terça-feira, 4 de agosto de 2020

PRINCÍPIOS PARA DESFAZER DÚVIDAS DE CONSCIÊNCIA


Padre, tenho tantas dúvidas de consciência! Que devo fazer? Responderei com o célebre escritor espiritual e grande teólogo o Padre Perriens. Este, por sua vez se baseia em Santo Afonso Maria de Ligori, que, como todos sabem é a maior autoridade na Igreja no que se refere à Teologia Moral.

"Quanto às dúvidas, que podereis ter, relativamente a pecados que não estais certos de ter cometido, ou a confissões talvez mal feitas, se quiserdes manifestá-las ao vosso diretor, para maior tranquilidade, fareis bem, a menos que não sejais escrupulosos; pois, para os escrupulosos, não aconselho a que confessem as suas dúvidas.

Todavia, é bom que conheçais alguns ensinamentos aprovados pelos teólogos, que podem livrar-vos de muitas inquietações e dar-vos a paz.

1. Em primeiro lugar, não há obrigação de confessar os pecados graves, quando duvidosos, ou quando há dúvida de terem sido cometidos com pleno conhecimento ou consentimento perfeito e deliberado.

Além disso, as pessoas que levaram durante muito tempo vida espiritual, quando duvidam de ter cometido ou não algum pecado grave, podem estar certas de não ter perdido a graça de Deus; pois, é moralmente impossível que uma vontade firme nos bons propósitos mude de repente, e consinta em um pecado mortal, sem o conhecer claramente; porque o pecado mortal é um monstro tão horrível, que não pode entrar em uma alma que teve por muito tempo horror a ele, sem se fazer conhecer claramente.

2. Em segundo lugar, quando o pecado mortal foi cometido com certeza, e se duvida se foi confessado ou não, então, não havendo razão para julgar que tenha sido confessado, deve-se certamente declará-lo.

Mas, havendo razão ou presunção fundada de que o pecado foi outrora confessado, não há obrigação de o confessar.

Daí, quando uma pessoa fez as suas confissões gerais ou particulares com o cuidado requerido, e receia ter omitido algum pecado ou alguma circunstância, não precisa acusar-se de novo, pois pode crer prudentemente que fez o que devia.  - Mas, objetar-me-eis, se eu estivesse obrigado a dizer isso, sentiria muita vergonha. Resposta: Não importa; desde que não estais obrigado a falar da vossa dúvida, esta repugnância não vos deve inquietar. Basta dizer em vosso coração: Senhor, se eu soubesse verdadeiramente que devia confessar-me, eu o faria logo, qualquer que fosse a pena que tivesse de sofrer.

Demais, é bom que cada um descubra ao seu diretor as dúvidas que o inquietam, não fosse isto senão para se humilhar, a menos que não seja escrupuloso; pois, neste caso, não deve falar neles. Mas o que eu queria principalmente é que fizéssemos conhecer ao confessor as vossas PAIXÕES, as vossas INCLINAÇÕES  e AS CAUSAS das vossas tentações, afim de que ele pudesse achar as raízes do mal; pois, não se arrancando essas raízes, as tentações não cessarão nunca; e há grave perigo de consentir nelas, quando se pode afastar a causa e não se o faz.

É ainda útil, pelo menos, a algumas pessoas, para se humilharem, descobrir as tentações que mais as humilham; tais são especialmente, as tentações contra a castidade. "A tentação descoberta é meio vencida",  diz São Filipe Nery. Eu disse, PELO MENOS A ALGUMAS PESSOAS,  pois, para outras, que são raras vezes tentadas, mas muito tímidas neste matéria, temendo sempre ter consentido, é por vezes prudente proibir-lhes que se confessem sobre tal ponto, enquanto não têm a certeza de ter consentido no pecado.

Uma pessoa que contasse as tentações, mas logo garantisse que não deu consentimento, isto é simplesmente perder tempo no confessionário. Porque aí se contam pecados, e, quando não se consente nas tentações, não há nenhum pecado. E se alguém, porventura só contar tentações nas quais não consentiu, não pode receber a absolvição, a menos que inclua pecados passados já confessados e dos quais tem certeza de ter arrependimento de os ter cometido.  


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

OBEDIÊNCIA AO CONFESSOR

Ouçamos grandes autores espirituais e santos que falam sobre a obediência ao confessor:

"É justo, nota São Gregório, que aqueles que obedecem , triunfem de todas as tentações do inferno, pois, submetendo sua vontade aos outros por obediência, tornam-se superiores aos demônios que caíram por sua desobediência". Ao assim se expressar este santo deveria ter em mente esta palavra do Divino Espírito Santo: "O homem obediente será vitorioso" (Prov. II, 21).

O célebre escritor espiritual Cassiano acrescenta que aquele que mortifica sua própria vontade destrói todos os vícios, porquanto "todos os vícios provêm da vontade própria".

"A obediência ao confessor, diz o Padre Perriens, nos faz também vencer todos os artifícios do demônio, que por vezes, sob pretexto de algum bem, nos leva a nos expormos às ocasiões perigosas, ou nos faz empreender certas coisas que parecem santas, mas que podem causar-nos muito mal; por exemplo: às pessoas piedosas, o espírito maligno faz empreender penitências imoderadas; perdem a saúde, depois abandonam tudo e tornam a tomar o caminho largo que seguiam primeiramente. Eis, aí o que acontece a quem age por sua própria cabeça; mas, quem se deixa guiar pelo confessor, não tem que temer semelhantes ilusões. Aquele que obedece perfeitamente ao confessor tem certeza, não somente de salvar-se (se perseverar), mas mesmo de santificar-se. A santificação consiste em fazer a vontade de Deus como o ensina Santo Tomás de Aquino. Ora, santa Tereza declara que a obediência ao confessor é o meio certo de fazer a vontade de Deus. Segue-se daí que aquele que age por obediência ao confessor, agrada sempre a Deus, seja praticando a oração, a mortificação, a comunhão, seja omitindo seus piedosos exercícios. Do mesmo modo, ele merece sempre, seja divertindo-se, seja trabalhando; pois, obedecendo, faz sempre a vontade de Deus. Assim, continua o P. Perriens, a obediência ao nosso confessor é a coisa mais agradável que podemos oferecer a Deus, e é o meio seguro de cumprir sua divina vontade".

Santo Henrique Suso assegura que "Deus não nos pedirá conta do que tivermos feito por obediência". Grande consolo para os escrupulosos!

Santa Teresa d'Ávila diz: "Que a alma tome seu confessor por juiz, com a resolução de não mais pensar em sua causa, mas de confiar nestas palavras de Nosso Senhor: Aquele que vos ouve, a mim ouve." E a grande Reformadora do Carmelo, acrescenta que é este o meio certo de fazer a vontade de Deus. Também declara que foi por este meio, a obediência ao confessor, que ela mesma aprendeu a conhecer e a amar a Deus. Não temia afirmar que "a obediência é o caminho mais curto para chegar à perfeição".

São Filipe Néry dizia: "Enquanto se obedece se tem segurança de que Deus não lhe pedirá contas". Por conseguinte, se praticais assim a obediência, suponhamos que no dia do juízo Jesus Cristo vos dirija estas perguntas: por que ficastes tranquilo quanto às suas confissões, por que escolhestes este gênero de vida? Por que comungastes tantas vezes? Por que deixastes aquelas penitências? Podereis responder: Senhor, assim o ordenou meu confessor. Então o divino Juiz não poderá senão aprovar o que tiverdes feito".

Aqui me dirijo especialmente às almas escrupulosas. Caríssimos, o(a) escrupuloso(a), em particular, é obrigado(a) a obedecer a seu confessor. Além das razões a acima indicadas, o escrupuloso tem mais esta: que é incapaz de julgar por si mesmo sua consciência e seus atos; e obedecendo, está sempre certo de proceder bem. Dois grandes meios para cura desta doença espiritual: oração e obediência ao confessor. São Domingos, foi tentado de ter escrúpulo justamente por obedecer ao seu confessor. Nosso Senhor Jesus Cristo disse-lhe: "Por que temes obedecer a teu diretor? Tudo que ele diz deve servir para teu bem".

São Bernardo ensina que: "tudo que manda aquele que ocupa o lugar de Deus, a menos que não seja evidentemente um pecado, deve ser recebido como se Deus mesmo o ordenasse". Pode alguém pensar:  - Mas meu confessor não é um São Bernardo. Responde o grande escritor espiritual Gerson: "Não dizeis bem, pois vos confiastes aos cuidados deste homem, não porque seja hábil, mas porque Deus vo-lo deu por guia; deveis pois obedecer-lhe, não como a um homem, mas como a Deus".

 Agora, um conselho que vale para todos e não só para os escrupulosos: É óbvio que, neste tempo de crise em que muitos padres (não são todos) não seguem a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos tomar cuidado! Não é difícil verificar que muitos, inclusive bispos, lamentavelmente, são comunistas.  No caso de não haver outro, confesse-se, mas prestar bem atenção nos seus conselhos e ordens no confessionário. Caso não estejam em acordo com o que a Igreja sempre ensinou, simplesmente não seguir. E o quanto for possível, evitar confessar-se com tais confessores. Na verdade, se o confessor, sendo fiel à doutrina de Jesus Cristo, pode fazer um grande bem às almas, também é verdade que o mau confessor pode fazer um mal enorme. Hoje infelizmente é mister fazer estas advertências, que antigamente os autores espirituais não precisavam fazer, pelo menos assim tão insistentemente. O perigo hoje é muito maior, porque a grande e terrível arma empregada pelos modernistas hodiernos é a ambiguidade. São Bernardo diz: "a menos que não seja evidentemente um pecado". Mas hoje aconselha-se o que é pecado nebulosamente disfarçado nas ambiguidades. Só para dar um exemplo: quem não sabe que muitos padres não seguem a Encíclica de Paulo VI, "Humanae Vitae"!

Deixo aqui uma advertência para os escrupulosos: Não aposto na loteria porque tenho medo de ganhar. O dinheiro pode levar-me à condenação. O escrupuloso deve evitar de estar procurando confessor, porque pode acontecer que encontre um que concorde com ele. E aí correria risco de se condenar.

Jesus, manso e humilde de coração! Fazei o meu coração semelhante ao vosso! Amém!

 


domingo, 2 de agosto de 2020

O GRANDE REMÉDIO DO ESCRÚPULO

O grande remédio do escrúpulo é a obediência ao confessor. Mas a tentação mais comum dos escrupulosos é justamente não obedecer ao confessor.

    Na verdade, o demônio costuma embaraçar as almas escrupulosas inspirando-lhes o temor de pecar, se fizerem o que diz o confessor. É preciso vencer esta tentação, ou, melhor dizendo é preciso vencer estas vãs apreensões. Desde que o confessor aconselhe alguma coisa, todos os doutores e todos os mestres da vida espiritual ensinam, comumente, que é preciso vencer o escrúpulo e obedecer. Aquele que obedece caminha sempre seguro. "Nunca um verdadeiro obediente se perdeu", diz S. Francisco de Sales. E acrescenta: "É preciso contentar-se com saber que se pratica o bem obedecendo ao pai espiritual, sem indagar as razões". Um padre dizia: "Mesmo quando o confessor se enganasse, o penitente não se engana obedecendo e caminha com segurança".

   É ao confessor que compete decidir se uma pessoa é escrupulosa ou não. Todos os escrupulosos  pretendem que seus escrúpulos não são escrúpulos, mas verdadeiros pecados. O demônio os engana assim para tornar-lhes odiosa a vida espiritual, para fazê-los abandonar a oração, a comunhão, para conduzi-los pelo caminho largo, e mesmo para fazê-los perder a cabeça. Também, uma pessoa escrupulosa que não obedece, está perdida.

Eis aí porque os teólogos ensinam que, quando um confessor ordena agir com liberdade e vencer seus escrúpulos, não somente se pode, mas mesmo se deve obedecer. Demais São João da Cruz declara que "não crer na decisão do confessor, é orgulho e falta de fé". É isto que o escrupuloso deve temer, e não imaginários pecados.

O Padre Tanquerey, grande teólogo, fala sobre os inconvenientes do escrúpulo: "1º - Quando alguém tem a desdita de se deixar dominar pelos escrúpulos, são deploráveis os efeitos que eles produzem no corpo e na alma. Vamos resumir:

a) Enfraquecem gradualmente e desequilibram o sistema nervoso: os temores, as angústias incessantes exercem uma ação deprimente sobre a saúde do corpo; podem converter-se numa verdadeira obsessão.

b) Cegam o espírito e falseiam o juízo: perde-se pouco a pouco, a faculdade de discernir o que é pecado do que não o é; o que é grave do que é leve.

c) A indevoção do coração é muitas vezes consequência do escrúpulo; à força de viver na agitação e confusão torna-se o escrupuloso medonhamente egoísta, entra a desconfiar de toda gente, até de Deus, que começa a olhar como demasiado severo; queixa-se de que o Senhor nos deixe nesse infeliz estado, acusa-o injustamente: é evidente que a verdadeira devoção, em tal estado, é impossível.

d) Vêm por fim os desfalecimentos e as quedas. O escrupuloso gasta as energias em esforços inúteis sobre ninharias, e depois já não tem força para lutar em pontos de grande importância. Daí vem os desfalecimentos. E não encontrando alívio na piedade, vai procurá-la noutras partes, o que, às vezes, é perigoso.

O escrupuloso deve rezar pedindo a Deus a cura desta doença espiritual. Neste ínterim, Deus quer que a alma tire algum proveito: Deve aceitar este sofrimento como uma provação. Assim deve aproveitá-lo para purificar a alma e deve chegar a uma grande pureza de coração. Também ajuda na aquisição da humildade e da obediência. O escrupuloso se corrigindo tem facilidade de chegar a possuir uma consciência delicada, o que é um grande dom de Deus.  Amém!

 

 

 

O GR

sábado, 1 de agosto de 2020

ESCRÚPULO


   Aqui falo apenas do escrúpulo propriamente dito, que é justamente aquele acompanhado de obstinação. Não trato dos escrúpulos passageiros e dos provenientes de causas sobrenaturais.

   Escrúpulo é uma horrível doença espiritual, é um grande erro e, por estas duas coisas, constitui um grande obstáculo na vida espiritual. E se criar raízes inveteradas, pode levar à ruína espiritual. O Espírito Santo diz em I Reis, XIX, 11: "Non in commotione Dominus". "Deus não está na agitação". "Commotio" (em latim) tem o sentido literal  "abalos" como os provocados por ventos fortes. Mas Cícero usa-o no sentido figurado de "agitação", "angústia". E é neste sentido figurado que aqui o empregamos relativamente ao escrúpulo. Na verdade, o escrúpulo causa grandes abalos na alma, como o vento os causa nas florestas, plantações etc. As agitações da alma provocam grandes ruínas espirituais.

   O escrúpulo pode se comparar, outrossim, a uma doença nos olhos: doença que causa coceira e que turva o olhar. Quanto mais o doente coça, mais a coceira aumenta, e quanto mais esta aumenta, mais turva fica a visão. Se não usar o colírio adequado e o doente não tiver força de vontade para não coçar mais, nunca chegará a cura. Antes pelo contrário, pode levar à cegueira.

   Diz o P. Faber: "O escrúpulo pode ainda ser comparado a um cavalo espantadiço e medroso que recua em vez de avançar, desobedecendo às rédeas do cavaleiro, pondo-o muitas vezes em perigo, além de lhe causar irritação. Acresce que o escrupuloso, fugindo da sombra do pecado imaginário, precipita-se no pecado real".

   Mas, que é escrúpulo? Etimologicamente, vem da palavra latina "scrupulus". que significa "pedrinha". Foi bem escolhida esta figura para designar esta doença que angustia e embaraça a alma. Assim, o escrúpulo é como uma pedrinha dentro do sapato: incomoda a todo momento, e estorva o andar da pessoa.  O teólogo Tanquerey mostra outro significado da palavra "scrupulus": "Designou durante muito tempo um peso minúsculo, que não fazia inclinar senão as balanças mais sensíveis. Em sentido moral, designa uma razão insignificante, de que somente se preocupam as consciências mais delicadas. Daqui passou a exprimir a inquietação excessiva que experimentam certas consciências, pelos motivos mais fúteis, de haverem ofendido a Deus". O escritor espiritual Poulain assim define o escrúpulo: "É um temor infundado e aflitivo de pecar ou de ter pecado". 

   Diz o P. Faber, sempre com aquela fina psicologia que lhe é característica: "Distinguir entre tentação e o pecado, constitui um ramo importante da espiritualidade, e o escrúpulo nada mais é do que uma condenável incapacidade em fazer tal distinção. Outra pessoa verá logo que meu escrúpulo não é pecado, mas si eu mesmo o discernisse, não teria escrúpulo; e mais, se confiasse na palavra do meu diretor, quando ele mo dissesse, não seria escrupuloso... (O escrúpulo) não merece a estima moral; não possui enfim o menor elemento de bem espiritual. É simplesmente um sentimento perverso e errôneo, digno de inspirar a piedade, com certeza, mas a mesma piedade que merece o homem que vai a caminho da forca. Francisca de Pampeluna viu muitas almas sofrerem no Purgatório, somente por causa dos escrúpulos, e, como isto a surpreendesse, Nosso Senhor lhe disse que nunca o escrúpulo estava isento por completo de pecado".  

   Seguindo o célebre e seguro teólogo Tanquerey, vamos ver donde provém o escrúpulo: "O escrúpulo provém umas vezes duma causa puramente natural...  a) Sob o aspecto natural, é muitas vezes o escrúpulo uma doença física e moral. 1 ) A doença física que contribui para produzir esta desordem, é uma espécie de depressão nervosa que torna mais difícil a acertada apreciação das coisas morais, e tende a produzir, sem motivo sério, o pensamento obsessivo de que se cometeu um pecado. 2) Mas há também causas morais, que produzem o mesmo resultado: um espírito meticuloso, que se afoga nas mais ridículas insignificâncias, que desejaria ter certeza absoluta em todas as coisas; um espírito mal esclarecido, que representa a Deus como um juiz não somente severo, mas implacável; que, nos atos humanos, confunde a impressão com o consentimento e imagina haver pecado, porque a fantasia foi longa e fortemente impressionada; um espírito obstinado, que prefere o seu próprio juízo ao do confessor, precisamente porque se deixa guiar pelas suas impressões muito mais que pela razão.

   Quando estas duas causas, física e moral, se encontram reunidas, é muito mais profundo o mal, muito mais difícil de curar.

 O P. Tanquerey mostra a "diferença entre o escrúpulo e a consciência delicada:

    a) O ponto de partida não é o mesmo: a consciência delicada ama a Deus com fervor e, para Lhe agradar quer evitar as menores faltas, as menores imperfeições voluntárias; o escrupuloso é guiado por um certo egoísmo, que lhe faz desejar com excessiva ansiedade a segurança de estar em graça.

   b) A consciência delicada, por ter horror ao pecado e conhecer a própria fraqueza, sente um temor fundado, mas não perturbador, de desagradar a Deus; o escrupuloso alimenta receios fúteis de pecar em todas as circunstâncias.

   c) A consciência delicada (= timorata) sabe manter a distinção entre o pecado mortal e o venial e, em caso de dúvida, submete-se imediatamente ao juízo do seu diretor; o escrupuloso discute  com o diretor e não se sujeita senão com dificuldade às suas decisões.

   Assim como é necessário evitar com todo o cuidado o escrúpulo, assim não há nada mais precioso que a consciência delicada" (P. Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, 2ª parte, c. V).

   Donde podemos concluir que o centro do escrupuloso não é Deus, mas sim o amor próprio. O escrupuloso deve, com toda urgência, procurar se corrigir, porque, caso contrário sofrerá danos deploráveis tanto na saúde corporal como na espiritual. Os escrúpulos enfraquecem gradualmente o sistema nervoso; aquelas angústias incessantes podem converter-se numa verdadeira OBSESSÃO e produzir uma espécie de ideia fixa de pecado, um verdadeiro desequilíbrio emocional. Depois, os escrúpulos cegam o espírito e falseiam o juízo, de tal modo que a pobre alma escrupulosa torna-se navio sem leme e sem bússola.  E a tudo isto acresce que o demônio pode se aproveitar desta depressão para tentar levar o escrupuloso ao desânimo no caminho da vida espiritual.

   Vejamos agora as normas de agir e de cura dos escrupulosos. Faço aqui um resumo do que dizem grandes teólogos tradicionais e que se baseiam em Santo Afonso Maria de Ligório, doutor máximo da Igreja em Teologia Moral.  Não percamos de vista que, na verdade, o remédio do escrúpulo é a OBEDIÊNCIA PLENA E ABSOLUTA ao um diretor experimentado que deve ter para com o escrupuloso, um misto de firmeza e bondade. Só uma obediência cega ao confessor e diretor espiritual poderá curar o escrupuloso. E este deve pedir todos os dias a Deus esta graça. Uma norma que o escrupuloso deve ter sempre e firme na mente é a seguinte: "Ninguém pode cometer pecado mortal, a não ser que tenha certeza absoluta de que a ação que vai praticar é para ele proibida sob pena de pecado mortal, e, sabendo-o bem, queira ainda assim praticá-la, apesar de tudo". Não se deve dar, portanto, a mínima atenção às probabilidades, por mais fortes que sejam. Quanto às confissões gerais: depois de ter permitido uma, o confessor nunca mais deverá permitir nova confissão geral. Confissão geral para um escrupuloso é o maior veneno; como seria para ele, o maior desastre, encontrar um confessor que concordasse com as suas inquietações.

   No que diz respeito aos pecados internos de pensamentos e desejos, eis o que diz o grande teólogo P. Tanquerey: "Dar-se-á esta regra: durante a crise, desviar a atenção, pensando noutra coisa; após a crise, nada de examinar-se, para ver se houve pecado (o que poderia renovar a tentação), mas continuar o seu caminho, cumprindo os deveres do próprio estado, e comungar, enquanto não tiver evidência de haver dado pleno consentimento.

   Não é pecado agir contra a consciência escrupulosa, nem ainda quando se age com receio de pecar. Ao escrupuloso é permitido tudo o que ele vê fazer os homens tementes a Deus ainda que agissem contra a opinião dele. O escrupuloso pode estar escusado de muitos deveres positivos p. ex. da correção fraterna, da integridade na confissão, pelo grave perigo que daí lhe poderia resultar. Quando duvidar do cumprimento de uma promessa ou voto, o escrupuloso, sem nenhum temor de pecar, pode supor que os cumpriu. O escrupuloso tem a seu favor um grande privilégio: se duvida da suficiência de seu arrependimento, pode decidir-se em seu favor. Não precisa confessar os pecados cometidos antes da última confissão, a menos que possa jurar tê-los cometido e não os ter confessado ainda.

   Cumpre ensinar aos escrupulosos que confundem sentimento de angústia com remorsos, que a causa da angústia tem sua raiz no estado anormal dos nervos e não em possíveis pecados. Agora uma coisa sobre a qual o escrupuloso tem que pensar: DEVE REAGIR contra os escrúpulos para NÃO PECAR por orgulho, teimosia e desobediência e para não prejudicar o corpo e o espírito ou o exercício da profissão e os deveres de seu estado. Se mostrar boa vontade, não peca até se corrigir. Se, não tiver boa vontade, estará pecando. Esta sim deve ser a sua preocupação.

   Evite o escrupuloso ler autores rigoristas, conversar com outros escrupulosos. Deus é nosso Pai, cheio de misericórdia, que quer a salvação de todos, e para Ele nada é impossível. Amém!

      


quarta-feira, 29 de julho de 2020

“FAKENEWS”

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

 

“Cuidado com os falsos profetas: Eles vêm até vós em pele de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes”, nos advertiu Jesus (Mt 7, 15). Profeta é aquele que fala em nome de Deus. Deus é a verdade. E toda verdade vem de Deus. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo14,6). “Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo o que é da verdade, escuta a minha voz”, disse Jesus a Pilatos (Jo 18, 37).

Sendo Deus a verdade, quem fala em seu nome deve falar só a verdade. Se fala mentira, é um falso profeta. O pai da mentira é o diabo (cf. Jo 8,44).        

A mentira atualmente recebeu um nome jornalístico moderno, um anglicismo: “fakenews”, isto é, notícia falsa. Há mesmo uma CPI das “fakenews”, procurando quem divulga essas falsidades.

A nossa inteligência, pela sua natureza, é dirigida para a verdade e só para a verdade; daí que ela só pode ser atraída pela mentira, se essa tiver algo ou aparência de verdade. Caso contrário não atrairia a inteligência. Por isso, a pior mentira é a que se parece com a verdade, ou que tem um pouco de verdade. E tanto pior quanto mais se parece com ela. Daí que a advertência de Jesus para termos cuidado com os falsos profetas, que, sendo lobos, vêm vestidos de pele de ovelhas, se refere às mentiras que têm aparência de verdade.

Conta-se uma anedota do fulano, que foi preso por fabricar notas falsas, e reclamava com o amigo que o fora visitar na cadeia: “Eu não sei o que houve: fabriquei notas de um real e saiu bem, de dez reais e saiu bem, fabriquei nota de 3 reais e fui preso!” É claro, pois não existe nota de 3 reais. A falsidade só engana quando tem aparência de verdade!!!

E costuma-se dizer que uma mentira é má pela sua falsidade, mas é perigosa pela sua aparência com a verdade. Uma cadeira comum, a que falta uma perna, é má pela perna que falta, mas é perigosa pelas três que tem. Engana e faz cair quem nela for se sentar. Toda caricatura tem algo do caricaturado. Mas também pode ser uma “fakenews”, pois deturpa a pessoa, ressaltando um defeito da pessoa ou tornando-o maior do que realmente é, falseando assim a verdade. A repetição da mentira é também “fakenews”; é a arma da “propaganda”, já preconizada por Goebbels: “uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”.  

Assim, os diversos tipos de “fakenews” têm especiais estratégias. É “fakenews”, por exemplo, dar só uma parte da notícia. É “fakenews” dar uma notícia na manchete e dizer coisa diferente no corpo da notícia. É “fakenews” manipular o número de pessoas, mostrando só uma parte da foto. É “fakenews” dar ênfase a um pronunciamento ou a uma sua parte, ênfase que na realidade não tem. É “fakenews” caricaturar alguém ou uma notícia, ressaltando maliciosamente aquilo que se pretende criticar. É “fakenews” dar só uma versão ou uma parte da notícia. Fatos são fatos, mas a versão dos fatos pode ser enganosa. É “fakenews” manipular ideologicamente os fatos ou parte deles, para influenciar as pessoas.

           

        *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

                                                                     http://domfernandorifan.blogspot.com.br/


segunda-feira, 27 de julho de 2020

TIBIEZA



      Primeiramente, que é tibieza? "É uma espécie de relaxamento espiritual, diz Tanquerey, que amortece as energias da vontade, inspira horror ao esforço e conduz assim ao afrouxamento da vida cristã. É uma espécie de languidez ou torpor, que não é ainda a morte, mas que a ela conduz, sem se dar por isso, enfraquecendo gradualmente as nossas forças morais". Dificilmente acontece isto com os neo-convertidos e com os que já chegaram a uma união maior com Deus. Manifesta-se, sobretudo em almas que estão em progresso na vida espiritual, isto é, na via iluminativa. São, geralmente, almas piedosas e até fervorosas, que, tendo deixado o pecado, não vigiaram o suficiente para arrancar do coração os apegos a coisas mais leves, mas que, na verdade são afeições ainda remanentes dos seus pecados passados. Eis o que a este respeito diz S. Francisco de Sales: "Filotéia, uma vez que aspiras sinceramente à devoção, não só deves deixar o pecado, mas é também necessário que teu coração se purifique de todos os afetos que lhe foram as causas e são presentemente as consequências; pois, além de constituírem um contínuo perigo de recaídas, enfraqueceriam a tua alma e te abateriam o espírito... Essas almas, que, tendo deixado o pecado, são tão tíbias e vagarosas no serviço de Deus, assemelham-se a pessoas que têm uma cor pálida; não é que estão verdadeiramente doentes, mas bem se pode dizer que seu aspecto, seus gestos e todas as suas ações estão doentes. Comem sem apetite, riem sem alegria, dormem sem repouso e mais se arrastam do que andam. Deste modo aquelas almas, em seus exercícios espirituais, que nem são numerosos nem de grande mérito, praticam o bem com tanto dissabor e constrangimento que perdem o brilho e graça que o fervor dá às obras de piedade" (Filotéia, parte I, c. VII).

   Apresento algumas comparações para que se possa compreender bem em que consiste este grande empecilho na vida espiritual. Comparemos a tibieza a uma tuberculose pulmonar. A pessoa acometida desta doença, vai-se definhando aos poucos. Assim faz a tibieza na alma que era fervorosa.  A tibieza pode ser comparada à rêmora. É um peixe marítimo relativamente pequeno  e munido  de uma espécie de ventosa em cima da cabeça, que o prende no casco de embarcações, estorvando-as, quando em cardume. Assim, a tibieza, pelos muitos pecados veniais, impede que a barquinha de nossa alma prossiga em demanda do porto da vida eterna.

   Comparemos a vida espiritual a água num vasilha que é levada ao fogo. Dois fatores fazem esta água esquentar e logo ferver: o fogo bem forte, bem atiçado e a tampa da vasilha hermeticamente fechada. Se houver um descuido com uma destas duas coisas e, mais ainda, com as duas, a água pára de ferver, e chega a um ponto que fica morna, isto é, nem quente e nem fria. Assim, comparando: O fogo que esquenta a alma é o amor de Deus. Este fogo é intensificado pelos exercícios de piedade bem feitos: meditação, leituras espirituais, oração da manhã e da noite, exercício da presença de Deus pelas orações jaculatórias, o santo Terço, o cumprimento fiel dos deveres de estado etc. A tampa bem fechada é o recolhimento. Pois bem, se a alma fervorosa descuida destas duas coisas, forçosamente mas aos poucos, vai perdendo o fervor do amor de Deus. Comete muitos pecados veniais exatamente em fazer por rotina e negligência, estas coisas que a colocariam sempre em maior comunhão com Deus, a fonte da vida sobrenatural. As forças e as luzes que vinham do divino Espírito Santo vão diminuindo. A alma torna-se morna na sua vida, porque ou não põe a lenha destes exercícios, ou põe lenha verde ou podre. Quer dizer, entrega-se voluntariamente às distrações nas orações; e está também dissipada pelas as coisas do mundo. E nunca até hoje, foi tão grande o perigo da dissipação pela TV, celular e Internet. O cuidado hoje contra a tibieza deve ser triplicado. Sobretudo, deve-se ter muito cuidado para não criar um fanatismo por jogos e notícias. Aqui estamos falando de pecados veniais. Mas diz a Sagrada Escritura que se a gente desprezar as coisas pequenas, aos poucos se cai nas grandes. A pessoa perde um tempo que poderia ser empregado no estudo do Terceiro Catecismo, em leituras espirituais, e mesmo em mais orações. Além disso se indispõe para os raros momentos que ainda sobram para conhecer melhor as verdades da fé, e para fazer suas poucas orações. Não queremos dizer que não sejam legítimos e até necessários alguns recreios honestos, mas quando muito demorados são contraproducentes. Em lugar de descansar o espírito, cansa-o, indispondo-o para a boa leitura e para a oração.

   O que a Sagrada Escritura diz da tibieza é realmente assustador: "Conheço as tuas obras (diz Deus ao bispo de Laodicéia), que não és nem frio nem quente; oxalá foras frio ou quente; mas, porque és morno, nem frio nem quente, começar-te-ei a vomitar da  minha boca. Tu dizes: sou rico, e enriqueci-me, e não conheces que és um coitado e um miserável e pobre e cego e nu" (Apoc. III, 15 - 17). Na verdade, a tibieza como que causa náuseas ao próprio Deus, porque envolve ingratidão e fraude para com Ele:"Maldito o homem que faz a  obra de Deus fraudulentamente" ( Jeremias XLVIII, 10). Além disso, é muito difícil o tíbio se converter.  A alma que estava na altura do fervor e cai de repente num pecado mortal (como aconteceu com Simão Pedro) leva um grande susto e logo procura se reerguer. Quando vai descendo aos poucos por uma ladeira escorregadia (a tibieza), termina chegando em baixo sem perceber, isto é, relaxa a consciência.

Uma barca tem que estar sempre impulsionada pelos remos. Parando estes, ela é levada pela correnteza. Um fogo deve ser sempre atiçado, do contrário, termina se apagando. Vejamos os remédios da tibieza:
·         São receitados pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo: "Aconselho-te que me compres ouro acrisolado no fogo, para te enriqueceres (o ouro da caridade e do fervor), e roupas brancas, para te vestires e não aparecer a vergonha da tua nudez (pureza de consciência), e um colírio para os teus olhos, para poderes ver (a franqueza consigo mesmo e com o próprio confessor). Porque aqueles que eu amo, repreendo-os e corrijo-os; arma-te, pois, de zelo e faz penitência. Eis que eu estou de pé à porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo" (Apoc. III, 18-20). NB.: É continuação do texto anterior supra citado do Apocalipse, mas os parênteses são do teólogo Tanquerey.

·         Para muitas almas que caíram na tibieza, a melhor farmácia para se adquirir os remédios indicados pelo próprio Jesus, é um retiro espiritual.

·         Para os que não podem ir a esta farmácia, receito-lhes alguns remédios caseiros: 1º - Esforçar-se em casa mesmo, para meditar sobre os novíssimos; 2º - Diminuir, o quanto for possível, o acúmulo de afazeres cotidianos. Alma querida que quer voltar a ser fervorosa, eis o meu conselho: se não puderes cumprir bem todos os teus deveres, por serem demais, desista de alguns; 3º - Por amor a Jesus, deixe de lado por algum tempo o seu celular, sua Internet e a TV (caso infelizmente a tenha) e você vai verificar como sua vida espiritual vai voltar a ser fervorosa. E compreenderás que vai ser necessário arrancar estes olhos para poderes entrar no reino do Céu.

·         Segundo o teu estado de vida, procure guardar ao máximo o silêncio, sem é claro, faltar com a caridade para com o próximo, sem singularidade. No mínimo, falar menos. Tenho certeza que você nunca irá se arrepender de o ter feito.

·         Não deixar os exercícios espirituais que fazia antes da tibieza chegar. E isto mesmo em meio a aridez e distrações que persistirão no início do tratamento. Isto é normal como acontece com os efeitos colaterais de certos remédios.

·         Procurar adquirir o hábito de pequenas mortificações exteriores, como aquela supra recomendada: aposentar o celular e a internet. Depois, à sua hora, virão as mortificações interiores. Afastastes-vos de Deus, cedendo às inclinações da natureza; aproximai-vos d'Ele, reprimindo-as.

   Mas, caríssimos, não esqueçamos que para conseguirmos todos os remédios da tibieza, só há uma moeda aceita no banco de Deus: a ORAÇÃO. E primeiro, a oração pedindo a graça de a fazer bem: "Senhor, ensinai-nos a orar" (S. Luc. XI, 1). Orai, portanto, por mais aborrecimento que vos cause a oração e apesar da sua aparente inutilidade: humilhai-vos diante de Deus. Ele quer a vossa cura, mas quer que a peçais. Amém!
  

domingo, 26 de julho de 2020

OITAVO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

        Evangelho segundo São Lucas XVI, 1-9. 

LeituraEpístola aos Romanos VIII, 12-17.
   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   No Santo Evangelho de hoje, através da parábola do "Feitor infiel" Nosso Senhor Jesus Cristo quer exortar-nos, a nós os "filhos da luz" a não sermos menos hábeis em olhar pelos interesses eternos do que "os filhos das trevas" em assegurar os bens deste mundo.
   Sob a imagem de um ecônomo, que chama infiel, o Divino Mestre nos faz ver o cuidado que devemos ter em assegurarmos uma boa morte, e como o melhor meio de a conseguir é a prática das obras de misericórdia. Certo ecônomo, diz Jesus Cristo, ao serviço de um rico proprietário, vendo que ia ser despedido, por causa da sua má administração, recorre a um expediente injusto, porém hábil, a fim de converter os devedores de seu amo em amigos que, no momento oportuno, o recebam em sua casa. Assim o pecador deve empregar todos os meios para ser recebido, depois da morte, nos tabernáculos eternos, ou seja, no Céu. Tal é o sentido da parábola que lemos em São Lucas XVI, 1-9.
   O homem rico é a figura de Deus, Senhor absoluto de todas as riquezas que possuem os anjos no céu,,e os homens na terra. O ecônomo é todo o homem que está neste mundo. Se o homem aqui na terra é considerado proprietário diante dos outros homens, não o é diante de Deus, mas apenas um administrador, um simples ecônomo. Tudo o que possuímos, de fato, não nos pertence, pois tudo nos foi confiado por Deus, a quem havemos de prestar contas.
   À hora da nossa morte, encontraremos um livro onde se acha notado, com rigorosa precisão (um copo d'água, uma palavra ociosa etc.) todo o nosso ativo e todo o nosso passivo; todo o bem e todo o mal. 
  Como o ecônomo infiel, seremos também acusados, diante de Deus, pelo demônio e pelos nossos próprios pecados.
   O pecador é chamado ao tribunal de Deus pela voz dos superiores, pelos bons exemplos que recusa imitar, pelos conselhos e salutares avisos dos seus amigos, pelas inspirações da graça, pelo remorso da consciência e, finalmente, pela morte que se aproxima lentamente e cai de súbito sobre ele. A vida inteira nos é concedida para regular as nossas contas, e podemos fazê-lo pelo exame de consciência e pela confissão sacramental. 
   -Presta-me contas da tua administração. Esta intimação será feita, um dia, a cada um de nós, à hora da morte. Para uns será horrível, como o prelúdio do castigo; para outros será cheia de consolação, como o anúncio da recompensa - Depois da morte já não podemos exercer a nossa administração, é já passado o tempo de expiar os nossos pecados. É agora, enquanto temos vida, tempo e saúde, que devemos refletir - Que hei de fazer? Agora não nos faltam os meios, e se refletirmos seriamente, logo encontraremos a resposta - Já sei o que devo fazer. No dia do Juízo o pecador dirá também - Que hei de fazer? mas será um grito de desespero, a sua perda é irremediável.
   Trabalhar cavando a terra, exposto ao sol e à chuva, é o penoso trabalho da penitência e da mortificação. Mendigar é orar, é suplicar o necessário para alimento da nossa alma.
As sete obras de misericórdia corporais
   Se, porém, não temos força ou coragem para as duras penitências da vida cristã, se não temos tempo e vagar para longas orações, podemos sempre praticar outras boas obras, fazer esmolas ainda mesmo do pouco que possuímos. Qual o pobre que não pode dar a outro pobre o óbulo da viúva ou ainda um copo d'água? A esmola é, pois, um grande meio de salvação, sem excluir, todavia, a penitência e a oração que, segundo as circunstâncias, nos for permitido fazer. 
   Caríssimos, vê-se bem a astúcia deste mau servo da parábola. Perdoando a uns mais do que a outros, toma precauções para que não seja descoberta a sua fraude. Além disso, ele conhecia talvez as disposições de cada um, e procede com toda a prudência, habilidade e espírito de previdência. Enquanto o ecônomo não tinha o direito de dispor dos bens de seu amo, nós recebemos de Deus, não somente uma permissão, mas ainda uma ordem formal de distribuir com largueza e liberalidade, os bens corporais e espirituais que Ele nos confiou. Quis o Divino Mestre fazer-nos compreender, diz Santo Agostinho, que se aquele mau servo é elogiado por saber acautelar os seu interesses, com mais razão seremos nós agradáveis a Deus, se, conformando-nos com a lei divina, praticarmos as obras de misericórdia.
   Jesus fala de "riquezas injustas",isto é, enganadoras, mentirosas. São assim chamadas porque são às vezes mal adquiridas, ou porque são mal empregadas, e, neste sentido, são a fonte de muitas injustiças. Em si mesma, porém, a fortuna é um dom de Deus, é uma graça que convém aproveitar para a nossa salvação, proporcionando-nos a amizade dos pobres, conquistando-nos o coração de Jesus que neles se incarna e representa. 
   Caríssimos e amados fiéis, quem tem pouco, dê pouco; quem tem muito, dê muito. Lembrai-vos que os bens desta terra em vossas mãos são perdidos para a eternidade; mas depositados nas mãos dos pobres e dos amigos de Nosso Senhor, frutificarão ao cêntuplo, resgatarão vossos pecados, e vos valerão o paraíso. Amém!
   

sábado, 25 de julho de 2020

A ORAÇÃO É O TERMÔMETRO DA VIDA ESPIRITUAL



   A oração é a pedra de toque da perfeição cristã; é a característica dos santos. E, por isso, é o termômetro do fervor de uma alma. Entendemos aqui a oração mental, porque, segundo Santa Teresa d'Ávila, a oração vocal é também mental.

   Para realizarmos o que Jesus Cristo nos preconizou: "Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito" (S. Mat. V, 48), temos que orar e procurar fazê-lo o melhor possível e sempre: "É preciso orar sempre, e nunca deixar de o fazer"  (S. Luc. XVIII, 1). Para se chegar à perfeição na vida cristã, é necessário, primeiro, ter dela, um desejo ardente. Pois bem, oramos porque desejamos tornarmo-nos melhores na vida espiritual.

   Segundo, a oração deve ser antes de tudo um exercício de amor. Precisamos conhecer a Deus, para o amarmos; conhecer a nós mesmos, para nos renunciarmos. Pela oração mental, adquirimos este duplo conhecimento; e pela oração vocal e mental, pedimos o amor de Deus e o desapego de nós mesmos e das coisas transitórias deste mundo.

   Terceira coisa necessária para atingirmos aquele ideal de perfeição mostrado por Nosso Senhor Jesus na sua vida e na sua doutrina: precisamos unir inteiramente a nossa vontade à santíssima vontade de Deus. Pois bem, toda boa oração contém explicita ou implicitamente um ato de submissão ao Supremo Senhor de todas as coisas.

   Por conseguinte, para avaliarmos o nosso progresso na vida interior, temos que olhar o termômetro da oração. Pela vida de oração poderemos saber se a alma está fria, morna ou quente, espiritualmente falando. Na verdade, a vida cristã é morte e vida: morte do velho Adão, morte do pecado, morte de nós mesmos; e neste sentido dizia S. Paulo: "Morro todos os dias"  (I Cor. XV, 31). Mas também é vida: vida para Deus, vida por Jesus Cristo, o novo Adão; participação da própria vida de Deus pela graça santificante. S. Paulo dizia; "Minha vida é Jesus". 

    Pois bem, caríssimos, morremos para o pecado e vivemos para Deus à medida que progredimos na vida de oração. Então consideremos:
·         Uma alma que simplesmente não reza, está gelada como um cadáver. E realmente está morta. São as pobres almas que estão estagnadas no pecado mortal. Ou não sentem, ou abafam os remorsos da consciência. Só se converterão e poderão se salvar se houver quem reze e faça penitência por elas. Certamente Nossa Senhora em Fátima se referiu a tais almas quando disse: "Há muitos que se condenam, porque não há quem reze e faça penitência por eles". E Santo Afonso disse: "Quem não reza, se condena".
·         Uma alma que reza maquinalmente, sem atenção e quase sempre visando interesses temporais, resiste muito pouco ao pecado mortal. Seu arrependimento na confissão é muito fraco e, diante de Deus, talvez pode não ser suficiente para alcançar o perdão. Esta alma é fria, só tem um verniz ou rótulo de cristã.
·         Uma alma que regularmente faz a sua oração, mas sem fervor, ela combate o pecado mortal, mas fracamente. E quanto aos pecados veniais não faz nada de sério para os evitar. Seu arrependimento, porém, dos pecados mortais é sério e suas confissões, sinceras. Diríamos que esta alma está começando a se esquentar, mas, por enquanto, tem uma piedade medíocre. (NB.: Não disse MORNA, porque, na vida espiritual, alma morna é aquela que, tendo chegado a ser piedosa e até fervorosa, descuidou e esfriou-se na sua vida de fervor. É a terrível TIBIEZA, sobre a qual falarei, se Deus quiser em outra postagem). Esta alma deverá tomar todo cuidado para melhorar a sua oração; caso contrário, a tendência será esfriar-se cada vez mais.
·         Uma alma que faz bem os seus exercícios de piedade, faz a sua meditação de manhã, mas não tem regularidade nela, abandonando-a facilmente diante de muitas ocupações ou quando não sentir consolação espiritual. Esta alma combate lealmente o pecado mortal. Foge habitualmente das suas ocasiões. Seu arrependimento é vivo e até faz penitências para reparar os pecados mortais. Começa também a combater os pecados veniais, mas o arrependimento deles é muito superficial. Diríamos que esta alma é quente, mas com altos e baixos. Tem uma piedade intermitente.
·         Uma alma que faz religiosamente a sua meditação (e esta é menos discursiva e mais afetuosa), ela não comete mais pecado mortal. Talvez ainda caia nele mas só em algumas circunstâncias repentinas e violentas. Procura, outrossim, combater o pecado venial e raramente cai voluntariamente nele. Quanto às imperfeições, só tem um fraco desejo de combatê-las. Esta alma é verdadeiramente piedosa. Está quente espiritualmente, mas não tanto ao ponto de ter o fervor.
·         Consideremos agora uma pessoa que faz todos os dias a sua meditação e até levanta-se mais cedo para fazê-la o melhor possível. Sem prejudicar os deveres de estado, gosta de prolongá-la. Não é mais meditação discursiva onde entra mais a inteligência, não. É uma oração mais afetiva e até de simplicidade (depois veremos em que consiste). Pois bem, esta alma nunca comete pecado venial deliberadamente, mas só por surpresa e sem advertência. E quando isto acontece, tem grande arrependimento e procura repará-lo seriamente. Para agradar a Deus, também combate energicamente as imperfeições. Faz frequentes atos de renúncia. Temos aí uma alma bem quente espiritualmente, ou seja, verdadeiramente fervorosa.
·         Olhemos agora as almas que vivem em oração, isto é, além das momentos reservados à oração, transformam seus trabalhos e o cumprimento dos seus deveres de estado, em oração. Vivem na presença de Deus, e tudo fazem com intenção reta e pura de agradar a Deus. Fazem frequentes orações jaculatórias com grande amor a Deus. Estas almas têm sede de renúncia, de desapego, de amor divino. Têm fome da Eucaristia e desejam ardentemente o Céu. Já chegaram à contemplação (contemplação adquirida, oração de simplicidade, de quietude). Como Deus não se deixa vencer em generosidade, Ele concede-lhes, ou melhor pode conceder-lhes (segundo os seus desígnios sobre cada alma), purificações passivas, o grande tesouro da CONTEMPLAÇÃO INFUSA. (Depois veremos em que consiste). Pois bem, estas almas estão sempre prevenidas contra as imperfeições. Sobrevêm sim, mas só com semi-advertência. Chegaram a uma perfeição relativa.
·         Finalmente, na SANTIDADE,  a oração é tão perfeita que até as imperfeições são mais aparentes que reais. Na verdade, neste cume da montanha da perfeição, a alma está tão unida a Deus, que sua oração já é a mesma união de amor com Deus. S. João da Cruz, baseado no livro dos Cânticos, a este estado de união de amor a Deus,  dá o nome de "Matrimônio Espiritual". Segundo disse Jesus, os cônjuges são uma só carne; e S. Paulo na 1ª Epístola aos Coríntios, VI, 17, diz: "Ao que está unido ao Senhor é um só espírito com Ele". Unida a Deus, a alma forma com Deus um só espírito, um só coração, uma só vontade; não é mais ela quem vive, é Deus quem vive nela; é Ele quem age, quem opera por ela, (dócil instrumento em suas mãos paternais). E assim, Deus realiza nela e por ela seus desígnios de amor.  Por isso mesmo, com a morte, estas almas passarão diretamente para o Céu, sem necessidade de Purgatório. Verdadeiramente os santos vivem a vida de Jesus. Amam a Deus e ao próximo por Deus: amam os justos por serem filhos de Deus, amam os pecadores para que o sejam. Amam os inimigos para imitar a Jesus. A alma consumada em santidade pode dizer com S. Paulo: "Vivo, mas não sou eu quem vive, é Jesus que vive em mim".

   Caríssimos, é isto que o nosso Pai do Céu, a Bondade Infinita, deseja para todos os seus filhos: "Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito".  Obviamente em graus diferentes segundo a capacidade de cada um, capacidade esta também dada por Deus (Parábola dos talentos). Terminemos com a oração de Santo Agostinho: "Senhor, fazei que eu conheça a Vós e conheça a mim; conheça a Vós para Vos amar; conheça a mim para me renunciar". Amém!

PS.: Queria fazer duas observações: 1ª - que os estes vários estágios das almas não são estanques, de tal modo que um começa quando o outro termina; mas se compenetram. 2ª - Que as almas são muito diversificadas, de tal modo que podemos dizer que há mais faces espirituais que faces corporais. Acima, expusemos o que comumente acontece no mundo das almas, sem levar em conta, inclusive, as exceções. Na verdade, o Espírito Santo sopra onde quer e quando quer.  E quem desejar mais algum esclarecimento, pode pedi-lo nos seus comentários. Obrigado e que Deus abençoe a todos!

 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

MANSÃO DOS MORTOS


Perguntaram-me sobre a mudança que, há alguns anos, foi feita na tradução do Credo. A palavra "INFERNOS" foi trocada por "MANSÃO DOS MORTOS".
No Pai-Nosso, houve a mudança de "DÍVIDAS" para "OFENSAS". Sobre isto já postei um artigo e lá demonstro pelas Sagradas Escrituras, que esta mudança não oferece nenhum problema, pois os Evangelistas S. Mateus (VI, 12) e S. Lucas XI, 4) empregaram respectivamente DÍVIDAS (em latim "debita") e "OFENSAS" (em latim "peccata"). Assim sendo, alguns países adotaram ora uma, ora outra tradução. Em Portugal  sempre se empregou a palavra "OFENSAS"; já na Itália foi sempre traduzido segundo S. Mateus, isto é, "DÍVIDAS" (Ital. "DEBITI). E no Brasil fora traduzido por "DÍVIDAS" como na Itália, e só há algumas décadas passou-se a adotar a tradução portuguesa. Fico pensando em Santo Antônio de Pádua que era português (nasceu em Lisboa), e passou a maior parte de sua vida em Itália, onde morreu (Pádua). No tempo que esteve em Portugal, rezava "perdoai nossas ofensas" e depois em Itália passou a rezar "perdoai nossas dívidas". S. José de Anchieta, quando estava em Portugal rezava "perdoai nossas ofensas"; quando veio para o Brasil, rezava "perdoai nossas dívidas". Tenho certeza que o fizeram sem a mínima dificuldade, já que a Sagrada Escritura emprega as duas palavras. Atualmente acho que a mudança até  faz sentido porque a palavra "dívida" passou a ter um sentido muito mais monetário. Mas quem reza "dívidas", pensa em "ofensas". S. Mateus escreveu eu aramaico, e neste idioma, DÍVIDA quer dizer OFENSA ou PECADO.

Agora, a mudança feita no Credo, de "INFERNOS" por "MANSÃO DOS MORTOS", é bem questionável.

Não resta dúvida que também aqui seria compreensível uma mudança, já que o palavra "infernos" evocava a palavra "inferno", lugar dos condenados, embora a tradução "Infernos" seja correta porque corresponde exatamente a palavra original hebraica SHEOL, e em grego HADES. Devemos notar, no entanto, que é INFERNOS (no plural) e não INFERNO (no singular).
SHEOL  (em hebraico); HADES (em grego); INFERNA ou INFERI (em latim) significam LUGARES INFERIORES. Quais são esses lugares inferiores? São: Inferno, lugar dos condenados; Purgatório, onde estão as almas se purificando para depois irem para o Céu; e Limbo dos Justos, onde estiveram as almas dos justos até a Ascensão de Jesus aos céus. Isto porque o Céu, a partir do pecado de nossos primeiros pais, estava fechado. Jesus Cristo. o Salvador, sofreu, morreu e ressuscitou, e justamente no dia que subiu aos Céus, levou consigo todos os justos que morreram antes d'Ele, justos estes que estavam num espécie de cárcere (I S. Ped. III, 19). E S. Paulo diz: "Tendo subido ao alto levou cativo o cativeiro" (Efésios IV, 8).

É sobre este último lugar inferior que falaremos a seguir.

Os Apóstolos disseram em seu Símbolo (=Credo que rezamos antes do Terço) sobre Jesus Cristo: foi sepultado (no 4º artigo); e no 5º artigo diz: desceu aos lugares inferiores (Infernos, Scheol, Hades). São duas coisas bem diferentes, porque a expressão foi sepultado, refere-se ao corpo de Jesus; e quando diz: desceu aos infernos, refere-se a alma. Assim, qualquer tradução da palavra Scheol que não distinga bem estas duas coisas, não é uma boa tradução. E a tradução "MANSÃO DOS MORTOS", justamente confunde estas  duas coisas. Se tivessem traduzido por MORADA já não seria a tradução ideal, porque morada dos mortos, todo mundo entende que é o cemitério, ou, como no caso de Jesus, o sepulcro. MANSÃO, pior ainda, porque significa morada luxuosa de grande extensão. Não creio que um lugar de espera por tanto tempo, seja considerada lugar de luxo. Por isso é que S. Pedro chama este lugar, onde estiveram as almas dos justos, de CÁRCERE. Tornou-se, sim, o próprio Paraíso, quando lá entrou a alma de Jesus e ali ficou desde Sua morte até Sua Ressurreição. Por isso mesmo que Jesus, momentos antes de morrer na cruz, disse a Dimas, o bom ladrão: "HOJE mesmo estarás comigo no PARAÍSO" (S. Luc. XXIII, 43).   
   
Caríssimos, então, qual seria a melhor tradução? O Catecismo da Igreja Católica (CIC) no nº  633, neste particular, cita o Catecismo Romano: "São precisamente essas almas santas, que esperavam seu Libertador [Salvador] no Seio de Abraão, que Jesus libertou ao descer aos Infernos" (CRO, Parte I,  c. 6, nº 3, c). SEIO DE ABRAÃO é uma expressão usada pelo próprio Jesus na parábola do pobre Lázaro e do rico avarento (S. Luc. XVI, 22). Os teólogos modernos não querem traduzir Scheol por SEIO DE ABRAÃO porque dizem que esta expressão de Jesus refere-se ao estado de paz e segurança que é o Paraíso. Na verdade, a alma do Patriarca Abraão estava no Scheol, porque Jesus ainda não havia morrido, ressuscitado e subido ao Céu. Santo Tomás de Aquino, escreveu em latim e traduz por LIMBUS PATRUM=  LIMBO DOS PAIS (dos Patriarcas e demais justos do AT).

Limbo quer dizer ORLA; porque os antigos pensavam assim: o inferno dos condenados estaria no centro da terra, logo depois em torno dele, vinha uma orla, que seria o Purgatório, e a seguir uma outra orla, onde justamente estariam as almas dos justos, até a Ascensão de Jesus; finalmente uma outra orla, que seria o Limbo das almas das crianças mortas sem o batismo. A Igreja nunca definiu nada a este respeito. A Teologia pós conciliar, só fala em ESTADO e não fala em LUGAR. A Bíblia tanto fala dos LUGARES INFERIORES (SCHEOL) como também dos LUGARES SUPERIORES (CÉUS), mas não determina os sítios dos lugares inferiores, nem, dentre os superiores, do mais alto que é o Paraíso. Obviamente, quem vai para os lugares inferiores, a Bíblia diz que DESCEU; quem vai para os lugares superiores diz que SUBIU, ELEVOU-SE (Jesus na Ascensão) ou FOI ELEVADO (Nossa Senhora na Assunção). S. Paulo diz que foi elevado ao terceiro Céu, o que significa que atravessou o céu atmosférico (onde se formam as nuvens), passou pelo céu do firmamento (onde estão os astros) e chegou ao Céu dos Céus, isto é, ao Paraíso, que é o mais alto de todos, onde está Deus (o Nosso Pai que está no Céu). A Bíblia diz que o profeta Elias foi arrebatado vivo ao céu; diz também que voltará no fim do mundo e que só então será morto pelo Anti-Cristo e ressuscitado por Jesus. Estará no 2º céu? Então podemos dizer que, assim como o inferno dos infernos ou o mais baixo dos lugares inferiores, é o lugar dos condenados (Inferno); o Céu dos Céus, ou o mais alto dos lugares superiores, é onde estão Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora, os Anjos e os Santos (o Paraíso). Mas, na verdade, o que importa, é evitarmos descer, e fazermos de tudo para subir até o Nosso Pai do Céu. 

Muitos Santos Padres falam sobre esta verdade: a descida da alma de Jesus aos lugares inferiores. Baseiam-se nos Símbolo dos Apóstolos. Citam como indicação deste mistério, as seguintes passagens das Sagradas Escrituras: Atos II, 24, 1º discurso de S. Pedro após o Pentecostes: "Mas Deus O (=Cristo) ressuscitou e livrou dos laços da morte, porquanto era impossível que por esta fosse retido". E no vers. 27 cita o Salmo XV, 10: "Porque não abandonarás a minha alma nos infernos" , e no vers. 31, aplica este mesmo texto a Jesus Cristo: "Profeticamente falou (Davi) da ressurreição de Cristo, que não seria deixado nos infernos (a alma), nem sua carne (o corpo) sofreria a corrupção" (no túmulo). E o mesmo S. Pedro na sua 1ª Epístola III, 19 e IV, 5 e 6, diz o quê a alma de Jesus foi levar a estas almas dos justos: "No qual Ele também foi pregar aos espíritos que estavam no cárcere"; "por isso foi o Evangelho também pregado aos mortos" (=às almas dos justos que tinham morrido antes da morte de Jesus).

Estuda-se em Teologia que a alma de Jesus, logo após a morte deste, desceu aos três lugares inferiores (ao Scheol), porém de modos diversos. Desceu ao lugar mais baixo que é o Inferno dos condenados, desceu porém, apenas com seu poder, para arguir e convencer os condenados sobre sua infidelidade e malicia. Desceu ao Purgatório, para mostrar às almas benditas (ainda não totalmente santas) aquela glória que com toda certeza, deviam esperar. E, finalmente, a alma de Jesus se fez realmente presente no Limbo dos Pais (nome dado por Santo Tomás) para pregar-lhes o Evangelho (como atesta S. Pedro) e também para iluminá-las com a luz da glória. Isto porque a divindade nunca abandonou nem o corpo e nem a alma de Jesus. E, a partir da entrada da alma de Jesus naquele cárcere, aquele lugar transformou-se no Paraíso.

Donde concluímos, caríssimos, que a tradução  tradicional é a mais adequada. Por isso D. Antônio de Castro Mayer, na época, preferiu conservá-la. Apenas, quero deixar bem claro que os fiéis saibam exatamente o mistério de fé que estão confessando em sua oração. Do contrário, seria mera recitação de fórmula, o que não agrada a Deus.

Aos que me fizeram esta pergunta, estou à disposição para quaisquer outros esclarecimentos. Que Deus os abençoe. Amém!


domingo, 19 de julho de 2020

EVANGELHO DO 7º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

Extraído do   Livro "INTIMIDADE DIVINA" do P. Gabriel de S.ta M.  Madalena,O. C. D.

   No Evangelho de hoje, Jesus chama a nossa atenção para os "falsos profetas" que se apresentam "vestidos de ovelhas e por dentro são lobos rapaces". Muitos apresentam-se como mestres de moral ou mestres espirituais, porém são mestres falsos porque as suas obras não correspondem às suas palavras; aliás, é fácil falar bem, mas não é fácil viver bem. Às vezes as doutrinas propostas são falsas em si mesmas, embora à primeira vista o não pareçam, visto que se revestem de certos aspectos de verdade; é falsa a doutrina que, em nome de um princípio evangélico, ofende um outro, por exemplo, que em nome da compaixão para com uma pessoa lesa o bem comum, que em nome da caridade ofende a justiça ou esquece a obediência aos legítimos superiores. É falsa a doutrina que é causa do relaxamento, que perturba a paz e a união, que, sob pretexto de um bem melhor, separa os súditos dos superiores, que não se subordina à voz da autoridade. Jesus quer-nos "simples como pombas", alheios à crítica e ao juízo severo do próximo, mas quer-nos também "prudentes como as serpentes" (Mt. 10, 16), a fim de nos não deixarmos enganar pelas falsas aparências do bem que escondem perigosas insídias.

  Porém, ser mestre não é para todos, nem a todos se exige; mas a todos - sábios e ignorantes, mestres e discípulos - pede o Senhor a prática concreta da vida cristã. De que nos serviria possuir uma doutrina profunda e elevada, se depois não vivêssemos segundo essa doutrina? Portanto, em vez de querermos ser mestres dos outros, procuremos sê-lo de nós mesmos, empenhando-nos em viver integralmente as lições do Evangelho, imitando Jesus que primeiro "começou a fazer e depois a ensinar" (At.1, 1). O fruto genuíno que há-de comprovar a bondade da nossa doutrina e da nossa vida é sempre o que Jesus nos indicou: o cumprimento da Sua vontade. Cumprimento que significa adesão plena às leis divinas e eclesiásticas, obediência leal aos legítimos superiores, fidelidade aos deveres de estado, e tudo isto em todas as circunstâncias, mesmo quando exige de nós a renúncia à nossa maneira de ver e à nossa vontade.
 
Ó meu Deus, a Vossa suprema e eterna vontade não quer senão a nossa santificação, por isso a alma que deseja santificar-se despoja-se da sua vontade e reveste-se da Vossa. Ó dulcíssimo Amor, parece-me ser este o verdadeiro sinal dos que estão enxertados em Vós: que sigam a Vossa vontade à Vossa maneira e não à sua, que sejam revestidos da Vossa vontade" (cfr. Santa Catarina de Sena).

FALSOS PROFETAS

S. Mateus VII, 15-21

Acautelai-vos dos falsos profetas...

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

"Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós sob peles de ovelhas, e por dentro, no entanto, são lobos vorazes". Sempre houve e sempre haverá falsos pregadores porque eles são frutos do orgulho e da mentira; em uma palavra, são filhos do demônio. Eis como o Espírito Santo ensina a tratar os falsos profetas: "Quando chegaram [Paulo e Barnabé] a Salamina, pregavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus. Tinham com eles João. Tendo percorrido toda a ilha até Pafos, encontraram certo homem mago, falso profeta, judeu, que tinha por nome Barjesus, o qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, homem prudente. Este, tendo mandado chamar Barnabé e Saulo, mostrou desejos de ouvir a palavra de Deus. Mas Elimas, o mago (porque assim se interpreta o seu nome) se lhes opunha, procurando afastar da fé o procônsul. Porém Saulo, que também se chama Paulo, cheio do Espírito Santo, fixando nele os olhos, disse: Ó cheio de todo o engano e de toda a astúcia, filho do demônio, inimigo de toda justiça, não acabarás de perverter os caminhos retos do Senhor? (Atos XIII, 5-11).

 O único Profeta que devemos ouvir, o único Mestre cujas lições devemos seguir, é Jesus Cristo e os que O representam, os que se tornaram guardiões e arautos de Sua doutrina. "Ipsum audite" diz o Altíssimo aos apóstolos ao mostrar-lhes seu Filho Jesus Cristo: "ESCUTAI-O". Quanto aos Apóstolos e, na sua pessoa, aos seus sucessores, o próprio Jesus disse: "Quem vos ouve, a mim ouve". Quem segue a Nosso Senhor Jesus Cristo nunca anda nas trevas, nunca se desmente, porque Jesus é a Verdade.

Mas, infelizmente, sempre houve e sempre haverá pessoas orgulhosas que se arvoram em mestres para dominar os fiéis, querendo obrigá-los a segui-los "per fas et nefas" quer os dirijam para um lado, quer os levem para o oposto. Mas sendo tal atitude de per si odiosa, empregam a hipocrisia e, às vezes, abusam dum dom de Deus, isto é, de uma inteligência privilegiada, para conduzir suas ovelhas com esperteza, com astúcia, ou seja, como lobos vorazes mas sob peles de ovelhas. Querem simplesmente a honra de conduzir as ovelhas a seu bel prazer, e se esforçam por induzir os fiéis a aceitar suas lições. Estes falsos profetas, estes messias, como eles não têm receio de se chamarem algumas vezes, infelizmente são numerosos em nossos dias.  Estes falsos "cristos" sempre tiveram a aprovação e o apoio do mundo. Hoje, porém, o mundo tem muito mais recursos para secundar suas ações lupinas e, em contra partida, para lutar contra os verdadeiros pregadores e, no mínimo, para neutralizar sua ação missionária.

O Divino Mestre, depois de ter dito que a porta do céu é estreita e que apertado é o caminho que a ele conduz, prossegue: Guardai-vos dos falsos doutores... Falsos doutores são, consequentemente, aqueles que ensinam que o caminho do céu é largo, cômodo... Falsos profetas são aqueles que pregam ampla liberdade; que ensinam uma moral laxa que se acomoda às paixões humanas. Os falsos doutores se cobrem com pele de ovelha, apresentando-se com ares de santidade; ostentando seus erros sob um aspecto de verossimilhança; empregando argumentos que, na verdade, são sofismas; deturpando as Sagradas Escrituras; pregando um "Cristianismo light"; aparentando mansidão, simplicidade, piedade...; usando de palavras doces, de frases suaves... Hodiernamente, infeccionados pelo ecumenismo pós-conciliar, gostam de se moverem em terreno comum, onde reina o interconfessionalismo. Basta os falsos profetas deixarem de combater o mundo com suas modas indecentes, vaidades e ideias contrárias ao Santo Evangelho, e logo são ouvidos e seguidos pela maioria.

Para conhecê-los é bastante examinar-lhes os frutos. A maior parte das heresias, com poucas exceções,  foram propagadas por homens da hierarquia, bispos, patriarcas e padres e simulavam santidade. Mas quais foram os frutos das heresias? As divisões, as rixas, os morticínios, os exílios, as rapinas, as guerras, a profanação da igrejas e dos sacramentos. Na verdade, a boa árvore dá bons frutos, a árvore má, maus frutos. Não é possível que uma árvore má produza bons frutos. Se os frutos são maus, é sinal evidente da maldade da árvore. Os péssimos frutos da heresia, do erro, das falsas religiões estão a mostrar a sua corrupção.  

"Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo". Caríssimos, é mister considerarmos atentamente esta palavra do divino Salvador: "QUE NÃO DÁ BONS FRUTOS". Jesus Cristo não disse: que dá maus frutos. Na verdade, há muitos cristãos que creem ter cumprido toda justiça, porque pretendem não ter feito o mal, não ter matado, nem roubado, não ter, em uma palavra, feito mal a ninguém. Segundo a palavra do divino Mestre, no entretanto, não é suficiente não ter feito o mal mas é preciso ter feito o bem. Com efeito, toda criatura neste mundo tem uma missão a cumprir, desde um pé de erva até o sol; com muito mais razão o homem,  a obra-prima e o rei da criação. O Evangelho, todas as vezes que fala do reino dos céus, representa-o como o preço do esforço, do trabalho, do sacrifício. É um reino que é preciso conquistar e só os valorosos o arrebatam; é um negócio que é mister realizar, uma vinha que é preciso cultivar, uma casa que é necessário administrar. A inação, a ociosidade aí são condenadas com persistência. Diz o profeta Rei: "Afastai-vos do mal e fazei o bem" (Salmo XXXVI, 27). E o mesmo diz o profeta Isaías: "Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem" (Is. I, 16 e 17).

"Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas, o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é que entrará no Reino dos céus". Estas palavras do Divino Mestre são um desenvolvimento e comentário das precedentes que supra comentamos. Com efeito, dizer: Senhor, Senhor, é, na verdade reconhecer a divindade de Jesus Cristo. A fé é coisa boa, necessária, indispensável. Dizer: Senhor, Senhor, é bom outrossim porque é orar. A oração, as práticas piedosas são úteis, necessárias mesmo, e muito recomendadas por Jesus Cristo e pela Igreja. Mas isto não é suficiente: é mister juntar as obras. Jesus di-lo formalmente: Entrará no reino dos céus aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Mas esta vontade onde se encontra expressa? No Evangelho, nos mandamentos de Deus e nos ensinamentos e preceitos da Igreja, que não são outra coisa que o comentário e a aplicação das leis de Deus.

Caríssimos, depois da união da natureza humana com a divina, que adoramos em Jesus Cristo, e da união da maternidade com a virgindade, que honramos em Maria Santíssima, não há nenhuma mais admirável que a da nossa vontade com a do Senhor. Este abandono filial, que nos entrega inteiramente nas mãos de Deus, é a mais bela vitória da graça sobre a nossa vontade, sem ofender o nosso livre arbítrio. Através desta união, adquiro uma admirável semelhança, uma espécie de parentesco com Jesus Cristo. Ele desceu à terra, nela viveu e morreu, só para fazer a vontade de seu Pai. Com esta virtude, não temos outro alimento senão o que tem Jesus Cristo. Entro na sua família, torno-me seu irmão, sua irmã, sua mãe (Cf. S. Mateus XII, 50). Elevo-me até Deus, tomando a sua vontade por norma da minha; nisto consiste a verdadeira santidade. Pois, quando faço a vontade do Senhor e obedeço à direção de sua suma sabedoria, posso, acaso, enganar-me? E, quando procedo conforme com a santidade infinita, posso pecar?

"Ó meu Deus, quando estiver perfeitamente unido a Vós, não terei já tribulação nem dor; então a minha vida será cheia de alegria, porque eu mesmo serei cheio de Vós" (S. Agostinho). Amém!