domingo, 27 de maio de 2018

AS SANTAS DELÍCIAS DA COMUNHÃO BEM FEITA



Quem tem fé viva não pode ficar insensível ao comungar com as devidas disposições, pois, está convicto que recebe o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sabe que permanece em Jesus e Jesus nele, sabe que adquire o penhor da vida eterna, da ressurreição gloriosa no Juízo Final. Estar com Jesus é um doce paraíso, é fonte de consolações espirituais inefáveis.

Ao comungar, ainda que eu não experimente alguma consolação sensível, não é para a minha alma uma grande consolação saber com certeza que Jesus Cristo se dá a mim, e que possuindo-O, possuo o sumo bem, a fonte de todo o bem? Caríssimos, quando o Filho de Deus vem a nós, vem com as mãos cheias de dons, e o coração cheio de amor. Mas ainda que, vindo a nós na comunhão, deixasse no Céu as suas riquezas espirituais e os seus favores, e viesse só, não bastaria Ele para a minha felicidade? Afinal não é Jesus o mais precioso de todos os tesouros? Posso eu ignorar que os gozos e as consolações SENSÍVEIS são um dos menores frutos da comunhão, e que este bom Senhor priva deles muitas vezes os seus mais devotos servos e servas, para os levar a estimar mais os seus dons?

Caríssimos, os santos é que sabem falar sobre isso! Vamos ouvir alguns: "Este pão celeste, dizia S. Cipriano, encerra, à semelhança do maná, todos os gozos imagináveis, e por uma admirável virtude, faz sentir a quem o recebe dignamente aquele gosto que eles desejam, e excede em suavidade todos os outros gostos" (Serm. de Coena Domini). S. Macário afirma que a alma bem disposta acha na comunhão delícias inexplicáveis; que descobre nela riquezas que os olhos não viram nem os ouvidos ouviram" (Hom. IV). S. Boaventura põe nos lábios de Jesus estas palavras: "Ó alma, não tens tu conhecido por experiência, ao receber-Me, que saboreavas o mel com o favo que o contém, a doçura da minha divindade unida ao meu Corpo e Sangue?" Todas as obras dos Santos Padres exprimem os mesmos sentimentos.

E a Sagrada Escritura que é a Palavra de Deus escrita por inspiração do Espírito Santo, que diz à respeito da Eucaristia? Ela dá a entender, pelos símbolos de que se serve quando fala da Eucaristia, quão delicioso é este sagrado alimento para as almas bem dispostas. O próprio Jesus lembra o maná que, segundo as Escrituras Sagradas, era um pão descido do céu e que continha em si todos os gostos. E acrescenta o Divino Mestre que Ele mesmo é o Pão vivo descido do Céu; que sua Carne é verdadeira comida, e o seu Sangue verdadeira bebida e que, quem come a sua Carne e bebe o seu Sangue, permanece n'Ele e Ele no que o recebe. E pode haver maior delícia do que ter Jesus como alimento da nossa alma, e nela permanecendo?! O Divino Mestre quis ressaltar que os judeus que comeram o maná no deserto, morreram apesar disso, mas quem come sua Carne e bebe o seu Sangue não morrerá eternamente. E pode haver delícia maior do que ter a certeza de, neste mundo estar sempre com Jesus e mais ainda, ter a segurança de possuí-lo eternamente no Céu?  S. João Bérchmans dizia ternamente: "Ó meu Salvador, que há, depois da divina comunhão, que possa dar-me cá na terra doçura e contentamento?" 

São Francisco de Sales dizia que é muito avaro aquele a quem Deus não basta. Ao comungarmos com as devidas disposições é certo que Jesus nos dá o seu Corpo em alimento, o Seu Sangue como bebida, a sua vida como resgate, a sua divindade como amparo, o seu paraíso como herança. Ele esclarece o nosso entendimento, aumenta o nosso amor, purifica o nosso coração, mortifica os nossos sentidos, enfraquece as nossas paixões; comunica-nos as suas virtudes, em uma palavra: SANTIFICA-NOS!

A nossa alma, pela comunhão bem feita, é embalsamada de celestiais perfumes, abrasa-se em amor divino, canta os louvores Àquele que é todo dela; e dá-se toda a Ele. Dedica-se ao Seu serviço, experimenta suma repugnância a todos os prazeres da terra, e torna-se insensível a todas as adversidades da vida, de sorte que nem a comovem as injúrias, nem as contradições, nem o abandono das criaturas. A vista da perfeições de Jesus e o amor das suas bondades dão à alma do comungante bem disposto, a força para disposições tão heroicas e santas.

Caríssimos, creio que não seja supérfluo observar que estas grandes delícias da comunhão não são concedidas a todos, nem no mesmo grau aos que a recebem; na verdade, são poucas as almas tão puras, tão desapegadas do mundo e de si mesmas, tão crucificadas com Jesus Cristo que saboreiem toda a doçura dessas puras consolações. Quanto ao gozo espiritual, gozo este produzido pelo conhecimento dos grandes bens contidos neste sacramento, não há cristão algum, que não possa senti-lo. Basta para isto estimar os bens da graça, desejar a salvação, suspirar pelo Céu, e não esquecer que a Eucaristia é o melhor meio de realizar estes santos desejos.

Caríssimos, devemos meditar sempre nos misericordiosos desígnios que Jesus teve ao instituir este sacramento que é o amor dos amores. Quis unir-se a nós, quis tronar-Se semelhante a nós, quis encher-nos de delícias, e deste modo, inspirar-nos um amor mais perfeito, em que consiste a vida santa. Este Pão descido do Céu, é o princípio aqui na terra de uma vida santa; e é o penhor da vida eterna no Céu. Ó que nobre e ditosa vida esta de amar a Jesus e ser amado por Ele! Amém!

A SANTÍSSIMA TRINDADE NA ALMA ( Extraído dos escritos teológicos de Tanquerey)

   Era na última Ceia. Jesus Cristo acabava de anunciar aos apóstolos a vinda do Espírito Santo, do divino Paráclito, que ficaria para sempre com eles (S. João, XIV, 19 e 20 ), quando lhes fez esta consoladora promessa: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (S. João, XIV, 23 ).

   Assim, pois, toda a alma que ama a Jesus e guarda os seus mandamentos é amada pelo Pai, e o Pai vem a ela, com o Filho e o Espírito Santo, e vem não para uma simples visita, mas para se fixar e nela fazer a sua morada; portanto, não por um prazo limitado, mas para sempre, enquanto não tiver a infelicidade de o expulsar com um pecado grave.

   Mas como vem até nós a Santíssima Trindade?

   Deus, diz-nos Santo Tomás, está naturalmente nas criaturas de três modos diferentes: pelo seu poder, porque todas elas estão sujeitas ao seu império; pela sua presença, porque ele vê tudo, mesmo os mais secretos pensamentos da alma; pela sua essência, visto que opera em toda a parte e em toda a parte Ele é a plenitude do ser e a causa primária de tudo o que há de real nas criaturas, comunicando-lhes sem cessar não apenas o movimento e a vida, mas o próprio  ser: "porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos, XVII, 28). 

   Entretanto, a Sua presença em nós pela graça é de uma ordem muito superior e mais íntima. É a presença da própria Santíssima Trindade, tal como a fé no-la revelou; o Pai vem até nós e em nós continua a gerar o Verbo; com Ele recebemos o Filho, perfeitamente igual ao Pai, sua imagem viva e substancial, que não cessa de amar infinitamente o Pai como por Ele é amado; deste amor mútuo brota o Espírito Santo, pessoa igual ao Pai  ao Filho, laço mútuo entre os dois, e no entanto distinto de um e de outro. Quantas maravilhas se operam numa alma em estado de graça!

   Se quisermos exprimir em duas palavras a diferença essencial que existe entre a presença de Deus em nós pela natureza e  sua habitação pela graça, podemos dizer que pela sua presença natural Deus está e opera em nós, mas que pela sua presença sobrenatural Ele próprio se nos dá para que gozemos a sua amizade, a sua vida e as suas perfeições: " O amor de Deus está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom. V, 5). Assim, pois, é-nos dado o Espírito Santo e com ele a Santíssima Trindade, pois as três pessoas divinas são inseparáveis.; é nosso e, se disso tivéssemos uma consciência viva e profunda, compreenderíamos que a graça é já um início da vida eterna, desta inefável alegria que se experimenta com a posse de Deus.

   Que relações estabelece a graça entre nós e as três pessoas divinas?

   Para aprofundarmos um pouco mais os nossos conhecimentos desta presença íntima, nada mais apropriado e seguro do que a própria palavra de Deus. Por isso escolhemos alguns textos das Sagradas Escrituras, sobre a ação do Pai e do Filho e do Espírito Santo em nós pela graça.

   a) Pela graça o PAI adota-nos como filhos. Este insigne privilégio brota da nossa incorporação em Cristo; desde o momento em que somos membros de Jesus Cristo e como que um prolongamento, uma extensão da sua pessoa, o Pai envolve-nos com o mesmo olhar paternal que a seu Filho, adota-nos como filhos, ama-nos como Ele o ama, não com um amor igual, mas com um amor semelhante. É o que declara o discípulo amado, São João, que foi de todos o que mais aprofundou os segredos do Mestre: "Vede que amor nos testemunhou o Pai, determinando que sejamos chamados filhos de Deus, e que o sejamos com efeito!" ( 1ª Jo. III, 1). Como vimos na postagem sobre a graça santificante, a nossa adoção não é puramente nominal, mas verdadeira e real, embora distinta da filiação do Verbo Encarnado. Porque somos filhos, somos herdeiros de pleno direito do reino celeste, e co-herdeiros daquele que é nosso irmão primogênito (Rom, VIII, 17).  Em vista disto, Deus manifesta para conosco a dedicação e a ternura de um pai. Mais ainda: de uma mãe: "Poderá a mulher esquecer o seu filho? Não terá compaixão do fruto das suas entranhas? Porém, ainda que ela se esquecesse, eu nunca me esqueceria de ti" (Isaías, XLIX, 15). "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu  Filho unigênito, para que todo o que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna" (S.João, III, 16).

   Poderia Ele dar-nos uma maior prova de amor? Poderemos nós recusar algo Àquele que, para nos salvar e santificar, nos dá o Seu próprio Filho, o Seu Filho unigênito?

   b) O FILHO veio também habitar na nossa alma; chama-nos seus irmãos e trata-nos como amigos íntimos. Ele que é o Filho eterno do Pai, o Verbo gerado desde toda eternidade, em tudo igual ao Pai, trata-nos assim com toda bondade e ternura. Após a Ressurreição, aparece a Madalena, que o seguira até ao Calvário, e, falando-lhe dos discípulos, diz-lhe:"Vai aos meus irmãos e diz-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus" (S. João, XX, 17). São Paulo diz: "Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rom. VIII, 29). Ele terá, pois, para conosco a ternura, a dedicação que um irmão mais velho consagra aos mais novos; irá ao ponto de se sacrificar por nós, a fim de que, lavados e purificados no seu sangue (Apoc. I, 5), possamos participar de Sua vida e entrar com Ele um dia no reino do Pai.

   Quis ser também nosso amigo. Na última Ceia, declara aos apóstolos e, na pessoa deles, a todos os que acreditarem n'Ele: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (S. João, XV, 14 e 15).

   O Filho de Deus deu-nos a maior prova de amor: deu a sua vida por nós. Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos" (S. João, XV, 13). E deu-a numa altura em que, pelo pecado, éramos seus inimigos. Se assim foi, o que não fará por nós,agora que fomos reconciliados pela virtude do seu sangue? Ouçamos o que Ele nos diz: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir  a minha voz e abrir a porta, entrarei nele, cearei com ele e ele comigo" (Apc. III, 20). Podia, se quisesse, entrar como Senhor. Mas não, espera que lho abramos de boa vontade: não quer forçar a entrada, quer que nós mesmos lha vamos abrir, e só depois entrará como amigo. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia com uma candura extraordinária: "Jesus, eu queria amá-lo tanto, amá-lo como nunca foi amado". Em nossas orações, comunhões e visitas ao Santíssimo, procuremos tentar conversar afetuosamente com Jesus, nosso irmão muito amado, com Ele que vem mendigar junto de nós um pouco de amor: "Meu filho, dá-me teu coração" (Prov. XXIII, 26).

   c) O ESPÍRITO SANTO vem habitar em nosso coração a fim de o santificar e adornar com todas as virtudes, produzindo nele a caridade e dando-se a si próprio: "A caridade de Deus é espalhada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rom. V, 5).

   Ao dar-se  ao homem, o Espírito Santo transforma a nossa alma num templo sagrado: "Não sabeis, diz-nos São Paulo, que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós? ... O templo de Deus é santo, e vós sois santos" (1ª Cor. III, 16 e 17). Ele é, com efeito, o Deus de toda a santidade, e, quando vem à nossa alma, esta torna-se um recinto sagrado e onde se compraz em derramar as suas graça com santa profusão.

   Deste modo o Espírito Santo torna-se nosso colaborador no obra da santificação pessoal e ajuda-nos a cultivar a vida sobrenatural que depositou em nós. Por si, o homem nada pode na ordem da graça (S. João, XV,5); mas o Espírito Santo vem suprir a sua fraqueza. Temos necessidade de luz? Eis que Ele desce para nos fazer compreender e saborear os ensinamentos do Mestre: "O Consolador, o Espírito Santo , que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse" S. João, XV, 26). Precisamos de força para pôr em prática as divinas sugestões? O mesmo Espírito "opera em nós o querer e o agir" (Filip. II, 13), isto é, dá-nos a graça de querer e  de pôr em prática as nossas resoluções. Não sabemos orar? "O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que, segundo as nossas necessidades, devemos pedir; porém, o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis" (Rom, VIII, 26). Ora, as preces feitas sob a ação do Espírito Santo e apoiadas por Ele são forçosamente ouvidas.

   Se se trata de combater as nossas paixões, de vencer as tentações que nos importunam, é Ele ainda que nos dá forças para lhes resistirmos e tirar delas proveito: "Deus, que é fiel, não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dar-vos-á o poder de lhe resistir" (1ª Cor. X, 13). Quando, cansados de praticar o bem, caímos no desânimo e receamos pela nossa perseverança, Ele virá até nós par sustentar a nossa coragem abalada e dir-nos-á afetuosamente: "Aquele que começou em vós a obra da vossa santificação há de aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus" (Filip. I, 6).

   Não temos, pois, que temer, desde que ponhamos a nossa confiança nas três pessoas divinas, que vivem e operam em nós expressamente para nos consolar, fortificar e santificar. Nunca estamos sós: temos em nós Aquele que faz a felicidade dos escolhidos! Eis porque, se tivéssemos uma fé viva, poderíamos repetir com a irmã Santa Isabel da Trindade: "Encontrei o céu na terra, porque o céu é Deus, e Deus está na minha alma. No dia que compreendi isto, tudo se esclareceu em mim, e eu quereria dizer este segredo àqueles que amo". Quantas almas foram transformadas, a exemplo desta Carmelita, no dia em que compreenderam, sob a ação do Espírito Santo, que Deus habita nelas! Quantas conheceram então um novo rumo na sua vida, uma ascensão contínua para Deus e para a perfeição, sobretudo se se esforçaram por viver na intimidade com o hóspede divino. E é justamente isto que vamos ensinar na postagem seguinte: OS NOSSOS DEVERES PARA COM O HÓSPEDE DIVINO.
  
  

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A BELEZA QUE ENCANTA

                                                                                                                               Dom Fernando Arêas Rifan*
            Foi lançado recentemente um bom filme, intitulado “Paulo, o Apóstolo de Cristo”, mostrando os primórdios do cristianismo, na pessoa do seu maior evangelizador, que, como os primeiros cristãos, sofreu e deu a vida por algo que valia a pena! 
          Saulo - esse era o seu nome antes da conversão – foi formado no judaísmo como fariseu convicto, por isso odiava o cristianismo, que ele julgava ser uma doutrina perversa, contra as suas tradições, como ele mesmo atesta: “Eu persegui de morte essa doutrina, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres” (At 22,4).  
        Mas, o que teria transformado Saulo, de perseguidor fanático em Apóstolo apaixonado por Jesus Cristo e seu Evangelho, conversão total, imediata e extraordinária? Foi, na estrada de Damasco, seu encontro pessoal com Cristo vivo, que ele julgava morto.  

            Esse seu encontro com Jesus marcou a sua vida. Ele ficou assombrado com Jesus.  Deslumbrado, fascinado, apaixonado por Jesus. É claro que não foi uma emoção passageira, algo apenas sentimental e irracional. Foi algo profundamente sentido e racional, que transformou a sua vida e que permaneceu nele até o fim, fazendo-o capaz de desprezar tudo o mais, de sofrer por ele, de querer salvar a todos, e de morrer por ele: “Julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento do Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e estar com ele..., porque eu também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fl 3, 8-12).  
            O que nos fascina e encanta é a beleza, o belo. Nós só podemos viver com intensidade na medida em que nos sentimos fascinados por alguém ou por algo que consideramos belo. Assim acontece em qualquer trabalho, profissão, luta, estudo, contemplação, utopia, etc. A apatia generalizada dos nossos dias se explica pela ausência deste fascínio por algum ideal.
           A pessoa de Jesus encantou Saulo pela sua beleza. Mas o que é a beleza, que deve nos fascinar? Na filosofia aprendemos que o bem, a verdade e o belo se confundem. A beleza corresponde à compreensão do verdadeiro e do bem, ou seja, do verdadeiro enquanto tem razão de bem. Da verdade, que satisfaz o intelecto, e do bem, que satisfaz a vontade, procede o belo. A estética (que estuda o belo - pulchrum) está integrada na Lógica (que estuda a verdade -verum) e na ética (que estuda o bem - bonum) e delas como que brota.
      
Esse Jesus, que encantou Paulo pela sua beleza e que deve nos encantar, é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Jesus é a beleza personificada, que inclui a verdade e o bem. Essa é a “via pulchritudinis o caminho da beleza! Aconteceu com Paulo aquilo que deve acontecer com qualquer um de nós, quando nos convertemos realmente: “Torna-se cristão não a partir de uma decisão ética ou de uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo (Bento XVI, Deus Caritas est, n. 1).” 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

sábado, 19 de maio de 2018

PREPARAÇÃO PARA A VINDA DO ESPÍRITO SANTO



A Santa Madre Igreja ensina-nos a rezar: "Vinde Espírito Criador, visitai as almas daqueles que são vossos; enchei de graça infinita os seus corações". Caríssimos, quais são os motivos destes santos desejos? Percorrendo os mistérios de nossa salvação, vemos como as três Pessoas da Santíssima Trindade, por assim dizer, fazem da felicidade do homem a sua ocupação especial e contínua. Amemos a Deus, porque Ele nos amou primeiro. É por causa de nós que o Pai criou tudo pelo seu poder, e conserva e dirige tudo pela sua Providência. É por causa de nós que o Filho é Salvador, e o Espírito Santo completa a obra da nossa salvação com as graças santificantes que nos prodigaliza. Caríssimos, como poderíamos ficar insensíveis diante deste amor infinito das três Pessoas divinas?! Devemos render a cada uma um culto particular, pelos benefícios que recebemos delas. Pois bem, o tempo de Pentecostes é destinado a este culto especial ao Divino Espírito Santo. Pois, é ele que sugere à Igreja as piedosas devoções que ela fomenta ou ordena. Devemos desejar ardentemente a visita do divino Paráclito: "Veni Creator Spíritus, mentes tuorum visita, imple superna gratia quae tu creasti pectora".

"O mesmo Espírito, dizia Bourdaloue, que desceu visivelmente sobre os Apóstolos, desce ainda atual e verdadeiramente sobre nós, não com o mesmo esplendor nem com os mesmos prodígios, mas com os mesmos efeitos de conversão e santificação" (Exórdio do Sermão do Espírito Santo). Assim, podemos dizer que, enquanto quase todas as festas do ano se limitam a lembrar-nos um mistério, cumprido de uma vez para sempre (como por ex. o Santo Natal); quando estamos preparados, a festa do Pentecostes é para nós uma nova realização deste mistério.

O Espírito Santo purifica-nos, ilumina-nos, abrasa-nos no divino amor e põe-nos em estado de realizar todos os desígnios da misericórdia do Senhor relativamente à nossa salvação. Pela fé, esperança e caridade, de que Ele é o princípio em nós, coloca-nos na posse de Jesus Cristo; pois, aplica-nos seus merecimentos, constitui-nos seus membros, comunica-nos sua vida, e imprime assim o selo à nossa redenção, que Ele completa. É como que uma fonte divina, que se infunde na alma por sete admiráveis canais: são os seus sete dons. Três deles aperfeiçoam a vontade: o temor de Deus, a piedade e a fortaleza; os outros quatro, que são o conselho, a ciência, a sabedoria e a inteligência, operam de um modo imediato sobre a nossa inteligência. Assim, o TEMOR DE DEUS, temor filial que torna uma alma timorata (não escrupulosa) e delicada em matéria de infidelidades, e lhe inspira sumo respeito para com a Divina Majestade. A PIEDADE nos dá o gozo espiritual que nos faz experimentar em todos os exercícios que se referem à honra e ao serviço de Deus na meditação, na oração vocal, e também nos cânticos espirituais etc. A FORTALEZA é a coragem que nos faz desprezar todos os bens, todos os males da vida presente, e nos tornar capazes dos mais generosos sacrifícios. O dom do CONSELHO:  por ele o Espírito Santo fala-nos, ora como um amigo que dá conselho ao seu amigo nas ocorrências difíceis, sugerindo-nos um ótimo expediente para sairmos delas; ora, como um mestre que nos ensina a mais nobre de todas as ciências, a CIÊNCIA dos Santos, com a qual nós julgamos discretamente de todas as coisas, dando-lhes exatamente o grau de estima ou de desprezo que lhes é devido. Assim, descobrimos claramente o nada de tudo o que passa; vemos na pobreza o preço de um reino eterno, nas enfermidades do corpo a saúde da alma, na mesma morte um princípio de imortalidade. O dom da SABEDORIA preserva-nos da horrível loucura dos pecadores no que respeita à salvação; retira as nossas afeições das criaturas para as levar para Deus; eleva os nossos corações de terra ao Céu. O dom da INTELIGÊNCIA ou ENTENDIMENTO faz-nos penetrar os mistérios e dá-nos uma luz tão viva, que a fé torna-se tão forte como se a gente estivesse no Céu vendo o que cremos. Este dom, outrossim, tira toda obscuridade àquelas verdades práticas, cruciantes para a natureza, como são a abnegação e o amor da cruz. Ele faz-nos compreender o que os mundanos sempre ignorarão, isto é, como pode achar-se a felicidade nos sofrimentos, a honra no desprezo, e como são os Santos os únicos sábios nesta terra.

Caríssimos, devemos alimentar em nós a firme esperança de obter a visita do Espírito Santo. E esta esperança funda-se na mesma natureza do Espírito Santo, nos direitos mais incontestáveis e nas promessas mais infalíveis. "Bonum est sui diffusivum", "O que é bom, procura comunicar-se"; ora, o Espírito Santo é a mesma Bondade; é como o coração de Deus. Além disso, pedindo o Espírito Santo, na verdade, estamos reclamando o nosso bem, pois Ele nos foi obtido pela morte de Jesus Cristo. Temos também as promessas de Deus que não podem enganar-nos. Caríssimos, por nós mesmos não podemos absolutamente nada, em ordem à salvação. Só o Espírito Santo é que pode ajudar eficazmente nossa fraqueza! Desejemos, portanto, ardentemente a vinda e permanência em nós deste Doce Hóspede Divino!!! Diz S. Gregório Nazianzeno: "Sitit sitiri", quer dizer em português: "Deus tem sede da nossa sede". Obriguemo-Lo, pedindo-Lhe que nos obrigue. Amém!


NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

   ORAÇÃO PREPARATÓRIA como no primeiro dia.



LEITURA PARA O NONO DIA

O amor de Deus é um tesouro que contém em si todos os bens.

   1 - O amor de Deus é aquele tesouro do qual diz o Evangelho que se deve deixar tudo para alcançá-lo. Pois o amor nos faz participar da amizade de Deus. "É um tesouro infinito; quem dele usa, recebe a amizade de Deus" (Sab 7, 14). Ó homem, diz Santo Agostinho, por que procuras bens? Procura um bem que encerra todos os bens". Mas este único bem: Deus, não podemos achar, se não deixarmos os bens terrestres. Santa Teresa dizia: "Aparta teu coração das criaturas, e encontrarás a Deus". Quem encontra a Deus encontra tudo que pode desejar: "Deleita-te no Senhor, e ele te dará o que teu coração almejar" (Sl 36, 4). O coração humano ininterruptamente apetece bens que o tornem feliz. Caso procure estes bens nas criaturas, não será saciado. Se, porém, chegar ao ponto de nada desejar senão a Deus, o Senhor saciará todos os seus desejos. Quem é pois mais feliz na terra que os santos? E por quê? Porque nada querem, nada desejam senão a Deus.

   Um príncipe encontrou numa caçada no mato um eremita e perguntou-lhe o que buscava na solidão. Replicou o eremita: "E vós, príncipe, que buscais vós? "Caço animais ferozes", respondeu ele. "E eu, rematou o eremita, procuro caçar o próprio Deus". Oferecendo um perseguidor a São Clemente ouro e pérolas se renegasse a Cristo, exclamou com um suspiro o santo: "Como é possível comprar a Deus com um pouco de pó?"

   2 - Feliz aquele que conhece quão grande tesouro é o amor de Deus e que procura alcançá-Lo. Tendo-o achado, por própria iniciativa se despojará de todos os bens terrestres para nada possuir senão a Deus. "Estando a casa em chamas, diz São Francisco de Sales, lança a mobília janela a fora". O servo de Deus Padre Ségneri Júnior costumava dizer ser o amor de Deus um ladrão que nos rouba todas as inclinações terrestres de modo que podemos exclamar: "Que outra coisa posso querer a não ser: Deus!"

   Até agora, meu Deus, não busquei a vós, mas só a mim e minhas inclinações e assim vos voltei as costas, meu sumo bem. Porém, consola-me a palavra do profeta: "Bom é o Senhor à alma que o busca" (Lam 3, 250. Ela me diz, meu Deus, que sois cheio de bondade para com aqueles que vos procuram. Amado Salvador, reconheço que grande mal fiz, apartando-me de vós; arrependo-me de todo o coração. Reconheço que tesouro infinito sois vós e já não quero abusar deste conhecimento. Tudo repudio e escolho a vós como único objeto de meu amor. Meu Deus, meu amor, meu tudo, amo-vos, desejo-vos, suspiro por vós. Espírito Santo, vinde e destruí em mim pelo fogo de vosso amor todas as inclinações que não sejam para vós. Dai-me que pertença inteiramente a vós e vença tudo parra agradar a vós.  

   Minha intercessora e mãe Maria, acudi-me por vossas preces. Amém.


   ORAÇÕES FINAIS, como no primeiro dia. 



sexta-feira, 18 de maio de 2018

PREPARAR O CORAÇÃO PARA O ESPÍRITO SANTO



 Esta preparação consta de doas coisas: remover os obstáculos e empregar os meios para atrair a nós o Espírito Santo.

Primeiramente é mister remover os obstáculos, ou seja, o pecado, o espírito do mundo, a concupiscência. Falemos um pouco de cada um deles. Caríssimos, o pecado é o grande inimigo do Espírito Santo: o mortal simplesmente expulsa da alma o doce Hóspede Divino; o venial contrista-o, o que também não é algo de somenos gravidade, já que o ofendido é Deus. O pecado mortal obriga o Espírito Santo a se retirar da alma. Por isso adverte S. Paulo: "Não queirais expulsar o Espírito Santo" (1 Tessalonicenses V, 19). O pecado grave destrói a caridade que este divino Espírito derrama em nosso coração segundo afirma o Apóstolo: "A caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Romanos V, 5). Portanto o pecado mortal contraria todos os intuitos de santificação que o Espírito Santo tem a nosso respeito. E assim, o nosso  primeiro cuidado, caríssimos, deve ser combater o pecado mortal, caso haja na alma ainda algum apego a ele, seja lá contra qualquer mandamento. Na explicação de Santo Agostinho, os nossos corações são os vasos destinados a receber o precioso licor da graça divina; daí é necessário que comecemos por purificá-los. E já é uma grande graça o arrependimento que o Espírito Santo nos inspira; o remorso é o primeiro passo, e ele pode levar ao arrependimento, condição sem a qual não há perdão nem mesmo recebendo a absolvição sacramental. Devemos estar profundamente convencidos que o pecado mortal é um mal absoluto, extremo; e depois do mortal, o pecado venial é o maior mal que existe sobre a face da terra, já que trata mal, não a um bispo, a um papa, mas o próprio Deus Onipotente, perfeitíssimo e a própria Bondade.

Embora o pecado venial não chegue ao extremo de expulsar o Espírito Santo, no entanto, contrista este doce Hóspede da alma, o nosso Consolador e Santificador. Por isso diz também o próprio Espírito Santo através do escritor sagrado S. Paulo: "Não queirais contristar o Espírito Santo" (Efésios IV, 30). Os pecados veniais (portanto plenamente deliberados) e máxime se frequentemente repetidos, leva à tibieza que torna a alma de tal modo desagradável a Deus que Ele chega a dizer: "Porque não és nem quente nem frio, mas morno (=tíbio) começarei a vomitar-te de minha boca" (Apoc. III, 15 e 16).  Deus merece que o sirvamos com amor ardente, e o tíbio o faz de maneira negligente. Isto como que causa náuseas ao Espírito Santo. E Ele já não dá ao tíbio tantas forças e tanta luz como faz com os fervorosos. Por bondade, o Espírito Santo aflige os tíbios com salutares remorsos no intuito de abrir os olhos destas almas  que ficam como que cegas pelas suas frequentes negligências no amor e serviço de Deus. O divino Paráclito lança em rosto dos tíbios a facilidade com que Lhe fazem tantas ofensas que julgam leves. O Espírito Santo trazendo à memória dos negligentes esta vida que causa náuseas a Ele, pergunta-lhes se depois de tantos perdões, não deveriam estes tíbios sentir o remorso do coração. Assim o Espírito Santificador excita os tíbios a deplorar suas negligências, sua vontade fraca, seu amor debilitado, e, por conseguinte, seus pecados veniais.

Caríssimos, o espírito do mundo é outro obstáculo à presença e ao reino do Espírito Santo. Este espírito do mundo eleva o estandarte: orgulho, avareza, luxúria.  São Paulo pergunta: "Que união pode haver entre a luz e as trevas" (Cf. 2 Cor. VI, 14), entre a verdade e a mentira? Eis a razão porque o Salvador, rogando a seu Pai que envie o Espírito Santo a seus discípulos, para os santificar na verdade, observa que eles não são do mundo, como também Ele não é do mundo (Cf. S. João XVII, 17; que não roga pelo mundo, incapaz que é de receber este Espírito de Verdade, porque O não vê, e porque é tão grande a sua cegueira, que precisa de apalpar e ver, antes de admitir e crer (Cf. S. João XVII, 14, 17 e 19).

Na verdade as apreciações do mundo e as do Espírito Santo são diametralmente opostas; sucede o mesmo, diz S. Bernardo, com os sentimentos que inspiram: O Espírito Santo aparta os corações do amor das criaturas para os unir a Deus; o mundo aparta-os de Deus para os unir às criaturas.

Caríssimos, durante esta novena do Espírito Santo devemos, mais do que em outro tempo, examinar com cuidado nossos pensamentos e afetos, para conhecer se é o espírito de mentira ou o espírito de verdade que nos anima. Combatendo o espírito do mundo, combateremos ao mesmo tempo o da carne, terceiro obstáculo aos desígnios misericordiosos do Espírito Santo a nosso respeito.

São Paulo diz que a carne e o espírito são duas potências que estão sempre em guerra: "Efetivamente, a carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito desejos contrários à carne; são contrários entre si, para que não façais tudo aquilo que quereis" (Gálatas V, 17). Quando, porém, o Espírito Santo encontra a alma dócil e forte em renunciar à carne por amor a Deus, então a dirige para que tudo seja feito segundo o espírito. É neste sentido que diz Santo Agostinho: "Ama e podeis fazer o que quiseres". O amor de Deus é forte como a morte, e assim vence sempre a carne. Os modernistas são mestres em deturpar o sentido desta palavra de Santo Bispo de Hipona, mas o verdadeiro sentido é este e nem se pode imaginar que o maior gênio do Cristianismo tenha ensinado esta aberração modernista: ama e podes fazer tudo que tua carne apetecer, nada será pecado!

Fujamos o máximo do barulho e das vaidades do mundo; procuremos uma vida de mais recolhimento penitente, cheia de caridade para com o próximo; vida de oração auxiliada pela mediação de Maria Santíssima, como na Santa Novena do Cenáculo. Amém!

NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

   ORAÇÃO PREPARATÓRIA como no primeiro dia.


LEITURA PARA O OITAVO DIA

O amor de Deus é vínculo que nos liga a Deus

   1 - Assim como o Espírito Santo, o Amor incriado, é um vínculo insolúvel que liga o Pai ao Filho, assim também é vínculo que liga a alma a Deus. "O amor de Deus, diz Santo Agostinho, é uma virtude que nos liga a Deus". Por isso São Lourenço Justiniani exclamava, cheio de alegria: "Ó amor, que fortíssimo laço és tu, por seres capaz de prender a Deus a nossas almas". Os laços deste mundo são laços de morte; os laços de Deus são laços salutares" (Ecli 16, 31). Eles nos unem a Deus, que é nossa vida verdadeira e única.

   Antes de Jesus Cristo ter vindo a este mundo, fugiam os homens de Deus. Estando apegados aos bens terrenos, não queriam unir-se a seu Criador. Mas nosso amável Deus os atraiu a si com os laços do amor, como prometera pelo profeta; "Com laços humanos os atraí, com laços de amor" (Oseias 11, 4).  Estes laços de amor são: os benefícios que nos fez; as iluminações que nos deu; o mandamento de o amar; a promessa do reino dos céus; especialmente por nos ter dado seu Filho na cruz e no Santíssimo Sacramento do Altar, e finalmente a vinda do Espírito Santo. Por isso clama o profeta: "Desliga os laços do teu pescoço, cativa filha de Sião" (Isaías 52, 2). Ó alma criada para o céu, solta os laços terrenos e une-te a Deus pelo laço do seu santo amor. "Tende a caridade que é o vínculo da perfeição" (Col 3, 14).

   2 - O amor é um laço que inclui todas as virtudes e dá à alma a perfeição. "Ama e faze o que queres", diz Santo Agostinho. Pois quem ama a Deus foge de tudo que possa desagradar a seu amado e procura em tudo a complacência de Deus. 

   Meu amado Jesus, sobremodo obrigastes-me a vosso amor, Custou-vos tanto ganhar meu amor. Seria, pois, imensa ingratidão, se vos amasse pouco ou dividisse meu amor entre vós e as criaturas, vós, que derramastes vosso sangue por mim. Quero desapegar-me de tudo e dedicar-vos todas as inclinações. Mas sou muito fraco para realizar meu desejo; dai-me, vós que me inspirastes estes sentimentos, também a força de pô-los em obra. Feri, ó Jesus, meu pobre coração com as setas de vosso amor para que continuamente suspire por vós, vos busque, vos deseje e vos ache. Meu Jesus, só quero a vós, só a vós. Concedei-me repetir muitas vezes na vida e principalmente na morte as palavras: "Quero só a vós, a vós só".

   Ó Maria, minha Mãe, impetrai-me a graça que de hoje em diante nada queira senão a Deus, Amém. 


   ORAÇÕES FINAIS como no primeiro dia. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

   ORAÇÃO PREPARATÓRIA como no primeiro dia.



LEITURA PARA O SÉTIMO DIA

O amor de Deus é hóspede que não admite um outro na alma

   1 - O Espírito Santo é chamado hóspede da alma: "Doce hóspede da alma". Este hóspede, Jesus o prometeu aos que o amam, dizendo: "Se me amais, rogarei ao Pai, e ele vos dará outro consolador, para que fique convosco para sempre" (Jo 14, 15-16). O Espírito Santo nunca abandona a alma, se não for expulso por ela mesma. "Só abandona, diz um autor, quando é abandonado". Deus, portanto, mora num coração que o ama; mas ele mesmo declara só estar contente se o amarmos de todo o coração. Santo Agostinho narra que os romanos pagãos não queriam ter Jesus Cristo no número dos seus deuses por ser um Deus orgulhoso que exigia toda a adoração para si. Tinham razão; pois realmente o Salvador não admite rival num coração. Sozinho quer viver nele, sozinho quer ser amado; e quando outra criatura tem parte no nosso coração, olha-a, por assim dizer, com olhares invejosos. São Tiago escreve: "Ou cuidais vós que em vão diz a Escritura: "O espírito que em vós habita tem desejo de inveja" (Tiago 4, 5). "Em uma palavra, diz São Jerônimo, Jesus é um Deus cioso" Por isso o Esposo divino louva as almas que como rolas vivem solitárias e longe do mundo": "Tuas faces são belas como as da rola" ( Cânt. 1, 9). Por isso exige que o mundo não tenha parte no amor que quer possuir sozinho, chamando a esposa um jardim fechado: "És um jardim fechado, ó minha irmã-esposa" (Cânt. 4, 12). És um jardim fechado a qualquer amor terrestre.

   2 - Porventura Jesus não merece nosso amor? diz São João Crisóstomo: "Deu-te tudo, nada te subtraiu". Sua vida e seu sangue deu por ti, e nada lhe resta que te pudesse oferecer.

   Reconheço, meu Deus, quanto exigis que eu seja inteiramente vosso. Apesar de eu ter-vos tantas vezes lançado fora do meu coração, voltastes sempre a unir-vos comigo. Possuí meu coração totalmente; eu vo-lo apresento todo inteiro. Aceitai-me, meu Jesus, e não permitais que no futuro viva um só instante sem amar-vos. Vós me procurais; também eu nada quero além de vós. Vós exigis que vos pertença; eis que meu coração nada cobiça a não ser a vós. Vós me amais, também eu vos amo. E porque vós me amais, eu me uno estreitamente a vós, para jamais ser separado de vós. 

   Maria, Rainha dos céus, em vós ponho toda a minha confiança. Amém. 


ORAÇÕES FINAIS como no primeiro dia.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

   ORAÇÃO PREPARATÓRIA como no primeiro dia. 

LEITURA PARA O SEXTO DIA

   
O amor de Deus é força que alenta

   1 - "Forte como a morte é o amor" (Cânt. 8, 6). Assim como no mundo não há poder que resista à morte, não há também para a alma que ama a Deus uma dificuldade, que finalmente não ceda ao amor. Se for preciso agradar ao amado, o amor suporta tudo: danos, desprezos, dores. Nada é tão duro que resista ao amor. O sinal, pois, do lídimo amor de Deus consiste em a alma ser fiel ao Senhor não só no bem-estar, mas também nas tribulações. "Deus tanto é amável quando manda contrariedades, diz São Francisco de Sales, como quando concede consolações, porque fez tudo por amor de nós". Até quanto mais nos castiga, tanto mais nos ama. São João Crisóstomo considerava São Paulo mais feliz por ter sido acorrentado do que por ter sido arrebatado ao terceiro céu. Por isso os santos mártires se regozijavam no meio dos tormentos. Agradeciam a Deus pelos padecimentos como pelo maior benefício que lhes podia fazer. Os outros santos, não torturados pelos tiranos tornaram-se por suas obras de penitência seus próprios algozes.

   2 - Diz Santo Agostinho: "Quem ama não se cansa, e se cansar ama o cansaço". - Ó Deus de minha alma, afirmo que vos amo, mas que já tenho feito por vós? - Nada! É um sinal que vos amo bem pouco ou nada. Mandai-me, pois, meu Jesus, o Espírito Santo, para me conceder força de, antes de morrer, padecer e trabalhar um pouco por vós. Não me deixeis neste estado de tibieza e ingratidão, no qual até agora vivi. Dai-me força de amar os padecimentos depois de ter cometido tantos pecados, pelos quais tenho merecido o inferno. Ó meu Deus, todo bondade e amor, desejais morar neste coração, do qual tantas vezes vos expulsei. Vinde e fazei nele vossa mansão.  Tomai posse dele para que vos pertença inteiramente. Amo-vos, meu Deus! E amando-vos, já vos tenho dado hospedagem, pois São João me afirma: "Quem permanece na caridade permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo 4, 10). Estando vós, pois, comigo, aumentai minha caridade. Ligai-me fortemente com as cadeias da caridade que nada deseje, nada busque, nada estime senão a vós. Viva eu unido a vós e nunca separado do vosso amor. Quero pertencer-vos, meu Jesus, pertencer-vos inteiramente. 

   Minha rainha e intercessora, Maria, alcançai-me amor e perseverança. Amém.

ORAÇÕES FINAIS como no primeiro dia. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

   ORAÇÃO PREPARATÓRIA como no primeiro dia.


LEITURA PARA O QUINTO DIA

O amor de Deus é descanso que deleita

   O amor de Deus é chamado ainda: "Descanso no trabalho, consolo nas lágrimas". O amor de Deus é descanso que deleita: pois o efeito principal do amor consiste em que a vontade do amante seja unida à vontade do amado. O pensamento de estar fazendo a vontade do amado basta a uma alma amante de Deus para sossegá-la nas perseguições, doenças e perdas. Da única palavra: "Deus o quer" haure paz e contentamento em todas as tribulações. Esta é aquela paz que ultrapassa todos os gozos terrestres, "sobrepuja toda a compreensão". Santa Maria Madalena de Pazzi só ao pronunciar as palavras: "vontade de Deus" enchia-se de alegria. - Cá na terra cada um tem que carregar sua cruz. Mas a cruz é pesada só para aquele que a carrega constrangido, não para o que a toma aos ombros com alegria (Santa Teresa). Assim fere e sara o Senhor ao mesmo tempo; pois o Espírito Santo por suas doces consolações faz que injúrias e dores se nos tornem suaves e agradáveis.

   2 - Em todas as contrariedades que encontramos, deve ser nosso lema: "Faça-se Senhor, pois tal é a vossa vontade". Ansiando-nos o medo de infortúnios, devemos dizer a Deus: "Fazei, ó Deus, o que é de vosso agrado; estou preparado para aceitar tudo que me mandardes". Também é proveitoso oferecer-se durante o dia várias vezes como vítima a Deus, como costumava fazer Santa Teresa.

   Ó meu Deus, quantas vezes, para contentar minhas inclinações pecaminosas, me opus à vossa santa vontade e até a desprezei. Isto me dói mais que qualquer outro mal. Ó meu Deus, de hoje em diante quero amar-vos de todo o coração. "Falai, Senhor, que vosso servo escuta". Dizei o que exigis de mim e farei tudo. Meu único desejo, o único objeto de meu amor será sempre vossa vontade. Ó Espírito Santo, consolidai minha fraqueza! Sois a própria bondade. Como podia amar outra coisa senão a vós? Atraí pela doçura de vosso amor todas as minhas inclinações! Deixarei tudo para me dar todo a vós. Aceitai-me e me ajudai. 

 Ó minha Mãe Maria Santíssima, em vós ponho toda a minha confiança. Amém.

   AS ORAÇÕES FINAIS como no primeiro dia.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

   ORAÇÃO PREPARATÓRIA como no primeiro dia.



LEITURA PARA O QUARTO DIA

O amor de Deus é orvalho que fecunda

   1  - A Santa Igreja ensina-nos a rezar: "A infusão do Santo Espírito purifique nossos corações, irrigue, penetre e fecunde-os com seu orvalho". O amor fecunda nossos bons desejos, nossos santos propósitos e piedosas obras. Estas são as flores e frutos que produz a graça do Espírito Santo. O amor também é chamado orvalho porque mitiga as más paixões e tentações. Por isso com justiça o Espírito Santo chama-se "refrigério e doce frescura no ardor". Rezando cai este orvalho nos nossos corações. Um quarto de hora de oração basta para subjugar o ódio supremo e o amor mais desregrado. "Conduze-me à adega de vinho e ordena em mim o amor" (Cânt. 2, 4). A oração contemplativa é esta adega de vinho em que nosso amor é ordenado de modo que amemos ao próximo como a nós mesmos e a Deus acima de tudo. Quem ama a Deus ama a oração e quem não ama a oração a este é quase impossível reprimir as paixões. 

   2  -  Ó divino Espírito Santo, já não quero viver por mim, e sim usar todos os dias do resto da minha vida para agradar-vos e vos amar. Vinde em pessoa ao meu coração e ensinai-me a rezar como devo rezar. Dai-me a graça de nunca deixar a oração por tédio, dai-me o espírito de oração, isto é, a graça de rezar sempre por aquilo que agrada mais ao vosso coração divino. Por meus pecados já seria réu da condenação eterna: mas pelo bondoso amor com que me tratais reconheço que me quereis fazer perfeito e feliz. Quero, pois, ser perfeito para vos agradar e amar vossa infinita misericórdia sempre mais intimamente. Amo-vos, meu sumo Bem, meu amor, meu tudo, e porque vos amo eu me dedico todo e sem restrição a vós.

   Ó Maria, minha esperança, amparai-me. Amém.

AS ORAÇÕES FINAIS como no primeiro dia. 

domingo, 13 de maio de 2018

NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

   ORAÇÃO PREPARATÓRIA.

 LEITURA PARA O TERCEIRO DIA

O amor de Deus é água que estanca a sede

   1 - O amor de Deus também é chamado "fonte viva". Nosso Salvador disse à samaritana: "Quem beber da água que eu lhe der nunca terá sede" (Jo 4,14). O amor de Deus é uma água que mata  a sede; pois quem de fato ama a Deus já nada mais busca e deseja, achando em Deus todo o bem. Alegre e contente exclama: "Meu Deus e meu tudo". Por isso o Senhor se queixa de tantas almas que mendigam míseros e passageiros gozos às criaturas, deixando o infinito Bem, a fonte de todas as alegrias. "A mim, a fonte das águas vivas deixaram, e cavaram cisternas, cisternas fendidas que não contêm água" (Jer. 2, 12). Deus nos ama e quer nos ver felizes, por isso exclama: "Se alguém tem sede, venha a mim" (Jo 7, 37). Quem deseja ser feliz venha a mim para eu lhe dar o Espírito Santo, que o tornará feliz na terra, bem-aventurado no céu. E continua dizendo: "Quem crer em mim, como diz a Escritura, rios de água viva manarão do seu interior" (Jo 7, 38). Quem crer e amar a Jesus Cristo será enriquecido de tantas graças que do seu coração, isto é, sua vontade, fluirão fontes de santas virtudes que não só conservarão nele mesmo a vida da graça, mas também farão que outros a alcancem. Esta água de que fala o Salvador é o Espírito Santo, o Amor essencial que prometeu mandar depois de sua Ascensão: "E isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado porque Jesus ainda não tinha sido glorificado" (Jo 7, 39).

   2 - A chave com a qual abrimos a porta a esta água santificante é a santa oração que nos alcança todo o bem, conforme a palavra do Redentor: "Pedi e recebereis". Somos cegos, mendigos, miseráveis; mas pela oração recebemos luz, força e todos os tesouros da graça. Teodoreto diz: "A oração, sendo um única, recebe tudo". Quem pede recebe o que deseja. Deus quer nos dar suas graças, mas exige que lhas peçamos. 

   Com a samaritana vos peço, meu Jesus: Dai-me este água do vosso amor para que esqueça tudo o que é terreno e viva só para vós que sois imensamente amável. "Irrigai o que é seco". Minha alma é como terra seca que não dá senão os espinhos e abrolhos do pecado. Refrigerai-a com vossa graça para produzir antes de minha morte algum fruto para vossa maior glória. Ó fonte de água viva, meu sumo bem, quantas vezes vos abandonei para buscar gozos impuros pelos quais perdi vosso amor. Oxalá morresse antes de vos ter ofendido. Para o futuro nada quero procurar a não ser a vós, meu Deus. Ajudai-me e fazei que vos fique fiel.

   Maria, minha esperança, protegei-me sob vosso manto. Amém.


ORAÇÃO FINAL como no primeiro dia. 

sábado, 12 de maio de 2018

ALEGRIA NO SOFRER



 Parece algo estranho, mas, na verdade, Jesus alegrou-se em sofrer porque sabia que seus sofrimentos e morte seria a vitória que Lhe havia de garantir a conquista do mundo: "Quando eu for elevado da terra, (ou seja, quando for crucificado) atrairei tudo a mim" (S. João XIII, 32). Jesus desejou ardentemente o momento de sua Paixão e Morte: "Eu tenho que ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua!" (S. Lucas, XII, 50). E este batismo de sangue Jesus anunciou-o  por diversas vezes aos seus apóstolos como o coroamento de toda a sua missão: "Ponde bem estas palavras em vossos corações: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens que o matarão" (S. Lucas IX, 44); "O Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e esses mesmos o entregarão aos gentios; ele será exposto à zombarias e às injúrias, coberto de escarros, flagelado, depois morto, e ao terceiro dia ressuscitará" (S. Mateus XX, 18 e 19). E ao começar a Paixão disse: "Eis que agora o Filho do homem é glorificado e que Deus é por ele glorificado" (S. João XIII, 31).

E Nosso Senhor Jesus Cristo queria que seus discípulos tivessem também estes mesmos sentimentos: "Bem-aventurados (=felizes) os pobres"; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos... Sereis felizes quando vos insultarem e disserem injustamente toda sorte de mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (S. Mateus V, 10). Jesus queria que seus discípulos tivessem o amor da cruz, levado até ao amor dos sofrimentos. É claro que estranho seria alguém sofrer como um estoico, mas o normal para um cristão é imitar o seu Divino Mestre, amando como Ele e por amor a Ele, os sofrimentos.

O mundo não compreende esta verdade; aliás, nem os Apóstolos, antes do Pentecostes, a entendiam. Vede: Jesus Cristo, sempre tão bondoso e manso, empregou palavras muito severas ao censurar Pedro porque o chefe dos apóstolos não queria admitir que Jesus precisasse padecer e morrer: "Afasta-te, Satanás (=tentador) - disse-lhe Jesus - porque tu me escandalizas, nada compreendes das coisas de Deus, não tens senão pensamentos humanos" (S. Mateus XVI, 23). Também tratou de estultos os discípulos de Emaus, porque não compreendiam que Lhe fosse preciso sofrer para entrar na glória: "Ó estultos e tardos de coração para crer!" (S. Lucas XXIV, 26).

Mais tarde, porém, já santificados e esclarecidos, alegraram-se por terem sido flagelados pelo nome de Jesus (Atos V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e de S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (Atos XIV, 21). Também, a exemplo de seu Mestre, S. Paulo recomenda aos fiéis que suportem tudo, não só com paciência, mas também com alegria: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu [de Deus] poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria"... (Col. I, 11). E S. Tiago escreve: "Meus irmãos, tende por um motivo da maior alegria para vós as várias tribulações que vos afligem..." (S. Tiago I, 2).

Caríssimos, o sofrimento, como veremos a seguir, é tão salutar, que toda alma de fé deveria sentir-se feliz em sofrer. Pois o sofrimento triunfa do pecado e do demônio, que reina pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Na verdade, o pecado não é outra coisa senão o desprezo de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Daí o remédio do pecado está nas privações e nos sofrimentos. Jesus disse: "O reino dos céus padece violência, e só os violentos (i. é, os fortes no sofrimento e nas renúncias) arrebatam-no". 

As cruzes, as renúncias, os sofrimentos e as privações tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, o repouso e as doçuras da vida amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz quando a vê acrisolada pela dor. O sofrimento, outrossim, alimenta a mantém o amor de Deus e do próximo. Caríssimos é mais fácil padecer bem do que agir bem porque hã menos perigo de amor próprio, menos de espírito puramente humano. "Sofrer - dizia S. Francisco de Sales, é quase que o único bem que possamos fazer na terra... uma onça de paciência vele mais que uma libra de ação".

Ademais, os sofrimentos preparam delícias imensas e eternas na Pátria Celestial. As dores suportadas por amor de Deus produzem suaves alegrias: "Vossa tristeza  -  disse Jesus aos seus apóstolos  -  se converterá em alegria" (S. João XVI, 20).
Caríssimos, se uma chuva torrencial, uma tempestade devastar todas as nossas plantações, teríamos imensa alegria, caso os granizos fossem grãos, uns de ouro e outros de diamantes. Pois bem assim, são os sofrimentos desta vida quando aceitos e suportados por amor a Jesus e em união com Ele, são tesouros que ajuntamos para a Vida Eterna. Amém!

NOVENA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

SEGUNDO DIA

O amor de Deus é luz que ilumina 

Reza-se a ORAÇÃO PREPARATÓRIA. Em seguida vem a LEITURA.

   1 - Um dos maiores males que produziu o pecado original é que nossa inteligência se obscureceu pela paixões. Oh! quão miserável é uma alma dominada por uma paixão! A paixão é como uma neblina, um véu que nos impede de conhecer a verdade. Como alguém pode fugir ao mal, se não sabe o que é mal? Quanto mais pecados cometemos, em tanto maiores trevas fica nosso interior. Mas o Espírito Santo, chamado "Luz bem-aventurada", não só inflama com suas divinas chamas o amor nos corações, mas também espanca as trevas dos corações e faz-nos conhecer claramente a vaidade de todos os bens terrestres, o valor dos celestes, a importância da salvação da alma, o grande tesouro da graça de Deus, sua bondade, o amor imenso que nos dedica. O homem que macula sua alma por deleites sensuais, pouco entende destas verdades. E por isso o infeliz ama o que devia odiar e odeia o que devia amar.

   2 - Santa Madalena de Pazzi exclamava: "Ó amor, não és conhecido, ó amor, não és amado!" Por isso podia Santa Teresa dizer não ser Deus amado por não ser conhecido. Continuamente pediam os santos que Deus os iluminasse sempre mais. "Mandai vossa luz, exclamavam, iluminai minha escuridão, abri meus olhos!" E agiam bem, pois sem luz não podemos evitar os precipícios, não podemos achar a Deus.

   Ó divino Espírito Santo, creio que sois verdadeiro Deus em perfeita unidade com o Pai e o Filho. Eu vos adoro como causa de todas as iluminações que me fizeram conhecer, quão deplorável mal cometi com o pecado e quanto sou obrigado de vos amar. Eu por tudo vos agradeço e pesa-me de vos ter ofendido. Mereci me deixásseis nas trevas; agora, porém, sei que não me repelistes. Iluminai-me também para o futuro, ó Espirito Santo, fazei-me conhecer sempre mais vossa infinita bondade e concedei-me a graça de amar-vos de todo coração. Outorgai-me tantas graças que seja vencido por elas e coagido a amar-vos acima de tudo. Pelos merecimentos de Jesus Cristo vos peço esta graça. Amo-vos, meu sumo Bem, amo-vos inteiramente. Aceitai-me e não permitais que eu seja separado de vós. 

   Ó minha boa Mãe Maria Santíssima, assisti-me com vossa intercessão. Amém.


   Em seguida rezam-se as ORAÇÕES FINAIS, como no primeiro dia. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

NOVENA DO ESPÍRITO SANTO (Por Santo Afonso Maria de Ligório)

ORAÇÃO PREPARATÓRIA

A Sequência da Missa

   
Vinde, Espírito Santo, e do céu enviai um raio de vossa luz!
   Vinde, Pai dos pobres; vinde, doador dos bens, vinde luz dos corações!
   Consolador supremo, doce hóspede da alma, suave refrigério!
   Nos trabalhos sois repouso; sois alívio no ardor; e nas lágrimas, consolo.
   Ó luz beatíssima, enchei até ao íntimo os corações dos vossos fiéis!
   Sem a vossa graça nada existe no homem, nada há de puro.
   Lavai toda mancha, regai toda aridez, sarai toda ferida.
   Abrandai o que é rígido, aquecei o que é frígido, encaminhai os desviados!
   Concedei aos fiéis que em vós confiam os sete dons sagrados.
   Dai-lhes o mérito da virtude; dai-lhes a salvação final, e o gozo perene, Amém.


LEITURA DO PRIMEIRO DIA

O amor de Deus é fogo que inflama

   1 - No Antigo Testamento mandara Deus que o fogo ardesse sempre no seu altar. "O fogo no altar deve estar sempre aceso (lv 6, 12). São Gregório diz serem os nossos corações os altares de Deus nos quais o fogo do amor divino deve arder sempre. Por isto não bastou ao eterno Pai mandar-nos seu Filho Jesus Cristo que nos remisse por sua morte: mas também quis dar-nos o Espírito Santo para morar nos nossos corações e os abrasar continuamente com sua caridade. O próprio Jesus Cristo nos afirma que veio à terra para inflamar os nossos corações com este fogo santo e que nada tanto deseja como ver que arda em chamas: "Vim lançar fogo à terra e que quero senão que se acenda?" (Lc 12, 49). Esquece as ofensas e a ingratidão que recebeu dos homens na terra e, tendo subido ao céu, manda-nos o Espírito Santo. Assim, pois, nos amais, ó amável Redentor, na vossa glória tanto quanto na vossa ignomínia e paixão.

   Poe isso o Espírito Santo desceu na forma de línguas ardentes no cenáculo sobre os discípulos. Pela mesma razão a Santa Igreja nos manda rezar: "Rogamo-Vos, Senhor, que o Espírito Santo nos inflame em aquele fogo que Nosso Senhor Jesus Cristo lançou a esta terra e que deseja ver arder grandemente". Este santo fogo abrasava os santos para praticar feitos por Deus; amar os inimigos, desejar humilhações, desapegar-se de todos os bens desta terra, suportar os tormentos do martírio e até a morte com alegria.

   2 - O amor não pode estar ocioso; nunca diz: Basta. Quanto mais uma alma amante de Deus faz, tanto mais vivo torna-se seu desejo de trabalhar mais ainda para merecer sua complacência e seu amor. Este fogo os inflama na oração contemplativa: "Quando contemplava, acendeu-se em mim o fogo" (sl 38, 4). Querendo, pois, abrasar-nos no amor de Deus, devemos amar a oração contemplativa,  por ser a fornalha que em nós faz arder o fogo do amor divino.

   Até agora nada fiz por vós, meu Deus, enquanto vós por mim tanto fizestes! Ah! minha tibieza deveria já vos ter impelido a lançar-me fora da vossa boca.

   Ó Espírito Santo, aquecei o que é frio, excitai em mim um grande desejo de agradar-vos. Abomino todo amor próprio e antes quero morrer que vos desagradar no mínimo ponto. Aparecestes em forma de línguas ardentes; por isso dedico-vos minha língua para nunca mais ofender-vos com ela. Meu Deus, vós ma destes, para anunciar vosso louvor; eu, porém, a tenho usado para vos ofender e seduzir outros ao pecado. Arrependo-me do fundo de minha alma. Por amor de Jesus Cristo, que durante sua peregrinação terrestre tanto promoveu por sua língua a vossa glória, dai-me a graça que vos honre deveras, cante vosso louvor, invoque vosso auxílio, e pregue vossa bondade e infinita amabilidade. Amo-vos, meu sumo Bem, amo-vos, ó Deus de amor.

   Ó Maria, predileta esposa do Espírito Santo, impetrai-me este fogo do amor divino. Amém. 


ORAÇÕES FINAIS

Oração para alcançar os sete dons do Espírito Santo

   Vinde, Espírito Santo, enchei os corações de vossos fiéis e acendei neles o fogo de vosso amor!
   
   Ó Espírito Santo, concedei-me o dom do temor de Deus, para que eu sempre me lembre, com suma reverência e profundo respeito, da vossa divina presença; trema, como os mesmos anjos, diante de vossa divina majestade, e nada receie tanto como desagradar aos vossos santos olhos.

   Ave-Maria.

   Espírito Santo, concedei-me o dom de piedade, que me tornará delicioso o trato  e o colóquio convosco na oração e me fará amar a Deus com íntimo amor, como a meu Pai, a Maria Santíssima como a minha Mãe e a todos os homens como a meus irmãos em Jesus Cristo.

   Ave-Maria.

   Espírito Santo, concedei-me o dom da ciência, para que eu conheça cada vez mais as minhas próprias misérias e fraquezas, a beleza da virtude e o valor inestimável da alma; e para sempre veja claramente as ciladas do demônio, da carne e do mundo, a fim de poder evitá-las.     

   Ave-Maria.

   Espírito Santo, concedei-me o dom da fortaleza, para que eu despreze todo respeito humano, fuja do pecado, pratique a virtude com santo fervor e afronte com paciência, e mesmo com alegria de espírito, os desprezos, prejuízos, perseguições e a própria morte antes que renegar por palavras e por obras ao meu amabilíssimo Senhor Jesus Cristo.

   Ave-Maria.

   Espírito Santo, concedei-me o dom do conselho, tão necessário em tantos passos melindrosos da vida, para que sempre escolha o que mais vos agrade, siga em tudo a vossa divina graça e com bons e carinhosos conselhos socorra ao próximo.

   Ave-Maria.

   Espírito Santo, concedei-me o dom da inteligência, para que eu, alumiado pela luz celeste de vossa graça, bem entenda as sublimes verdades da salvação, a doutrina da santa religião.

   Ave-Maria.

   Espírito Santo, concedei-me o dom da sabedoria, a fim de que eu, cada vez mais, goste das coisas divinas e, abrasado no fogo do vosso amor, prefira com alegria as coisas do céu a tudo que é mundano e me una para sempre a Jesus, sofrendo tudo neste mundo por seu amor. 

   Ave-Maria.

   Vinde, Espírito Criador, visitai-me e enchei o meu coração que vós criastes, com a vossa divina graça. Vinde e repousai sobre mim, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, Espírito de ciência, de piedade e de temor de Deus. Vinde, Espírito divino, ficai comigo e derramai sobre mim a vossa divina bênção. Amém.


ATENÇÃO! Há uma leitura para cada dia. Publicarei, se Deus quiser, as leituras para cada dia da novena. Reza-se, então, antes A ORAÇÃO PREPARATÓRIA, faz-se a LEITURA DE CADA DIA, e logo depois, reza-se A ORAÇÃO FINAL.
A ORAÇÃO PREPARATÓRIA E A ORAÇÃO FINAL, sempre como neste primeiro dia. 


      

terça-feira, 8 de maio de 2018

REVESTIR-SE DE JESUS CRISTO



São João Eudes faz um belíssimo comentário destes conselhos do Apóstolo S. Paulo: "Revesti-vos de Jesus Cristo"  (Rom. XIII, 14); "Revesti-vos do homem novo" (Efésios IV, 24); "Animai-vos dos sentimentos que animam a Jesus Cristo" (Filipenses II, 5). Diz o Santo propagador da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria: "Jesus, Filho de Deus e Filho do Homem...  não sendo somente nosso Deus, nosso Salvador e soberano Senhor; mas mesmo, sendo nossa cabeça e nós os seus membros e seu corpo, diz S. Paulo, osso de seus ossos, e carne de sua carne (Ef. V. 30) e, por conseguinte, estando unidos a ele pela união mais íntima que possa existir, tal a dos membros à cabeça; unidos a ele espiritualmente pela fé e pela graça que nos deu no santo batismo; unidos a ele corporalmente pela união do seu santíssimo Corpo com o nosso na santa Eucaristia, segue-se daí necessariamente que, como os membros são animados do espírito da cabeça e vivem de sua vida, assim também devemos estar animados do espírito de Jesus Cristo, viver de sua vida, caminhar em suas veredas, revestir-nos de seus sentimentos e inclinações, fazer todas as nossas ações nas disposições e intenções com que Ele faz as suas, em uma palavra, continuar a realizar a vida, a religião e a devoção que Ele exerceu sobre a terra". E S. João Eudes apresenta vários textos das Sagradas Escrituras e comenta-os: "Não ouvis, diz o santo, aquele que é a própria verdade dizer em diversas passagens de seu Evangelho: "Eu sou a vida; e eu vim para que tivésseis a vida. Vós não quereis vir a mim a fim de ter a vida. Eu vivo e vós vivereis Nesse dia sabereis que eu estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós" (S. João VI, 10; V, 40; XIV, 19 e 20). Isto é, assim como eu estou em meu Pai, vivendo da vida de meu Pai, a qual ele me vai comunicando, assim também vós estais em mim, vivendo da minha vida, e eu estou em vós, comunicando-vos essa mesma vida, e assim eu vivo em vós e vós vivereis comigo e em mim. E o discípulo bem-amado não nos clama também que Deus nos deu uma vida eterna e que essa vida está em seu Filho , e que aquele que tem em si o Filho de Deus tem a vida eterna e que essa vida está em seu Filho, e que aquele que tem em si o Filho de Deus tem a vida; e, ao contrário, aquele que não tem o Filho de Deus em si, não tem a vida (1 João V, 11 e 12); e que Deus nos enviou seu Filho ao mundo, a fim de que vivamos por ele (1 João IV, 9); e que estamos neste mundo como Jesus aqui esteve (Hebreus II, 17), isto é, que estamos em seu lugar e que devemos viver como ele mesmo viveu? E no Apocalipse, não nos anuncia que o esposo bem-amado de nossas almas, que é Jesus, vai sempre pregando e dizendo: "Vinde, vinde a mim e que aquele que tem sede venha e tome água da vida gratuitamente" (Apoc. XXII, 17), isto é, que venha e beba em mim a água da vida? ... (S. João VII, 37). E o que nos prega a cada instante o divino apóstolo S. Paulo, senão que estamos mortos e que a nossa vida está escondida com Cristo em Deus (Col. III, 3); que o Pai eterno nos vivificou com Jesus Cristo e em Jesus Cristo (Efésios II, 5); Col. II, 13), isto é, que não somente nos fez viver como seu Filho, porém em seu Filho, e da vida de seu Filho, e que devemos manifestar e fazer transparecer a vida de Jesus em nossos corpos (2 Cor. IV, 10 e 11), que Jesus Cristo é nossa vida (Col. III, 4)?... Em uma passagem, falando aos cristãos, diz que pede a Deus que os torne dignos de sua vocação (do seu chamado), que realize plenamente nesses cristãos todos os desígnios de sua bondade e da obra da fé, a fim de que o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo seja glorificado neles e eles em Jesus".

Caríssimos, como nos consola esta meditação!!! Estarmos cônscios da presença de Jesus em nós; tão unido a nós que a nossa vida é Ele mesmo, é Ele que trabalha, sofre em nós; Jesus é a Cabeça e nós os membros; somos um instrumento que Jesus mesmo deve pôr em movimento. Por nós mesmos não podemos nada de bom, mas se é Jesus que opera em mim, então, posso dizer com S. Paulo: "Tudo posso n'Aquele que me conforta!"

É preciso, dizia S. Margarida Maria a uma visitandina, que nos consumamos todas nessa fornalha ardente do Sagrado Coração do nosso adorável Mestre... e depois de termos lançado o nosso coração, todo cheio de corrupções, nas chamas divinas do puro amor, aí devemos tomar um outro, novo, que nos faça viver para o futuro de uma vida renovada... é preciso que esse divino Coração de Jesus tome de tal modo o lugar do nosso, que só ele viva e atue em nós e por nós, que sua vontade mantenha a nossa por tal forma aniquilada, que possa agir sem resistência alguma da nossa parte; enfim, que seus afetos, pensamentos e desejos tomem o lugar dos nossos, mas principalmente o seu amor, que se amará a  si mesmo em nós e por nós" (Obras, tomo II, p. 468).

Caríssimos, Jesus Cristo ama cada um de nós com um amor inefável e esse amor faz com que Ele se mantenha unido a todos por uma união que deseja tornar cada vez mais perfeita. Daí, devemos ver Jesus em nós mesmos e também no próximo (que d'Ele recebe ao menos graças atuais). É mister que vejamos Jesus em nós e vivamos intimamente unidos a Ele. É preciso que os nossos sentimentos sejam os de Jesus; devemos unir nossas intenções às Suas; as nossas orações ás Suas orações; nossos trabalhos e nossos sofrimentos aos seus trabelhos e aos Seus sofrimentos. Em uma palavra Jesus fará de nós um outro Jesus.

Um ramalhete espiritual que expressa perfeitamente esta doutrina, é esta sublime exclamação de S. Paulo: "VIVO, MAS NÃO SOU EU QUEM VIVE, É JESUS QUEM VIVE EM MIM!" Amém!

sábado, 5 de maio de 2018

A ALMA NO ESTADO DE GRAÇA É MORADA DA SS. TRINDADE



Na parte superior: Vemos um símbolo de uma alma no estado de graça.
Na parte inferior: um símbolo de uma alma em pecado mortal. 
Há duas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo que deixam esta verdade bem clara. Uma sobre o Espírito Santo, terceira Pessoa da Santíssima Trindade; outra sobre o Pai, a primeira Pessoa, e sobre o Filho, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Antes da Ascensão, para consolar os homens da sua ausência, disse-lhes: "Se me amais, observareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito [=Consolador], para que fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós" (S. João XIV, 15-18). E Jesus continua: "Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós. Resta ainda um pouco, e depois já o mundo me não verá. Mas ver-me-eis vós, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós. Aquele que retém os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei também, e me manifestarei a ele... Se alguém me ama guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada" (S. João XIV, 15 e 18-22 e 23).

Assim por estas palavras do Divino Mestre compreendemos perfeitamente que toda a alma que ama a Jesus e guarda os seus mandamentos, isto é, toda alma no estado de graça, é amada pelo Pai, e o Pai vem a ela, com o Filho e o Espírito Santo. A Santíssima Trindade vem não para uma simples visita, mas para se fixar e nela fazer a sua morada. Daí, não existe coisa mais bela e sublime entre os homens do que as almas em estado de graça, pois, são moradas da Santíssima Trindade, são templos de Deus. Que felicidade para Maria Santíssima ter junto de si em sua pobre casa, o Filho de Deus, e isto por trinta anos! Mas, cheia de graça, puríssima, santíssima, o Senhor estava sempre com ela. A Santíssima Trindade preparou para si esta digna morada. Mas, as outras almas, embora nunca tão santas como a Mãe de Deus, mas estando em estado de graça, são também morada da Santíssima Trindade, e isto não por um prazo limitado, mas para sempre, enquanto não tiver  a infelicidade de, com um pecado mortal, expulsar de si a próprio Deus.

É óbvio que quem ainda não sabe, gostaria de saber como a Santíssima Trindade vem até a uma alma em estado de graça. Ouçamos Santo Tomás de Aquino: "Deus está NATURALMENTE na criaturas de três modos diferentes: pelo seu PODER, porque todas elas estão sujeitas ao seu império; pela sua PRESENÇA , porque Ele vê tudo, mesmo os mais secretos pensamentos da alma; pela sua ESSÊNCIA, visto que opera em toda a parte e em toda a parte Ele é a plenitude do ser e a causa primária de tudo o que há de real nas criaturas, comunicando-lhes sem cessar não apenas o movimento e a vida, mas o próprio ser: "porque é n'Ele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos XVII, 29). Entretanto, a Sua presença em nós pela graça é de uma ordem muito superior e mais íntima. Não é somente a presença do Deus criador e conservador que sustenta os seres que criou, mas a da própria Trindade, tal como a fé no-La revelou; o Pai vem até nós e em nós continua a gerar o Verbo; com Ele recebemos o Filho, perfeitamente igual ao Pai, sua imagem viva e substancial, que não cessa de amar infinitamente o Pai como por Ele é amado; deste amor mútuo brota o Espírito Santo, pessoa igual ao Pai e ao Filho, laço mútuo entre os dois, e no entanto distinto de um e de outro" (Cf. Summa Theologica, 1ª Parte, q. VIII, a. 3º).

Caríssimos, quantas maravilhas se operam numa alma em estado de graça! Façamos uma comparação no intuito de entendermos melhor esta maravilha: É só vermos a diferença essencial que existe entre a presença de Deus em nós pela natureza e a sua habitação pela graça. Podemos dizer que pela presença NATURAL de Deus na alma, Ele está e opera em nós, mas pela Sua presença sobrenatural pela graça, Ele próprio se nos dá para que gozemos a sua amizade, a sua vida e as suas perfeições. É o que exprime o Apóstolo S. Paulo: "O amor de Deus está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom. V, 5). Assim, pois, nos é dado o Espírito Santo e com Ele também o Pai e o Filho, pois as três pessoas divinas são inseparáveis; é nosso e, se disso tivéssemos uma consciência viva e profunda, compreenderíamos que a graça é já um início da vida eterna, dessa inefável alegria que se experimenta com a posse de Deus.

Eis porque, caríssimos, se tivéssemos fé viva, poderíamos repetir com Sóror Isabel da Trindade: "Encontrei o céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma. No dia em que compreendi isto, tudo se esclareceu em mim, e eu quereria dizer este segredo àqueles que amo". Quantas almas foram transformadas, a exemplo desta Carmelita, no dia em compreenderam, sob a ação do Espírito Santo, que Deus habita nelas! Quantas conheceram então um  novo rumo na sua vida, uma ascensão contínua para Deus e para a perfeição! Amém!