segunda-feira, 31 de julho de 2017

OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO

Alguns excertos da Carta Encíclica "Mens Nostra" do papa Pio XI: ..."É coisa averiguada trazerem consigo os Exercícios Espirituais esta perfeição da vida cristã. Com ela, porém, dimana deles como que espontaneamente, além da paz interior da alma, outro ponto singularíssimo que magnificamente redunda em não pequena vantagem da causa social e é o zelo de ganhar almas para Cristo que se costuma denominar espírito apostólico... Proclamamos e temos o santo retiro dos Exercícios como Cenáculos, que o poder de Deus levantou para que as almas generosas, apoiadas no socorro da graça divina, esclarecidas à luz das verdades eternas, e animadas pelos exemplos de Cristo, não só venham a conhecer de uma maneira clara o preço das almas, e se inflamem  no  desejo de as ajudar em qualquer estado de vida, em que depois de diligente exame entendam dever servir ao seu Criador, mas também aprendam qual seja o ardor e quais as indústrias, os trabalhos e as ações valorosas do apostolado cristão... O mesmo Divino Mestre, não se contentando com os longos anos de escondimento na casa de Nazaré, quis passar quarenta dias inteiros no mais apartado ermo antes de mostrar às nações o pleno esplendor do seu brilho e antes de lhes ensinar de palavra a sua doutrina celeste. Mais ainda. Em plena atividade evangélica costumava de vez em quando  convidar os Apóstolos ao silêncio benfazejo do retiro: "vinde, apartai-vos para o deserto, a descansar um pouco" ( S. Marcos, XI, 31 ). E quando se ausentou desta terra de trabalhos para o céu, quis que os seus Apóstolos e discípulos recebessem a última perfeição no Cenáculo de Jerusalém, onde por espaço de dez dias "perseverando unânimes em oração" ( Atos I, 14 ), se tornassem dignos de receber o Divino Espírito Santo. Retiro verdadeiramente memorável, e primeiro esboço de Exercícios Espirituais. Dele saiu a Igreja, cheia de força e de perpétuo vigor... A partir deste dia a prática dos Exercícios Espirituais, embora não tivesse o nome e o método de que hoje em dia nos servimos, pelo menos na substância "tornou-se familiar entre os primeiros cristãos". Assim o afirmou S. Francisco de Sales ( Tratado do Amor de Deus, liv. 12,c.8 ) e no-lo indicam testemunhos evidentes, que se encontram nas obras dos Santos Padres. S. Jerônimo, por exemplo, exortava a nobre Matrona Celância: "Escolhei um lugar acomodado longe do estrépito da família, aonde como a porto seguro vos possais acolher. Aí, seja tal o gosto da leitura dos Livros Divinos, tão frequentes os tempos de oração, tão assídua a meditação sobre os novíssimos do homem, que com este repouso compenseis as ocupações do resto do tempo. Não pretendemos com estas palavras apartar-vos dos vossos; procuramos sim que aprendais ali  e mediteis como proceder com eles" ( PL., t 22, col. 1216 ).
   Contemporâneo de S. Jerônimo, o bispo de Ravena, S. Pedro Crisólogo, dirigia a todos os fiéis aquele tão conhecido convite:"Demos o espaço de um ano ao corpo; demos à alma alguns dias... Vivamos um pouco para Deus, já que para o século vivemos inteiramente... Ressoe a nossos ouvidos a voz de Deus; não seja perturbada a nossa atenção pelo ruído das ocupações domésticas... Assim amados irmãos, assim prevenidos, declaremos guerra ao pecado... seguros da vitória" ( PL., t. 52, col. 186 ).
   "Num tempo em que os bens temporais, com o consequente bem-estar material, se estendem em certa abundância aos operários e jornaleiros, levando-os assim a uma vida mais desafogada, foi providencial disposição da bondade e misericórdia de Deus tornar mais acessível ainda ao comum dos fiéis o tesouro celeste dos Exercícios Espirituais. Servirão de contrapeso que preservem o homem de cair tristemente no materialismo teórico e prático, para que o estão impelindo as vaidades que o arrastam e as comodidades e delícias da vida em que está engolfado. É por este motivo que justificadamente incitamos e favorecemos as obras em prol dos Exercícios".

  

LEMAS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA

"TUDO PARA A MAIOR GLÓRIA DE DEUS"

   Só um interesse inspirou a vida deste santo extraordinário: o da glória de Deus e da salvação das almas. A este interesse sacrificou e subordinou tudo. É próprio dos santos fazer sempre e em tudo o que Deus quer: fazer a santíssima vontade de Deus e nunca a própria; ou melhor a própria vontade desaparece unida que foi inteiramente à Vontade de Deus. Fazer só o indispensavelmente necessário, com algum cuidado de evitar o pecado mortal, é característico dos tíbios e não dos santos. É mais perfeito procurar sempre o agrado de Deus e dirigir todos os atos à glória de Deus e à salvação da alma. 

"VENCE-TE A TI PRÓPRIO"

   A própria vida de Santo Inácio, desde a sua conversão, foi a fiel interpretação deste lema. Vencendo-se a si, tornou-se o grande Santo. O "vencer-se a si próprio" deve ser o programa de todos os que pretendem chegar à perfeição. O mundo é um vale de lágrimas e misérias, porque o primeiro homem não se soube vencer. O céu regurgita de Santos, que devem a glória ao combate contínuo, que sustentaram contra a natureza. - "Vence-te a ti mesmo" "Vince te ipsum" e terás garantida a tua salvação. Santo Inácio dizia: "Não há outro caminho para a santidade senão o da abnegação e da mortificação. Anima-te, pois! Começa resolutamente! Uma única mortificação, feita com decisão, é mais agradável a Deus que praticar muitas boas obras". 

"QUÃO DESPREZÍVEL É A TERRA QUANDO OLHO PARA O CÉU"

   "A boca fala da abundância do coração": Santo Inácio era chamado o homem que está sempre em colóquio com Deus e vê o céu aberto. Os olhos procuram o que mais lhes agradam. Caríssimos, nós somos cidadãos do céu. Ele é nossa pátria definitiva. Estamos na terra como peregrinos e estrangeiros. Portanto, despojemo-nos do apego a qualquer coisa da terra: riquezas, prazeres, honras. Olhemos para o céu. "Senhor! dai-me a vossa graça e o vosso amor: e serei suficientemente rico" (Santo Inácio).
   "SANTO INÁCIO DE LOIOLA!  ROGAI POR NÓS!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA ENQUANTO SACRIFÍCIO


"Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome uma oblação pura" (Malaquias I, 11).

23. Enquanto sacrifício, esse mistério augustíssimo derrama não somente sobre cada homem, mas sobre todo o gênero humano, uma grandíssima abundância de frutos de salvação; por isso a Igreja costuma oferecê-lo assiduamente pela salvação do mundo inteiro. Convém que todos os piedosos cristãos se esforcem por aumentar cada vez mais a estima e o culto desse sacrifício; e nos nossos dias é isto mais do que nunca necessário. Por isto nós queremos que as suas virtudes múltiplas sejam conhecidas mais perfeitamente e mais atentamente meditadas.

24. Os princípios seguintes são manifestamente reconhecidos pelas luzes naturais da razão: Deus criador e conservador possui sobre os homens, quer a título privado quer sob o ponto de vista público, um poder supremo e absoluto; tudo o que somos e tudo o que temos de bom, individualmente e na sociedade, vem-nos da liberalidade divina: em troca, testemunhar a Deus o maior respeito como ao nosso senhor, e uma vivíssima gratidão como ao nosso principal benfeitor. E no entanto, hoje em dia quantos homens se contam que praticam e observam estes deveres com a piedade que convém? Se jamais houve época em que se mostrasse o espírito de revolta contra Deus é certamente esta, em que de novo reboam mais fortes contra Cristo estes gritos ímpios: "Não queremos que este reine sobre nós" (S. Luc. XIX, 14), e estas palavras criminosas "Arranquemo-lo do meio de nós" (Jer. XI, 19). E há mesmo uns que se encarniçam com impetuosa violência em banir definitivamente Deus de toda sociedade civil e conseguintemente de toda associação humana.

25. Se bem que um tal grau de demência celerada não se manifeste em toda parte, todavia é triste ver quantos esqueceram a divina Majestade, dos seus benefícios e sobretudo da salvação que Cristo nos adquiriu. Mas agora tal perversidade ou tal despreocupação devem ser reparadas por uma reduplicação de ardor de piedade comum para com o sacrifício eucarístico: nada pode honrar mais a Deus nem lhe ser mais agradável. Divina, com efeito, é a vítima que é imolada: por ela, pois, nós tributamos à augusta Trindade toda a honra exigida pela sua imensa dignidade; oferecemos também a Deus Pai um holocausto de valor e de doçura infinitos, seu Filho único; donde resulta que não somente rendemos graças à sua benevolência, mas nos quitamos inteiramente para com o nosso benfeitor.

26. Desse tão grande Sacrifício podemos e devemos recolher ainda um duplo fruto dos mais preciosos. A tristeza invade o espírito de quem reflete nesse dilúvio de torpezas que por toda parte se entornou depois, que, como dissemos, o poder divino foi deixado de lado e desprezado. O gênero humano parece, em grande parte, chamar sobre si a cólera do céu; de resto, essa messe de obras culpadas que se levanta está também madura para a justa reprovação de Deus. Cumpre, pois, excitar os fiéis piedosos e zelosos a se esforçarem por aplacar a Deus que pune os crimes, e por obterem para um século de calamidades socorros oportunos. Saibamos que esses resultados devem ser pedidos sobretudo por esse Sacrifício. Porquanto não podemos satisfazer plenamente as exigências da divina justiça, nem obter em abundância os benefícios da clemência divina, senão pela virtude da morte de Cristo. Ele quis que essa virtude da morte de expiação e de oração ficasse inteira na Eucaristia: esta não é uma vã e simples comemoração da sua morte, mas é a sua reprodução verdadeira e maravilhosa, posto que mística e incruenta.

27. Aliás, apraz-nos declará-lo, grande alegria experimentamos em ver que nestes últimos anos as almas dos fiéis começaram a renovar-se no amor e devoção ao sacramento da Eucaristia, o que nos faz esperar tempos e acontecimentos melhores [ndr.: foi o tempo de São Pio X, o Papa da Eucaristia]. Neste intuito, como fizemos notar no início desta Carta, obras numerosas e variadas foram estabelecidas por uma piedade inteligente, especialmente as confrarias, fundadas quer para aumentar o brilho das cerimônias eucarísticas, quer para adorar perpetuamente, dia e noite, o augusto Sacramento, quer enfim para reparar os insultos e as injúrias que a ele são feitos. Todavia, Veneráveis Irmãos, não nos é lícito, nem a vós tão pouco, descansar sobre o que foi realizado: porque muito mais ainda resta por fazer e por empreender para que esta dádiva, de todas a mais divina, receba, daqueles mesmos que praticam os deveres da religião cristã, homenagens mais numerosas e mais esplendentes, e para que tão grande mistério seja honrado o mais dignamente possível.

Conclusão: renovar o antigo fervor.

28. É por isso que cumpre aperfeiçoar com ardor dia a dia mais vigoroso as obras empreendidas, fazer reviver, onde quer que tenham desaparecido, as antigas instituições, e entre outras as confrarias eucarísticas, as rogações ao Santíssimo Sacramento exposto às adorações dos fiéis, as procissões solenes e triunfais feitas em sua honra, as piedosas genuflexões diante dos divinos tabernáculos, e todas as outras santas e salutaríssimas práticas do mesmo gênero; cumpre-nos, além disso, empreender tudo aquilo que nesta matéria podem sugerir-nos a prudência e a piedade. Mas é preciso sobretudo nos esforçarmos por fazer reviver em larga medida nas nações católicas o uso frequente da Eucaristia. É o que ensinam o exemplo da Igreja nascente, lembrado mais acima, os decretos dos Concílios, a autoridade dos Padres e dos homens mais santos de todas as épocas. Como o corpo, a alma precisa a miúdo de alimento: ora, a Sagrada Eucaristia oferece-lhe o alimento de vida por excelência. E é por isso que mister se faz dissipar os preconceitos dos adversários, os vãos temores de grande número de pessoas, e afastar absolutamente as razões especiosas de se abster da comunhão. Porque se trata de uma devoção que, mais do que qualquer outra, será útil ao povo cristão, já para desviar o nosso século da sua inquieta solicitude pelos bens perecíveis, já para fazer renascer e alimentar constantemente em nossas almas o espírito cristão.

29. Sem dúvida alguma, as exortações e os exemplos dados pelas classes elevadas, mormente o zelo e a atividade do clero, para isso contribuirão poderosamente. Com efeito, os sacerdotes que o Cristo Redentor encarregou de cumprir e de dispensar os mistérios do seu Corpo e do seu Sangue, melhor não podem certamente agradecer-lhe a grandíssima honra que receberam, do que se esforçando para desenvolver com todo o seu poder a glória eucarística de Jesus Cristo, e, consoante os desejos do seu Coração santíssimo, convidar e atrair as almas dos homens às fontes ordinárias de tão augusto sacramento e de tão grande sacrifício".


(Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS" escrita pelo Papa Leão XIII em 28 de maio de 1902). 

domingo, 16 de julho de 2017

ORIGENS DA ORDEM CARMELITANA

Era o ano 860 antes de Cristo. As Sagradas Escrituras no 1º Livro dos Reis, XVIII, 16 a 45 assim nos narram: "Acab saiu a encontrar-se com Elias. E, vendo-o, disse: Porventura és tu aquele que trazes perturbado Israel? Elias respondeu: Não sou eu que perturbei Israel, mas és tu e a casa de teu pai, por terdes deixado os mandamentos do Senhor, e por terdes seguido Baal. Mas, não obstante, manda agora, e faze juntar todo o povo de Israel no monte Carmelo, como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, os quatrocentos profetas dos bosques, que comem da mesa de Jezabel. Mandou, pois, Acab chamar todos os filhos de Israel e juntou os profetas no monte Carmelo.


  Elias, aproximando-se de todo o povo disse: Até quando claudicareis vós para dois lados? Se o Senhor é Deus, segui-o; se, porém, é Baal, segui-o. O povo não respondeu palavra. Elias tornou a dizer ao povo: Eu sou o único que fiquei dos profetas do Senhor; mas os profetas de Baal chegam a quatrocentos e cinquenta homens. Deem-nos dois bois: escolham eles para si um boi, e, fazendo-o em pedaços, ponham-no sobre a lenha, mas não lhe ponham fogo por baixo; eu tomarei o outro boi, pô-lo-ei sobre a lenha e também não lhe porei fogo por baixo. Invocareis vós os nomes dos vossos deuses, e eu invocarei o nome do meu Senhor. O Deus que ouvir, mandando fogo, esse seja considerado o ( verdadeiro ) Deus. Todo o povo, respondendo, disse: Ótima proposta. Disse, pois Elias aos profetas de Baal: Escolhei para vós um boi e começai vós primeiro, porque sois em maior número; invocai os nomes dos vossos deuses e não ponhais fogo por baixo.

  
Eles,pois, tomando o boi que lhes foi dado, sacrificaram-no, e invocaram o nome de Baal, desde manhã até o meio-dia dizendo: Baal, ouve-nos. Mas não se percebia voz, nem havia quem respondesse. E saltavam diante do altar que tinham feito. Sendo já meio-dia, Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou em viagem, ou dorme e necessita que o acordem. Eles, pois, gritavam em alta voz, e retalhavam-se segundo o seu costume, com canivetes e lancetas, até se cobrirem de sangue. Mas, passado o meio-dia, e enquanto eles profetizavam, chegou o tempo em que era costume oferecer-se o sacrifício, e não se ouvia voz, nem havia quem respondesse, nem ouvisse os seus rogos. Disse Elias a todo o povo: Aproximai-vos de mim. Aproximando-se o povo dele, Elias reparou o altar do Senhor, que tinha sido destruído. Tomou doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dirigira a sua palavra, dizendo: Israel será o teu nome. Com estas pedras edificou um altar em nome do Senhor. Fez um regueiro como dois pequenos sulcos, em volta do altar, acomodou a lenha, dividiu o boi em quartos, pô-lo sobre a lenha, e disse: Enchei de água quatro talhas, entornai-as sobre o holocausto e sobre a lenha. Disse outra vez: Fazei isto ainda segunda vez. E, tendo-o eles feito segunda vez, disse: Fazei ainda terceira vez, isto mesmo. Eles o fizeram terceira vez. As águas corriam em volta do altar e o regueiro encheu-se.

   Sendo já o tempo de se oferecer o holocausto, chegando-se o profeta Elias, disse: Ouve-me, Senhor, ouve-me, para que este povo aprenda que tu és o Senhor Deus e que converteste novamente o seu coração.

   O fogo do Senhor baixou do céu, devorou o holocausto, a lenha e as pedras, consumindo o mesmo pó e a água que estava no regueiro. Todo povo vendo isto, prostrou-se com o rosto em terra e disse: O Senhor é o Deus! O Senhor é o Deus! Elias disse-lhes: Apanhai os profetas de Baal, não escape deles nem um só. Tendo-os o povo agarrado, Elias levou-os à torrente de Cison, onde os matou.

   Elias disse a Acab: Vai, come e bebe, porque já se ouve o ruído duma grande chuva. Acab retirou-se a comer e beber; Elias, porém, subiu ao alto do Carmelo, e, inclinado por terra, pôs o seu rosto entre os joelhos, e disse ao seu criado: Vai e olha para o lado do mar. Tendo este ido e tendo olhado, disse: Não há nada. Elias disse-lhe segunda vez: Torna a ir sete vezes. À sétima vez, eis que se levanta do mar uma pequena nuvem, como a pegada dum homem. Disse-lhe Elias: Vai e dize a Acab: Manda atrelar os cavalos no seu carro e corre, não te apanhe a chuva.
   E, quando ele voltava para uma e para outra parte, eis que se cobriu o céu de trevas, vieram nuvens e vento e caiu uma grande chuva". Até aqui as palavras das Sagradas Escrituras. ( 1Reis, XVIII, 16 a 45 ).

   Esmagada que foi a cabeça do demônio que suscitara a idolatria, destruído aquele nefasto ecumenismo, exterminados os falsos profetas, apareceu no céu o sinal da Virgem, e na terra, terão início a sua Ordem e o seu culto, oitocentos e poucos anos antes de seu nascimento.

   Num futuro não tão longe, doutores da Igreja como Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São João Damasceno e outros, explicarão ao mundo como esta nuvenzinha, erguendo-se pura do mar amargo, e deixando atrás as impurezas do mar, é figura de uma Virgem Imaculada, que sairá pura do mar da humanidade, liberta de toda impureza do pecado original.

   Dois mil e cento e dez anos mais tarde, São Luiz IX, rei de França, ouviu falar da santidade de certos monges do Carmelo, dos quais alguns haviam emigrado para a Europa, por causa das vitórias dos sarracenos na Palestina. E São Luiz IX foi a Palestina , subiu o Monte Carmelo. Desejava conhecer aqueles monges que a si mesmos se denominavam Eremitas de Santa Maria do Monte Carmelo. Queria-os também em França e ficou maravilhado ao ouvir da boca daqueles monges o relato da tradição da Ordem. Dizem que são descendentes do profeta Elias. E este lhes ensinara que vira numa nuvem com a forma de pegada humana, que pelo poder divino, se levantara do mar, uma imagem profética da Virgem Maria Imaculada, a qual havia de trazer a salvação dos homens, e vencer o orgulho de satanás, com o seu calcanhar de humildade. Elias ensinara a seus discípulos a implorar a vinda desta Virgem, dizendo que a planta do pé que a nuvem apresentava manifestava em si a maldição divina contra o demônio. "Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência dela: tu armarás ciladas ao seu calcanhar e Ela esmagará a tua cabeça". ( Gen. III, 15 ).

   Contaram, também, a São Luiz IX que, na plenitude dos tempos, tendo aparecido a Virgem Imaculada, e depois da Encarnação do Verbo, a própria Virgem Maria se dignou visitá-los; e a Sagrada Família ao voltar de seu exílio de sete anos no Egito, havia descansado algum tempo com eles. Por eles fora construída ali no Monte Carmelo, a primeira capela do mundo dedicada à Mãe de Deus.

   São Luiz IX ficou edificado e cheio de reverência ao ver a santidade daqueles monges e ao ouvir este relato.

   E uns trinta anos antes da ida de São Luiz IX ao Monte Carmelo, alguns destes monges haviam se transferido para a Inglaterra. Ali tinha-se-lhes reunido um homem muito santo chamado Simão. Recebera o apelido de "stock"por ter vivido solitário na concavidade do tronco de uma árvore no interior de uma floresta inglesa, tal como Elias havia vivido nas grutas naturais do Carmelo.

   Dadas as perseguições,muitos carmelitas passaram para a Europa. Foi mister, então, nomear um Vigário Geral na Europa. Simão Stock foi o escolhido e, seis anos mais tarde foi eleito geral de todo Ordem.

  
O demônio que tem ódio a Maria Santíssima e a sua descendência, fomentou toda espécie de discórdias e perseguições tanto fora como dentro da Ordem do Carmelo. Vemos por isso no ano de 1251 Simão retirar-se para o Mosteiro de Cambridge, curvado sob o peso dos seus 90 anos e do de tantas provações. Ajoelhado na sua pequenina cela derrama a sua alma em ardentíssimos suspiros: "Flor do Carmelo, vinha florífera, esplendor do céu, virgem fecunda, singular. Ó Mãe benigna, sem conhecer varão, aos carmelitas dá privilégios, ó Estrela do mar"!

   E ao levantar os olhos velados pelas lágrimas, a cela enche-se-lhe de uma grande luz: Rodeada por uma multidão de anjos a Rainha do Céu desce até ele, trazendo na mão e Escapulário marrom castanho dos monges e diz-lhe;"Recebe filho queridíssimo, este hábito da minha Ordem: isto será para ti e para todos os carmelitas um privilégio. Quem morrer revestido dele não sofrerá o fogo eterno". Era o dia 16 de julho de 1251.

   A partir daí veio a paz, e a Ordem tornou-se objeto de simpatia no mundo inteiro. Eis Maria Santíssima esmagando a cabeça da infernal serpente.

   A Santa Madre Igreja reconhece o profeta Elias como o fundador da Ordem Carmelitana.Na Basílica de São Pedro no Vaticano, por ordem dos papas, foram colocadas as imagens de todos os santos fundadores de Ordens Religiosas. E, assim, lá foi colocada, por ordem do papa Bento XIII em 26 de junho de 1725, a imagem do Santo Profeta Elias, reconhecido por toda Ordem Carmelitana como o seu Fundador.






sábado, 15 de julho de 2017

FRUTOS QUE SE DERIVAM DA DEVOÇÃO À SS. EUCARISTIA


"Vinde a mim, vós todos, que estais oprimidos, e eu vos aliviarei" (S Mateus XI, 28).

20. Estes poucos ensinamentos a propósito de um assunto tão vasto serão, não duvidamos, fecundos em frutos de salvação para o povo cristão se, por vossos cuidados, Veneráveis Irmãos, forem em tempo oportuno expostos e recomendados. Mas esse sacramento é tão grande e tão abundante em toda sorte de virtudes, que ninguém poderá jamais nem lhe celebrar assaz eloquentemente os louvores, nem por suas adorações honrá-lo como ele o merece. Quer o meditemos com piedade, quer o adoremos nas cerimônias oficiais da Igreja, quer sobretudo o recebamos, com a pureza e a santidade requeridas, deve ele ser considerado como o centro de uma vida cristão tão completa como pode sê-lo; todas as outras modalidades de piedade, quaisquer que sejam, conduzem e vão ter, em última análise, à Eucaristia. Mas é principalmente neste mistério que se realiza e se cumpre cada dia o benévolo convite e a promessa, mais benévola ainda, de Cristo: Vinde a mim, vós todos, que estais onerados, e eu vos aliviarei (S. Mat. XI< 28).

21. Esse mistério, finalmente, é como que a alma da Igreja; é para ele que se eleva a própria plenitude da graça sacerdotal pelos diversos graus das Ordens. É nele, ainda, que a Igreja haure e possui toda a sua virtude e toda a sua glória, todos os tesouros das graças divinas e todos os bens: por isso ela consagra os maiores desvelos a dispor e a trazer os espíritos dos fiéis a uma íntima união com Cristo por meio do sacramento de seu Corpo e de seu Sangue; é pelo mesmo motivo que ela procura fazê-lo venerar ainda mais pelo esplendor das suas cerimônias mais santas. A perpétua solicitude desenvolvida a este respeito pela Igreja, nossa Mãe, é magnificamente salientada por uma exortação publicada no santo Concílio de Trento, a qual respira uma caridade e uma piedade admiráveis e merece verdadeiramente que a transmitamos integralmente ao povo cristão: "O Santo Concílio adverte com afeto paternal, exorta, pede e conjura, pelas entranhas da misericórdia de nosso Deus, todos  e cada um dos que trazem o nome de cristãos, a se unirem enfim e viverem em boa harmonia nesse sinal da unidade, nesse vínculo da caridade, nesse símbolo de concórdia; a se lembrarem da tão grande majestade e do tão admirável amor de Jesus Cristo Nosso Senhor, que deu sua alma bem-amada como preço da nossa salvação, e que nos deixou seu corpo como alimento; a crerem e a venerarem esses mistérios sagrados do corpo e do sangue de Cristo com uma fé tão constante e tão firme, com uma devoção, uma piedade e um respeito tais, que possam frequentemente receber esse pão supersubstancial, que este seja deveras a vida das suas almas e a saúde perpétua dos seus corações, e que, fortificados por esse alimento, possam, ao sair desta miserável vida, chegar à pátria celeste, onde se nutrirão sem velame desse Pão dos anjos que agora só lhes é distribuído sob os véus sagrados" (Sess. XIII, De Echar., X, c. VIII).

22. Também a história nos atesta que a vida cristã foi especialmente florescente no povo nas épocas em que a Eucaristia era recebida mais frequentemente. Em compensação, e fato é este não menos certo, as pessoas se habituaram a ver o vigor da fé cristã enfraquecer-se sensivelmente à medida que os homens negligenciavam o pão celestial e, por assim dizer, lhe perdiam o gosto. Para que essa fé não desaparecesse completamente, no Concílio de Latrão Inocêncio III tomou uma medida oportuníssima, fazendo para todo cristão uma obrigação gravíssima de não se abster da comunhão do Corpo do Senhor ao menos por ocasião das solenidades pascais. Evidente é, porém, que esse preceito foi dado com pesar e como remédio extremo: porque a Igreja sempre desejou que em cada sacrifício os fiéis pudessem participar desse banquete divino. "O Santo Concílio desejaria que em cada missa os fiéis presentes não fizessem apenas a comunhão espiritual, mas, também que viessem receber sacramentalmente a Eucaristia; assim os frutos desse Santíssimo Sacrifício manariam mais abundantes sobre eles" (Conc. Trid. sess. XXII, c. VI).


(Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS"  de Leão XIII sobre a Santíssima Eucaristia, escrita em 1902). 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA FOMENTA VÁRIAS OUTRAS VIRTUDES


"Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia" (S. João VI, 55).
"Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha" (1 Cor. XI, 26).
"Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós todos que participamos de um mesmo pão" (1 Cor. X, 17).

A esperança

13. Eis aqui outro efeito deste sacramento: ele fortifica maravilhosamente assim a esperança dos bens imortais como a confiança no socorro divino. De feito, o desejo da felicidade, natural a todas as almas e inato nelas, é cada vez mais aguçado pela falsidade dos bens terrenos, pelas injustas violências de homens infames, enfim por todas as outras dores físicas e morais. Ora, o augusto sacramento da Eucaristia é ao mesmo tempo a causa e o penhor da felicidade e da glória, não para a alma somente, mas também para o corpo. Porquanto, enriquecendo as almas da abundância dos bens celestes, eles as inundam de alegrias dulcíssimas bem superiores aos que os homens imaginam e esperam: ampara-os na adversidade, dá-lhes forças no combate pela virtude, guarda-os para a vida eterna, e a ela os conduz fornecendo-lhes de alguma sorte os víveres necessários à viagem. Quanto ao corpo frágil e sem força, essa divina Hóstia comunica-lhe o germe da ressurreição futura: o corpo imortal de Cristo infunde-lhe uma semente de imortalidade que, um dia, germinará e dará seus frutos. Que esta dupla sorte de bens deva daí resultar para a alma e para o corpo, sempre o ensinou a Igreja, conformemente à afirmação de Cristo: "Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo VI, 55).

A penitência

14. O nosso assunto leva-nos a considerar, e é isto para nós de grande interesse, que a Eucaristia, instituída por Nosso Senhor como um memorial eterno da sua paixão, demonstra ao cristão a necessidade de emendar-se eficazmente (S. Tomás de Aquino, Opusc. LVIII, Ofício da festa do SS. Sacramento). Jesus disse, efetivamente, aos seus primeiros sacerdotes: Fazei isto em memória de mim (S. Lucas, XXII, 19); quer dizer, fazei-o para recordar minhas dores, minhas amarguras, minhas angústias, minha morte na cruz. É por isso que este sacramento - e esse sacrifício   -  é uma exortação constante a fazer penitência em todo tempo, e a suportar os maiores sofrimentos; é também uma grave e severa condenação desses prazeres que homens sem pudor tanto gabam e exaltam: Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha (1 Cor XI, 26).

A caridade do próximo

15. Além disso, se investigarmos seriamente as causas dos males presentes, veremos que eles decorrem de haver a caridade dos homens entre si esmorecido ao mesmo tempo que se lhes arrefecia o amor a Deus. Eles se esqueceram de que são filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo; não se preocupam senão com seus interesses pessoais; quanto aos negócios alheios, não somente os descuram, mas não raras vezes os atacam e deles se apossam. Daí, entre as diversas classes de cidadãos, distúrbios e frequentes conflitos: a arrogância, a dureza e as fraudes, entre os poderosos; entre os pequenos, a miséria, a invejas e as divisões. Debalde se procura remediar esses males por leis previdentes pelo temor do castigo e pelos conselhos da prudência humana. Como já mais de uma vez e mais detidamente lembramos, é preciso preocupar-se e esforçar-se por obter que, por uma permuta de bons ofícios, as diversas classes de cidadãos contraiam entre si uma união de que Deus seja o princípio, e que produza  obras conformes ao espírito fraterno e à caridade de Jesus Cristo. Trouxe Cristo à terra essa virtude e quis que todos os corações sejam abrasados dela, a única capaz de proporcionar, mesmo para a vida presente, um pouco de felicidade assim para a alma como para o corpo: por ela, com efeito, o amor imoderado de si é refreado no homem;  por ela é reprimido o desejo ardente das riquezas, que é a raiz de todos os males (1Tim VI, 10). Se bem que, em verdade, se devam fazer observar todas as prescrições da justiça nas relações das diversas classes de cidadãos, todavia é principalmente com o socorro e os temperamentos da caridade que se poderá enfim obter a realização e a mantença, na sociedade humana, dessa igualdade aconselhada por São Paulo (2 Cor. VIII, 14).

16. Instituindo esse augusto sacramento, Cristo quis excitar o amor a Deus e, por esse mesmo fato, reaquecer o afeto mútuo entre os homens. Evidente é, com efeito, que este deriva naturalmente daquele, e que dele decorre como que espontaneamente. É impossível que ele venha a faltar no quer que seja; muito mais, ele será necessariamente ardente e vigoroso se os homens considerarem seriamente nesse sacramento o amor de Cristo a eles: aí, o poder e a sabedoria de Cristo manifestam-se com esplendor, e as riquezas do seu divino amor aos homens aí são como que derramadas (Conc. Trid. ss. XIII. De Euchar., cap. II). À vista do exemplo insigne de Cristo prodigalizando-nos todos os seus bens, quanto não devemos nós amar-nos e ajudar-nos mutuamente, nós que estamos unidos por laços fraternos cada dia mais estreitos! Acrescentemos que os sinais constitutivos desse sacramento são, por sua vez incitamentos muito apropriados a essa união. A este respeito, S. Cipriano escreve: Enfim, os próprios sacrifícios do Senhor afirmam a universal união dos cristãos entre si por uma caridade firme e indissolúvel. Com efeito, quando o Senhor chama "seu corpo" ao pão formado por um conjunto de grãos, indica a união do nosso povo; e quando chama "seu sangue" ao vinho espremido desses milhares de cachos ou bagos de uva e formando uma só quantidade líquida, designa também o nosso rebanho formado pelo mistura de uma multidão de homens reunidos (Ep. 69, ad Magnum, n. 5). Do mesmo modo, nestes termos reproduz o Doutor angélico o pensamento de Agostinho (Trat. XXVI, in Joan., n. 13, 17): Nosso Senhor confiou seu corpo e seu sangue a essas substâncias que são formadas de múltiplos elementos reduzidos a um só corpo; primeiramente é o pão, composto de numerosos grãos reunidos; e em seguida é o vinho, proveniente de bagas inúmeras; e é por isso que Agostinho diz noutro lugar: Ó sacramento de piedade, ó sinal de unidade, ó vínculo de caridade! (Sum. Theol., III p., q. 79).

17. Essa doutrina é confirmada pelo Concílio de Trento, que ensina haver Cristo deixado à Igreja a Eucaristia "como o símbolo da sua unidade, e da caridade pela qual Ele quis que todos os cristãos fossem unidos e ligados entre si...; o símbolo desse corpo único de que Ele foi a cabeça, e ao qual quis que estejamos intimamente presos, como membros, pelos laços estreitíssimos da fé, da esperança e da caridade" (Sessão XIII, De Euchar., c. II). É também o que São Paulo ensinara: Por sermos um só pão, um só corpo, apesar do número, nós todos, que participamos de um só pão (1 Cor X, 17). E, certamente, belíssimo e dulcíssimo exemplo de fraternidade cristã e de igualdade social é ver se comprimirem indistintamente em torno dos altares o patrício e o homem do povo, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, participando todos igualmente do mesmo banquete celeste. E se, merecidamente, nos anais dos seus primórdios, cabe à Igreja uma glória especial de que a multidão dos crentes não tivesse senão um só coração e uma só alma (Atos IV, 32), não há dúvida alguma de que esse resultado tão precioso era devido à frequentação da mesa divina. Lemos, com efeito, a respeito dos primeiros cristãos: Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão da fração do pão (Atos II, 42).

(Da Encíclica "MIRAE CARITATIS"  de Leão XIII Sobre a Santíssima Eucaristia). 

terça-feira, 11 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA FOMENTA A FÉ E REFREIA AS PAIXÕES


"O Senhor instituiu um memorial das suas maravilhas, ele que é misericordioso e compassivo. Deu alimento aos que o temem"  (Salmo 110, 4 e 5).

A fé

10. Graças a esse sacramento excelentíssimo, onde aparece sobretudo como os homens são elevados à natureza divina, podem estes fazer os maiores progressos em todas as virtudes da ordem sobrenatural. E primeiramente a fé. Em todos os tempos a fé tem tido os seus adversários: porquanto, se bem que ela eleve o espírito humano pelo conhecimento das verdades mais sublimes, todavia, como mantém oculta a natureza dessas verdades que ela mostra como excedendo a natureza, por isso mesmo parece rebaixar os espíritos. Outrora atacava-se ora tal dogma de fé, ora tal outro; mais tarde, essa guerra estendeu a muito mais longe as suas devastações, e, na hora presente, chegou-se afirmar que absolutamente não existe nada de sobrenatural. Ora, nada mais apto a reconduzir aos espíritos o vigor e o fervor da fé que o mistério eucarístico, propriamente chamado o mistério de fé: por uma especial abundância e variedade de milagres, ele sozinho contém tudo o que está acima da natureza: O Senhor clemente e misericordioso perpetuou a lembrança de suas maravilhas: deu um alimento aos que o temem (Salmo 110, 4 e 5). Realmente, se Deus fez tudo o que está acima da natureza, referiu-o à Encarnação do Verbo, pela qual devia operar-se a restauração e a salvação do gênero humano, consoante a palavra do Apóstolo: Ele se propôs... restaurar em Cristo tudo o que está no céu e tudo o que está na terra (Efésios I, 9  e 10).

11. No testemunho dos santos Padres, a Eucaristia deve ser considerada como uma continuação e uma extensão da Encarnação; por ela, a substância do Verbo encarnado é ainda a cada um dos homens, e o supremo sacrifício do Calvário é renovado de maneira admirável, segundo esta profecia de Malaquias: Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome, uma oblação pura (Malaquias I, 11). Esse milagre, o maior de todos no seu gênero, é acompanhado de milagres inúmeros. Aqui todas as leis da natureza são suspensas: toda a substância do pão e do vinho é convertida no Corpo e no Sangue de Cristo; as espécies do pão e do vinho, não contendo realidade alguma, são sustentadas pelo poder divino; o corpo de Cristo acha-se presente simultaneamente em tantos lugares quantos lugares houver onde o sacramento se cumpre simultaneamente. E, para obter da razão humana uma maior submissão a respeito de tão grande mistério, milagres realizados outrora e em nossos dias, e de que em mais de um lugar existem testemunhos públicos, lhe vêm, por assim dizer, em auxílio, e contribuem para a glória da Eucaristia. Esse sacramento, pois, como vemos, alimenta a fé, nutre o espírito, destrói os sistemas dos racionalistas, e mostra-nos sobretudo os esplendores da ordem sobrenatural.

Refreia as paixões


12. Não obstante, o enfraquecimento da fé nas verdades divinas não é unicamente obra do orgulho de que falamos mais acima; é devido também à depravação do coração. Porquanto, se é um fato de experiência que, quanto melhores os costumes de um homem, tanto mais viva também a sua inteligência, em compensação os prazeres da carne embotam os espíritos: reconheceu-o a prudência pagã e predisse-o a sabedoria divina (Sab. I, 4). Mas é sobretudo na ordem das coisas divinas que as volúpias carnais obscurecem a luz da fé, e mesmo, por uma justa reprovação de Deus, a extinguem. Em nossos dias, o desejo insaciável desses prazeres da carne [ndr: que diria hoje Leão XIII?!] incendeia  todos os homens, que mesmo desde a mais tenra juventude, sentem os efeitos desse contágio mórbido. O remédio para um mal tão horrendo acha-se na Eucaristia. O seu primeiro efeito é, aumentando a caridade, reprimir a paixão. Santo Agostinho diz, com efeito: O alimento desta (da caridade) é o enfraquecimento da paixão, e a sua perfeição é ausência da paixão(De diversis quaestionibus LXX  XII, quaest. XXXVI). Além disso, como o ensinou S. Cirilo de Alexandria, a carne castíssima de Jesus comprime a insolência da nossa carne: Realmente, o Cristo existente em nós aplaca a lei da carne que impera nos nossos membros (Liv. IV, c. II, sobre S. João, VI, 57). Bem mais, o fruto todo particular e dulcíssimo da Eucaristia é Aquele que esta profecia significava: Que há de bom n'Ele (em Cristo), e que há de belo, se não é o trigo dos eleitos e o vinho que faz germinar as virgens? (Zac. IX, 17); quer dizer, esse desejo forte e constante da santa virgindade, que, mesmo num século imerso nas delícias, floresce na Igreja Católica sobre uma extensão de dia para dia mais vasta e com abundância sempre crescente. Em toda parte, bem se sabe, é ele uma fonte de progresso e de glória para a religião e para a sociedade. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA É FONTE DE VIDA SOBRENATURAL


"Eu sou o pão da vida" . "Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo" (Jo. 6, 48 e 52).

Demos a palavra ao Papa Leão XIII, de santa memória:

5. "Conhecer com fé íntegra a virtude da Santíssima Eucaristia, tal qual é, é conhecer tal qual é a obra que, na sua onipotente misericórdia, Deus feito homem realizou em favor do gênero humano. Porquanto a mesma fé que nos obriga a confessar e a honrar a Cristo como o soberano Autor da nossa salvação, o qual, pela sua sabedoria, pelas suas leis, ensinamentos, exemplos e pela efusão do seu sangue, renovou todas as coisas, igualmente nos força a crê-lo e adorá-lo assim realmente presente na Eucaristia, onde ele próprio permanece mui verdadeiramente até o fim dos tempos no meio dos homens, e como mestre e pastor cheio de bondade, como intercessor onipotente junto a seu Pai, para haurir em si mesmo e distribuir a eles com eterna abundância os benefícios da sua redenção. Quem atenta e religiosamente considerar os benefícios que emanam da Eucaristia, compreenderá que o mais excelente e o mais eminente é aquele que contém todos os outros, sejam quais forem: com efeito, é da Eucaristia que se transfunde nos homens essa vida que é a verdadeira vida: O Pão que darei é a minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52).

6. Não é só desta maneira (...) que Cristo é a Vida, Ele que declarou que o fim da sua vinda ao meio dos homens era trazer-lhes verdadeira abundância de uma vida mais do que humana: Vim a fim de que eles tenham a vida e a tenham superabundantemente (Jo 10, 10). E, realmente, ninguém o ignora, desde que a bondade e a humanidade de Deus nosso Salvador apareceram (Tito 3, 4) na terra, fez-se sentir uma força criadora de uma ordem de coisas toda nova e a difundir-se em todas as veias da sociedade civil e doméstica. Desde então, novas relações se estabeleceram entre o homem e seu semelhante, novas leis regeram a sociedade e os indivíduos, novos deveres foram impostos, as instituições, as ciências e as artes adquiriram novo surto; mas o principal é que os corações e as mentes foram reconduzidos à verdade da religião e à pureza dos costumes; bem mais: uma vida toda celeste e toda divina foi-nos comunicada; é o que certamente significam estas expressões frequentemente relembradas na Sagrada Escritura: lenho de vida, palavra de vida, livro de vida, coroa de vida, e, em particular, pão de vida.

7. A vida de que falamos tem muita semelhança com a vida natural do homem, e esta é entretida e fortalecida pelo alimento; deve, pois, aquela ser sustentada e reanimada pelo seu alimento próprio. Importa lembrar aqui em que tempo e de que maneira Cristo nos exortou e induziu a receber convenientemente e dignamente o pão de vida que ele se propunha dar-nos. Quando se espalhou a notícia do milagre da multiplicação dos pães, realizado nas margens do lago de Tiberíades para saciar a multidão, logo muitos afluíram para Ele, esperando talvez obter para si mesmos um benefício semelhante. Jesus aproveitou essa ocasião, e, assim como outrora, à Samaritana que lhe pedia tirar para ela água do poço, Ele mesmo inspirara a sede da água que jorra para a vida eterna (Jo 4, 14), assim também eleva as almas dessa multidão ávida a fim de fazer desejar com mais ardor esse outro pão que permanece para a vida eterna (Jo 6, 27). "Mas esse pão, diz Jesus prosseguindo o seu ensinamento, não é aquele maná celeste que, na sua marcha através do deserto, vossos pais acharam já pronto; não é sequer esse que, de todo admirados, recebestes recentemente de mim; porém eu mesmo sou esse pão: Eu sou o pão de vida (Jo, 6, 48). E, para ainda mais os convencer desta verdade, dirige-lhes este convite e lhes dá este preceito: Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52). Ele mesmo lhes prova assim a importância desta ordem: Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do homem e se não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós (Ib. 54, 10). Longe de nós, pois, esse erro, tão difundido e perniciosíssimo, dos que pensam que o uso da Eucaristia deve ser quase exclusivamente reservado a esses homens livres de todos os cuidados, acusados de terem o coração estreito, e de só o repouso buscarem num regime de vida mais religiosa. Esse bem,  fora do qual nada é mais excelente nem mais salutar, oferece-se a todos indistintamente, sejam quais forem a condição e a categoria de cada um; pertence a todos os que querem (e ninguém há que não deva querê-lo) alimentar em si a vida da graça, cujo termo é a aquisição da vida bem-aventurada com Deus.

8. E prazam ao céu façam uma justa ideia da vida eterna e não a percam de vista aqueles, sobretudo, cujo talento, atividade, autoridade tanto podem para dirigir os acontecimentos e os homens. Mas, ao contrário, vemos e deploramos que a maioria deles consideram com orgulho o haverem inculcado ao século como que uma vida nova e próspera, porque, graças ao seu impulso, o obrigam a marchar a largos passos para toda sorte de progressos e de maravilhas. Na realidade, para qualquer lado que se dirijam os olhares, o que se verá é a sociedade humana, se se afastar de Deus, ao invés de fruir da tranquilidade que deseja, ser, ao contrário, presa de angústia e de agitação, como o doente atormentado por uma febre ardente: ao passo que ela aspira ansiosamente à prosperidade em que coloca a sua única esperança, vê-a desaparecer e fugir-lhe no momento em que acredita possuí-la. Efetivamente, os homens e os Estados dependem necessariamente de Deus, de sorte que não podem viver, nem mover-se, nem fazer qualquer bem senão em Deus, por Jesus Cristo, de quem têm promanado e promanam abundantemente todos os bens, os melhores e os mais preciosos.
9. Ora, a fonte e o princípio de todos esses bens é sobretudo a sagrada Eucaristia: esta entretém, fortifica essa vida cuja privação nos causa tamanho pesar, e aumenta maravilhosamente essa dignidade humana de que se faz tanto caso agora. Com efeito, que coisa maior e mais desejável do que nos tornarmos, tanto quanto possível, participantes e associados da natureza divina? Ora, é isso precisamente o que Cristo nos concede na Eucaristia, pela qual ele prende e une a si ainda mais estreitamente o homem, elevado pela graça até à divindade. Há, com efeito, esta diferença entre o alimento do corpo e o da alma: que aquele se converte na nossa própria carne, ao passo que este nos transforma nele; e, a este propósito, eis o que Santo Agostinho faz o próprio Cristo dizer: Tu não me transformarás em ti como faz o alimento de tua carne, mas serás transformado em mim (Conf. lib. 7, c. 10).

AVISO: Até aqui são palavras do Papa Leão XIII, na Encíclica Sobre  Santíssima Eucaristia, "Mirae Caritatis" escrita em 1902.

Quero aproveitar o ensejo para avisar ao "FRATRES IN UNUM" e aos seus caríssimos leitores que ficarei em recesso nesta coluna por 2 meses a partir do dia 17 de julho. Farei, se Deus quiser OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO (30 dias) e depois farei várias consultas e tratamentos médicos. Caríssimos, peço-lhes a caridade de vossas valiosas orações e, desde já, vos agradeço. Que Deus Nosso Senhor abençoe a todos e os cumule de escolhidas graças. Salve Maria! Amém!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SANTA MARIA GORETTI

PUREZA NA LAMA
                                                                                                                  Dom Fernando Arêas Rifan*

        A virtude da pureza está se tornando uma pérola rara e esquecida, em meio a essa onda de devassidão que assola o mundo de hoje. Por isso vale a pena recordar a vida da Santa cuja memória Igreja celebra amanhã, Santa Maria Goretti, mártir da pureza.
        Santa Maria Goretti, denominada a Santa Inês do século XX, foi assassinada em 6 de julho de 1902, com cerca de 12 anos de idade, porque preferiu morrer a ofender a Deus, pecando contra a castidade, como a queria forçar seu assassino. Ela era uma menina de família católica, de boa formação. Tive a graça de visitar, por duas vezes, o local do seu martírio.
        Dela disse o Papa Pio XII: “Santa Maria Goretti pertence para sempre ao exército das virgens e não quis perder, por nenhum preço, a dignidade e a inviolabilidade do seu corpo. E isso não porque lhe atribuísse um valor supremo, senão porque, como templo da alma, é também templo do Espírito Santo. Ela é um fruto maduro do lar cristão, onde se reza, onde se educam os filhos no temor de Deus e na obediência aos pais. Que o nosso debilitado mundo aprenda a honrar e a imitar a invencível fortaleza desta jovem virgem”.
        Seu assassino, Alessandro Serenelli, então com 20 anos, passou 30 anos na prisão e, graças às orações e ao perdão da santa, arrependeu-se e se converteu, morrendo santamente aos 89 anos num convento dos padres capuchinhos em 6 de maio de 1956.
        Ele escreveu o livro “O Punhal de tantos remorsos”, onde diz: “Aos 20 anos, cometi um crime passional, de que agora tenho horror só em recordá-lo. Maria Goretti, agora santa, foi o anjo bom que a Providência colocou no meu caminho para me salvar. Peço perdão ao mundo pelo ultraje feito à mártir Maria Goretti e à pureza. Exorto a todos a se manterem afastados dos espetáculos imorais, dos perigos e das ocasiões que podem conduzir ao pecado. Eu gostaria que os que lessem esta carta (seu testamento) aprendessem a fugir do mal e a fazer sempre o bem. Pensassem desde crianças que a religião, com seus preceitos, não é algo de que se possa prescindir, senão o verdadeiro alento, o único caminho seguro em todas as circunstâncias da vida, até as mais dolorosas”.
        Santa Maria Goretti e muitas outras santas e santos que viveram sua pureza e castidade são exemplo para todos, especialmente em meio à lama de impureza que nos cerca de todos os lados, especialmente pelos espetáculos e pelos meios de comunicação.
        Eu recordo as graves palavras do saudoso Dom Lucas Moreira Neves, acusando a Televisão, o que poderíamos aplicar também a certos sites da Internet, pela onda de impureza que traz para dentro dos lares: “Acuso-a de ministrar copiosamente a violência e a pornografia. A primeira é servida em filmes para todas as idades. A segunda impera, solta, em qualquer gênero televisivo: telenovelas, entrevistas, programas ditos humorísticos, spots publicitários e clips de propaganda. A TV brasileira está formando uma geração de voyeurs, uma geração de debilóides. Acuso-a de ser corruptora de menores”.