terça-feira, 24 de março de 2020

PORQUE O MAL

   POR QUE O MAL?


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

             
Diante do sofrimento atual com essa pandemia, surge sempre a questão da existência do mal: “Se Deus existe, de onde vem o mal?” (Leibniz). Se Deus, Pai todo-poderoso, cuida de todas as suas criaturas, por que então o mal existe? O Catecismo da Igreja Católica nos diz que a resposta não pode ser dada de modo rápido e simples, mas há que se considerar todo o conjunto da fé cristã: a bondade da criação, as sábias leis divinas da natureza, a pequenez e limitação da criatura – só Deus é perfeitíssimo, sem deficiências; as criaturas, não -, a liberdade humana, o drama do pecado, o amor paciente de Deus, a sabedoria misteriosa da Providência divina, enfim, todo o conjunto da mensagem cristã traz a solução para o problema do mal.
 Em sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis criar um mundo em estado de busca da perfeição última. Essa série de transformações que se operam no universo permite, no desígnio de Deus, juntamente com o mais perfeito, também o imperfeito, com as construções da natureza, também as destruições. Juntamente com o bem físico existe, portanto, o mal físico, enquanto a criação não houver atingido a sua perfeição. As leis físicas e químicas universais, criadas por Deus, são benéficas universalmente, embora, pela deficiência das criaturas, por serem tais, possam produzir alguns malefícios particulares, a não ser que Deus interfira com um milagre, que é a suspensão temporária do efeito das suas leis universais da natureza, o que só raramente acontece, por motivos só dele conhecidos.
Além disso, existe o mal moral, procedente da vontade livre do homem, pelo mau uso da liberdade que Deus lhe deu para poder merecer agindo sem coação.
E Deus sempre sabe tirar do mal um bem. “Deus todo-poderoso, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal” (S. Agostinho, De libero arbítrio, I, 1, 2). E nós também devemos sempre tirar do mal um bem: a caridade, a solidariedade, o arrependimento, a contrição, o propósito de melhorarmos a nós e o mundo, a paciência, a humildade, o desapego, enfim as virtudes cristãs que nos preparam para uma eternidade feliz, sem males.
            Neste tempo quaresmal, cujo ápice será a celebração da vitória de Cristo sobre o mal e a morte, ouçamos o maior teólogo vivo da Igreja: “Ao longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus Cristo, ‘autor e consumador da fé’ (Hb 12, 2): n’Ele encontra plena realização toda a ânsia e aspiração do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar conosco a fragilidade humana para a transformar com a força da sua ressurreição. N’Ele, morto e ressuscitado para a nossa salvação, encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram estes dois mil anos da nossa história de salvação” (Papa emérito Bento XVI, Porta Fidei, 13).

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

segunda-feira, 23 de março de 2020

CONDIÇÕES PARA UMA CONTRIÇÃO VÁLIDA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Caríssimos, em se tratando de um assunto capital para a salvação, é necessário fazer uma análise completa a não deixar nos fiéis a mínima dúvida ou ignorância. Assim, sendo a CONTRIÇÃO ou a dor dos pecados absolutamente necessária para a validade da confissão, e sendo esta nas maioria dos casos necessária para a salvação, entendemos que se trata de assunto extremamente importante e mesmo urgente.

Então, para que a nossa dor nos alcance o perdão dos pecados, deve reunir CINCO CONDIÇÕES: é preciso que seja verdadeira, sobrenatural, absoluta, universal e confiante. Vamos dar a explicação de todas estas condições:

1ª - VERDADEIRA: Quer dizer, a dor não pode estar só na boca, mas também no coração. É uma dor íntima e não meramente externa. Eis aí porque o Santo Concílio de Trento a chama uma dor da alma. A Sagrada Escritura é clara sobre este ponto: "Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, e dilacerai os vossos corações e não os vossos vestidos" (Joel, II, 12 e 13). É o coração, isto é, a vontade que deve arrepender-se, pois que foi o coração que pecou querendo o mal, comprazendo-se nele, desobedecendo a Deus. "Todos os crimes vêm do coração, dizia Nosso Senhor Jesus Cristo (Cf. S. Mateus, XV, 18). É, pois, o coração que deve converter-se detestando o mal e amando o bem. Davi dizia: "Odeio a iniquidade; e acrescentava, e amo a vossa lei" (Salmo 118). É nisto que consiste a conversão verdadeira que o Senhor quer quando diz: "Fazei-vos um coração novo" (Ez. XVIII, 21) e (Salmo 21). Quando se perde a Deus pelo pecado, como encontrá-Lo? Diz Deus em Deut. IV, 29: "Encontrá-Lo-eis, se o procurardes de todo o coração".

2ª - SOBRENATURAL: Esta dor deve ser sobrenatural, quer dizer, deve ser produzida por um motivo sobrenatural, e não natural; por exemplo: se alguém se arrependesse de uma falta, por ser ela prejudicial à sua saúde, aos seus bens, ou à sua reputação, seria isto um motivo natural, que não serviria para nada. Para que o motivo da dor seja sobrenatural, como deve ser, é preciso que nos arrependamos do pecado, seja por causa da sua fealdade, seja porque ele ofendeu a bondade infinita de Deus, seja porque ele nos fez merecer o inferno ou perder o paraíso; teremos assim a dor perfeita, chamada contrição. ou a dor imperfeita, chamada atrição, como explicaremos depois, se Deus quiser.  
3ª - SOBERANA, isto é, SUPREMA, ABSOLUTA, MÁXIMA: A dor dos pecados é suprema ou máxima quando a ofensa feita a Deus nos desagrada mais do que outro qualquer mal. Caríssimos, por a dor ser soberana, isto não significa que ela deve necessariamente ser acompanhada de lágrimas e duma sensibilidade positiva. Ela reside essencialmente na VONTADE,  e circunstancialmente também na sensibilidade. Falo isto pensando nas almas timoratas que, às vezes, se inquietam por não experimentar sensivelmente a dor dos seus pecados. Fiquem tranquilas tais almas, porque é bastante que a dor dos pecados esteja na vontade, ou queiram arrepender-se, preferindo ter perdido tudo no mundo, do que ter ofendido a Deus. Daí o sábio ensinamento de Santa Teresa d'Ávila: "Para conhecer se temos uma verdadeira dor dos nossos pecados, a melhor regra é saber se a pessoa penitente está disposta a perder tudo, antes do que a graça de Deus; então, sem dúvida alguma, temos uma verdadeira dor".  E isto diz respeito somente aos pecados mortais, pois, não é necessário ter arrependimento de todas as faltas veniais para se obter o perdão de alguma delas, atendendo a que aquelas, cujo arrependimento é sincero, podem ser perdoadas sem as outras. Mais uma observação: Sabemos, pelo que já escrevi, que Deus não pode perdoar nenhum pecado, seja mortal, seja venial, sem que o culpado tenha um verdadeiro arrependimento. Resulta disto que uma pessoa, confessando somente pecados veniais, sem o arrependimento necessário, faz uma confissão nula; por esta razão, se quer receber a graça da absolvição, é preciso que tenha ao menos arrependimento de algum dos pecados veniais dos quais se confessa, ou que acrescente uma outra matéria certa, acusando-se de algum pecado da vida passada, do qual tenha uma verdadeira dor.

4ª - UNIVERSAL: Quanto, porém, aos pecados mortais, é absolutamente necessário ter arrependimento de TODOS  os pecados mortais cometidos, e um verdadeiro propósito de não mais os cometer, sem o que nenhum pecado será perdoado. A razão disto é que nenhum pecado mortal é perdoado sem a infusão da graça na alma; ora, não podendo esta graça achar-se com o pecado mortal, logo, segue-se que nenhum pecado mortal pode ser perdoado, sem que todos os outros o sejam ao mesmo tempo. Portanto, de nada serve detestar os pecados mortais, quando não se detestam todos sem exceção. Gostaria de fazer uma observação importante, sobretudo para as consciências escrupulosas: Quem cometeu vários pecados mortais, não é necessário que deteste cada um em particular; basta que aborreça todos os pecados mortais em geral, como ofensas graves a Deus; porque, se qualquer pecado tivesse ficado esquecido, será perdoado com os outros.


5ª - CONFIANTE: Judas Iscariotes se arrependeu, mas foi um arrependimento sem confiança: se desesperou. A dor deve ser CONFIANTE, quer dizer: unida à esperança do perdão; doutro modo, seria semelhante à dor dos condenados, que se arrependem também dos seus pecados, mas sem esperança de perdão. Pois eles se arrependem, não porque os seus pecados tenham ofendido a Deus, mas tão somente porque são a causa das suas penas. Outro exemplo ilustrativo é o de Caim. Reconheceu o pecado que tinha cometido, matando seu irmão Abel; porém, desesperou igualmente do perdão: "Minha iniquidade é muito grande, dizia ele, para que eu possa obter a remissão"  (Gen. IV, 13). São Francisco de Sales diz que a dor dos verdadeiros penitentes é cheia de paz e de consolação, porque, quanto mais o verdadeiro penitente lastima ter ofendido a Deus, tanto mais confiança tem em obter o perdão das suas faltas; o que muito aumenta a sua consolação. Daí também esta exclamação de São Bernardo, dirigindo-se a Deus: "Se é tão agradável chorar por vós, quão delicioso não será alegrar-se em Vós!". Amém!

domingo, 22 de março de 2020

MAIS EXPLICAÇÕES SOBRE A CONTRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

A dor perfeita ou contrição é, na verdade, um tesouro inestimável, a tal ponto que a ela podemos aplicar as palavras da Escritura Sagrada: "Todos os bens me vieram com ela" (Sabedoria, VII, 11). Daí dizer S. Leonardo de Porto Maurício: "Quem poderia jamais exprimir as riquezas imensas que a dor derrama no coração, principalmente a dor perfeita ou a contrição! Ah! meus bem amados, desta pérola preciosa, eu queria ver-vos de posse dela mesmo que fosse pelo preço do vosso sangue, pois com ela possuís todos os bens".

Caríssimos, e ainda que sejais livres de vos contentardes com a atrição, é bom, entretanto, excitar sempre em vós a contrição, porque esta faz logo a alma amiga de Deus, reveste-a com a veste nupcial da graça, e apaga todos os pecados, mesmo antes da absolvição, o que não pode fazer a atrição, que, sem a intervenção da absolvição dada pelo sacerdote, fica estéril e não produz efeito algum. A dor perfeita, pela qual detestamos os nossos pecados pelo amor de Deus amado sobre todas as coisas, é como um segundo batismo, que imediatamente purifica a alma de todas as suas iniquidades.

Façamos algumas comparações para que possam, caríssimos, ver como um ato de contrição é tão precioso! Tomai na mão uma balança, colocai de um lado um ato de contrição, e do outro todos os bens do paraíso; comparai: um ato de contrição pesa tanto quanto todos estes bens, pois que só por esse ato fazeis jus a todos estes bens. Vede, por outro lado, os suplícios eternos do inferno: uma só lágrima, um só suspiro de um coração contrito basta para os suprimir totalmente. Dai-me, outrossim, um homem carregado de todos os pecados; se excita em sua alma um ato de verdadeira contrição, todos esses pecados se dissipam logo, como a neve diante do fogo. Como a contrição perfeita é abençoada!!!... Ademais, ajuntai a isto que a contrição espalha nos corações o mais rico tesouro que podemos possuir sobre a terra, quer dizer: a paz interior e a tranquilidade da alma.

Caríssimos, pode acontecer que o demônio coloque em vossas cabeças e nos vossos corações, escrúpulos. Mais ou menos assim: dissestes todos os pecados? Destes, de fato, todas as explicações? Será que o confessor compreendeu-vos bem? Pois bem! se apesar de todos estes pensamentos extravagantes, quereis viver tranquilos e trazer vosso coração em paz, fazei o possível para ter uma contrição verdadeira, detestando o pecado pelo amor de Deus, soberano bem; esta dor perfeita curará por si só todas as vossas feridas e suprimirá todos os defeitos que teriam podido resvalar, contra vossa vontade, nas confissões passadas. Ó amável contrição, que nos faz gozar um paraíso antecipado!... Por isso, o melhor conselho que um sacerdote possa dar a alguém, máxime, aos escrupulosos é esse: "caríssimos, em lugar de ficar atormentando vossas cabeças com exames de consciência demasiadamente demorados, meditai na Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Pai nos amou de tal modo que nos enviou do céu seu próprio Filho, e Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, amou-me de tal modo, que não podia fazer mais do que fez para que eu com um único ato de amor a Ele, recebesse pelo seu Sangue derramado na Cruz, o perdão de todos os meus pecados, bastando ter, mesmo só implícito, o desejo de receber o sacramento da Penitência.


Suponhamos que vos achais em estado de pecado mortal. Que seria de vós se não tivésseis tempo de vos confessar? Que seria se morrêsseis no meio dos campos, se fôsseis surpreendido por um acidente imprevisto, e que não tivésseis um confessor ao vosso alcance? Eis aqui um grande motivo de consolação: fazendo um ato de contrição, sereis justificados tão bem como se estivésseis confessado, ainda que fique sempre a obrigação de confessar os pecados dos quais se tem arrependimento, e se não deva diferir por muito tempo a confissão. Ó amável contrição, que nos abre as portas do céu, nos fecha as do abismo, põe em fuga os demônios, nos dá o glorioso caráter de filhos e amigos de Deus, e nos faz gozar desde este mundo as delícias do céu! Amém!

sábado, 21 de março de 2020

MEIOS PARA SE OBTER A ATRIÇÃO E A CONTRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

1.  ORAÇÃO: O primeiro meio e o principal é recorrer a Deus pela oração. Com as forças da nossa livre vontade, infelizmente podemos pecar, mas com essas forças só não nos podemos levantar. Ainda mais: fazer de um pecador um justo é a obra prima da onipotência de Deus; é uma obra muito maior do que criar um novo sol ou um mundo novo, maior do que dar a vida a todos os cadáveres que povoam um cemitério. Caríssimos, devemos refletir na negligência imperdoável desses cristãos que não cuidam em se recomendar a Deus para ter essa verdadeira dor. Vemos como muitos recomendam-se a Deus para obter uma grande colheita de café, ganhar processo, curar-se de uma moléstia; conseguir um emprego etc.. Nestes meus mais de 45 anos de sacerdócio, posso contar nos dedos das mãos as pessoas que me pediram missas para alcançar a graça da contrição. Daí, quantas confissões sem o devido arrependimento!

2. FAZER FREQUENTES ATOS DE CONTRIÇÃO: Como se aprende uma arte qualquer? Pelo uso e o exercício. Certamente, quem quer aprender uma língua estrangeira, não bastaria pegar no livro, três ou quatro vezes por ano. E o perigo é, além de fazer poucas vezes o ato de contrição, ainda pior, é que, às vezes, fazem-no de um modo maquinal, sem pensar no que dizem. Devemos tomar o santo hábito de fazer de manhã e à noite o ato de contrição e, mais importante ainda, procurar fazê-lo o melhor possível. Devemos fazê-lo, é claro, antes de nos confessarmos e antes de recebermos a absolvição. Na verdade, o Ato de Contrição maior, aquele tradicional, inclui o pedido da contrição e depois também da atrição: "Senhor meu Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, porque Vos amo e estimo, pêsa-me de todo coração de Vos ter ofendido [até aqui o Ato de Contrição], pêsa-me também por ter perdido o céu e merecido o inferno [ato de atrição]... etc.

3. FAZER EM ESPÍRITO TRÊS VIAGENS: Ao inferno, ao céu e ao Calvário. As duas primeiras para se obter a atrição; e a terceira para se conseguir a contrição. MEDITAR NO INFERNO: Entrar ali em pensamento naquele lugar de tormentos, e ver o lugar que merecemos pelos pecados mortais (mesmo que seja um só), no meio do fogo eterno, na companhia dos demônios e dos réprobos. Então agradecer a Deus não nos ter precipitado ali, e suplicar que tenha misericórdia de nós. Esta meditação serve par excitar em nossa alma um vivo temor de Deus, que pune o pecador de uma maneira tão terrível.  MEDITAR NO CÉU: Ali contemplar esta morada da Glória e da Felicidade. Lamentar à sua entrada, que o pecado fechou as suas portas, e suplicar ao Senhor que as abra. Esta meditação serve para formar em nosso coração uma doce confiança na misericórdia do Senhor, que não quer a morte do pecador, mas a sua conversão e a sua vida. MEDITAR NO CALVÁRIO, ou seja, NA PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO: Aí, fixando o Salvador crucificado, devemos dizer: Eis ali a minha obra: eu sou a causa das dores de Jesus Cristo; cooperei, por meus pecados, com os outros pecadores, para cobrir de chagas este corpo sagrado, para crucificá-Lo, para lhe dar a morte. Ó Jesus, que mal me tínheis feito? Como pude tratar-Vos assim a Vós, que me amastes até ao excesso, a Vós, a quem eu deveria amar com um amor infinito, se pudesse amar infinitamente. É porque sois infinitamente amável que eu Vos amo e que me arrependo de Vos ter ofendido.

Caríssimos, oh! se nós seguíssemos este método, quanto fruto tiraríamos das nossas confissões!

4. FAZER A VIA SACRA:  Havendo tempo, é sumamente recomendável porque completa a meditação anterior sobre a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. É mais uma oração e ação muito eficazes para se obter de Deus o arrependimento perfeito, ou contrição.


5. PEDIR ESTA GRAÇA A MARIA SANTÍSSIMA: Mãe das Dores e reconciliadora dos pecadores com Deus, ou seja, Advogada dos pecadores, ela ouve nossa oração e pede a Jesus que mude a água lodosa dos nossos pecados no vinho delicioso da graça divina. Amém!

sexta-feira, 20 de março de 2020

DOR PERFEITA E DOR IMPERFEITA DOS PECADOS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Caríssimos, vimos na postagem anterior sobre este assunto, quais as condições que deve ter a nossa dor, para nos dispor ao perdão das nossas faltas na confissão. Vamos ver neste artigo que esta dor pode ser perfeita ou imperfeita. A dor perfeita chama-se contrição, e a imperfeita, atrição. A CONTRIÇÃO  é a dor que se tem do pecado, porque ofende a bondade de Deus. Os teólogos dizem que a contrição é um ato formal de perfeito amor para com Deus; porque, para aquele que tem a contrição, o que excita a arrepender-se de ter ofendido a Deus é o seu amor para com a bondade de Deus; é, pois, muito útil fazer, antes do ato de contrição, um ato de amor a Deus, desta maneira: "Meu Deus, porque sois a Bondade infinita, eu vos amo acima de todas as coisas; e, porque vos amo, pesa-me, acima de tudo, de vos ter ofendido". Resumindo: o motivo predominante da dor não é o temor do inferno nem a fealdade do pecado, mas o amor de Deus.

A ATRIÇÃO  é também uma dor de ter ofendido a Deus, mas proveniente de um motivo menos perfeito, como a fealdade do pecado, ou o dano que ele causou, seja o inferno merecido, seja o paraíso perdido.

Assim, a contrição é um arrependimento do pecado por causa da injúria feita a Deus, e a atrição é um arrependimento do pecado por causa do mal que dele resulta para nós.

Pela contrição, recebe-se no mesmo momento a graça santificante, antes de receber a absolvição do confessor, contanto que se tenha intenção, ao menos implícita, de receber o sacramento. Mas pela atrição não se obtém a graça santificante senão recebendo a absolvição. É o que ensina o Santo Concílio de Trento.

Pergunta-se se, para receber a absolvição, é necessário que a atrição esteja unida ao AMOR INICIAL,  quer dizer: a um começo de amor. É claro que sobre isto não paira nenhuma dúvida, porque o próprio Concilio Tridentino ensina que uma das disposições que devem ter os pecadores para serem justificados é que comecem a amar a Deus. A dúvida está em saber como deve ser este começo de amor. Aí, há muitas opiniões entre os teólogos, mas sabemos qual é a aprovada pela Igreja, como veremos abaixo.

Alguns querem que seja um ato de amor predominante. São desta opinião os que têm laivos de Jansenismo. E, portanto, não é aprovada pela Igreja. Vejamos; dizem que o pecador ame a Deus acima de todas as coisas. Mas não raciocinam bem; pois, quem ama a Deus acima de todas as coisas, ama com um amor perfeito, o qual perdoa e apaga o pecado. O Papa Gregório XIII condenou uma proposição de Baio, afirmando que o amor de Deus pode existir com o pecado. Baio falava do amor, que é, segundo S. Paulo, a plenitude da lei (Rom. XIII, 10). Ora, qual é este amor que cumpre a lei? É o amor predominante, pelo qual se ama a Deus sobre todas as coisas. Santo Tomás de Aquino ensina que, amando a Deus sobre todas as coisas, cumprimos este preceito de Jesus Cristo: "Amareis o Senhor vosso Deus de todo o vosso coração" (Mat. XXII, 37): "Quando nos é ordenado, diz S. Tomás, amar a Deus de todo o nosso coração, isto significa que devemos amá-Lo sobre todas as coisas". Daí conclui que o amor de Deus não pode existir com o pecado mortal.

Temos, além disso, vários textos da Sagrada Escritura, para nos assegurar que quem ama a Deus é amado por Deus: "Eu amo aqueles que me amam" (Prov. VIII, 17); "Aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei também" (Jo. XIV, 21). "Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo. IV, 16); "O amor resguarda a multidão dos pecados" (1 Pedro, IV, 3).

Segue-se daí que toda a contrição, que é um ato de amor, mesmo em um fraco grau, contanto que seja realmente contrição, perdoa todos os pecados graves. Suposto isto, resulta que pelo começo de amor, que deve estar unido à atrição, não se pode entender o amor predominante; pois, por mais fraco que fosse este amor, seria sempre o amor perfeito, e conseguintemente, em lugar de atrição, ter-se-ia contrição; de modo que, se uma tal disposição fosse necessária, todos os penitentes já estariam absolvidos antes de se confessar; e então o sacramento da Penitência não seria mais um sacramento de mortos, mas um sacramento de vivos; a absolvição não seria mais uma verdadeira absolvição, antes uma simples declaração da absolvição já recebida, como pretendia Lutero; o que se não pode dizer, segundo o Concílio de Trento.


CONCLUSÃO: Não é pois, necessário que o começo de amor, que deve acompanhar a atrição, seja um ato de amor predominante; basta que seja um simples começo de amor, tal como é o temor dos castigos eternos, entre os quais, aliás, o maior é a perda de Deus. "O temor de Deus, diz-nos o Espírito Santo, é o começo do seu amor" (Eclesiástico XXV, 16). A vontade de não mais ofender a Deus é também um começo de amor; da mesma maneira, a esperança do perdão e dos bens eternos, que Deus promete aos penitentes. Quando se espera pelo bem de alguém, diz Santo Tomás, começa-se a amar esse alguém. É por isso que, quando nos vamos confessar, é bom juntar ao ato de dor um ato de esperança de obter o perdão das nossas faltas pelos méritos de Jesus Cristo, segundo o que ensina, ainda o Concílio de Trento, pois, sabe-se que é por esta esperança que os penitentes se devem preparar para receber de Deus a remissão dos seus pecados.   

quinta-feira, 19 de março de 2020

A DOR E DETESTAÇÃO DOS PECADOS OU CONTRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 O Sacrossanto Concílio de Trento assim define a contrição: "É uma dor da alma e detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar para o futuro". A contrição foi necessária em todos os tempos para obter o perdão, e é ela que prepara o homem para a remissão dos pecados.  Daí o mesmo Concílio Tridentino declarar que a contrição não compreende somente a cessação do pecado e o começo de uma vida nova, mas ainda o ódio `a vida passada, segundo estas palavras do Espírito Santo: "Lançai para longe de vós todas as vossas iniquidades, e fazei em vós um coração novo e um espírito novo" ( Êxodo, XVIII, 31).

E, na verdade, quem considerar atentamente estes lamentos dos santos: "Pequei contra vós só, ó meu Deus, fiz o mal em vossa presença" (Salmo 50); "Todas as noites rego meu leito com lágrimas; recordarei todos os anos da minha vida na amargura do minha alma" (Salmo 6).

Caríssimos, todo aquele que meditar bem nestes lamentos dos santos, compreenderá que eles provêm de um verdadeiro ódio à vida passada e de uma profunda detestação dos seus pecados. E justamente por força deste arrependimento interno, não perdiam oportunidade de fazer penitências exteriores, e aceitavam todos os sofrimentos e tribulações como merecidas pelos seus pecados. O exemplo clássico que se dá no Antigo Testamento é o do Rei Profeta Davi. É muito salutar meditarmos nos Salmos penitenciais que, pela Vulgata tradicional, são:  6, 31, 37, 50, 101, 129, 142. Os dois mais conhecidos são: O "Miserere" (Salmo 50) e o "De Profundis" (Salmo 129).

A dor ou arrependimento dos pecados cometidos é de tal modo necessária para se obter a remissão deles, que, sem esta disposição, Deus não perdoa. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Se não fizerdes penitência, todos perecereis". E, como já explicamos, trata-se primeiro da penitência interior, ou seja, a dor ou contrição do coração. Como dizia o Espírito Santo pelo profeta Joel: "Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes" (Joel, II, 13).

Pode acontecer que alguém se salve sem exame de consciência e sem confissão, como quando, não podendo confessar-se, por falta de tempo ou de sacerdote, faz um ato de verdadeira contrição perfeita à hora da morte; mas sem arrependimento é impossível salvar-se, mesmo que conte direitinho todos os pecados.


É preciso assinalar aqui o erro de certos penitentes que, em sua preparação para a confissão, não procuram senão lembrar-se dos seus pecados, e não se aplicam absolutamente a conceber uma verdadeira dor. Esta dor devemos nós pedi-la insistentemente a Deus; antes de nos apresentarmos ao confessionário, tenhamos cuidado de dirigir uma Ave-Maria à Santíssima Virgem, Mãe das Dores, afim de que nos obtenha um verdadeiro arrependimento dos nossos pecados. Lemos na vida do Santo Cura d'Ars como ele avisava sempre seus paroquianos sobre isso. Costumo pregar nos retiros que antes de tomarmos o caminho do confessionário, devemos fazer mentalmente três viagens: irmos até ao Céu que perdemos; até ao inferno que merecemos; até ao Calvário onde vemos Jesus chagado e morto na cruz por causa de nossos pecados. Amém!

quarta-feira, 18 de março de 2020

LIÇÕES DE UMA PANDEMIA


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

            O grande mal provocado pelo novo Corona Vírus e a enfermidade por ele provocada, a COVID-19, deve nos trazer algumas reflexões sensatas.
            Deus não é autor do mal. O mal é proveniente da nossa finitude, pois só Deus é o sumo bem e a suma perfeição.  É consequência às vezes do mau uso da nossa liberdade e, muitas vezes, dos nossos pecados. Mas Deus só permite um mal para dele tirarmos algum bem. E podemos tirar sim.
            Iniciamos a Quaresma, na Quarta-feira de Cinzas, com a reflexão que a
Igreja nos propôs: “Lembra-te, homem, que és pó e em pó te hás de tornar”. Essa doença vem nos lembrar a nossa pequenez. O homem, orgulhoso de sua ciência e de suas conquistas tecnológicas em todos os campos, prostra-se de joelhos diante de um ser ultramicroscópico, que põe toda a humanidade temerosa. Realmente nós não somos onipotentes e tão poderosos: só Deus o é. Portanto, a primeira lição é de humildade.
            Por isso, recorramos a Deus onipotente, pedindo-lhe que afaste de nós esta calamidade: “ela não é enviada por Ele, mas permitida, para que nos convertamos de nossa soberba e desmando na organização dos recursos da criação...” (Dom Pedro Cipollini). A oração é necessária. É o reconhecimento da nossa impotência diante de Deus todo-poderoso e de nossos pecados, muitas vezes causa da desordem e dos males. Segunda lição: oração.
            “Nas tempestades da vida, nos momentos de desorientação, o homem não pode contar apenas com as próprias forças. É preciso ter fé e recordar que Deus pode nos salvar de todas as tempestades”. Palavras do Cardeal Angelo Comastri, arcipreste da Basílica de São Pedro, lembrando da tempestade no Mar da Galiléia, com os apóstolos temerosos acordando Jesus. “Temos que recordar sempre que Deus pode nos tirar de todas as tempestades, desde que tenhamos fé e abramos o nosso coração a Ele”. Oração com fé e humildade.
            Se de um lado devemos recorrer à oração, com confiança em Deus, por outro lado devemos usar todos os recursos, prevenções e assepsias que os médicos e os profissionais da saúde nos recomendam. “Honra o médico, porque ele é necessário; foi o Altíssimo quem o criou” (Eclo 38, 1). “Peca na presença daquele que o criou quem não se submete ao tratamento do médico” (Eclo 38, 15). Jesus disse: “Os doentes precisam de médico” (Mt 9, 12).
            E não devemos “tentar a Deus”, ou seja, fazer coisas imprudentes e perigosas para a nossa saúde, confiando erradamente que Deus nos protegerá (Mt 4, 7). Prevenção e cuidados.
            Essa calamidade nos ensina ainda que todos somos iguais em natureza, sem distinção de classes, cor, nacionalidade, sexo, etc, fracos e débeis, precisando sempre e dependentes uns dos outros. Isso nos obriga a cuidarmos uns dos outros, à solidariedade e à caridade.
            Que Maria Santíssima, saúde dos enfermos, nos proteja, e São José, cuja festa celebraremos amanhã, nos defenda de todo mal.

                                                                                                                                                                                                                    *Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney                                                                                                                                        

terça-feira, 3 de março de 2020

NORMAS SOBRE A COMUNHÃO DOS FIÉIS


 
Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

NORMAS PARA A COMUNHÃO DOS FIÉIS


            Em nossa Administração Apostólica, na qual, em perfeita comunhão com a Igreja, conservamos como forma ritual própria a forma extraordinária do Rito Romano, conforme nos concedeu a Santa Sé, conservamos também a comunhão na boca para os fiéis.
            As razões para se conservar a prática da comunhão na boca foram elencadas na Instrução Memoriale Domini, da Congregação para o Culto Divino, de 29/5/1969, sobre a maneira de distribuir a comunhão, redigida por mandato especial do Papa S. Paulo VI, aprovada por ele mesmo, em virtude de sua autoridade apostólica:
“... Decerto é verdade que um uso antigo já permitiu aos fiéis tomar este divino alimento em suas mãos e colocá-lo, eles próprios, em suas bocas... Posteriormente, com uma compreensão mais profunda da verdade do mistério eucarístico, de seu poder e da presença de Cristo nele, sobreveio um maior sentimento de reverência para com esse sacramento e sentiu-se que se demandava uma maior humildade quando de seu recebimento. Foi, portanto, estabelecido o costume do ministro colocar uma partícula de pão consagrado sobre a língua do comungante”.
“Esse método de distribuição da Santa Comunhão deve ser conservado, levando-se em consideração a situação atual da Igreja em todo o mundo, não apenas porque possui por trás de si muitos séculos de tradição, mas especialmente porque expressa a reverência do fiel pela Eucaristia. O costume não prejudica de modo algum a dignidade pessoal daqueles que se aproximam deste augusto sacramento: é uma parte daquela preparação que é necessária para uma recepção mais frutuosa do Corpo do Senhor”.
            “Essa reverência exprime bem a comunhão, não ‘de um pão e de uma bebida ordinários’ (São Justino), mas do Corpo e do Sangue do Senhor, em virtude da qual ‘o povo de Deus participa dos bens do sacrifício pascal, reatualiza a nova aliança selada uma vez por todas por Deus com os homens no Sangue de Cristo, e na fé e na esperança prefigura e antecipa o banquete escatológico no Reino do Pai’ (S. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum Mysterium, 3).”
            “Por fim, através dessa maneira de agir que deve já ser considerada tradicional, assegura-se mais eficazmente que a santa comunhão seja administrada com a reverência, o decoro e a dignidade que lhe são devidos de sorte que seja afastado todo o perigo de profanação das espécies eucarísticas, nas quais, ‘de uma maneira única, Cristo total e todo inteiro, Deus e homem, se encontra presente substancialmente e de um modo permanente’ (S. C. dos Ritos, Instr. Eucharisticum Mysterium, 9); e para que se conserve com diligência todo o cuidado constantemente recomendado pela Igreja no que concerne aos fragmentos do pão consagrado:O que permitistes cair, pensa nele como se tivesses perdido um de teus membros’ (São Cirilo de Jerusalém).”
            (Sobre a mudança para a prática de colocar as hóstias consagradas nas mãos das pessoas): “Uma mudança em matéria de tal importância, baseada em uma antiga e venerável tradição, não afeta somente a disciplina. Carrega certos perigos consigo, que podem surgir de uma nova maneira de administrar a Santa Comunhão: o perigo da perda de reverência pelo augusto sacramento do altar, de profanação, de adulteração da verdadeira doutrina” ...

            Assim, por essas razões, não obstante a permissão da Santa Sé para outros métodos, conservamos aqui a prática tradicional da comunhão na boca.

            Nas atuais circunstâncias, com o perigo de contaminação do novo Corona Virus, para a segurança e saúde dos nossos fiéis, damos as seguintes normas:
1.      Escolham-se partículas maiores (de 33 a 40 mm) para a comunhão dos fiéis;  
2.      Os sacerdotes lavem bem as mãos antes da celebração e passem álcool em gel;
3.      A comunhão aos fiéis seja dada de modo mais lento e cuidadoso;
4.      Para a comunhão, os fiéis devem ter a cabeça ligeiramente voltada para cima, colocar a língua sobre o lábio inferior e não fazer nenhum movimento com a cabeça em direção à mão do sacerdote, pois é ele que faz o movimento ao nos dar a comunhão. Também os fiéis não devem fazer o sinal da cruz nem inclinação com a cabeça.
5.      Na forma extraordinária, o ministro diz “Corpus Domini Nostri Iesu Christi custodiat animam tuam in vitam aeternam” (“O Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma para a vida eterna”) e o fiel não precisa dizer Amém.
6.      Um acólito ou coroinha deve portar, ao lado do ministro que dá a comunhão, um recipiente com álcool em gel, para o ministro limpar os dedos, caso toque na boca ou língua de algum fiel, antes de dar a comunhão ao próximo comungante. Depois, esse recipiente deverá ser purificado e o álcool remanescente lançado na piscina da sacristia.

“Ave verum corpus natum de Maria Virgine” (Salve, verdadeiro corpo nascido da Virgem Maria). “Adoro te, devote, latens deitas” (Adoro-te devotamente, ó divindade escondida) (cf. S. João Paulo II, enc. Ecclesia de Eucharistia, n. 59).  


        Campos dos Goytacazes, RJ, 3 de março de 2020
                  + Dom Fernando Arêas Rifan
      Bispo da Administração Apostólica P. São João Maria Vianney

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

CARNAVAL

CARNAVAL PRÓXIMO

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

Semana próxima é o Carnaval. Como todos os anos, aproveitamos a ocasião para uma reflexão de ordem histórica e espiritual.
Segundo uma teoria, a origem da palavra “carnaval” vem do latim “carne vale”, “adeus à carne”, pois no dia seguinte começava o período da Quaresma, tempo em que os cristãos se abstêm de comer carne, por penitência. Daí que, ao se despedirem da carne na terça-feira que antecede a Quarta-Feira de Cinzas, se fazia uma boa refeição, com carne evidentemente, e a ela davam adeus. Tudo isso, só explicável no ambiente cristão, deu origem a uma festa nada cristã. Vê-se como o sagrado e o profano estão bem próximos, e este pode contaminar aquele. Como hoje acontece com as festas religiosas, quando o profano que nasce em torno do sagrado, acaba abafando-o e profanando-o. Isso ocorre até no Natal e nas festas dos padroeiros das cidades e vilas. O acessório ocupa o lugar do principal, que fica prejudicado, esquecido e profanado.
O Carnaval poderia até ser considerado uma festa pitoresca de marchinhas engraçadas, de desfiles ornamentados, um folguedo popular, uma brincadeira de rua, uma festa quase inocente, uma diversão até certo ponto sadia, onde o povo extravasa sua alegria. Mas, infelizmente, tornou-se também uma festa totalmente mundana e profana, cheia de licenciosidade, onde campeia o despudor e as orgias, onde se pensa que tudo é permitido, onde a imoralidade é favorecida até pelas autoridades, com a farta distribuição de preservativos, preocupadas apenas com a saúde física e não com a moral, por isso chamada “a festa da carne”.
            A grande festa cristã é a festa da Páscoa, antecedida imediatamente pela Semana Santa, para a qual se prepara com a Quaresma, que tem início na Quarta-Feira de Cinzas, sinal de penitência. Por isso, é a data da Páscoa que regula a data do Carnaval, acontecendo sempre este 47 dias antes da Páscoa, no dia imediato antes da Quarta-Feira de Cinzas. 
            Devido à devassidão que acontece nesses dias de folia (loucura, em francês), muitos cristãos preferem se retirar do tumulto e se entregar ao recolhimento e à oração. É o que se chama “retiro de Carnaval”, aconselhável para quem quer se afastar do barulho e se dedicar um pouco a refletir no único necessário, a salvação eterna. É tempo de se pensar em Deus, na própria alma, na missão de cada um, na necessidade de estar bem com Deus e com a própria consciência. “O barulho não faz bem e o bem não faz barulho”, dizia São Francisco de Sales.
            Já nos advertia São Paulo: “Não vos conformeis com esse século” (Rm 12,2); “Já vos disse muitas vezes, e agora o repito, chorando: há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso, apreciam só as coisas terrenas” (Fl 3, 18-19); “Os que se servem deste mundo, não se detenham nele, pois a figura deste mundo passa” (cf. 1 Cor 7, 31).
            Passemos, pois, este tempo na tranquilidade do lar, em algum lugar mais calmo ou, melhor ainda, participando de algum retiro espiritual. Bom descanso e recolhimento para todos!

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O SANTO TERÇO

O TERÇO: FONTE DE GRAÇAS


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

Nos próximos dias 14, 15 e 16 de fevereiro, acontecerá a XII Romaria Nacional do Terço dos Homens na Basílica-Santuário Nacional de Aparecida. São esperados mais de 80 mil homens. Essa grande Romaria reúne comitivas de todo o Brasil, trazendo homens de todas as classes sociais, unidos por essa oração abençoada, o Rosário de Nossa Senhora. A missão do Terço dos Homens é resgatar para o seio da Igreja homens de todas as idades, pois a presença masculina na Igreja é imprescindível para a formação da família e de uma sociedade cristã.
O tema desta Romaria será: “Terço dos Homens: fonte de graças” e o lema: “Confiantes como Maria”. Essa temática quer enaltecer o papel de Maria Santíssima como intercessora e medianeira junto de seu Filho Jesus. Como o povo costuma dizer, “Peça à Mãe que o Filho Atende!” Jesus jamais se nega a atender um pedido de sua mãe. Se o próprio Deus quis precisar de Maria para vir a nós (“Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher...” Gl 4,4), muito mais ainda nós podemos contar com Maria para nos aproximarmos de Deus.
A oração do Terço, o Rosário de Nossa Senhora, é fonte de graças, pois nela o cristão professa a sua fé católica, rezando o Credo, pronuncia a oração do Senhor, o Pai-Nosso, e saúda Maria com as palavras do Anjo Gabriel, chamando-a “cheia de graça”.
Intitulando Maria “Mãe de Deus”, imitamos Isabel que, “repleta do Espírito Santo” a saudou, dizendo “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”, acrescentando: “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe do meu Senhor?” (Lc 1, 41-43). O próprio Espírito Santo, que inspirou Isabel, nos ensina a chamar Maria de Mãe de Deus, pois a palavra “Senhor”, aqui usada (em grego kyrios), só se aplica a Deus.
O lema “Confiantes como Maria” nos recorda o sim confiante de Nossa Senhora, aceitando a honra e o cargo da maternidade de Jesus, o Filho de Deus nela feito homem, com toda a confiança, entregando a sua vida inteiramente a Deus, mesmo vislumbrando tudo o que poderia acontecer ao seu Filho, o Salvador, o “servo sofredor”, que morreria humilhado na cruz.
            O Papa São João XXXIII dizia que o Terço é o Evangelho das pessoas simples. De fato, é uma recordação e meditação do Evangelho na escola de Maria: “É Tua escola o Terço, ele é luz, ninguém como Tu sabe mais de Jesus; o Santo Evangelho ensina de novo, Teu Terço é a Bíblia que Deus deu ao povo”.
            Mesmo sendo uma oração de louvor a Maria Santíssima, o centro do Rosário está em Jesus Cristo, cujo nome é o centro de gravidade da Ave-Maria, a dobradiça entre a sua primeira parte e a segunda. “É precisamente pela acentuação dada ao nome de Jesus e ao seu mistério que se caracteriza a recitação expressiva e frutuosa do Rosário” nos ensina S. João Paulo II.
            “Maria nos acompanha, luta conosco, apoia os cristãos no combate contra as forças do mal. A oração com Maria, em particular o Rosário – mas ouçam bem: o Rosário” (Francisco).

                                                                                                                                                                                                                         *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                                                                                                                                                                                          São João Maria Vianney

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

"QUER AGRADE, QUER DESAGRADE"



 São palavras de São Paulo a Timóteo, na segunda Epístola que o Apóstolo escreveu ao seu caríssimo discípulo e bispo. Estão no capítulo 4º. versículo 2º. Estas duas palavras são traduzidas para o português de vários modos, mas que, no fundo têm o mesmo significado. No original grego são empregadas as palavras: eukairos, akairos, que em português significam exatamente: oportunamente, inoportunamente. A melhor tradução italiana da Vulgata de São Jerônimo traz: "a tempo, fuori di tempo."   E a  tradução em francês é: à  temps et à contre-temps. Em português do Brasil temos três traduções mais comuns, que são: "a  tempo e fora de tempo"(como no italiano); "a tempo e contratempo"(como no francês) e "quer agrade, quer desagrade".
   São Paulo, na verdade, exorta o bispo Timóteo que pregue a palavra de Deus, que insista sem desanimar, e sem deixar de pregar por causa do respeito humano, quando estiver diante de pessoas que não gostam de ouvir a verdade, infeccionados que estão por suas paixões. Verdadeiramente, é sempre feito a tempo, oportunamente, aquilo que é pregado utilmente para a eterna salvação do próximo, mesmo que o zelo dos pregadores pareça inoportuno ao homem carnal, que é perturbado por suas paixões. Quanto ao respeito humano São Paulo pouco antes, ou seja, no capítulo I, 8 já havia advertido a Timóteo: "Portanto, não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor...".
   Podemos concluir que a tradução "quer agrade, quer desagrade"  também está correta, porque expressa o que São Paulo realmente queria dizer.
   O grande escritor Gustavo Corção, por quem D. Antônio de Castro Mayer tinha grande estima, escreveu um livro ao qual deu o seguinte titulo: "A TEMPO E CONTRATEMPO". Adverbialmente tomado, contratempo é o mesmo que fora de tempo. Nas orelhas da capa do livro, a Editora Permanência que publicou o dito volume, explica a origem e a razão deste título. Diz assim: Aqui se recolhem alguns artigos de Gustavo Corção, publicados na imprensa diária, sob o calor dos acontecimentos mas com doutrina permanente... O título buscou-o Corção no Apóstolo das Gentes, que, profeta, anunciou quase com detalhes a loucura dos nossos dias: Erit enim tempus... "Tempo virá em que os homens já não suportarão a sã doutrina, e inventarão para si mestres, levados pelo prurido de ouvir; e afastarão seus ouvidos da verdade e os inclinarão às fábulas". Prevenindo dessas coisas o discípulo amado Timóteo e, através dele, na sucessão dos séculos, os outros discípulos, recomenda Paulo que o pregador pregue, opportune, importune, para que a verdade seja posta ao alcance de quem queira contemplá-la e segui-la. É o que tem feito Gustavo Corção, vencendo todas as dificuldades e incompreensões, sacrificando amizades, afrontando calúnias e desfigurações..."
   Já no corpo do livro, antes do primeiro Artigo, lemos toda a passagem de São Paulo: "Quanto a ti, apega-te ao que aprendeste e ao que crês com certeza, sabendo de quem o aprendeste, e ao que, desde a infância, conheces das Sagradas Escrituras, de onde podes haurir sabedoria para a salvação pela fé no Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para repetir, para corrigir e para educar na santidade, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e pronto para obras boas".
   "Eu te adjuro diante de Deus e do Cristo Jesus que deve vir julgar os vivos e os mortos, por sua aparição e por seu reino: prega a palavra, insiste a tempo e contratempo, retoma, censura, exorta, com paciência inteira e zelo de instrução; porque tempo virá em que os homens não suportarão a sã doutrina e, ao sabor de suas paixões, se entregarão a uma multidão de doutrinadores. Com cócegas nos ouvidos, eles os afastarão da verdade para os inclinar às fábulas. Tu, sê sóbrio em todas as coisas, suporta o sofrimento, faz obra de pregador do Evangelho, cumpre até o fim tua tarefa". (2ª Tim. III, 14-17; e IV, 1-5).
  
   Há um outro livro cujo título também foi inspirado nas palavras de São Paulo a Timóteo (2ª Tim. IV, 2); mas este tem por autor não Gustavo Corção mas o então Revmo Pe. Fernando Arêas Rifan. Preferiu a tradução "quer agrade, quer desagrade". Na apresentação do livro, assim escreveram seus amigos e paroquianos: "Como parte das comemorações do jubileu de prata sacerdotal do Revmo. Pe. Fernando Arêas Rifan, ocorreu-nos a feliz ideia de reunirmos em um livro uma coletânea de vários artigos por ele escritos e publicados, em diferentes épocas, em diversos órgãos da imprensa. Os artigos que selecionamos versam sobre assuntos variados, mas sempre com uma equilibrada visão católica, conforme a Igreja sempre orientou os seus fiéis.
                                  'Quer agrade, quer desagrade!"
   Certamente este livro não agradará a todos. Nem é sua pretensão. Bom sinal! O próprio Jesus não conseguiu a unanimidade do beneplácito popular. São Paulo, autor da frase, título deste livro, exclamava: "Se alguém vos anunciar um Evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema. Porque, em suma, é a aprovação dos homens que eu procuro, ou a de Deus? Porventura é aos homens que eu pretendo agradar? Se agradasse ainda aos homens, não seria servo de Cristo" (Gal. I, 9 e 10). Mas todos admirarão a sinceridade e a clareza de posições do autor, que preferiu o "sim sim não não" do Evangelho à conivência com o erro e à cumplicidade na "autodemolição da Igreja" com pretensões a aplausos e reconhecimentos oficiais. Como pitorescamente comentou um jornalista da "esquerda": "Pe. Fernando é um inimigo em quem se pode confiar!", reconhecendo, apesar de divergir dele, a lisura e lealdade do seu posicionamento.
   Na orelha deste excelente livro vemos a foto do Revmo. Padre Fernando A. Rifan e logo abaixo podemos ler estas sábias palavras: "PESSOAS DE BOM SENSO, UNI-VOS!
A crise atual, muito mais do que econômica e social, é sobretudo moral e religiosa. É crise de bom senso. São raras hoje as pessoas de senso comum, de senso crítico, enfim, do bom senso. E quem ainda o tem é taxado , pejorativamente, de moralista, radical, direitista, conservador, retrógrado, tradicionalista, etc. E, por medo de receber tais adjetivos, muita gente capitula e adere à maioria.
Os artigos do Pe. Fernando Arêas Rifan, que ora publicamos, além de um convite à reflexão, é uma convocação a todas as pessoas de bom senso à responsabilidade e ao empenho na luta pelas causas sadias e por uma sociedade melhor."
   E, a exemplo de Gustavo Corção, antes do primeiro artigo, o então Revmo. Pe. Fernando Arêas Rifan, traz as palavras de São Paulo, palavras que inspiraram o título do seu livro: "Prega a palavra, insiste
 Quer Agrade
Quer Desagrade,
repreende, adverte, exorta com toda a paciência e doutrina. Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas multiplicarão para si mestres conforme os seus desejos, levados pela curiosidade de ouvir. E afastarão os seus ouvidos da verdade para os abrirem às fábulas..."

                                                              São Paulo, apóstolo
                                                                        (II Tim 4, 2-4)
  
Caríssimos leitores, recomendo a leitura destes excelentes livros, quer agrade quer desagrade, a tempo e contratempo.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

A CONFISSÃO PRESERVA A ALMA DO DESESPERO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 Não é difícil o entendermos já que a confissão purifica, eleva e fortifica a alma. Na verdade, caríssimos, quantos se entregam com todo o ardor às suas paixões só porque se desesperam de quebrar as suas correntes opressoras!? E depois, há alguma coisa mais funesta do que a demora prolongada do mal na alma? O pecado induz a outro pecado, um abismo atrai outro abismo,  a alma se deprava cada dia mais e torna-se pouco a pouco a presa duma corrupção secreta, que seria incurável se a bondade de Deus não fosse infinita como o seu poder. O mal estabelecendo-se na alma, derrama nela um veneno mortal que altera no pecador o sentimento divino, mas sem nunca poder extingui-lo; daí esta indisposição, esta amargura, este desgosto surdo e íntimo, uma indisfarçável melancolia que se acumula, por assim dizer, no mais profundo da alma, e cujas explosões são algumas vezes tão terríveis. Dizia Monsenhor Gerbet: "o remorso, muito tempo concentrado, forma no fundo de certas almas como uma mina terrível que ameaça destruir existências pacíficas, e, o que é mais triste ainda, despedaçar corações. A confissão é um meio secreto que previne a explosão desta bomba".

A Providência divina quis que um padre dos mais zelosos e dos mais piedosos se encontrasse um dia, à mesa, com uma sociedade de atores e atrizes. A conversa não poderia ser mais a propósito. O padre ganhou logo a simpatia dos convivas. E mais do que isto: ganhou toda confiança o que deixou todos bem à vontade para fazer perguntas. Foi a graça divina que os levou a perguntar ao padre justamente sobre o sacramento da confissão. E especialmente qual seria a situação dos atores em face da Igreja. Uma e outra parte discutia o assunto vivamente, porém, sem nenhum azedume. De fato o zeloso sacerdote ganhou os corações de todos!


As janelas da sala davam para um magnífico lago. Um barco a vapor vinha passando. "Tendes ali, senhores, disse o padre, o que vai fazer-vos compreender para que nos serve a confissão. Vedes este barco a vapor. Uma força poderosa faz mover a sua máquina e o faz caminhar rapidamente; mas esta mesma força o poria em perigo de explosão e de destruição sem o que se chama a válvula de segurança. Por esta válvula  de escape se exala o excesso de vapor, e assim o barco e os viajantes estão em segurança. O mesmo acontece com todos nós. Temos em nós forças poderosas, que são as nossas paixões. Para estas forças, para estas paixões, é preciso uma válvula de segurança, uma abertura sem a qual estamos perdidos. Pois bem! esta válvula é a confissão, que Deus nos deu para alívio de nossos corações, para consolação e purificação de nossas consciências. Observa-se que nos países onde a confissão é desconhecida, há mais casos de loucura e de suicídio do que naqueles em que existe a confissão". E o padre desenvolveu esta tese com toda a energia e ciência, sustentando-a com numerosos exemplos. Quando se despediu da companhia, uma jovem atriz de vinte e três anos acompanhou-o até a porta da entrada. Quando se viu só com ele, exclamou, com voz sufocada pelos soluços: "Senhor, vós me salvastes! Foi a Providência que vos conduziu para junto de nós. Eu estava desesperada; esta noite eu queria lançar-me no lago e nele acabar com as dores da vida... Agora quero confessar-me". O padre tranquilizou com doçura aquela pobre moça, induziu-a a deixar o teatro, o que obteve sem dificuldade, e apressou-se a reconciliá-la com Deus. Ela tornou-se desde então uma boa e fervorosa cristã. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

S. JOÃO BOSCO

  A CONQUISTA DA JUVENTUDE


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

No século XIX, um menino pobre, órfão de pai aos dois anos, que recebeu uma forte educação humana e cristã de sua mãe, Margarida, mulher simples, sem estudos, mas de muita fé, tornou-se o maior educador daquele século e modelo de todos os educadores. Estamos falando do grande São João Bosco, cuja festa celebraremos dia 31, com os seus filhos salesianos.
            Estamos em Turim, Itália, na época do começo da industrialização, com o problema decorrente da imigração juvenil. Inundada de jovens procurando emprego, que nem sempre conseguiam, essa cidade oferecia ocasião para muitas desordens e perigos para essa juventude. É nesse contexto que entra em ação o Padre João Bosco, Dom Bosco, como se chamam os padres na Itália, como hábil organizador de iniciativas, implantando um fantástico sistema educacional que mais tarde se chamaria “sistema preventivo”, fundado na razão, na religião e na amabilidade. E assim ele conquistou a juventude.
            Seu sistema de educação consistia em prevenir as quedas, em tirar os jovens das ocasiões de pecado. Vigilância, palavrinha de conselho ao ouvido de cada um, compreensão, amabilidade e amor no trato com os jovens, vida pessoal de oração e uso dos sacramentos da Igreja, eram os seus instrumentos didáticos e pedagógicos. E todos o amavam e procuravam imitar. Não seria esse o melhor método para educar a nossa juventude tão desnorteada hoje?!
            Enfrentando ataques violentos dos anticlericais, ele implantou o oratório festivo de Valdocco, enriqueceu-o de laboratórios artesanais e profissionais, com escolas de artes e ofícios para jovens trabalhadores e com escolas humanísticas para os jovens encaminhados ao sacerdócio. Em pouco tempo, já havia oitocentos jovens, provenientes das camadas populares da Itália. E sua obra se espalhou por todo o mundo.
            Para assegurar o futuro de sua obra, fundou a Pia Sociedade de São Francisco de Sales, os Salesianos, e, com a ajuda da Irmã Maria Mazzarello, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, das quais temos ilustres representantes em nossa cidade, dedicados à educação dos jovens. A eles e a elas a nossa homenagem e imensa gratidão.
            São João Bosco foi considerado o novo São Vicente de Paulo, pela sua dedicação aos mais carentes. Foi grande escritor de livros populares, sobretudo para os jovens.
            Esse grande apóstolo da juventude, exemplo para todos os educadores, faleceu santamente em 31 de janeiro de 1888. Foi proclamado pelo Papa João Paulo II “pai e mestre dos jovens”. Que São João Bosco proteja a nossa juventude!

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

SÃO SEBASTIÃO

      SÃO SEBASTIÃO

                                                                                                                                        Dom Fernando Arêas Rifan*
            No próximo dia 20, celebraremos a solenidade do glorioso mártir São Sebastião, padroeiro da Cidade maravilhosa e do nosso Estado do Rio de Janeiro.
          Segundo nos explica Dom Orani João Tempesta, Cardeal Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, ele nasceu em Narbona, uma cidade ao Sul da França, no século III. Era filho de uma família ilustre. Ficou órfão do pai ainda menino, e então, foi levado para Milão por sua mãe, onde passou os primeiros anos da infância e juventude.
          A mãe educou-o com esmero e muito zelo. Ele ingressou no exército imperial, e, por sua cultura e grande capacidade atingiu os mais altos graus da hierarquia militar, chegando a ocupar o posto de Comandante do Primeiro Tribunal da Guarda Pretoriana durante o reinado de Diocleciano, um dos mais severos imperadores romanos, perseguidor dos cristãos.
          Foi denunciado ao Imperador como sendo cristão. Mesmo sendo um bom soldado romano, suas atitudes demonstravam sua fé cristã, e, diante de todos, confessou bravamente sua convicção. Foi acusado, então, de traição. Na época, o imperador tinha abolido os direitos civis dos cristãos. Por não aceitar renunciar a Cristo, São Sebastião foi condenado à morte, sendo amarrado a um tronco de árvore e flechado. Porém, não morreu ali. Foi encontrado vivo por uma mulher cristã piedosa que tinha vindo buscar o seu corpo. Diante do ocorrido, recuperada a saúde, apresentou-se diante do Imperador e reafirmou sua convicção cristã. E nova sentença de morte veio sobre ele: foi condenado ao martírio no Circo. Sebastião foi executado, então, com pauladas e boladas de chumbo, sendo açoitado até a morte e jogado nos esgotos perto do Arco de Constantino. Era 20 de janeiro.
          Seu corpo foi resgatado e levado para as catacumbas romanas com grande honra e piedade. Sua fama se espalhou rapidamente. Suas relíquias repousam sobre a Basílica de São Sebastião, na via Apia, em Roma. O Papa Caio escolheu-o como defensor da Igreja e da fé.
          Nesses tempos de grande negação da fé e de valores espirituais e religiosos, humanos e sociais, São Sebastião torna-se um grande modelo de ajuda para nós hoje, principalmente aos jovens, envoltos em grande confusão moral e espiritual. Ele é um sinal de fidelidade a Cristo mesmo com as pressões contrárias. Dessa forma, ele continua anunciando Jesus Cristo, por quem viveu, até os dias de hoje. Ele nos ensina a não desanimarmos com as flechadas que recebemos e a continuarmos firmes na fé.
          Um mártir não deve ser um estranho para nós. Ainda em pleno século XXI encontramos irmãos e irmãs nossas que são mortos em tantos países, outros têm ainda seus direitos civis cassados por serem cristãos, outros são condenados à prisão ou à morte por aderirem ao Cristianismo, e ainda são expulsos de suas cidades e suas igrejas queimadas. Além disso, muitos são martirizados em sua fama, em sua honra e tantas outras maneiras modernas de “matar” pessoas por causa da fé ou de suas convicções cristãs.



                                                             *Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
                                                                                      http://domfernandorifan.blogspot.com.br/