forem, são bons e divinos, etc. Se no presente ele parece miserável e degradado, deve isto atribuir-se ao vício das leis sociais e religiosas. Cumpre pois curá-lo desses estorvos, emancipar a humanidade e reconstruí-la num estado perfeito, segundo uma nova moral, uma nova ciência, uma nova Igreja, e uma associação universal de todos os povos. É por isso que se fala tantas vezes de futuros destinos da humanidade, da emancipação da mulher, da carne, e até mesmo de redenção nova etc.
    O Padre Rivaux fala em 1877 como se hoje estivesse explicando a nossa era, ou melhor dizendo, como se estivesse expondo a "NOVA ERA", "NEW AGE". Um dia, se Deus quiser, falaremos mais sobre isto.
   "Assim perfeito e santo de sua natureza, continua o Padre Rivaux, o homem não precisou de redenção. Em conseqüência, Jesus Cristo não foi senão um filósofo humanitário, encarregado unicamente de uma missão civilizadora e terrestre. Atribuíram-lhe depois falsamente as prerrogativas e os caracteres do deus humanidade, donde o seu nome de Deus-Homem ou Homem-Deus. - A sua história católica não é mais que um complexo de mitos, etc.
   "O nosso último destino, a nossa suprema felicidade acha-se neste mundo, e só por um progresso indefinido e fatal se deve alcançar, etc. - É desta maneira que blasfemam, renegam a Jesus Cristo, e que alguns sábios, em nome do progresso, nos fazem retroceder até ao paganismo mais absurdo e grosseiro. E este paganismo moderno, proveniente, não de se ter ignorado o Evangelho, mas de se ter conhecido e renegado será pior que o antigo, um mal quase irremediável, segundo este oráculo de São Paulo: "É impossível que os que foram uma vez iluminados, e depois disto caíram, tornem a ser renovados pela penitência". Tal é o resumo, tais são as conseqüências desastrosas e ímpias dos erros modernos. Em suma, nega-se o pecado original quer em si e seus efeitos, quer na reparação, que recebeu por meio de Jesus Cristo.
   "Mas o dogma do pecado original com os seus estragos no homem, e o dogma da redenção divina que os repara, foram já definidos pela Igreja. Por outro lado, é tal o estado da sociedade, é tamanho o resfriamento da fé, tão universal o da caridade, que se julgava, que se não podia esperar grande resultado da renovação das antigas definições, nem de uma condenação formal e solene dos principais erros modernos. O mal parecia exigir uma medida oportuna e sábia, que esclarecesse os espíritos e servisse ao mesmo tempo para inflamar os corações dos fiéis. Ora, a Igreja não podia melhor conseguir este fim do que definindo o dogma da Imaculada Conceição, no qual se acham encerradas e como personificadas todas as verdades do catolicismo, diretamente opostas aos numerosos erros do racionalismo moderno.
   "Com efeito, se Maria, por um privilégio único foi preservada do pecado original, segue-se, que a posteridade de Adão não é nem pura nem santa na sua origem; mas que é viciada e culpável, e precisa de um Redentor. - Se Maria foi preservada, porque devia ser Mãe de Deus, segue-se que Jesus Cristo, seu filho, não é um filósofo  humanitário ou uma pura ideia: é verdadeiramente Deus, unindo na pessoa simples e única do Verbo a natureza  divina e a natureza humana. - Se é à dignidade e aos méritos de Jesus Cristo, seu Filho, reparador da humanidade decaída, que Maria deveu a sua preservação, segue-se, que a missão de Jesus Cristo não foi uma missão terrestre e meramente social, mas sim celeste e sobrenatural: isto é, remir o homem pecador, tirá-lo da morte do pecado, livrá-lo da escravidão do demônio.
   Aqui o Padre Rivaux condena antecipadamente a TL e o MST. Basta o bispo de Campos estudar a verdadeira Teologia!
   "Logo, a graça que Jesus Cristo veio trazer-nos não é a civilização política, mas a fé, a vida sobrenatural, a dignidade de filhos adotivos de Deus; logo a felicidade, para a qual veio encaminhar-nos, não é a felicidade temporal desta vida, mas a felicidade eterna do céu; logo a terra é um lugar de transição, de exílio, de expiação, de luta entre a carne viciada pelo pecado e o espírito ajudado da graça de Jesus Cristo, e por conseqüência todos os atos do homem, que tendem a diminuir nele os ardores da concupiscência, fruto do pecado, e a reformar as suas paixões revoltadas: assim como a oração, as obras de mortificação e de penitência, não são exagerações da idade média, excessos de um misticismo exaltado, mas sim os justos meios de aplicação, e como o complemento da Paixão de Nosso Divino Redentor, como ensina o grande Apóstolo das nações (Coloss. I, 24). - Concluamos ainda que, se o homem, desde a sua origem, foi pecador ou prevaricador, não é independentemente de sua natureza; logo há uma lei superior, a que deve obedecer; logo são falsas as máximas da pretendida liberdade absoluta do homem, da independência do seu pensamento, da soberania da humanidade e da opinião, etc.
   "Pelo que precede se vê quantas verdades importantes se acham encerradas e concentradas na da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem, e quantos erros perniciosos dos nossos tempos foram condenados pela definição deste dogma. - Assim se verifica cada vez mais o que a Igreja canta em honra de sua gloriosa Rainha: "Ó santa Virgem, só vós exterminastes todas as heresias no universo inteiro": Cuncta haereses tu sola interemisti in universo mundo".
   "Uma dupla manifestação provocada pela definição deste dogma em oito de dezembro de 1854 provou bem esta verdade consoladora: a manifestação odienta e violenta da incredulidade, e a manifestação filial e jubilosa dos fiéis. O dragão infernal de novo esmagado sob o pé da Virgem não podia deixar de soltar gritos de furor; incapaz de cantar a beleza de Maria Imaculada, o monstro esforçou-se inutilmente por manchá-la e feri-la no calcanhar: insidiaberis calcaneo ejus.
   "Mas por outro lado e ao mesmo tempo, os filhos da Igreja e da verdade exultaram de alegria e de felicidade. Os entusiasmos de Éfeso empalidecem e desaparecem perante os fogos de júbilo e de triunfo, que todo o mundo católico espontaneamente acendeu em honra da Imaculada Virgem Maria. - Este consolador dogma foi proclamado na cidade eterna, donde a vista de Maria abrange todo o universo católico, como o poder divino que ali se exerce; e as cidades e as aldeias imitam a Igreja Mãe e Senhora. - Deus, que recusara a proclamação da Imaculada Conceição às instâncias dos séculos de fé, tinha-a, em sua bondade, reservado para os nossos tempos, corrompidos e ameaçados por sofistas, sem dúvida para os curar e salvar. - Assim o procedimento da Igreja, a alegria dos fiéis, a raiva do inferno, o despeito, os sarcasmos e as blasfêmias da impiedade, tudo se explica naturalmente.
   "Foi tão agradável à Santíssima Virgem a definição deste dogma, que ela se dignou confirmá-la, pronunciando em 1858, estas palavras: "EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO", na memorável e tão misericordiosa aparição em Lourdes, que abriu para todo o mundo e particularmente para a França uma fonte inexaurível de milagres, de graças, e de bênçãos".
  

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

LICEIDADE E CONVENIÊNCIA DAS IMAGENS SAGRADAS

   Dirão os protestantes: O culto das imagens não consta absolutamente da Bíblia, por isto não o aceitamos. No Antigo Testamente não há nenhum vetígio desse culto. Os querubins, de que fala a Bíblia, eram para ADORNO  do templo, não para ser cultuados. A serpente de bronze serviu para curar os que estavam feridos pelas serpentes (Números XXI, 8 e 9). Mas quando os filhos de Israel começaram a queimar incenso diante dela, o rei Ezequias a fez em pedaços. E a Bíblia o louva por causa disto: "Ele fez o que era bom na presença do Senhor" (2 Reis, XVIII, 3 e 4). E no Novo Testamento não consta absolutamente, nem que Jesus, nem que os Apóstolos, nem que nenhum cristão mandasse fazer imagens ou a elas prestasse culto. Logo, o culto das imagens desagrada a Deus.
   RESPOSTA: Caros amigos: Uma coisa é não se fazer um ato porque é pecado, porque desagrada a Deus. E outra coisa muito diferente é não se fazer um ato porque EM DETERMINADAS CIRCUNSTÂNCIAS NÃO É PRUDENTE, NEM CONVENIENTE e pode tornar-se uma ocasião para o pecado.
   É preciso ver a situação em que estava o mundo DURANTE TODO O TEMPO ANTES DE CRISTO. Todas as nações estavam mergulhadas na idolatria, adorando estátuas de deuses falsos, como se fossem o verdadeiro Deus, e apenas um pequenino povo adorava o Deus Único, Invisível e Eterno.
   Este pequeno povo, que era o povo hebreu, estava completamente cercado de nações idólatras e além disto tinha uma inclinação tremenda para a idolatria. Basta dizer que, depois de ter Deus manifestado tão estrondosamente a sua glória no monte Sinai, o povo, vendo que Moisés tardava de descer do monte, se ajuntou contra Arão e disse: Levanta-te, faze-nos DEUSES que vão adiante de nós, porque não sabemos o que aconteceu a Moisés (Êxodo XXXII, 1). E feito o bezerro de ouro, exclamava: "Estes são, ó Israel, os TEUS DEUSES  que tiraram da terra do Egito"(Êxodo XXXII, 4). Teríamos dificuldade em acreditar nisso, se não fosse a Bíblia que o estivesse dizendo.
   Basta ler qualquer parte do Antigo Testamento, para ver a facilidade com que o povo caia na idolatria, à qual não escapou, apesar de sua imensa sabedoria, o próprio rei Salomão, que inclusive escreveu livros da Bíblia Sagrada.
   Pois bem, nestas circunstâncias, nesta situação tão delicada, Deus tinha um cuidado todo especial em evitar qualquer coisa que, mesmo de longe, pudesse dar ocasião a que os judeus se entregassem àquele culto dos ídolos, a que eram tão fortemente inclinados. Por isto tinha que privar a este povo e, se assim se pode dizer, privar-se a si mesmo de coisas que eram LÍCITAS, que eram JUSTÍSSIMAS, que eram SANTAS, para evitar o perigo da idolatria. 
   Só vou dar um exemplo: Deus, quando se revelou no monte Horeb, podia ter-se manifestado sob uma forma sensível, sob a aparência de alguma coisa material? Sim, podia. Tanto podia, que se encarnou em Jesus Cristo homem e viveu aqui na terra trinta e três anos. Tanto podia, que o Espírito Santo apareceu em forma sensível, na figura ou semelhança de uma POMBA (S. Lucas, III, 22). 
   Entretanto Deus, ao revelar-se no monte Horeb não tomou nenhuma forma sensível para se manifestar e, se assim procedeu, não foi porque isto fosse ilícito, mas para evitar aos judeus o perigo da idolatria. É a própria Bíblia que dá esta explicação: "Vós não vistes figura no dia em que o Senhor vos falou em Horeb do meio do fogo, por não suceder que enganados façais para vós alguma imagem de escultura ou alguma figura de homem ou de mulher, nem semelhança de qualquer animal que há sobre a terra ou das aves que voam debaixo do céu, ou dos répteis que se movem na terra ou dos peixes que debaixo da terra moram nas águas; não seja que, levantando os olhos ao céu, vejas o sol e a lua e todos os astros do céu, e, caindo no erro, adores e dês culto a essas coisas, que o Senhor teu Deus criou para serviço de todas as gentes que vivem debaixo do céu". (Deuteronômio, IV, 15 a 19). 
   Hoje é muito comum colocar-se na rua as estátuas dos grandes homens, dos grandes heróis da nossa Pátria e, em certos e determinados dias, prestar-se uma homenagem à memória destes homens, cobrir de flores as suas estátuas, fazer-se discursos etc. Isto é muito lícito e muito natural e nestas manifestações públicas feitas a um homem perante a sua estátua, o que é o mesmo que dizer, perante a sua imagem, tomam parte também os próprios protestantes, como cidadãos e patriotas que são, porque sabem muito bem que nisto não há nada de mais, que aí não há nenhuma idolatria. Talvez haja fanáticos que não o façam, mas isto é outra questão. 
   Pois bem, esta mesma cena realizada outrora no seio do povo judaico, seria completamente inconcebível. Terem os judeus, nas praças públicas, estátuas de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés e prestar-lhes homenagens, cobri-las de flores - não se consentiria de forma alguma. Por que? Por que era ilícito? Se é lícito hoje, também o podia ser naquele tempo. Isto não se consentiria, porque seria uma grandíssima imprudência; o povo não estaria em condições de bem compreender o sentido de tais homenagens e aquilo fatalmente iria dar numa indébita adoração à criatura, pecado este de que o mundo estava cheio naquela época. 
   Por isto se explica muito bem o fato de não ter havido entre os judeus nem o culto dos santos, nem o culto das imagens. O povo não tinha capacidade para distinguir entre uma simples veneração e a adoração propriamente dita. Lemos na Epístola de S. Judas Tadeu, versículo 9, que o Arcanjo Miguel contendeu com o diabo e disputou a respeito do corpo de Moisés. Segundo os intérpretes, o diabo certamente queria levar o povo a idolatria, porque Moisés foi um homem super extraordinário, e o povo com aquela terrível inclinação para a idolatria, poderia acabar adorando seus restos mortais. Hoje, veneramos com muito respeito e carinho os túmulos de nossos entes queridos e, graças a Deus, não há mais o mínimo perigo de idolatria.
   Foi natural, portanto o gesto do rei Ezequias, ao fazer em pedaços a serpente de bronze. Mas, se os judeus soubessem que aquela serpente de metal era figura do Messias, Jesus Cristo Salvador Nosso, pendente da haste da cruz e queimassem incenso e se curvassem diante dela exclusivamente com o pensamento de homenagear, através de seu símbolo, Aquele que havia de morrer por nós para nos salvar da mordida da serpente infernal, ou seja do pecado, assim como a serpente de bronze curara a muitos de seus ferimentos, Deus não se incomodaria com isto, porque Ele só podia achar justa, santa e razoável uma homenagem prestada a seu Divino Filho.
   Mas não era, nem podia ser com este pensamento que os judeus queimavam o seu incenso; aquilo, se já não era idolatria, estava arriscado a sê-lo. Por isto foi preciso fazer desaparecer a serpente de metal. Vejam bem que foi o próprio Deus que mandou fazer aquela serpente de metal, mas para ser venerada e não adorada como se a cura viesse diretamente daquela imagem ou semelhança de serpente e não de Deus através dela, que como o próprio Jesus vai dizer mais tarde, O simbolizava suspenso na Cruz. Assim veneramos as imagens não pelo que elas são em si, mas pelo que elas representam. E Deus também faz milagres, através das imagens, como aconteceu e acontece em quase todo o mundo. No Brasil temos a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Quantos e quantos milagres! Alíás desde a pesca milagrosa após o seu encontro nas águas do rio Paraíba. A nossa veneração não pára na imagem, dirige-se a Nossa Senhora, Mãe de Jesus e que está viva no céu. E mesmo assim, não adoramos a Nossa Senhora; adoramos a Nosso Senhor Jesus Cristo porque Ele é Deus, igual ao Pai e ao Espírito Santo. A Nossa Senhora, justamente por ser a Mãe de Deus, nós a veneramos e acima dos demais santos. Isto se chama CULTO DE HIPERDULIA.
   Para teminar quero fazer mais uma observação: Não foi num dia que o paganismo idólatra deixou de dominar o mundo. A substituição do paganismo  pelo Cristianismo foi-se processando progressivamente no decorrer de alguns séculos. E no tempo em que viviam os Apóstolos a situação era praticamente a mesma que tinha existido antes de Cristo: o mundo ainda estava mergulhado na idolatria. Se aparecessem os Apóstolos mandando fazer imagens de Jesus Cristo e reverenciá-las, seria a maior das imprudências: uma vez que, como explicamos, este culto não é necessário para a salvação, mas apenas um método, um meio para instruir, para excitar à devoção, a imagem naqueles tempos seria totalmente contraproducente. Não só causaria repugnância aos judeus, mas iria fazer uma confusão tremenda na cabeça dos pagãos, os quais não lhe saberiam compreender o verdadeiro sentido e pensariam que, à semelhança deles, os cristãos também tinham seus ídolos.
   Vamos provar, se Deus quiser, na próxima postagem que o uso das imagens foi aparecendo aos poucos através dos séculos da era cristã.
    
  

AS IMAGENS ATRVÉS DOS SÉCULOS DA ERA CRISTÃ

   O uso das imagens tinha que vir aparecendo, portanto, pouco a pouco, de acordo com as circunstãncias. Daí se explica, por exemplo, que os primeiros cristãos não tivessem imagens nas suas igrejas abertas ao público, que aliás não eram numerosas naqueles tempos de tremenda perseguição, como foram os 3 primeiros séculos da nossa era. Não só as imagens e símbolos serviriam para denunciá-los, como também podiam ser mal interpretadas pelos pagãos que os vissem, os quais poderiam pensar que os cristãos apenas tinham mudado de ídolos. Daí também ser no princípio restrito o uso às imagens pintadas, para depois se passar às imagens de escultura.
   Mas que as imagens, pelo menos de pintura, tenham sido usadas pelos cristãos dos primeiros séculos, não há dúvida alguma.
   Temos o testemunho valioso das catacumbas de Roma. Ali naqueles subterrâneos, que eram lugares também de culto coletivo, longe das vistas dos pagãos podiam os artistas cristãos entregar-se mais livremente à sua tarefa de reproduzir os personagens e os mistérios do Cristianismo. E assim é comum nas catacumbas encontrarem-se imagens em pintura do Bom Pastor, de Maria Santíssima e de alguns santos (entre os quais predomina São Pedro, que era muito conhecido em Roma, onde se estabeleceu e sofreu o martírio). Algumas destas imagens dão indícios de pertencerem ao 1º e ao 2º século; e outras em grande número são pertencentes com toda certeza aos séculos 3º e 4º.
   A Virgem Maria é quase sempre representada com seu Divino Filho nos braços, e a sua imagem mais antiga conhecida remonta no máximo à metade do século 2º; encontra-se na Capela Grega das Catacumbas de Priscila. A Virgem aparece juntamente com os três reis magos. Há outra imagem muito célebre, que tudo indica remontar a fins do século 2º, em que aparece a Virgem sentada com o Menino nos braços, vendo-se ao seu lado o profeta Balaão apontando para uma estrela. Outra figura de Maria, de cerca da metade do século 4º, apresenta-a como orante, de braços estendidos diante de seu Divino Filho e se encontra no fundo de um arcosólio no Cemitério Maior. Isso mostra não só o uso da imagens, mas também o apreço que os cristãos sempre tiveram à Mãe do Salvador.
   As estátuas ou esculturas já são frequentes em sarcófagos do século 4º e 5º; e há nas catacumbas, pelo menos, 2 estátuas do Bom Pastor que parecem ser anteriores à época de Constantino (portanto, no máximo, do século 3º).
   Passando o testemunho das catacumbas para o dos livros, como autores que testemunham a existência de imagens, temos no século 3º Tertuliano que fala no Bom Pastor representado nos cálices (De pudicitia VII, 10) e o historiador Eusébio de Cesaréia, que diz ter visto imagens pintadas de Jesus Cristo, de São Pedro e de São Paulo (História Eclesiástica VII, 18).
   Uma vez conseguida a paz no tempo de Constantino (313), passando o Cristianismo a usar da liberdade de culto no Império Romano, vai-se espalhando por toda a parte o culto à cruz , principalmente depois que a rainha Helena, mãe de Constantino, encontrou A VERDADEIRA CRUZ DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, a qual, no meio das outras duas, demonstrou a sua autenticidade por meio de um milagre; (ao tocá-lo numa doente grave, esta levantou-se imediatamente curada); e à proporção que se vai extinguindo o paganismo e, portanto, desaparecendo o perigo da confusão que poderia surgir entre os ídolos pagãos e as venerandas imagens de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos santos, vão aumentando em toda parte, pública e privadamente, o uso e o culto das imagens.
   Que do século 5º em diante já se começam a usar profusamente não só nas casas particulares, mas também nas igrejas públicas, e não só imagens pintadas, mas também esculturas, isto é um fato incontestável.
   Quando aparece no século 8º a heresia dos iconoclastas ou quebradores de imagens, fomentada pelos imperadores bizantinos, é logo condenada pelo 2º Concílio de Nicéia (que é Concílio Ecumênico, isto é, universal) reunido em 787. E é de notar que este Concílio apela, em favor do culto das imagens, para a TRADIÇÃO DA SANTA IGREJA CATÓLICA, ao mesmo tempo que acusa os iconoclastas de quererem introduzir uma novidade, indo de encontro às tradições eclesiásticas. Isto mostra como era antigo na Igreja este culto.
   Se o Imperador Carlos Magno entendeu, por razões políticas, de fazer coro com os imperadores bizantinos e isto produziu uma certa agitação no seio dos francos, a Igreja fez cessar esta perturbação com outro Concílio Ecumênico, o 4º Concílio de Constantinopla (869 e 870) em que reafirmou e redefiniu o que já havia sido determinado no 2º Concílio de Nicéia.
   Do 2º Concílio de Nicéia até os nossos dias, continuou cada vez mais propagado na Igreja Católica o culto das imagens. Aí estão os documentos históricos, os museus, as igrejas antiquíssimas da Europa para atestá-lo. E a prova é esta: por que os protestantes, aparecendo no século 16º faziam tanta grita contra o culto das imagens, provocando assim um novo pronunciamento no Concílio de Trento, senão porque este culto continuava a existir na Igreja Católica?
   O feitiço contra o feiticeiro. Quando os protestantes dizem que o culto das imagens é uma idolatria, quando dizem que, se há este culto é simplesmente porque o paganismo invadiu a Igreja, mostram apenas que NÃO CRÊEM EM NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. Podem perguntar porque digo isto. Eis o argumento: Jesus Cristo fundou a sua Igreja e prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a MINHA IGREJA, E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA" (S. Mat. XXVI, 18). Bem como mandou seus Apóstolos propagar A SUA IGREJA NO MUNDO TODO, por isso é chamada CATÓLICA,  que em grego significa "do mundo todo": "Ide, pois, ensinai TODAS AS GENTES (S. Mat. XXVIII,19) e prometeu sua proteção, sua assistência até o fim do mundo: "E estai certos de que EU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS ATÉ A CONSUMAÇÃO DO SÉCULO" (S. Mat. XXVIII,20).
   Como é que deixou esta Igreja Católica(=Universal) ficar durante mais de mil anos praticando A IDOLATRIA, invadida, como dizem os protestantes, por um grosseiro paganismo e só no século 16º  fez aparecer Calvino para remediar a esta situação? Neste caso, então A PALAVRA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO NÃO SERIA INFALÍVEL.
   A Igreja é a amada esposa de Cristo (Efésios, V, 25). Não se pode lançar sobre ela a gravíssima acusação de haver-se prostituído pela idolatria, sem ultrajar ao mesmo tempo o seu Divino Esposo que, tendo poder infinito, tão explicitamente prometeu velar sobre ela até a consumação do mundo.

A ADORAÇÃO EM ESPÍRITO E VERDADE

   É precisamente porque a adoração se processa no NOSSO ÍNTIMO, que Nosso Senhor disse estas palavras: "A hora vem, e agora é, quando os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em ESPÍRITO E VERDADE; porque tais quer também o Pai que sejam os que O adoram. Deus é espírito, e em espírito e verdade é que O devem adorar os que O adoram (S. Jo. IV, 23 e 24).
   Nosso Senhor Jesus Cristo se refere aí à transformação que vem trazer o Cristianismo, substituindo-se àquela religião de meras exterioridades em que tinha caído o judaísmo: "Este povo honra-me com os lábios; mas o seu coração está longe de mim" (S. Mat. XV, 8). "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e desprezastes os pontos mais graves da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. São estas coisas que era preciso praticar, sem omitir as outras" (S. Mat. XXIII, 23).
   Apesar de praticarem muitos atos exteriores de religiosidade, não praticavam os judeus A VERDADEIRA ADORAÇÃO; esta consiste em que a nossa alma esteja totalmente SUBMISSA A DEUS: a nossa inteligência, pela fé na sua palavra infalível; o nosso coração, pelo amor a Ele acima de todas as coisas; o nosso espírito, pela resignação à sua vontade; toda a nossa vida, pela exata observância dos seus mandamentos. Isto é que é realmente reconhecer a Deus como Supremo Senhor nosso e Supremo Senhor de todas as coisas.
   Verdadeiro adorador, em qualquer época, em qualquer país, é aquele que se acha no estado de GRAÇA SANTIFICANTE, isto é, em situação de amizade com Deus, com os seus pecados perdoados e com o firme propósito de jamais voltar a cometê-los. Porque aquele que está nos estado de pecado mortal não pode dizer, em toda a extensão da palavra, que RECONHECE O SUPREMO DOMÍNIO DE DEUS sobre sua alma; se reconhece em teoria, não quer reconhecê-lo na prática, nas suas ações, no seu modo de agir, antes se coloca sob a servidão do demônio, pois, como disse a Sabedoria Eterna: "Todo o que comete o pecado é escravo do pecado" (S. Jo. VIII, 34). E é por isto que diz São Paulo, a respeito daqueles que têm contaminadas tanto a sua mente como a sua consciência: eles confessam que conhecem a Deus, mas NEGAM-NO com as obras" (Tito, I, 15 e 16).
   A Igreja tem as belas cerimônias de sua liturgia, para a qual contribuem todas as artes: arquitetura, pintura, escultura, música, eloquência etc, todas a serviço da religiosidade que ela procura infundir nos seus filhos fiéis. Aliás, o centro de toda a liturgia é Jesus Cristo vivo realmente presente na Hóstia Consagrada, que é objeto de culto de latria, porque é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
   Mas, ao mesmo tempo que nos emociona com as suas cerimônias, ela nos lembra sempre que isto é um meio e não um fim; ela quer sobretudo chegar à PURIFICAÇÃO DA ALMA e à SUA TOTAL DEDICAÇÃO A DEUS. Esta purificação da alma se opera com a confissão bem feita, a qual SÓ É POSSÍVEL quando o cristão não só está sinceramente arrependido de seus pecados, mas está sinceramente resolvido, custe o que custar, a jamais voltar a cometê-los. Recuperando assim a GRAÇA SANTIFICANTE que havia recebido no Batismo, o católico se habilita a ser um VERDADEIRO ADORADOR numa total submissão a Deus, e quanto mais santo for interiormente, tanto mais perfeita será a sua adoração. Por isto a Igreja OBRIGA os fiéis a se confessarem ao menos uma vez cada ano; e insiste sempre pela prática da confissão freqüente e da comunhão, até quotidiana.
   Os protestantes, no seu velho sistema de interpretar as passagens da Bíblia tendo, antes de tudo, o pensamento de ver em cada uma destas passagens um meio de censurar a Igreja Católica, tomam a palavra de Jesus no sentido de que está condenado todo e qualquer culto externo e ficam satisfeitos com a idéia de que, tendo as paredes de suas igrejas completamente nuas e não tendo cerimônias impressionantes como o Catolicismo, são eles os únicos VERDADEIROS ADORADORES  a que se refere Jesus.
   Ma é o caso de perguntar: será isto que resolve a questão? Se ADORAR é reconhecer o supremo domínio de Deus, é reconhecer a Deus como Supremo Senhor da nossa inteligência, do nosso coração, da nossa vida, suponhamos que um protestante, com esta ampla autorização que tem, pelo LIVRE EXAME, de interpretar a Bíblia como bem entende, se põe a TORCER  a palavra de Deus, diante de uma doutrina de Jesus, em que não quer acreditar. Será um verdadeiro adorador? Não; porque não quer reconhecer a Deus, como Supremo Senhor de sua inteligência; em vez de adorar a Deus, Verdade infalível, adora o ídolo de sua opinião própria. Nem venham os protestantes afirmar que ninguém no Protestantismo TORCE as palavras de Bíblia. Pois todos dizem que se baseiam na Bíblia. Ora, a palavra de Deus é uma só. A verdade não muda. Mas, por que existem milhares de seitas protestantes? Enquanto algumas seitas aceitam certas coisas, outras negam. Baseados na Bíblia falam mal umas das outras. Conclusão lógica: é sinal de que aí neste meio há gente TORCENDO  o sentido da Bíblia.
   Suponhamos que mesmo com suas igrejas de paredes branqueadas e com a ausência de cerimônias litúrgicas, haja um protestante que vive enganando os outros em matéria de dinheiro, ou que vive escravizado a uma paixão carnal e desonesta. Será um verdadeiro adorador? Não; porque São Paulo é o primeiro a dizer que há pecados que equivalem ao culto dos ídolos: "Nenhum fornicador ou imundo, ou avaro, o QUE É CULTO DE ÍDOLOS,  não tem herança no reino de Cristo e de Deus" (Efésios, V, 5).
   Ñão é nosso intuito com estas hipóteses humilhar nem ofender aos protestantes. Absolutamente não! Há católicos errados e há protestantes errados; é a conseqüência inevitável da fragilidade humana. Mas quererem alguns insinuar que todo homem, abraçando uma seita chamada "evangélica" se torna por este só fato, uma criatura angélica e impecável, que no seio do Protestantismo só há puros e perfeitos, que o cristão logo que se convence que já está salvo por Jesus, se torna uma nova criatura modelo de virtudes, isto é conversa para boi dormir. Nesta canoa ninguém embarca. E quanto à Igreja Católica, ela mesma é que ensina os seus filhos  a rezar assim: pequei, Senhor, muitas vezes por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, por minha culpa, por minha máxima culpa!
   O que queremos frisar aqui é simplesmente isto: que não é o fato de freqüentar igrejas lisas ou de não assistir a cerimônias litúrgicas, que faz de um homem UM VERDADEIRO ADORADOR.  E que a adoração é uma COISA INTERNA, é um sentimento da alma e do coração, é o reconhecimento, no nosso íntimo, do supremo domínio do Ser a quem nós adoramos. Não é o fato de nos ajoelharmos, de nos curvarmos, de trazermos ofertas que constitui a adoração.
   E o católico, por mais rude e analfabeto que seja, sabe muito bem que não é aquela imagem que está no altar, imagem que não vê, não sente, não ouve, não fala, não tem inteligência, nem sensibilidade, não é aquela imagem que tem o supremo domínio sobre a sua alma, sobre a sua vida. Se os pagãos caíram  neste erro tão grosseiro, a respeito de seus ÍDOLOS, isto mostra apenas a degenerescência em que tinha caído a razão humana antes da doutrinação de Jesus Cristo, o que serviu para mostrar quanto era necessária a vinda do Salvador.
   Sabe muito bem o católico que não é aquela imagem que o ouve, nem que o socorre; mas ela serve para ele erguer melhor o seu pensamento ao protótipo que ela representa. No futuro mostraremos que o próprio Deus mandou fazer a Arca da Aliança com esta mesma finalidade.
   E assim como ficaríamos alegres, se soubéssemos que alguém cercou de flores o nosso retrato ou quis diante dele render-nos carinhosa homenagem, Jesus Cristo, a Virgem Maria e os santos só podem receber com agrado as homenagens que lhes prestamos diante de suas sagradas e venerandas imagens, que tão insistentemente estão avivando aos nossos olhos a sua memória e a sua recordação.

NOÇÃO DE ADORAÇÃO E LATRIA

   Nem as nossas imagens são ídolos, como acabamos de ver; nem também o culto que a elas prestamos é de latria ou de verdadeira adoração.
   É o que iremos provar.
   Sabemos todos, católicos e protestantes, que só DEVEMOS ADORAR A DEUS.
   Mas o que não deixa de lançar uma certa confusão sobre o assunto é que a palavra ADORAÇÃO pode ter vários sentidos: existe a adoração impropriamente dita e a adoração propriamente dita.
   ADORAR, por exemplo, pode significar: querer bem, ter muita estima. Um pai pode dizer: Adoro os meus filhinhos. Um filho extremoso pode dizer: Adoro minha mãe. E no entanto não estão cometendo nenhum ato de ofensa a Deus, pois se adorar aí no caso quer dizer querer muito bem, então este pai tem obrigação mesmo de ADORAR os seus filhinhos, isto é, querer bem a eles; este filho tem obrigação de ADORAR a sua mãe, isto é, amá-la de todo o coração. Deus mesmo quer que seja assim; o erro só haverá, se estas pessoas puserem o amor de seus filhinhos ou o amor de sua  mãe acima do amor de Deus, que deve ser superior a todos os outros amores.
   É comum ouvir-se este expressão: uma CRIATURA ADORÁVEL, que ao pé da letra deveria indicar uma criatura digna de ser adorada, mas que, sem nenhuma blasfêmia, exprime simplesmente isto: uma criatura que nos merece toda simpatia, benevolência e estima.
   Na linguagem bíblica, no latim e também no português antigo, a palavra ADORAR tem igualmente o sentido de PROSTERNAR-SE, isto é, ajoelhar-se com os dois joelhos e fazer uma inclinação de cabeça que pode ser mais ou menos profunda e que pode ser profunda até o ponto de se fazer chegar a cabeça até o chão. Existe vários sistemas de saudação entre os diversos povos, como sejam entre nós, por exemplo: tirar o chapéu, fazer uma inclinação de cabeça, dar um aperto de mão etc. Os orientais, muito mais pródigos e exagerados do que nós neste assunto de cumprimentos, costumam diante de personagens muito ilustres, que mereciam grande respeito, levar a saudação até este ponto: a prosternação completa, isto é, não só de joelhos, mas também com muito profunda inclinação de cabeça. Daí não se segue que considerassem a pessoa que recebia tais saudações como se fosse UMA DIVINDADE. O gesto significa apenas isto: um profundo respeito.
   Qual é, então, o conceito da verdadeira adoração, da adoração no sentido próprio(que se expressa com o termo técnico LATRIA) e que só a Deus é devida?
   Latria ou ADORAÇÃO PROPRIAMENTE DITA é o ato pelo qual se tributa homenagem a um ser, como ao Supremo Senhor de todas as coisas, ou em outras palavras, como tendo o supremo domínio sobre nós.
   É um erro, por exemplo, dizer: ajoelhar-se diante de alguém ou de alguma coisa é adorar, é fazer ato de idolatria. Eu posso ajoelhar-me diante de meu pai, de minha mãe ou de uma pessoa qualquer, para lhes pedir perdão de uma falta que cometi; daí não se segue que eu lhes esteja prestando a adoração que só a Deus é devida. Pois posso ajoelhar-me diante dessas pessoas, exclusivamente por um ato de humildade, sem considerar a nenhuma delas, como sendo o SUPREMO SENHOR DE TODAS AS COISAS. Nem mesmo, o ato de ajoelhar-se e curvar a cabeça até o chão indica o culto de latria, pois os orientais faziam este gesto tão espetacular, simplesmente com a intenção de manisfestar o profundo respeito que lhes inspira aquela criatura. Por aí se vê que a adoração propriamente dita, ou seja, o culto de latria é um ATO INTERNO que se processa no nosso espírito, no nosso coração e ato pelo qual se reconhece os nossos sentimentos internos. Esta adoração a Deus, podemos manifestá-la de diversas formas, mas entre estes atos externos só há UM que por si mesmo, indica diretamente, necessariamente o culto de latria: é o SACRIFÍCIO. Imolava-se a vítima precisamente para isto: para indicar com aquela vítima sacrificada, a qual morria ou desaparecia, que o Ser cultuado é o Supremo Senhor da VIDA E DA MORTE. Por isto se explica muito bem que Paulo e Barnabé, confundidos em Listra, respectivamente, com os deuses Mercúrio e Júpiter, rasgassem as suas vestiduras e protestassem veementemente quando o sacerdote de Júpiter, que estava à entrada da cidade, trazendo para ante as portas touros e grinaldas, queria SACRIFICAR com o povo (Atos, XIV, 12).
   Diante dos ÍDOLOS, ou seja dos deuses falsos, qualquer ato externo de homenagem que se fizesse, como seja queimar incenso, ajoelhar-se, ou simplesmente curvar a cabeça era um ATO PECAMINOSO, porque aqueles ídolos eram apresentados como sendo DEUSES, como se tivesse qualquer um deles, ou sozinho ou de parceria com outros, o SUPREMO DOMÍNIO DE TODAS AS COISAS.  Quem lhes prestava culto o prestava diretamente àquela estátua, que não correspondia a nenhuma realidade e assim dava gosto ao demônio que se servia de tão abomináveis invenções para afastar os homens do culto do verdadeiro Deus, trazendo todos os povos pagãos na mais grosseira idolatria.
   Quando, porém, nós católicos que sabemos só existir um Deus, que é Espiritual e Eterno, Supremo Senhor de todas as coisas e só a Ele prestamos o culto de latria, cercamos de carinho e veneração as sagradas imagens de Jesus Cristo, de Maria Santíssima e dos santos, a coisa é muito diversa. Não estamos diante de ÍDOLOS, ou de DEUSES FALSOS.  Diante de uma imagem de Jesus Cristo, sabemos muito bem que não é aquela imagem, mas sim o seu protótipo, Jesus, que é o Supremo Senhor do Universo, Autor da Vida e da morte. Diante da imagem da Maria Santíssima e dos santos, sabemos muito bem que nem aquela imagem, nem o seu protótipo é o Supremo Senhor do Universo. Isto, porém, não nos impede de mostrar-lhes o nosso amor, de fazer-lhes as nossas súplicas, diante destas venerandas representações e imagens que tanto nos excitam ao fervor e à devoção.
   E quando afirmamos categoricamente que não estamos prestando a estas imagens um culto de latria, é inútil que venham os protestantes teimar conosco, querendo convencer-nos de que o nosso culto é de verdadeira adoração. Pois adoração é um sentimento interno, e os protestantes não podem saber melhor do que nós mesmos (e Deus) aquilo que realmente se passa no nosso íntimo, no interior do nosso coração.
   Caríssimos e amados leitores, antes que os protestantes levantem a voz, vamos, se Deus quiser, na próxima postagem, falar sobre a ADORAÇÃO EM ESPÍRITO E VERDADE.