quinta-feira, 19 de novembro de 2020

NÃO AO RACISMO

RACISMO, NÃO!

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

 

O famoso ator Morgan Freeman, negro, entrevistado pelo âncora da CNN sobre o racismo, disse: “Se você fala sobre isso, isso existe. Não é que isto exista e nós nos recusamos a falar sobre isso. O problema aqui é fazer disso um problema maior do que ele precisa ser”. Há, de fato, exageros. Mas o problema do racismo, infelizmente, ainda persiste e o dia nacional da consciência negra, comemorado no próximo dia 20, é ocasião para falarmos do preconceito racial. É um erro antropológico, anticristão e anti-humanitário, fruto do orgulho e da injustiça.

Talvez o racismo procure se justificar com as ideologias dos séculos XVIII e XIX (Nietzsche), nas quais também se baseou o partido totalitário nacional-socialista (Nazi), com a doutrina da superioridade da raça ariana sobre as demais. Por isso, o Papa Pio XI escreveu a encíclica Mit Brennender Sorge (1937), condenando o nacional-socialismo e sua ideologia racista e racialista.

A Igreja já se pronunciara diversas vezes contra o preconceito baseado na cor da pele ou na etnia, proclamando, firmada na divina Revelação, a dignidade de toda a pessoa criada à imagem de Deus, a unidade do gênero humano no plano do Criador e a reconciliação com Deus de toda a humanidade pela Redenção de Cristo, que destruiu o muro de ódio que separava os mundos contrapostos. A Igreja prega o respeito recíproco dos grupos étnicos e das chamadas “raças” e a sua convivência fraterna. A mensagem de Cristo foi para todos os povos e nações, sem distinção nem preferências. “Não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor...” (Rm 10,12); “já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre..., pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gal 3, 28).

Infelizmente, com a descoberta e colonização do Novo Mundo, no século XVI, começaram a surgir abusos e ideologias racistas. Os Papas não tardaram a reagir. Assim, em 1537, na Bula Sublimis Deus, o Papa Paulo II denunciava os que consideravam os indígenas como seres inferiores e solenemente afirmava: “No desejo de remediar o mal que foi causado, nós decidimos e declaramos que os chamados Indígenas, bem como todas as populações com que no futuro a cristandade entrará em relação, não deverão ser privados da sua liberdade e dos seus bens – não obstante as alegações contrárias – ainda que eles não sejam cristãos, e que, ao contrário, deverão ser deixados em pleno gozo da sua liberdade e dos seus bens”. Infelizmente, nem sempre essas normas da Igreja foram obedecidas, mesmo pelos cristãos.

Quando começou o tráfico de negros, vendidos também pelos africanos como escravos e trazidos para as novas terras, os Papas e os teólogos pronunciaram-se contra essa prática abominável. O Papa Leão XIII condenou-a com vigor na sua encíclica In Plurimis, de maio de 1888, ao felicitar o Brasil por ter abolido a escravidão. E o Papa São João Paulo II não hesitou, no seu discurso aos intelectuais africanos, em Yaoundé, em 13 de agosto de 1985, em deplorar que pessoas pertencentes a nações cristãs tenham contribuído para esse tráfico de negros.

 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

 

CARACTERES DA REDENÇÃO


TEXTOS BÍBLICOS: 1 -(Jesus Cristo)"nos amou e nos lavou dos nossos pecados no seu sangue" (Ap I, 5).

                                    2 - "Salvador nosso, Jesus Cristo, que se deu a si mesmo por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade" (Tt II, 14).

                                    3 -  "Cristo se ofereceu uma só vez para apagar os pecados de muitos (de uma multidão inumerável)" (Hb IX, 28).

 

REFLEXÕES:  1º - A Redenção é UNIVERSAL: Jesus Cristo entregou-se para resgate de todos os homens e de todos os pecados: "Cristo Jesus, que se entregou Ele próprio como resgate por todos (I Tm II, 5 e 6). Cf. Tt II, 14..

2º - A Redenção foi LIVRE: Jesus sofreu e morreu por nós voluntariamente, porque quis. "Foi oferecido em sacrifício porque ele mesmo quis" (Is LIII, 7). O próprio Jesus dissera: "Por isso meu Pai me ama,porque dou minha vida para outra vez a assumir. Ninguém ma tira, mas eu por mim mesmo a dou" (Jo X, 17 e 18).

3º - A redenção foi a SATISFAÇÃO pelo pecado: Esta satisfação foi substitutiva, isto é, efetuada por um MEDIANEIRO, que pagou o débito que a humanidade culpada devia pagar. Foi também UNIVERSAL e PLENA, ou seja, abrangeu toda a humanidade, e foi adequada à ofensa. E não só foi plena, mas, outrossim, SUPERABUNDANTE, pois, sendo Jesus Cristo uma Pessoa divina, seus atos, mesmo os praticados só pela natureza humana, tinham valor infinito. E se as ações mais ínfimas (como alimentar-se, dormir, chorar etc.) já tiveram valor infinito, o sacrifício da cruz atinge alturas incomensuráveis: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm V, 20). Ó feliz culpa que nos mereceu um tal Redentor!!!

4º - A redenção foi a RECONCILIAÇÃO do homem pecador com Deus: Diz S. Pedro: "Levou nossos pecados no próprio corpo, sobre o madeiro, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça" (I Pe II, 24). Reconciliando o homem com Deus, a redenção foi assim a libertação da escravidão do demônio: "A fim de destruir pela morte (sofrendo na sua carne e derramando Seu Sangue) aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e para livrar aqueles que, pelo temor da morte, estavam em escravidão toda a vida" (Hb II, 15). 

5º -  A redenção foi RESTAURAÇÃO: Pelo pecado original o homem perdeu a graça santificante e a glória do Céu. A redenção restitui ao homem estes dons sobrenaturais: "A todos os que O receberam, deu poder de se tornarem filhos de Deus, aos que crêem em seu nome" (Jo I, 12).

"E, se somos filhos, também somos herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; mas isto, se sofremos com Ele, para ser com Ele glorificados" (Rm VIII, 17). Estas palavras de S. Paulo mostram que Deus quer a nossa cooperação. Em outras palavras: Para lucrarem os benefícios da Redenção, os homens têm que expiar seus pecados, em união com Jesus Cristo e segui-Lo levando a cruz de cada dia. Diz S. Agostinho: "Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti".

 

PARÁBOLA: Um rei muito bondoso adotara como filho um rapaz mendigo. Também o rei deu-lhe como esposa uma linda moça e, após o casamento, colocou-os numa quinta muito rica e bonita. Como filhos adotivos, eles e seus descendentes seriam, um dia, herdeiros, mas com a condição de se lhe conservarem fiéis. Mas o jovem casal não manteve o pacto. O rei, então, mandou-os para o exílio. Ali aquele casal teve muitos filhos que nasceram naquela extrema miséria. Não puderam herdar nem o título de filhos do rei nem suas riquezas, porque seus pais tinham perdido tudo isto. Exilados que estavam, não podiam também entrar no palácio do rei.

O rei era tão bom que mandou o seu único filho  por natureza ir até aquele exílio. O príncipe  cumpre exatamente a vontade de seu pai e, à custa de fadigas, de suores, de feridas, adquire grandes benemerências junto do pai, e lhe diz: Por estes merecimentos te peço que os filhos adotivos desterrados e tornados pobres por culpa própria, possam todos regressar à vida feliz na corte real. O rei consente; mas estabelece um tempo de prova, para que cada um, com a fidelidade ao Soberano e com a observância das leis do Estado, se tornem dignos do favor.

Esta é uma imagem do que Jesus Cristo fez para nos salvar, e da condição que nos estabeleceu nesta terra, antes de nos admitir à glória do Céu.

É sumamente urgente fazermos o que o primeiro chefe visível da Igreja, Simão Pedro, indicou: "Portanto, irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais. Desde modo vos será dada largamente a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (II Pe I, 10 e 11). Amém!

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

JESUS CRISTO É UMA PESSOA DIVINA


TEXTOS BÍBLICOS: 1 - "Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo" (Mt XVI, 16).  

                                    2 -  "Cremos e conhecemos que tu és o Filho de Deus" (Jo VI, 69).

 

REFLEXÕES:  Das três Pessoas da Santíssima Trindade, encarnou e fez-se homem  a Segunda, isto é, o Filho. Jesus Cristo, portanto, é a Segunda Pessoa da SS. Trindade, isto é, o Filho de Deus feito homem.

A Filosofia ensina que as ações ou atos pertencem à pessoa: "Actiones sunt suppositorum". Ora, Jesus Cristo é uma pessoa divina, ou seja, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Pelo mistério da Encarnação, o Verbo (Filho) assumiu a natureza humana e continuou a ser Deus. Assim, muitas ações de Jesus Cristo são feitas só pela natureza humana: trabalhar, alimentar-se, dormir, chorar, sofrer, morrer etc. Mas estas ações feitas pela natureza humana, na verdade, pertencem à Pessoa divina. Em outras palavras: Jesus é uma Pessoa divina (a Segunda) que, mesmo quando age e opera só pela natureza humana, estas ações são também divinas (em Teologia= TEÂNDRICAS). Donde, a menor ação de Jesus, tem um valor infinito, porque verdadeiramente É AÇÃO DE UM DEUS.

Portanto, é exato dizer que uma só gota do Sangue divino de Jesus Cristo seria suficiente para nos resgatar. No entanto, quis derramá-Lo até à última gota, para demonstrar o amor que tem a Seu Pai: "É preciso que o mundo conheça que amo o Pai" (Jo XIV, 31); e também para mostrar seu amor por nós: "Não há maior amor do que dar a própria vida pelos amigos"  (Jo XV, 13).

 "O acontecimento único e totalmente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem, nem que Ele seja o resultado da mescla confusa entre o divino e o humano. Ele se fez verdadeiramente homem permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem" (CIC, 464).

Deus Pai amou-nos de tal modo que nos deu o seu Filho Unigênito e o Filho de Deus, Jesus Cristo amou-nos de tal modo que se entregou livremente à morte mais humilhante e dolorosa, lavando os nossos pecados no Seu próprio Sangue.

 

EXEMPLOS: 1 - NATAL: Jesus Cristo nasce menino como homem na gruta de Belém (eis a natureza humana); mas os Anjos anunciam aos pastores o nascimento d'Ele como Salvador do mundo, isto é, Deus (eis a natureza divina).

                         2 - APRESENTAÇÃO NO TEMPLO: Jesus, quarenta dias depois do nascimento, tenra criancinha, é apresentado no Templo de Jerusalém (eis o homem); mas o velho Simeão reconhece-O, por revelação do Espírito Santo, e anuncia-O como verdadeiro Messias, o Esperado das nações (eis Deus).

                        3 - ENCONTRO NO TEMPLO: Aos 12 anos vai ao Templo de Jerusalém e ali fica e seu pai de criação, S. José, e sua santa Mãe, Maria, depois de três dias, ali O encontram (eis a humanidade); mas Ele estava disputando com os Doutores da Lei, Ele, ainda menino, revela uma sabedoria, que não é humana, e diz ser Deus o seu Pai (eis a natureza divina).

                        4 - BATISMO: No princípio de sua vida pública faz-se batizar, como homem, por João Batista; mas o Pai eterno manifesta a divindade de Jesus e declara-O seu divino Filho. 

                        5  -  DIANTE DO SINÉDRIO: Deixa-se insultar e ferir, mas proclama bem alto que é o Filho de Deus, o juiz que dos bons e dos maus. Por ter assim afirmado a sua Divindade, foi condenado à morte por aquele tribunal.

                        6 - MORTE E RESSURREIÇÃO: Como homem, morre na cruz; mas, ao mesmo tempo, revela-se Deus, obscurecendo por três horas o sol no firmamento, prometendo o paraíso ao bom ladrão Dimas. Passados três dias dá a prova suprema da sua Divindade: RESSUSCITA-SE, por virtude própria, da morte para uma vida gloriosa e imortal. E finalmente, depois de 40 dias sobe ao Céu.

"Ó Cristo Deus, reza a Liturgia Bizantina, que por vossa morte esmagastes a morte, sois Um da Santíssima Trindade, glorificado com o Pai e o Espírito Santo, salvai-nos!"  Amém!

 

                        

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

JESUS CRISTO É O ÚNICO SALVADOR


TEXTOS BÍBLICOS: 1 -"Não há salvação em nenhum outro; porque, sob o céu, nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos" (S. Pedro em At IV, 12).

                                    2 - "Todos pecaram e estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente pela sua graça, por meio da redenção, que está em Jesus Cristo".

 

REFLEXÕES: Deus criara o homem seu filho e herdeiro do Céu. Criou-o em estado de graça e santidade. Mas, Adão, Cabeça do gênero humano, prevaricou e assim perdeu tudo para si e para seus descendentes. Se não houvesse um Salvador, os homens não poderiam entrar no Céu. Deus, Pai de sabedoria e bondade infinitas, vendo a fraqueza do homem, quis usar de misericórdia e dar-lhe um Salvador.

Deus quis exigir uma reparação perfeita, isto é, equivalente à injúria. Neste plano, só o próprio Deus poderia ser o Salvador, reparando a honra divina ultrajada pelo pecado, dando novamente ao homem a graça santificante para assim poder merecer para o Céu. Na verdade, a gravidade de uma ofensa se mede pela dignidade da pessoa ofendida. Ora, o pecado ofendeu a Deus que é infinito, perfeitíssimo, a própria Santidade. Logo o pecado, sob este aspecto, é de uma gravidade infinita. E só Deus é infinito e, portanto, só Ele é que poderia dar uma reparação plena.

Por outro lado, sendo o homem que pecou, o salvador da humanidade teria que ser UM REPRESENTANTE dos homens, isto é, um homem. Concluindo, devemos dizer que o Salvador deveria ser um DEUS-HOMEM.

Deus, conciliando a Bondade com a Justiça, decretou a ENCARNAÇÃO: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo I, 14). "Assim como pelo pecado de um só [Adão], incorreram todos os homens na condenação, assim, pela justiça de um só[Cristo],recebem todos os homens a justificação que dá a vida" (Rm V, 18).

Como veremos no capítulo seguinte, Jesus Cristo é uma Pessoa divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo, o Filho. E, como ensina a Filosofia, "as ações pertencem à pessoa". Assim, mesmo as ações  operadas só pela natureza humana de Jesus (e até as menores e mais simples) têm um valor infinito. Donde, mesmo dentro do plano divino duma redenção proporcionada à falta, uma prece, uma lágrima de Jesus seria suficiente. Jesus Cristo não tinha absolutamente nenhuma obrigação de sujeitar-se aos extremos de suplício infame, vergonhoso e sangrento.

A Encarnação e a Redenção são mistérios e mistérios de amor. É um amor infinito, e assim não temos condição de avaliá-lo devidamente. Deus, após o pecado de Adão e Eva, não quis reluzi-los ao nada do qual os tirou. Nem quis reduzir Adão e Eva ao estado simplesmente natural e assim toda a subseqüente humanidade. E amou-nos de tal modo que nos deu o seu Filho Unigênito: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós". S. Paulo diz: "Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz! (Ef II, 7 e 8).   

São sete abismos de humilhação por nosso amor: Fazer-se homem; tomar a forma de servo; assumir as fraquezas da carne (exceto o pecado); tomar a semelhança da carne do pecado (como se Ele fosse o próprio pecado); esvaziar-se de Si mesmo (aniquilar-se); fazer-se obediente até à morte; derramar o seu Sangue até a última gota numa cruz. Razão tinha S. Paulo em dizer: "Quem não amar a Jesus Cristo, seja anátema" (I Cr XVI, 22).

EXEMPLO:  À entrada do Templo  o Apóstolo Pedro disse a um homem paralítico de nascimento: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: Em nome de Jesus Cristo de Nazaré, levanta-te e anda. E tomando-o pela mão direita o levantou, e imediatamente, se lhe consolidaram os pés e os tornozelos. E, andando, soltando e louvando a Deus, entrou no Templo juntamente com os apóstolos Pedro e João.

Jesus deu-nos a vida e, em abundância: onde abundou o pecado do homem, superabundou a graça de Jesus Cristo. Amém!

 

 

                          

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A VIDA CRISTÃ

 

TEXTO BÍBLICO: "Eu sou a verdadeira videira... Permanecei em mim e Eu em vós. Como a vara não pode de si mesma dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. O que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer" (Jo XV, 1-5).

REFLEXÕES: A SS. Trindade, fonte de todo bem, deu-nos  todo um organismo sobrenatural: a graça habitual (santificante), as virtudes infusas e os sete dons. Mas o homem, por si mesmo, não tem condição de fazer movimentar esta vida sobrenatural. Deus, então, nos dá as graças atuais. Tudo isto, porém, é operado pelos méritos e satisfações do nosso divino Salvador. Por esta razão, esta vida sobrenatural é chamada CRISTÃ. Podemos e devemos dizer mesmo que Cristo é toda a vida espiritual. Na verdade, tudo na vida cristã, converge para Cristo, fonte de toda santidade.

Jesus Cristo é a causa MERITÓRIA, a causa EXEMPLAR e a causa VITAL da nossa santificação. (Explanaremos tudo isto em artigos distintos). Cristo é a causa meritória, porque Ele reconquistou os nossos direitos à graça e à glória no Céu. É a causa exemplar porque mostra com seus exemplos como devemos viver para nos santificarmos.  É a causa vital da nossa santificação porque é a Cabeça deste Corpo Místico (Igreja) de que somos membros.

No Santo Sacrifício da Missa, pouco depois da Consagração, o celebrante, tendo na mão direita a Hóstia divina, traça com ela cinco cruzes, dizendo: "Por Ele, com Ele e n'Ele, a Vós Deus Pai Onipotente, na unidade do Espírito Santo, demos toda honra e glória". Sim, por Cristo, com Cristo e em Cristo, é que a SS. Trindade nos santifica. Como a Santíssima Eucaristia é o próprio Jesus, ela é a fonte e o ápice da vida cristã. Contém todo o bem espiritual da Igreja. A nossa santificação está na união íntima com Jesus Cristo. E justamente a Comunhão aumenta esta união com Ele: "Quem come a minha carne e bebe meu sangue, permanece em Mim e Eu nele" (Jo VI, 57).

Como todos os SACRAMENTOS foram instituídos por Jesus Cristo e d'Ele recebem toda eficácia, também dão a vida de fé do cristão: origem (Batismo) e o crescimento (Confirmação e Eucaristia), cura (Penitência e Unção dos Enfermos) e missão (Ordem e Matrimônio).

A ORAÇÃO  é, outrossim, elemento indispensável da vida cristã: é feita em NOME de Nosso Senhor Jesus Cristo. E Ele afirmou que o Pai nos concederá tudo o que pedirmos em seu nome (Cf. Jo XV, 16).

EXEMPLO:  Atalarico, rei dos Godos, sendo pagão, perseguiu a ferro e fogo os cristãos. Fazia passar pelas regiões um carro tendo em cima a estátua de um ídolo: todos aqueles que não saíssem para adorá-lo, eram mortos.

Na região onde morava S. Saba, havia pagãos tão afeiçoados a este servo de Deus por causa de sua caridade, que a todo transe queriam conservá-lo em vida. Mas, bem sabendo que de modo algum ele se deixaria persuadir a apostatar, pensaram em ir ter com os oficiais imperiais para atestarem que no seu distrito não havia sequer um só cristão e portanto não deviam perder o tempo em ir lá com o carro e com o ídolo. Mas S. Saba soube deste pensamento e começou a gritar: "Desventurados, que é que estais maquinando? Quereis dizer uma mentira para me salvar? Quereis ofender a Deus para me conservardes a vida? Que é a minha vida e o mundo todo para que se deva antepô-lo à glória de Jesus?

E quando chegou o carro do ídolo, logo ele saiu fora de sua tenda gritando: "Não adorarei o demônio! Pela graça de Deus, nunca renunciarei ao meu divino Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo! Sou cristão e podem matar-me. E assim o fizeram. (Vida dos Santos, por Vogel).

Ó Jesus, dai-me a vossa graça, o vosso amor e a perseverança neles até ao fim! Amém!

 

sábado, 7 de novembro de 2020

A GRAÇA ATUAL

GRAÇA ATUAL

TEXTOS BÍBLICOS:  1 -"É Deus que opera em nós o querer e o fazer" (Fl II, 13).

                                     2 - "Ora, sendo nós cooperadores (de Cristo) vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus" (II Cr VI, 1).

REFLEXÕES: Deve-se distinguir a graça habitual, que é uma disposição permanente para viver e agir conforme o chamado divino, e as GRAÇAS ATUAIS, que são as intervenções divinas, quer na ordem da conversão, quer no decorrer da obra de santificação. Na verdade, Deus acaba em nós aquilo que Ele mesmo começou: começa com sua intervenção, fazendo com que nós queiramos e acaba cooperando com as moções de nossa vontade já convertida. Como mostrou S. Agostinho, Deus termina premiando os seus próprios dons, porque todo bem vem d'Ele, o Sumo Bem. Daí a oração deste doutor da graça: "Dai-me o que ordenais, e ordenai-me o que quiserdes".

Se na ordem da natureza já temos necessidade do concurso de Deus para agir, com maior razão, na ordem sobrenatural. Para exercitar as nossas faculdades (inteligência e vontade) precisamos de moções divinas: são as graças atuais. São luzes para a inteligência e força para a vontade. Daí a definição dada pelos teólogos: Graça atual é um auxílio sobrenatural e transitório que Deus nos dá para nos iluminar a inteligência e fortalecer a vontade na produção dos atos sobrenaturais. A graça atual eleva e move nossas faculdades espirituais.

Exemplo de graça interior: antes da conversão (justificação) ela ilumina o pecador acerca da malícia e dos temerosos efeitos do pecado, para o levar a detestar tão grande mal. Depois da justificação (conversão), mostra-lhe, à luz da fé, a infinita beleza de Deus e a sua misericordiosa bondade, a fim de levar o convertido a amá-Lo de todo coração.

Exemplo de graças exteriores: Estas graças atingem INDIRETAMENTE  as nossas faculdades espirituais (e quase sempre são acompanhadas de graças interiores). São: leituras espirituais (máxime das Sagradas Escrituras), vida dos Santos, sermões, o bom exemplo de pessoas piedosas, boas conversas, músicas religiosas (como o Gregoriano e as parecidas a este) etc. São coisas que causam impressões favoráveis à conversão e/ou à santificação.

S. Paulo exorta-nos a não recebermos em vão as graças de Deus, porque, na verdade, Deus respeita a nossa liberdade: criou-nos sem nós, mas não nos santifica sem nós; Deus exige a nossa LIVRE COOPERAÇÃO. Cabe-nos acolher com alegria as primeiras iluminações da graça, seguir docilmente as suas inspirações, mau grado os obstáculos, e pô-las em prática, mesmo se exigir grandes sacrifícios. Mas Deus não se deixa vencer em generosidade: quando correspondemos com generosidade, Ele já tem novas graças para nos dar.

"Se aprouve à bondade divina, diz Tanquerey, derramar nas nossas almas uma vida nova, uma participação da sua vida divina, se nos deu virtudes e dons para praticarmos atos sobrenaturais e deiformes; se, pela graça atual, nos convida ao esforço, ao progresso espiritual, ficar-nos-ia mal rejeitar estas amabilidades divinas, levar uma vida medíocre e só produzir frutos imperfeitos".

PARÁBOLA: Uma princesa, órfã de pais, morava num dos castelos dos seus domínios recebidos em herança.. Um dia, a filha de um pobre pedreiro foi procurá-la apressadamente e disse-lhe: Alteza, meu pai está à morte; venha imediatamente vê-lo porque tem algo a dizer-lhe. A orgulhosa princesa não fez caso  do recado dizendo: "que pode ter um pedreiro a dizer-me na hora da morte?" Uma hora mais tarde, chegava de novo a filha do pedreiro ofegante de tanto correr: _ "Alteza _ disse _ venha depressa! Meu pai diz que a mãe da senhora, durante a última guerra mundial, mandara embutir numa parede de um dos castelos, uma grande quantidade de ouro, prata e diamantes. Meu pai tinha ordem de não lhe dizer nada antes que a senhora completasse vinte anos. Mas, como está certo de que vai morrer, quer antes revelar-lhe o secreto local do imenso tesouro".

No mesmo instante a jovem princesa saiu a correr para a casa do agonizante. Aconteceu, porém, que, ao entrar ela no quarto, o pedreiro acabava de expirar.

A princesa empregou grandes esforços para descobrir o tesouro escondido, mas tudo foi em vão. A herdeira do tesouro materno jamais o encontrou.

Lição: Muitos procedem a respeito da graça de Deus como aquela jovem princesa. Fazem deste tesouro divino muito pouco caso. Virá, porém, uma hora em que não mais o encontrarão.  Daí dizer S. Agostinho: "Temo a Jesus que passa em não volta mais".

Ó dulcíssimo Jesus, que a vossa graça nunca seja vã em mim! Amém!

  

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A VIDA ETERNA

 A VIDA ETERNA

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

                                                          

“Fazes o impossível para morrer um pouco mais tarde, e nada fazes para não morrer para sempre?” pergunta Santo Agostinho. Todos queremos viver, viver muito tempo e mesmo para sempre. Por isso, após o mês do Rosário, a Igreja nos convida a pensar na coisa mais importante da nossa existência: a vida eterna. “Deus não criou a morte e a destruição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou todas as coisas para existirem... e a morte não reina sobre a terra, porque a justiça é imortal” (Sb 1, 13-15). O pecado é que fez entrar a morte no mundo. Mas a esperança da ressurreição e da vida eterna nos consola.

Domingo próximo, dia 1º de novembro, celebraremos a solenidade de Todos os Santos, a festa daqueles que se salvaram, chegaram à vida eterna feliz para sempre. E, na segunda-feira próxima, a Comemoração de todos os Fiéis Defuntos, os “finados”, aqueles que já partiram dessa vida temporal e começaram a vida eterna, que, esperamos e rezamos para isso, seja no Céu. Dom Boaventura Kloppenburg fez questão de resumir o seu testamento nessa palavra: “Creio na Vida Eterna”. Creio na vida que não terá fim. É a nossa profissão de fé no Credo.

É tempo de reflexão sobre a humildade que devemos ter, sabendo que a morte nos igualará a todos. Todos compareceremos diante de Deus, para dar contas da nossa vida. Ali não haverá distinção entre ricos e pobres, entre reis e súditos, entre presidentes, parlamentares e magistrados e os cidadãos comuns, entre Papa, Bispo, Padres e simples fiéis. A distinção só será entre bons e maus, e isso não na fama, mas diante de Deus, que tudo sabe.

Olhemos a morte com os olhos da fé e da esperança cristã, não com desespero. Confiemos na misericórdia de Deus, que é nosso Pai, que nos enviou seu Filho, Jesus, que morreu por nós, para que não nos condenássemos, mas que tivéssemos a vida eterna.    

Os santos encaravam a morte com esse espírito de fé e esperança. Assim São Francisco de Assis, no Cântico do Sol: “Louvado sejais, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum homem pode fugir. Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Felizes dos que a morte encontra conformes à vossa santíssima vontade! A estes não fará mal a segunda morte”. “É morrendo que se vive para a vida eterna!”. E São Paulo, o Apóstolo: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é um lucro... Tenho o desejo de ser desatado e estar com Cristo” (Fl 1, 21.23).

“Eis, pois, o que vos digo, irmãos: o tempo é breve; resta que os que têm mulheres, sejam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem, porque a figura deste mundo passa” (1 Cor 7, 29-31). “Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos” (Gl 6, 10). “Que prudente e ditoso é aquele que se esforça por ser tal na vida qual deseja que a morte o encontre!... Melhor é fazeres oportunamente provisão de boas obras e enviá-las adiante de ti, do que esperar pelo socorro dos outros” (Imitação de Cristo, I, XXIII).

 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

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terça-feira, 27 de outubro de 2020

A AÇÃO DAS VIRTUDES INFUSAS COM A AJUDA DOS SETE DONS DO ESPÍRITO SANTO


SENTENÇA: "Ensinai-me a fazer a vossa vontade, porque vós sois o meu Deus. O vosso Bom Espírito me conduzirá por uma terra aplanada" (Sl 142, 10).

REFLEXÕES: As virtudes teologais são: fé, esperança e caridade. As virtudes cardeais são: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus.

O Espírito Santo com seus dons, completa e leva à perfeição as virtudes.

A  une-nos a Deus (Verdade) levando-nos a aderir às verdades que nos revelou. O exercício desta virtude é aperfeiçoado pelos dons da INTELIGÊNCIA e da CIÊNCIA. O dom da inteligência leva-nos a penetrar mais profundamente nas verdades da fé para nelas descobrirmos os seus tesouros escondidos. O dom da ciência eleva-nos das criaturas até Deus, mostrando-nos que Ele é o seu princípio, a sua causa exemplar e também o seu fim.

A ESPERANÇA une-nos a Deus (Suma Bondade e nossa Felicidade) levando-nos a fazer atos de confiança absoluta e de filial entrega em suas mãos. Faz-nos esperar com serenidade a Céu e os meios de lá chegarmos. Esta virtude é fortificada pelo dom do TEMOR DE DEUS, enquanto nos desapega dos falsos bens da terra que nos poderiam arrastar ao pecado. Assim, ajuda-nos a desejar o Céu.

A CARIDADE leva-nos a amar a Deus como infinitamente bom em si mesmo e, assim, nos comprazemos nas suas infinitas perfeições mais que se fossem nossas. Leva-nos a uma santa amizade e a uma doce familiaridade. É pela caridade que nos tornamos mais semelhantes ao nosso Pai Celeste. É o dom da SABEDORIA, que nos faz gostar das coisas de Deus e assim, aumenta em nós a virtude da caridade, isto é, o Amor de Deus.

A virtude da PRUDÊNCIA leva-nos a escolher devidamente os meios para alcançarmos o nosso fim sobrenatural. É muito aperfeiçoada pelo dom de CONSELHO que nos faz participar da sabedoria divina  mostrando-nos logo claramente, nos casos particulares e dificultosos, o que é conveniente fazer ou omitir.

A virtude da JUSTIÇA (à qual está relacionada a virtude da RELIGIÃO) mandando-nos dar a outrem o que lhe é devido, santifica as nossas relações com os nossos irmãos. A virtude da RELIGIÃO inclina-nos a prestar a Deus o culto que Lhe é devido. Esta virtude da religião é facilitada singularmente pelo dom de PIEDADE fazendo-nos ver em Deus um pai amorosíssimo que somos venturosos de glorificar e louvar. O dom de piedade ajuda-nos a tratar o próximo como irmãos em Jesus Cristo.

A virtude da FORTALEZA arma-nos contra as provações e a luta. Leva-nos, outrossim, a suportar com paciência os sofrimentos; a empreender com coragem os mais árduos trabalhos para glória de Deus. O dom de FORTALEZA ajuda a virtude do mesmo nome, levando esta coragem até ao heroísmo.

A virtude da TEMPERANÇA modera em nós a ânsia do prazer, e subordina-o à lei do dever. O dom do TEMOR DE DEUS, além de facilitar a virtude teologal da esperança, também aperfeiçoa em nós a temperança, fazendo temer os castigos e os males que resultam do amor ilegítimo dos prazeres.

EXEMPLO: A princesa Luísa (de que falamos em exemplo anterior) filha de Luis XV, rei de França, recebeu o véu no Carmelo de Paris, em presença do núncio apostólico do papa Clemente XIV. A capela foi engalanada com esplendor nunca visto. A princesa apareceu vestida com maravilhoso traje que reluzia de ouro e pedras preciosas, e em sua cabeça levava coroa de puríssimos diamantes. A princesa, em dado momento, despojada de todas aquelas jóias, recebeu em troca o hábito grosseiro e o véu e prostrou-se por terra. Muitas lágrimas correram dos olhos das pessoas da corte presentes na cerimônia. Viveu no claustro dezessete anos com o nome de Sóror Teresa de Santo Agostinho, em grande pobreza. Faleceu aos cinqüenta anos de idade em odor de santidade.

Eis a verdadeira grandeza!... De filha de rei mortal, tornou-se para sempre filha do Rei Imortal, o verdadeiro Rei. o Rei dos reis. Amém!

 

 

domingo, 25 de outubro de 2020

AS VIRTUDES INFUSAS


SENTENÇA: 1 - "Salvou-nos mediante o batismo de regeneração e de renovação do Espírito Santo, que Ele difundiu sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, Nosso Salvador" (Tt III, 5 e 6). 

REFLEXÕES:  S. Agostinho, explicando as palavras "derramou com abundância", acrescentou o comentário: "isto quer dizer, para remissão dos pecados e abundância de virtudes.

Deus, Bondade infinita, depois de ter criado o homem com dons naturais espirituais e extraordinários (a inteligência para conhecer a verdade; a vontade para desejar e amar o bem) na sua infinita liberalidade, quis vir morar em nós. E mais: veio para nos santificar e tornar o homem seu filho, e, portanto, herdeiro de seu reino. Em outras palavras: quis tornar-nos participantes da sua Vida, da sua Natureza e assim divinizar a criatura humana e torná-la semelhante a Si, dando-lhe a capacidade de fazer obras meritórias para o Céu.

Para tanto, o nosso Pai do Céu, elevou as nossas faculdades naturais (de si boas, porque feitas por Ele) a uma ordem acima da natureza, i, é, SOBRENATURAL. A graça santificante é o princípio vital desta vida que está acima de toda natureza criada. Juntamente com esta graça habitual que recebemos no santo Batismo, Deus infunde na alma as virtudes teologais, e, segundo doutrina comum dos teólogos, também as cardeais.

Virtude é uma disposição habitual e firme de fazer o bem. Há as virtudes morais (humanas) e as teologais (divinas). As humanas (das quais as principais são as cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança) são perfeições habituais e estáveis da inteligência e da vontade, que regulam os nossos atos, ordenam as nossas paixões e orientam a nossa conduta em conformidade com a razão e a fé. As teologais (fé, esperança, caridade) têm como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus (teologal=que se refere a Deus). Infundidas no homem com a graça santificante, elas nos tornam capazes de viver em relação com a SS. Trindade e fundamentam e animam o agir moral do cristão, vivificando as virtudes morais.

Observação importante: Estas virtudes cardeais infundidas por Deus juntamente com a graça santificante não nos dão a facilidade, mas o poder sobrenatural próximo de praticar atos sobrenaturais.  Ao chegar ao uso da razão, iluminado e movido pelas graças atuais, será necessário que o homem repita atos destas virtudes e assim, adquira o hábito delas, isto é, uma facilidade em colocar em prática aquele poder infundido por Deus.

Com os atos relativos a cada virtude teologal, porém, nós não as adquirimos, mas exercitamo-las.

EXEMPLOS: 1 - Um dia um menino de Turim, o Marques Máximo de Azeglio, dirigiu às pessoas de sua família esta pergunta: "Somos nobres?" O seu pai respondeu: "Serás nobre se fores virtuoso!"

Este pai disse uma grande verdade. Eram marqueses e, portanto, de linhagem nobre. Mas, na verdade, a nobreza da linhagem nenhum mérito tem perante Deus, ao passo que só a da alma, dada precisamente pela prática da virtude, tem grande valor perante Deus.

2 - A princesa Luíza de França (que mais tarde havia de entrar no Carmelo para expiar os crimes de seu pai o Rei Luis XV) um dia, num momento de cólera, disse para sua ama: "Não sabes que sou a filha de teu rei? --- E vós, replicou a ama, não sabeis que sou filha de vosso Deus?

A esta resposta inesperada, que lhe recordou a sua fé e a sua origem divina, a irascível princesa instantaneamente se acalmou e passou a meditar na verdadeira nobreza de ser filha de Deus. Terminou se convertendo, como veremos no próximo artigo.

 "O fim de uma vida virtuosa, diz S. Gregório de Nissa,  consiste em se tornar semelhante a Deus" Amém!

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A GRAÇA SANTIFICANTE EXPLICADA ATRAVÉS DE COMPARAÇÕES


SENTENÇA: "O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, o qual, quando um homem o acha, esconde-o, e, contente com o achado, vai, vende tudo o que tem, e compra aquele campo. O reino dos céus é também semelhante a um mercador que busca pérolas preciosas, e, tendo achado uma de grande valor, vai, vende tudo o que tem e a compra" (Mt XIII, 44-46).

REFLEXÕES: Jesus compara a graça santificante a um tesouro e a uma pérola de grande valor. Depois do próprio Jesus, nada existe mais precioso sobre a face da Terra.

 Compara-a também a uma água viva que jorra para a vida eterna (Jo IV, 4). Na verdade, é pela graça que entramos na família de Deus. Somos seus filhos e, portanto, irmãos de Jesus Cristo. E assim, somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Jesus Cristo. Pela graça santificante, participamos da própria natureza divina. Pode haver tesouro maior do que este? A graça santificante dará à alma a posse da vida eterna no céu, onde a sede de felicidade e de amor será saciada inteira e eternamente, pela visão beatífica de Deus face à face.

Os Santos Padres e teólogos fazem, outrossim, muitas comparações sobre a graça santificante no intuito de dar uma ideia mais clara deste dom extraordinário. Eis algumas:

1ª - A alma em estado de graça é semelhante a um globo de cristal iluminado pelo sol. Este cristal transparente recebe a luz do sol e é como que penetrado por ele e assim adquirindo um brilho incomparável que em seguida difunde em torno. Na verdade, a alma recebe a luz divina, resplandece com vivíssimo clarão e reflete-o sobre os objetos que a rodeiam.

2ª - A graça santificante penetra no íntimo da alma: Assim como uma barra de ferro, metida numa fornalha ardente, adquire o brilho, o calor e a maleabilidade do fogo, assim a nossa alma, mergulhada na fornalha do amor divino, ali se purifica das escórias, tornando-se brilhante, ardente e dócil às divinas inspirações. A barra de ferro, sem deixar de ser o que é, parece-se com o fogo, de tal modo é penetrada por ele. Mas, retirada da fornalha, volta a ser feia e fria.

3ª - Há teólogos que comparam a graça ao enxerto. Fazem-no para mostrar que a graça é uma vida nova. A nossa alma é a árvore silvestre. A graça santificante é o enxerto divino. Assim como o enxerto não confere à árvore selvagem toda a vida da espécie a quem o foram buscar, senão tão somente uma ou outra das suas propriedades vitais, assim a graça santificante não nos dá toda a natureza de Deus, mas alguma coisa da Sua vida, que constitui para nós uma vida nova, i. é, uma participação real mas limitada da vida de Deus.

4ª - A graça santificante é já uma preparação para a visão beatífica no Céu. Neste sentido, é comparada ao botão que já contém a flor, embora vá desabrochar só lá no Paraíso. Assim, a graça habitual é chamada também de SEMENTE DA GLÓRIA. A graça santificante é uma semente lançada em nós para aí fazer germinar a vida celeste.

EXEMPLO: I Rs XVI narra como Elias ressuscitou o filho da viúva de Sarepta;  II Rs IV, 32 e 35 conta como Eliseu ressuscitou o filho da mulher Sunamita que o hospedava. O profeta estendeu-se sobre o menino morto, aplicou a boca, as mãos, os olhos sobre a cabeça, as mãos e os olhos da criança e esta voltou à vida. Assim, o Espírito Santo faz o mesmo para ressuscitar a alma para a vida divina mediante a sua graça: inclina-se para a alma, sua imagem; aplica sua boca à nossa para se insuflar em nós; põe os seus olhos sobre os nossos, i. é, dá-nos o conhecimento de si mesmo; junta as suas mãos às nossas, dando-nos a sua força divina. A nossa alma renasce assim para uma nova vida. A alma vive em Deus e Deus nela (C. Spirago).

Senhor, fazei que eu me apresente a Vós no Banquete Eterno, revestido da cândida veste nupcial! Amém! 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

A PERDA DA GRAÇA SANTIFICANTE

SENTENÇA: "Mas são as vossas iniquidades que puseram uma separação entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados são os que lhe fizeram esconder de vós a sua face, para não vos ouvir" (Is 59, 2).

REFLEXÕES: Quão infeliz é a alma que cai em pecado mortal, que assim atrai o desagrado do próprio Deus. A pessoa que vive em pecado mortal, vive separado de seu Sumo Bem, que é Deus. Ela não é de Deus, nem Deus é seu. "E o Senhor disse a Oséias: Põe-lhe o nome de Não-meu-povo porque vós já não sois meu povo e eu não serei mais vosso (Deus)" (Os I, 9). Falando contra os pecados de idolatria diz a Sagrada Escritura: "Deus aborrece igualmente o ímpio e a sua impiedade". Se alguém tem por inimigo a um príncipe do mundo, não pode repousar tranquilo, receando a cada instante a morte. E aquele que foi inimigo de Deus, como pode ter paz? Pode-se escapar das mãos dos homens, mas das de Deus não: "A todo e qualquer lugar aonde vá, tua mão alcançar-me-á. E disse: Talvez me ocultarão as trevas; mas a noite converte-se em claridade para me descobrir no meio dos meus prazeres" (Sl 138, 10 e 11).

Além disso, a pessoa que vive no pecado mortal, traz consigo a perda de todos os merecimentos. Ainda que tivesse merecido tanto como uma S. Teresinha do Menino Jesus, um Santo Cura d'Ars, e até tanto como S. Paulo, se tal pessoa cometesse um só pecado mortal, perderia tudo. De filho de Deus, o pecador converte-se em escravo do demônio; de amigo predileto torna-se odioso inimigo; de herdeiro da glória, em condenado do inferno.

Como é triste a gente ver como os homens em geral, no mundo, choram por ter perdido algo de valor e/ou de estimação. Vi na Internet um sujeito chorando porque perdeu seu macaco de estimação. Aliás S. Agostinho já dizia: "Aquele que perde um cavalo, uma ovelha, já não come, já não descansa , mas chora e lastima-se. Mas se perde a graça de Deus, come, dorme e não se queixa!". S. Francisco de Sales dizia: "Se os anjos pudessem chorar, certamente chorariam de compaixão ao verem a desdita de uma alma que comete um pecado mortal e perde a graça divina". E S. Afonso comenta: "Entretanto, a maior tristeza é que os anjos chorariam, se pudessem chorar, e o pecador não chora".

Ó meu dulcíssimo Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, se na vida passada meu coração andou mal, amando as criaturas e as vaidades do mundo, de agora em diante, só viverei para Vós e só a Vós amarei, meu Deus, meu tesouro, minha esperança e minha fortaleza. Inflamai meu coração em vosso santo amor. Maria, minha Mãe, fazei que minha alma arda em amor de Deus.

EXEMPLO: Conta S. Jerônimo que no tempo dele era permitido aos judeus de pisar o lugar de Jerusalém destruída, só uma vez ao ano, no aniversário da conquista da cidade. Nesse dia, apareciam grandes multidões de judeus, homens, mulheres, jovens e velhos, pais e filhos, trajando todos de luto, com o cabelo desgrenhado e olhos baixos, pálidas de amargura entrando processionalmente na cidade com muitas lamentações e gritos de dor. Mal entravam no recinto da destruída Capital, estourava um alarido de partir o coração; batiam violentamente aos peitos com suspiros e gemidos, arrancavam o cabelo da cabeça, correndo com gestos de desesperados pelos sítios da cidade em busca dos lugares santos dos seus antepassados. Não achando mais vestígios do antigo Templo, duplicavam os gritos de tristeza e desespero, enchendo as ruas e vielas de choros e lamentações. Assim permanecia o povo o dia inteiro, da manhã até a noite, até serem obrigados pelos soldados a retirar-se quando o sol já ia em declínio. Repetidas vezes davam aos soldados somas avultadas para que lhes concedessem a graça de permanecer mais um pouco, chorando ainda algum tempo a perda da santa Cidade de Jerusalém (S. Hieron. im cap. I. Sophon.).

Pobre pecador: se assim os judeus lastimavam a perda temporal de uma cidade como hás de chorar tu um dia, e isso sem mais remédio a perda da eterna e ditosa Jerusalém Celeste, se não te converteres a tempo. Faze já penitência e não perderás a felicidade suprema. (P. Miguel Meier, S. J. "A CATEQUESE"). Amém!.

  

domingo, 18 de outubro de 2020

A GRAÇA DE DEUS É UM BEM INEFÁVEL


SENTENÇA:"Ó se conhecêsseis o dom de Deus!" (Jo IV, 10).

REFLEXÕES: Poderíamos dirigir às multidões pecadoras e sedentas de felicidade, o mesmo lamento que Jesus Cristo expressou à mulher samaritana: "Ó se conhecêsseis o dom de Deus!".  Porque não conhecem o valor da graça divina, muitos e muitos trocam-na por ninharia, um fumo subtil, um punhado de terra, um deleite irracional.

A graça santificante, vida da alma, participação real, embora limitada da própria natureza divina, é um tesouro de valor infinito, que nos torna dignos da amizade de Deus. O próprio Jesus Cristo disse: "Quem é meu amigo, guarda os meus mandamentos". Se estou na graça de Deus, sou amigo de Deus, sou seu filho. Filho adotivo, na verdade, mas esta adoção é infinitamente superior à da terra, porque esta  é só questão de assinatura de um documento (o sangue é outro). A adoção pela graça, porém, é uma participação REAL da natureza de Deus: "participantes da natureza divina" (Cf. II Pe I, 4). Tanta é esta dignidade que Jesus Cristo no-la mereceu por sua Paixão! Jesus Cristo nos comunicou, de certo modo, o resplendor que recebeu de Deus: "Eu (disse Jesus dirigindo-se a seu Pai) dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um, como também nós somos um" (Jo XVII, 22). A alma que está na graça  está intimamente unida a Deus: "Ao que está unido ao Senhor é um só espírito com ele" (1 Cor. VI, 17). O próprio Jesus disse que a Santíssima Trindade vem habitar na alma que está no estado de graça: "Aquele que retém os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei (também), e me manifestarei a ele... Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada" (Jo XIV, 22).

"Que tesouros de merecimentos, diz S. Afonso de Ligório, pode adquirir uma alma em estado de graça! Em cada instante lhe é dado merecer a glória; pois, segundo disse S. Tomás de Aquino, cada ato de amor, produzido por tais almas, merece a vida eterna". Estando na graça de Deus, podemos adquirir continuamente as maiores grandezas celestes.

 "Muita paz aos que amam a tua lei" (Sl 118, 165). A paz que provém dessa união com Deus excede a quantos prazeres possam oferecer os sentidos e o mundo: "E a paz de Deus, que está acima de todo o entendimento, guarde os vossos corações e os vossos espíritos em Jesus Cristo" (Fl IV, 7).

Donde, devemos pedir sempre o amor de Deus, a sua graça e a perseverança neles; pedir forças a Nosso Senhor para sofrermos com paciência todas as cruzes que Ele nos destinar, já que merecemos a separação e o fogo eternos se perdida a graça tivéssemos morrido assim. Devemos estar resolvidos a servir unicamente a Jesus Cristo, mesmo que for necessário vencer todo respeito humano. Devemos procurar agradar só a Jesus, e fazer de tudo para evitar o pecado mortal, e lutar também por evitar o venial.

Só quero viver na graça de Deus, e quero, pelas graças atuais, crescer sempre mais na graça santificante.

EXEMPLO: 1 - A irmã Carmelita Santa Maria Madalena de Pazzi recebeu um dia de Deus uma revelação especial acerca da suprema preciosidade e beleza da graça santificante na alma. Entrou em êxtase. Tornada a si, a santa, não podendo descrever quanto vira, porque não encontrava palavras apropriadas, contentou-se em dizer que "se uma alma, adornada com a graça santificante, conhecesse o amor e a estima que goza junto de Deus, morreria por excesso de alegria; e  disse que, caso oposto, "desejaria voltar para o nada, se visse a sua fealdade quando está privada da graça".

2 - Dizia S. Brígida que ninguém seria capaz de ver a beleza de uma alma em estado de graça, sem morrer de alegria. Santa Catarina de Sena, ao contemplar uma alma em estado tão feliz, disse que preferia dar sua vida para que aquela alma jamais viesse a perder tanta beleza. Era por isso que a Santa beijava a terra que os sacerdotes pisavam, considerando que por seu intermédio recuperavam as almas a graça de Deus. Amém!

  

terça-feira, 13 de outubro de 2020

COMO O DIVINO HÓSPEDE SANTIFICA A ALMA


SENTENÇA: "Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens" (Jo I, 4).

REFLEXÕES: Deus, a própria Bondade, quis elevar-nos até Ele. Como? Fazendo-nos participar da sua própria vida. Para tanto, cria em nós um organismo sobrenatural: graça habitual santificante, virtudes infusas, dons do Espírito Santo. E para fazer agir todo este organismo que supera inteiramente toda natureza criada, dá-nos as graças atuais. Cabe a alma acolher com gratidão esta vida divina e aperfeiçoá-la com cuidado, sob a ação da graça atual.

Sem nada tirar do que há de bom em nós, Deus transforma a nossa vida natural numa vida sobrenatural, divinizada. Pela graça santificante, faz-nos semelhantes a Ele (não iguais, pois só Jesus é o Filho por natureza e, portanto IGUAL AO PAI). A graça habitual que nos é dada no santo Batismo, prepara-nos (remotamente) para podermos conhecer a Deus como Ele se conhece e para o amar como Ele se ama. As virtudes infusas e os dons do Espírito Santo (que acompanham a graça habitual) sobrenaturalizam (divinizam) as nossas faculdades naturais e dão-nos o poder imediato de praticar atos meritórios para a vida eterna.

Como Deus é vida, também é luz. Pelas suas graças atuais, Deus dá-nos força e luz. Luz para a inteligência; e força para a vontade. Deus opera em nós o querer e o fazer: "Deus é o que opera o querer e o executar, segundo o seu beneplácito" (Fl II, 13). Assim, os atos que fazemos em estado de graça, na verdade, não são meramente humanos: embora nossos, são divinos. A graça santificante penetra totalmente a vida natural e a transforma em uma vida semelhante à vida de Deus.

Deus opera a nossa salvação e santificação através de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que, inclusive nos  deixou a sua Igreja com os seus sete sacramentos. Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade, a Vida e a Luz.

Deus quer que, reconhecendo a nossa incapacidade e miséria, peçamos a Ele, com toda confiança, as luzes e a força para praticarmos o bem e evitarmos o mal. Portanto, a nossa salvação será garantida pela oração feita com fé, humildade, atenção, confiança e perseverança. Daí dizer Santo Afonso de Ligório: "Quem reza, se salva".

Aqui na terra, a pessoa em estado de graça vai possuindo a Deus pela fé e pelo amor, de uma maneira inferior como será no Céu, mas verdadeiramente de modo muito superior ao conhecimento natural que se tem pelo razão.  

Em próximos capítulos falaremos mais especificamente de cada um destes elementos do organismo sobrenatural.

EXEMPLO: Nos fins do século III, vivia em Roma uma santa viúva, de família nobre. Seu marido havia sido martirizado, deixando um único filho com poucos meses.

A santa viúva amava ternamente o seu filho, porque era um menino obediente e piedoso. Tinha doze anos de idade, quando se deu o fato que se segue:

 Todos os dias aquela piedosa mãe, pondo-se de joelhos, pedia a Deus que seu amável filho fosse sempre bom; que não se extraviasse como tantos outros meninos que até aos doze anos são anjos de pureza e aos quinze começam a ser demônios de luxúria.

Um dia, estava ela em oração, quando, de repente, seu filhinho abre violentamente a porta do quarto dizendo em voz alta: mamãe, mamãe! A mãe levanta-se de seu genuflexório, e, abraçando-o, pergunta-lhe tremendo de emoção:

--- Que te aconteceu, meu filho?

--- Mamãe, respondeu o menino com voz entrecortada pela fatiga --- mamãe, agora mesmo, quando saia do colégio, o filho do governador, que é pagão, perguntou-me se eu era cristão. E eu,mamãe, respondi como a senhora me ensinou: sou cristão pela graça de Deus.

--- Muito bem, meu filho. E o que ele fez? perguntou a mãe.

--- Mamãe, como é pagão e muito mau, ele deu um forte soco no meu rosto.

Aquela santa mãe sentiu como se aquele soco fosse no seu próprio rosto; mas contendo a emoção e as lágrimas, querendo ver até onde ia a virtude de seu filhinho amado, perguntou-lhe: meu filho, que você fez, então?

--- Mamãe, fiz como Jesus fez e ensinou: perdoei do fundo do coração.

E a mãe não pôde conter as lágrimas pela felicidade que sentiu em ter um filho tão santo que aprendera e colocava em prática a doutrina e os exemplos do divino Mestre.

Naqueles tempos, os filhos de famílias nobres levavam ao pescoço, até a idade viril, pendente dum cordão de ouro, uma bolinha também de ouro. A mãe, tirando o cordão do pescoço do filho, disse-lhe : Filho meu, já não és menino, porque ages como adulto. Por isso, em lugar desta bolinha de ouro, vás trazer ao pescoço outra que vale muito mais que todo ouro do mundo. E a mãe tirou do pescoço um cordão no qual estava suspensa uma bolinha de cristal, dentro da qual via-se uma esponja. Mostrou-a ao filho e disse-lhe: Vês esta esponja que está dentro desta bolinha de cristal? É vermelha..., porque foi empapada de sangue. Meu filhinho, é uma preciosa relíquia porque é o sangue de seu pai! Por ser cristão e confessar a Jesus Cristo, foi condenado a ser lançado às feras. E no anfiteatro foi despedaçado e devorado pelos leões. Quando as feras foram recolhidas, corri até o local do martírio e embebi esta esponja no sangue de seu pai que ainda estava numa poça. Beija, meu filho, é o sangue de seu pai. Até hoje, trouxe esta relíquia sobre o meu coração; a partir de hoje, levá-la-ás sobre o teu. Quero antes, porém, que me prometas três coisas: viverás como cristão, sofrerás como cristão e morrerás como cristão? O menino contemplava sua mãe, sereno e imóvel como um mártir, e disse-lhe: mamãe, pela graça de Deus, farei como papai fez: viverei como cristão, sofrerei como cristão e morrerei como cristão.

E a mãe beijou a esponja, beijou o filhinho, e chorando de emoção, colocou a preciosa relíquia no pescoço do filho.

Aquele angélico rapaz cumpriu a sua palavra. E dois anos depois, foi levado a presença do governador pagão; confessou a nosso Senhor Jesus Cristo e foi devorado pelas feras.

É o grande mártir S. Pancrácio (+ 304) cuja memória é celebrada pela Igreja no dia 12 de maio. Amém!

  

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O QUE DEVEMOS EVITAR EM RELAÇÃO AO HÓSPEDE DIVINO


SENTENÇAS: 1 - "Não extingais o Espírito (Santo)"  (I Ts V, 19).

                          2 - "Não entristeçais o Espírito Santo de Deus"  (Ef IV, 30).

                          3 - "Vós resistis sempre ao Espírito Santo" (At VII, 51).

REFLEXÕES:  S. Paulo adverte-nos que não expulsemos e não contristemos o Espírito Santo. O diácono Santo Estevão lança em rosto dos judeus de cerviz dura, a terrível acusação: "Vós resistis sempre ao Espírito Santo". Portanto, são três coisas que devemos evitar em relação à Santíssima Trindade (por apropriação ao Espírito Santo) que habita em nossa alma: não extinguir (=não expulsar), não contristar e não resistir às suas inspirações.

1 - NÃO EXPULSAR A SS. TRINDADE: Quando alguém tem a infelicidade suma de cometer um pecado grave,  extingue em sua alma a SS. Trindade.  Com o pecado mortal, o pecador expulsa de si o Espírito Perfeitíssimo, Eterno, Criador e Sumo Benfeitor. O pecado mortal acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de graça. Onde há o espírito do mundo e do demônio, não pode estar o Espírito de consolação, de verdade e de pureza. Cometer um pecado mortal significa expulsar o Espírito Santo que é Deus, e introduzir em seu lugar, o espírito imundo, que é o Demônio. Nada mais horrível do que isto!!!...

2 - NÃO CONTRISTAR A SS. TRINDADE: Quem comete o pecado venial entristece e trata mal o doce Hóspede Divino. Depois do pecado mortal, o pecado venial é o maior mal sobre a face da terra. É chamado LEVE, mas em relação ao mortal, assim como dizemos que a Terra é pequena em comparação com o Sol. Facilmente entendemos que não pode ser leve o tratar mal em si mesmo o próprio Deus! Normalmente temos todo cuidado em tratar bem os hóspedes. Será que não vamos ter este cuidado justamente com o nosso Pai, Redentor e Santificador que se digna vir habitar na sua pobre criatura?! O pecado venial enfraquece a caridade; traduz uma afeição desordenada pelos bens criados; impede o progresso da alma no exercício das virtudes e a prática do bem moral; merece penas temporais. Não leva ao Inferno, mas, se não for perdoado e reparado em vida, leva ao Purgatório. O pecado venial deliberado e que fica sem arrependimento dispõe-nos pouco a pouco a cometer o pecado mortal.

3 - NÃO RESISTIR À SS. TRINDADE: Isto é, não resistir às inspirações e moções que o Hóspede Divino amorosamente nos dá, desejando operar a nossa santificação e salvação.

Os pecados que o Catecismo chama contra o Espírito Santo não têm perdão nem neste mundo e nem no outro. A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhante endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna.

PARÁBOLA:  Havia um grande e poderoso rei. Só tinha um filho que foi morto por um seu inimigo por inveja. Um dia este rei, descendo a escadaria de seu palácio, encontrou estendido no último degrau, um menino mendigo, maltrapilho, coberto de feridas purulentas. Era horrível de ver e exalava um mau cheiro horrível. O bondoso rei comoveu-se. Tomou a pobrezinho em seus braços e levou-o a seu quarto e ali começou a cuidar dele como se fosse o seu filho. Logo depois, mandou vir os melhores médicos e ele mesmo com suas próprias mãos aplicava-lhe os medicamentos. O pobrezinho ficou curado. O rei vestiu-o de seda. Chegado, aquele rapaz, aos vinte anos, o rei adotou-o como filho. Agora com toda saúde, belo como um príncipe. O rei amava-o ternamente. E assim eis aquele que fora um menino mendigo e coberto de feridas, agora é o filho do rei.

Num gesto de altíssimo amor, um dia o rei disse ao seu filho adotivo: Passarei todo meu reino para seu nome. Mas, como te amo, quero ficar junto de você no seu palácio.

Foram feitos os documentos e o rei assinou-os. Mas, não demorou muito, o filho adotivo começou a tratar mal o seu pai e benfeitor. Conversava pouco com ele, e mesmo assim não prestava muita atenção nas conversas. Não dava a mínima atenção aos conselhos do experiente e sábio rei. Estas indelicadezas e resistências foram aumentando até que um dia, o filho adotivo agarrou o rei pelo braço, lançou pela escadaria abaixo dizendo: fora daqui. E o rei expulso teve a tristeza que ver que o seu filho adotivo recebia com honras em seu palácio o assassino de seu filho verdadeiro.

Na verdade, nenhuma imaginação conseguirá pintar em parábolas a rebeldia horrível e a monstruosa ingratidão do pecador para com seu Pai do Céu!

Arrependo-me, Senhor, de todo o coração de Vos ter ofendido e ter correspondido tão mal aos Vossos numerosos benefícios. Amém!

 

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

OS NOSSOS DEVERES PARA COM O HÓSPEDE DIVINO


SENTENÇA: "Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre e por todos os séculos dos séculos. Amém!" (Doxologia dos primeiros cristãos).

REFLEXÕES: A vida cristã consiste, antes de tudo, numa união íntima, afetuosa e santificante com as três Pessoas divinas.

São três os nossos deveres para com o Hóspede Divino, que é a SS. Trindade, (mas que, por apropriação, atribui-se ao Espírito Santo).

1 - ADORAR: glorificar, bendizer e dar graças ao Hóspede divino. "Adorar, diz Bossuet, é  o reconhecermos em Deus a mais elevada soberania; e reconhecermos em nós a mais profunda dependência". De manhã rezamos: Santíssima e Augustíssima Trindade, Deus Uno em Três Pessoas; eu, pobre e miserável criatura, me prostro em vossa presença e vos adoro com a mais profunda humildade... No início e término das ações diárias devemos dizer: Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; e rezar: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo... Na oração da noite assim rezamos: "Dulcíssimo Coração de Jesus... fazei que as palpitações do meu coração sejam outros tantos louvores que ofereçais, por mim, à SS. Trindade. Fazei que o meu respirar se torne em atos de ação de graças e de afetos inflamados de amor por Vós..."

2 -  AMAR: Deve ser um amor repassado de confiança. Docemente, o nosso Pai do Céu pede este amor: "Dai-me, meu filho, o teu coração" (Prov. XXIII, 26). O nosso amor a Deus deve ser um amor de amizade: na oração conversamos com o mais fiel e generoso dos amigos; levados por este amor, abraçamos todos os interesses de Deus, procuramos Sua glória, fazemos glorificar o Seu santo nome. Deve ser um amor reconhecido, dando sempre ações de graça ao maior e mais insigne Benfeitor; um amor penitente, para expiar as nossas tão numerosas infidelidades. Enfim, o nosso amor ao Divino Hóspede, deve ser generoso, que vai até ao sacrifício, à renúncia da própria vontade, à aceitação de todas as provações.

3 -  IMITAR: Pureza de corpo e alma; e procurarmos ser santos, por que Deus é santo. É, pois, necessário purificar e adornar incessantemente um templo onde reside o próprio Deus. Jesus disse: "Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito". Deus elevou-nos à maior nobreza: ser Seus filhos, e tornou a nossa alma Sua morada. A nobreza obriga! Devemos procurar ser parecidos o mais possível com o nosso Pai do Céu. Mas como imitar a Trindade, cuja santidade é INFINITA?  Não esqueçamos que a SS. Trindade está em nossa alma, justamente para santificá-la. O Filho de Deus fez-se homem como nós, viveu a nossa vida, abraçou as nossas enfermidades, exceto o pecado e tornou-se, assim, o caminho que devemos trilhar para chegarmos ao Pai. Imitar o Filho é imitar o Pai, porque o Filho procede sempre segundo a vontade do Pai.

Mas na imitação da SS. Trindade, devemos destacar a CARIDADE FRATERNA: "Que todos sejam um, como tu, meu Pai, o és em mim e eu em ti , para que eles sejam um em nós" (Jo XVII, 21). E S. Paulo  pede a caridade mútua alegando: "Há um só Deus e Pai de todos... que atua por todas as coisas e reside em todos nós"  (Ef IV, 6).

EXEMPLO: Santa Genoveva nasceu perto de Paris e era pastorzinha desde criança. Contando sete anos, passou por lá o bispo S. Germano, e vendo-a no meio da gente, quis saber o seu nome. Ela respondeu: Chamo-me Genoveva.  S. Germano perguntou-lhe se ela amava a Jesus e Nossa Senhora. Ela respondeu: Amo a Jesus porque Ele é meu Deus, e amo a Maria porque ela é a mãe de meu Deus. Então o santo deu-lhe de presente uma cruzinha que ela levou ao pescoço toda a sua vida. Era Genoveva um anjo de pureza, paciência e caridade. Por isso o demônio, invejoso, mandou-lhe uma mulher má para roubar-lhe a inocência. Genoveva pegou rapidamente a cruzinha  e apresentou-a àquela malvada, que no mesmo instante ficou cega. Depois a mulher se arrependeu e pediu perdão a Deus e a Genoveva, que, fazendo de novo o sinal da cruz sobre a penitente, restituiu-lhe a vista do corpo e a saúde da alma.

"Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós? Amém!