segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O CORAÇÃO IMACULADO DE MARIA SANTÍSSIMA

   A devoção a este Coração Puríssimo tem por finalidade honrar o amor de Maria Santíssima encerrado porém no seu coração como em vaso precioso. O seu amor é a joia e o seu coração o cofre que a encerra. Na verdade, todo ato de culto tributado ao Coração de Maria, é um ato que abrange toda a sua pessoa.

   Consultando o Dicionário Bíblico pude verificar que o Divino Espírito Santo nas Sagradas Escrituras emprega a palavra "coração" por mais de 600 vezes. Julgo, no entanto, suficiente citar uma única passagem: "Praebe, fili mi, cor tuum mihi" (Prov. 23, 26). Em Português: "Dá-me, meu filho, o teu coração". Com esta palavra, Deus está pedindo todo o nosso ser.

   Beijamos a mão de um superior, mas sabemos que com este gesto queremos demonstrar o nosso respeito e afeto a toda a sua pessoa e não apenas à sua mão. Assim, comparando, ao honrarmos, ao prestarmos um culto de veneração ao Coração de Maria Santíssima, temos em vista honrar  toda a grandeza e santidade de sua pessoa. Queremos honrar e venerar sobretudo o seu amor do qual o coração é símbolo. Olhemos para o Coração de Nossa Mãe do Céu e não esqueçamos que ela é também Mãe de Deus. Deus empregou o sua onipotência, a sua sabedoria e todo o seu amor ao preparar o Coração de Sua Mãe Santíssima. É a obra-prima saída das mãos de Deus Onipotente. Se Maria Santíssima havia de amar a Deus e aos homens com um amor só inferior ao de Deus, como seria o coração que encerraria tal amor? 
   O coração de carne de Maria Santíssima (objeto material desta devoção) foi o instrumento de que se valeu o Espírito Santo para a Encarnação. Daquele Coração puríssimo e imaculado, brotou o sangue preciosíssimo de que se formou o corpo sacrossanto e até o próprio Coração Sacratíssimo de Jesus! Ali formou o Altíssimo aquele sangue que Jesus havia de oferecer na cruz pela salvação da humanidade.

   Não podemos conceber nenhum mistério da vida da Santíssima Virgem ao qual não correspondam neste Coração novas pulsações. O Coração Imaculado de Maria era o órgão sensível do seu amor, como instrumento que recebia todas as impressões do corpo e da alma para se transformar em amor, para se abrasar cada vez mais no fogo do amor de Deus e do próximo. Por isso o representamos encimado de chamas.

 Caríssimos, na verdade a devoção ao Imaculado Coração de Maria é o melhor caminho , a melhor preparação para a prática da devoção ao Coração de Jesus. "Eis o Coração que tanto amou os homens", disse Jesus, para nos incitar ao seu amor. Pois bem, depois do de Jesus, nenhum coração nos amou como o de Maria, nenhum coração pode servir-nos de modelo como o de Maria. Portanto, a devoção ao Coração de Jesus, exige uma devoção terna ao Coração da Santíssima Virgem. E esta é a vontade de Deus. Daí, estes dois Corações, o de Jesus digno de toda veneração e também adoração na Eucaristia; e o de Maria, digno não de adoração mas de uma veneração toda especial, isto é, digno de uma hiperdulia, devem estar sempre juntos. Esta é a vontade de Deus. Neste particular podemos também dizer: "Não separe o homem o que Deus uniu". Como disse São Luiz Grignon de Montfort: "Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele deve reinar no mundo". Assim podemos dizer que o próprio Deus deseja que o Sacratíssimo Coração de Jesus reine no mundo através do Imaculado Coração de Sua Mãe Santíssima. Devemos, pois, pedir ao Coração Imaculado da Santíssima Virgem que nos ensine a conhecer e a amar o Coração Divino de Jesus.

   Sabemos pela Sagrada Teologia que Maria Santíssima, pela sua dignidade de Mãe de Deus, foi introduzida na participação do mesmo Deus, quanto isso é permitido a uma pura criatura.  Filha predileta de Deus Pai; Mãe amorosíssima de Deus Filho; Esposa santíssima e fidelíssima do Divino Espírito Santo. Teve um período na vida de Maria Virgem e Mãe em que realmente a vida de Deus era a vida de Maria. O Coração de Deus pulsava pelos impulsos do Coração de sua Mãe Santíssima. E, por isso era tal a união entre os dois Corações, que viviam uma vida perfeitamente comum.

    O único Coração que ama a Deus com o amor que merece é o Coração Sacratíssimo de Jesus, e depois, mas juntamente com Ele e por Ele, o puríssimo Coração de Maria Santíssima. A sempre Virgem Maria poderia dizer com muito mais razão e propriedade do que São Paulo: "Vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus que vive em mim". Aí fica patente a santidade do Coração de Maria! Pois, a santidade consiste na participação de Deus, no amor que transforma a alma em Deus, em chegar a ser uma verdadeira imagem de Deus. O Coração de Maria é o tabernáculo da divindade, o templo vivo onde Deus se dignou fixar a sua morada. Donde, tudo neste Coração é santo, nada há nele, até o mais imperceptível movimento, que o não seja: pensamentos, desejos, amores, palavras, obras, tudo, tudo é santo. Digno Coração da digna Mãe de Deus! E toda língua se cale! E se o Coração de Maria Santíssima é santo com a santidade participada de Deus, é também formosíssimo com a beleza de Deus. Santo Agostinho define a beleza como: O esplendor da ordem". Haverá ordem no coração e em todo o nosso ser, quando se seguir a vontade de Deus, manifestada interiormente pelos impulsos da graça e pelas inspirações divinas. Tudo que Deus fez era bom, estava tudo em ordem. Reinava a paz. O pecado trouxe a desordem. O coração humano abusando do poder da sua vontade, e do dom da sua liberdade, desprezou esta ordem divina e passou a viver em contínua desordem.  Pois bem! O Coração de Maria é puríssimo e imaculado desde o primeiro instante de sua existência. Que ordem, que paz, que beleza, que simplicidade reúnem-se no Coração Imaculado de Maria! No Coração de Maria Santíssima temos o modelo que Deus nos concede, não só para que o admiremos, mas sobretudo para o imitarmos. 
Imagem de Nossa Senhora das Dores
Encontra-se na 13ª estação da Via-Sacra,
no Monte Calvário. Foi doada, assim como grande parte
dos presentes em ouro e pedras preciosas, por D. Maria I
 Rainha de Portugal.
   Mas o Coração de Maria tinha de ser um Coração de Mãe, mas de Mãe Dolorosa. Seu Coração aparece sempre trespassado por uma espada cruel e penetrante. Representamo-lo também cercado de rosas. Mas não esqueçamos que debaixo das rosas estão os espinhos. Segundo as profecias, Jesus devia ser o Homem das dores. Como foi da vontade de Deus que sua Mãe fosse Corredentora, assim ela devia ser também a Mãe das dores. Não devia sofrer em seu corpo tormentos físicos; e por isso todos os sofrimentos se lhe acumularam forçosamente no Coração. De acordo com os Santos Padres, todos os padecimentos sofridos por Jesus em seu Corpo Sacrossanto, sofreu-os Maria todos, um por um, no seu Coração Imaculado de Mãe. Como uma sacerdotisa, estava de pé junto à cruz de seu Divino Filho, oferecendo-O, segundo a vontade do Pai, como vítima pela salvação dos homens; oferecendo em consequência, igualmente o seu Coração Imaculado para ser transpassado por aquela espada de dor predita pelo velho Simeão, para que desta ferida aberta na sua alma, nascêssemos todos nós, os filhos de sua dor. Diante de seus olhos, Jesus foi morrendo aos poucos derramando gota a gota, todo o seu sangue. E, assim, vendo extinguir-se a Vida que ela gerou sem dor, deu-nos a vida, gerando-nos na dor.  Nossa Senhora é nossa  Mãe espiritual. O amor de seu Puríssimo Coração por nós, é amor de mãe. Sabemos o que isto significa. Tudo o que na terra é amor, está compendiado no coração de uma mãe. O próprio Deus, quando quer falar do seu amor aos homens e que estes saibam até onde chega o seu amor,compara-se a uma mãe: "Será possível a uma mãe esquecer o seu filho"? O coração de mãe é como um  oceano de amor que não tem limites.

   E, caríssimos, quem mais mãe do que a Virgem Santíssima? Se é Mãe de Deus!!! e mãe de todos os homens, como será então os seu Coração? Que amor nele haverá!!! Há sim maravilhas infinitas! Depois, devemos considerar que o Filho de Deus era exclusivamente seu filho, sem intervenção de nenhuma outra paternidade, além da de Deus; por isso é mais mãe que nenhuma outra mãe: Deus e Ela, ninguém mais interveio nesta admirável maternidade. Mãe alguma pode dizer com maior razão do que Ela, ao estreitar o filhinho sobre o coração: "és meu e todo meu".
   E nunca certamente o Coração de Maria esteve separado em seu amor, do de seu divino Filho! Ele foi principalmente o objeto do seu amor. Mas n'Ele e com Ele e também num sentido certo e verdadeiro, éramos outrossim seus filhos. Que amor do seu Coração maternal para conosco! Na verdade, com o seu fiat na Anunciação Maria aceitou ser Mãe de Deus e Mãe nossa. Sabendo que esta era a vontade de Deus, o seu Coração amantíssimo abraça-se com as duas maternidades .   Deus é nosso Pai amantíssimo e bondoso. O Coração misericordiosíssimo da Santíssima Virgem é efeito desta bondade e deste amor de Deus para com os homens. É um Coração compassivo que sente como próprias as necessidades e misérias alheias; um Coração misericordioso que chora com os que choram, sofre com os que sofrem e também alegra-se com os que estão alegres. Basta pensarmos nas Bodas de Caná, na visita a sua prima Santa Isabel, no Calvário, no Cenáculo após a Ressurreição e Ascensão de Jesus.  Que exemplo maravilhoso de bondade! O Coração de Maria Santíssima nunca desanima, nem se cansa. Espera sempre, confia sempre em poder remediar a situação dos filhos. Como que voa por toda parte fazendo o bem!
   Maria Santíssima é a Onipotência Suplicante e emprega-a total e generosamente para socorrer os seus filhos. E a compaixão de Seu Coração nunca é inútil, como acontece frequentemente com as outras mães que desejam fazer o melhor pelos seus filhos, mas não sabem ou não podem.
   E o mais admirável é que esta misericórdia maternal de Nossa Senhora não terminou com a morte, como sucede com a das mães terrenas. Agora que está no céu o seu Coração é o mesmo. Se alguma mudança sofreu no Céu o Coração de Maria, foi para ser ainda mais compassiva, mais clemente e misericordiosa para se aproveitar melhor da sua condição de Imperatriz em favor dos degredados filhos de Eva.

   "CORAÇÃO IMACULADO DE MARIA! SEDE A NOSSA SALVAÇÃO JUNTO AO CORAÇÃO DE JESUS! AMÉM!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DOGMA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA: PAPA PIO XII - (1950)

   Apresentamos alguns excertos da CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA "MUNIFICENTISSIMUS DEUS".
   "Nestes nossos tempos refulgiu com luz mais clara o privilégio da Assunção corpória da Mãe de Deus.
   Este privilégio brilhou com novo fulgor quando o nosso Predecessor de imortal memória, Pio IX, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato, estes dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com o própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por este motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa.
   Mas Deus quis excetuar desta lei geral a Bem-aventurada Virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua Conceição Imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos.
   "A razão primária e fundamental diziam (os teólogos) ser o amor filial de Cristo para o levar a querer a Assunção de Sua Mãe ao céu. E advertiam mais , que a força dos argumentos se baseava na imcomparável dignidade da sua maternidade divina em todas as graças que dela derivam: a santidade altíssima que excede a santidade de todos os homens e anjos, e íntima união de Maria com o Seu Filho, e sobretudo o amor que o Filho consagrava à Sua Mãe digníssima...
   Os doutores escolásticos vislumbram igualmente a Assunção da Mãe de Deus não só em várias figuras do Antigo Testamento, mas também aquela mulher, revestida de sol, que o Apóstolo São João comtemplou na Ilha de Patmos (Apoc. XII,1 e segs.). Porém, entre os textos do Novo Testamento, consideraram e examinaram com particular cuidado aquelas palavras: "Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres" (S. Luc. I, 28), pois viram no mistério da Assunção o complemento dquela plenitude de graça, concedida à Santíssima Virgem, e uma bênção singular contraposta à maldição de Eva.
   ..."Na festa da Assunção, Santo Antônio de Pádua, ao comentar aquelas palavras de Isaías "glorificarei o lugar dos meus pés (Is. LX, 13), afirmou com segurança que o Divino Redentor glorificou de modo mais perfeito a sua Mãe amantíssima, da qual tomara carne humana. "Daqui vê-se claramente, diz, que o corpo da Santíssima Virgem foi assunto ao céu, pois era o lugar dos pés do Senhor". Pelo que escreve o Salmista: " Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santificação". E assim como, acrescenta ainda, Jesus Cristo ressuscitou triunfante da morte e subiu para a direita do Pai, assim também "ressuscitou a Arca da sua santificação, quando neste dia a Virgem Mãe foi assunta ao tálamo celestial".
   ..."Saõ Bernardino de Sena diz que a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo, - semelhança que nem sequer nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos Céus, - exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Crsito". Outro argumento dado por São Bernardino: "O fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da Santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível da Assunção".
   "São Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não o levava para o céu?" E Santo Afonso escreve por sua vez: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em Seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que Ele mesmo tomara a própria carne".
DEFINIÇÃO DO DOGMA
   "Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a luz do Espírito de Verdade, para glória de Deus Onipotente que à Virgem Maria concebeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da Sua augusta Mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: A IMACULADA MÃE DE DEUS, A SEMPRE VIRGEM MARIA, TERMINANDO O CURSO DA VIDA TERRESTRE, FOI ASSUNTA EM CORPO E ALMA À GLÓRIA CELESTIAL".
  
   Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta Nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

domingo, 7 de agosto de 2016

AVISO

Ainda preciso continuar minhas consultas e exames médicos. Agradeço as orações. Peço a caridade de vossas orações especialmente nesta semana em que cuidarei da saúde da alma, ou seja, pela graça de Deus, farei um Retiro Espiritual.
Obrigado!
Padre Elcio Murucci

UMA TRELA DE LUTERO

2º - NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS



   Passamos agora ao versículo da Epístola aos Romanos: 
   
   Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei (Romanos III-28). 

   Antes de fazermos o comentário sobre este versículo, queremos relembrar um pequeno episódio da vida de Lutero. Lutero fez a tradução da Bíblia para o alemão, aliás numa linguagem clássica e elegante, que exerceu profunda influência sobra a língua e literatura alemãs, pois ele era de fato um grande escritor. Mas, na sua tradução, esteve longe de mostrar-se consciencioso. Fez maliciosas alterações na Bíblia, levado pelo seu sectarismo. Os nomes com que o povo designava os sacerdotes católicos e as suas vestes, Lutero na Bíblia os aplicou aos sacerdotes idólatras. Usou no Antigo Testamento a palavra - Igreja - para designar os lugares em que se adoravam os ídolos, e no Novo Testamento substituiu a palavra Igreja, quando designava a Igreja de Cristo, pela palavra - comunidade.

   Onde a Bíblia traz a palavra JUSTO, ele tomou como norma substituí-la pela palavra PIO, explicando que PIO quer dizer que tem fé, isto para favorecer à sua teoria de que ninguém pode ser justo, apenas podemos ter uma justiça exteriormente imputada, atribuída a nós por Deus que nos considera justos, embora realmente não o sejamos. 

   Onde se lê: A lei obra ira (Romanos IV-15), ele acrescentou a palavra SOMENTE: A lei obra somente ira.

   Neste versículo de que ora tratamos, Lutero, para ajustá-lo à sua doutrina, acrescentou também a palavra SOMENTE e assim traduziu: Concluímos, pois, que o homem é justificado sem as obras da lei, SOMENTE pela fé. 

   Um católico reclamou contra o acréscimo desta palavra SOMENTE que não estava no texto. E Lutero assim respondeu numa carta dirigida a Link: "Se o nosso novo papista quiser importunar-nos por causa da palavra SOMENTE, responde-lhe logo: assim o quer o Doutor Martinho Lutero que diz: papista e burro são a mesma coisa. Assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão" (Weimar XXX 2 Abt 635).

   E a frase de Lutero: Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas - assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão - que aliás, já era tomada de um escritor pagão, ficou célebre para indicar que uma pessoa se obstina numa opinião ou numa atitude, mesmo sabendo que está errada, como se diz também em português: É de pau, porque eu quero; é de pau, e bem bonito; é de pau, e tenho dito. (Extraído do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

sábado, 6 de agosto de 2016

O PENSAMENTO PAULINO E A DOUTRINA CATÓLICA


   Finalmente vamos provar a identidade do pensamento de São Paulo com a doutrina da Igreja. Já mostramos, no capítulo 2º, que segundo a doutrina católica, para a nossa salvação, são necessárias três coisas: uma é a FÉ, pois quem não crer será condenado. Outra são as nossas OBRAS, pela GUARDA DOS MANDAMENTOS. Outra, por fim, é a GRAÇA DE DEUS, que tanto é necessária para termos fé, como também é necessária para se fazer qualquer obra boa meritória para a vida eterna, pois sem a graça de Cristo nada podemos fazer.

   Vejamos agora este trecho de São Paulo nesta Epístola aos Gálatas. Em Jesus Cristo nem a circuncisão, vale alguma coisa, nem o prepúcio; mas sim a FÉ que obra por caridade (Gálatas V-6). Sempre a mesma preocupação de mostrar que a circuncisão já não tem valor; o que tem valor é a fé, mas não a fé morta, a fé sem as obras e sim a fé que opera pela caridade.

   Vejamos agora mais este outro versículo desta mesma Epístola aos Gálatas: Em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão valem nada, mas o ser uma NOVA CRIATURA (Gálatas VI-15). São Paulo, que, no versículo há pouco citado, mostrou o valor da FÉ, mas a fé que opera pela caridade, agora mostra o valor da graça. A nova criatura de que ele fala é o homem revestido da graça, o homem elevado a uma grandeza sobrenatural e que assim foi objeto de uma nova criação espiritual feita por Deus. Esta graça nos vem pelos sacramentos, a começar pelo Batismo que produz em nós uma verdadeira renovação espiritual: Todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo (Gálatas III-27).

   Agora confrontemos estes dois versículos em que São Paulo nos diz que o que tem valor diante de Deus é a fé, o que tem valor diante de Deus é a graça, que faz do homem uma nova criatura, com este versículo também de São Paulo, na 1ª Epístola aos Coríntios: A circuncisão nada vale, e o prepúcio nada vale; senão A GUARDA DOS MANDAMENTOS (1ª Coríntios VII-19).

   Assim se completam, segundo o pensamento de São Paulo, os três elementos indispensáveis para a salvação, de acordo com a doutrina católica: a fé, a graça e a guarda dos mandamentos. 

   Isto não impede o próprio São Paulo de resumir o problema da nossa salvação numa só palavra: O homem é justificado pela fé em Cristo. A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GRAÇA que nos vem pelos sacramentos, pois a fé é aceitar toda a doutrina de Cristo e Cristo disse: Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus (João III-5). Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós (João VI-54). Cristo nos mostra como nos vem o perdão dos pecados: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos (João XX-23). 

   A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GUARDA DOS MANDAMENTOS, pois a fé é aceitar a doutrina de Cristo, e Cristo disse: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). (Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A LUTA CONTRA OS JUDAIZANTES NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   Continuando na sua obra dissolvente, os judaizantes procuram induzir os Gálatas à profissão de judaísmo. E como São Paulo se lhes opõe vivamente, eles procuram diminuir a autoridade do Apóstolo, fazendo ver que ele não era como os outros, não tinha convivido com o Mestre, e assim não tinha o mesmo valor que os outros Apóstolos.

   É contra eles que São Paulo escreve sua Epístola aos Gálatas a qual, do princípio ao fim, se refere a esta questão. Logo no primeiro versículo vai São Paulo defendendo a sua autoridade que os adversários procuram diminuir: Paulo Apóstolo, não pelos homens, nem por algum homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que O ressuscitou dentre os mortos (Gálatas I-1). E logo depois da saudação de costume, ele começa: Eu me espanto de que, deixando aquele que vos chamou à graça de Cristo, passáveis assim tão depressa a outro Evangelho; porque não há outro, se não é que há alguns que vos perturbam e querem transformar o Evangelho de Cristo. Mas ainda quando nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja anátema (Gálatas I-6 a 8). 

   Este Evangelho diferente, de que fala São Paulo, é a doutrina daqueles que queriam obrigar os cristãos convertidos dentre os gentios a serem circuncidados; e um dos argumentos de que usa para mostrar como estão errados, é o seguinte: Ele esteve conferindo a sua doutrina com os outros Apóstolos e levou consigo a Tito, mas nem Tito foi impelido a circundar-se: Comuniquei com eles o Evangelho que prego entre os gentios, e particularmente com aqueles que pareciam ser de maior consideração, por temor de não correr em vão, ou de haver corrido. Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi compelido a que SE CIRCUNCIDASSE (Gálatas II-2 e 3).

   Basta ler com atenção a Epístola para se ver como o que São Paulo está condenando aí não é a doutrina católica de que a observância dos mandamentos, ou seja, a caridade para com Deus e com o próximo, seja necessária para a salvação. Esta é também a doutrina de Jesus, como provamos n capítulo 4º, e, consequentemente, a doutrina de São Paulo.

   O que São Paulo condena é a heresia daqueles que, mesmo depois do que foi decidido pelos Apóstolos no Concílio de Jerusalém, ainda ensinam que para o homem ser um justo perante Deus, é necessária a observância daquelas cerimônias e prescrições da lei mosaica, a começar pela circuncisão.

   Vejamos estas passagens da nossa Epístola aos Gálatas: Olhai que eu, Paulo, vos digo que se vos fazeis CIRCUNCIDAR, Cristo vos não aproveitará nada. E de novo protesto a todo homem que se CIRCUNCIDA que está obrigado a guardar TODA A LEI. Vazios estais de Cristo os que vos justificais pela LEI: decaístes da graça (Gálatas V-2 a 4).

   Todos os que querem agradar na carne, estes vos obrigam a que vos CIRCUNCIDEIS, só por não padecerem eles a perseguição da cruz de Cristo. Porque estes mesmos que SE CIRCUNCIDAM não guardam a lei; mas querem que  vos CIRCUNCIDEIS, para se gloriarem na vossa carne (Gálatas VI- 12 e 13). 

   E a conclusão a que chega São Paulo é que agora na religião de Cristo não há mais nenhuma distinção entre os que são circuncidados e os que não são, entre os judeus e os gentios; Não há JUDEU NEM GREGO, não há servo, nem livre, não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Jesus Cristo (Gálatas III-28).

   São Paulo continua a considerar a prática dos 10 mandamentos como necessária à salvação, é o que se vê claramente na sua enumeração das obras da carne (Gálatas V-19 a 21) entre as quais ele inclui a impureza (pecado contra o 6º mandamento), a idolatria (contra o 1º), os homicídios (contra o 5º), as contendas, as invejas, as iras, as brigas que são contra a caridade para com o próximo, e finda dizendo: os que tais coisas cometem não possuirão o reino de Deus (Gálatas V-21). (Extraído do Livro "Legítima Interpretação da Bíblia", autor: Lúcio Navarro).



   

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

INCIDENTE ENTRE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

1º - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   São Pedro em Antioquia estava convivendo com os gentios, comendo de todos os alimentos que eles comiam, mesmo dos que tinham sido proibidos aos judeus, quando chegaram os judeus que tinham ido falar com São Tiago. Depois da chegada deles, São Pedro começou a retrair-se, a afastar-se dos gentios, temendo ofender aos que eram circuncidados (Gálatas II-12). No dilema em que se havia colocado, São Pedro achou que, tendo-se encarregado especialmente da pregação aos judeus, enquanto São Paulo o era da pregação entre os gentios, cabia-lhe em primeiro lugar evitar o desgosto da parte dos judeus. Não previu, porém, as consequências do seu retraimento. Sendo o chefe da Igreja, tendo tanta autoridade que o próprio Barnabé, apesar de companheiro de São Paulo, apesar de ser um dos campeões na luta contra os judaizantes (Atos XV-2), começou a seguir-lhe o exemplo, a sua atitude bem podia ser explorada pelos partidários da circuncisão obrigatória. São Paulo resolveu então adverti-lo do mal que estava fazendo com isto: eu lhe resisti em face, porque era repreensível (Gálatas II-11) e reclamar contra aquela simulação (Gálatas II-13). A verdade é que simulação maior do que esta fez o próprio São Paulo, entrando no templo de Jerusalém para submeter-se a uma purificação e apresentando-se como uma espécie de padrinho para os quatro nazarenos (Atos XXXI-26), o que, aliás, não deu resultado, porque os judeus findaram sempre revoltando-se contra ele; maior, porque a atitude de São Pedro foi apenas negativa; retraiu-se do convívio com os gentios. O que agravava a situação era a exploração que os judaizantes podiam fazer do caso, perigo este que foi previsto por São Paulo, antes que São Pedro o percebesse. 

   São Pedro recebeu humildemente a advertência de São Paulo, achou que ele tinha razão e encerrou-se o incidente. A respeito disto diz São Gregório Magno: "Calou-se Pedro, para que aquele que era o primeiro na culminância do apostolado, fosse também o primeiro na humildade" (Homilia 18 in Ezechielem). E Santo Agostinho assim comenta: "Pedro aceitou com santa e piedosa humildade a observação que utilmente lhe fizera Paulo, inspirado pela liberdade do amor, deixando assim aos pósteros o raro exemplo de não se dedignarem em ser corrigidos pelos inferiores, onde quer que se desviassem do reto caminho; exemplo mais raro e mais santo que o deixado por Paulo aos inferiores que, por defender a verdade evangélica, ousassem resistir confiadamente, salvando-se, porém, a verdade... Em Paulo louvemos a justa liberdade; em Pedro a santa humildade" (Epístola 19 ad Hieronymum). 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A QUESTÃO DOS JUDAIZANTES (continuação)

   1º. - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   Acontecia, porém, que para os judeus nascidos e criados entre aqueles costumes da lei mosaica, embora a lei já estivesse morta, para eles não se considerava grande mal que a cumprissem, enterrando-a com honras. Cumpriam uma coisa que não lhes era imposta, não porque se considerassem obrigados a isto, mas por uma questão de hábito ou por um motivo qualquer de conveniência. Isto fez o próprio São Paulo, o qual vimos, há pouco, dizer: E me fiz para os judeus, como judeu, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se eu estivera debaixo da lei (não me achando eu debaixo da lei) por ganhar aqueles que estavam debaixo da lei (1ª Coríntios IX-20 e 21). Assim procedeu São Paulo, por exemplo, no caso de Timóteo, como vem narrado nos Atos XVI-1 a 3). Paulo sabia muito bem que a circuncisão não era mais obrigatória, mas querendo utilizar em prol da Igreja os bons serviços de Timóteo, que era filho de pai gentio com mãe judia, tomando os discípulo, o circuncidou por causa dos judeus que havia naqueles lugares (Atos XVI-3); assim Timóteo teria mais prestígio para conquistar os judeus ao reino de Cristo, porque podiam os judeus não lhe dar muita autoridade, sendo um incircunciso a serviço do Evangelho. Outro caso, em que São Paulo obedece a prescrições da lei mosaica, mesmo sabendo-se não sujeito a ela, se lê nos Atos, XXI. São Paulo chega a Jerusalém. Os anciãos o advertem: Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus são os que têm crido e todos são zeladores da lei. E têm ouvido de ti que ensinas aos judeus que estão entre os gentios que deixem a Moisés, dizendo que eles não devem circuncidar a seus filhos, nem andar segundo o seu rito (Atos XXI-20 e 21). Com o pensamento de conquistar as graças dos judeus, São Paulo concorda em entrar no templo de Jerusalém, juntamente com quatro varões que têm voto sobre si (Atos XXI-23) e submeter-se com eles a uma cerimônia judaica, embora sabendo que a lei de Moisés não estava mais em vigor: Então Paulo, depois de tomar consigo aqueles varões, purificado com eles, no seguinte dia entrou no templo, fazendo saber o cumprimento dos dias da purificação, até que se fizesse a oferenda por cada um deles (Atos XXI-26).

   Apesar do que foi decidido no Concílio de Jerusalém, obstinam-se alguns judeus convertidos na sua tarefa de induzir os gentios a professar o judaísmo juntamente com a Religião Cristã, ensinando que eles não podiam salvar-se sem a observância da lei mosaica. 

  A questão vai tomando assim um aspecto mais grave. Que os judeus já acostumados a observar a lei mosaica, embora estivessem agora livres da lei, continuassem temporariamente a observá-la, para sepultar com honras esta lei que já estava morta, não era tão grande mal. Mas querer obrigar os gentios, que a esta lei nunca estiveram sujeitos, que não eram da raça judaica, a se circuncidarem, a fazerem profissão de judaísmo juntamente com a de Cristianismo, era um erro muito grave. Equivalia a ensinar que o homem não pode justificar-se diante de Deus sem as obras da lei mosaica, quando a Religião Cristã ensinava que o judaísmo está abolido e não se deve admitir outra religião, a não ser a fé cristã. Assim, se a lei para os judeus estava morta, para os gentios ia tornar-se mortífera. Querer obrigar os gentios à observância da lei, como condição para salvar-se, era o erro dos HEREGES JUDAIZANTES. 

   E o pior é que invocavam a autoridade dos Apóstolos que, que, uma vez ou outra, obedeciam à lei de Moisés, embora soubessem não ser obrigados a isto. Os Apóstolos estavam assim num dilema. Se se mostravam muito intransigentes com os judeus, que já estavam tão habituados a observar a lei mosaica, ofendiam os judeus e os afastavam de si. Se condescendiam com eles, davam margem a que os judaizantes apontassem o seu exemplo para ensinar que a observância da lei mosaica era necessária para a salvação e a prova é que os Apóstolos também a observavam. Foi isto que deu origem em Antioquia ao incidente entre São Paulo e São Pedro. (Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro). 
                                    É o que veremos no próximo post, se Deus quiser. 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

MÁXIMAS DE SANTO AFONSO M. DE LIGÓRIO

   "Para viver sempre bem, diz Santo Afonso, é preciso que gravemos profundamente no espírito certas máximas gerais de vida eterna:
   "Todas as coisas deste mundo acabam, o gozo e o sofrimento; mas a eternidade nunca tem fim".

   "De que servem no momento da morte, todas as grandezas deste mundo?"

   "Tudo o que vem de Deus, ou próspero ou adverso, é bom e para nosso bem".

   "É preciso deixar tudo para ganhar tudo."

   "Sem Deus não se pode ter verdadeira paz".

   "Só é necessário amar a Deus e salvar a alma".

   "Só o pecado se deve temer".

   "Perdido Deus, é tudo perdido".

   "Quem nada deseja deste mundo, é senhor de todo o mundo".

   "Quem reza se salva; quem não reza perde-se".

   "Morra-se, mas dê-se gosto a Deus".

   "Custe Deus o que custar, nunca nos sairá caro".

   "Para quem mereceu o inferno, toda pena é leve".

   "Tudo sofre quem considera Jesus na cruz".

   "O que não se faz por Deus, tudo redunda em pena".

   "Quem só quer a Deus, é rico de todos os bens".

   "Ditoso daquele que pode dizer do coração: Meu Jesus, só a Ti quero, e nada mais".

   "Quem ama a Deus, em todas as coisas achará prazer; quem não ama a Deus, em nenhuma coisa encontrará verdadeiro prazer".

   "QUEM REZA SE SALVA; QUEM NÃO REZA SE CONDENA".

A QUESTÃO DOS JUDAIZANTES (continuação)

1º. - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   Mas aconteceu que vindo alguns da Judeia, ensinavam assim aos irmãos: Pois se vos não circuncidais segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos. E tendo-os movido uma disputa não mui pequena de Paulo e Barnabé contra eles, sem os convencer, resolveram que fossem Paulo e Barnabé e alguns dos outros, aos Apóstolos e aos presbíteros de Jerusalém, sobre esta questão (Atos XVI-1 e 2).

   Reunidos os Apóstolos e presbíteros no Concílio de Jerusalém, quando está mais acesa a discussão sobre o assunto, depois de se fazer sobre ele um grande exame (Atos XV-7), Pedro levanta-se e mata a questão. Deus não fez diferença alguma entre os judeus e os gentios, dando também a estes últimos o Espírito Santo. E com a palavra decisiva de Pedro, acabou-se a discussão: ENTÃO TODA A ASSEMBLEIA SE CALOU (Atos XV-12). Falam Paulo e Barnabé contando quão grandes milagres e prodígios fizera Deus por intervenção deles nos gentios (Atos XV-12).

   Levanta-se por fim São Tiago, para mostrar como a decisão de São Pedro concordava com o que tinham anunciado os profetas e para fazer também uma proposta; proposta que é aprovada, porque pareceu bem aos Apóstolos e aos presbíteros, com toda a Igreja (Atos XV-22).

   A proposta de Tiago é a seguinte:

   1º Que se mande aos cristãos que se abstenham de comer das carnes sacrificadas aos ídolos.

   Era costume entre os gentios separar para os sacerdotes uma parte dos animais que foram sacrificados aos ídolos. Esta carne era vendida nos mercados e às vezes com elas se faziam banquetes. Aos cristãos convertidos do gentilismo se manda que se abstenham de tais banquetes, afim de não escandalizarem os judeus, para quem tais carnes eram abominação e também pelo perigo de recaírem na idolatria ou de parecerem aos idólatras como coniventes com o seu culto. 

   2º Mande-se que se abstenham da fornicação, porque os gentios pensavam erradamente que a simples fornicação (sem adultério) não era pecado, e parece até que juntavam a fornicação a esses banquetes feitos com carnes dos sacrifícios; é, pelo menos, o que se insinua em Números XXV-1 e 2: Neste tempo estava Israel em Selim, e o povo caiu em fornicação com as filhas de Moab, as quais os chamaram para os seus sacrifícios; e eles comeram e adoraram os deuses delas. É claro que a fornicação é proibida de qualquer maneira na lei cristã. 

   3º Mande-se que não comam nem o sangue, nem os animais sufocados.
   
   Os antigos, mesmo os gentios, tinham horror a este ato de comer o sangue; parecia-lhes isto uma demonstração de selvageria, à imitação dos cães que lambem o sangue dos animais.

   Depois, com o tempo, feita a verdadeira fusão entre os judeus e os gentios no seio da Igreja, desparecidas aquelas ideias antigas, esta proibição caiu em desuso, uma vez que cessava o motivo pelo qual havia sido feita, isto é, evitar a aversão mútua entre gentios e judeus. É interessante notar neste ponto como os protestantes, que só admitem aquilo que está na Bíblia, deveriam ainda hoje obedecer a esta lei e no entanto comem a carne dos animais sufocados, como é a carne de boi que se vende nos nossos açougues, e comem o sangue dos animais. Deveriam fazer como fazem ainda hoje os judeus: matar as galinhas por um processo todo especial e deixar escorrer todo o seu sangue; pois a Bíblia não fala na revogação desta lei, revogação que foi feita depois pela autoridade da Igreja, pelos sucessores dos Apóstolos, quando esta lei não foi mais julgada necessária. 

   Fora as restrições propostas por São Tiago, ficou de pé o princípio de que a lei de Moisés não obrigava mais: os cristãos não estavam mais obrigados a circuncidar-se, nem àquelas purificações e cerimônias da Lei Antiga, nem a abster-se de todos aqueles alimentos considerados imundos na legislação mosaica, como a carne de porco, etc. 

Continua no próximo post.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A QUESTÃO DOS JUDAIZANTES

1º - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS

   

   Vamos citar o trecho todo da Epístola aos Gálatas: Nós somos JUDEUS por natureza e não pecadores dentre os gentios, MAS como sabemos que o homem não se justifica pelas obras da lei, senão pela fé de Jesus Cristo, por isso também nós cremos em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei não será justificada toda a carne (Gálatas II-15 e 16)

   Estas palavras se prendem à questão dos judaizantes, assunto sobre o qual versa TODA a Epístola aos Gálatas. Temos, portanto, que fazer o histórico desta questão. 

   Depois da morte de Jesus Cristo, que em vida obedeceu à lei mosaica, ficou uma dúvida entre os cristãos, que no princípio tinham sido recrutados entre os judeus: estariam eles obrigados ainda a observar a lei de Moisés? A São Pedro, como chefe da Igreja, é que cabia resolver a questão. Por isto Deus o instruiu com uma visão especial: viu o céu aberto e que descendo um vaso, como uma grande toalha suspensa pelos quatro cantos, era feito baixar do céu à terra, no qual havia de todos os quadrúpedes, e dos repteis da terra, e das aves do céu. E foi dirigida a ele uma voz, que lhe disse: Levanta-te, Pedro; mata e come. E disse Pedro; Não, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum, nem imunda. E a voz lhe tornou segunda vez a dizer: Ao que Deus purificou, não chames tu comum (Atos X-11 a 15). Estava ainda a imaginar no que quereria dizer esta visão, quando lhe batem à porta os enviados de Cornélio, um gentio, um incircunciso, que o mandava chamar à sua casa. Indo Pedro à casa de Cornélio e fazendo a sua pregação diante de Cornélio, e dos seus, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra de Deus. E se espantaram os fiéis que eram da circuncisão, os quais tinham vindo com Pedro, de verem que a graça do Espírito Santo foi também derramada sobre os gentios (Atos X-45). E São Pedro mandou que eles fossem batizados em nome do Senhor Jesus Cristo (Atos X-48). Estava evidente que Deus, para justificar o homem, para dar-lhe a graça do Espírito Santo, não exigia absolutamente a observância da lei de Moisés. (Extraído o Livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro). 

Continua no próximo post.

domingo, 31 de julho de 2016

A GRAÇA DADA "DE GRAÇA" SEGUNDO O ENSINO DE SÃO PAULO - ( 11 )

  DEPOIS DA JUSTIFICAÇÃO.

   Já vimos, pelos textos estudados, que São Paulo absolutamente não ensina A SALVAÇÃO SEM AS OBRAS. Ensina, sim, que quando estamos mortos pelo pecado e somos ressuscitados, recebendo a vida da graça, isto se dá não por merecimento das nossas obras e o motivo é muito claro: os mortos não podem merecer. Uma vez recebida a VIDA DA GRAÇA, se esta graça nos tornasse impecáveis, ou se Deus naquele mesmo segundo nos chamasse para a eternidade, então poderíamos dizer que a salvação era obra exclusiva de Deus, nela não influiriam  as nossas obras. Mas, depois de justificados pela graça, continuamos a viver. E continuamos homens livres, sujeitos a fraquezas, assaltados pelas tentações, combatidos pela concupiscência. Não nos falta a graça de Deus para nos ajudar, mas a graça não nos violenta a liberdade. Podemos cooperar com ela, conservando-nos na amizade de Deus, como podemos a ela ser rebeldes pelo pecado mortal; e se este se torna muito frequente, vem a degradação do vício que é como uma segunda natureza. Depois de recebida a graça santificante, é que a nossa alma, ramo enxertado na videira que é Cristo, pode produzir frutos para a vida eterna, mas tanto pode abundar em boas obras, como pode tornar-se infrutuosa. Está nas nossas mãos com a graça de Deus, conservar ou não o tesouro com que Deus enriqueceu a nossa alma. É esta a nossa parte, a nossa função, a influência das nossas obras, do nosso esforço, da nossa oração, da nossa vigilância, pela qual, sem desconhecer a ação de Deus, que é muito maior do que a nossa, nós contribuímos também para a nossa própria salvação.

   Deus fez tão bem feito o seu plano que, embora o cristão se salve a si mesmo, ele não pode de modo algum orgulhar-se de sua salvação. Só salva a si mesmo, depois que Deus o pôs em condições de fazê-lo; mais ainda, só salva a si mesmo, com a ajuda constante de Deus. E considerando a ação de Deus e a sua, na obra da salvação, vê que a ação de Deus é tão maior, tão mais eficiente, tão mais importante e persistente do que a sua, que seria ridícula qualquer tentativa de presunção. Se os protestantes gostam de pintar aqueles que acham que além da fé e da graça, as suas obras são necessárias para a salvação, como sendo criaturas inevitavelmente presumidas, vaidosas, que se gloriam em si mesmas:
  1.   é porque querem disfarçar a má impressão causada pela doutrina de que - só a fé é que salva, e nossas obras não influem nem direta nem indiretamente na salvação - doutrina esta que, tal qual como é enunciada, se mostra perigosa e indecente, não podendo, fora do Protestantismo, convencer a ninguém;
  2. é porque não têm ou fingem não ter uma noção exata do que é a verdadeira santidade, a qual é conseguida por meio da ação maravilhosa do Espírito Santo sobre as almas dóceis à sua graça, pois o Espírito Santo, à proporção que vai enriquecendo a alma com as mais belas virtudes, a vai tornando cada vez mais humilde, mais convicta de sua fraqueza e insuficiência;
  3. é também porque fazem uma ideia parcial e incompleta do verdadeiro mecanismo da salvação, o qual vamos tentar descrever por meio de uma alegoria [no próximo post].

A GRAÇA DADA "DE GRAÇA" SEGUNDO O ENSINO DE SÃO PAULO - ( 14 )

 UMA ALEGORIA (c).

   Agora finalizemos a alegoria.

   Afinal, depois de muitas vicissitudes, o Rei dos Céus dá por terminada a viagem. 

   Bem, - diz ao homem - Você trabalhou e se esforçou para chegar até aqui; também mostrou que confiava na minha palavra. Ora, acontece que aqui na casa de meu Pai há muitas moradas (João XIV-2). Aqui se tem que fazer justiça: Cada um receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho (1ª Coríntios III-8). Nem todos aqui têm o mesmo grau de felicidade, da mesma forma que há diferença de estrela a estrela na claridade (1ª Coríntios XV-41). Você, portanto, vai ter o grau de felicidade que lhe cabe, de acordo com o tempo que passou em viagem (pois o que Você passou na terra não se conta) e de acordo com o grau de boa vontade, de amor, de obediência, de confiança que mostrou para comigo. 

   É nesta ocasião que o homem diz:

   - O Sr. diz que o lugar que vou ter no Céu é um prêmio pelo que fiz. Eu me acanho até de ouvir falar nisto. Que é o que fiz, em comparação com o que o Sr. fez comigo? Como eu poderia subir até aqui, se o Sr. não me desse "de graça" aquele avião que par amim tão generosamente adquiriu por tão salto preço? Como eu poderia chegar até o Céu, se o Sr. não estivesse sempre ao meu lado, indicando-me o caminho, ajudando-me e confortando-me a todos os instantes? Como eu poderia sair vitorioso nesta empresa, se todas as vezes que por minha culpa fiz despedaçar-se o avião, o Sr. não me protegesse com o pára-quedas de sua misericórdia e não me desse, mais uma vez gratuitamente, outro avião para subir? O meu lugar nos Céus pode ser prêmio de meus esforços, como o Sr. diz com tanta bondade, porém mais, muitíssimo mais do que isto, deve ele ser considerado um grande benefício do Sr. para comigo.

   Não é preciso mais explicar a significação do resto. É assim o prêmio do Céu. É como se a criancinha de 3 anos que escreveu a carta, com sua Mamãe a sustentar por cima a sua mãozinha, ainda recebesse um belo prêmio pela carta enviada, que de um certo modo é também obra sua. Afinal algum merecimento teve, porque não emperrou e se prontificou a colaborar. 

   Compreenderam agora os nossos prezados amigos protestantes? É por isso que São Paulo, depois de dizer que o estipêndio, o salário, o preço do pecado é a morte, quando nós esperávamos que ele dissesse que, por sua vez, o prêmio, o estipêndio, a recompensa da virtude é a vida eterna, termina a frase de uma maneira imprevista; ele nos diz que a graça, o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Nosso Senhor Jesus Cristo: O estipêndio do pecado é a morte; mas A GRAÇA DE DEUS é a vida perdurável em Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos VI-23).

   A vida eterna, o prêmio do Céu, que está acima da nossa natureza, é uma dádiva que Deus oferece àquele que estava submerso no pecado e que passa, pela misericórdia divina, a revestir-se da graça santificante, gozando da amizade de Deus. E já é vida eterna esta graça que habita no coração do homem, mas vida eterna que precisa ainda ser mantida pela fidelidade, pela cooperação deste mesmo homem.

   Por maior que seja a nossa cooperação, se bem considerarmos toda a história da salvação de uma alma, desde o começo até o fim, em última análise o prêmio do Céu é sempre um benefício de Deus, pois Ele nos ajudou em toda a altura.

   O fato de dizermos que as nossas obras influem na salvação não nos impede de considerar a salvação um dom de Deus, dom que Ele misericordiosamente oferece a todos; nem tira o valor do sacrifício oferecido por Jesus Cristo na cruz, pois daí é que nos vieram os meios, que nunca teríamos, de nos elevarmos acima de nós mesmos, afim de conquistar o Céu. Toda a graça que os homens recebem, desde a queda de Adão até hoje, é graça de Cristo adquirida pelo seu sangue no Calvário; e por isto toda a glória dos salvos, dos santos, dos eleitos reverte em louvor e glória do próprio Cristo, o qual se fez para nós sabedoria e justiça e santificação e redenção (1ª Coríntios I-30) e sem o qual nada poderíamos fazer.

   E o fato de termos que dizer, em vista do nosso nada, da nossa insuficiência: Somos uns servos inúteis (Lucas XVII-10) não impede a Deus de nos oferecer a sua coroa de justiça: Bem está, servo BOM e FIEL; já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; ENTRA NO GOZO DE TEU SENHOR (Mateus XXV-23). Extraído do Livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro).

   

sábado, 30 de julho de 2016

EM QUE SENTIDO A SALVAÇÃO É GRATUITA


   Outro ponto, em que os protestantes ensinam uma doutrina católica, porém disfarçada com a máscara protestante, é a gratuidade da nossa salvação.

   Os Primeiros Reformadores ensinavam que A SALVAÇÃO É DADA DE GRAÇA, neste sentido de que O HOMEM NÃO PRECISA OBSERVAR OS MANDAMENTOS PARA ALCANÇAR A SALVAÇÃO. Diziam eles que esta observância dos mandamentos é impossível ao homem. Ele se salva pela confiança de que Jesus perdoa os seus pecados.

   A Igreja Católica não pode admitir que a salvação seja dada DE GRAÇA neste sentido. Isto é uma doutrina escandalosa, de péssimas consequências e que destrói a lei de Deus. 

   Que a salvação do homem seja dada gratuitamente no sentido de que o perdão de seus pecados, a sua justificação no ponto inicial, isto é, a sua passagem do estado de pecador afastado de Deus para o estado de justo com a graça santificante, seja dada ao homem gratuitamente por pura benevolência de Deus, porque o homem nunca poderia merecer este DOM SOBRENATURAL, isto admitimos. Mas que a salvação seja dada DISPENSANDO o homem de obedecer a Deus pelas suas obras, isto é que não.

   Verificado o seu erro, compreendendo agora que o homem não pode salvar-se SEM A OBSERVÂNCIA DOS MANDAMENTOS DE CRISTO e querendo ainda continuar pregando, como pregavam antigamente, que a salvação é dada TODA DE GRAÇA, que fazem os protestantes? Um arranjo contraditório.

   O Artigo 4º da Confissão de Fé dos Batistas em New Hampshire (1833) diz:

   "Cremos que a SALVAÇÃO de pecadores é INTEIRAMENTE DE GRAÇA".
E o Artigo 6º:

   "Cremos que a salvação é concedida GRATUITAMENTE a todos, segundo o Evangelho; que é o dever imediato de todos ACEITÁ-LA por meio de uma FÉ sincera, ardente e OBEDIENTE".

   Vejamos uma história, para melhor apreciarmos a ironia e desconchavo desta explicação:

   Um homem tinha mil palácios abarrotados de riquezas e tinha mil vizinhos. Disse a eles: Tenho riquezas fabulosas que chegam para Vocês todos. Cada um de Vocês vai ter um palácio riquíssimo. E vou dar, a todos e a cada um, este palácio INTEIRAMENTE DE GRAÇA. Vocês aceitam?

   - Aceitamos, sim, respondem todos. Isto é uma verdadeira maravilha. Quem é que não aceita uma pechincha destas? Um palácio cheio de riquezas e dado inteiramente de graça!

   - Pois bem, meus amigos, diz o homem riquíssimo. Já que Vocês todos estão dispostos a aceitar a minha oferta, tenho que explicar uma coisa; tenho que ensinar-lhes qual é o modo de ACEITÁ-LA. Aceitar não é só abrir a boca e dizer: Aceitamos. Para aceitar o palácio, Vocês têm que ser sempre SUBMISSOS, OBEDIENTES à minha vontade por todo o resto da vida, só fazer e dizer o que eu mandar, mesmo que isto lhes custe sacrifícios. Se não fazem assim, perdem o direito ao palácio.

   Qual é o comentário que naturalmente farão aqueles homens?

   - Sim, o Sr. tem todo o direito. Pode dar o palácio sob as condições que quiser. Mas há uma coisa: se o Sr. exige, em troca do palácio, esta total obediência, então não diga que o palácio foi dado INTEIRAMENTE DE GRAÇA.

   Quando dizem os protestantes que é nosso dever aceitar a salvação e só a aceitamos "por meio de uma fé sincera, ardente e OBEDIENTE", estão reconhecendo a verdade da doutrina católica de que NÃO BASTA A FÉ para a salvação, é preciso uma FÉ OBEDIENTE; em outros termos, é necessário prestar obediência a tudo o que Cristo ordenou e prescreveu, a tudo o que nos impõe a lei de Cristo, a lei de Deus. Aí não é salvação só PELA FÉ; é salvação pela FÉ E PELAS OBRAS, pois as obras já foram incluídas jeitosamente na fé, por meio desta palavra OBEDIENTE.

   Mas, se ensinam os protestantes esta doutrina que é legítima, então não digam que a salvação é conseguida inteiramente de graça.

   Em que parte da Bíblia viram os protestantes (que dizem só ensinar o que está na Bíblia) que a SALVAÇÃO, isto é, A NOSSA ENTRADA LÁ NO CÉU, nos é dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA?

   Será, porventura, este texto: TODOS PECARAM e necessitam da glória de Deus, TENDO SIDO JUSTIFICADOS GRATUITAMENTE  por sua graça, pela redenção que tem em Jesus Cristo (Romanos III-23 e 24)?

   O que há de mais comum é a mesma palavra na Bíblia tomar aqui e acolá um sentido diferente; por isto perguntamos: a palavra JUSTIFICADOS aí significa SALVOS, PRONTOS PARA ENTRAR NO CÉU? Não; porque, se São Paulo acabara de descrever o miserável estado moral em que se encontrava a Humanidade antes de Cristo, tanto entre os gentios, como entre os judeus e, para resumir tudo isto, diz que TODOS PECARAM e logo depois acrescenta que são justificados por meio da Redenção operada por Jesus Cristo - aí justificados não quer dizer salvos, pois São Paulo não quer dizer absolutamente que TODOS os homens estão salvos, nem muito menos que todos aqueles que pecaram outrora foram para o Céu; São Paulo aí se refere à reconciliação COLETIVA da Humanidade com Deus, a qual Jesus Cristo deixou para realizar justamente quando a Humanidade, depois de ter pecado tanto, mostrou, e bem claro, que de modo algum merecia esta reconciliação, a qual, portanto, foi realizada generosamente, espontaneamente, GRATUITAMENTE.

   SALVAÇÃO INTEIRAMENTE DE GRAÇA, onde é que está na doutrina do Evangelho?

   Que estreita é a porta e que apertado o caminho que guia para a vida e que poucos são os que acertam com ele! (Mateus VII-14). É esta a SALVAÇÃO dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA?

   Se o teu olho te escandaliza, lança-o fora; melhor te é entrar no reino de Deus sem um olho do que, tendo dois, ser lançado no fogo do inferno (Marcos IX-46). Isto é oferecer a salvação GRATUITAMENTE a todos?

   Filhinhos, quão difícil coisa é entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas! Mais fácil é passar um camelo pelo fundo duma agulha do que entrar no reino de Deus um rico (Marcos X-24 e 25). O que ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim (Mateus X-37). Se vos não converterdes e vos não fizerdes como meninos, não haveis de entrar no reino dos Céus (Mateus XVIII-3). Se a vossa justiça não for maior e mais perfeita do que a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no reino dos Céus (Mateus V-20). Chama-se a isto salvação dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA?

   Não há motivo para desânimo ou desespero. Se a salvação exige renúncias e sacrifícios, mais nuns e noutros menos, é também verdade certíssima que Deus, sendo justo e bom e sábio, não exige de ninguém o impossível: Deus é fiel, o qual não permitirá que vós sejais tentados mais do que podem as vossas forças (1ª Coríntios X-13). A cada sacrifício que se exige de nós acompanha também a graça necessária para levá-lo a efeito e a graça BEM CORRESPONDIDA eleva a criatura a um poder sobre-humano, como se viu nos mártires, como se tem visto em todos os santos. E mesmo quando a alma fraqueja e não corresponde bem à graça divina, ainda resta a misericórdia do Bom Pastor, que corre a buscar a ovelha perdida até que a ache (Lucas XV-4), ainda nos vale a benignidade do nosso Salvador que não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que ainda fumega (Isaías XLII-3).

   E depois de tantas vicissitudes, de tantas provas da divina misericórdia, a visão beatífica, que está acima da nossa natureza, vem a ser em última análise uma graça, um benefício de Deus.

   Mas pintar a salvação, a conquista do Céu, como sendo dada INTEIRAMENTE DE GRAÇA, neste sentido de que o homem não precisa também fazer jus a ela pelo seu próprio ESFORÇO PESSOAL (ajudado, é claro, pela graça divina) - isto é desvirtuar completamente os ensinos do Evangelho.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

A GRAÇA DADA "DE GRAÇA" SEGUNDO O ENSINO DE SÃO PAULO - ( 9 )

    NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS (a).

    Também à PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O ESTADO DE GRAÇA SANTIFICANTE se refere São Paulo no seguinte trecho: Ao que obra, não se lhe conta o jornal por graça, mas por dívida, mas ao que não obra e crê n'Aquele que JUSTIFICA O ÍMPIO, a sua fé lhe é imputada a justiça, segundo o decreto da graça de Deus. Como também Davi declara a bem-aventurança do homem a quem Deus atribui justiça sem obras: Bem-aventurados aqueles CUJAS INIQUIDADES FORAM PERDOADAS e cujos pecados têm sido cobertos (Romanos IV-4 a 7). São Paulo se refere à justificação do ímpio, ou seja, ao momento em que o homem ímpio passa a tornar-se um justo diante de Deus. Isto não é conquistado pela suas obras, mas por UM DECRETO DA GRAÇA DE DEUS. Exigem-se, apenas, algumas disposições da alma que São Paulo resume na palavra FÉ, porque a fé é a base, é o ponto de partida para aquelas disposições preparatórias. É claro, por exemplo, que Deus não vai perdoar o pecador que não está contrito e arrependido, mas este arrependimento já deve nascer da fé; o arrependimento que não nascesse da fé, que fosse baseado nalgum motivo natural e humano e não sobrenatural (p. ex. o ímpio se arrepende apenas porque perdeu a saúde, o dinheiro ou a liberdade) não seria suficiente para a justificação. 

   - Mas, podem objetar os protestantes, São Paulo aí não fala nem no Batismo que, segundo os católicos, é necessário para receber a graça santificante pela primeira vez, nem na Confissão Sacramental que, conforme o ensino da Igreja, é necessário para recuperar a graça santificante que já se perdeu. Fala somente na fé.

   - É fácil explicar porque São Paulo aí não fala no Batismo, nem na Confissão. São Paulo aí está falando no homem, seja ele qual for e em qualquer época, em que ele viva. A prova é que acabara de falar em Abraão, que foi justificado quando não havia Confissão, nem Batismo; mais ainda, foi justificado antes que Deus ordenasse a circuncisão (Romanos IV-10) e daí tira São Paulo um argumento contra os judaizantes, os quais pensavam que para haver justificação tinha que haver necessariamente a circuncisão, não sabiam separar uma da outra. 

   Já foi abolida a circuncisão outrora prescrita por Deus; agora em seu lugar Cristo prescreve o Batismo. Aquele que conhece a doutrina de Cristo, a fé o impele a receber o Batismo (João III-5) se ainda não o recebeu, ou a receber a absolvição sacramental, porque também assim estabeleceu Cristo (João XX-23). E a própria Igreja ensina que os pagãos que nenhum conhecimento têm da Religião Cristã podem justificar-se sem o Batismo e sem a Confissão Sacramental, pois tudo isto neles pode ser suprido pelo ato de caridade perfeita; e este ato de puro amor a Deus ou de caridade perfeita tem que nascer da fé: Sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6). A fé é sempre o PRIMEIRO PASSO para o homem que cometeu pecados ( e é o assunto de que trata São Paulo: JUSTIFICAÇÃO DO ÍMPIO) se aproximar de Deus e conseguir a regeneração.

   Falando sobre o homem, em geral seja ele qual for, desde Adão até o último homem que existir sobre a terra e não só sobre os homens que existem agora depois de Cristo haver pregado a sua doutrina (e por isto cita o que já no seu tempo dizia o Profeta Davi), ele não podia falar no Batismo, nem na Confissão, Apresenta uma fórmula geral: a fé. A fé ditará a cada um aquilo que é necessário fazer para alcançar a justificação. (Extraído do livro "Legítima Interpretação da Bíblia", autor: Lúcio Navarro). 

   Continua no próximo post.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ SEM AS OBRAS DA LEI - ( 2 )

     LEI NATURAL.

   Lei natural é aquela a que está sujeito todo o homem, mesmo que não tenha tido nenhum conhecimento da revelação feita por Deus, nem daquela que foi transmitida aos judeus por intermédio de Moisés, nem da revelação que nos veio por Nosso Senhor Jesus Cristo.

   Todo homem, mesmo que não professe nenhuma religião tem, contudo, a voz de sua consciência que lhe diz que não deve matar, nem furtar, nem levantar falso testemunho, nem desrespeitar pai e mãe, nem cometer adultério, nem atraiçoar o próximo etc. E esta voz da consciência o acusa e enche de remorsos, quando ele falta a estes preceitos naturais. Além disto, independentemente de qualquer doutrinação religiosa, a própria razão nos demonstra a existência de Deus, de um Ser Supremo que fez o Universo, pois todo efeito supõe uma causa capaz de produzi-lo. 

   Antes de Cristo, os gentios, que não conheciam a lei de Moisés, estavam sob este regime da lei natural, como estão ainda hoje os pagãos que nunca tiveram conhecimento de Jesus Cristo. De todos estes, tanto se pode dizer que têm a lei de Deus impressa nos seus corações pela voz da consciência, como se pode dizer também que estão sem lei, desde que se tome a palavra - lei - no sentido mais rigoroso do termo, ou seja lei escrita nos livros ou nos monumentos, lei promulgada externamente por um legislador. É neste último sentido que São Paulo assim escreve: Todos os que SEM LEI pecaram, sem lei perecerão (Romanos II-12). Porém um pouco mais adiante, o próprio São Paulo toma a palavra - lei - num sentido mais largo: Quando os gentios que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, esses tais, não tendo semelhante lei, a si mesmos servem de lei. os quais mostram a obra da LEI ESCRITA NOS SEUS CORAÇÕES, dando testemunho a eles a sua mesma consciência e os pensamentos de dentro que umas vezes os acusam, e outras os defendem, no dia em que Deus, segundo o meu Evangelho, há de julgar as coisas ocultas dos homens por Jesus Cristo (Romanos II-14 a 16). Fazem naturalmente as coisas que são da lei, quer dizer: fazem sem ter nenhum conhecimento da doutrina revelada, pelo que sabem, de si mesmos, sem revelação divina.

   Os pagãos mostravam ter conhecimento da lei natural e dela falavam abertamente. Assim é que Cícero, na sua Oração Pro Milone fala "na lei não escrita, mas inata... que nós recebemos da própria natureza". E numa tragédia de Sófocles, o personagem central Antígono se recusa a desobedecer aos "decretos divinos, que não foram escritos e que são imutáveis, não é de hoje que eles existem, eles são eternos". (Extraído do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro). 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

FÉ: Nosso Médico



   A fé salva, a fé é o caminho do Céu, isto nos ensina Jesus. A fé salva sozinha, sem a observância da lei de Deus, isto é doutrina de Lutero.

   Somos justificados pela fé, é doutrina da Bíblia: Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos V-1). Mas a mesma Bíblia nos ensina que a fé não nos justifica sozinha, sem as obras: Não vedes como pelas obras é justificado o homem, e não pela fé somente? (Tiago II-24).

   Para usarmos (ampliando-a) uma comparação de Cornélio Alápide: Assim como o doente que se achava em estado grave e foi curado pode dizer: - Este médico me salvou - e no entanto não foi o médico sozinho, foi o médico por meio dos remédios, das injeções, da dieta, dos exercícios que ele prescreveu e a que o doente voluntariamente se sujeitou, assim também a fé em Cristo é o médico a nos apontar as outras virtudes, as obras, os sacramentos que nos são necessários à salvação, a qual não é possível sem as praticarmos ou sem os recebermos em obediência aos ditames da nossa fé. O fato de dizer o doente: - Este médico me salvou - não o impede de dizer também: Santo remédio este! foi ele quem me pôs em pé! Assim como não o impede de aconselhar a outro doente que não quer observar a dieta: Não faça isto, meu caro; se eu não tivesse cumprido bem com a dieta, feito a mortificação quando estava com vontade de comer  tais alimentos que sabia que não podia comer, hoje eu já estaria na "cidade dos pés juntos". 

   Do fato, portanto, de dizer a Escritura que a fé nos salva, não se segue necessariamente que a fé seja A CAUSA ÚNICA da salvação. Isto se mostra claramente no episódio da mulher pecadora. Sabe-se muito bem que ela não podia salvar-se, se os seus pecados, que eram muitos, não lhe fossem perdoados. Se perguntarmos ao Divino Mestre POR QUE foram perdoados os pecados daquela mulher, Ele nos esclarecerá: Perdoados lhe são seus pecados, PORQUE AMOU MUITO (Lucas VII-47). A sua contrição perfeita, baseada no PURO AMOR,  foi aí apontada como a CAUSA da salvação. E no entanto, nesta mesmíssima ocasião, Jesus lhe disse: A tua FÉ te salvou; vai-te em paz (Lucas VII-50). Tanto a fé, como o amor, são considerados aí como causas da salvação para a pecadora arrependida; a fé, porque foi O PONTO DE PARTIDA de sua felicidade; o amor, porque CONSUMOU esta mesma felicidade. É por isto que nos diz muito bem o Concílio de Trento: "somos justificados pela fé neste sentido de que a fé, sem a qual é impossível agradar a Deus, é o princípio da salvação, o fundamento e a raiz de toda a justificação" (Sessão VI, 8). (Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

terça-feira, 26 de julho de 2016

ORIENTAÇÃO INDIVIDUALISTA DE LUTERO

   

   Apesar de todos os conselhos do seu diretor espiritual, a alma de Lutero cada dia mais se lança no desespero. Está convencido de que o homem não é livre, pois não se liberta nunca do pecado. Um dia, porém, nos seus estudos sobre a Bíblia, julga ter encontrado na Epístola aos Romanos a solução para o seu problema(4). Interpreta o Apóstolo São Paulo a seu modo, de acordo com suas próprias ideias, de maneira que, como diz o próprio Strohl, autor protestante: "foi a orientação puramente individualista e a força de sua experiência pessoal que impediram Lutero de assimilar todo o pensamento do Apóstolo".

   Se São Paulo nos lembra que O justo vive da fé (Romanos I-17), este mesmo São Paulo que nos diz: Todas as vossas obras sejam feitas em caridade (1ª Coríntios XVI-14) e nos afirma que o homem, mesmo tendo a fé a ponto de transportar montanhas, não é nada sem a caridade (1ª Coríntios XIII-12), Lutero não toma aquela frase no sentido de que todas as nossas ações devem ser revestidas de verdadeiro espírito de fé - mas no sentido de que na fé somente se resume toda a vida do cristão. Se São Paulo nos ensina que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28) no sentido de que não somos mais obrigados a cumprir todas aquelas determinações e cerimônias da lei mosaica, Lutero toma isto no sentido de que não somos obrigados a obedecer a lei nenhuma, nem mesmo a observar os mandamentos. Se São Paulo fala na liberdade da glória dos filhos de Deus (Romanos VIII-21) e diz que soltos estamos da lei da morte, na qual estávamos presos, de sorte que sirvamos em novidade do espírito e não na velhice da letra (Romanos VII-6), Lutero toma isto não no sentido de que os cristãos já estão libertos do jugo das prescrições da lei mosaica, mas no sentido de que os cristãos estão livres de todas as leis, tendo apenas a obrigação de crer.

   Foi assim que nasceu a teoria da salvação só pela fé. Vejamos agora, [nos próximos posts], em linhas gerais, a doutrina de Lutero, usando sempre as suas próprias palavras, pois vai aparecer tanta coisa espantosa que é melhor mesmo que Lutero fale, para que não se diga que estamos exagerando a sua doutrina. (Extraído do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

(4) NOTA: Lutero rompeu oficialmente com a Igreja no dia 1º de novembro de 1516, afixando às portas do templo, em Vitemberga, as suas 95 teses sobre as indulgências. Mas já antes disto lavrava no seu espírito o conceito herético sobra a justificação pela fé sem as obras, de modo que a pretensa descoberta da Lutero foi no ano de 1514 ou, ao mais tardar, em 1515, conforme se conclui do exame de suas notas privadas, como professor. 

domingo, 24 de julho de 2016

LUTERO E JUSTIFICAÇÃO

   NOVIDADE DE DOUTRINA.


  O pastor protestante se gloriava de que o Protestantismo é a única religião do mundo a admitir a salvação só pela fé. É o que diz também Lutero: afirma que a sua teoria da justificação pela fé é o ponto "único pelo qual nós nos distinguimos, pelo qual nossa religião se distingue de qualquer outra religião" (Exegetica Opera XXXIII, p. 140).

Condenado pelo Papa Leão X pelos constantes ataques
contra a Igreja, Lutero demonstra de público sua
desobediência, queimando perante a
multidão, em Wittenberg  (10-XII-1520),
a bula papal "Exsurge Domine" e alguns livros de Direito
Canônico. Por estes atos, em janeiro de 1521 Lutero foi
excomungado e, logo depois, condenado por heresia
pela Dieta de Worms. 
   Realmente, o Protestantismo só apareceu no século XVI. E até aquele século, ninguém se tinha lembrado ainda de interpretar a Escritura de semelhante modo. Porque é tão clara na Bíblia a existência da lei de Cristo, na qual se inclui a obrigatoriedade dos mandamentos, a Bíblia fala tantas vezes na necessidade do amor de Deus e da caridade para com o próximo para conquistar o Céu, a Bíblia insiste tanto em que Deus há de retribuir a cada um SEGUNDO AS SUAS OBRAS, que, até então, em toda a história do Cristianismo, não se tinha podido conceber semelhante absurdo de que o homem se salva só pela fé. Absurdo, sim, porque é tão lógico e tão razoável que o homem, sendo livre nas suas ações, venha a conquistar o prêmio do Céu, entre outras coisas, pela sua reta maneira de proceder, que era preciso que aparecesse um homem que, embora dizendo-se seguidor de Cristo, negasse o livre arbítrio, a liberdade humana, para que se pudesse pregar semelhante doutrina. Este homem apareceu e se chamou Martinho Lutero.

   Deixando de lado certos aspectos nada edificantes da vida deste célebre heresiarca, achamos utilíssimo, para fazermos uma ideia do que vale realmente a teoria da salvação só pela fé, estudar o modo como Lutero chegou a fazer esta "grande descoberta". Mas esta novidade de doutrina já nos deixa com uma pulga na orelha. Não parece estranho que Jesus Cristo tivesse fundado uma Igreja, feito propagar o seu Evangelho para ensinar aos homens o caminho do Céu, e por 15 séculos tivesse deixado a Humanidade às tontas, Ele que vela sobre os homens e principalmente sobre a Igreja pela sua Divina Providência e só no século XVI fizesse aparecer esse Martinho Lutero para ensinar "a verdadeira doutrina da salvação"?

sábado, 16 de julho de 2016

ORIGENS DA ORDEM CARMELITANA

Era o ano 860 antes de Cristo. As Sagradas Escrituras no 1º Livro dos Reis, XVIII, 16 a 45 assim nos narram: "Acab saiu a encontrar-se com Elias. E, vendo-o, disse: Porventura és tu aquele que trazes perturbado Israel? Elias respondeu: Não sou eu que perturbei Israel, mas és tu e a casa de teu pai, por terdes deixado os mandamentos do Senhor, e por terdes seguido Baal. Mas, não obstante, manda agora, e faze juntar todo o povo de Israel no monte Carmelo, como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, os quatrocentos profetas dos bosques, que comem da mesa de Jezabel. Mandou, pois, Acab chamar todos os filhos de Israel e juntou os profetas no monte Carmelo.
   Elias, aproximando-se de todo o povo disse: Até quando claudicareis vós para dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o; se, porém, é Baal, segui-o. O povo não respondeu palavra. Elias tornou a dizer ao povo: Eu sou o único que fiquei dos profetas do Senhor; mas os profetas de Baal chegam a quatrocentos e cinquenta homens. Dêem-nos dois bois: escolham eles para si um boi, e, fazendo-o em pedaços, ponham-no sobre a lenha, mas não lhe ponham fogo por baixo; eu tomarei o outro boi, pô-lo-ei sobre a lenha e também não lhe porei fogo por baixo. Invocareis vós os nomes dos vossos deuses, e eu invocarei o nome do meu Senhor. O Deus que ouvir, mandando fogo, esse seja considerado o ( verdadeiro ) Deus. Todo o povo, respondendo, disse: Ótima proposta.Disse, pois Elias aos profetas de Baal: Escolhei para vós um boi e começai vós primeiro, porque sois em maior número; invocai os nomes dos vossos deuses e não ponhais fogo por baixo.
   Eles,pois, tomando o boi que lhes foi dado, sacrificaram-no, e invocaram o nome de Baal, desde manhã até o meio-dia dizendo: Baal, ouve-nos. Mas não se percebia voz, nem havia quem respondesse. E saltavam diante do altar que tinham feito. Sendo já meio-dia, Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou em viagem, ou dorme e necessita que o acordem. Eles, pois, gritavam em alta voz, e retalhavam-se segundo o seu costume, com canivetes e lancetas, até se cobrirem de sangue. Mas, passado o meio-dia, e enquanto eles profetizavam, chegou o tempo em que era costume oferecer-se o sacrifício, e não se ouvia voz, nem havia quem respondesse, nem ouvisse os seus rogos. Disse Elias a todo o povo: Aproximai-vos de mim. Aproximando-se o povo dele, Elias reparou o altar do Senhor, que tinha sido destruído. Tomou doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dirigira a sua palavra, dizendo: Israel será o teu nome. Com estas pedras edificou um altar em nome do Senhor. Fez um regueiro como dois pequenos sulcos, em volta do altar, acomodou a lenha, dividiu o boi em quartos, pô-lo sobre a lenha, e disse: Enchei de água quatro talhas, entornai-as sobre o holocausto e sobre a lenha. Disse outra vez: Fazei isto ainda segunda vez. E, tendo-o eles feito segunda vez, disse: Fazei ainda terceira vez, isto mesmo. Eles o fizeram terceira vez. As águas corriam em volta do altar e o regueiro encheu-se.
   Sendo já o tempo de se oferecer o holocausto, chegando-se o profeta Elias, disse: Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo aprenda que tu és o Senhor Deus e que converteste novamente o seu coração.
   O fogo do Senhor baixou do céu, devorou o holocausto, a lenha e as pedras, consumindo o mesmo pó e a água que estava no regueiro. Todo povo vendo isto, prostrou-se com o rosto em terra e disse: O Senhor é o Deus! O Senhor é o Deus! Elias disse-lhes: Apanhai os profetas de Baal, não escape deles nem um só. Tendo-os o povo agarrado, Elias levou-os à torrente de Cison, onde os matou.
   Elias disse a Acab: Vai, come e bebe, porque já se ouve o ruído duma grande chuva. Acab retirou-se a comer e beber; Elias, porém, subiu ao alto do Carmelo, e, inclinado por terra, pôs o seu rosto entre os joelhos, e disse ao seu criado: Vai e olha para o lado do mar. Tendo este ido e tendo olhado, disse: Não há nada. Elias disse-lhe segunda vez: Torna a ir sete vezes. À sétima vez, eis que se levanta do mar uma pequena nuvem, como a pegada dum homem. Disse-lhe Elias: Vai e dize a Acab: Manda atrelar os cavalos no seu carro e corre, não te apanhe a chuva.
   E, quando ele voltava para uma e para outra parte, eis que se cobriu o céu de trevas, vieram nuvens e vento e caíu uma grande chuva". Até aqui as palavras das Sagradas Escrituras. ( 1Reis, XVIII, 16 a 45 ).
   Esmagada que foi a cabeça do demônio que suscitara a idolatria, destuído aquele nefasto ecumenismo, exterminados os falsos profetas, apareceu no céu o sinal da Virgem, e na terra, terão início s sua Ordem eo seu culto, oitocentos e poucos anos antes de seu nascimento.
   Num futuro não tão longe, doutores da Igreja como Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São João Damasceno e outros, explicarão ao mundo como esta nuvenzinha, erguendo-se pura do mar amargo, e deixando atrás as impurezas do mar, é figura de uma Virgem Imaculada, que sairá pura do mar da humanidade, liberta de toda impureza do pecado original.
   Dois mil e cento e dez anos mais tarde, São Luiz IX, rei de França, ouviu falar da santidade de certos monges do Carmelo, dos quais alguns haviam emigrado para a Europa, por causa das vitórias dos sarracenos na Palestina. E São Luiz IX foi a Palestina , subiu o Monte Carmelo. Desejava conhecer aqueles monges que a si mesmos se denominavam Eremitas de Santa Maria do Monte Carmelo. Queria-os também em França e ficou maravilhado ao ouvir da boca daqueles monges o relato da tradição da Ordem. Dizem que são descendentes do profeta Elias. E este lhes ensinara que vira numa nuvem com a forma de pegada humana, que pelo poder divino, se levantara do mar, uma imagem profética da Virgem Maria Imaculada, a qual havia de trazer a salvação dos homens, e vencer o orgulho de satanás, com o seu calcanhar de humildade. Elias ensinara a seus discípulos a implorar a vinda desta Virgem, dizendo que a planta do pé que a nuvem apresentava manifestava em si a maldição divina contra o demônio. "Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência dela: tu armarás ciladas ao seu calcanhar e Ela esmagará a tua cabeça". ( Gen. III, 15 ).
   Contaram, também, a São Luiz IX que, na plenitude dos tempos, tendo aparecido a Virgem Imaculada, e depois da Encarnação do Verbo, a própria Virgem Maria se dignou visitá-los; e a Sagrada Família ao voltar de seu exílio de sete anos no Egito, havia descansado algum tempo com eles. Por eles fora construída ali no Monte Carmelo, a primeira capela do mundo dedicada à Mãe de Deus.
   São Luiz IX ficou edificado e cheio de reverência ao ver a santidade daqueles monges e ao ouvir este relato.
   E uns trinta anos antes da ida de São Luiz IX ao Monte Carmelo, alguns destes monges haviam se transferido para a Inglaterra. Ali tinha-se-lhes reunido um homem muito santo chamado Simão. Recebera o apelido de "stock"por ter vivido solitário na concavidade do tronco de uma árvore no interior de uma floresta inglesa, tal como Elias havia vivido nas grutas naturais do Carmelo.
   Dadas as perseguições,muitos carmelitas passaram para a Europa. Foi mister, então, nomear um Vigário Geral na Europa. Simão Stock foi o escolhido e, seis anos mais tarde foi eleito geral de todo Ordem.
   O demônio que tem ódio a Maria Santíssima e a sua descendência, fomentou toda espécie de discórdias e perseguições tanto fora como dentro da Ordem do Carmelo. Vemos por isso no ano de 1251 Simão retirar-se para o Mosteiro de Cambridge, curvado sob o peso dos seus 90 anos e do de tantas provações. Ajoelhado na sua pequenina cela derrama a sua alma em ardentíssimos suspiros: "Flor do Carmelo, vinha florífera, esplendor do céu, virgem fecunda, singular. Ó Mãe benigna, sem conhecer varão, aos carmelitas dá privilégios, ó Estrela do mar"!
   E ao levantar os olhos velados pelas lágrimas, a cela enche-se-lhe de uma grande luz: Rodeada por uma multidão de anjos a Rainha do Céu desce até ele, trazendo na mão e Escapulário marrom castanho dos monges e diz-lhe;"Recebe filho queridíssimo, este hábito da minha Ordem: isto será para ti e para todos os carmelitas um privilégio. Quem morrer revestido dele não sofrerá o fogo eterno". Era o dia 16 de julho de 1251.
   A partir daí veio a paz, e a Ordem tornou-se objeto de simpatia no mundo inteiro. Eis Maria Santíssima esmagando a cabeça da infernal serpente.
   A Santa Madre Igreja reconhece o profeta Elias como o fundador da Ordem Carmelitana.Na Basílica de São Pedro no Vaticano, por ordem dos papas, foram colocadas as imagens de todos os santos fundadores de Ordens Religiosas. E, assim, lá foi colocada, por ordem do papa Bento XIII em 26 de junho de 1725, a imagem do Santo Profeta Elias, reconhecido por toda Ordem Carmelitana como o seu Fundador.