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domingo, 25 de setembro de 2016

AS SAGRADAS ESCRITURAS OU BÍBLIA


LEITURA ESPIRITUAL - Dia da Biblia


"Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a obra boa". (II Tim., III, 16 e 17).


   Aqui o Apóstolo São Paulo faz um justo e belíssimo elogio da Sagrada Escritura divinamente inspirada. Além de indicar sua inspiração divina, diz que é útil para: ensinar as verdades da fé; refutar os erros contrários a estas verdades santas; combater e reformar os maus costumes; dirigir as almas em todos os caminhos da justiça e da santidade. Estes são, como observa Santo Tomás, os quatro efeitos produzidos pelo estudo da Sagrada Escritura. Na verdade, um homem não tem direito de se impor a outro homem. Só Deus domina os espíritos e os corações.

   Um dos benefícios que Tobias reconhecia haver recebido do Anjo São Rafael, era restituir-lhe a vista; quanto maior benefício é haver-nos, não um Anjo, mas o Espírito Santo aberto os olhos, não do corpo, mas da alma, para vermos a luz, não a material do sol, mas a espiritual das doutrinas de nossa santa Fé Católica!

   Caríssimos, grassa no mundo uma conspiração contra a Verdade e o Decálogo. A iniquidade multiplica-se sobre a face da terra. A fé extingue-se nos corações. Estarrecidos e tristes, assistimos a destruição da família cristã. E, neste afã iníquo em aniquilar a célula da sociedade,  não bastassem os comunistas e maçons, bispos progressistas, sob a capa de misericórdia, parecem empenhados em tranquilizar as consciências no pecado, ao invés de o tirar delas como fizera o Cordeiro de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. 

   Para obstar a tantos males só a palavra de Deus! Pois diz ainda o Apóstolo na Epístola aos Hebreus, IV, 12: "A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que toda a espada de dois gumes; chega até à separação da alma e do espírito, das junturas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração". Por isso o escritor (ou pregador) que tem por base a Palavra de Deus, apóia-se em terreno sólido. Seu escrito (ou pregação) não é feito "só de palavras, como diz São Paulo, mas da virtude do Espírito Santo e da abundante plenitude dos seus dons".

   Lemos no antigo Testamento que os Israelitas ouvindo a leitura do livro de Baruc, choravam e oravam; oxalá que os povos modernos, convencidos e convertidos, chorem igualmente sobre as suas faltas e orem, ao lerem a Palavra de Deus, e sobre ela refletirem!

   Não quero terminar sem antes trazer à lembrança aquela cena comovente de um São Paulo apresentando-se diante de Félix. Assim, com eloquência, a descreve o cardeal Gibbons:  "O Apóstolo, carregado de cadeias, de rosto emagrecido pelas privações sofridas durante dois anos na prisão, de pé, em face dum governador escravo duma mulher adúltera, levanta as mãos ligadas pelos grilhões e prega a justiça, a castidade, o juízo derradeiro. Félix perturba-se, sente o remorso duma consciência culpada e tem pressa em sair do tribunal. Tinha razão de sobra para temer: a justiça, desconhecia-a; a castidade, havia-a ultrajado; e as vinganças divinas, devia receá-las". (Cf. Atos, XXIV, 24 e 25). Será possível pintar com mais relevo o ascendente da inocência em ferros sobre a corrupção coroada? Caríssimos, que tocante exortação para o ministro de Deus que tenha de denunciar a iniquidade e o vício!

   Para empregar uma comparação feita pelo Cardeal Maffi:"Náufrago no mar tempestuoso, o pobre Camões com uma das mãos batia as ondas e com a outra levantava fora d'água o manuscrito dos Lusíadas que o haviam de imortalizar". E fazendo minha a sua aplicação: Sobre as ondas ameaçadoras e lodosas dos pecados  do mundo moderno está a palavra, não de um simples mortal, mas do Altíssimo, palavra esta que elevarei pelo alto. Ela será minha guia, minha força, minha esperança;  e, oxalá para muitos e muitos seja salvação. Amém! 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

VÍNCULO INDISSOLÚVEL DO MATRIMÔNIO


LEITURA ESPIRITUAL

REFLEXÕES SOBRE TEMA DA SAGRADA ESCRITURA

"Foram ter com ele os fariseus para o tentar e disseram-lhe: É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, respondendo, disse-lhes: Não lestes que quem criou o homem no princípio, criou-os homem e mulher, e disse: Por isso deixará o homem pai  e mãe, e unir-se-á com sua mulher, e os dois serão uma só carne? Por isso, não mais são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu" (S. Mateus XIX, 3 e sgs).

No último dia do ano de 1930, no início de sua Encíclica "CASTI CONNUBII", Pio XI já constatava com tristeza "a ignorância total da altíssima santidade do matrimônio cristão"... Lamentava como a maior parte dos homens desconhecia essa santidade. Ou negavam-na impudentemente, ou ainda, apoiando-se sobre os princípios falsos de uma moralidade nova e absolutamente perversa, calcavam-na aos pés. Aliás, 50 anos já antes de Pio XI, o Papa Leão XIII, na Encíclica "ARCANUM", denunciava que os detratores da fé cristã recusavam admitir sobre a origem do matrimônio a doutrina constante da Igreja e se esforçavam já há muito tempo por destruir a Tradição de todos os povos e de todos os séculos.

"... Tendo Deus no sexto dia da criação formado o homem do limo da terra e insuflado na sua face o sopro da vida, quis dar-lhe uma companheira, que maravilhosamente tirou do lado do mesmo homem, enquanto ele dormia; quis Deus com isto, na Sua alta providência, que estes dois esposos fossem o princípio natural de todos os homens e a fonte de onde o gênero humano deveria sair e conservar-se através dos tempos por uma série ininterrupta de gerações. E para que esta união entre o homem e a mulher melhor se harmonizasse com os Seus sapientíssimos desígnios, lhe imprimiu desde esse dia, à maneira de um selo e de um sinal, duas qualidades principais, nobres entre todas as outras, a saber: 'a unidade e a perpetuidade'. - É isto que vemos declarado e abertamente confirmado no Evangelho pela divina autoridade de Jesus Cristo, quando afirmou aos judeus e aos Apóstolos que o casamento, segundo a sua própria instituição, não deve ter lugar senão entre duas pessoas, um homem e uma mulher; que os dois devem constituir como que uma só carne e que o laço nupcial está pela vontade de Deus tão íntima e tão fortemente ligado, que nenhum homem tem o poder de o desligar ou quebrar. 'O homem unir-se-á à sua companheira e serão dois numa só carne'. Por isso já não são dois, mas uma só carne. 'O que Deus uniu não o separe o homem' (Mt 19, 5 e 6).

"Mas esta forma de matrimônio, tão excelente e tão elevada, começou pouco a pouco a corromper-se entre as nações pagãs, e até entre os hebreus pareceu eclipsar-se e obscurecer-se. Tinha-se na verdade introduzido entre eles o costume geral de permitir a um homem possuir mais de uma mulher, e quando, mais tarde, Moisés, 'em virtude da dureza do coração deles', teve a tolerância de autorizar a repúdio das mulheres, abriu-se a porta ao divórcio.  Com relação à sociedade pagã, custa crer a que grau de corrupção e de fealdade desceu o casamento, entregue à ondas dos erros de cada povo e das mais ignóbeis e vergonhosas paixões. (...).

"Mas todos estes vícios e todas estas ignomínias, que maculavam os casamentos, encontraram em Deus a reforma e o remédio. Porquanto, Jesus Senhor Nosso, restabelecendo a dignidade humana e aperfeiçoando as leis mosaicas, fez do casamento um dos objetos importantes da Sua solicitude. Com efeito honrou com a Sua presença as bodas de Caná, na Galileia, e tornou-as memoráveis pelo primeiro dos Seus milagres. Em virtude deste fato, parece que desde esse dia o matrimônio começou a receber um novo caráter de santidade. Em seguida o Salvador restabeleceu o matrimônio na nobreza da sua origem primitiva, já reprovando os costumes dos judeus com relação à pluralidade de mulheres e ao uso que faziam do repúdio, já proclamando sobretudo o preceito de que ninguém ousasse reparar o que o próprio Deus uniu por um laço perpétuo. Por isso, depois de ter resolvido as dificuldades provenientes da legislação das instituições mosaicas, formulou, na qualidade de Legislador Supremo, esta Lei sobre o matrimônio: 'Em verdade vos digo que todo aquele que separar de si sua mulher, exceto o caso de adultério, e tomar outra, é adúltero; e todo aquele que tomar a que foi repudiada é adúltero' (Mt 19, 9).

 (Salvo o primeiro parágrafo, este artigo compõe-se de excertos da Encíclica "ARCANUM" do papa Leão XIII).  

sexta-feira, 3 de junho de 2016

AMOR CONFIANTE ( I )

LEITURA ESPIRITUAL

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).
"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36)
Pelo Padre Mateo Crawley-Boevey  SS. CC.
É uma conferência extraída do seu Livro "JESUS, REI DE AMOR"
Vou distribuí-la em vários artigos a serem publicados no mês de Junho.

Caríssimos, não acrescentarei uma só palavra minha, não venha ela empanar o brilho daquela eloquência mais do céu que da terra; nem arrefecer o calor daquele fogo divino que abrasava o peito deste grande apóstolo da devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Assim, demos a palavra ao Servo de Deus:

"Palavra inefável, eloquente como poucas, talvez como nenhuma. Tende confiança, "sou Eu".

- Eu, vosso Pai, vosso Amigo, vosso Salvador. Nolite timere! "Não temais!".

- Mas, como?... E minhas ruindades?

- Ego sum! "Porque sou Eu" ...

Se fosse um Anjo, um profeta, um Santo, poderíeis temer, pois as criaturas, as melhores, não podem amar-vos como Eu ... Não temais, porque sou Jesus.

E por isso Ele disse: "Eu vos dou a minha paz" (Jo 14, 27). A Sua, não a nossa, tão desprezível. A Sua e não a do mundo, falsificada, perigosa, envenenada.

Sobre os fundamentos da Sua misericórdia, tenhamos a paz. Não porque nos creiamos justos e confirmados em graça, mas porque cremos com fé imensa em seu amor, remédio e reparação para nossas misérias.

Que faríamos sem esta energia sobrenatural, divina, da confiança em Nosso Senhor? ao cimo da santidade, chega-se pela vereda da confiança; não há outro caminho.

Porque sendo o que somos todos nós, um abismo de baixezas e pecados, pedir-nos que assim mesmo subamos sem nos dar antes de tudo as asas da confiança, seria arrojar-nos num outro abismo: o do desânimo definitivo e sem remédio.

Mas, por essa escada santa, mas, com tais asas divinas, quero, sim, e posso, ser santo. Quero e posso subir muito alto, de profundis, das profundezas da minha maldade, do abismo da minha miséria.

Não me venham dizer que isso é pretensão, que é ilusão ... Se pensasse em chegar ao cume com meus pés de argila, então, mil vezes seria loucura e soberba. Mas, nos braços de Jesus, sobre seu Coração, estou certo de que chegarei com êxito, porque sou menos que uma formiga.

Ele transforma sempre as formigas confiantes  em águias reais.

Se Ele, o Deus de perdão e de graças, se Ele, Jesus, o Deus de misericórdia e ternura; se Ele, Jesus, o Deus Crucificado e Sacramentado por amor e Encarnado para salvar, não me inspira confiança cega, imensa, ilimitada, quem poderá inspirar-me?

Veio, acaso, à terra para trazer-nos...  o quê? Os arremessos de tremenda justiça? As chamas de uma cólera divina? A sentença de morte eterna, mil vezes merecida? Não! Absolutamente não! Abri o Evangelho em qualquer página, ao acaso, e ainda em suas iras e anátemas encontrareis inebriante, irresistível, o Coração do Salvador.

Veio perdoar, salvar, semear paz, dar o céu, ainda àqueles, e sobretudo a eles, que Lhe prepararam a cruz: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Com este fim redentor "aniquilou-se, tomando a natureza de servo" (Filip 2, 7). Revestiu-Se da nossa roupagem leprosa, e por isso o fulminou o Pai.

Tomou consigo nossas misérias, segundo está escrito: "Tomou sobre si nossas fraquezas, e ele mesmo carregou com as nossas dores" (Is 53, 4). "Homem de dores e experimentado nos sofrimentos" (Is 3, 3).

Não, por certo, em sentido literal, mas figurado, poderíamos pois aplicar-Lhe aquela expressão dos Livros Santos: "Um abismo chama outro abismo" (Sl 41, 8). Isto é, o abismo da nossa miséria e corrupção, dir-se-ia, atraiu o abismo de Sua misericórdia e bondade.

Belém é apenas, com toda a sua pobreza, um reflexo, um quadro poético, se comparado com outro berço consciente de sua pobreza e indignidade: o coração de quem comunga.

Jesus, que sabe disso, manda que o recebamos, que comunguemos.

Sobre a base do arrependimento e da humildade, parece Jesus correr um véu de paraíso sobre este presépio menos que palha, e comprazer-Se nele. E tem ânsias supremas de descansar nesse altar desmantelado. Negar-Lhe o direito à sua condescendência seria feri-Lhe o Coração!

Sabeis qual  é, para mim, a transfiguração que me enlouquece? não a do Tabor, onde, por um instante, parece recobrar o que havia deixado por meu bem, o manto da sua majestade esplendorosa. A transfiguração que me comove e arrebata é outra: a de Belém, quando vejo o Criador revestido das roupinhas da nossa natureza. A de Nazaré, quando contemplo meu Juiz, coberto com o véu do anônimo, de qualquer um. E aquela do Calvário, quando adoro, debaixo da púrpura sangrenta e da mortalha da morte, Aquele que é a Vida. Oh! Jesus, à força de quereres assemelhar-Te a nós, já não Te pareces contigo mesmo!

Esta transfiguração tríplice que o faz tão meu, tão Irmão, tão condescendente, tão parecido comigo, ensina-me, melhor que o Tabor, quanto devo amá-Lo e com quanta confiança, se possível infinita, devo aproximar-me de Seu Coração.

O contraste prodigioso entre o que o Tabor mostra num instante e o que é e permanece em Belém, Nazaré e no Calvário, prega-me, patentemente, e com eloquência esmagadora, a loucura do Seu amor e a realidade daquela palavra da Escritura: "Não quero a morte do ímpio, mas que se converta a viva (Ez 33, 11). E ainda: "Veio buscar e salvar o que tinha perecido" (Lc 19, 10).


(Continua no próximo artigo).

domingo, 24 de abril de 2016

DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA DE DEUS

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 24 de abril

"O Senhor é justo e ele ama a justiça" (Salmo X, 8)
"A misericórdia e a verdade (=justiça) se encontraram; a justiça e paz (=misericórdia) se oscularam" (Salmo LXXXIV, 11).
"O Senhor é misericordioso e compassivo" (Salmo CX, 4) e "O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia" (Salmo CII, 8).
"Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça)"  (Salmo XXIV, 10).

Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, 1ª Parte, q. XXI fala sobre a Justiça e a Misericórdia de Deus, em quatro artigos e prova:  1º   Que em Deus há justiça; 2º - Que a sua justiça pode se chamar verdade; 3º - Que em Deus há misericórdia; 4º - Que em todas as obras de Deus há justiça e misericórdia.

Resumirei num só artigo estas teses que o Doutor Angélico prova respectivamente com os textos das Sagradas Escrituras acima enunciados.

!º - DEUS É JUSTO: "O Senhor é justo e Ele ama a justiça". Há dupla espécie de justiça. Uma que consiste no mútuo dar e receber; p. ex. a que existe na compra e venda e em tratos e trocas semelhantes. É a justiça chamada comutativa. Esta não existe em Deus segundo aquilo que diz São Paulo: "Quem lhe deu alguma coisa primeiro, para que tenha de receber em troca" (Romanos XI, 35). A outra justiça é chamada distributiva. É aquela pela qual um governante ou administrador dá segundo à dignidade de cada um. Ora, assim como a ordem devida, na família ou em qualquer multidão governada, demonstra a justiça do governador, assim também a ordem do universo manifesta, tanto nos seres naturais, como nos dotados de vontade, a justiça de Deus. Assim diz São Dionísio: "Devemos ver a verdadeira justiça de Deus no distribuir ele a todos os seres segundo o que convém à dignidade da cada um, e no conservar cada natureza na sua ordem própria e virtude". Deus só pode querer aquilo que está na razão da sua sabedoria; e esta é como a lei da justiça, pela qual a sua vontade é reta e justa. Por onde, o que faz por sua vontade, justamente o faz; assim como nós fazemos justamente o que fazemos de acordo com a lei; nós, porém, pela lei de um superior, ao passo que Deus, pela sua própria lei. Diz Santo Anselmo: "Deus é justo punindo os maus, por isso lhes convir ao que eles merecem; mas também Deus é justo perdoando-lhes, por convir isso a sua bondade.  A justiça é da essência de Deus. E o que é da essência de Deus também pode ser princípio de ação.

2º - A JUSTIÇA DE DEUS É VERDADE: "A misericórdia e a verdade se encontraram". Explica Santo Tomás que aqui VERDADE é tomada na acepção de JUSTIÇA. Verdade é a adequação da inteligência com o objeto. Ora, o intelecto que é causa do objeto é dele a regra e a medida; dá-se, porém, o inverso com o intelecto, que tira das coisas a sua ciência. Portanto quando as coisas são a medida e a regra do intelecto, a verdade consiste na adequação deste com aquelas, e tal é o nosso caso. Assim, a nossa opinião e o nosso conhecimento são verdadeiros ou falsos conforme exprimem o que a coisa é ou que não é. Mas, quando o intelecto é a regra ou a medida das coisas(como em Deus), a verdade consiste na adequação delas com o intelecto. Deus é a própria verdade; daí dá a cada um o que realmente lhe é adequado, isto é, o que corresponde à verdade.  Por onde a justiça de Deus, que constitui a ordem das coisas, conforme à ideia da sua sabedoria, que lhes serve de lei, chama-se convenientemente VERDADE. Resumo ainda mais com uma palavra da Bíblia: "Todas as obras de Deus são perfeitas e cheios de equidade os seus caminhos. Deus é fiel, e sem nenhuma iniquidade; Ele é justo e reto" (Deut. XXXII, 4). Deus é a própria Bondade e, por outro lado, é onisciente, perscruta os corações e os rins: donde premia ou castiga segundo a verdade, a equidade. Em Deus, pois, justiça é verdade. Nos homens, nem sempre e muitas das vezes a justiça humana é injusta (se assim me permitam a contradição nos termos). É como teia de aranha: pega os pequenos insetos e deixa passar os besouros. (Vê-se com facilidade que estas últimas palavras são minhas e não do Doutor Angélico).

3º - EM DEUS HÁ MISERICÓRDIA: "O Senhor é misericordioso e compassivo". A misericórdia máxima devemos atribuí-la a Deus; mas, quanto ao efeito e não, quanto ao afeto da paixão, porque em Deus não há paixão. Para entender isso melhor é mister considerar que misericordioso é quem possui coração cheio de comiseração, por assim  dizer, por contristar-se com a miséria de outrem, como se fora própria e esforçar-se por afastá-la como se esforçaria por afastar a sua própria. Tal é o efeito da misericórdia. Ora, Deus não pode ficar triste. Mas, sendo a própria bondade e onipotente, pode afastar a miséria, entendendo por miséria qualquer defeito. Pois, defeitos não se eliminam senão pela perfeição de alguma bondade. Ora, Deus é a origem primeira da bondade. Devemos porém ponderar que comunicar perfeições à coisas pertence tanto à bondade divina, como à justiça, à liberalidade e à misericórdia, mas segundo razões diversas. Assim, a comunicação das perfeições, considerada absolutamente, pertence à bondade, Pela justiça, Deus comunica perfeições proporcionadas à coisas. Pela liberalidade Deus dá perfeições, não visando a sua utilidade, mas só por mera bondade. Finalmente, pela misericórdia, as perfeições dadas à coisas por Deus eliminam-lhes todos os defeitos.

Deus age misericordiosamente, quando faz alguma coisa, não em contradição com a justiça, mas, além dela. Assim quem desse duzentos reais ao credor, ao qual só deve cem, não pecaria contra a justiça, mas agiria misericordiosamente. O mesmo se daria com quem perdoasse a injúria, que lhe foi feita. Devemos concluir que, longe de suprimir a justiça, a misericórdia é a plenitude dela. Donde dizer a Sagrada Escritura: "A misericórdia triunfa sobre o juízo" (S Tiago II, 13).

4º - HÁ JUSTIÇA E MISERICÓRDIA EM TODAS AS OBRAS DE DEUS:  "Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça). Necessariamente descobrimos, em qualquer obra de Deus, a misericórdia e a verdade(=justiça); se tomarmos misericórdia no sentido de remoção de qualquer defeito. embora nem todo defeito possa chamar-se miséria, propriamente dita, mas somente o defeito da natureza racional, que é capaz de felicidade; pois a esta se opõe a miséria.

E a razão dessa necessidade é a seguinte. Sendo o débito pago pela divina justiça um débito para com Deus ou para com alguma criatura, nem um nem outro podem faltar em qualquer obra divina. Pois, Deus nada pode fazer que não convenha à sua Sabedoria e à sua Bondade; e, nesse sentido, dizemos que algo lhe é devido. Semelhantemente, tudo quanto faz nas criaturas, o faz em ordem e proporção convenientes, e nisso consiste a essência da justiça. E, portanto, é necessário haja justiça em todas as obras divinas.

Mas a obra da divina justiça sempre pressupõe a da misericórdia e nesta se funda. Pois, nada é devido a uma criatura, senão em virtude dum fundamento preexistente ou previsto; o que, por sua vez pressupõe um fundamento anterior. Ora, não sendo possível ir até o infinito, é necessário chegar a algum que só dependa da bondade da divina vontade, que é o fim último. Assim, se dissermos, que ter mãos é devido ao homem, em virtude da alma racional, por seu lado, ter alma racional, é necessário para que exista o homem e este existe pela bondade divina. E assim a misericórdia se manifesta radicalmente em todas as obras de Deus. E a sua virtude se conserva em tudo o que lhe é posterior, e mesmo aí obra mais veementemente, pois a causa primária mais veementemente influi, que a segunda. Por isso, Deus, pela abundância da sua bondade, dispensa o devido a uma criatura mais largamente do que o exigiriam as proporções dela. Porque, para conservar a ordem da justiça, bastaria menos do que o conferido pela divina bondade, excedente a toda a proporção da criatura. 

domingo, 17 de abril de 2016

RESTAURAR EM CRISTO TODAS AS COISAS

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 17 de abril


"É n'Ele (Jesus Cristo) que temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo as riquezas de sua graça, a qual derramou abundantemente sobre nós, em toda sabedoria e prudência; a fim de nos tornar conhecido o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que tinha estabelecido consigo mesmo, de restaurar em Cristo todas as coisas..." (Efésios I, 7-10).

"... A volta das nações ao respeito da majestade e da soberania divina, por mais esforços, aliás, que façamos para realizá-lo, não advirá senão por Jesus Cristo. De feito, o Apóstolo adverte-nos que ninguém pode lançar outro fundamento senão aquele que foi lançado e que é a Cristo Jesus  (1 Cor III, 11). Só a ele foi que o Pai santificou e enviou a este mundo (S. João X, 36), esplendor do Pai e figura da sua substância (Heb. I, 3), verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem o qual ninguém pode conhecer a Deus como convém, pois ninguém pode conhecer a Deus como convém, pois ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo (S. Mateus XI,  27).
"Donde se segue que restaurar tudo em Cristo e reconduzir os homens à obediência divina são uma só e mesma coisa. E é por isto que o fito para o qual devem convergir todos os nossos esforços é reconduzir o gênero humano ao império de Cristo. Feito isto, o homem achar-se-á, por isso mesmo, reconduzido a Deus. Mas - queremos dizer - não um Deus inerte e descuidoso das coisas humanas, como nos seus loucos devaneios o forjaram os materialistas, senão um Deus vivo e verdadeiro, em três pessoas na unidade de natureza, autor do mundo, estendendo a todas as coisas a sua infinita Providência, enfim legislador justíssimo que pune os culpados e assegura às virtudes a sua recompensa"
"Ora, onde está a via que nos dá acesso a Jesus Cristo? Está debaixo dos nossos olhos: é a Igreja. Diz-no-lo com razão S. João Crisóstomo: 'A Igreja é a tua esperança, a Igreja é a tua salvação, a Igreja é o teu refúgio'. Foi para isso que Cristo a estabeleceu, depois de adquiri-la ao preço do seu sangue; foi para isso que Ele lhe confiou a sua doutrina e os tesouros da graça divina para a santificação e salvação dos homens".
... "Trata-se de reconduzir as sociedades humanas, desgarradas longe da sabedoria de Cristo, reconduzi-las à obediência da Igreja; a Igreja, por seu turno, submetê-las-á a Cristo, e Cristo a Deus. E, se pela graça divina nos for dado realizar esta obra, termos a alegria de ver a iniquidade ceder lugar à justiça, e folgaremos de ouvir uma grande voz dizendo do alto dos céus: Agora é a salvação, e a virtude, e o reino de nosso Deus e o poder de seu Cristo (Apocalipse XII, 10)."
"Todavia, para que o resultado corresponda aos nossos votos, mister se faz, por todos os meios e à custa de todos os esforços, desarraigar inteiramente essa detestável e monstruosa iniquidade própria do tempo em que vivemos e pela qual o homem se substitui a Deus; restabelecer na sua antiga dignidade as leis santíssimas e os conselhos do Evangelho; proclamar bem alto as verdades ensinadas pela Igreja sobre a santidade do matrimônio, sobre a educação da infância, sobre a posse e o uso dos bens temporais, sobre os deveres dos que administram a coisa pública; restabelecer, enfim, o justo equilíbrio entre as diversas classes da sociedade segundo as leis e as instituições cristãs."
"Tais são os princípios que, para obedecer à divina vontade, nós nos propomos aplicar durante todo o curso do Nosso Pontificado e com toda a energia de nossa alma"
(...)
São Pio X indica, a seguir, os meios para formar em todos Jesus Cristo e assim n'Ele restaurar todas as coisas: - Formar Cristo nos sacerdotes; - Daí todo cuidado com os Seminaristas; -Cuidado com os novos Sacerdotes; - Necessidade do ensino religioso; - Fazer tudo isto com caridade cristã; É preciso que todos os fiéis colaborem.
 Formar Cristo nos Sacerdotes.
"Que meios importa empregar para atingir um fim tão elevado? Parece supérfluo indicá-los, tanto eles apresentam à mente por si mesmos. Sejam os vossos [dos bispos] primeiros cuidados formar Cristo naqueles que, pelo dever da sua vocação, são destinados a formá-lo nos outros. Queremos falar dos sacerdotes, Veneráveis Irmãos. Porquanto todos aqueles que são honrados com o sacerdócio devem saber que têm, entre os povos com que convivem, a mesma missão que Paulo testava haver recebido, quando pronunciava esta ternas palavras: 'Filhinhos, a quem eu gero de novo, até que Cristo se forme em vós' (Gálatas IV, 19). Ora, como poderão eles cumprir um tal dever, se eles próprios não forem primeiramente revestidos de Cristo? e revestidos até poderem dizer com o Apóstolo: 'Vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim' (Gal. II, 20). 'Para mim, Cristo é a minha vida' (Filipenses I, 21). Por isso, embora todos os fiéis devam aspirar ao estado de homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo (Efésios IV, 3), essa obrigação incumbe principalmente àquele que exerce o ministério sacerdotal. Por isto é ele chamado outro Cristo; não somente porque participa do poder de Jesus Cristo, mas porque deve imitar-Lhe a imagem em si mesmo".
"Se assim é, Veneráveis Irmãos, quão grande não deve ser a vossa solicitude para formar o clero na santidade! Não há negócio que não deva ceder o passo a este. E a consequência é que o melhor e o principal do vosso zelo deve aplicar-se aos vossos Seminários, para introduzir neles uma tal ordem e lhes assegurar um tal governo, que neles se veja florescerem lado a lado a integridade do ensino e a santidade dos costumes. Fazei do Seminário as delícias do vosso coração, e não descureis coisa alguma daquilo que, na sua alta sabedoria, o Concílio de Trento, prescreveu para garantir a prosperidade dessa instituição.
Em seguida São Pio X lembra aos bispos algumas advertências das Sagradas Escrituras: 'Não imponhas precipitadamente as mãos a ninguém, e não te faças participante dos pecados dos outros' (1 Timóteo, V, 22).  'Guarda o depósito, evitando as novidades profanas na linguagem, tanto quanto as objeções de uma ciência falsa, cujos partidários com todas as suas promessas faliram na fé' (1 Timóteo VI, 20 ss).

São Pio X conclui sua encíclica lembrando a misericórdia divina: "Que Deus, rico em misericórdia (Ef. II, 4), apresse, na sua bondade, essa renovação do gênero humano em Jesus Cristo, visto não ser isso obra nem daquele que quer, nem daquele que corre, mas do Deus das misericórdias' (Romanos IX, 16). (Este artigo são excertos da Encíclica "E Supremi  Apostolatus" - 1903). 

sábado, 16 de abril de 2016

AS DECLARAÇÕES DE NULIDADE DE MATRIMÔNIOS

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 16 de abril



"Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda que eles as calquem com os seus pés, e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem" (São Mateus VII, 6). 



   Vejamos, em primeiro lugar, algo que o papa Pio XII diz aos membros da Santa Rota Romana.

   (...) "Pelo ofício que a Santa Sé Apostólica vos confiou, sois no centro espiritual da Cristandade ministros do direito, eleitos representantes de um poder judicial penetrado do sagrado sentimento de responsabilidade, consagrado ao bem ordenado com justiça e equidade no mundo católico. Pois não é coisa nova para vós que a administração da justiça na Igreja é uma função de cura de almas, uma emanação daquele poder e solicitude pastoral, cuja plenitude e universalidade está enraizada e incluída na entrega das chaves ao primeiro Pedro.

   (...) "E na idade presente, em que tanto mais parece abalado em não poucos o respeito pela majestade do direito quanto mais as considerações de utilidade e de interesse, de força e de riqueza prevalecem sobre o direito, muito mais convém que os órgãos da Igreja dedicados à administração da justiça deem e infundam no povo cristão a viva consciência de que a Esposa de Cristo não se renega a si mesma, não muda de caminho com a mudança dos dias, mas é  e caminha sempre fiel à sua sublime missão. A tão alto fim se ordena em grau eminente o vosso insigne Colégio. 

   (...)

   As declarações de nulidade de matrimônios

 "Quanto às declarações de nulidade dos matrimônios, ninguém ignora ser a Igreja cautelosa e contrária a favorecê-las. Se de fato a tranquilidade, a estabilidade e a segurança do comércio humano em geral exigem que os contratos não sejam levianamente proclamados nulos, muito mais ainda quando se trata de um contrato de tanta importância, como o do matrimônio, cuja firmeza e estabilidade são requeridas pelo bem comum da sociedade humana e pelo bem particular dos cônjuges e da prole, e cuja dignidade sacramental proíbe que se exponha levianamente o que é sagrado e sacramental ao perigo de profanação. Quem não sabe, pois, que os corações humanos são, em casos não raros, assaz inclinados - por este ou aquele gravame, ou por discórdia e tédio da outra parte, ou para abrir caminho à união pecaminosa com outra pessoa amada - a procurar libertar-se do vínculo conjugal já contraído? Por isso é que o juiz eclesiástico não deve mostrar-se fácil em declarar a nulidade do matrimônio, mas há de sobretudo esforçar-se por fazer com que se revalide o que invalidamente está contraído, principalmente quando as circunstâncias do caso particularmente o aconselham.

   (...) 

   "... É bem verdade que em nossos tempos, em que o desprezo ou negligência da religião fizeram reviver o espírito de um novo paganismo gozador e soberbo, se manifesta em não poucos lugares uma quase mania pelo divórcio, a qual tenderia para contrair e dissolver os matrimônios com maior facilidade e ligeireza do que nos contratos de aluguel. Mas tal mania, imprudente e imponderada, não pode contar-se como razão, para que os Tribunais eclesiásticos se afastem da norma e da praxe senão a estabelecida por Deus, Autor da natureza e da graça".

Como já havia anunciado e prometido, termino falando algo sobre a Misericórdia divina, já que estamos no ano do Jubileu da Misericórdia. Se Deus quiser, neste ano ainda poderei fazer um artigo exclusivo sobre o Salmo CII, salmo este chamado das Misericórdias divinas. Hoje, limitar-me-ei a algumas reflexões apenas. Em verdade, este Salmo de Davi é "o cântico das misericórdias do Senhor". Se no Salmo L, o Rei Profeta implora para si a multidão das misericórdias divinas, aqui ele louva esta mesma misericórdia olhando em primeiro lugar para si mesmo, ou seja canta com todas as potências de sua alma a misericórdia que Deus usou para com ele (vers. 1-5); canta igualmente um hino à misericórdia que Deus prodigalizou ao seu povo de Israel (v. 6-12) e, finalmente, louva também a misericórdia dispensada a todo homem que a justiça divina vê quão fraco é (v. 13-18). O Salmista termina convidando todas as criaturas para louvarem o seu Criador (v. 20-22). Eis alguns versículos: "É Ele [Deus] que perdoa todas as tuas maldades, e que sara todas as tuas enfermidades. É Ele que resgata da morte a tua vida, e que te coroa da sua misericórdia e das suas graças" (v. 3-4); "O Senhor faz misericórdia e faz justiça a todos os que sofrem agravos... O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia" (v. 6 e 8); "Porque, quanto a elevação do céu está remontada sobre a terra, tanto ele firmou a sua misericórdia sobre os que o temem;... "Como um pai se compadece dos seus filhos, assim se compadeceu os Senhor dos que o temem;  porque ele sabe bem de que somos formados; lembrou-se que somos pó" (v. 11, 13 e 14); "Mas a misericórdia do Senhor estende-se desde a eternidade, e até à eternidade sobre os que o temem. E a sua justiça espalha-se sobre os filhos dos filhos, para os que guardam sua aliança, e se lembram dos seus mandamentos, para os observar" (v. 17 e 18). Termina como começa: Bendize, ó minha alma, o Senhor". 


sexta-feira, 15 de abril de 2016

FALSAS DOUTRINAS SOBRE O MATRIMÔNIO CRISTÃO

LEITURA ESPIRITUAL Dia 15 de abril


"Não separe o homem o que Deus uniu" (S. Mateus XIX, 6)

Vou apenas transcrever alguns tópicos da Encíclica "ARCANUM" de Leão XIII.

"Jesus Cristo, Nosso Senhor, elevou o matrimônio à dignidade de sacramento e o matrimônio é o próprio contrato, se for celebrado segundo o direito. A isto acresce que o matrimônio é um sacramento, precisamente porque é um sinal sagrado que produz a graça e é a imagem da união mística de Jesus Cristo com a Igreja. Ora, a forma e a imagem desta união consistem precisamente no laço íntimo que une entre si o homem e a mulher e que outra coisa não é senão o mesmo matrimônio. De onde resulta que entre os cristãos todo o matrimônio legítimo é sacramento em si e por si, e que nada há mais contrário à verdade do que considerar o sacramento como um ornamento acessório ou como uma propriedade extrínseca, que a vontade do homem pode, por consequência, desunir e separar a seu arbítrio" (...)

"É fácil ver quantos males tem produzido a profanação do matrimônio, e com quantas calamidades ameaça no futuro a sociedade toda" (...)

"Aqueles que negam que o matrimônio é sagrado e que, depois de o haverem despojado de toda a santidade, o metem no número das coisas profanas, subvertem os próprios fundamentos da natureza, contrariam os desígnios da Providência divina e destroem, tanto quanto deles depende, o que foi estabelecido por Deus sobre a terra" (...)

"Se se arrancar dos corações o santo e salutar temor de Deus, arranca-se-lhes igualmente a consolação no meio dos cuidados e pesares da vida, consolação que em nenhuma parte é maior e mais fecunda do que na Religião cristã; e muitíssimas vezes sucede, como que por declive natural, que os encargos e os deveres do matrimônio se antolham insuportáveis, e é grandíssimo o número daqueles que, considerando dependentes da sua vontade e de um direito puramente humano os laços que contraíram, experimentam desejos de quebrá-los, logo que a incompatibilidade do caráter, ou a discórdia, ou a  fé violada por um dos cônjuges, ou recíproco consentimento, ou outras razões os persuadam de que lhes é necessário recuperar a sua anterior liberdade. E se acaso a lei lhes proíbe que satisfaçam a intemperança de tais desejos, então clamam que a lei é iníqua, desumana e incompatível com o direito de cidadãos livres e que, por conseguinte, derrogadas essas leis obsoletas, deve decretar-se, por meio de uma lei mais suave e humana, a permissão do divórcio" (...)

"Concluem que é necessário contemporizar com a época e outorgar a faculdade do divórcio" (...) "Muitos há neste tempo que desejam renovar essas leis, porque querem expulsar a Deus, e arrancar a Igreja do meio da sociedade humana, julgando estultamente que é em leis de tal natureza que deve procurar-se o remédio para a corrupção crescente dos costumes.

"Em verdade, é custoso ter necessidade de dizer quantas consequências funestíssimas encerra em si o divórcio. Pelo divórcio as alianças matrimoniais tornam-se instáveis, enfraquece-se o mútuo afeto, a infidelidade recebe perniciosos incitamentos, ficam comprometidas a proteção e a educação dos filhos, proporciona-se ocasião de se dissolverem as sociedades domésticas, semeiam-se no seio das famílias os germes da discórdia, diminui-se e abate-se a dignidade da mulher, porque corre o perigo de ser abandonada, depois de ter servido às paixões do homem. - E como nada contribui mais para arruinar as famílias e para enfraquecer os Estados do que a corrupção dos costumes, fácil é de reconhecer que o divórcio é, sobretudo, o inimigo da prosperidade das famílias e dos povos, visto que, sendo a consequência dos costumes depravados, abre a porta, como a experiência o demonstra, a uma depravação, ainda mais profunda, dos costumes particulares e públicos. - Todos reconhecerão que estes males serão ainda muito maiores, se refletirem que, desde o momento em que o divórcio haja sido autorizado, não haverá freios bastantemente fortes para o manter dentro de limites fixos, que a princípio pudessem ser-lhe assinalados. - É muito grande a força do exemplo, maior ainda a das paixões; e, graças a estes incitamentos, forçosamente deve suceder que, tornando-se cada dia mais geral e profundo o desejo infrene do divórcio, invada maior número de almas como uma doença que se propaga pelo contágio, ou à maneira das águas acumuladas que, tendo triunfado dos diques que as sustinham, irrompem por todas as partes" (...)

"E, para dizer tudo em poucas palavras, será certa a constância tranquila e pacífica dos casamentos, se os cônjuges nutrirem o seu espírito e a sua vida das virtudes da religião, que torna a alma valente e forte, que faz que os defeitos, se neles existem, a divergência de costumes e de caráter, o peso dos cuidados maternos, a ativa e laboriosa solicitude pela educação dos filhos, as fadigas companheiras da vida e adversidades sejam suportadas não só com paciência, mas ainda de bom grado". (Excertos da Encíclica "ARCANUM" do Papa Leão XIII).

 Diz a Bíblia Sagrada que Judite foi uma mulher santa e temente a Deus. Foi santa antes do casamento, santa no casamento, deixando inclusive uma família numerosa, santa depois quando viúva. Vivia em oração com suas criadas, trazia um cilício sobre os seus rins, jejuava todos os dias de sua vida, exceto nos sábados, nas neomênias e nas festas da casa de Israel. Tinha muito temor de Deus e não havia ninguém  que dissesse dela uma palavra em desfavor. (Cf. Judite VIII). Caríssimos, meditemos em algumas palavras onde Judite invoca a misericórdia de Deus: "Que palavra é esta, com a qual concordou Ozias [o rei], de entregar a cidade aos assírios, se dentro de cinco dias vos não viesse socorro? E quem sois vós, que tentais o Senhor? Não é esta uma palavra que excite a sua misericórdia, mas antes provoca a ira e acende o furor. Vós fixastes um prazo à misericórdia do Senhor e ao vosso arbítrio lhe assinastes o dia. Mas, porque o Senhor é paciente, arrependamo-nos disto mesmo, e derramando lágrimas, imploremos a sua misericórdia; porque Deus não ameaça como os homens, nem ele se inflama em ira como os filhos dos homens. Por isso humilhemos diante dele as nossas almas e postos num espírito de humildade, como seus servos, digamos ao Senhor com lágrimas, que use conosco da sua misericórdia segundo a sua vontade" (Judite, VIII, 10-16).


quinta-feira, 14 de abril de 2016

DOUTRINA DOS APÓSTOLOS SOBRE O MATRIMÔNIO

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 14 de abril

"As mulheres sejam sujeitas a seus maridos, como ao Senhor, porque o marido é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da Igreja, seu corpo, do qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim o estejam também as mulheres a seus maridos em tudo. Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida, para apresentar a si mesmo, esta Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada. Assim também os maridos devem amar as suas mulheres, como os seus próprios corpos. O que ama a sua mulher, ama-se a si mesmo.. Porque ninguém aborreceu jamais a sua própria carne, mas nutre-a e cuida dela, como também Cristo o faz à Igreja, porque  somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. "Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher; e serão os dois uma só carne". Este mistério é grande, mas eu o digo em relação a Cristo e à Igreja. Por isso também cada um de vós ame sua mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o seu marido" (Ef. V, 22-33).

Demos a palavra ao Papa Leão XIII:

"Todas as disposições que a Autoridade de Deus decretara e estabelecera acerca do matrimônio, os Apóstolos, mensageiros das leis divinas, as confiaram mais completa e explicitamente à Tradição e à Escritura. E já agora devemos recordar o que, firmado no ensino dos Apóstolos, "sempre nos ensinaram os Santos Padres, os concílios e a tradição da Igreja universal" (Trid. s. XXIV), isto é, que Jesus Cristo Senhor Nosso elevou o matrimônio à dignidade de sacramento; que no mesmo tempo Ele quis que os cônjuges, assistidos e fortalecidos pela graça divina, fruto dos Seus merecimentos, alcançassem a santidade do mesmo matrimônio; que nesta união, admiravelmente conforme ao modelo da Sua união mística com a Igreja, tornou mais perfeito o amor natural (Trid. s. XXIV, cap. I) e estreitou mais intimamente, pelos laços da caridade divina, a sociedade indissolúvel por natureza do homem com a mulher: "Maridos, dizia S. Paulo aos habitantes de Éfeso, amai vossas mulheres como Jesus Cristo amou a Sua Igreja, tendo-se sacrificado por ela, a fim de a santificar... Os maridos devem amar sua mulheres como ao seu próprio corpo; ninguém odiou jamais a sua própria carne, mas todos a nutrem e tomam cuidado por ela, com fez Jesus Cristo para com a Igreja; e nós somos os membros do seu corpo formados da sua carne e dos seus ossos. Por isso é que o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher e serão dois numa só carne. É grande este sacramento, mas eu digo que o é em Cristo e na Igreja" (Ef. V, 25 ss).

"Da mesma forma, continua Leão XIII, nós sabemos pelos Apóstolos que Cristo quis que a unidade e a estabilidade perpétua do casamento, exigidas pela própria origem desta instituição, fossem santas e invioláveis para sempre. "Aqueles que estão unidos pelo matrimônio, diz o mesmo Apóstolo S. Paulo, eu preceituo, ou antes é o Senhor que o ordena, que a mulher se não separe jamais de seu marido; e, se vier a separar-se dele, permaneça sem se unir a outro homem, ou reconcilie-se com seu marido" (1 Cor. VII, 10 e 11). E ainda: "A mulher está sujeita à lei enquanto seu marido viver; se ele falecer, fica livre" ( 1 Cor. VII, 39). Por todos estes motivos, o matrimônio apresentou-se sempre como um grande sacramento (Ef. V, 32), honroso em tudo (Hebreus XIII, 4), piedoso, casto, digno de um grande respeito em virtude das coisas sublimes de que ele é significação e imagem" (Encíclica "ARCANUM").
Sendo o matrimônio um grande e honroso sacramento, é mister seja tratado com a honra e santidade que merece. Eis o que diz São Paulo: "Seja por todos honrado o matrimônio, e o leito conjugal sem mácula, porque Deus julgará os fornicadores e os adúlteros" (Hebreus XIII, 4). 

Deo volente, durante o Jubileu da Misericórdia, sempre que puder, acrescentarei algum texto da Bíblia referente à misericórdia: "Serás como um filho obediente do Altíssimo, e ele se compadecerá de ti, mais do que uma mãe" (Eclesiástico, IV, 11) e ainda: "Não te abandones, na tua fortaleza, aos maus desejos do teu coração; e não digas: Como sou poderoso! Quem poderá obrigar-me a dar-lhe conta das minhas ações? ... "E não digas: A misericórdia do Senhor é grande, ele se compadecerá da multidão dos meus pecados. Porque a sua misericórdia e a sua justiça estão perto uma da outra... (Eclesiástico V, 2 e 3; 6 e 7).  

domingo, 10 de abril de 2016

PRIMADO DE PEDRO


LEITURA ESPIRITUAL

"Disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes? Ele disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe: apascenta os meus cordeiros. Disse-lhe outra vez: Simão, filho de João, amas-me? Ele disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe (Jesus): Apascenta as minhas ovelhas. Disse-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Ficou Pedro triste, porque, pela terceira vez, lhe disse: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu conheces tudo; tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas" (S. João XXI, 15-17).

"A promessa feita a Pedro foi cumprida no tempo em que Jesus Cristo Nosso Senhor, após a sua ressurreição, tendo perguntado por três vezes a Pedro se o amava mais do que os outros, lhe disse sob forma imperativa: 'Apascenta os meus cordeiros... apascenta as minhas ovelhas'. Quer dizer que todos aqueles que devem estar um dia no seu aprisco, ele os entrega a Pedro como ao seu verdadeiro pastor. 'Se o Senhor interroga, não é que duvide: ele não quer instruir-se, mas, pelo contrário, instruir aquele a quem, estando ele, o Senhor, na iminência de subir ao céu, nos deixava como o vigário do seu amor... E por isso que, único entre todos, Pedro professa esse amor, é posto à testa de todos os outros... à testa dos mais perfeitos, para os governar, sendo mais perfeito ele mesmo" (Santo Ambrósio). Ora, o dever e o papel do pastor é guiar o rebanho, de velar pela sua salvação proporcionando-lhes pastos salutares, afastando os perigos, desmascarando as ciladas, repelindo os ataques violentos; em suma, exercendo a autoridade do governo. Portanto, já que Pedro foi preposto como pastor ao rebanho dos fiéis, recebeu o poder de governar todos os homens por cuja salvação Jesus Cristo derramou o seu sangue. 'Por que foi que ele derramou seu sangue? Para redimir essas ovelhas que ele confiou a Pedro e aos seus sucessores' (S. João Crisóstomo).

"E, por ser necessário que todos os cristãos estejam ligados entre si pela comunidade de uma fé imutável, por isso foi que pela virtude de suas preces Jesus Cristo Nosso Senhor obteve para Pedro que, no exercício de seu poder, a sua fé nunca desfalecesse. 'Roguei por ti, a fim de que tua fé nunca desfaleça' (S. Lucas, XXII, 32). E ordenou-lhe, além disso, todas as vezes que as circunstâncias o pedissem, comunicar ele próprio a seus irmãos a luz e a energia da sua alma: 'Confirma teus irmãos' (S. Lucas, XXII, 32). Aquele , pois, que ele designara como o fundamento da Igreja, ele quer que seja a coluna da fé. 'Já que por sua própria autoridade ele lhe dava o reino, não podia consolidar-lhe a fé,  tanto mais quanto, chamando-o Pedro, o designava como o fundamento que devia consolidar a Igreja?' (Santo Ambrósio).

"Vem daí que certos nomes que designam grandíssimas coisas e 'que pertencem como próprios a Jesus Cristo em virtude do seu poder, o próprio Jesus quis torná-los comuns a si e a Pedro por participação' (S. Leão Magno), a fim de que a comunidade dos títulos manifestasse a comunidade do poder. Assim Ele, que é 'a pedra principal do ângulo, sobre a qual todo o edifício construído se eleva como um templo sagrado do Senhor' (Ef. II, 21), estabeleceu Pedro como a pedra sobre a qual devia ser apoiada a sua Igreja. Quando Jesus lhe disse: 'Tu és pedra', essa palavra conferiu-lhe um belo título de nobreza. E no entanto ele é a pedra, não como Cristo é a pedra, mas como Pedro pode ser a pedra. Porque Cristo é essencialmente a pedra inabalável, e por ela é que Pedro é a pedra. Porque Jesus comunica suas dignidades sem se empobrecer... Ele é o sacerdote, ele faz os sacerdotes... Ele é a pedra, Ele faz de seu apóstolo a pedra' (S. Basílio).


(...) "Bem razão tem, pois, S. Leão Magno de dizer: 'Do seio do mundo inteiro, só Pedro é eleito para ser colocado à frente de todas as nações chamadas, de todos os apóstolos, de todos os Padres da Igreja; de tal sorte que, embora haja no povo de Deus muitos pastores, contudo, Pedro rege propriamente todos aqueles que são também principalmente regidos por Cristo'. Do mesmo modo escreve S. Gregório Magno: 'Para todos os que conhecem o Evangelho, evidente é que pela palavra do Senhor o cuidado de toda a Igreja foi confiado ao santo apóstolo Pedro, chefe de todos os Apóstolos... Ele recebeu as chaves do reino do céu, o poder de ligar e de desligar é-lhe atribuído, e o cuidado e o governo de toda a Igreja lhe é confiado'. (Este artigo compõe-se de excertos da Enc. "SATIS COGNITUM, do papa Leão XIII). 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O MATRIMÔNIO

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 8 de abril


"E criou Deus o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, e criou-os varão e fêmea. E Deus os abençoou, e disse: Crescei e multiplicai-vos..." (Gênesis, I, 27 e 28).
"E da costela, que tinha tirado de Adão, formou o Senhor Deus uma mulher; e a levou a Adão. E Adão disse: Eis aqui agora o osso de meus ossos e a carne da minha carne... Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher; e serão dois numa só carne" (Gên., II, 22-24).
"Foram ter com ele os fariseus para o tentar e disseram-lhe: É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, respondendo, disse-lhes: Não lestes que quem criou o homem no princípio, criou-os homem e mulher, e disse: por isso deixará o homem pai e mãe, e juntar-se-á com sua mulher, e os dois serão uma só carne"? Por isso, não mais são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus juntou.
Por que mandou pois Moisés, replicaram eles, "dar-lhe libelo de repudio e separar-se"? Respondeu-lhes: Porque Moisés, por causa da dureza do vosso coração, permitiu-vos repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim. Eu pois digo-vos que todo aquele que repudiar sua mulher, a não ser por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que se casar com uma repudiada, comete adultério.
Disseram-lhe os discípulos: Se tal é a condição do homem a respeito de sua mulher, não convém casar" (S. Mateus XIX, 3-10).  

Atinente ao casamento, o Livro do Gênesis mostra claramente como foi desde o início do mundo segundo o que Deus mesmo fez. 

Na passagem do Evangelista S. Mateus, acima enunciada, constatamos que a lei evangélica não podia ser expressa mais claramente. E isto é obvio, pois, é o próprio Jesus Cristo, a Verdade Eterna que a expõe. Os próprios Apóstolos o compreenderam tão bem, que, para indicar o rigor da lei da indissolubilidade, chegaram a dizer que era melhor nem casar. Certamente os discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo pensavam assim: Se se é obrigado a suportar os "caprichos e defeitos" da mulher, sem recorrer ao divórcio não vale a pena casar. Deveriam dizer também: e visse-versa. Depois veremos como São Paulo mostra como viver bem, mal grado os defeitos que todos têm, homens e mulheres.  Mesmo que pudesse existir, o divórcio nunca seria solução. Antes pelo contrário. 

Não obstante, a cláusula colocada por Jesus: "a não ser por causa de fornicação", tanto a tradução como o alcance da mesma, gerou muita controvérsia entre exegetas e teólogos. Esta passagem era comumente traduzida por "a não ser em caso de infidelidade" (=adultério). E pior, não faltava quem quisesse interpretá-la como significando a permissão de, neste caso embora único, se quebrar o vínculo e, portanto, permitir o divórcio. Há quase 70 anos atrás chegou-se à conclusão de que a palavra primitiva usada por Jesus Cristo não designa "adultério, infidelidade", mas sim "casamento nulo, concubinato). E é óbvio que, em caso de concubinato, a separação não só pode, mas deve ser feita. Traduzindo a palavra empregada por Jesus no sentido de "adultério" , poderia haver separação não só de leito mas até de casa, mas continuava indissolúvel o vínculo, e, portanto, mesmo nestes casos de infidelidade, nem o cônjuge fiel, poderia casar-se com outro(a).

Estudamos na Teologia que, ainda que se conserve a tradução: "a não ser em caso de infidelidade", não lhe podemos atribuir sentido favorável à dissolução do vínculo. Seria contra o bom senso, contra os evangelhos e contra a história. Senão vejamos: Na lei de Moisés o adultério era punido com a lapidação. Ora, se Jesus veio aperfeiçoar a lei, não iria permitir o adultério. E também a hermenêutica exige que os textos menos claros de um evangelho devem ser interpretados à luz dos lugares paralelos mais claros. E pelos textos de Marcos X, 2-12 e Lucas XVI, 18, vemos que Jesus não faz exceção alguma. Além do mais, se, porventura, as palavras de Jesus Cristo incluíssem uma exceção em favor da quebra do vínculo, assim o teriam compreendido os contemporâneos de S. Mateus e principalmente os cristãos de origem judaica, para quem foi escrito o 1º Evangelho. Ora, os cristãos primitivos jamais entenderam que fosse este o ensinamento do divino Mestre.

Resumindo: O Divino Mestre restitui o Casamento à sua virtude primitiva. O casamento é indissolúvel, porque Deus assim o quis. Tirada do homem pela mão de Deus, entra a mulher, pelo casamento, em sua unidade primitiva. Unido à mulher, assegura o homem a perpetuidade de sua raça. Tal é o plano de Deus, criando a distinção dos sexos. O homem não tem, pois, o direito de dissolver um casamento legitimamente contraído. O casamento é uma instituição divina, não pode o homem mudar as leis que Deus estabeleceu sobre esta matéria. Nosso Senhor Jesus Cristo deixou bem claro que em caso algum, mesmo nos casos de adultério, é permitido o divórcio, pois aquele que se casa com uma mulher repudiada comete adultério, o que não seria possível se a primeira união estivesse legitimamente rompida. Portanto, mesmo o adultério, não dá faculdade de passar a segundas núpcias.

Comentando as encíclicas dos papas sobre a matéria, faremos, se Deus quiser, muitos outros artigos. Aqui, por exemplo, não tivemos espaço para falarmos nos casos de casamentos nulos.