quarta-feira, 31 de julho de 2019

A REFORMA

A REFORMA
                                                        
                                                                                                                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*
     
        O século XVI foi um dos séculos mais conturbados da história da Igreja, devido especialmente aos excessos da renascença, que, com a pretensa volta aos valores pagãos nas artes e na vida, trouxe uma onda de mundanismo e devassidão, que atingiu também infelizmente a vida de pessoas da Igreja, até nos altos postos da hierarquia. 
        Martinho Lutero, monge alemão, abalado já na sua vida espiritual, sentiu-se também escandalizado com esse mundanismo e pretendeu salvar, por si mesmo, a Igreja. Entrou assim em um caminho errado de reforma, causando na verdade uma revolução, destruindo a autoridade e o Magistério da Igreja, e implantando o princípio da livre interpretação das Sagradas Escrituras, o livre-exame, causa das grandes divisões religiosas que se seguiram.  
        Mas a verdadeira reforma, talvez vislumbrada por Lutero, não a pseudo-reforma perpetrada por ele, foi realizada, no mesmo século XVI, pelo Concílio de Trento e pelos santos contemporâneos do monge alemão, como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, São Filipe Nery e, sobretudo, Santo Inácio de Loyola com a Companhia de Jesus, concretizando assim o que dizia São João Paulo II: “A Igreja não precisa de reformadores, mas de santos!” Os Santos, reformando a si mesmos, foram os verdadeiros reformadores do mundo e da Igreja.
        Inácio de Loyola, santo cuja memória celebramos hoje, era um oficial espanhol, que, em 1521, mesmo ano da excomunhão de Lutero, no cerco de Pamplona, teve uma perna quebrada por uma bala de canhão e esperava por várias semanas sua cura no hospital. Enfadado, pediu romances para ler e se distrair. Mas não os encontraram e lhe trouxeram uma Vida dos Santos. Aquela leitura o encantou e transformou aquele oficial frívolo num dos maiores santos da Igreja, fundador da Companhia de Jesus, os Jesuítas, a cujas fileiras pertence o nosso Papa Francisco.
        Seu lema “para a maior glória de Deus” o impulsionava e contagiava seus companheiros, especialmente Francisco Xavier, que se tornou o grande missionário das Índias e do Japão. Enquanto Lutero e Calvino propagavam suas ideias, cujas consequências foram a devassidão e a guerra, Santo Inácio com seus companheiros usavam a oração, a caridade, a união com a Igreja e o espírito missionário. Escreveu os célebres “exercícios espirituais”, programa de retiros que inspirou e inspira todos os que querem levar uma vida espiritual séria e bem fundamentada. 
        Aqui no Brasil, da Companhia de Jesus, tivemos o grande Apóstolo de nossa Pátria, patrono de todos os catequistas, São José de Anchieta, que, com o Pe. Manoel da Nóbrega, fundou a cidade de São Paulo e participou da fundação da cidade do Rio de Janeiro. Embora não santo, temos da mesma companhia, o mais célebre orador do Brasil, o Padre Antônio Vieira. Também os Quarenta Mártires do Brasil, liderados pelo Bem-aventurado Inácio de Azevedo, martirizados pelos piratas protestantes quando vinham para trabalhar nas missões do Brasil, eram da Companhia de Jesus de Santo Inácio de Loyola.

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

LEMAS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA

"TUDO PARA A MAIOR GLÓRIA DE DEUS"

   Só um interesse inspirou a vida deste santo extraordinário: o da glória de Deus e da salvação das almas. A este interesse sacrificou e subordinou tudo. É próprio dos santos fazer sempre e em tudo o que Deus quer: fazer a santíssima vontade de Deus e nunca a própria; ou melhor a própria vontade desaparece unida que foi inteiramente à Vontade de Deus. Fazer só o indispensavelmente necessário, com algum cuidado de evitar o pecado mortal, é característico dos tíbios e não dos santos. É mais perfeito procurar sempre o agrado de Deus e dirigir todos os atos à glória de Deus e à salvação da alma. 

"VENCE-TE A TI PRÓPRIO"

   A própria vida de Santo Inácio, desde a sua conversão, foi a fiel interpretação deste lema. Vencendo-se a si, tornou-se o grande Santo. O "vencer-se a si próprio" deve ser o programa de todos os que pretendem chegar à perfeição. O mundo é um vale de lágrimas e misérias, porque o primeiro homem não se soube vencer. O céu regurgita de Santos, que devem a glória ao combate contínuo, que sustentaram contra a natureza. - "Vence-te a ti mesmo" "Vince te ipsum" e terás garantida a tua salvação. Santo Inácio dizia: "Não há outro caminho para a santidade senão o da abnegação e da mortificação. Anima-te, pois! Começa resolutamente! Uma única mortificação, feita com decisão, é mais agradável a Deus que praticar muitas boas obras". 

"QUÃO DESPREZÍVEL É A TERRA QUANDO OLHO PARA O CÉU"

   "A boca fala da abundância do coração": Santo Inácio era chamado o homem que está sempre em colóquio com Deus e vê o céu aberto. Os olhos procuram o que mais lhes agradam. Caríssimos, nós somos cidadãos do céu. Ele é nossa pátria definitiva. Estamos na terra como peregrinos e estrangeiros. Portanto, despojemo-nos do apego a qualquer coisa da terra: riquezas, prazeres, honras. Olhemos para o céu. "Senhor! dai-me a vossa graça e o vosso amor: e serei suficientemente rico" (Santo Inácio).
   "SANTO INÁCIO DE LOIOLA!  ROGAI POR NÓS!

ATO DE PERFEITO AMOR DE DEUS

  LEITURA ESPIRITUAL  -  dia 31º

"Conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor; quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele"... "Nós, portanto, amemos a Deus, porque Deus nos amou primeiro" (1 S. João, IV, 16 e 19). 

 Primeiramente um esclarecimento: Habitualmente, em nosso amor de Deus há mistura de amor puro e de amor de esperança, o que quer dizer que amamos a Deus por Si mesmo, porque é infinitamente bom, e também porque é a fonte de nossa felicidade. Estes dois motivos não se excluem, pois Deus quis que em O amar e glorificar encontrássemos a nossa felicidade. Não nos inquietemos, pois, desta mistura, e, pensando no céu, digamo-nos somente que a nossa felicidade consistirá em possuir a Deus, em O ver, amar e glorificar; então o desejo e a esperança do céu não impedem que o motivo dominante das nossas ações seja verdadeiramente o amor de Deus.
   O Ato de Amor a Deus é a maior e mais preciosa ação que se possa ser feito, tanto no céu como na terra. A alma que faz mais Atos de Amor a Deus, é a alma mais amada por Deus no céu e na terra. O Ato de Amor a Deus é o mais poderoso e eficaz meio para chegar bem depressa, e facilmente, a mais íntima união com Deus, à mais alta santidade e à maior paz da alma. (Beato Olier).
   O Ato de perfeito Amor a Deus realiza imediatamente o mistério da união da alma com Deus. E se esta alma fosse culpada dos maiores erros, ainda que numerosos, adquiriria imediatamente a Graça de Deus com este Ato, com a condição de desejar se confessar o quanto antes. Não pode comungar antes da confissão. Mas queremos dizer que feito o Ato de perfeito Amor a Deus, a alma por mais pecadora é perdoada por este Ato e se morrer antes de se confessar não vai para o inferno. Está salva.
   Este ato purifica a alma dos pecados veniais, das imperfeições, dá o perdão do pecado, dá também a remissão da pena por todos os pecados e restitui os méritos perdidos. O Ato perfeito de Amor a Deus torna a dar a alma imediatamente, a inocência batismal. É este ato o meio eficaz para converter os pecadores, salvar os moribundos, libertar as almas do Purgatório, e para consolar os que sofrem, para ajudar os Padres, para ser útil às almas e à Igreja.
   Um Ato perfeito de Amor a Deus aumenta a glória exterior do próprio Deus, da Santíssima Virgem e de todos os Santos do Paraíso; soergue todas as almas do Purgatório; obtém acréscimo da graça para todos os fiéis sobre a terra, reprime o poder maligno do inferno sobre as criaturas. O menor Ato de amor a Deus chega como bênção e graça até o selvagem que mora na última choupana abandonada nos limites da terra.
   O Ato de Amor a Deus é o mais poderoso meio de evitar o pecado, de vencer as tentações e também para adquirir todas as virtudes e merecer todas as graças.
   "O menor Ato de perfeito Amor a Deus tem mais efeito, mais merecimento e mais importância, que todas as boas obras em conjunto". (São João da Cruz) É óbvio que São João da Cruz está se referindo às obras boas mas não feitas com perfeito amor a Deus.
   O Ato de Amor a Deus é a ação mais simples, mais fácil, mais curta ou rápida que se pode fazer, pois basta dizer com toda simplicidade: "Meu Deus, eu Vos amo".
   É tão fácil fazer um Ato de Amor a Deus. Pode-se realizá-lo a todo momento, em todas as circunstâncias, no meio do trabalho, entre a multidão humana, seja qual for o lugar, e num instante de tempo. O Bom Deus está sempre presente, ouvindo, esperando afetuosamente colher do coração da criatura essa expressão de amor. Ele deseja somente que a alma que faz um Ato de Amor conserve-se atenta um momento para poder Ele, Deus responder-lhe por sua vez: "Eu também te amo; Eu te amo muito!"
   O Ato de amor não requer esforço nem inteligência. Não interrompe a atividade, não exige fórmulas particulares.
   O Ato de Amor não é um ato de sentimento; é um ato da vontade. Elevado infinitamente acima da sensibilidade e é também imperceptível aos sentidos. Basta que a alma diga ou mesmo exprima sem palavras ao bom Deus: "Meu Deus, eu Vos amo!"
   Na dor sofrendo em paz e com paciência, a alma manifesta seu Ato de Amor deste modo: "Eu Vos amo Meu Deus, por isto sofro tudo por amor a Vós!"
   Em meio aos trabalhos e preocupações exteriores, no cumprimento do dever cotidiano: "Meu Deus, eu vos amo, trabalho convosco, para Vós, por Vosso Amor".
   Na solidão, no isolamento, na imolação, na desolação: "Obrigado, meu Deus, sou assim mais semelhante a Jesus. Basta-me amar-Vos muito!"
   Por ocasião de defeitos, mesmo graves: "Meu Deus, sou fraco, perdoai-me. Recorro a Vós, refugio-me em Vós porque Vos amo muito!"
   Nas alegrias, nas horas de felicidade: "Meu Deus, obrigado por este dom. Eu Vos amo".
   Quando a última hora se aproximar: "Obrigado, meu Deus por tudo. Amei-Vos sobre a terra; espero amar-Vos para sempre no Paraíso!"
   Pode-se fazer o Ato de Amor a Deus de mil modos diversos. Mas ele é realizado de modo particular pela vontade sempre disposta a cumprir a Santa Vontade de Deus, de qualquer modo que ela se apresente e nos seja manifestada.
   Faz-se o Ato de Amor a Deus, também, quando se cumpre mesmo uma pequenina obrigação, quando se sofre uma bem pequena pena ou frui-se qualquer ventura ou alegria, tudo por seu Amor.
   "Para o bom Deus, vale mais apanhar um alfinete do chão por seu Amor, do que realizar ações notáveis por outros objetivos, ainda que honestos", - diz um santo.
   Faz-se Atos de Amor a Deus todas as vezes que se Lhe diz pela vontade: "Meu Deus, eu Vos amo".
   Uma pobre alma, ignorada de todos, pode fazer por dia 10.000 Atos de Amor a Deus. Na realidade, uma alma simples, e que vive no meio do mundo, e no meio da agitação e das preocupações, pode repetir cada dia 10.000 vezes: "Meu Deus, eu Vos amo".
   A ALMA PODE FAZER O ATO DE AMOR A DEUS EM TRÊS GRAUS DE PERFEIÇÃO.
   1º) - Vontade de sofrer quaisquer penas e até mesmo a morte para não ofender gravemente o Senhor. "Meu Deus, antes morrer que cometer um pecado mortal".
   2º) - Vontade de sofrer qualquer pena e até mesmo a morte de preferência a consentir num pecado venial. "Meu Deus, antes morrer que ofender-Vos, mesmo levemente".
   3º) - Vontade de escolher sempre o que for mais agradável a Deus. "Meu Deus, uma vez que Vos amo, quero somente o que quereis".
   Cada um destes três atos contém um Ato perfeito de Amor a Deus.
   Santo não é quem faz milagres, tem êxtases ou visões, mas quem faz mais Atos de Amor a Deus no decorrer do dia.
   Santo não é quem nunca consente num pecado, mas quem faz pecados por fraqueza mas logo se reergue e encontra em sua própria fraqueza nova razão de amar ainda mais o bom Deus e de se abandonar melhor nos braços divinos.
   Santo não é quem se flagela, usa de fortes mortificações ou que foge ao mundo, ou que realiza obras notáveis que maravilham os homens, mas quem diz maior número de vezes e com mais amor ao bom Deus: "Meu Deus, eu Vos amo muito, e por vosso amor, quero florescer onde me semeastes".
   Santo é quem repete com maior vontade e maior número de vezes o Ato de Amor pela jornada diária afora: "Meu Deus, eu Vos amo muito".
   A alma mais simples e escondida, ignorada de todos, mas que faz o maior número de Atos de Amor a Deus, é muito mais útil às almas e à Igreja do que aquelas que fazem grandes obras com menor amor.
   As obras grandiosas e maravilhosas de alguns santos tiveram muito valor justamente porque tiveram como motivo o grande amor a Deus que lhes inflamava a alma.

   Esta postagem é um folheto distribuído por Religiosas no alto da "Escada Santa" em Roma. Foi traduzido para o português e publicado em 1958. Recebeu para tanto o Nihil obstat do Cônego Vital B. Cavalcanti ( Censor ad hoc); e o "imprimatur" = pode imprimir-se - foi dado pelo Mons. Caruso , Vigário Geral no Rio de Janeiro.

terça-feira, 30 de julho de 2019

O AMOR A DEUS

LEITURA ESPIRITUAL, dia 30º

O primeiro e o máximo mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas. É sumamente útil e necessário conhecermos bem este assunto.

Em primeiro lugar, devemos  distinguir dois elementos no amor: a complacência e a benevolência. Que é complacência? Vamos dar exemplo do que acontece com o amor entre pessoas aqui na terra e depois aplicaremos subindo até Deus. Assim, as qualidades dos entes queridos nos enlevam: eis aí a complacência. Agora, queremos bem àquelas pessoas cujos dotes nos cativam: eis aí a benevolência. E nosso amor de complacência e de benevolência deve ser afetivo e efetivo. Há amor afetivo quando suscitamos no nosso coração, tais sentimentos tanto de complacência como de benevolência. E, desde já devemos saber que este amor afetivo para com Deus se exerce e se dilata na oração.

Mas, caríssimos, este amor afetivo só será sincero se for acompanhado do amor efetivo, ou seja, é mister que opere e que realmente sirvamos a Deus. Em outras palavras, o nosso amor deve ser provado pela prática das virtudes. Portanto o amor interno deve ser manifestado externamente e é assim que conhecemos  inclusive o seu valor exato. Como disse o Divino Mestre: "Não é aquele que diz Senhor, Senhor, que vai entrar no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu". Diz também: "Quem me ama, guarda os meus mandamentos, faz o que eu mando". Portanto, querer julgar a intensidade do amor apenas pelo surtos do coração é expor-se a ilusões. É na renúncia da própria vontade e na aceitação amorosa e inteira da vontade divina, que encontramos a prova inconfundível do verdadeiro amor de Deus. Se o amor perfeito não pode nascer nem crescer sem o exercício da oração e a prática constante do amor afetivo, tão pouco se pode desenvolver sem as obras, sem a luta generosa contra os nossos defeitos e a fidelidade às virtudes cristãs.

E que vem a ser AMOR PERFEITO a Deus? Caríssimos, devemos evitar dois extremos: Não se trata apenas de um ato PASSAGEIRO de caridade perfeita; isto seria uma resolução sincera de evitar todo pecado mortal, a fim de não ofender o Deus infinitamente bom, infinitamente digno de amor. Na verdade, esta disposição basta à alma para alcançar o perdão das faltas graves e recuperar a graça santificante que perdera, desde que acompanhada do desejo de receber o sacramento da Penitência. Não é permitido, porém comungar, sem antes se confessar. Se Jesus chamar esta pessoa repentinamente sem ter condição de se confessar, ela se salva. Mas este ato passageiro de caridade perfeita não é ainda o AMOR PERFEITO  a Deus, de que falamos aqui. Por outro lado, devemos excluir o outro excesso, isto é, não deva haver nenhuma interrupção nem desfalecimento para que o amor fosse perfeito. Na realidade seria exigir um amor que só será possível no céu. Assim sendo, devemos dizer que uma alma atinge o amor perfeito a Deus aqui na terra, quando se encontra na disposição habitual de renunciar a tudo quanto lhe possa arrefecer o ardor da caridade. Portanto, significa não ter nenhum apego voluntário, nem às faltas ligeiras, nem às imperfeições; quando se propõe a fazer, em tudo, o que Deus quer, e como Deus quer. E prestemos bastante atenção neste particular: esta resolução não pode ser fruto de um ímpeto de entusiasmo, em que a sensibilidade tem grande parte, mas deve ser uma determinação calma, firme e constante da vontade. Conhece as dificuldades, mas sabe vencê-las, porque não há nada mais forte do que o amor perfeito.

Então, resumindo: O amor perfeito a Deus supõe que a alma esteja sempre na presença de Deus. Pelo menos, o pensamento da pessoa se volta frequentemente para Deus. O amor perfeito supõe, portanto, um amor afetivo intenso e freqüente; supõe também um amor efetivo, generoso, habitual, e devemos dizer que também supõe um amor delicado. Porque daria provas de amor vulgar  e um tanto interesseiro, quem não soubesse prestar serviços a um amigo sem deixar perceber o que isso lhe custa. Na realidade, o verdadeiro amor nunca pensa fazer bastante para o ente amado, desprezando suas fatigas e seus trabalhos; raramente fala de seus sacrifícios, e, se falar, é para dizer que é pouca coisa e que está pronto a fazer outros, maiores ainda.

Não há meio melhor para compreendermos bem o que vem a ser o amor perfeito a Deus do que lendo a vida dos santos, porque, na verdade, é neste amor perfeito, onde se procura fazer sempre a vontade de Deus, que encontramos a verdadeira santidade. Amém!

domingo, 28 de julho de 2019

GRAUS DA HUMILDADE



A santidade depende estreitamente da humildade. E, quanto mais um homem é humilde, tanto mais é justo, tanto mais é santo, tanto mais é perfeito. Assim como há três etapas no caminho da perfeição, na humildade há três graus.

Caríssimos, sabemos pelas Sagradas Escrituras que o pecado origina-se do orgulho que não aceita nenhuma submissão. No Céu, no tempo de prova, Lúcifer se rebelou dizendo: "Não servirei!" e muitos anjos seguiram este mau exemplo. Na terra, Eva e Adão caíram também levados pelo orgulho: pensar em ser "iguais a Deus". E este espírito de rebelião passou a todos os homens: é o triste apanágio de nossa natureza decaída. Por efeito do pecado original, somos todos, uns mais outros menos, inimigos da obediência, e da dependência. Como o filho pródigo almejamos liberdade longe de Deus para fazermos o que nos agrada. Ah! que tendência terrível!!! Ai de nós se não adquirirmos a humildade e nela sempre nos esforçarmos por crescer!

PRIMEIRO GRAU DE HUMILDADE: O orgulho está como que entranhado na medula de nossos ossos e infecciona todas as potências de nossa alma. Somos tentados a erigir-nos em pequenos deuses, referindo tudo a nós, como se fôramos o centro e último fim de todas as criaturas.

Mas, quando a luz divina chega a iluminar o nosso espírito e a graça a tocar nosso coração, logo se apressa a despedaçar esse ídolo, isto é, o "Eu". Desvanece-nos o nosso nada e ei-nos convictos de que o primeiro e mais essencial dever da criatura é submeter-se ao Criador, e obedecer a seus mandamentos, dispostos a perder tudo, a sofrer tudo, do que transgredir um só em matéria grave, e ultrajar um Senhor  que é a própria Santidade, onipotente e de suprema Majestade.

Esta disposição é o primeiro grau da humildade. Ele é necessário para a salvação. Portanto, no assalto da tentação, em perigo de ofender a Deus mortalmente, todo o cristão deve prorromper com São Paulo: "Quem me separará do amor de Cristo? Nada, nem o infortúnio, nem a fome, nem a sede, nem a perseguição, nem a espada, nem a morte!" (Rom. VIII, 35). Portanto, quem tiver perseverado até ao fim, resoluto antes a sacrificar seus bens, sua honra, sua vida, do que cometer um pecado mortal, este será salvo; afinal, humilhou-se sob a autoridade do Soberano Senhor, deu a Deus o que essencial e rigorosamente lhe é devido; deve por isso ser contado no número de justos. Mas, se não vai mais longe, não é senão um justo muito imperfeito. E devemos observar, embora de passagem, que as pessoas consagradas a Deus (os clérigos e os religiosos) não podem se contentar só com este grau de humildade.

SEGUNDO GRAU DE HUMILDADE: Consiste em nos submetermos ao nosso Criador com tão profunda entrega, que estejamos devotados a morrer, mas nunca contristá-lo nem na mínima coisa voluntariamente, isto é, de caso pensado. Este estado não aceita afeto nem apego ao pecado venial. As leves faltas em que se cai não são mais que o efeito da fragilidade humana; o coração e a vontade abominam-nas. Fica evidente que esta disposição é bem mais perfeita que a primeira que é o primeiro grau. E assim, quanto mais diante de Deus nos humilhamos, mais nos aproximamos da verdade e da ordem, da justiça e da santidade. E, caríssimos, não será sobremaneira consentâneo à ordem e à justiça que um bom filho jamais dê o mínimo desgosto ao melhor dos pais?

O ínfimo grau de glória vale incomparavelmente mais que nossa vida,e todos os bens deste mundo; porque é Deus o derradeiro fim de todas as coisas, e o fim é sempre de preferência aos meios. Ora a glória de Deus, (refiro-me à sua glória acidental) é que todas as criaturas Lhe sejam totalmente reverentes, que atendam ao mínimo sinal da Sua vontade. Quanto não devemos, logo, abominar o pecado venial, que é uma revolta contra esse Deus; é querer roubar a Sua glória!

Quanto aos eclesiásticos, todos os que possuírem este segundo grau de humildade, serão bispos e padres piedosos, fervorosos, que tratam a miúdo com Deus na oração, e dessas comunicações íntimas haurem as luzes e as graças que tornam seu ministério profícuo entre os povos. Padres assim, até com talentos medíocres farão o que outros não são capazes de fazer com todos os recursos da ciência e do gênio. Exemplo clássico é o do Santo Cura d'Ars!

Quem possui este segundo grau de humildade já é indubitavelmente justo e santo, quando com denodo se sacrifica tudo o que poderia diretamente opor-se à glória de Deus. No entanto, nem por isso se tem chegado a tal desapego das coisas criadas, que não se preze já sua própria reputação, a estima das pessoas virtuosas, certos prazeres inocentes que Deus não reprova. Mas, prestemos bem atenção nisto, sobretudo, nós caríssimos colegas no sacerdócio, que os que estacionam neste segundo grau, sem mirar mais alto, caem a breves passos em faltas impensadas, em muitas imperfeições inevitáveis em tal estado.  É ainda por isso que deixam escapar frequentes ensejos de praticar grandes virtudes. É claro que Deus os ama, e sobre eles derrama copiosas graças. Mas não vê neles a digna generosidade e correspondência, para lhes comunicar os dons extraordinários, os grandes privilégios, de que Lhe apraz cumular os Seus eleitos. É que ainda falta um grau mais excelente da humildade, grau este sim, que constitui o ápice da perfeição evangélica.

TERCEIRO GRAU DE HUMILDADE: De início, devemos observar que o heroísmo da santidade é um dom à parte. Mesmo na perfeição há diferentes graus. É bom, porém, que o conheçamos, mesmo que seja só no intuito de nos humilharmos vendo a imensa distância nossa destes heróis de santidade. Aqui é o lugar de meditarmos nestas palavras do divino Mestre: "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito"; e também nesta exortação do Divino Espírito Santo: "Aquele que é justo justifique-se mais, aquele que é santo, santifique-se mais" (Apocalipse XXII, 11).

O terceiro grau de humildade inspira à alma fiel tal desprezo do mundo, e tão grande amor ao desprezo, que, se dependesse de sua escolha ser honrada ou desprezada dos homens, e por qualquer destas vias viesse a redundar para Deus a mesma glória, essa alma, calcando aos pés a estima própria e das criaturas, abraçaria as ignomínias e os opróbrios com tanto afã como os mundanos empregam na procura de honrarias, renome e glória humana. E a alma faz esta escolha com toda alegria do coração por assim estar imitando o divino Salvador, e também porque assim se faz mais justiça a si mesma.

Mas, com certeza, muitos hão de perguntar: é possível chegar até lá. Digo que sim, desde que compreendamos bem o que é a humildade, se nos conhecemos perfeitamente a nós mesmos, e se amamos deveras a Nosso Senhor Jesus Cristo. Façamos algumas considerações: Haveis cometido em vossa vida um pecado mortal? Merecestes o inferno; por isto já estás ao nível do demônio. Haveis cometido dois? Com isto estás sob seus pés; pois que ele cometeu um só. Calculai agora a estima que vos é devida, pela que tendes para com os demônios, e para com os réprobos. Pois se ainda vos não achais na sua companhia a quem o deveis? Será à vossa virtude? Não é antes à bondade meramente gratuita do Divino Redentor?

Mas felizmente há almas que nunca cometeram um pecado mortal! Mesmo assim, se tivemos a dita de haver passado através dos perigos sem perdermos a graça batismal, só a vista de nossa baixeza e de tantas faltas em que cada dia caímos, não é para inspirar-nos o desprezo de nós mesmos? Pois, que somos nós por natureza? Nada. E que é o que se deve ao nada? O esquecimento; não se pensa no que não existe. Que somos nós por vontade? Pecadores, rebeldes mais ou menos, mas sempre rebeldes a Deus. E que merece o pecado, a rebelião? O desprezo, o castigo.

Quando nas epístolas de S. Paulo e na vida dos Santos, lemos que eles se consideravam como o lodo e a imundície do mundo, que se reputavam indignos de ver o dia, que se maravilhavam que Deus os pudesse suportar e que os homens não viessem todos a um tempo cobri-los de injúrias e de maus tratos, talvez pareça exagero. Mas não. Os Santos humilhando-se assim faziam-se justiça, e tanto mais eram agradáveis a Deus, quanto mais exata, e mais rigorosa justiça se faziam.

O homem humilde não gosta de receber louvores porque sabe que os não merece. Gostam que o tenham pelo que são em verdade: um nada pecador, e, portanto, um ser vil e desprezível. Eis o conceito que a pessoa humilde faz de si mesma, e folga que os outros pensem como ela. E mais, se alegram se a tratam segundo este julgamento que corresponde a realidade. Já o orgulhoso é um mentiroso, um usurpador, e por isso é que Deus o abomina, e repele com indignação.

A tal ponto nos perverteu a culpa original, que este terceiro grau de humildade constitui um heroísmo. Mas como chegar a termo-nos por pequenos, vis e desprezíveis, quando não podemos deixar de ver que temos feito coisas grandes? Respondo que é só ver isto que diz o Espírito Santo: "E que tens tu, que não recebesses? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tiveras recebido? ((1 Cor. IV, 7). Portanto devemos dizer: Como Deus tem feito por nós coisas grandes! Então é o caso de só admirar o poder e a sabedoria desse Deus grande, que, com instrumentos tão vis, quando Lhe apraz, opera prodígios! Na verdade, humildade não é desconhecer os dons de Deus e o poder de suas obras; é sim, não se arrogar a sua glória. Que perfeito modelo não é o proceder da Santíssima Virgem Maria: "Minha alma engrandece o Senhor... Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso!"...

Quando alguém nos rende louvores, ilude-se; é uma injustiça que faz a Deus; e nós deveríamos ficar envergonhados, confundidos.

No próximo artigo, se Deus quiser, responderei esta objeção, infelizmente não tão rara: Esta humildade excessiva enerva a alma, e tira-lhe toda a confiança em suas forças, deprime e impede a coragem e a fortaleza.

JESUS, MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

sábado, 27 de julho de 2019

A VIRTUDE DA HUMILDADE


LEITURA ESPIRITUAL, dia 27º

"Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes! (S. Tiago IV, 6; 1 S. Pedro V, 5).

Por estas palavras do divino Espírito Santo, podemos concluir que, sem humildade não se chega ao céu, pois para se salvar é necessária a graça de Deus. E prestemos bem atenção nestas palavras: "Deus resiste aos soberbos", porque se, de um lado Deus dá a graça aos humildes, por outro, RESISTE aos soberbos. Ora, ser resistido por Deus é coisa muito séria. Donde se, fazendo um exame de consciência, alguém chegar à conclusão que é orgulhoso deve empregar todo empenho, todos os meios para combater a soberba e, conseguintemente, adquirir a virtude da humildade. São Gregório escreveu uma palavra que deveria fazer tremer a todos aqueles que não são humildes: "O sinal mais evidente da reprovação é o orgulho". Na verdade, quando este pecado não condena diretamente por si mesmo os homens que o cometem, condena-os por uma multidão de obras más que nascem dele como de uma fonte envenenada. Aliás, a característica deste vício capital é a estreita conexão que tem com os outros vícios. E podemos dizer que assim como a virtude da humildade está presente em todas as outras virtudes, assim também o orgulho está de uma maneira ou outra, ligado intrinsecamente a todos os pecados. E lamentamos como poucas pessoas julgam o orgulho tão nocivo, como efetivamente é. E assim muitos não o combatem e o acolhem sem desconfiança e pior, há pessoas que, dentro de certas entidades, confundem-no à fortaleza de alma no escopo de pretensamente combater o respeito humano. E o demônio empurra tais pessoas para o fanatismo. E não há quem os possa convencer mesmo citando as Sagradas Escrituras e os Santos Padres! E esta disposição, que por certo não é rara, é nimiamente perigosa. Por exemplo: separe-se um homem da Igreja pela heresia, e todos dizem: "o infeliz perdeu a fé". É verdade, mas antes de perder a fé, tinha perdido a humildade; e foi por não querer submeter humildemente seu juízo ao da Igreja, que arvorou o estandarte da rebelião.  Que horror, caríssimos, se, esquecendo do nada que é, o homem se deixar dominar pelo orgulho, odioso vício que o Divino Salvador tem em especial abominação: "O que é excelente segundo os homens, é abominação diante de Deus" (S. Lucas XVI, 15).

Todo o edifício de nossa santificação deve estar construído sobre um alicerce sólido, sobre a rocha. Esta rocha é o conhecimento de si mesmo, que leva o homem a fazer-se justiça, a colocar-se no seu lugar, a ser humilde. A humildade é verdade e é justiça. Vamos explicá-lo: A humildade é o justo juízo que de nós mesmos fazemos, e segundo o qual pautamos a estima de nossa própria excelência. Esta virtude faz que, reconhecendo-nos tais como somos, não nos arroguemos a nós mesmos, nem queiramos que os outros nos arroguem senão o que nos é legitimamente devido. Se, pois, descobrimos que em nós não há, como procedente de nós, bem algum, perfeição nenhuma, seja natural ou sobrenatural, requer a humildade que, restringindo-nos ao nada que é nosso apanágio, nos remontemos até Deus, a quem é devida toda a honra e glória.

Devemos observar, porém, que ninguém é humilde por haver compreendido que é nada, que de si próprio nada se tem. Os filósofos da antiguidade haviam  reconhecido esta verdade, e eram soberbos; a vista da sua baixeza e do seu nada irritava-os e revoltava-os. O primeiro elemento da humildade é este: reconhecer o nosso nada. Esta é a verdade. Mas a humildade não é só isto que está na inteligência. Ela tem sua base na vontade: ela é justiça e assim faz-nos aceitar o que nós merecemos; leva-nos a comprazer-nos nisso, como no que por justiça nos toca. Infere-se daqui que a humildade é uma virtude baseada na verdade conhecida, amada, abraçada com todas as suas consequências, por amor à ordem e à justiça.

Em cima: Fé e humildade do Centurião
A humildade é o fundamento de todas as virtudes, como o orgulho a fonte de todos os vícios. Assim, o maior perigo do orgulho não consiste tanto na falta, que faz cometer contra a humildade, como nas graças, de que priva, e nos numerosos vícios a que conduz infalivelmente suas vítimas. Infelizmente a terra está cheia desses mundanos soberbos, que são verdadeiramente idólatras, e idólatras de si mesmos. Quando estão sós, concentrados em seu espírito, com em santuário profano, colocam-se em face de sua própria excelência e, de turíbulo na mão, admiram-se, extasiam-se  e gabam-se de seu pretendido mérito, preferem-se àqueles com quem se comparam, estão ali diante de seu ídolo, como o selvagem do deserto diante do sol, a quem adora. Pensam só em si mesmos! Deus é como se não existisse!

Devemos concluir que quanto mais uma pessoa é humilde, tanto mais é justa, tanto mais é santa, tanto mais é perfeita. Há, portanto, na humildade tantos graus, como na mesma santidade. No próximo artigo, se Deus quiser, falaremos dos graus da humildade.

Caríssimos, sejamos humildes, sejamo-lo profundamente. Expulsemos do nosso espírito todo o pensamento, todo o sentimento que tiver por origem o orgulho. Esqueçamo-nos de nós mesmos para não pensar senão em Deus. Oponhamos incessantemente às vãs concepções de nosso orgulho o pensamento de nossa miséria e de nossa indignidade.

Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo perfeito de todas as virtudes, mas quis dar toda ênfase sobre a humildade e a mansidão (aliás gêmeas): " Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!" (S. Mat. XI, 29).

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O CORAÇÃO DE JESUS E A HUMILDADE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 26º

"Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". Nosso Senhor Jesus Cristo, na verdade, é o modelo perfeito de todas as virtudes. No entanto quis fazer menção especial da humildade e da mansidão, virtudes estas que podemos chamar de irmãs. Os teólogos dizem que a humildade  com sua forma própria não se encontra em Deus, porque ela supõe pequenez e inferioridade. Como a humildade é a verdade, ela só se aplica a nós homens porque a verdade é que somos nada e um nada pecador. Reconhecer isto é humildade de inteligência mas ainda não é virtude. Aceitar ser tratado assim como pecadores e nada merecedores de elogios é a virtude da humildade. A virtude está na vontade. Reconhecer que o que temos de bom não é nosso mas vem de Deus é também humildade, porque esta é a verdade: por nós mesmos não podemos ter nem sequer um bom pensamento. Toda nossa capacidade para o bem vem de Deus. São Paulo diz: "Que tens tu, que não recebesses? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tiveras recebido? (1 Cor., IV, 7).

A criatura, com efeito, se quiser ser justa e veraz, deve reconhecer que Deus é tudo e que ela é nada; que toda força, toda a virtude, toda a beleza, toda a bondade provêm de Deus, e que, por si mesma, não é senão fraqueza e miséria, ou antes é o próprio nada. A criatura, se quiser ser justa e sincera, não pode desconhecer as grandezas de Deus; e diante d'Ele deve se aniquilar. Deus é santo, a criatura é pecadora; Deus é a Justiça e a Bondade, e ela, injustiça e egoísmo; que Deus é paz e misericórdia, e ela, ira e maldade.

Até aqui falamos de uma humildade comum. Há uma humildade muito mais perfeita, mais difícil e consequentemente mais meritória. Consiste em nos rebaixarmos além do que merecemos. Jesus Cristo é o modelo acabado dessa humildade. O Homem-Deus, o Verbo Encarnado, como escreveu S. Paulo, humilhou-se até ao aniquilamento: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que houve em Jesus Cristo, o qual, existindo no forma (=natureza) de Deus, não julgou que fosse uma rapina o seu ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz!" (Filipenses, II, 5-8).

Na verdade, já desde o início de sua vida terrestre, o Verbo, fazendo-se carne praticou um ato sublime de humildade. E toda Sua vida foi uma série de atos de humildade. Entregou o seu espírito como fez ao recebê-lo no início (Eis que venho, ó Pai, para fazer a Vossa vontade", e fez-se obediente até a morte, e morte de cruz, que é a mais humilhante.

Em Jesus a natureza humana deixou livre campo à graça para realizar suas obras enquanto a vontade humana de Jesus foi plenamente submissa à vontade divina: "Seja feita a vossa vontade e não a minha", esta oração do Horto das Oliveiras é o resumo de toda a vida do Divino Mestre.

Nas leituras anteriores meditamos como o Coração de Jesus sempre renunciou à estima, à consideração, à reputação, coisas estas de que os homens se mostram tão ciosos.  Os Santos contemplando sempre este Divino Modelo de infinita humildade, se tornaram tão humildes, que às vezes, os mundanos são tentados a tachá-los até de loucos, quando eles mesmos, ou seja, os santos consideravam uma verdadeira loucura,  pretender elogios e estima sendo como eram um nada criminoso, enquanto que Jesus, a própria inocência e santidade, fez-se obediente até à morte e morte de cruz.


Caríssimos, já que Deus só dá sua graça e sua luz aos humildes, peçamos sempre a humildade. Pedindo, pois, a humildade, pedimos uma riqueza espiritual que vale bem longos anos de súplica. Deus nos dará a graça das ocasiões de praticarmos a humildade através das humilhações que sofrermos. Não deixemos passar estas graças, que elas não sejam vãs em nós. Rezemos sempre com grande desejo e sinceridade: "Jesus, manso e humilde de coração! Fazei o meu coração semelhante ao Vosso!" Amém!

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O CORAÇÃO DE JESUS NA SUA PAIXÃO E MORTE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
17º dia de junho

São Paulo resume todo o amor do Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo nesta frase: "Amou-me e entregou-se por mim". Outra palavra do divino Espírito Santo que mostra o amor infinito do Salvador pelos homens é esta profecia de Isaías: "Foi oferecido em sacrifício, porque ele mesmo quis" (Isaías 53, 7). Temos aqui a causa da Paixão e morte do amantíssimo Salvador: o amor de seu adorável Coração  por todos e por cada um de nós. Caríssimos, na verdade, só o amor infinito do divino Coração de Jesus pode explicar a maneira tão dolorosa e humilhante com que Nosso Senhor Jesus Cristo quis realizar a obra da nossa redenção. Segundo a profecia de Isaías, assim foi porque "Ele quis". Se, como afirma S. Paulo, entregou-se por mim e fê-lo voluntariamente, é porque foi movido unicamente pelo amor de seu Coração. Porque, por efeito da união hipostática da natureza divina à humana, todo ato do Homem-Deus tinha valor infinito: uma lágrima, uma gota de sangue, uma oração, mesmo um suspiro seriam suficientes para remir toda a humanidade. Mas como diz muito bem São João Crisóstomo: "o que bastava para a redenção não bastava para nos revelar o seu amor". Jesus quis mostrar de um modo bem patente a imensidade do amor de seu Coração. Sendo Ele a própria inocência quis VOLUNTARIAMENTE, padecer tristezas, quis ser saturado de opróbrios, humilhações, dores e angústias. Foi traído, suas faces foram conspurcadas por escarros, machucadas  por tapas e bofetadas, todo seu corpo despedaçado por açoites, sua sacrossanta cabeça ferida por uma coroa de espinhos penetrantes e que se tornaram verdadeiro martírio porque enterrados mais fundos por golpes da cana. Jesus quis que seu Sacratíssimo Coração fosse alvo de todas as humilhações. Pois, quis ser condenado à morte como malfeitor. E morte na Cruz. E ele mesmo carregou o madeiro no qual seria pregado e suspenso da terra. Quis permanecer três horas suspenso e seguro por três pontiagudos cravos. Quis sofrer uma sede horrível. Quis sofrer assim em todo seu corpo exterior e interiormente. E também no espírito: a amargura e desolação infinitas.

E nesta cátedra de amor e de misericórdia, quais foram os sentimentos do Coração amabilíssimo de Jesus? Pediu perdão para os que o crucificaram, concedeu o Paraíso ao bom ladrão que se arrependeu, deu-nos, na pessoa do discípulo amado, Maria Santíssima como nossa Mãe. Declarou que tinha sede, com certeza sede física, mas para significar a sede mística de almas. Inclinando a cabeça e encomendando o espírito a seu Pai, expirou. "Tudo estava consumado": com o seu sacrifício, a obra da nossa redenção estava realmente consumada. O Coração de Jesus desejou ardentemente esta hora do supremo sacrifício, deste batismo de sangue, para salvar a humanidade. Estava estendida a ponte entre o paraíso que perdemos e o paraíso que agora podemos esperar pelos merecimentos infinitos do Coração do Salvador.

Jesus havia dito que Ele era a PORTA,  a porta por onde suas ovelhas podem entrar no Céu. Como tudo isto foi feito pelo amor infinito de Jesus e deste amor é símbolo o coração, Jesus quis, que já consumada esta obra de supremo amor, fosse patenteada esta porta e este refúgio; quis mostrar a ternura do seu Coração, permitindo que fosse aberto o seu lado com uma lança, para dar-nos com isso a entender que nos ficava aberta a entrada para o seu Coração, aonde podemos sempre acolher-nos como a sagrado e doce refúgio.


Caríssimos, contemplemos agora, o Salvador cravado na cruz por nosso amor, com a coroa de espinhos na cabeça, todo o seu corpo coberto de sangue, com as quatro chagas dos cravos e a da lança.  Estas cinco chagas abertas são como outras cinco bocas que estão pedindo amor como explica Santo Agostinho: "Grava, Senhor, as tuas chagas no meu coração, para que me sirvam de livro, onde eu possa ler a tua dor e o teu amor: a tua dor para suportar por Ti toda a sorte de dores; o teu amor para amar-Te ardentemente e para desprezar pelo teu todos os outros amores." Disse S. Paulo: "O amor de Cristo obriga-nos" (2 Cor. V, 14). E assim comenta São Francisco de Sales: "Verdadeiramente nada move tanto o coração dos homens como o amor... Ora, sabendo nós que Jesus Cristo, nosso verdadeiro Deus, nos amou até sofrer por nós a morte, e morte na cruz, não é isto razão para ter os nossos corações apertados e comprimidos para tirar deles todo o sumo precioso do amor, com uma violência que, quanto mais forte é, mais deleitoso se torna?" Amém!

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A CONFISSÃO É REMÉDIO CONTRA O ORGULHO E O DESÂNIMO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 24º

Sabemos, caríssimos, como o orgulho, a pusilanimidade e o desespero são funestíssimos na vida espiritual do homem.  Com a graça de Deus, veremos  como a Confissão sacramental é, por sua vez, um excelente remédio para estes males.

O orgulho é a fonte de todos os vícios e de todos os pecados. Cometendo pecado o homem se revolta contra Deus e diz, se não de boca, ao menos pelas suas obras: " Não servirei a Deus!" Como Lúcifer, parece dizer que será igual ao Altíssimo (Cf. Isaías, XIV, 14). E sabemos que o orgulho só se pode curar pela humildade e esta só se pode adquirir pela humilhação. Mas sabemos que o ato mais humilhante para o homem decaído é a acusação franca e completa de suas obras, de suas palavras, de seus pensamentos e de seus desejos culpáveis. Pois bem, a confissão é esta acusação. Portanto, de todos os meios o mais eficaz para quebrar o orgulho, é a confissão. Por isso mesmo Tertuliano chama a confissão "a arte de humilhar o homem". E se o pecado entra na alma pelo orgulho, dela deverá sair pela humildade. Isto é feito sobretudo pelo sacramento da Confissão.

O desânimo é outra fonte de faltas. O infeliz que acaba de pecar sabe que manchou sua alma e que não é mais filho de Deus. Desonrado aos seus próprios olhos, não penetra no seu íntimo sem se envergonhar.  O demônio, que não dorme, para o reter em suas correntes, representa-lhe de modo exagerado a enormidade de sua falta, a vergonha que dela resulta, a dificuldade de receber o perdão, a impossibilidade de readquirir a virtude. Eis, que se torna triste, pesado a si mesmo e aos outros. Cai sobre o infeliz uma espécie de depressão. Logo desanima e novas recaídas se seguem. Judas Iscariotes, vendo que Jesus se deixara prender e fora condenado, se arrependeu e sentiu necessidade de ir até aos Príncipes dos Sacerdotes devolver as 30 moedas. Então disseram-lhe: Agora, arranja-te, que te vire! Ah! se o Iscariotes tivesse se ajoelhado diante de Jesus e pedido perdão! Seria perdoado na hora, e retornar-lhe-ia a paz. Mas como não o fez, e, diante da repulsa dos Sacerdotes da Antiga Lei, se desesperou e suicidou-se.


Quando uma alma cai, é necessário o quanto antes reanimá-la. Ora o meio mais eficaz para isto é justamente a confissão. Na verdade, quando o pecador cai e logo é curado da doença secreta que o consumia, torna-se outro homem. Sente-se renovado e parece que a vida recomeça para ele. Daí resulta uma coragem e um ardor de que não se sentia mais capaz. Romper com um passado infeliz, recomeçar a vida, isto é para ele de uma importância sem par. É o que o salva do desânimo e deste suicídio moral que consiste em não mais lutar contra o mal, e de precipitar-se de olhos fechados no abismo aberto aos seus pés.  Com esta renovação de vida, a alma vê reentrar nela a paz, a serenidade, alegria e a felicidade. O remorso a despedaçava quando estava sob o jugo do pecado; o confessor, que ali está no lugar de Jesus, lhe disse: "Filho, vai em paz, que Deus o abençoe!" A alma não duvida da verdade dessa sentença redentora; sabe que está reconciliada com Deus e tornou a ser sua amiga; esta suave segurança expulsou de sua alma todo o medo e toda a inquietação. Que felicidade para o homem ter a seu lado um tribunal onde sabe, com certeza que pode receber o perdão de suas faltas!  

terça-feira, 23 de julho de 2019

OUTRA QUALIDADE DA CONFISSÃO: SINCERA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 23º

Confissão sincera é aquela em que não há mentira e nem desculpa.

1. Confissão sem mentira: Uma mentira em matéria leve, dita na confissão, torna-se um falta mais grave, sem todavia ser mortal; mas mentira seria um pecado mortal, se a matéria fosse grave, por exemplo: quem acusasse um pecado mortal que não cometeu, ou negasse um pecado mortal que tivesse cometido e que nunca tivesse confessado, ou negasse o hábito contraído, isto seria enganar em matéria grave o ministro de Deus.

Lemos na vida de S. José de Anchieta, jesuíta e missionário no Brasil, que certa mulher,  de grande virtude na aparência, frequentando os sacramentos, com um exterior humilde e modesto, ocultava sob essa aparência enganadora hábitos criminosos. Por sua hipocrisia, tinha ganho a estima de toda a cidade e dos seus diretores. Ora, um dia, não encontrando o seu confessor ordinário, procurou o Padre José de Anchieta. Este, sem dúvida inspirado por Deus, mandou-lhe dizer que se recusava a confessá-la. Como houvesse admiração, disse: "Esta mulher dá-se a um trabalho inútil". Com efeito, logo sua vida infame se tornou pública, e, por um justo castigo de Deus, ela não tardou a morrer com todos os sinais de condenação.

2. Confissão sem desculpa: No tribunal da penitência, o pecador deve ser o acusador de si mesmo: acusador e não advogado de defesa. Quem se acusa sinceramente, sem atenuar as suas faltas, obterá delas o perdão, e receberá de Deus maior abundância de misericórdia. O duque do Osuna, vice-rei de Nápoles, estando um dia em uma galera, pôs-se a interrogar a cada um dos forçados, sobre o crime que tinha cometido. Todos responderam que eram inocentes, exceto um, que confessou merecer um grande castigo. O duque disse então a este último: "Pois, então, não é este o teu lugar: um celerado, como tu, no meio de todos estes inocentes!" Em seguida, mandou pô-lo em liberdade. Deus perdoa mais liberalmente ao penitente que se reconhece culpado, e não procura desculpar-se.

"Quantos não há, diz o teólogo Perriens, que se confessam mal! Alguns dizem ao confessor o pouco bem que fazem, e não falam dos seus pecados: 'Padre, eu ouço a missa todos os dias, recito o terço, não blasfemo, não juro, não roubo ...' Pois, bem! para que dizeis isto? é para que o confessor vos louve? Os vossos pecados é que deveis acusar. Examinai-vos, e encontrareis mil, aos quais deveis remediar: maledicências, palavras desonestas, mentiras, imprecações, aversões, pensamentos desonestos ... Outros não fazem senão desculpar os seus pecados, e parecem advogar a sua causa junto do confessor, por exemplo: 'Padre, eu blasfemo, porque tenho um superior insuportável. Tive ódio a uma vizinha, porque ela falou mal de mim'. De que serve, continua Perriens, semelhante confissão? que pretendeis? Quereis que o confessor aprove os vossos pecados? Escutai o que diz S. Gregório: 'Se vos desculpais, Deus vos acusará; e, se vos acusais, ele vos desculpará'.

Nosso Senhor, numa aparição a Santa Maria M. de Pazzi, queixou-se daqueles que, na confissão, se desculpam dos seus pecados, e os lançam sobre outros.

Se o(a) penitente diz assim: Tal pessoa deu-me ocasião; ou, fulano tentou-me. Confessar-se assim não é senão ajuntar novos pecados; pois, para desculpar as próprias faltas, atacam a reputação do próximo.

Já ouvi contar o seguinte episódio (contado naturalmente pela culpada): Uma mulher que, para desculpar os seus pecados, relatou todo o mal que sabia do marido:   -  Pois bem! diz-lhe o confessor por fim: por vossos pecados, recitarás uma Salve Rainha; e pelos do teu marido jejuarás durante um mês.  - Mas, perguntou a penitente, como sou eu obrigada a fazer penitência pelos pecados do meu marido?  -  E vós, como viestes, respondeu o confessor, acusar os pecados do teu marido, dizendo todo o mal que ele tem feito, para desculpar os teus próprios pecados? Diz o provérbio italiano: "Si non è vero, è bene trovato".

Caríssimos, devemos contar os nossos pecados e não falar dos pecados alheios. O penitente, sendo humilde, nunca vai procurar se desculpar. Pensa sempre assim: sou eu mesmo que, por minha própria maldade e fraqueza, quis consentir em ofender a Deus.

Agora, faz-se necessário aqui uma observação: O penitente, deve algumas vezes descobrir a falta do próximo, para fazer conhecer ao confessor, seja a espécie do pecado de que se acusa, seja o perigo em que se acha, afim de que ele possa julgar o que tem a fazer. Se, neste caso, a pessoa que se confessa, puder se dirigir a um confessor que não conheça a pessoa em questão, então deve procurar este confessor. Mas, se for difícil em mudar de confessor, ou se a pessoa julga que o seu  confessor ordinário, conhecendo melhor a sua consciência, está no caso de lhe dar conselhos acertados, não está  obrigada a procurar um outro. No entanto, a pessoa deve ter o cuidado em encobrir o seu cúmplice o melhor possível. Basta, por exemplo, designar o seu estado: dizer se é uma pessoa casada ou não, ou ligada por voto de castidade, sem pronunciar o seu nome.


Outra coisa: é pura perda de tempo dizer assim na confissão: "Eu me acuso dos sete pecados capitais, dos cinco sentidos, dos dez mandamentos de Deus". Vale mais declarar ao confessor uma falta que há muito vens cometendo, sem dela te corrigires.  Devemos confessar as faltas de que nos queremos corrigir. Pois, de que serviria a pessoa se acusar de todas as maledicências, de todas as mentiras, de todas as imprecações, não querendo desfazer-se destes vícios? Seria mais uma zombaria, um abuso do sagrado tribunal da penitência. Caríssimos, a pessoa deve ter o cuidado quando se confessar de tais faltas, ainda que elas sejam veniais, em formar um bom propósito de não mais recair nelas. 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A CONFISSÃO DEVE SER INTEIRA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 22º

Se o pecador não se confessar dos pecados mortais de que tem lembrança, não recebe o perdão. Falo dos pecados lembrados, porque, esquecendo involuntariamente um pecado, desde que a pessoa tenha um arrependimento geral de todas as ofensas feitas a Deus, este pecado esquecido será perdoado; mas, se a pessoa se lembrar dele depois, deve então confessá-lo.

No caso, porém, de a pessoa deixar voluntariamente de declarar um pecado mortal, então deve acusar-se desta omissão, e renovar além disso a confissão de todos os outros pecados já declarados; pois, a confissão foi nula e sacrílega.

Santa Teresa d'Ávila, que vira o inferno, não deixava de repetir aos pregadores: "Pregai, pregai contra as más confissões; pois, é pelas más confissões que a maior parte dos cristãos se condena".

Caríssimos, é, na verdade, vergonhoso cometer o pecado, mas não é vergonhoso livrar-se dele pela confissão. Aqui podem-se aplicar as palavras das Sagradas Escrituras: "Há  vergonha que leva ao pecado, e há vergonha que traz consigo glória e graça" (Eclesiástico, IV, 25). Devemos fugir da vergonha que nos torna inimigos de Deus pelo pecado, mas não da que, pela confissão do pecado cometido, alcança a graça de Deus e a glória do céu.

Que vergonha houve para os santos convertidos e penitentes, quando fizeram a confissão de seus grandes e inúmeros pecados? Assim: Santo Agostinho, Santa Maria do Egito, Santa Margarida de Cortona, etc.? Foi pelas suas confissões que adquiriram o céu, onde agora gozam de Deus. Quando Santo Agostinho se converteu, não contente de confessar os seus pecados, ele os consignou em um livro, para os tornar conhecidos de todo o mundo.

Santo Antônio de Lisboa (de Pádua) conta que um bispo viu um dia o demônio ao lado de uma mulher que se dispunha à confissão, e lhe perguntou o que fazia ali. O espírito maligno respondeu: "Estou restituindo o que roubei; quando tentei esta mulher para pecar, tirei-lhe a vergonha; agora, lha restituo, a fim de que não tenha coragem de confessar o pecado". S. João Crisóstomo diz o seguinte: "Deus deu a vergonha para o pecado, e a confiança à confissão. O demônio faz tudo ao contrário: liga ao pecado a confiança, e à confissão a vergonha". 


Cuidado com o demônio mudo, muito cuidado com ele! Faz como o lobo: este toma a ovelha pelo pescoço, para que ela não possa gritar; e, segurando-a assim, a arrasta e a devora. Do mesmo modo age o demônio com certas almas: toma-as pela garganta, impedindo-as de declarar o seu pecado. e, por este meio, leva-as para o inferno. 

domingo, 21 de julho de 2019

OCASIÃO NECESSÁRIA E ABSOLVIÇÃO


LEITURA ESPIRITUAL, dia 21º

Primeiramente quero lembrar que certas ocasiões, remotas para muitos, serão próximas ou quase próximas para aqueles que são mais inclinados ou mais habituados a algum vício, principalmente à impureza; vício este, que como diz Santo Tomás de Aquino, é de grande aderência. Se não afastam essas ocasiões, recairão sempre nas mesmas desordens.

Mas, dirá alguém, não me é possível separar-me dessa pessoa, não deixar aquela casa, sem ter com isso um grande prejuízo. Neste caso esta pessoa quer dizer que a sua ocasião não é voluntária, mas NECESSÁRIA. Dada a fraqueza humana, sobretudo nesta matéria de castidade, é evidente que o confessor não pode acreditar assim tão facilmente. Mas em casos indubitavelmente constatados, como agir? A pessoa que realmente se achar numa ocasião necessária,  deve empregar dois meios para transformar a ocasião próxima em remota, e  são: 1). oração, pedindo muito a Deus a fortaleza para não cair, e 2) evitar toda familiaridade com a pessoa com quem pecava. O confessor deve diferir a absolvição, afim de que o (a) penitente se aplique a fazer uso destes dois meios que consistem em se recomendar frequentemente a Deus e a evitar a familiaridade. É preciso que desde a manhã, ao levantar-se renove o bom propósito de não mais pecar, e suplique ao Senhor, não só de manhã mas ainda várias vezes no dia, diante do Santíssimo Sacramento, ante o crucifixo, ou a imagem da santa Virgem, a graça de não recair.

E que significa evitar toda familiaridade? Primeiro, nunca ficar a sós com a pessoa que foi cúmplice no pecado,  nunca lhe falar senão em caso de necessidade, e, apresentado-se a necessidade não o fazer senão com pesar e o estritamente necessário. Tornamos a frisar: ambos, devem passar algum tempo, e não muito breve, sem receber os sacramentos da penitência e da comunhão.

E perguntamos: Se, apesar de todos estes meios, os penitentes recaírem sempre em seus pecados, que remédio restaria para eles? Então o único é o que o divino Mestre prescreveu no Evangelho: Se o vosso olho vos escandaliza, arrancai-o e lançai-o longe de vós. Vale mais perder o vosso olho do que conservá-lo e ir para o inferno. Assim, em um tal caso, é preciso resolver-se absolutamente, ou a afastar a todo preço a ocasião, ou a sujeitar-se à eterna condenação.


E, caríssimos, hoje muitos dirão que isto é falta de misericórdia, é uma interpretação rigorista dos Evangelhos. Respondemos que as palavras de Jesus foram sempre assim interpretadas pelos Santos Padres da Igreja. E assim, devemos dizer que agir de modo diverso é monstruosa falta de caridade. Porque podemos perder tudo neste mundo, mas nunca podemos perder a nossa alma.  É bom e salutar meditarmos mais na vida dos santos mártires. Pedir uma fé mais viva e um amor mais ardente a Nosso Senhor. Amém!

sábado, 20 de julho de 2019

OCASIÃO PRÓXIMA VOLUNTÁRIA E ABSOLVIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 20º

Como já vimos anteriormente em outro artigo, todos os teólogos tradicionalistas concordam em que o mesmo preceito que nos proíbe pecar nos proíbe também de nos expor à ocasião próxima voluntária. Daí conclui-se que aqueles que estão na ocasião próxima voluntária não podem ser absolvidos, a menos que se proponham firmemente a fugir destas ocasiões; pois, só o fato de se exporem a elas é para todos um pecado grave, mesmo quando lhes acontecesse por vezes não sucumbir.

Quando a ocasião voluntária está atualmente presente, como ensina São Carlos Borromeu, o penitente não pode ser absolvido antes de ter afastado a ocasião; pois, sendo o afastamento de uma tal ocasião um ato que lhe custa muito, se o penitente não o executa antes de receber a absolvição, dificilmente se resolverá a isso depois de a ter recebido.

Com muito maior razão não poderia ser absolvido aquele que se recusasse a afastar a ocasião, prometendo apenas não mais recair no pecado.  Uma comparação: é possível alguém colocar uma estopa no fogo e ela não se queimar? Assim, como pode alguém ter a confiança de evitar o pecado, permanecendo na ocasião? E isso sobretudo em se tratando de ocasião de pecados contra a castidade com outrem. Na verdade,  a mulher é estopa, o homem fogo, e o demônio o soprador e atiçador.  Cabe aqui aplicarmos a palavra do próprio Espírito Santo: "Vossa fortaleza será como uma mecha de estopa, e a vossa obra como uma faísca; uma e outra se queimarão ao mesmo tempo e não haverá quem as apague" (Isaías, I, 31).

Um sacerdote ao exorcizar um possesso, obrigou o demônio a dizer qual de todos os sermões lhe desagradava mais, e confessou: "O sermão sobre ocasião". Contanto que a ocasião permaneça, pouco importa ao demônio que se façam bons propósitos, promessas, juramentos e mesmo muitas penitências; enquanto não se afastar a ocasião, o pecado permanecerá. A penitência que indica o verdadeiro arrependimento é justamente o fugir da ocasião próxima. Por exemplo: aquele e aquela que vivem em adultério, só podem ser absolvidos si se separarem de fato, não só de leito, mas também de casa. E para comungar exige-se um certo tempo que seja suficiente para todo mundo ver que realmente se converteram. Sem isto, dar a comunhão, seria motivo de escândalo, e, portanto, um enorme prejuízo para as almas.

A ocasião, principalmente em matéria sensual, é como que um véu que se tem ante os olhos, e que não mais permite ver nem Deus, nem inferno, nem paraíso. Enfim, a ocasião cega o homem; ora, quando cego, como poderá distinguir o caminho do céu? Tomará o caminho do inferno, sem saber para onde vai. É preciso, pois, que aquele que está em ocasião de pecar se esforce por sair dela; de outro modo, ficará sempre no pecado. Alguém dirá: ninguém pode ir para o inferno sem saber que está indo. Resposta: primeiro para os modernistas que procuram tranquilizar as consciências no pecado, devem ficar sabendo que isto pode enganar, mas não salva, porque o demônio é astuto. Que faz ele: leva a pessoa a encontrar argumentos facilmente com a cumplicidade das pessoas da Igreja, leva-a achar até santo aquilo que lhe é agradável à natureza. Mas o demônio tira esta venda dos olhos do moribundo e tenta-o ao desespero. E muitas almas podem se condenar por isso. Só a verdade é que salva. A mentira e o erro são  obras do demônio e só podem levar à condenação.  


sexta-feira, 19 de julho de 2019

INSTITUIÇÃO DIVINA DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA


LEITURA ESPIRITUAL  MEDITADA, dia 19º

Como rezamos no ato de Contrição: "Senhor meu, Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro...", sabemos que o Messias, o Salvador é o Filho de Deus feito Homem. Foi sempre Deus porque Deus não teve princípio, existiu desde todo sempre, e nunca deixará de existir. Fez-Se Homem, sem deixar, portanto, de ser Deus. E assim, Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Pois bem, todos os sacramentos foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito Homem. Entre os sete Sacramentos está o da Penitência ou Confissão. O Sacramento da Penitência é, portanto de instituição divina, e não uma coisa criada por um simples homem. Daí devemos dizer que a Confissão é divina. E para demonstrar esta verdade basta-nos consultar o Santo Evangelho, a Tradição e podemos também dar argumentos de razão a favor de sua conveniência.

1. O EVANGELHO:

 O Evangelho atesta em primeiro lugar que Jesus Cristo tem o poder de perdoar os pecados. S. João Batista mostra Jesus ao povo e diz: "Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo" (S. João, I, 29). Lemos também no Evangelho que um dia apresentaram a Jesus um paralítico. O Salvador, querendo provar a sua divindade, disse: Teus pecados são-te perdoados. Então os escribas e os fariseus murmuraram entre si dizendo: "quem pode perdoar os pecados senão Deus?" Mas Jesus Cristo, conhecendo seus pensamentos lhes disse: "Que estais vós a pensar nos vossos corações? Que coisa é menos difícil dizer: São-te perdoados os pecados, ou dizer: Levanta-te e caminha? Pois, para que saibais que o Filho do homem tem poder sobre a terra de perdoar pecados, (disse ao paralítico): Eu te digo: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. Levantando-se logo em presença deles, tomou o leito em que jazia e foi para sua casa, glorificando a Deus" (S. Lucas, V, 20 a 25).


 Realmente, trata-se de um poder divino, ou seja, só Deus pode perdoar pecados. Mas Deus em sua infinita misericórdia, delegou este poder aos homens, não a todos mas àqueles que Ele escolheu e escolherá até o fim do mundo para fazer as suas vezes, isto é, para serem seus instrumentos, dispensadores deste poder: são primeiramente os Apóstolos e depois seus sucessores. Este grande poder de perdoar os pecados Jesus Cristo prometera primeiramente a São Pedro quando disse-lhe: Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo que ligares na terra será ligado no Céu e tudo que desligares na terra será desligado no Céu" (S. Mateus, XVI, 19). Depois Jesus Cristo fez a mesma promessa a todos os Apóstolos reunidos: "Tudo  que ligares na terra, será ligado no Céu, e tudo que desligardes na terra será desligado no Céu" (S. Mateus, XVII, 18). Por estas memoráveis palavras o Divino Redentor prometeu a seus Apóstolos comunicar-lhes o poder de abrir e fechar o Céu. Ora, a porta do Céu não se fecha senão pelo pecado e não se abre senão pelo perdão dos pecados.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

A INSTITUIÇÃO DIVINA DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA PROVADA PELA TRADIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 18º

Antes de expor os argumentos da Tradição é sempre útil ver quais são os adversários da tese e refutá-los. Pois bem, como todos sabem, os grandes adversários do Sacramento da Penitência são os protestantes. Estes, seguindo Calvino, e também os ímpios modernos ousam dizer que a confissão era desconhecida nos primeiros séculos do Cristianismo. Sustentam que a confissão data dos 4º Concílio de Latrão em 1215, época em que o Papa Inocêncio III tê-la-ia inventado. Caríssimos, isto constitui um grave erro que denota a mais grosseira ignorância, ou, pior ainda, é uma demonstração da mais insolente má fé. Vamos ouvir Santo Afonso: este grande Doutor da Santa Igreja diz que o Papa Inocêncio III, não fez senão determinar o tempo em que a confissão deve ser feita pelos fiéis, isto é, ao menos uma vez por ano, como já haviam prescrevido os papas Inocêncio I (+ 417), Leão I (+ 474), Zeferino (+218). Além disso, sabemos que a Tradição e a História da Igreja se apoiam no Santo Evangelho de S. João para provar que a confissão foi instituída por Jesus Cristo. Suponhamos os Sacramento da Penitência como a Igreja o administra, realmente estabelecido por Nosso Senhor Jesus Cristo: Eis aqui os fatos que se devem produzir e dos quais a História Eclesiástica dá, sem dúvida, testemunho; os Padres da Igreja falarão da Confissão em seus escritos, e dirão que ela vem de Jesus Cristo; hão de afirmar que é necessária à salvação, que deve ser feita com sinceridade e com contrição; que só os sacerdotes podem absolver, etc. Os Concílios traçarão as regras aos confessores, para remediar os abusos que nascerão em diversas épocas da história. Conservar-se-ão muitos nomes de confessores que prestaram o socorro de seu ministério a personagens históricos. Talvez se encontre nas mais antigas igrejas o lugar dos tribunais da penitência; enfim, as seitas separadas da Igreja de Jesus Cristo, desde os primeiros séculos, terão provavelmente conservado alguns vestígios dessa salutar instituição.

Consultando as antiguidades eclesiásticas obteremos precisamente estes resultados que acabamos de enumerar. Até historiadores protestantes, devendo ser sinceros diante da evidência, declararam que a Confissão entre os Católicos já era exercida nos quatro primeiros séculos. Por exemplo, o historiador protestante Gibbon diz: "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que estabeleceu a Confissão como um dos principais pontos da doutrina católica em todo o período dos quatro primeiros séculos".


Entre outras seitas heréticas encontramos também quem dá testemunho histórico da existência da Confissão já nos primeiros séculos da Igreja Católica. Por exemplo: os eutiquianos, os jacobitas, os armênios, os nestorianos, em um palavra, as Seitas do Oriente, separadas da Igreja Romana desde o 4º e o 5º séculos, praticavam a confissão como necessária. Muitos sábios autores atestam que se vêem nas catacumbas de Roma os confessionários próximos aos altares, cujas pinturas, semelhantes às de Pompéia, remontam aos primeiros séculos do Cristianismo. 

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A ABSOLVIÇÃO SACRAMENTAL DÁ A GRAÇA SANTIFICANTE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 17º

 A pessoa, com o pecado mortal, perde a graça santificante. Se foi o primeiro pecado mortal, perde a graça santificante recebida no batismo. Isto significa perder a inocência batismal. Quando o pecador, depois de ter recuperado a graça santificante, torna-a a perder, aí vem a segunda tábua de salvação que é o Sacramento da Confissão. Neste segundo caso, pela absolvição sacramental, o pecador recupera a graça santificante que tinha perdido.

Caríssimos, devemos observar a imensa diferença entre o perdão que os homens dão e o perdão que Deus dá. Quando os homens se decidem a perdoar as ofensas que lhes foram feitas, não tornam mais a ter todavia os sentimentos de benevolência de que eram anteriormente animados para com aqueles que os ofenderam. Mesmo não guardando rancor, é muito difícil voltar a serem os mesmos, embora perdoem de fato. Deus, porém, não procede assim; perdoando-nos, dá-nos ao mesmo tempo a sua graça, a graça santificante que é o maior de todos os dons. é o SEGUNDO EFEITO da absolvição.

Meditemos um pouco sobre a graça santificante e teremos mais facilidade em compreender até onde vai o perdão divino. "O dom da graça, diz Santo Tomás, sobrepuja a todos os dons que uma criatura possa receber, visto que participa da mesma natureza de Deus". Dai-me um pecador, o mais miserável que possa haver, desde que ele tenha recebido a santa absolvição e o perdão dos seus pecados, tornar-se-á maior do que todos os reis da terra. Este pensamento arrebatava São Leão: "Reconhece, ó cristão, exclamava ele, reconhece tua dignidade, e, tornando-te participante da natureza divina, guarda-te bem de voltares à tua antiga baixeza". Diz o Espírito Santo no livro da Sabedoria VII, 14: "Ela é um tesouro infinito para os homens, e aqueles que dela gozam tornam-se amigos de Deus". "Ó bondade de Deus, exclama S. Gregório, nós não merecemos o título de servos, e Ele digna-se chamar-nos seus amigos". Pela absolvição readquirimos não só a amizade divina, porém, o que é mais honroso ainda, a dignidade de filhos adotivos de Deus. E devemos observar ainda que não se trata de adoção só no papel, isto é, legal em cartório; mas uma adoção pela qual nos tornamos participantes da natureza divina. É claro que não recebemos toda a natureza divina, pois Deus é infinito e nós simples criaturas. Mas a participação da natureza divina pela graça santificante nos torna semelhantes a Deus, e esta participação embora limitada, é real.
Daí, Pai é o nome com que Jesus Cristo nos ensinou a dirigirmos-nos a Deus que está no Céu. Deus é o Senhor. Mas quer que nos dirijamos a Ele como a um Pai. São João exulta nestes termos: "Considerai que amor o Pai nos testemunhou, querendo que sejamos chamados e que sejamos, efetivamente, filhos de Deus" (S. João III, 1). E não satisfeito de nos dar o título tão honroso e tão excelente de filhos de Deus, tem ainda para conosco os sentimentos e os cuidados de um pai. Ele próprio exprime da mais terna maneira pelo profeta Jeremias, os sentimentos de seu coração paternal: "Efraim não é para mim um filho honrado, um filho da minha ternura? Por isso, embora eu tenha falado contra ele, ainda me lembrei dele. Por isso se comoveram as minhas entranhas por ele; e, compadecido, terei misericórdia dele, diz o Senhor." (Jeremias, XXXI, 20). E em continuação o profeta mostra que Deus terá misericórdia dos pecadores, enviando-lhes o Messias: "Eis que o Senhor criou uma coisa nova sobre a terra: Uma mulher cercará um homem" (Jeremias, XXXI, 22).

Que há de mais suave e de mais terno do que estas palavras? Esta divina filiação nos dá direito à herança de que Jesus Cristo goza no céu: "Pois, se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e co-herdeiros de Jesus Cristo" (Rom. VIII, 17). Somos herdeiros de Deus justamente porque Ele é nosso Pai, e somos co-herdeiros de Jesus Cristo, porque o Salvador é nosso irmão. Assim, temos direito à celeste herança e estamos inscritos entre os cidadãos do céu, benefício supremo pelo qual o Salvador convidou seus apóstolos a se alegrarem: "Alegrai-vos por ter vossos nomes inscritos nos céus" (S. Lucas X, 20).Ora, é certo que o homem, cada vez que cai em pecado mortal, é riscado do livro da vida, e inscrito, ao menos por momentos, no livro da morte eterna. Pois o Senhor disse: "Apagarei do meu livro aquele que tiver pecado contra mim" (Êxodo XXXII, 33). Mais terrível castigo não se pode imaginar. Contudo, tal é a força da absolvição bem recebida, que risca a cédula dos pecados, e inscreve de novo os homens no livro da vida, restituindo-lhes a dignidade de filhos e herdeiros de Deus. Isto prova que a graça é verdadeiramente em nós "o germe da glória", segundo a palavra de Santo Tomás de Aquino. 

terça-feira, 16 de julho de 2019

REGRA "PRIMITIVA' da Ordem da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo

Como neste carmelo, pela graça de Deus, vamos seguir na íntegra a Sagrada Tradição da Santa Madre Igreja e também da Ordem Carmelitana, pensei em levar ao conhecimento de todos, especialmente daquelas que se sentem chamadas à vida de carmelita, a Regra "Primitiva" de Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém. Pois, nela se inspirou Santa Teresa d'Ávila para reformar a Ordem Carmelitana.


Carmelo construído pelo Padre Elcio Murucci em Varre-Sai, RJ-Brasil

1.     Alberto, por graça de Deus, Patriarca de Jerusalém, aos queridos filhos em Cristo B(rocardo) e demais religiosos eremitas que vivem debaixo da sua obediência no Monte Carmelo, junto à fonte (de Elias) , saúde no Senhor e bênção do Espírito Santo.

2.     Em diferentes ocasiões e de diversas maneiras (cf.Hb 1,1) os santos Padres estabeleceram de que forma cada um, em qualquer Ordem ou modo de vida religiosa que escolha, haja de viver em obséquio de Jesus Cristo (cf. 2Cor 10,5), servindo-o fielmente com puro coração e reta consciência (cf. 1Tm 1,5). Mas como nos pedis que, segundo o vosso propósito, vos demos uma fórmula de vida que estejais obrigados a guardar daqui por diante.

3.     Determinamos primeiramente que tenhais um de vós mesmos por Prior, o qual seja eleito para este ofício por unânime consentimento de todos, ou da maior e mais qualificada parte, ao qual cada um de vós prometa obediência; e depois de a ter prometido, procure verdadeiramente guardá-la com as obras (cf. Jo 3,18) com castidade e pobreza. 

4.    Podereis habitar nos ermos ou lugares que vos forem dados, dispostos e acomodados para a observância de vossa Religião, segundo o que parecer mais conveniente ao Prior e aos Religiosos.

5.     Além disso, no sítio em que houverdes de habitar, cada um de vós tenha uma cela individual separada, conforme lhe for assinalada por ordem do mesmo Prior, com o consentimento dos demais irmãos ou da parte mais prudente.

6.     Todavia tomareis, num refeitório comum, os alimentos que vos forem dados, ouvindo todos juntos uma lição da Sagrada Escritura, onde isto comodamente se possa observar.

7.     A nenhum  irmão seja lícito, sem licença do Prior atual, mudar ou trocar com outro o lugar que lhe foi designado.
        A cela do Prior esteja à entrada do convento, para que ele seja o primeiro que acorra a receber os que a ele vierem, e de seu arbítrio e disposição dependa tudo o que se houver de fazer.

8.     Permaneça cada um na sua cela ou junto dela, meditando dia e noite na lei do Senhor (cf. Sl 1,2; Js 1,8) e velando em oração (cf.Pd 4,7), a não ser que se ache legitimamente ocupado em outros afazeres.

9.     Os que souberem recitar as Horas canônicas com os clérigos as recitarão conforme os estatutos dos santos Padres e o costume pela Igreja aprovado.
         Aqueles que as não souberem recitar dirão por Matinas vinte e cinco vezes o Pai-Nosso, exceto nos domingos e festas solenes, em cujas Matinas determinamos que se dobre o dito número, de sorte que se diga o Pai-Nosso por cinqüenta vezes. Pelas Laudes matutinas, dir-se-ão sete e outras tantas por cada uma das outras Horas, exceto Vésperas, pelas quais se rezará quinze vezes a dita oração.

10.    Nenhum irmão diga que tenha alguma coisa própria, mas tudo entre vós seja comum (cf. At 4,32; 2,44)e se distribua por mão do Prior ou do irmão por ele escolhido para esse ofício,  dando a cada um o que lhe faltar (cf. At 4,35), ponderando as idades e necessidades de cada um.

11.    Ser-vos-á lícito, porém, ter jumentos ou mulos, segundo o pedir a vossa necessidade, como também alguns animais ou aves para a nutrição.

12.    Edifique-se uma capela no meio das celas, onde mais comodamente for possível, na qual deveis reunir-vos todos os dias de manhã para ouvir missa, onde isso comodamente se puder fazer.

13.    Nos domingos ou em outros dias, sendo necessário, tratareis da conservação da Ordem e da saúde das almas, onde também, mediante a caridade, sejam corrigidos os excessos e culpas em que os irmãos tiverem incorrido.

14.    Jejuareis todos os dias, exceto nos domingos, desde a festa da Exaltação da Santa Cruz até o dia da Ressurreição do Senhor, caso alguma enfermidade ou debilidade do corpo, ou outra justa causa não persuada a que se deixe o jejum, porquanto a necessidade não tem lei.

15.    Abster-vos-eis de comer carne, não sendo para remédio de enfermidade ou debilidade do corpo.
         Mas porque vos é necessário mendigar com mais freqüência, para que não sejais incômodos e pesados às pessoas que vos hospedarem, quando fizerdes jornada podereis, fora de vossas casas, comer coisas cozidas com carnes; e, navegando, ser- vos-á lícito, no mar, o uso da carne.

16.    Porque a vida do homem sobre a terra é uma contínua tentação (cf. Jó 7,1) e os que piamente querem viver em Cristo padecem perseguições (cf. 2Tm 3,12), e também porque o demônio , vosso adversário, como um leão rugindo, anda em continuado giro, buscando a quem devorar (cf. 1Pd 5,8), procurai com o maior cuidado  vestir-vos das armas de Deus para poderdes resistir a seus assaltos (cf. Ef 6,11).
     Cingi , pois, os vossos corpos com o cinto da castidade (cf. Ef  6,14) e fortalecei vosso peito com pensamentos santos, pois está escrito: "A consideração santa te guardará" (cf. Pr 2,11 segundo os LXX). Deveis vestir a couraça da justiça (cf. Ef 6, 14) para que, com todo o vosso coração, com toda a vossa alma e com toda a vossa fortaleza, ameis o Senhor vosso Deus (cf. Dt 6, 5) e ao próximo como a vós mesmos (cf. Mt 19,19; 22, 37, 39).
     Em todas as ocasiões haveis de armar-vos com o escudo da fé, com a qual possais rebater e extinguir os incendidos golpes do inimigo (cf. Hb 11,6), Ponde sobre vossa cabeça o capacete da salvação (cf. Ef. 6, 17) para que só do Salvador, que salva o seu povo de todos os pecados, espereis salvação (cf. Mt 1, 21).
     A espada, porém, do espírito, que é a palavra de Deus (cf. Ef 6,17), esteja sempre abundantemente ( cf. Cl 3,16) em vossa boca e em vossos corações (cf. Rm 10,8), e tudo quanto fizerdes, fazei-o em nome do Senhor (cf. Cl 3,17; 1Cor 10,31).

17.    Deveis também empregar-vos em algum trabalho, para que o demônio vos ache sempre ocupados e não tome ocasião de vossa ociosidade para entrar em vossas almas. Para isso, tendes a instrução e o exemplo do Apóstolo São Paulo, por cuja boca falava Jesus Cristo (cf. 2Cor 13,3), o qual Deus constituiu pregador e doutor das gentes em fé e verdade (cf. 1Tm 2,7), e seguindo os seus passos não podereis errar.
    "Em trabalho e fadiga", diz ele, "estivemos entre vós, trabalhando de dia e de noite para não sermos de algum peso ou incômodo. Não porque o não pudéssemos fazer, mas para vos dar exemplo do que deveis imitar. Isto mesmo vos intimávamos quando, estando convosco, vos dizíamos que quem não quer trabalhar não coma. E porque temos ouvido entre vós que alguns andam ociosos, sem trabalhar coisa alguma, a estes admoestamos e regamos em Nosso Senhor Jesus Cristo que, trabalhando em silêncio, comam o seu pão" (cf. 2Ts 3,7-12). Este caminho é bom e santo, caminhai por ele (cf. Is 30,21).

18.    Recomenda o Apóstolo o silêncio quando nele mesmo manda trabalhar (cf. 2Ts 3,12), assim como o Profeta testifica que o culto da justiça é o silêncio (cf. Is 32,17), e noutro lugar: "No silêncio e na esperança estará a vossa fortaleza" (cf. Is 30, 15).
     Por isso determinamos que,  depois das Completas, guardeis silêncio até o fim da Prima do seguinte dia. No mais tempo, ainda que não seja tão rigorosa a sua observância, contudo se evite com diligência todo o excesso no falar, pois está escrito e ensina a experiência: "No muito falar não faltará pecado" (cf. Pr 10,19). E: "Quem é inconsiderado em suas palavras experimentará danos" (cf. Pr 13,2). E também: "Aquele que fala muito ofende a sua alma" (cf. Eclo 20,8). E o Senhor diz no Evangelho: "De toda palavra ociosa que os homens disseram darão conta no dia do Juízo" (Mt 12,36).
     Faça, pois, cada um de vós uma balança para as suas palavras, e freios retos para a sua boca, a fim de não pecar e cair pela sua língua, de sorte que seja incurável e mortal a sua queda (cf. Eclo 28,29e 30); guarde com o Profeta os seus caminhos para que não peque com a sua língua (cf. Sl  38,2), e procure com diligência e cautela guardar o silêncio, no qual está todo o culto da justiça (cf. Is 32,17).

19.    Tu, porém, B(rocardo), e qualquer outro que depois de ti for eleito Prior, tem sempre na lembrança e põe por obra o que o Senhor diz no Evangelho: "Todo aquele que quiser ser o maior entre vós será vosso ministro, e o que entre vós quiser ser o primeiro será vosso servo" (Mc 10, 43-44; cf. Mt 20, 26-27).

20.     Vós também, demais irmãos, honrai com humildade o vosso Prior, considerando nele Jesus Cristo, que o pôs sobre vossas cabeças e diz aos Prelados da Igreja: "Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza a mim despreza" (Lc 10,16), para que não sejais julgados pelo desprezo, mas para que mereçais, pela obediência, o prêmio da vida eterna.

21.     Tudo isto vos escrevemos brevemente, determinando a forma e regra do vosso Instituto, conforme a qual deveis viver. Mas, se alguém fizer mais alguma coisa do que isto, o Senhor, quando vier a julgar, dar-lhe-á a paga. Use-se, porém, de discrição, que é a reguladora das virtudes.

Observação: Esta regra foi entregue por Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém, aos Carmelitas, entre os anos de 1206 e 1214. Aprovou-a primeiramente Honório III em 30 de janeiro de 1226. Logo a sancionaram Gregório IX, em 6 de abril de 1229, e Inocêncio IV, em 8 de junho de 1245. Por fim, ratificou-a este último Pontífice em 1º de outubro de 1247. Seguimos aqui o texto como presente na bula "Quae honorem Conditoris (Reg. Vat. 21, ff. 465v-466r). As citações bíblicas foram acrescentadas. Faltam também  no Registro original, os números dos artigos.