quinta-feira, 29 de setembro de 2016

NEM PROSSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( III )

VIGÁRIO DE CRISTO

Autor: D. Antônio de Castro Mayer

   Vigário de Cristo. É como identificamos o Papa. Assim o definem os Concílios, como o de Florença e primeiro do Vaticano.
  
   Como Vigário de Jesus Cristo, o Papa é o chefe da Igreja. Jesus Cristo edificou sua Igreja sobre a rocha de Pedro, e o Papa é o sucessor de São Pedro no cargo de Chefe. Daí a frase "ubi Petrus ibi Ecclesia", para dizer que onde está o Papa aí está a Igreja. Eis que o primeiro Concílio do Vaticano destaca que ao Papa se deve obediência não somente nas questões de Fé e Costumes mas também nas relativas à disciplina e ao governo da Igreja, e declara que na comunhão com o Papa conservamos a união com a Igreja.

   Com efeito, o Papa é essencialmente o Vigário de Jesus Cristo. Em outras palavras, ele assume a Pessoa de Jesus Cristo. Ele faz suas vezes. Deve-se-lhe o acatamento e a obediência que se presta a Jesus Cristo, a quem ele representa. Seu poder, porém, sua jurisdição é vicária. De si, ele é de Jesus Cristo, pois, como escrevia o Papa Inocêncio III ao Patriarca de Constantinopla, em 12 de novembro de 1199, "o primeiro e precípuo fundamento da Igreja é Jesus Cristo". O Divino Salvador, no entanto, confiou seu poder a Pedro: "Como meu Pai me enviou, Eu vos envio", disse Ele aos seus Apóstolos, especialmente ao Chefe deles, São Pedro. Esta outorga foi de modo permanente, e para sempre, para que o Papa o exerça em seu lugar, fazendo-lhe as vezes, "vicens eius gerens".

   Este aspecto é essencial ao Papado. Não pode ser olvidado. Seu esquecimento pode ter nefastas conseqüências. Pode levar a pessoa a pensar que o Papa é dono da Igreja, que pode fazer o que quiser, mandar e desmandar o que melhor lhe pareça, estando os fiéis obrigados sempre a simplesmente obedecer. Refletindo um pouco, vê-se que esta concepção atribui ao Papa a onisciência e a onipotência que são atributos exclusivos de Deus. Outra coisa não faz a idolatria que transfere à criatura o que é peculiar à divindade.

   Por este motivo, o primeiro Concílio do Vaticano ao definir os poderes do Papa, tomou o cuidado de definir também sua finalidade e seus limites. Deve o Papa conservar intacta a Igreja de Cristo, através da qual o Divino Salvador torna perene sua obra de salvação. Manterá, pois, a estrutura da Santa Igreja como o Senhor a constituiu, e velará para conservar e transmitir intacta a Fé e a Moral recebida da Tradição Apostólica. Para este fim e dentro destes limites, goza o Papa da assistência divina que lhe assegura a impossibilidade de errar e desorientar os fiéis sempre que definir um ponto de Fé e Moral.

   Não é despropósito pensar que, precisamente para fixar bem o poder vicário do Papa, tenha a Providência permitido que , no trono de São Pedro, se tenham assentado indivíduos, em cuja doutrina e/ou procedimento, encontram-se pontos gravemente prejudiciais à Fé e/ou à Moral. Não ensinavam com sua autoridade suprema e definindo matéria de Fé, ou davam mau exemplo com seu modo de proceder. Explica-se assim o julgamento emitido sobre Honório I quer pelo Concílio de Constantinopla quer por São Leão II, ou seja, que ele (Honório I) "com profunda traição permitiu que se maculasse a imaculada Fé desta Igreja Apostólica". E de modo semelhante, verificaram-se fatos dolorosos na História de Igreja.

   Resistir a tais ensinamentos e maus exemplos não é recusar obediência ao Papa, ou à sua pessoa. Quem assim procede concede sua adesão ao Vigário de Jesus Cristo. E é somente como Vigário de Jesus Cristo que o Papa é dotado dos poderes de jurisdição em toda a Igreja. De onde, os Padres de Campos, ao recusar a nova Missa não estão recusando nem João Paulo II, nem a comunhão com toda a Igreja, uma vez que a nova Missa é prejudicial à Fé, pois, entre outros pontos, na sua ambigüidade, não se destaca suficientemente da heresia protestante". (Jornal Monitor Campista, 17/10/1982).

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( II )

   Os fatos comprovam que nesta crise criada pelo modernismo dentro da Igreja há, tanto para nós membros do clero como para os fiéis, um duplo escolho que ameaça a barquinha de nossas almas: o Progressismo e o Sedevacantismo.
   Que é Progressismo? É o novo nome do Modernismo, objeto de severa condenação por parte de São Pio X, na Encíclica "Pascendi Dominici Gregis". Um e outro tendem a "solapar pelos alicerces o Reino de Jesus Cristo". Por isso São Pio X os chamava de "os mais perigosos inimigos da Igreja". Não atacam de frente. Disfarçam. Habitualmente usam a baldeação ideológica inadvertida, ou seja, fazem uma lavagem cerebral mudando as idéias aos poucos sem a pessoa perceber.
   O Progressismo não nega frontalmente o dogma revelado. Age mais através dos ambientes que vai criando com imprecisões de linguagem e termos ambíguos. Seus caminhos são tortuosos. Há, no entanto, um critério para surpreendê-los, que não falha. Todas as suas imprecisões, ambigüidades, novos formulários, etc, obedecem à mesma direção. Operam no sentido de afastar os fiéis da Tradição, das fórmulas tradicionais, dos limites precisos entre a verdade e o erro, dos costumes elaborados lenta e seguramente pelos séculos de Cristianismo, de tudo enfim que indique, sem o menor perigo de engano, o Cristianismo autêntico, ortodoxo, a fidelidade a Revelação e ao Espirito de Nosso Senhor Jesus Cristo.
   Antes de ser criada a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, durante um ano, foram feitas várias reuniões, semana de estudo e retiro. Tudo para nos convencer a aceitar a Administração Apostólica. No início foi distribuída uma apostila explicando o que Roma nos oferecia e o que nós prometíamos. Eis alguns trechos: "Aceitamos do Concílio Varticano II tudo aquilo que estiver em consonância com o Magistério perene da Igreja  e sua Sagrada Tradição: "eodem sensu eademque sententia". Reservamo-nos o direito de fazer críticas construtivas ao que a eles se opõem, empenhando-nos pela sua correção. Conservamos com exclusividade a Missa Tradicional. Aceitamos que a Missa segundo o Novus Ordo seja válida, se celebrada corretamente e com intenção de oferecer o verdadeiro sacrifício da Missa. Reservamo-nos o direito de fazer observações e críticas respeitosas e construtivas à Reforma Litúrgica nas suas ambigüidades, empenhando-nos pela sua correção, na linha do Breve Exame Crítico dos Cardeais Otavianni e Bacci e das recentes críticas feitas pelo Cardeal Joseph Ratzinger e pelo Cardeal Ferdinando Antonelli. (Nota: O Cardeal Castrillon Hoyos disse que tudo isso nos seria concedido nas expressões do cânon 212). Continuando os trechos da apostila: "Atendendo ao desejo do Santo Padre, desejamos ajudá-lo a combater o modernismo, o liberalismo, e a maçonaria dentro da Igreja. Reconhecendo que no calor da batalha pela verdade católica, certas críticas foram demasiado ácidas e pessoais, comprometemo-nos doravante a abaixar o tom das críticas, já que serão feitas em família, evitando ataques pessoais e permanecendo no campo doutrinário, segundo a sentença de Santo Agostinho: "In principiis unitas, in dubiis libertas, in omnibus charitas". FINALIZANDO: ( Última garantia): Não há o que temer. Se de tudo não der certo o que foi proposto ou se fizerem exigências fora do que foi contratado, nós teremos a liberdade de convocar a imprensa, declarando que fomos traídos, e nos retirar e voltar à situação em que estamos atualmente".
   Pelo que sei, e a bem da verdade e da justiça, devo declarar que a Santa Sé jamais fez a mínima exigência fora do que foi contratado com os padres da União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney. Vira progrssista quem quer; e vira sedevacantista quem quer, pelo menos até ao presente e dentro da Administração Apostólica São João Batista Maria Vianney. 

   Que é Sedevacantismo? Os sedevacantistas são de várias gamas: desde os mais extremistas até aos mais moderados. Sedevacantistas são aqueles que levados talvez até pelo zelo da verdade, e não podendo conceber que papas favoreçam a heresia, classificam esses desvios doutrinários como heresias formais e concluem que estes papas (inclusive o atual) perderam os seus cargos. Os mais extremistas acham que se deva eleger outro Papa e organizar outra hierarquia. E já o fizeram. Dizem que já foram eleitos vários papas. "Horribile dictu!!! Outros acham que a Igreja visível acabou. ( E isto já é heresia!). Alguns acham que a Igreja está sem Papa desde Pio XII. Dividem porém, sobre a causa exata e a data em que tal coisa aconteceu.
   Sobre este assunto D. Marcel Lefebvre dizia: "Prefiro partir do princípio de que tem que se defender nossa fé. Este é o nosso dever. Aqui não há lugar para dúvida alguma. Conhecemos a nossa fé. Se alguém ataca nossa fé, dizemos: não! Mas daqui a dizer em seguida que, porque alguém ataca nossa fé, é herético, logo não é mais autoridade, logo seus atos não têm valor... Atenção, atenção, atenção!... Não nos metamos em um círculo infernal do qual não saberemos como sair. Nesta atitude existe um verdadeiro perigo de cisma".
    Na próxima postagem trancreveremos o artigo de D. Antônio de Castro Mayer em que nos ensinou como não devemos ser nem progressistas nem sedevacantistas: "VIGÁRIO DE CRISITO".

NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO ( I )

                
    Hodiernamente temos que falar e escrever sobre doutrina cientes de estarmos numa crise dentro da Igreja. Olvidá-lo seria correr o risco de açoitar o ar. Nem muito menos podemos nos esquecer de que a Igreja é divina.
   Pois bem! Em época de crise há sempre muitos perigos e quase sempre o perigo "dos extremos". A História da Igreja no-lo ensina. Caminhamos como sobre uma ponte estreita sem corrimão, num real perigo de cairmos tanto para um lado como para o outro. A prudência manda que em tal conjuntura, caminhemos no meio e com pé firme. Não quero com isto, de modo algum, dizer que se deva ficar sobre o muro. Não, absolutamente não!
   Quais são estes dois extremos que devemos evitar a todo custo? O Progressismo e o Sedevacantismo. E por incrível que pareça, há um caminho comum que leva a ambos: uma idéia errônea da Infalibilidade Pontifícia. Uma infalibilidade que não é a que foi definida pelo Concílio Vaticano I e por Pio IX. E só esta é que vale. Excogitar outra ou outras no intuito de querer salvar opiniões próprias, não é válido e nem legítimo.
   Há aqueles teólogos que parecem pretender corrigir um Concílio Ecumênico Dogmático. Querem ampliar os contornos definidos pelo Concílio Vaticano I. Excogitam distinções que não encontramos nas Atas deste Concílio nem nos teólogos tradicionais que as comentam. Não confiando na minha memória, consultei os  cinco Manuais de Teologia Dogmática que possuo: além de  outros manuais menores em que estudei desde o Seminário Menor.
   Há um axioma que diz: "Contra fatos não há argumentos". Assim,  há  fatos inegáveis de leis eclesiásticas que deram azo, espaço e mesmo motivo para abusos prejudiciais à almas.  Por exemplo, a reforma litúrgica post-conciliar estabeleceu a Comunhão na mão (à escolha do comungante); a existência de ministros e ministras extraordinários da Eucaristia. Já mostramos em post anterior que a comunhão na mão favorece as profanações e consequentemente prejudica a fé dos fiéis. Os ministros e ministras da Eucaristia que dão comunhão aos doentes, e ás vezes, durante muito tempo, sem o padre atender as confissões. Já imaginaram quantos sacrilégios isto pode causar?!  Quanto a Missa quero citar o então cardeal Ratzinger, hoje Bispo Emérito de Roma: "Se bem que haja numerosos motivos que possam ter levado um grande número de fiéis a encontrar refúgio na liturgia tradicional, o mais importante dentre estes motivos é que eles aí encontram preservada a dignidade do sagrado". (sublinhados nossos). No meu bestunto entendo assim: Os fiéis tradicionalistas têm motivo para fugir da Liturgia nova porque esta não oferece segurança para se conservar a dignidade do sagrado, principalmente na Santa Missa, pois ela é o que a Igreja tem de mais sagrado. Ratzinger, quando ainda cardeal, disse que era necessário fazer uma "reforma da reforma". Para quem quer entender é bem claro. Mas ele renunciou, e creio que só no dia do Juízo Final saberemos o real "porque". 
   Diante de fatos inegáveis de leis eclesiásticas que dão azo, espaço e mesmo motivos para abusos prejudiciais às almas, alguns concluem que o Papa não é papa. Caem no Sedevacantismo. Isto porque não admitem, que fora do campo da Infalibilidade um papa  possa prejudicar as almas com leis ambíguas.
   Outros, pelo mesmo motivo, ou seja, o papa não pode errar nunca em se tratando de leis eclesiásticas porque, além da infalibilidade positiva, existe uma outra chamada "negativa", aliás mais abrangente do que a própria infalibilidade absoluta e positiva. Então, temos que aceitar tudo de olhos fechados. E muitos caem no Progressismo. Existe sim a infalibilidade "passiva", ou seja, os fiéis, devidamente instruídos pelo Magistério Vivo, Perene e Infalível, também não erram, seguindo fielmente estes ensinamentos. 
   Como eu disse no início, estamos em tempo de crise na Igreja. Em tempos normais não seriam necessárias estas advertências.
   Mas o próprio Código das leis eclesiásticas, isto é, o Código de Direito Canônico, cânon 212 § 3 assim reza: "Os fiéis, segundo a ciência , a competência e a proeminência de que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas."
  Aqui, reconhece-se o direito à liberdade de expressão e de opinião pública dentro da Igreja acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja. Não há esta liberdade quando se trata de dogmas. Fora do campo da Infalibilidade há este direito, mas deve ser exercido com toda reverência devida aos Pastores.
   Caríssimos e amados leitores, é obvio que não podemos aceitar aquela teoria dos Galicanos segundo a qual a Infalibilidade é dada à Sé Romana e não a pessoa do Papa, de tal modo que, se um papa errar em questão de fé e moral, a Providência Divina daria um dia a um outro papa a visão infalível para corrigir o que o antecessor houvesse ensinado de errado contra a fé e/ou a moral.
   Porém, nos casos em que não entra a Infalibilidade, podemos sim dizer que a Providência Divina não deixará de enviar um papa que corrija o que estiver de alguma maneira prejudicando as almas. Assim entendemos as crises que sofre a Igreja, como eclipses que passam.
   Caríssimos e amados fiéis, nos casos em que não entra a Infalibilidade, a Igreja pode, inclusive mudar de rumo. Eis um exemplo: O Papa Pio VI em 1794 condenou os jansenistas do Sínodo de Pistóia que negavam a existência do Limbo das crianças: "É falsa, temerária e injuriosa às escolas católicas a doutrina que rejeita, como se fosse fábula pelagiana, o lugar inferior (pelos fiéis geralmente chamado limbo das crianças), onde as almas dos que morrem apenas com o pecado original são punidas pela pena do detrimento sem algum tormento do fogo".
  A Santa Igreja nos seus catecismos ensinava sempre a existência do Limbo das crianças. Mas nunca definiu como dogma. Por isso Pio VI qualifica a opinião dos jansenistas como "falsa", "temerária" e "injuriosa". Se se tratasse de dogma o papa teria dito que a proposição que nega o Limbo seria "herética", e teria lançado o anátema contra seus defensores. Aqui se trata de uma conclusão teológica e que entra na alçada das leis eclesiásticas, por causa do batismo das crianças.
   Pois bem! Hoje a linguagem do Catecismo da Igreja Católica é bem diferente. Diz no nº 1261:"Quanto às crianças mortas sem o Batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericórdia de Deus(...) A ternura de Jesus para as crianças, que o levou a dizer: Deixai as crianças virem  mim, não as impeçais" (Mc 10,14), nos permitem esperar que haja um caminho de salvação para as crianças mortas sem Batismo".
  Há pouco tempo alguns teólogos quiseram passar na frente do Papa e foram concluindo que agora a Igreja não aceitava mais a existência do Limbo das crianças. Logo o Santo Padre o Papa Bento XVI esclareceu que a Igreja ainda não definiu nada a respeito. Mister se faz ainda muito estudo, disse ele. E muita gente já ia concluindo que não mais era necessário se preocupar com o Batismo das crianças.
   O mesmo Papa Pio VI condenou os mesmos jansenistas de Pistóia mas agora sobre questão de leis disciplinares, (que diga-se de passagem, também ainda não foi definido como dogma) diz Pio VI: "Como se a Igreja que é governada pelo Espírito de Deus, pudesse estabelecer uma disciplina não somente inútil e mais onerosa do que a liberdade cristã pode tolerar, mas que seria ainda perigosa, nociva, própria a induzir à superstição ou ao materialismo: proposição que ele condenou como "falsa, temerária, escandalosa, perniciosa, ofensiva aos ouvidos pios, injuriosa, pelo menos errônea" (Conf. Denzinger 1578).
   D. Antônio de Castro Mayer quando estava à frente da Diocese de Campos, escreveu ao Santo Padre o Papa Paulo VI dando todos os argumentos e mostrando as falhas e ambigüidades da Missa Nova, falhas e ambigüidades estas que a tornavam prejudicial à almas. Pois bem! Se fosse algo dogmático, o Santo Padre Paulo VI teria que exigir uma retratação e caso não fosse feita, teria excomungado a D. Antônio de Castro Mayer. Mas a Santa Sé não o fez, não respondeu aos argumentos apresentados. D. Mayer continuou na Diocese de Campos.
   Pelo que eu sei, posso até estar enganado, a Santa Sé não censurou aqueles que criticam a lei eclesiástica da Comunhão na mão. Aliás o que sabemos é que o Santo Padre (então Bento XVI) com muita prudência vinha agindo no sentido de voltar ao costume tradicional que desperta a piedade e a fé e não dá espaço à profanações. Até hoje creio que Mons. Gherardini não tenha sido censurado pelas críticas feitas ao Concílio Vaticano II etc. etc.
    Um outro exemplo muito esclarecedor: Santo Tomás de Aquino disse na Suma Teológica que as palavras da Consagração, por sua própria natureza, devem ser ditas em voz baixa. O Concílio de Trento anatematizou os que condenam o rito que manda dizer em voz baixa as palavras da Consagração (Ses. 22,cânon 9; cf. Denzinger-Sch. 1759). Pois bem!  O Novo "Ordo" da Missa afirma justamente o contrário, ou seja, que as palavras da Consagração, por sua própria natureza (grifo nosso), devem ser ditas em voz clara e audível (Rubrica nº 91). Devemos observar em primeiro lugar que pela Filosofia aprende-se que, quando se diz "por sua própria natureza" a coisa vale para sempre e em toda parte. O que é exigido pela própria natureza de uma coisa, é independente de tempo e espaço. E não só isto. Logo perguntamos como pode a Igreja ser sempre infalível nas suas leis se hoje adota o que ontem anatematizou. E recebemos interiormente a resposta: está provado que aí não entrou infalibilidade, mas, sendo Divina, a Igreja um dia voltará inteiramente ao rito que nunca foi abrogado e nunca poderá sê-lo. Esta nova liturgia é apenas uma eclipse que passa. 
   Mas tudo que Nosso Senhor permite é para daí se tirar algum bem. Qual bem? Um amor sempre maior a Santa Missa de Sempre. A Igreja se empenhar mais em fazer o que mandou o Santo Concílio de Trento: "Conservando o rito aprovado em toda parte de cada uma das igrejas e da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas, e para que as ovelhas de Cristo não sintam fome e não suceda que os pequeninos peçam pão e não haja quem lho reparta (Lam. de Jeremias 4, 4), manda o santo Concílio aos pastores e a cada um dos que têm cura de almas, que durante a celebração da Missa expliquem freqüentes vezes por si ou por outros algo sobre o que se lê na Missa, e falem sobre algum mistério deste santíssimo sacrifício, principalmente nos domingos e festas". 

RESUMO
   Observações: 1ª -  Infalibilidade significa segurança de não haver erro nem imprudência. Isto dentro das condições definidas pela Igreja no Concílio Vaticano I.
                           2ª -  A Igreja nunca definiu que fora destas condições ela não possa errar. Normalmente não erra. Mas, sobretudo em tempo de crise, podem acontecer erros  e imprudências. E nestes casos a bússola é a Sagrada Tradição.
                            3ª - Nenhum teólogo tem direito de acrescentar, diminuir ou modificar o que foi definido pela Santa Madre Igreja.
                             4ª - Nas coisas que a Igreja ainda não definiu há lugar para os teólogos discutirem estas questões abertas, mas não podem impor sua opinião. A Igreja é a única que pode dar a palavra final. Fá-lo quando define, e aí toda língua se cale. "Roma locuta, causa finita".
                              5ª - Seguindo estas normas não há perigo de se cair nem para um lado nem para o outro: NEM PROGRESSISMO NEM SEDEVACANTISMO. Este será o título do próximo post, se Deus quiser.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A TRADIÇÃO


LEITURA ESPIRITUAL 

"Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições, que aprendestes, ou por nossas palavras ou por nossa carta" (II Tess. II, 14).



   São Paulo atribui o mesmo valor ao que ensinou por escrito e ao que ensinou oralmente. E a Santa Madre Igreja, baseando-se principalmente neste texto do Apóstolo, atribui o mesmo valor ao que recebeu oralmente por uma sucessão contínua, assistida pelo Divino Espírito Santo, e ao que recebeu mediante a Sagrada Escritura divinamente inspirada.

   São duas, portanto, as fontes da Revelação: a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura. A Sagrada Tradição compreende aquelas verdades reveladas que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou e que os Apóstolos pregaram sem consigná-las por escrito. O mesmo Espírito Santo, que inspirou os santos escritores a escreverem o que está na Escritura Sagrada, também assistiu com seu poder divino, para que se conservasse intacto e fielmente fosse passado de século em século, como de mão em mão, tudo o mais que Jesus Cristo e os Apóstolos ensinaram. Diz o mesmo São Paulo ao Bispo São Timóteo: "Os ensinos que de mim recebeste, em presença de muitas testemunhas, confia-os a homens fiéis, que os possam comunicar a outros" (II Tim., II, 2). 

   "Os irmãos separados", "os evangélicos", "os crentes", ou melhor, sem usar aspas, os protestantes recusam toda Tradição divina distinta e separada da Escritura Sagrada ou Bíblia. Segundo o espírito do Concílio Vaticano II, há de se ressaltar, disse Sua Santidade, o Papa João Paulo II: "o empenho que a Igreja deve dedicar ao ecumenismo" (Cf. Const. "Sacrae Disciplinae Legis" de 1983). Por isso no concílio, o esquema sobre as fontes da Revelação: a Sagrada Escritura e a Tradição, foi alvo de acirrado debate entre grupos conservadores e grupos progressistas. Daí entendemos porque o Cardeal progressista Frings, condenou o esquema feito pelo Cardeal conservador Ottaviani, como "ofensivo para com os irmãos separados". 

   Sabemos, porém, que a Santa Igreja, no Concílio de Trento e depois no Concílio Vaticano I, já havia definido como artigo de fé que a Sagrada Tradição é fonte da revelação distinta da Escritura Sagrada, merecedora, porém, da mesma fé. Hoje, a Sagrada Tradição está consignada principalmente nos Símbolos de fé, nos Escritos dos Santos Padres, nas decisões dos Concílios dogmáticos e na Liturgia da Igreja. Só para dar um exemplo desta última: nos missais de todos os tempos houve preces pelos defuntos na missa. É um dos argumentos na Teologia para provar a existência do Purgatório. 

   Não devemos ignorar que a Sagrada Tradição é anterior à Escritura Sagrada. No Antigo Testamento, desde a origem do gênero humano até Moisés, a revelação dada por primeiro por Deus, fora transmitida unicamente pela tradição oral, pois não havia ainda nenhuma Escritura. No Novo Testamento, a Revelação foi feita pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, o Divino Mestre. Ele, porém, não escreveu nada; e dissera aos Apóstolos: "Ide, ensinai a todas as nações" (Mat., XXVIII, 19); "Pondo-vos a caminho, pregai, dizendo: Está próximo o reino dos céus" (Mat., X, 7). Ele não disse: "Ide, escrevei o que vos ensinei e sirvam estes vossos escritos para instruir aos mais". Donde, entendemos que nem todos os Apóstolos escreveram, e, no entanto cumpriram perfeitamente a ordem dada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Se Jesus tivesse dado ordem de ESCREVER, com certeza todos teriam escrito. Na verdade, foi a catequese o primeiro e principal modo de ensino empregado pelos Apóstolos. Apenas em circunstâncias excepcionais, enviaram às igrejas que tinham fundado, instruções por escrito. O próprio Evangelho, era espalhado, de primeiro, só por pregação. São Paulo diz que a fé vem pelo ouvido, isto é, pela audição da pregação. 

   Outra coisa que devemos saber é que o domínio da Sagrada Tradição é mais extenso que o da Escritura Sagrada. Realmente, se Jesus não escreveu e nem mandou escrever, é compreensível que a Tradição oral tenha um conteúdo muito maior que o da Escritura. São João ao terminar seu Evangelho, adverte: "Muitas outras coisas há que fez Jesus, as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever" (Jo., XXI, 25). É evidente que aqui o Apóstolo do amor, emprega uma hipérbole, É um modo de dizer muito expressivo que ele usa para frisar que, para narrar todos os sermões e milagres que Jesus fez, haveria necessidade de escrever muitos volumes. E São Lucas nos mostra Jesus dando instruções especiais aos Apóstolos nos dias que mediaram entre a Ressurreição e a Ascensão: "Aparecendo-lhes por quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus" (Atos, I, 3). Quais foram estas instruções a Bíblia não nos revela; mas com elas estavam os Apóstolos completando os seus conhecimentos para ensinar ORALMENTE aos fiéis. 

    Vinde Espírito Santo, iluminai a nossa inteligência! Amém!

domingo, 25 de setembro de 2016

AS SAGRADAS ESCRITURAS OU BÍBLIA


LEITURA ESPIRITUAL - Dia da Biblia


"Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a obra boa". (II Tim., III, 16 e 17).


   Aqui o Apóstolo São Paulo faz um justo e belíssimo elogio da Sagrada Escritura divinamente inspirada. Além de indicar sua inspiração divina, diz que é útil para: ensinar as verdades da fé; refutar os erros contrários a estas verdades santas; combater e reformar os maus costumes; dirigir as almas em todos os caminhos da justiça e da santidade. Estes são, como observa Santo Tomás, os quatro efeitos produzidos pelo estudo da Sagrada Escritura. Na verdade, um homem não tem direito de se impor a outro homem. Só Deus domina os espíritos e os corações.

   Um dos benefícios que Tobias reconhecia haver recebido do Anjo São Rafael, era restituir-lhe a vista; quanto maior benefício é haver-nos, não um Anjo, mas o Espírito Santo aberto os olhos, não do corpo, mas da alma, para vermos a luz, não a material do sol, mas a espiritual das doutrinas de nossa santa Fé Católica!

   Caríssimos, grassa no mundo uma conspiração contra a Verdade e o Decálogo. A iniquidade multiplica-se sobre a face da terra. A fé extingue-se nos corações. Estarrecidos e tristes, assistimos a destruição da família cristã. E, neste afã iníquo em aniquilar a célula da sociedade,  não bastassem os comunistas e maçons, bispos progressistas, sob a capa de misericórdia, parecem empenhados em tranquilizar as consciências no pecado, ao invés de o tirar delas como fizera o Cordeiro de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. 

   Para obstar a tantos males só a palavra de Deus! Pois diz ainda o Apóstolo na Epístola aos Hebreus, IV, 12: "A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que toda a espada de dois gumes; chega até à separação da alma e do espírito, das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração". Por isso o escritor (ou pregador) que tem por base a Palavra de Deus, apóia-se em terreno sólido. Seu escrito (ou pregação) não é feito "só de palavras, como diz São Paulo, mas da virtude do Espírito Santo e da abundante plenitude dos seus dons".

   Lemos no antigo Testamento que os Israelitas ouvindo a leitura do livro de Baruc, choravam e oravam; oxalá que os povos modernos, convencidos e convertidos, chorem igualmente sobre as suas faltas e orem, ao lerem a Palavra de Deus, e sobre ela refletirem!

   Não quero terminar sem antes trazer à lembrança aquela cena comovente de um São Paulo apresentando-se diante de Félix. Assim, com eloquência, a descreve o cardeal Gibbons:  "O Apóstolo, carregado de cadeias, de rosto emagrecido pelas privações sofridas durante dois anos na prisão, de pé, em face dum governador escravo duma mulher adúltera, levanta as mãos ligadas pelos grilhões e prega a justiça, a castidade, o juízo derradeiro. Félix perturba-se, sente o remorso duma consciência culpada e tem pressa em sair do tribunal. Tinha razão de sobra para temer: a justiça, desconhecia-a; a castidade, havia-a ultrajado; e as vinganças divinas, devia receá-las". (Cf. Atos, XXIV, 24 e 25). Será possível pintar com mais relevo o ascendente da inocência em ferros sobre a corrupção coroada? Caríssimos, que tocante exortação para o ministro de Deus que tenha de denunciar a iniquidade e o vício!

   Para empregar uma comparação feita pelo Cardeal Maffi:"Náufrago no mar tempestuoso, o pobre Camões com uma das mãos batia as ondas e com a outra levantava fora d'água o manuscrito dos Lusíadas que o haviam de imortalizar". E fazendo minha a sua aplicação: Sobre as ondas ameaçadoras e lodosas dos pecados  do mundo moderno está a palavra, não de um simples mortal, mas do Altíssimo, palavra esta que elevarei pelo alto. Ela será minha guia, minha força, minha esperança;  e, oxalá para muitos e muitos seja salvação. Amém! 

sábado, 24 de setembro de 2016

UM HEDONISMO ANTICRISTÃO

 
   O hedonismo é o desvio  moral que faz do prazer a finalidade da vida e o elemento último a procurar nos atos dela.

   O Papa Pio XII de feliz memória, na alocução que fez sobre o apostolado das parteiras, fala sobre isto. É o que aqui transcreveremos:

   "Ai! vagas incessantes de hedonismo invadem o mundo e ameaçam submergir na maré montante dos pensamentos, dos desejos e dos atos toda a vida conjugal, não sem criar sérios perigos e grave dano para a função primária dos esposos.

   Esse hedonismo anticristão, sobejas vezes as pessoas não se envergonham de erigi-lo em doutrina, inculcando o desejo de tornar sempre mais intenso o gozo na preparação e na realização da união conjugal, como se, nas relações conjugais, toda a lei moral se reduzisse ao cumprimento regular desse ato, e como se tudo o mais, de qualquer maneira que o façam, se achasse justificado pela efusão do amor mútuo, santificado pelo sacramento do Matrimônio, digno de louvor e de recompensa perante Deus e perante a consciência. Com a dignidade do homem e com a dignidade do cristão, que põem um freio nos excessos da sensualidade, com isto ninguém se preocupa!

   Pois bem! não. A gravidade e a santidade da lei moral cristã não admite uma satisfação desenfreada do instinto sexual, nem essa tendência exclusiva ao prazer e ao gozo; ela não permite ao homem racional deixar-se dominar até esse ponto, nem no que diz respeito à substância nem no que concerne às circunstâncias do ato. 

   Alguns quereriam sustentar que a felicidade no casamento está na razão direta do gozo recíproco nas relações conjugais. Não; pelo contrário, a felicidade no casamento está na razão direta do respeito mútuo entre os esposos, mesmo nas suas relações íntimas; não porque eles julguem imoral e repilam aquilo que a natureza oferece e o que o Criador deu, mas porque esse respeito e a estima mútua que ele gera são um dos elementos mais sólidos de um amor puro e por isto mesmo, tanto mais terno. 

   (,,,) Fazei ver como a natureza deu, é verdade, o desejo instintivo do gozo e o aprova nas núpcias legítimas, mas não como fim em si, e sim, em suma, para o serviço da vida. Bani da vossa mente esse culto do prazer, e fazei como melhor puderdes para impedir a difusão de uma literatura que se julga obrigada a descrever em todas as suas minúcias as intimidades da vida conjugal, a pretexto de instruir, de dirigir e de tranquilizar. Para tranquilizar as consciências timoratas dos esposos, basta, em geral, bom senso, instinto natural e uma breve instrução sobre as claras e simples máximas da lei moral cristã. Se, em algumas circunstâncias especiais, uma noiva ou uma esposa novata precisasse de amplas informações sobre algum ponto particular, pertencer-vos-ia dar-lhes delicadamente uma explicação conforme à lei natural e à sã consciência cristã. 

   Este nosso ensino nada tem a ver com o maniqueísmo e com o jansenismo, como alguns querem fazer crer para se justificarem. Ele é pura e simplesmente uma defesa da honra do casamento cristão e da dignidade pessoal dos esposos. 

  NB:   Com certeza, não faltará quem me chame de retrógrado por transcrever estas normas. Mas respondo que, se elas tivessem sido observadas não estaríamos com tantos casamentos desfeitos. Porque muitos casamentos são feitos colocando Deus fora de si mesmos e entregando-se às paixões como o cavalo e o jumento. É o que aconteceu com os sete que sucessivamente se casaram com Sara, e o demônio Asmodeu matou-os no primeiro dia, como lemos na Bíblia. Leiam Tobias VI, 16 e 17. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A CONSCIÊNCIA CRISTÃ


"Tudo o que não é segundo a fé é pecado" (Rom. XIV, 23).

Todo ato cristão  parte do íntimo da alma unida a Deus em conformidade com a Verdade que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim os dois conceitos FÉ e CONSCIÊNCIA CRISTÃ, coincidem perfeitamente. É, pois, a adesão interior a Jesus Cristo que faz nossa fé e nossa consciência. Portanto, quando o cristão unido interiormente a Jesus Cristo, age em desacordo com essa luz divina, peca. É neste sentido que S. Paulo diz: "Tudo o que não é segundo a fé, é pecado". São João Crisóstomo, com todos os intérpretes gregos, ensina que no texto em apreço, "FÉ" quer dizer "CONSCIÊNCIA".

Caríssimos, Nosso Senhor Jesus fez sua Igreja com sua hierarquia para ser a luz do mundo e o sal da terra. O Cristianismo é, por essência, uma doutrina sobrenatural da salvação. Seu fim é ensinar ao homem a sua elevação a um destino superior e subministrar-lhe os meios proporcionados à sua consecução. Mas a graça supõe a natureza. É a natureza do homem que é elevada à ordem sobrenatural. É sobre a natureza reta ou retificada que ele poderá realizar a sua missão sobrenaturalizadora. A moral humana e o direito natural só podem desenvolver-se e formular-se em corpo de doutrina pela Santa Madre Igreja. Por isso, onde e na medida em que o racionalismo laicista ou o materialismo ateu tentam banir a doutrina católica, renascem os ídolos pagãos com as suas servidões humilhantes e a pessoa perde sua dignidade. Enquanto os instintos cegos e as paixões indisciplinadas, onde a impureza, a ambição e o orgulho multiplicam os erros e as desordens, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo será o único meio para difundir claridades para o verdadeiro progresso aqui e máxime para as vias que conduzem à Eternidade Feliz. A Igreja de Nosso Senhor Jesus esclarece as inteligências e possui o segredo de energias sobrenaturais capazes de fortalecer a vontade. É ela, e somente ela, que plasma e ilumina as consciências tornando-as certas, retas e delicadas. Sua ação é interior, profunda e eficaz. Na prática do bem a consciência apura-se numa delicadeza e sinceridade que deve ter por testemunha o olhar de Deus. O amor de Jesus Cristo, modelo de perfeição humano-divina, deve introduzir no dinamismo da vida moral dos verdadeiros católicos uma força misteriosa de dedicação e generosidade, chegando mesmo ao heroísmo do martírio. É o fruto da consciência bem formada, é o exercício da virtude exaltada até à santidade.

Mensageira autorizada da verdade e do bem, a Igreja não poderá jamais deixar de testemunhar a verdade de Jesus, assim como jamais poderá eximir-se de ligar as consciências a esta Verdade, sem que pretenda com isso, é óbvio, violentá-las. O que ela quer é a sua adesão não puramente exterior, mas interior. Quando esta adesão interior lhe é resolutamente recusada, a Igreja não força, mas não pode senão implorar a misericórdia divina que converta os recalcitrantes. Nunca será misericórdia, abraçar o pecador com o pecado e tudo, no caso de o pecador se recusar a voltar atrás e se converter. A Igreja, a exemplo do Divino Mestre, é missionária, e deve ir à procura do pecador para o converter e não para falsear sua consciência no afã de tranquilizá-la no erro e no pecado. Isto é, sim, monstruosa impiedade: enganar as almas com uma paz que não é a de Jesus Cristo, mas a do mundo.
Procurar tirar os pecados das consciências não é fanatismo nem dureza de coração; é simplesmente preocupação de sinceridade e de retidão interior. A Igreja não pode tolerar, nem tem mesmo o direito de fazê-lo, que no número dos seus membros se encontrem católicos que só o sejam de nome. A Igreja Católica, deve ser por excelência, a preservadora e impulsora da moralidade humana. Deve ser o sal da terra para, dando gosto pelas coisas de Deus, preservar a almas e a sociedade da corrupção, seja ela lá de que espécie for. Só o Cristianismo pode ser escola de santos. A graça supõe a natureza, mas uma natureza reta ou retificada. Não será bom católico quem não começar por ser homem honesto.

A Igreja considerou sempre como parte de sua missão divina, elevar e sanear o ambiente moral da família. Se é verdade que, sendo a consciência a regra imediata que se deve seguir, nunca será lícito alguém ir contra ela ainda que errônea, não é menos verdade que a intenção de conformar os nossos atos com a regra absoluta, que é a condição essencial do seu valor moral, supõe necessariamente o desejo e a intenção eficaz de a conhecer o mais exatamente possível. Eis porque o erro e a ignorância em semelhante matéria são imputáveis quando provêm da negligência em se instruir ou da prática continuada do mal, que acabou por obscurecer ou falsear a consciência. Portanto, não poderia ser maior a impiedade, por parte de alguém da hierarquia eclesiástica ser o primeiro a exortar a alguém que esteja  procurando esclarecimento, a seguir em frente com sua consciência, ainda que clara e gravemente errônea. Seria a mãe dar uma serpente ao filho que lhe pedisse um peixe; dar uma pedra em lugar dum pão; e pior ainda, dar ao filho doente, em vez de remédio, veneno.
Caríssimos, na religião do homem que hoje se procura instaurar, até quanto ao SER MORAL o homem é deus para si mesmo. Nestes tempos calamitosos e faltos de fé, geralmente não se leva mais em conta a LEI de DEUS; já em muitos países são aprovadas leis contra o Decálogo e até contra a natureza, leis nela já insculpidas por Deus desde à criação.  E  já foram aprovados por lei,  o divórcio, o aborto, a sodomia, pecados que bradam aos céus exigindo vingança. Não poderia seria maior o falseamento das consciências! As novas gerações acharão natural o que na verdade são monstruosos desrespeitos a Deus. Na míngua de sacerdotes que orientem as almas na verdade e no verdadeiro amor e adoração ao Criador, o mundo caminha no sentido de adorar as criaturas. 

Feita esta breve exposição, torna-se mais fácil compreender o porquê desta crise atual, crise esta que se estende a todos os campos, desde o religioso até ao econômico. É que o sal perdeu a sua força e não presta para outra coisa senão para ser jogado fora e pisado pelos homens. Apagou-se, ou quase, a luz da fé, a doutrina do Divino Mestre é substituída por novidades fabricadas ao sabor do mundo.
A verdadeira Moral, é substituída por uma NOVA: é a Moral de Situação.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A ORAÇÃO VOCAL


"É preciso orar sempre, e nunca deixar de o fazer" (S. Lucas XVIII, 1).

Deus é o manancial único e inesgotável de todos os bens. Ele mesmo se chama "Omne Bonum", o "Bem Total". Sendo a plenitude de todos os bens, de nada, de ninguém precisa. A criatura, ao invés, por si mesma não tendo nada, só pode viver do que recebe, o que faz dizer a Santo Agostinho que somos os mendigos de Deus. Por isso devemos continuamente bater à porta do Pai das misericórdias para Lhe pedir o pão de cada dia, isto é, tudo o que precisamos na ordem temporal e na espiritual. A oração é, pois, a chave dos tesouros, dos auxílios divinos, o canal das graças e, conseguintemente, o grande meio de salvação.

Mas o que é oração? Eis a definição dada pelo grande teólogo Tanquerey: "Elevação do nosso espírito a Deus para Lhe prestar nossos deveres e Lhe pedir suas graças a fim de nos tornar melhores para Sua glória". Explicando os termos desta definição: A palavra ELEVAÇÃO é uma metáfora, indicando o esforço que fazemos para nos desatar das criaturas e de nós mesmos, para pensar em Deus, que não só nos envolve por todas as partes mas reside no mais íntimo da alma. Esta elevação se chama conversa, colóquio, porque a oração, quer seja adoração, quer pedido, chama uma resposta de Deus e supõe assim uma entrevista com Ele.

Nesta entrevista, nosso primeiro ato deve ser evidentemente prestar a Deus nossos deveres de religião, como, quando se faz uma petição a uma pessoa, se começa pelo dever elementar de cumprimentá-la. Muitos o esquecem e é uma das razões pelas quais seus requerimentos ficam às vezes sem despacho. E mesmo quando pedimos graças de santificação e de salvação, não devemos esquecer que o fim principal deve ser a glória de Deus; daí as últimas palavras de nossa definição: "para se tornar melhor para Sua glória".

A oração é necessária para a salvação e vamos demonstrar que se trata de uma necessidade absoluta. É mister que tenhamos uma profunda, forte e eficaz convicção desta verdade. Segundo Santo Afonso Maria de Ligório, a oração é o grande meio de salvação, de tal modo que chega a dizer: "Quem reza se salva; e quem não reza se condena".

A necessidade da oração para se alcançar a salvação prova-se pelas palavras e os exemplos de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Apóstolos e dos Santos:

1 - NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. Não cessa de recomendar a oração de modo urgente. "Vigiai e orai para que não entreis em tentação" (S. Mat. XXVI, 41); "Vigiai, pois, orando sem cessar" (S. Luc. XXI, 36); "É preciso orar sempre, e nunca deixar de o fazer" (S. Luc. XVIII, 1). Vai até ensinar-nos o que devemos pedir naquela oração que chamamos dominical e que devemos sempre trazer em nossos lábios: "Vós, pois, orai assim: Pai Nosso..." (S. Mat. VI, 9-13). À autoridade de sua palavra, Jesus Cristo acrescenta o peso de seu exemplo. A oração era contínua em sua alma, mas querendo dar aos seus discípulos testemunhos exteriores, rezava em toda parte: no Templo, em casa, em terra, no mar. Procurava a solidão, subia a montanha para rezar como que mais perto do céu, e às vezes passava a noite toda em oração: "Exiit in montem orare et erat pernoctans in oratione Dei", "Retirou-se para o monte a orar e estava passando toda a noite em oração a Deus" (S. Luc. VI, 12).

2 - OS APÓSTOLOS. São Paulo reproduz as insistências e os exemplos do divino Mestre: "Perseverai na oração" (Col. IV, 2); "Orai sem cessar" (1 Tess. V, 17). Do mesmo modo falam os outros apóstolos: "Vigiai nas orações" (1 S. Pedro IV, 7). "Nós, porém, ocupar-nos-emos totalmente na oração e no ministério da palavra" (Atos VI, 4).

3 - OS SANTOS. A oração foi sempre a ocupação principal dos Santos. A Igreja no-los representa quase sempre na atitude de oração. "Toda a vida de um santo está na oração", diz Santo Hilário. E Santo Agostinho diz: "Sabe viver bem aquele que sabe rezar bem". "A oração é para a alma, diz S. Vicente de Paulo, o que a comida é para o corpo. O homem que não se alimenta bem, é fraco, não tem disposição para o trabalho, não pode ganhar a vida; ao contrário, quem se alimenta bem, é forte, corajoso, trabalha e prospera. Igual coisa se dá com a alma; se reza bem, será forte, lutará vitoriosamente contra os inimigos da salvação; se reza mal será fraca, cairá, será vencida". Costumava dizer ainda o Santo da Caridade: "O homem de oração é capaz de tudo; e o missionário que não reza é um cadáver de missionário".

4 - ARGUMENTO TEOLÓGICO. Prova-se a necessidade da oração pela necessidade da graça atual: "Sem mim, diz Nosso Senhor Jesus Cristo, nada podeis fazer"; nem sequer ter um bom pensamento, acrescenta S. Paulo; porque "é Deus que opera em nós o querer e o fazer" (Filip.  II, 13). E ainda diz o Apóstolo: "Não que sejamos capazes por nós mesmos de pensar alguma coisa [sobrenaturalmente boa], como vinda de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus... (2 Cor. III, 5). É pois uma verdade de fé, que sem a graça atual, achamo-nos na impotência radical de nos salvar, quanto mais de chegar à perfeição. Ora, com exceção da primeira graça que nos foi concedida gratuitamente, sem a pedirmos, visto que ela é o princípio mesmo da oração, certo é que a oração é o meio normal, eficaz e universal pelo qual Deus quer que alcancemos todas as graças atuais. "Pedi e recebereis". É como se dissesse, acrescentam quase todos os comentadores: Se não pedirdes não recebereis. Lembra-nos Jesus Cristo esta necessidade da oração principalmente quando se trata de resistir à tentação: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (S. Mat. XXVI, 41).É princípio geral ser a graça atual necessária para todo ato sobrenatural, sendo que deve haver proporção entre o efeito e o seu princípio. Ora, sem oração não há graça atual, por conseguinte, nem conversão nem perseverança final. "Quem começou em nós a obra da salvação, diz S. Paulo, é o único que pode levá-la a bom termo" (Filip. I, 6).

Concluindo podemos dizer que a oração é tão necessária à vida sobrenatural como o ar à vida física. Atraímos o ar pela respiração. a oração é a respiração da alma. Devemos orar como respiramos. Eis o que diz o Divino Espírito Santo pela boca do real Profeta: "Abri a minha boca e respirei, porque desejava os teus preceitos" (Salmo 118, 131). Assim, quem reza certamente se salvará; o que não reza certamente se condenará.


A oração é portanto, o grande meio de salvação. É supérfluo dizer que para tanto é mister que a oração seja feita com as devidas condições. Sem elas, aliás, não haveria propriamente oração.   
  

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

São Miguel Arcanjo na Bíblia.

   Apocalipse, XII, 7-9: "Houve no céu uma grande batalha: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão, e o dragão com os seus anjos pelejava contra ele; porém estes não prevaleceram, nem o seu lugar se encontrou mais no céu. Foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama demônio e satanás, que seduz todo o mundo, foi precipitado na terra, e foram precipitados com ele os seus anjos".
   EXEGESE DO TEXTO: Miguel (Mi-cha-el = Quem como Deus?) Arcanjo ( 1Tess. IV, 15) é um dos primeiros príncipes  do céu (Dan. X, 13) aos quais estava confiado o povo de Deus (Dan. X, 21; XII,1) e, agora a Igreja, o verdadeiro povo de Deus, a exemplo do que aconteceu no céu entre S. Miguel, unido com os outros santos anjos de Deus, e o Lúcifer, seguido dos seus anjos rebeldes, haverá um terrível combate no fim do mundo entre a Igreja, assistida por São Miguel e seus anjos, e o dragão, isto é, o demônio mesmo e os espíritos infernais. Combaterá São Miguel ajudando e animando os cristãos, e, em particular os ministros da Igreja, visto que com Henoc e Elias fortemente resistirão ao Anticristo, o qual terá em sua ajuda Lúcifer e os seus anjos. (São Beda e São Gregório Magno).

   Daniel, X, 13 e 14: "Porém o príncipe do reino dos persas resistiu-me durante vinte e um dias; mas eis que veio em meu socorro Miguel, um dos primeiros príncipes, e eu fiquei lá junto do rei dos persas. Vim para te ensinar as coisas que estão para suceder ao teu povo nos últimos dias, porque o cumprimento desta visão ainda está para dias (longínquos)".
   EXEGESE DO TEXTO: Cada nação tem o seu anjo protetor que a inspira e lhe guia no verdadeiro progresso espiritual e material. O versículo 13 do capítulo X de Daniel fala do anjo protetor da Pérsia e de Miguel, protetor de Israel. Gabriel, anjo mensageiro de Deus, e Miguel desejavam que Israel voltasse à pátria para restabelecer a cidade e o templo, mas o anjo da Pérsia queria que Israel ficasse para propagar a verdadeira religião. Gabriel se confronta com o anjo da Pérsia, e, ajudado por Miguel, obtém  que se deixe partir Israel. Esta disputa de 21 dias impedira Gabriel de levar a Daniel a revelação divina que está para fazer. São Jerônimo, Teodoreto, São Gregório etc., dizem que este anjo da Pérsia é um anjo bom, dado por Deus para guardar o reino da Pérsia. Mas logo vem a pergunta: Pode um anjo bom opor-se a outro anjo bom? Santo Tomás de Aquino (S.T. q. CXIII, a. 7 e 8) prova que não há nisto nada que repugne à caridade entre os anjos, nem à sua perfeita felicidade. Os anjos se bem que unidos entre si com perfeitíssima caridade, podem ter parecer e vontade diferentes, naquelas coisas em que o querer de Deus não está ainda claramente manifestado. e, assim podem, cada qual olhando um bem sob prisma diferente,  procurar um, uma coisa e o outro, coisa diferente, salvado  sempre, é claro, o beneplácito de Deus. Com mais facilidade compreendemos que o mesmo possa acontecer entre pessoas santas aqui na terra, como o exemplo clássico de São Paulo e São Barnabé. (Cf. Atos, XV, 36-39).
   São Miguel é chamado "um dos primeiros príncipes": quer dizer "um dos anjos principais" ou seja, "o primeiro dos primeiros príncipes".
   Eu fiquei lá junto dos reis dos persas: Fez isto para inspirar a Ciro, rei dos Persas, sentimentos sempre mais favoráveis ao povo hebreu, que no Antigo Testamento era o Povo de Deus.



  Daniel, XII, 1,2 e 3: "Naquele tempo se levantará o grande príncipe Miguel, que é o protetor dos filhos do teu povo; virá um tempo, qual não houve desde que os povos começaram a existir até àquele tempo. E naquele tempo o teu povo será salvo; (sê-lo-á todo aquele que estiver inscrito no livro. A multidão dos que dormem no pó da terra, acordarão uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, que terão sempre diante dos olhos. Mas aqueles que tiverem sido doutos resplandecerão como a luz do firmamento; e os que tiverem ensinado a muitos os caminhos da justiça (luzirão) como as estrelas por toda a eternidade."
   EXEGESE DO TEXTO: "Naquele tempo": a profecia, para alguns exegetas, diz respeito, como as anteriores, ao tempo dos Macabeus, mas para a maioria dos santos Padres fala do fim do mundo. Antes do fim do mundo os judeus se converterão, se não todos, pelo menos em sua maioria. As palavras desta profecia são pronunciadas pelo Arcanjo São Gabriel, que já vem falando a Daniel desde os capítulos anteriores. São Gabriel continuando, pois, a instruir o profeta, depois de haver descrito no capítulo anterior a perseguição  de Antíoco, que era uma figura da perseguição do Anticristo, passa agora a falar do que vai acontecer no fim do mundo, quando aparecerá o filho da perdição para fazer guerra à Igreja. Assim o Arcanjo junta dois tempos entre si distintos, junta a figura com o figurado. O mesmo fez Jesus Cristo quando fala da destruição de Jerusalém que é figura do fim do mundo. Jesus engloba numa mesma narração estes dois acontecimentos tão distantes entre si. Num mesmo olhar vê a figura e o figurado. São Jerônimo e outros Santos Padres ensinam que o Arcanjo Gabriel anuncia que naquele tempo de tribulação e de aflição virá o grande São Miguel, o qual foi sempre especialíssimo protetor da Sinagoga (=Igreja dos Judeus) do povo de Deus no Antigo Testamento e agora no Novo é o protetor da Igreja Católica que substituiu a Sinagoga. Realmente será extremamente necessária a ajuda do primeiro Príncipe da Milícia celeste, o Arcanjo São Miguel, porque haverá uma grande tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo
   "E naquele tempo o teu povo será salvo": Porque então os judeus crerão em Cristo e se salvarão todos os hebreus cujos nomes estão escritos no livro da eterna predestinação. Se não todos, pelos menos a máxima parte dos judeus reconhecerá que Aquele que o povo judeu crucificou era realmente o Messias.

   Epístola de São Judas Tadeu, versículo 9: "Quando o Arcanjo Miguel, disputando com o demônio, altercava sobre o corpo de Moisés, não se atreveu a proferir contra ele a sentença da maldição, mas disse somente: "Reprima-te o Senhor".
   EXEGESE DO TEXTO: O Apóstolo São Judas Tadeu contrapõe a modéstia e a temperança de São Miguel Arcanjo à petulância e à arrogância dos heréticos, que como animais sem razão, blasfemam das coisas  de Deus que eles nem compreendem. O Arcanjo São Miguel, segundo a ordem do Senhor, quis que ficasse oculta a sepultura de Moisés. O demônio, por sua vez, quis mostrá-la aos Israelitas para dar ao povo, ocasião de idolatria. Nesta disputa São Miguel se contentou em dizer: "Reprima-te, o Senhor", porque, diz São Jerônimo (Ep. ad Ti. III), o demônio verdadeiramente merecia a maldição, mas esta não devia sair da boca de um anjo. A história deste fato não é relatada em nenhuma parte do antigo Testamento. São Judas Tadeu dela pôde ter tido conhecimento através da tradição ou por alguma revelação especial. Alguns santos dizem que, num livro apócrifo sobre Moisés, este fato vem narrado. Devemos observar que nos Livros apócrifos, as vezes se encontra alguma coisa verdadeira.

  ORAÇÃO DE SÃO MIGUEL ARCANJO
   São Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate; cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos; e vós, príncipe da milícia celeste, pelo divino poder precipitai no inferno a satanás e aos outros espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.
   

 "Quem como Deus? E Jesus Cristo, Nosso Senhor e Divino Salvador, é Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem; é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo de Deus feito Homem para nos salvar na Cruz.
   "De Deus não se zomba, diz São Paulo". Diz ainda o Apóstolo : "Quem não amar a Jesus Cristo, seja anátema".

N.B.: Amanhã, se Deus quiser, vamos iniciar a Novena de São Miguel Arcanjo,
  

  

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


  " Dirão, porém, os protestantes:

   - Não nos revoltamos contra os católicos, quando dizem que o homem não pode salvar-se sem obedecer aos mandamentos de Cristo, que o são também de Deus. Não concordamos é com o dizerem que a salvação DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS. Ora, isto é o mesmo que dizer que nós nos salvamos a nós mesmos, quando nosso Único Salvador é Jesus Cristo.

   - Dizemos [nós católicos] que a salvação depende das nossas obras. E onde está o erro ou a heresia desta afirmação? Não estamos afirmando com isto que ela depende SOMENTE de nossas obras, mas sim que ela depende TAMBÉM de nossas obras. Sabemos muito bem que sem a graça de Cristo não nos podemos salvar, mas a graça de Cristo não nos salva sem a nossa cooperação. A salvação depende de uma coisa e de outra.

   Toda a repugnância de Vocês [protestantes] em aceitar esta ideia baseava-se principalmente naqueles dois textos de São Paulo: O homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28) e no outro da Epístola aos Efésios: Pela graça é que sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, porque é um dom de Deus, não vem das nossas obras (Efésios II-8 e 9). Já explicamos convenientemente estes textos (capítulo 6º e nº 133). Desde que Vocês agora sabem que o primeiro exprime apenas que para nos salvar, não estamos mais obrigados a obedecer à lei de Moisés, como estavam os judeus antes de Cristo; e o segundo, que a graça da conversão ao Cristianismo, que foi a chave da salvação, não foi concedida por causa da obras que tivessem sido feitas anteriormente a ela, não há mais motivo para tanta repugnância a esta proposição: A SALVAÇÃO DEPENDE TAMBÉM DAS NOSSAS OBRAS. 

   Quando um homem perguntou a Nosso Senhor o que devia fazer para obter a vida eterna, que foi que o Senhor lhe respondeu? Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). Eis aí claramente a salvação DEPENDENDO DAS OBRAS. 

   Quando Nosso Senhor diz: Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo, PORQUE TIVE FOME E DESTES-ME DE COMER etc, etc. Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... PORQUE tive fome e não me destes de comer etc, etc. (Mateus XXV- 34 e 35, 41 e 42) que está dizendo Nosso Senhor, senão que a salvação ou a condenação DEPENDEM da nossa caridade ou falta de caridade?

   Quando Nosso Senhor diz: Pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado (Mateus XII-37), que nos está dizendo, senão que tenhamos cuidado com as nossas palavras, porque do nosso modo de falar DEPENDE a nossa salvação ou a nossa condenação?

   Não nos podemos salvar sem o perdão, a misericórdia, a benignidade de Deus. Quando Nosso Senhor diz: Perdoai e sereis perdoados (Lucas VI-37), bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (Mateus V-7), não julgueis e não sereis julgados (Lucas VI-37, que nos está ensinando senão que do nosso perdão e benignidade para com o próximo DEPENDE a misericórdia com que o Senhor nos há de julgar?

   É a própria Bíblia, Palavra de Deus Eterna e Infalível, portanto, a nos ensinar que a salvação TAMBÉM DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS".
(Do livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro).
 

 (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


   "Quanto à expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO, pode ser errônea ou pode ser admissível, de acordo com o sentido em que seja ela empregada. Se dizemos que o homem salva a si mesmo, no sentido de que ele o faz sozinho, por seu próprio esforço e boa vontade, independentemente da graça de Deus, que Cristo nos mereceu na cruz, seria um erro já desde o começo condenado pela Igreja: o pelagianismo.

   Mas o próprio Protestantismo reconhece que existe, na nossa salvação, a parte de Deus e a nossa. Temos que cooperar com a graça, sem isto não nos salvamos, pois Cristo não nos salva violentando a nossa liberdade, nós cooperamos livremente. Se cooperamos com a graça, estamos salvando a nós mesmos. Se não cooperamos, é a nós mesmos que estamos condenando, a condenação será por nossa culpa.

   Mas o protestante só se convence , se ler na Bíblia empregada esta expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO. Neste caso leia o trecho da 1ª Epístola de São Paulo a Timóteo: OLHA POR TI e pela instrução dos outros, PERSEVERA nestas coisas, porque, fazendo isto, TE SALVARÁS tanto A TI MESMO, como aos que ouvem (1ª Timóteo IV-16).

   É inútil querer iludir os mais rudes, apelando para o texto grego, porque aí é o verbo sôzo, o mesmo verbo grego que São Paulo emprega, quando diz que Jesus pode SALVAR perpetuamente aqueles que por Ele mesmo se chegam a Deus (Hebreus VII-25, que se lê nas palavras do Anjo, quando anunciou a Maria, referindo-se a Jesus: Ele SALVARÁ o seu povo dos pecados deles (Mateus I-21) ou, se não quisermos sair desta mesma 1ª Epístola a Timóteo, é o mesmo que o Apóstolo das Gentes empregou no 1º capítulo: Jesus Cristo veio a este mundo para SALVAR os pecadores, dos quais o primeiro sou eu (1º Timóteo I-15). É o verbo empregado frequentemente no Novo Testamento para exprimir a salvação eterna.

   Se quisermos outro exemplo do mesmo Apóstolo São Paulo, vejamos este: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com receio e com tremor (Filipenses II-12). Ferreira de Almeida diz, num português mais moderno: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com temor e tremor (Filipenses II-12).

   Outra vez dizemos: Não adianta querer impressionar os incautos com despropositadas alusões ao texto grego, porque na frase OBRAI a vossa salvação, o verbo OBRAR corresponde no verbo grego: KATERGÁZOMAI.

   Vejamos o dicionário de Bally: KATERGÁZOMAI = executar, cumprir, acabar, procurar para si, obter, elaborar, trabalhar.

   Ainda mesmo que se quisesse escolher a significação ACABAR, não se alteraria o sentido: cabe-nos ACABAR a obra que Deus começou, mas que Ele não quer realizar sem nós. O fato de São Paulo referir-se logo em seguida à ação de Deus na salvação de nossa alma: Deus é o que obra em vós o querer e o perfazer, segundo o seu beneplácito (Filipenses II-13) não exclui a nossa parte no obter a salvação, exprime apenas que nada podemos querer, nada podemos fazer sem o auxílio, a moção de Deus, a nossa ação é entrelaçada com a ação divina."
(Do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

   (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS



   "Nas seguintes frases: eu não aprovo o que FAÇO (Romanos VII-15) o querer o bem eu o acho em mim, mas não acho o meio de o FAZER perfeitamente (Romanos VII-18) a ira do homem não CUMPRE a justiça de Deus (Tiago I-20) o que aqui é para nós duma tribulação momentânea e ligeira, PRODUZ em nós... um peso eterno de glória (Coríntios IV-17), os verbos FAZER, CUMPRIR e PRODUZIR correspondem no grego ao mesmo verbo KATERGÁZOMAI. 

   Os dois textos, em que vemos expressa na Bíblia a ideia de que Jesus é o ÚNICO SALVADOR,  não excluem absolutamente a outra ideia de que, uma vez recebidos de Cristo os meios INDISPENSÁVEIS para a salvação e suposto que sem Cristo a salvação não pode ser realizada, o homem, como criatura livre que é, tenha, por sua vez, que salvar-se a si mesmo.

   Para usarmos uma comparação: o náufrago que só encontrou UM HOMEM capaz de lhe fornecer embarcação e bússola e mantimentos, tem neste homem o seu único Salvador, embora precise salvar-se a si mesmo, guiando a embarcação para chegar em terra.

   Um dos textos é o dos Atos: Não há salvação em nenhum outro, PORQUE do céu abaixo NENHUM OUTRO NOME FOI DADO aos homens PELO QUAL nós devamos ser salvos (Atos IV-12). O homem que foi batizado em nome de Jesus, que recebeu o perdão de seus pecados em nome de Jesus, e que em nome de Jesus vai recebendo a graça, isto é, em virtude dos merecimentos infinitos de Redentor, uma vez que o Batismo, o perdão dos pecados e a graça são necessários para a salvação, é claro que é em nome de Jesus que está sendo salvo. Mas isto não impede que ele, para salvar-se, TENHA QUE CUMPRIR com os mandamentos (e os cumpre livremente, portanto, tem que salvar-se a si mesmo) e só os pode cumprir, ajudado pela graça de Jesus. Até mesmo, portanto, quando está cooperando com a graça, a sua salvação está sendo realizada com Jesus, por meio de Jesus, e, portanto, em nome de Jesus e não em seu próprio nome.

   O segundo texto é o de São Paulo a Timóteo: SÓ HÁ UM MEDIADOR entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem (1ª Timóteo II-5). Dizendo que o homem salva a si mesmo, neste sentido de que tem que cooperar livremente com a graça NAS SUAS AÇÕES, NO SEU MODO DE PROCEDER, não se está negando absolutamente que Jesus Cristo foi o Único Mediador que reconciliou os homens com Deus e que nos alcançou a graça, sem a qual ninguém pode salvar-se." 

(Do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

domingo, 18 de setembro de 2016

AS OBRAS


 A FÉ SEM AS OBRAS É MORTA.

   A necessidade das nossas obras para a salvação é tão lógica e tão evidente, que os próprios protestantes tiveram que retroceder neste ponto. A doutrina de salvação só pela fé, que pregaram os Primeiros Reformadores, era tão perigosa e subversiva, que para cristãos logo se mostrou insustentável. Aquilo já não era Cristianismo, era a confiança cega de que Jesus tudo perdoa conduzindo logicamente o homem ao mais desenfreado materialismo.

   Quando viram os protestantes a devastação tremenda que essas Ideias produziam no seio do povo, com a propaganda do desprezo pelas boas obras como meio para obter a salvação, perceberam claramente que não era possível prosseguir com tais ensinos.

   Mas toda a sua tática tem consistido em recuar até à doutrina católica nesta matéria, mas recuar conservando mais ou menos a mesma linguagem que usavam antigamente, recuar sem querer que se perceba que estão recuando.

   Já vimos que a antiga fórmula: SÓ A FÉ é necessária para a salvação foi substituída pela outra: SÓ A FÉ E O ARREPENDIMENTO são necessários para a salvação. 

   Entrando neste terreno, exigindo agora o arrependimento como indispensável para a conquista da vida eterna, entraram na doutrina católica da necessidade das obras para a salvação. Já tivemos ocasião de demonstrá-lo [anteriormente].

   Quaisquer fórmulas que inventem dentro deste novo sistema, por mais manhosas que elas sejam, mostram desde logo, depois de um pouco de reflexão, que são fórmulas católicas disfarçadas com a máscara de protestantes: Exigir ARREPENDIMENTO é exigir as OBRAS para a salvação: não há para onde correr.

   Vejamos, por exemplo, este modo de argumentar:

   - Os católicos afirmam que o homem se salva pela FÉ COM AS OBRAS, ajudado pela GRAÇA DE DEUS. Nós, protestantes, achamos que esta doutrina está errada. O que salva o homem é só a fé, e não as obras. O que acontece é que a fé é manifestada pelas OBRAS. Aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ. Portanto, é só a fé que salva.

   - Ouçam, caros amigos. Dois indivíduos estavam discutindo: um deles possuía um automóvel e garantia que o seu carro podia andar sem gasolina. O outro apostava que não. Mas acontece que, aproveitando um descuido de seu antagonista, o primeiro colocou a gasolina no seu automóvel e o fez andar. Ganhou a aposta? Provou que tinha razão? Absolutamente não; porque o outro, como é natural, podia muito bem proceder à verificação no automóvel e, certificando-se de que este agora estava COM GASOLINA, podia muito bem desmascarar o seu opositor. 

   É o que se dá entre nós.

   Como começou o Protestantismo? Afirmando que a FÉ salva sem as obras e dizendo que esta fé consiste apenas em ACEITAR A JESUS COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL. É a confiança de que Jesus nos salva, isto independentemente de obras, de arrependimento da nossa parte.

   Já fizemos a refutação desta doutrina. Mostramos com muitos textos da Bíblia, que esta noção de fé não é exata, que fé é ACREDITAR nas verdades eternas, ACREDITAR na palavra de Deus. Fizemos ver que esta fé é o PONTO DE PARTIDA para a salvação, porque a aceitação da doutrina de Jesus inclui necessariamente a aceitação de SUA MORAL, o reconhecimento dos DEVERES impostos por Cristo e que, portanto, a fé que salva é a fé coerente, a fé que não entra em contradição com as obras, a fé que não está morta, mas OPERA PELA CARIDADE (Gálatas V-6), sendo a caridade o amor de Deus sobre todas as coisas e amor ao próximo como a nós mesmos. Mostramos que se trata de uma promessa de vida eterna, e se Deus promete o Céu àquele que tem fé, é esta mesma fé que o leva a aceitar na própria Bíblia AS CONDIÇÕES em que esta promessa será cumprida (nº 80 a 84): sem praticar a virtude, sem observar os mandamentos, sem receber os sacramentos que Cristo instituiu para nossa salvação, esta não pode ser alcançada.

   Em todo este sistema de argumentação, estamos considerando a FÉ como uma virtude especial, distinta das demais virtudes, como distinta das nossas obras, do nosso modo de proceder. Acaso estávamos errados em considerá-la assim? Não é a própria Bíblia que distingue a fé das outras virtudes, quando nos diz: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém a maior delas é a caridade (1ª Coríntios XIII-13)? Não é a própria Bíblia que nos diz que também os demônios CREEM (Tiago II-19)?

   É, portanto, neste sentido, considerando a fé como uma virtude distinta das outras, que nós dizemos que a fé sozinha não pode salvar, ela não salva sem as obras, as quais também são necessárias; e dizemos isto, apoiados no ensino claríssimo da Bíblia: Não vedes como PELAS OBRAS É JUSTIFICADO O HOMEM, E NÃO PELA FÉ SOMENTE? (Tiago II-24). Aqui não há meio de subterfúgio: São Tiago não diz que o homem é salvo pela fé, mas esta fé só se pode conhecer nas obras etc, etc. como Vocês estão dizendo; mas que o homem é salvo PELAS OBRAS, e não somente pela fé. 

   Ora, que acontece com quem quer discutir e argumentar COM CLAREZA E COM LEALDADE, porque quer realmente defender a VERDADE ou chegar ao conhecimento dela? Quem é sincero na argumentação procura, antes de tudo, explicar, de modo que não deixe margem para nenhuma dúvida, em que sentido está tomando as palavras que emprega na sua exposição. A questão é sobre A FÉ, não é assim? A obrigação de quem vai sustentar uma tese sobre a fé, é dizer bem claramente o que é que entende por esta palavra FÉ.

   Ora, quando perguntamos a Vocês o que é que entendem por FÉ, Vocês recorrem àquele velho conceito dos primeiros tempos do Protestantismo: FÉ É ACEITAR A JESUS CRISTO COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL.

   Agora perguntamos: a fé tomada neste sentido ESTÁ INCLUINDO A OBEDIÊNCIA À LEI DE DEUS? ESTÁ INCLUINDO AS BOAS OBRAS, OS ATOS DAS DEMAIS VIRTUDES?

   Não, não está. A fé aí está reduzida apenas à confiança que tenho em que Jesus me salva.

   Esta definição não exclui o pecado. A prova é que de acordo com esta noção de fé os Primeiros Reformadores ensinavam que o pecador se salva SEM ARREPENDIMENTO. "Sê pecador e peca fortemente, mas confia e rejubila-te mais fortemente ainda no Cristo vencedor do pecado, da morte e do mundo", dizia Lutero na sua carta a Melanchton, em 1521, este mesmo Lutero que dizia que " a contrição que se prepara pelo exame e recapitulação e detestação dos pecados, pelos quais alguém relembra os seus anos na amargura de sua alma, ponderando a gravidade, multidão e fealdade dos pecados, a perda da eterna felicidade e aquisição da condenação eterna, ESTA CONTRIÇÃO FAZ HIPÓCRITA O HOMEM E ATÉ MAIS PECADOR" (Lutero. Edição Weimar VII-13).

   Esta definição de maneira alguma supõe que a fé se manifesta pelas obras. Pois, em que sentido se toma aí a expressão: Jesus é o nosso Único e Suficiente Salvador? Não no sentido de que o resgate foi feito por Jesus e só Ele o podia fazer, e o fez da maneira mais completa e satisfatória para nos alcançar e merecer a graça. Mas é empregada maliciosamente no sentido de que, tendo Cristo feito tudo por nós, o homem não precisa fazer mais nada; não lhe resta, portanto, salvar-se a si mesmo pela prática da virtude, pois só Cristo é quem nos salva sem a nossa cooperação. Ou, em outros termos, a cooperação do homem consiste apenas em CONFIAR. Confiando, a salvação lhe é dada de graça.

   Seria, por conseguinte, um contra-senso, uma verdadeira contradição, que o homem, afim de DEMONSTRAR que Cristo é o seu Único e Suficiente Salvador, neste mau sentido da expressão, tivesse agora que esforçar-se, obedecendo à lei divina, praticando atos de virtude etc. Assim estaria procurando salvar-se a si mesmo, para demonstrar que não se salva a si mesmo, que Jesus é o seu Único e Suficiente Salvador.

   Agora acontece que, enquanto Vocês protestantes, continuam a sustentar esta mesma definição - Crer é aceitar a Jesus como nosso Único e Suficiente Salvador, como nosso Salvador Pessoal - quando a gente menos espera, surgem Vocês mesmos dizendo que a fé se manifesta pelas OBRAS, que aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ.

   Isto quer dizer que de repente passaram a tomar a palavra FÉ noutro sentido bem diferente. Fazem como o homem que às escondidas meteu a gasolina no automóvel.

   Bem, fé neste sentido de que todo aquele que peca está mostrando que não tem fé, quer dizer ADESÃO TOTAL A CRISTO, COM A INTEIRA OBEDIÊNCIA A TUDO QUANTO CRISTO ENSINOU. É não só na nossa mente, mas também no nosso modo de agir, a aceitação de Cristo, não só como Salvador, mas também como  nosso Mestre, nosso Legislador e como o Rei que domina toda a nossa vida.

   Se é neste sentido que Vocês querem tomar a palavra FÉ, então nós, católicos, não temos nenhum receio ou dúvida em dizer que BASTA A FÉ para a salvação, porque NÃO BRIGAMOS POR MERAS QUESTÕES DE PALAVRAS; o que nos interessa são as realidades da vida cristã. Mas há uma coisa: aí já não se trata de FÉ SEM AS OBRAS, trata-se de FÉ COM AS OBRAS, porque as obras já estão incluídas neste conceito de fé. Trata-se de fé COM A OBEDIÊNCIA DOS MANDAMENTOS DE CRISTO.

   Fica, sempre, de pé que a fé sem as obras não salva, porque a fé sem as obras é morta (Tiago II-26). 


sábado, 17 de setembro de 2016

A GRAÇA



   NECESSIDADE DA GRAÇA.

   Firmada em vários textos bíblicos, os quais podem resumir-se nesta palavra de Jesus: Sem mim não podeis fazer nada (João XV-5), a Igreja nos ensina a necessidade da GRAÇA para a salvação. Necessidade absoluta, porque ninguém pode entrar no Céu sem a graça santificante; é preciso possuir a VIDA sobrenatural da GRAÇA, para entrar na VIDA sobrenatural da GLÓRIA CELESTE. E para praticar a virtude, é necessária a ajuda constante da GRAÇA ATUAL, a qual Deus sempre nos oferece, porque quer salvar a todos. 

   A ninguém, que esteja de boa fé, é negada a possibilidade de conseguir a graça santificante: embora sejam os sacramentos do Batismo e da Penitência os meios ordinários para adquiri-la ou recuperá-la, até os próprios pagãos que nunca tiveram conhecimento de Cristo, dela podem ser revestidos, desde que, crendo em Deus Remunerador, tenham também as disposições necessárias para recebê-la. E para conseguirem ou conservarem esta GRAÇA SANTIFICANTE, Deus lhes dá também A GRAÇA ATUAL suficiente, pois Deus quer a salvação de todos, de ninguém exigindo o que é impossível. Não há, portanto, no ensino da Igreja, nenhum vestígio da revoltante doutrina de que Deus predestina certas almas para o inferno, doutrina esta que é ensinada por muitos protestantes.

   E sobre este assunto da influência da graça na salvação, nós, católicos, que contra os protestantes sustentamos a necessidade da fé, no legítimo sentido da palavra, nós que sustentamos a necessidade das nossas obras, que uns têm negado de fato e abertamente, e outros apenas fingem negar, nós temos ainda que defender contra MUITOS PROTESTANTES  a necessidade da graça, que, antes de tudo, é um DOM SOBRENATURAL. Já dissemos que, no 5º século, a Igreja teve que condenar a heresia dos pelagianos, os quais afirmavam poder o homem salvar-se por suas próprias forças naturais, sem o auxílio sobrenatural da graça. Pois bem, muitos protestantes, indo ao extremo oposto com relação aos demais, têm renovado lamentavelmente o erro de Pelágio. São os Socinianos, Unitários e Protestantes Liberais que usam este nome GRAÇA mas adulteram de tal forma a sua noção, que na realidade a negam por completo. São protestantes que negam a divindade de Cristo, considerando-O como um simples homem. Para eles a graça consiste apenas em Cristo nos instruir com sua doutrina sublime e nos confortar com seu maravilhoso exemplo. Deste modo, na doutrina deles, a graça deixa de ser um dom sobrenatural, uma força interior, para ser apenas um estímulo externo que tanto vem de Cristo como poderia vir de outro homem qualquer que nos ensinasse uma bela doutrina e nos edificasse com um notável exemplo de virtude.

   Quantos estragos tem feito o livre exame na doutrina do Evangelho!

   

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

COMO É PERIGOSA A TEORIA PROTESTANTE SOBRE A CRENÇA!



   Mas os protestantes, pondo a CRENÇA em segundo plano e reduzindo a fé salvadora apenas à CONFIANÇA de que Jesus nos salva, chegam a uma incrível situação de balbúrdia e de anarquia.

   Mesmo quando torcem miseravelmente, ridiculamente os mais claros textos da Bíblia, já não sentem remorso de injuriar assim a palavra de Deus; acham que não perdem com isto o direito à recompensa do Céu: eles têm a confiança de que se salvam, e é quanto basta...

   Além disto, são muitos os protestantes que se mostram ou fingem mostrar-se satisfeitos com esta confusão tremenda de doutrinas, as mais diversas, que se nota no seio da Reforma e que dizem que assim mesmo é que está certo: a palavra de Deus deve ser sujeita à discussão e cada um se manisfesta sobre ela de acordo com o seu modo de ver pessoal.

   Na América do Norte e na velha Europa, onde a árvore do Protestantismo já amadureceu bastante para produzir os seus verdadeiros frutos, são muitos os protestantes que foram progredindo de negação em negação, até rejeitarem não só a divindade, mas até a infalibilidade do próprio Cristo e a divina autoridade das Escrituras. Com a Bíblia na mão, mas ao mesmo tempo depositando na razão humana uma confiança ilimitada no interpretá-la, o Protestantismo leva naturalmente ao Racionalismo.

   Tudo isto tem sido resultado deste erro de falsear a noção de fé salvadora. 

   Não é isto o que quer o Divino Mestre; quer que os homens se santifiquem, NA VERDADE, só podendo haver verdade, onde existir a unidade da fé: SANTIFICAR-SE NA VERDADE. A tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E eu me santifico a mim mesmo por eles, para que também eles sejam SANTIFICADOS NA VERDADE. E eu não rogo somente por eles, mas rogo também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra; para que ELES SEJAM TODOS UM, como tu, Pai, o és em mim e eu em ti (João XVII-17 a 21).

   E é aí que nós percebemos claramente a legitimidade, a firmeza da Igreja, sempre zelosa e intransigente em conservar o DEPÓSITO (2ª Timóteo I-14) da fé, guiada nisto pelo Divino Espírito Santo, mostrando-se inabalável em sustentar todas as verdades, todos os dogmas que ela vem ensinando desde o tempo dos Apóstolos e sem admitir os quais não pode haver salvação. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

DONDE VEM A FÉ?



   Mas dirão os protestantes:

   - O Sr. está enganado. Há, de fato, divergências entre nós. Mas não negamos que se deve CRER em tudo o que Jesus ensinou e a prova é que vivemos a citar as palavras da Bíblia. Apenas ensinamos que a fé que salva não é mera credulidade. Não é um ato da inteligência, porque, se fosse assim, seriam os sábios, seriam os mais inteligentes que mais poderiam ter fé. A fé que salva é aquela que parte do âmago do nosso coração. É a CONFIANÇA em Nosso Salvador Jesus Cristo e no seu Sacrifício Redentor.

   - Eis aí precisamente o erro de Vocês. Querem salientar, como condição para nos salvarmos, o papel da CONFIANÇA que é apenas uma consequência da nossa FÉ, no sentido de CRENÇA, e procuram obscurecer, relegar para um plano secundário o valor desta mesma CRENÇA. Por isto Vocês se esforçam por desfigurá-la primeiro, para poder desprezá-la.

   Quem lhes disse que a nossa CRENÇA em Jesus Cristo, na Bíblia e nos seus ensinos é MERA CREDULIDADE? Credulidade é acreditar numa coisa sem o mínimo fundamento, é dar alguém crédito a uma afirmativa, por ingenuidade, por ser tolo demais. A nossa CRENÇA em Deus, em Jesus, no seu Evangelho não é desta natureza, e sim baseada nos mais sólidos argumentos capazes de convencer a razão mais exigente. Crer na veracidade dos Evangelhos não é mera credulidade, é crer num fato que nos é provado com todo o rigor de uma demonstração histórica.

   Daí, porém, não se segue que a fé seja um ato puramente da inteligência: tanto pode ter uma FÉ PROFUNDA o mais sábio, o mais erudito dos teólogos, com o mais rude camponês. E são precisamente os simples, os rudes e os pequeninos que se mostram mais esclarecidos na FÉ, do que os sabichões, do que os intelectuais, o que não impede que estes possam ter também a sua crença: Graças te dou, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as REVELASTE AOS PEQUENINOS. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado (Lucas X-21).

   Não é pelo simples fato de se empregar, por vezes, uma palavra mais difícil, de se chamar a FÉ= CRENÇA no conceito dos católicos com o nome de FÉ INTELECTUAL, e a FÉ= CONFIANÇA no conceito dos protestantes com o nome de FÉ FIDUCIAL,  que a CRENÇA se torna um ato só para intelectuais.

   A fé é um ato da inteligência que ACREDITA na palavra de Deus, sendo movida pela VONTADE que se dispõe a crer, e ajudada desde o início pela GRAÇA DIVINA. 

   Se ela também procede da vontade, é porque tem as suas raízes profundas no coração humano.

   Diante de textos como este: O que crê no Filho tem a vida eterna (João III-36) e alguns outros, os protestantes ainda poderão teimar, querendo fazer prevalecer a sua hipótese sem fundamento, de que aí não se trata de CRENÇA e sim de uma cega CONFIANÇA.

   Mas nada melhor para compreender um texto da Escritura do que compará-lo com outro.

   E podemos apresentar-lhes um texto que não só prova que a fé que encaminha o homem para a salvação é a CRENÇA (sendo, portanto, a confiança já uma consequência desta crença, pois da fé nasce a esperança), mas também que esta crença procede do coração humano, onde tem as suas raízes: Se confessares com a tua boca ao Senhor Jesu e CRERES NO TEU CORAÇÃO que Deus O ressuscitou dentre os mortos, SERÁS SALVO. Porque COM O CORAÇÃO SE CRÊ para alcançar a justiça; mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação (Romanos X-9 e 10).

   Primeiro que tudo, ninguém pode daí deduzir que basta crer que Jesus ressuscitou dentre os mortos para só por isto ser salvo. Neste caso cairia também toda a doutrina, tanto católica, como protestante, de que é preciso crer que Jesus é o nosso Salvador. Mas é este o sistema da Bíblia: ensina-nos a verdade parceladamente, pedacinho por pedacinho. São Paulo não vai aí nesta simples frase expor minuciosamente todos os artigos de fé; seria escrever um livro e não uma frase. Apresentar dez ou vinte artigos, mas no final das contas, não apresentá-los todos, seria pior ainda do que apresentar um só. Por isto tomou como exemplo a Ressurreição, que é um ponto básico para a DEMONSTRAÇÃO de todas as outras verdades da fé: Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé (1ª Coríntios XV-17). São Paulo, é claro, não podia fazer uma redução naquilo que devemos crer, quando o mesmo Cristo que disse aos Apóstolos, no dia em que os enviou a pregar: Ide, pois, e ensinai todas as gentes... ensinando-as a observar TODAS AS COISAS  que vos tenho mandado (Mateus XXVIII-19 e 20), disse-lhes também: Pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-15 e 16).

   Esclarecido isto, para que os protestantes não queiram tirar dai conclusões absurdas, como FAZEM MUITOS, o que se deduz claramente da frase é que a fé salvadora é a crença, e a crença nasce no nosso coração.

   Também aos discípulos de Emaús que não ACREDITAVAM que Cristo havia ressuscitado, Nosso Senhor lhes diz: Ó estultos e TARDOS DE CORAÇÃO para CRER tudo o que anunciaram os profetas! (Lucas XXIV-25). Tratava-se de DAR CRÉDITO às profecias e ficar certos da ressurreição do Mestre; mas o coração deles era duro e ronceiro demais para chegarem até a convicção de que Jesus havia de fato ressuscitado.

   E a prova de que a fé se processa na inteligência, mas nasce do coração, nós a temos nos judeus do tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo: mesmo depois de tantos milagres, depois da própria ressurreição do Mestre, NÃO ACREDITARAM. É que o seu coração estava endurecido e cheio de maldade.

   Não faltam hereges nos dias de hoje que, apesar de se dizerem cristãos, ainda mesmo que tivessem presenciado, se fora possível, todos os milagres de Lourdes e Fátima, verificados desde o princípio até os nossos dias, mesmo assim NÃO ACREDITARIAM na Igreja Católica, tal é o ódio, a má vontade, a obstinação, a teimosia que anda lá pelo seu coração. 

   O que é fato, portanto, é que o ponto de partida para a salvação é o ato pelo qual o homem se dispõe, com a graça de Deus a ACREDITAR tudo o que o Divino Mestre ensinou e que Ele depois encarregou a sua Igreja de transmitir a todos os povos.