quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Epístola aos Hebreus, XI, 1: Definição clássica da Fé

São Paulo na sua Epístola aos Hebreus, XI, 1 dá a definição clássica da Fé. Como poucos sabem o grego, vou dar a tradução da Vulgata, portanto, em latim, depois traduzir para o nosso idioma e, finalmente dar a explicação dos termos segundo o grego e o latim. 
   Em Hebreus, XI, 1 diz São Paulo: "Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium". Em Português: "A fé é, pois,  a realidade das coisas que esperamos, e a prova das que não vemos". 

  No hebraico há um paralelismo, como é comum neste idioma. Há dois membros, sendo um como eco do outro. No primeiro a fé seria o apoio sólido de todas as nossas esperanças. Seria a tradução da palavra latina "substantia" que quer dizer realidade e também fundamento. Em grego é "hipóstasis" que quer dizer fundamento, realidade. O Padre Prat como também o Padre Leonel Franca preferem traduzir "substantia" por realidade, no sentido que as coisas que "esperamos" começariam pela fé, a ter, no nosso espírito, uma realidade subsistente, tão certa e indubitável como se as víramos com os olhos. Este segundo significado ou segunda exegese, acentua mais vivamente a fé-crença, o sentido de convicção intelectual. Eis o que diz o Padre Prat: "A fé é o fundamento da esperança e em geral de toda a nossa vida sobrenatural; é outrossim, uma persuasão firme, tão segura que não deixa lugar à dúvida; é, enfim, a realidade das coisas que esperamos, enquanto constitui uma tomada de posse antecipada dos bens futuros e impede sejam vãs ou fantásticas as nossas esperanças... " E o Padre Prat acrescenta que este último sentido, ou seja, o de realidade, lhe parece preferível. (Cf. "La Theologie de Saint Paul", I T. p. 543). 
   É importante notarmos que os Santos Padres gregos, (como, por exemplo, São João Crisóstomo), preferem este segundo sentido.                                                                                  
  Bom! Este é o primeiro membro do paralelismo. Vejamos agora o segundo. No segundo membro da definição paulina, a fé se descreve com uma palavra toda intelectual. "Elegkos" (argumento, prova) tanto no grego antigo quanto no uso dos primeiros tempos cristãos, equivale a prova, argumento, refutação, ato de convencer, demonstração objetiva. E a palavra latina que corresponde exatamente a este termo grego "elegkos" é a palavra "argumentum". E assim traduziu muito bem São Jerônimo na Vulgata. 
   
    Depois de dar o significado mais adequado dos termos, devemos concluir que a fé não é uma persuasão subjetiva. De modo nenhum. É, sim, uma convicção sólida e fundada no que se não vê. O que é a experiência para as coisas sensíveis e a demonstração para as verdades científicas da ordem natural, é a fé para o mundo das realidades invisíveis, isto é, a fé é prova segura e indubitável de sua existência. Aliás, nada mais seguro, mais sólido do que a Fé, baseada que é na autoridade do próprio Deus, e concedida com o auxílio da graça de Deus. E as verdades reveladas são imutáveis, são válidas por todos os séculos dos séculos. Se aparecer um anjo pregando algo diferente do que Jesus Cristo nos revelou e a Santa Igreja nos transmitiu, seja anátema. Se olharmos bem, veremos que este "anjo" é um anjo mau. "Vade retro!  São Judas Tadeu disse na sua Epístola, versículo 3: "Caríssimos, desejando eu com toda a solicitude escrever-vos acerca da vossa comum salvação, tive necessidade de vos escrever agora, para vos exortar a combater pela fé, que foi dada aos santos uma vez por todas".

   Relembrando a definição de fé dada pelo Concílio Vaticano I: "É uma virtude sobrenatural, pela qual, prevenidos e auxiliados pela graça de Deus, cremos, como verdadeiro, o conteúdo da revelação, não em virtude de sua verdade intrínseca, vista pela luz natural da razão, mas por causa da autoridade de Deus que não pode enganar-se ou enganar-nos". 
    O Concílio Vaticano I não fez senão resumir, com uma precisão técnica perfeita, o ensino tradicional da Igreja. E desta definição se depreendem duas coisas: 1ª - É um ato da inteligência pelo qual admitimos como verdadeira uma doutrina atestada pela autoridade divina; 2ª - é um ato livre, dependente da nossa vontade e, por isso, sob o domínio da nossa responsabilidade moral, digna de mérito como virtude ou de condenação como pecado. "Quem crer, será salvo; quem não crer, será condenado". 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A OBLAÇÃO CONSTANTE DE CRISTO

   A oblação ou o oferecimento de si próprio a Deus sempre existiu na alma de Jesus Cristo e era bastante por si só para remir o mundo inteiro. Bastava uma oração, um ato de amor de Cristo para realizar a nossa Redenção, pois qualquer ato de Cristo, que era Homem-Deus, tinha um valor infinito. E que este oferecimento havia sempre na alma do Salvador, nós o sabemos não só pela perfeição desta mesma alma, senão também pela própria Bíblia que nos apresenta o Filho de Deus, dizendo logo desde a sua entrada neste mundo: "Não quiseste hóstia nem oblação mas formaste-me um corpo; os holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis-me que venho; no princípio do livro está escrito de mim; para fazer, ó Deus a tua vontade" (Hebreus, X, 5-7).
   Este oferecimento total de si mesmo ao Eterno Pai não só existiu em toda a vida de Cristo, antes e depois de Sua Paixão, como existe eternamente no Céu, onde alma de Cristo continua a gozar, como sempre gozou,  da VISÃO BEATÍFICA. A OBLAÇÃO é uma só, porém eterna, sem interrupção na alma de Cristo, oblação total de si mesmo ao seu Pai Eterno.
   Mas acontece que, embora bastasse esta oblação, num só instante que fosse, para remir toda a Humanidade, Deus Pai, nos decretos insondáveis de sua JUSTIÇA, exigiu que a redenção da Humanidade não fosse realizada sem derramamento de sangue, sem a morte de Jesus. "Sem efusão de sangue não há remissão" ( Hebreus, IX, 22). De modo que o preço do resgate da Humanidade só seria oferecido a Deus, quando à oblação, que era permanente na alma de Cristo, se juntasse um fato que era passageiro, que se daria UMA SÓ VEZ, isto é, quando Cristo derramasse o seu sangue e moresse por amor de nós. No Calvário se juntaram as duas coisas: a oblação de Cristo e a SUA MORTE. Nesta hora se operou a nossa Eterna Redenção, ficamos livres da escravidão do demônio, ficamos com o direito à GRAÇA SOBRENATURAL, o Céu se abriu etc.
   Mas daí não se segue que a oblação cessasse na alma de Cristo. A oblação REDENTORA só foi feita uma vez. Cristo não oferece mais o seu Corpo e o seu Sangue PARA REMIR A HUMANIDADE, porque a Humanidade já foi REMIDA NO SACRIFÍCIO DA CRUZ. Mas daí não podemos comcluir que Cristo não possa mais OFERECER O SEU CORPO E O SEU SANGUE para alcançar certas e determinadas graças para nós. Dai não se conclue que Cristo não possa mais oferecer-se a Deus Pai para adorá-Lo e render-Lhe graças. Sabemos que pela Santa Missa Jesus aplica às almas o Seu Sangue de valor infinito.
   A oblação que Jesus Cristo faz no Santo Sacrifício da Missa não é uma OBLAÇÃO REDENTORA, neste sentido de que a Missa seja celebrada para remir a Humanidade, como não tivesse alcançado ainda a Redenção; a Humanidade já está remida, o preço do resgate já foi pago, o Céu já está aberto, a Humanidade já foi restaurada no plano sobrenatural. Nós comemoramos no Sacrifício da Missa A MORTE DE CRISTO; e não matamos a Cristo outra vez, quando a Missa é celebrada. Mas o Sacrifício da Missa é UMA REPRESENTAÇÃO DO DRAMA do Calvário. em que temos no altar o próprio Corpo e o próprio Sangue que Cristo ofereceu na Cruz. Cristo na Missa faz o Seu OFERECIMENTO, a sua OBLAÇÃO, não já para nos remir, mas para suplicar a Deus muitas graças para nós, que Deus absolutamente não está obrigado a nos conceder e para adorá-Lo e render-Lhe graças em nosso lugar. Assim temos a felicidade de assistir pessoalmente ao Sacrifício da Cruz, pois o Sacrifício da Missa é o mesmo Sacrifício do Calvário, (embora levado a efeito de maneira diversa), pois a Vítima é a mesma, e mesmo é o Sacerdote Cristo que é o PRINCIPAL OFERENTE.  E nós  que assistimos à representação do Sacrifício da Cruz, levamos uma vantagem sobre aqueles que assistiram no Calvário à sua CRUENTA REALIZAÇÃO; é que a Missa é o próprio Sacrifício do Calvário desdobrado num banquete, em que nós podemos participar da própria Vítima oferecida, alimentando-nos do seu próprio Corpo, que nos é dado como nutrição especial para mantermos em nós a vida da graça. Com que amor e fé devemos participar da Santa Missa!!!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O QUE DEVEMOS CRER - ( 4 )

   72. AMOR DO PRÓXIMO.

   O amor ao próximo é, portanto, uma consequência necessária do amor de Deus. E Jesus dá ao amor do próximo um novo aspecto. A Lei dizia: Ama ao próximo como a ti mesmo. A medida do amor ao próximo era o amor que naturalmente cada um tem a si próprio. Jesus, que nos deu o maior exemplo de amor aos homens, amor até aos próprios inimigos, propõe o seu exemplo, como a medida do amor: Eu dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei (João XIII-34). Este amor ao próximo, mesmo aos inimigos, de que Ele mostrou um modelo no Samaritano da parábola, Jesus pregou-o, e pregou-o como NECESSÁRIO À SALVAÇÃO. 

   1º Jesus pregou o amor aos inimigos:

   Tendes ouvido que foi dito: Amarás ao teu próximo e aborrecerás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos (Mateus V-43 a 45).

   Por aí já se vê que não se trata de mero conselho: precisamos amar aos inimigos, para sermos filhos de Deus. Mas há outras passagens que nos mostram ainda mais claramente que Jesus

   2º pregou o amor aos inimigos como indispensável à salvação.

   Todos nós pecamos e é claro que não podemos salvar-nos, se Deus não perdoa os nossos pecados. Pois bem, eis o que ensinou Jesus: Quando vos puserdes em oração, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-lha, para que também vosso Pai, que está nos Céus, vos perdoe vossos pecados; porque, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos Céus, vos não há de perdoar vossos pecados (Marcos XI-25 e 26). E, depois da parábola do devedor insolvente, na qual o rei se mostra rigoroso e implacável para com o servo que, depois de perdoado, não quis perdoar ao seu companheiro, acrescenta: ASSIM TAMBÉM VOS HÁ DE FAZER MEU PAI CELESTIAL, SE NÃO PERDOARDES do íntimo de vossos corações cada um a seu irmão (Mateus XVIII-35).

   Ninguém pode alcançar a salvação, se não obtiver o perdão dos pecados. O perdão dos pecados, não o recebe quem não perdoa a seu próximo. Logo, não basta a fé para a salvação; é necessário também o perdão dos inimigos.

   E, enquanto os protestantes dizem que o homem pelas suas obras nada pode merecer, mas só pela fé, Nosso Senhor exalta o merecimento daqueles que sabem dispensar e perdoar, e lhes promete grande recompensa: E. se vós amais aos que vos amam, que MERECIMENTO é o que vós tereis? porque os pecadores também amam aos que os amam a eles. E, se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que MERECIMENTO é o que vós tereis? porque também os pecadores emprestam uns aos outros, para que se lhes faça outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, fazei bem e emprestai sem daí esperardes nada; e tereis MUITO AVULTADA RECOMPENSA (Lucas VI-32 a 35). 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes

A Mãe e Rainha do Sacerdote


   Maria, a Virgem Imaculada, é minha Mãe e Mãe também tua. Escolhi-a para nós ambos. Enriquecia-a de graças e de pureza. Cumulei-a de todos os dons que pode suportar uma pura criatura. 
  Eu recebi a plenitude do sacerdócio no momento da Encarnação no seu puríssimo seio, e isto por obediência ao decreto eterno de meu Pai.
   De igual maneira tu, meu filho, embora infinitamente indigno, foste concebido sacerdote comigo neste augusto e virginal santuário.
    Eu não quis encarnar e ser sacerdote sem o antecedente consentimento e sem a cooperação da minha divina Mãe. De igual sorte tu também não chegaste a ser seu filho e meu sacerdote senão porque Ela assim quis, escolhendo-te e adotando-te como filho.
   Oh, como deves ser feliz e agradecido por lhe pertenceres, não somente pelo entusiasmo filial do teu coração, mas também por uma eleição pessoal do seu coração maternal, e por um decreto imutável e terno do nosso divino Pai!
    Eu amei e amo a minha Mãe mais que todas as outras criaturas juntas. E desejo que tu, meu sacerdote, que és outro Jesus, também a ames por tua vez como eu próprio a amei.
     Eu não pus limites à minha ternura para com ela. Não receies tampouco tu, que ocupas junto dela o meu lugar, exceder-te no carinho filial com a tua Mãe.
    Ela é a Virgem fiel. Todo o amor que os seus filhos lhe dedicam, devolve-mo a mim que sou o Princípio e o Fim de todas as coisas.
    Ainda sendo Deus, quis na terra receber tudo da minha Mãe. Era a Ela a quem expunha todas as minhas necessidades e a quem fazia todos os meus pedidos.
    Tu dirigir-lhe-ás igualmente as tuas preces e receberás tudo da sua mão maternal.
   Eu sou infinitamente bom e poderoso e estou disposto a tudo te conceder. Porém, não o farei sem um aceno da minha Mãe Imaculada.
    É Ela a dispensadora de todas as graças.
    Eu quis depender em tudo da minha Mãe como uma terna criancinha. Se queres dar-me gosto, permite-me continuar por teu intermédio esta vida de humilde e amorosa sujeição para com Ela.
    Não empreenderás coisa alguma sem Ela, sem o seu conselho, e sem lhe teres pedido que te ilumine.
    Eu quis ter o seu consentimento, não somente para receber dela a minha vida humana, mas ainda para a perder na cruz; porque Ela recebeu do meu Pai autoridade sobre mim. 
    Assim tu far-lhe-ás também homenagem de toda a tua vida de sacerdote, da tua atividade, das tuas alegrias, dos teu sofrimentos, da tua morte; porque és coisa e propriedade sua.
    A minha Mãe muito amada, depois de me ter dado o ser humano, a matéria do meu sacrifício, ofereceu-me ao Pai Eterno em holocausto ao pé da cruz.
    De igual sorte, presente invisivelmente à tua Missa, continua por intermédio teu, seu filho sacerdote, a oferecer-me ainda como vítima à divina Majestade.
    Antes de morrer, confiei à sua solicitude maternal São João, o discípulo que eu amava. Nele estavam representados todos os fiéis, mas sobretudo os meus prediletos, os sacerdotes.
    Então confiei-te também pessoalmente à minha Mãe. Eu mesmo coloquei os teus estudos sacerdotais sob a sua proteção maternal.
    Reciprocamente confiei também minha Mãe a São João para que a guardasse em sua casa, cuidando dela, e consolando-a, na minha ausência, durante o resto da sua peregrinação sobre a terra. 
    Desta maneira, meu filho muito amado, eu te confiei também a minha Mãe: a sua honra, a sua glória, e a defesa dos seus privilégios.
    Por toda a parte espalharás o seu culto, inspirando aos fiéis confiança e amor à sua Mãe do Céu, à Mãe do Perpétuo Socorro. 
    Amiúde recordarás com emoção, e recordarás também aos teus fiéis, as lágrimas derramadas por ela e as angústias sofridas pelo seu Coração Maternal no tempo da minha paixão.
    E quando soar a tua última hora, Ela estará junto do teu leito de dor como estava junto da minha Cruz. Suster-te-á então com a sua presença, e no momento da tua morte acolherá nos seus braços maternais a tua alma sacerdotal e apresentar-ma-á para que eu coloque na tua fronte a coroa de glória, destinada para aquele que corajosamente lutou.
    E assim estaremos juntos, para sempre, na casa do nosso Pai, a quem pertence toda a glória e toda a honra por séculos sem fim.
     Amém. 

    
   




   

sábado, 9 de agosto de 2014

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( XII )

Jesus, amor dos sacerdotes

   
   Eu amo todos os homens com ternura. Morri por todos com uma sede inexprimível da sua salvação. E estaria pronto a morrer ainda por cada um deles em particular, se esta prova de amor pudesse abrandar a dureza do seu coração.
   Mas, meu sacerdote, meu filho, amo-te mais do que aos outros e quero que o saibas e que me dês em retorno mais amor que os simples fiéis.
   Não te chamo meu servo, mas sim meu amigo, porque te confiei todos os meus segredos.
   Que pena me causarias, se só tivesses para mim a frieza e o temor servil!
   Esgotei todos os recursos ao meu alcance para te provar a terna afeição que te tenho. Consegui ganhar toda a tua confiança?
   Escolhi-te desde a eternidade e separei-te do resto dos homens; fiz-te participante do meu sacerdócio e revesti-te do meu poder, adornando-te de todas as virtudes e confiando-te a minha honra. Entreguei à tua guarda as minhas ovelhas compradas com  o meu sangue, e encarreguei-te de povoar o meu céu.
   Que mais podia eu fazer pela minha vinha eleita?
   Não tenho eu então direito, depois de tudo isto, a exigir só para mim todo o amor do teu coração?
   E não me prometeste no dia da nossa aliança que me tomarias como a sorte da tua herança?
   Que tristeza para mim se profanas esta amor, prodigalizando-o, com desprezo da minha lei, a criaturas indignas!
   O teu coração sacerdotal deve ser jardim fechado, fonte selada, Santo dos santos, onde tão somente o Sacerdote eterno tem o direito de entrar.
   Eu amo os sacerdotes. Sobre a sua cabeça acumulei carvões ardentes para que não possam negar-me o seu amor.
   Vou pelo mundo a fora como um mendigo, chamando a todas as portas e pedindo a esmola de um pouco de amor. Mas chamo com mais insistência à porta dos meus sacerdotes muito amados. Como poderão eles negar ao seu Jesus o acolhimento quente do seu amor?
   Amiúde, fatigado pelo longo caminhar, sento-me à beira do caminho como outrora junto do poço de Jacob à espera de ver passar perto de mim uma alma sedenta, para lhe poder oferecer a água da minha graça que jorra para a vida eterna. 
   E que felicidade para mim, quando encontro um sacerdote desejoso de haurir o amor na fonte do meu divino Coração!
   Tenho sede do amor dos homens e vim à terra em busca deste amor.
   Oh, no Céu estou cercado de anjos e de santos que me amam com um amor puro e sem mistura!. Mas na terra os meus altares estão cercados de legiões de sacerdotes que podem amar-me com um amor livre e espontâneo. Podem ajudar-me a encontrar as almas criadas à minha imagem, e tudo sacrificarão para me darem prazer.
   Oh, com eu me sinto atraído a esta terra onde tanto amei e tanto sofri!
   Meu filho, ajuda-me a formar almas que sem reservas se entreguem a mim. Dize-lhes que se tiverem confiança na minha bondade, me darei a elas para sempre, mil e mil vezes, com uma ternura e com uma solicitude cuja delicadeza estão longe de suspeitar!
   Meu Pai vê-se extremamente desonrado pelos homens pecadores. E eu sinto por estes ultrajes uma pena indizível, porque sou seu único Filho e o amo infinitamente.
   Por todo o decorrer do dia sobem ao meu Pai muito amado blasfêmias sem conta, injustiças e impurezas inúmeras.
   Porém, nenhum mal fez aos homens. Só bem lhes fez!...
   Compreendes agora o meu desejo de reparar a honra deste Pai divino, destruindo o pecado, como de o compensar trazendo-lhe aos pés os seus filhos rebeldes?
   Compreendes a paciência e a misericórdia de que uso com os pecadores, não obstante as suas quedas repetidas?
   E não queres tu, meu sacerdote, ajudar-me a consolar o meu divino Pai?
   Os pecadores convertidos são minha conquista e minha glória junto do Pai. São as minhas delícias, quando, após tanta ingratidão, compreendem por fim o meu amor e me permitem fazer-lhes bem.
   Meu Padre, ajuda-me a convertê-los. Dize-lhes que pecado algum, por enorme que seja, pode deter a minha misericórdia, desde que o pecador se arrependa e confesse as suas fraquezas.
   Dize-lhes que, se vierem com a consciência carregada de pecados sem número e trouxerem a alma vermelha como o escarlate, num momento lhes devolverei a candura da lã mais branca, sempre que venham com o coração humilhado e contrito.
   Eu amo os homens. Sem mim não têm paz nem felicidade e espera-os uma desgraça eterna. Oh, como eu quereria prendê-los nos laços do meu amor para os impedir de caírem no inferno!
   E que decepção a minha, quando apesar dos meus esforços escapam das minhas mãos e resvalam por entre as malhas da minha graça para se precipitarem voluntariamente no abismo!
   Oh, meu filho, e que ardente serias em me ajudares no meu empenho, se compreendesses o que é uma alma criada à minha imagem e o que é o inferno eterno!
   Prega por toda a parte o amor que eu tenho às almas. Repete sem cessar aos fiéis quanta é a minha bondade e a minha compaixão com os pecadores, bem como a misericórdia inexaurível da minha Mãe para com todos os homens. Dize-lhes que todo o Céu está em festa, quando volta aos meus pés um só filho pródigo que for.
   Mas, meu filho, promete-me tu mesmo que me hás de amar mais do que os outros. como poderia eu com alma tranquila confiar-te o que me é mais caro no mundo, as minhas ovelhas queridas, não sabendo que és meu inteiramente?
   Repete-me amiudadas vezes com o apóstolo Pedro: "Sim, Senhor, amo-vos; Vós bem sabeis que vos amo".

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

CORAÇÃO E MÃOS SACERDOTAIS

CORAÇÃO SACERDOTAL
                         Germano de Novais

   Um coração sacerdotal deve ser um cálice cheio de Jesus. Um relicário precioso em que Cristo almeje dascansar das ingratidões humanas.
     Um coração sacerdotal deve ser grande como o oceano para receber todos os rios dos sofrimentos e da miséria que afligem e envolvem os outros corações. Um coração que se desdobre em gestos de paz para as almas sofredoras. Um coração que tenha para todos uma palavra de conforto, uma prece de amigo, uma bênção de perdão.
     Um coração sacerdotal deve revestir-se da pureza dos lírios trescalantes de frescura, donde se evole o suave aroma da caridade.
     Um coração sacerdotal deve ser um lago repleto de bondade, de alegria, misericórdia, perdão e amor. Sempre calmo, capaz de refletir o céu estrelado das almas. E ainda sempre tranqüilo, mesmo depois de receber dentro de si as torrentes caudalosas dos pecados e dos crimes da humanidade pecadora.
    Um coração sacerdotal deve ser uma patena viva sobre a qual repousem todos os corações humanos dispostos a oferecer-se, juntamente com a Vítima divina dos nossos Altares, e ao Pai dos Céus.
     Um coração bondoso como um coração materno, amigo como um coração de pai, generoso como um coração consagrado a Deus. Um coração que tremule de ternura e de amor para com a mais bela das Virgens e a mais carinhosa das Mães. Um coração que procure espalhar e irradiar a beleza, o perdão e o amor infinito do Coração de Jesus, Rei e Centro de todos os corações, e modelo de todo coração sacerdotal.


MÃOS SACERDOTAIS
Mãos do sacerdote, mãos predestinadas,
Mãos de Jesus Cristo, mãos divinizadas,
Feitas lá no céu de essências imortais.
Mãos do sacerdote, feitas sob modelo
Que Jesus traçara cheio de desvelo,
Desde todo sempre, mãos sacerdotais.

 Mãos do sacerdote para a cruz voltadas,
 Mãos de lírios roxos sobre a cruz pregadas,
 Sempre, sempre abertas, sem fechá-las mais,
 Mãos de sofrimentos, mãos de mil suplícios,
 Têm as veias rubras feitas de cilícios,
 Mãos de mil calvários, mãos sacerdotais.

  Mãos do sacerdote, mãos de toda hora,
  Quando a noite é negra, quando brlha a aurora,
  Quando reina a calma, quando há temporais,
  Mãos de sacerdote, mãos de toda gente,
  Mãos do fervoroso, mãos do indifenrente,
  Mãos dos sofredores, mãos sacerdotais.

   Mãos do sacerdote, mãos feitas de lodos,
   Frágeis, passageiras, como as mãos de todos,
   Filhas do pecado como as dos demais,
   Mãos feitas de lodo, frágeis, pecadoras...
   Mãos purificadas, santas, redentoras...
   Beatificantes, mãos sacerdotais.

    Quantas mãos existem. Que diversidade!
    Mãos para a virtude, mãos para a maldade,
    Mãos cheias de lodo, mãos cheias de luz.
    Mãos que ferem, mãos que fecham as feridas,
    Mãos que dão a morte, mãos que dão a vida,
    Mãos que dão o diabo, mãos que dão Jesus.

     Quantas mãos existem. Que diversidade!
     Mas somente vós não sois como as demais.
     Pois somente vós levais à eternidade;
     E há recantos n'alma em que só vós tocais.
     E há espinhos fundos que ninguém alcança,
     E há doridos prantos que ninguém estanca
     A não serdes vós, ó mãos sacerdotais!

      Mãos do sacerdote, luz, calor, guarida,
      Para cada morte trazem uma vida,
      Para cada vida acendem mil fanais.
      Mãos do sacerdote, báculo que arrima,
      Bálsamo que alenta, asa que sublima,
      Cofre dos consolos, mãos sacerdotais. 

Colóquio do sacerdote com Jesus

Livro IV da Imitação de Cristo,  capítulos VI e VII



   1. VOZ DO DISCÍPULO: Senhor, quando penso em vossa dignidade e em minha vileza, tenho grande temor e me acho confuso. Porque se não me chego a Vós, fujo da vida; e se indignamente me atrevo a chegar-me, incorro em vossa indignação. Que farei pois, meu Deus, meu protetor, meu conselheiro, em minhas necessidades?
    2. Mostrai-me o caminho direito, ensinai-me algum breve exercício para me preparar à santa comunhão. Importa-me muito saber com que fervor e reverência devo preparar meu coração, para receber com fruto vosso Sacramento, ou para oferecer tão grande e divino sacrifício.

O Apóstolo São João, a quem Jesus mais
amava, reclinado sobre o coração de Jesus
   1. A VOZ DO SALVADOR: Sobre todas as coisas é necessário que o sacerdote de Deus se prepare para celebrar os santos mistérios, tocar e receber o corpo de Jesus Cristo; chegue a este sacramento com profunda humildade de coração, devota reverência, inteira fé e piedosa intenção de dar honra e glória a Deus.
    Examina diligentemente tua consciência e, segundo tuas forças, purifica-a e orna-a com verdadeira dor e humilde confissão; de maneira que, livre do peso de tuas culpas, isento de turbação ou remorsos, possas livremente vir a mim.
    Tem aborrecimento de todos os teus pecados em geral, e pelas faltas diárias doe-te e geme mais particularmente. E se o tempo permite, confessa a Deus, no segredo de teu coração, todas as misérias de tuas paixões.
    2. Chora e geme por estares ainda tão carnal e mundano, tão pouco mortificado nas paixões, tão cheio do movimento de concupiscência; tão pouco diligente na guarda dos sentidos exteriores, tão envolto muitas vezes em vãs imaginações; tão inclinado às coisas exteriores; tão negligente nas interiores; tão fácil ao riso e à dissipação, tão duro para as lágrimas e compunção; tão disposto à relaxação e regalos da carne, tão lento para seguir vida austera e fervorosa; tão curioso para ouvir novidades e ver coisas formosas, tão remisso em abraçar as humildes e desprezadas; tão cobiçoso de ter muito, tão avaro em dar; tão sôfrego em reter; tão inconsiderado em falar, tão pouco acautelado no calar; tão pouco regulado nos costumes, tão indiscreto nas ações; tão intemperante no comer e beber; tão surdo às vozes de Deus; tão pronto para o descanso; tão preguiçoso para o trabalho; tão esperto para ouvir contos e fábulas; tão sonolento para velar na oração; tão impaciente por chegar ao fim e tão vago na atenção; negligente em rezar o Ofício Divino, tão tíbio em celebrar a Missa, tão indevoto na comunhão, tão fácil em te distraíres, tão difícil em te recolheres, tão ligeiro em irar-te, tão fácil em magoar os outros; tão precipitado em julgar; tão rigoroso em repreender, tão alegre na prosperidade, tão abatido na desgraça; tão fecundo em bons propósitos e tão estéril em boas obras.
   3. Depois de teres confessado e chorado com grande dor e vivo sentimento de tua fraqueza estes defeitos e tantos outros que em ti conheces, propõe firmemente emendar tua vida e adiantar na virtude.
   Oferece-te depois, com absoluta  e inteira resignação, no altar de teu coração, como perpétuo holocausto, em honra do meu nome, entregando-me fielmente o teu coração e a tua alma, para alcançares assim a graça de celebrar dignamente o santo sacrifício e receber com fruto o Sacramento de meu Corpo. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II - (continuação)

Por  D. Lefebvre, obra citada

  A Mansidão Evangélica

  Assegura o Concílio que a revelação divina "mostra o grande respeito que Cristo teve pela liberdade do homem, no cumprimento de seu dever de crer na palavra de Deus (DH. 9); Jesus manso e humilde de coração, manda deixar crescer o joio até a colheita, não quebra a cana rachada nem apaga a chama bruxuleante (DH. 11, cf. Mt. XIII, 29; Is. XLII, 3). Eis a resposta: quando o Senhor manda deixar crescer o joio, não lhe concede o direito de não ser arrancado, mas aconselha aquilo aos que colhem, "para evitar que sejam arrancados os grãos bons". Conselho de prudência: às vezes é preferível não escandalizar os fiéis com o espetáculo da repreensão dos infiéis; algumas vezes mais vale evitar a guerra civil, que despertaria a intolerância. Igualmente, se Jesus não quebra a cana rachada e faz disso uma regra pastoral para seus apóstolos, é por caridade para com os que erram, para não separá-los mais da verdade, o que poderia acontecer se usassem os meios coercitivos. 

  É claro, às vezes existe um dever de prudência e de caridade por parte da Igreja e dos Estados católicos para com os adeptos dos falsos cultos, mas este dever não confere ao outro nenhum direito. Por não distinguir a virtude da justiça (a que dá os direitos) da prudência e da caridade (que por si, só dá deveres), o Vaticano II mergulha no erro. Fazer da caridade uma justiça é perverter a ordem social e política da cidade.  

  Mesmo quando se considerar que Nosso Senhor dá, apesar de tudo, ao joio o direito "de não ser arrancado" este direito seria totalmente relativo às razões particulares que o motivaram, não seria nunca um direito natural e inviolável. Diz Santo Agostinho: "Ali onde se deve temer arrancar o grão bom ao mesmo tempo que o ruim, que a severidade da disciplina não durma", que não se tolere o exercício dos falsos cultos. E São João Crisóstomo, também não partidário das supressão dos dissidentes, não exclui a supressão de seus cultos: "Quem sabe, diz ele, se algum joio não se transformará em boa semente? Se o arrancais agora, prejudicareis a próxima colheita, arrancando os que poderiam mudar e chegar a ser melhores. Ele (o Senhor) certamente não proíbe reprimir os hereges, fechar suas bocas, negar-lhes a liberdade de falar, dispersar suas assembleias, e repudiar seus juramentos; o que Ele proíbe é derramar seu sangue e mata-los" (Cf. Homilia 46, sobre São Mateus, citado por Santo Tomás).  A autoridade destes Padres da Igreja me parece suficiente para refutar a interpretação abusiva que faz o Concílio da mansidão evangélica. Sem dúvida Nosso Senhor não pregou medidas militares, o que não é motivo para transformá-lo em um apóstolo da tolerância liberal. 

domingo, 3 de agosto de 2014

A ALEGRIA ESPIRITUAL É ÚTIL E NECESSÁRIA À NOSSA SANTIFICAÇÃO

    Ouçamos o Divino Espírito Santo no Eclesiástico XXX, 23: "O júbilo do coração esse é a vida do homem, e um tesouro inexaurível de santidade". A alegria espiritual, como a verdadeira piedade de que é inseparável, é portanto útil para tudo: tem promessas para a vida presente e para a vida futura. Nós só a encaramos aqui debaixo deste último aspecto.

   Se a tristeza tem matado a muitos, como afirma a Sagrada Escritura: "A tristeza tem matado a muitos. e não há utilidade nela" (Eclesiástico XXX, 25), a alegria, espiritual, no entanto, tem salvado a muitos. Ela é um baluarte que protege a inocência, e um poderoso meio de reparar a sua perda. Se sois tentado, e a tristeza se apodera do vosso coração, ei-vos nas trevas, perdeis as vossas forças, sois vencido. As vossas armas seriam a oração, a confiança em Deus, a mortificação; mas a oração desgosta-vos, a confiança em Deus desamparava-vos, a mortificação torna-se-vos impraticável. Se ao contrário tendes a alegria da esperança, Deus vos livrará; prometeu-o; ainda que não tivesse outra razão para vos socorrer contra o demônio, que não é vosso inimigo senão porque é inimigo de Deus, só a vossa esperança o obrigaria a isso. Caístes? Venha a esperança do perdão tranquilizar a vossa alma, conturbada pela primeira impressão da queda, e conduza-vos de novo para Deus. Dando-vos a alegria, dar-vos-á a salvação. Diz o Salmo L, 14: "Dai-me a alegria da Tua salvação". Trata-se do cumprimento dos vossos deveres? Nada o facilitará tanto, como a santa alegria. Convém dizer dela o que com tanta verdade se diz do amor santo: "Não sente o peso, não repara em trabalhos; aparenta mais do que pode; não julga impossível, pois, crê, que tudo pode"  (Confira Imitação de Cristo, L III, c. V, n 4). A tristeza enerva o ânimo; a menor dificuldade abate-o. Faz que o nosso trato seja penoso, descontente dos outros e de nós mesmos. Arrasta para dois precipícios inteiramente opostos: a desesperação, ou o amor desordenado dos gozos criminosos; a Psicologia explica que os  melancólicos são mais inclinados aos deleites, precisamente porque se abandonaram à sua dor. Concluamos que a alegria não só é útil, mas necessária. O coração do homem, diz São Gregório, não pode estar sem gozo; se o não acha em cima, busca-o em baixo. A tristeza é certamente um grande obstáculo à salvação, visto que a Igreja pede com a mesma instância, que sejamos livres da presente tristeza e gozemos da eterna alegria. 

   Senhor, se eu vos amo, terei a alegria e uma alegria inalterável; mas se tenho a alegria espiritual, amar-Vos-ei; a alegria dilata o coração e abre-o às suaves impressões do amor. ó meu Deus! dai-me o vosso amor, nada poderá separar-me de vós, nem perturbar a minha felicidade. Amém!

sábado, 2 de agosto de 2014

A ALEGRIA ESPIRITUAL É AGRADÁVEL A DEUS

   A nossa alegria é tão agradável a Deus, quando Ele é o objeto dela, que é um meio seguro de conseguir d'Ele tudo o que desejamos. É o que declara a Sagrada Escritura no Salmo XXXVI, 4: "Põe as tuas delícias no Senhor, e Ele te concederá o que teu coração deseja". 

   A alegria é fruto da graça: "O fruto do Espírito (Santo) é a alegria" (Gálatas V, 22). Buscais, caríssimos fiéis, o Senhor, quereis ser todo d'Ele, é o bastante; tendes direito a alegrar-vos. Deus, Nosso Pai do Céu, cobre-nos com as suas asas, como a galinha cobre seus pintainhos. Por que encher-se de tristeza quando a Bíblia Sagrada mostra o justo tripudiante de alegria? Eis alguns trechos: "Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos, ó justos, e gloriai-vos todos os que sois de coração reto" (Salmo XXXI, 11); "Exultai, ó justos, no Senhor... (Salmo XXXII, 10; "Guiai-me, Senhor, pelo teu caminho, e andarei na tua verdade; que o meu coração ponha a sua alegria em temer teu nome" [ou seja, em não pecar] (Salmo LXXXV, 11); "O temor do Senhor é glória e honra, alegria e uma coroa de regozijo" (Eclesiástico I, 11). 

   Caríssimos, não digais que, se a alegria é preceituada, o temor o é também. Não, os vossos receios, as vossas inquietações, os vossos abatimentos, não são o temor que Deus ordena. Este não gela o coração, pois ao contrário é necessário estar alegre, para possuir este temor salutar: é Davi que no-lo ensina na Bíblia: " Alegre-se o meu coração para que tema o seu nome" (Salmo XXXII, 1 e 21). Os santos temem desagradar a Deus, porque consideram o seu beneplácito com o maior de todos os bens, e o seu desagrado com o maior de todos os males. Este temor tem o seu princípio no amor. "O temor do Senhor é a alegria e o motivo de cada um se gloriar e a alegria é uma coroa de regozijo: deleitará o coração, e dará alegria, gosto e longa vida" (Confira Eclesiástico I, 11). Caríssimos, fazeis uma oferenda ao Senhor? Não a façais com tristeza, nem constrangidos; porque "Deus ama aquele que dá com alegria" (II Cor. IX, 7). Entrais no seu templo para orar? Entre a alegria convosco e não a expulseis contra a vontade de Deus, que vos quer alegrar na sua casa de oração: "Conduzi-los-ei ao meu santo monte (=Templo) e os alegrarei na minha casa de oração" (Isaías LVI, 7). 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A ALEGRIA ESPIRITUAL

   São Paulo na sua Epístola aos Filipenses, IV, 4-6, mostra os caracteres e motivos da verdadeira alegria espiritual: Meus irmãos, alegrai-vos incessantemente no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos. A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens; o Senhor está perto. Não vos inquieteis com coisa alguma, mas com muita oração e rogos, com ação de graças sejam manifestadas as vossas petições diante de Deus. 

   A alegria espiritual se funda em Deus -  NO SENHOR: por isso é constante e inalterável. A alegria que provém das paixões satisfeitas, passa como uma enxurrada após tempestade que seca logo, e só deixa após si um lodo imundo. A que provém das criaturas, ainda que seja inocente, é pelo menos vã, superficial e passageira, como os bens que a causam. A alegria espiritual é a única que enche o coração e que pode durar sempre, porque dimana da fonte: alegrai-vos SEMPRE. É modesta. e nada tem de comum com as alegrias loucas e turbulentas dos mundanos; São Paulo dá como razão, que ela é fundada na nossa fé na presença de Deus, O SENHOR ESTÁ PERTO, no seu poder, na sua bondade, e na fidelidade às suas promessas, donde nasce em nós o sentimento da confiança. Quem poderia inquietar-nos? Deus está em toda a parte, vê tudo, pode tudo, e quer sempre a nossa felicidade. Os seus tesouros são nossos; entregou-nos a chave deles: A ORAÇÃO. "A oração do justo, diz Santo Agostinho, é a chave do Céu"; e Deus deseja que usemos dela. Animada pela lembrança dos benefícios já recebidos, a oração obtém tudo: "manifestai a Deus as vossas necessidades por meio de orações e de súplicas unidas à ação de graças" (Filipenses IV, 6). A alegria espiritual é em nós um dom do Espírito Santo, e um começo de participação da alegria do mesmo Deus: Entra na alegria de teu Senhor. Na terra, a alegria cai gota a gota na alma dos justos; no Céu são dela inundados, como de uma torrente. 

   Que é pois alegrar-se no Senhor? É pôr n'Ele e no seu serviço todo o meu contentamento. Alegro-me em Deus, quando me felicito de ser criado de tão bom Senhor, filho de tão bom Pai... quando me alegro do amor que me tem, das provas que dele me dá, dos bens que espero d'Ele. Mas alegro-me em Deus da maneira mais perfeita, quando contemplo com júbilo as suas infinitas perfeições, a sua absoluta independência, a sua suma felicidade, que todos os atentados dos maus corações não podem perturbar nem alterar; a minha alegria é então o amor do filho, que se compraz em olhar para seu pai, e se sente feliz da sua felicidade. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

SANTO INÁCIO DE LOYOLA

   No século em que o protestantismo arrebatou à verdadeira Religião um terço da Europa, Santo Inácio foi sem dúvida o lutador suscitado pela Providência para atender de modo pleno às necessidades da Igreja.

   Filho de uma família ilustre da Espanha, tendo passado a mocidade na corte e no exército, onde vivera com honra, mas esquecido da sua salvação, causou-lhe tal impressão a leitura de um Livro da Vida dos Santos que lhe caíra nas mãos, à falta de um livro de romances que tinha pedido, que se converteu e entregou generosamente a Deus, e em pouco tempo se elevou a uma eminente perfeição. Desde a sua conversão até à sua morte, se lhe perguntassem o motivo das suas penitências, das suas lágrimas, e das suas empresas..., poderia responder com o profeta Elias: Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercituum.

   Para a verdadeira Reforma, Santo Inácio instituiu duas grandes obras: O Livro dos Exercícios Espirituais e a Companhia de Jesus. Foram os Exercícios, praticados fielmente, que deram à Igreja São Carlos Borromeu, São Francisco Xavier, São Francisco de Borja e muitos outros santos. São Francisco de Sales dizia que esta obra tinha salvado tantas almas quantas letras encerra. Quanto à Companhia de Jesus, podemos afirmar que, de todas as ordens religiosas que apareceram no século XVI, nenhuma prestou tantos serviços e foi mais célebre que a COMPANHIA DE JESUS. O Papa Paulo III aprovou-a em 1540, por uma bula solene. Inácio, conservando na religião alguma coisa do tom militar, deu ao seu instituto o nome de Companhia de Jesus, como uma companhia de soldados toma o nome do seu capitão. O inferno lhe jurou um ódio particular, e perseguiu e continua a persegui-la com furor.

   Um antigo autor dividia os homens em quatro classes: homens do Céu, homens da terra, homens dos homens e homens de Deus. Os primeiros procuram os bens eternos; os segundos apaixonam-se pelos falsos bens terrestres; os homens dos homens são escravos do respeito humano; os homens de Deus unem-se a Deus, só aspiram à felicidade de Lhe agradar. Santo Inácio distinguiu-se entre os primeiros e os últimos.

   Tinha sempre o coração, e com frequência os olhos voltados para o Céu, e costumava dizer suspirando: Quão desprezível é a terra, quando olho para o Céu! Pelo que respeita ao amor para com Deus, lemos nas atas da sua canonização, que a Deus referia, como a seu fim, todos os pensamentos, todas as palavras e ações, dirigindo tudo à sua honra e glória . Seu primeiro cuidado foi glorificar a Deus com a sua própria santificação. Percorreu todos os graus, pelos quais uma alma se eleva à mais eminente santidade, e começou por ser penitente. Trocando as vestes de fidalgo pelos de um pobre vestido de saco e cingido com uma corda, o coração dilacerado de dor é já abrasado no amor de Deus. Logo após sua conversão passou uma noite em oração e, desde aquele momento já não se considerou senão como um homem crucificado para o mundo e para quem o mundo estava crucificado. Tinha então trinta anos de idade. A gruta de Manresa, os hospitais, as praças públicas foram testemunhas das suas penitências e humilhações. Que abnegação, que humildade, que paciência, que amor para com Deus e para com os seus irmãos! Que ardente desejo de concorrer para a salvação das almas! Que coragem, que magnanimidade nos seus primeiros ensaios da vida apostólica!

   Quis ir à Palestina para ali defender os interesses de Jesus Cristo no meio dos cismáticos e dos infiéis. - Os santos eram apostólicos e não ecumênicos! -  Inácio, depois de voltar à Europa, pensa que é necessário aprender as letras humanas para ser mais útil à glória do Senhor. E não titubeou malgrado a idade. A distância dos lugares, os obstáculos que parecem insuperáveis, a vergonha de parecer criança aos trinta anos, nada detém nem resfria o seu zelo: zelo zelatus sum, eu me consumo de zelo. Assim glorificou a Deus da maneira mais excelente, pois o glorificou por seu próximo e por si mesmo. E estendeu o seu zelo a todas as idades, a todas as condições, a todos os povos, a todos os tempos..., porque este é o largo campo que abriu à Companhia de Jesus, de que é o fundador.  

   O grande lema de Santo Inácio de Loyola foi: TUDO PARA A MAIOR GLÓRIA DE DEUS!  Ele pôde dizer com o seu adorável Mestre: Eu não busco a minha glória. Como ele mesmo o declara, a tentação que menos temia, era a do amor próprio. Não amava senão a Deus. - E eu, Senhor, ousarei dizer que Vós me bastais, que não busco senão a Vós?! 

   Este ideal de buscar em tudo a maior glória de Deus trazia para a alma de Santo Inácio uma paz, aquela encantadora tranquilidade, tranquilidade esta que ele conservava no meio dos acontecimentos mais inesperados. 

   Fazei que Vos conheça, ó Jesus, e eu buscarei sempre a vossa glória, a vossa maior glória, e não buscarei outra coisa, e, assim como Santo Inácio, saborearei como é um doce paraíso o estar Convosco, ó meu  Jesus! Amém! 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A CONSPIRAÇÃO DA ALTA VENDA DOS CARBONÁRIOS

   Do Livro "DO LIBERALISMO À APOSTASIA, A Tragédia Conciliar, cap. XXI, autor: Mons. Marcel Lefebvre.


   Em nosso breve estudo histórico do liberalismo católico, eis-nos chegados às vésperas do Concílio Vaticano II. Mas antes de analisar a vitória obtida pelo liberalismo no Concílio, gostaria de retroceder para lhes mostrar a penetração do liberalismo em toda a hierarquia e até mesmo no papado, o que seria impensável há dois séculos; entretanto foi pensada, predita e organizada pela maçonaria, desde o princípio do século passado. Bastará reproduzir os documentos que provam a existência desta intriga contra a Igreja, deste "último assalto" contra o papado.

   Os papeis secretos da Alta Venda dos Carbonários que caíram nas mãos do Papa Gregório XVI, cobrem o período de 1820 a 1846. Foram publicados a pedido do Papa Pio IX, por Crétineau-Joly em sua obra "L'Eglise Romaine et la Révolution" (1). Pelo Breve de aprovação dirigido ao autor em 25 de Fevereiro de 1861, Pio IX confirma a autenticidade dos documentos, mas não permitiu que fossem divulgados os verdeiros nomes dos membros da Alta Venda implicados com esta correspondência. Estas cartas são pavorosas, e se os Papas pediram sua publicação foi para que os fiéis saibam da conspiração contra a Igreja tramada pelas sociedades secretas, conheçam seus planos e estejam preparados para o caso de uma eventual realização. Nada acrescento por ora, apenas que é com temor que se leem estas linhas. Não invento nada, só faço ler, mas não é nenhum mistério que hoje em dia elas se realizam. Não deixo de chamar a atenção para o fato de que mesmo seus projetos mais audazes estejam ultrapassados pela realidade atual! Passemos à leitura, somente sublinhando o que mais nos deve impressionar.

   "O Papa, qualquer que ele seja, jamais virá às sociedades secretas: a elas cabe dar o primeiro passo em direção à Igreja, para vencer ambos.
O trabalho que vamos empreender não é obra de um dia, nem de um mês, nem de um ano; pode durar vários anos, talvez um século; mas em nossas fileiras o soldado morre, mas a luta continua. 
Não queremos conquistar os Papas para nossa causa, faze-los neófitos de nossos princípios, propagadores de nossas ideias. Seria um sonho ridículo, e qualquer que seja o desenrolar dos acontecimentos, o fato de cardeais e prelados, por exemplo, terem entrado com satisfação ou com surpresa, em uma parte de nossos segredos, em absoluto não é motivo para desejar sua eleição para a cátedra de Pedro, pois esta eleição seria nossa perda. Somente a ambição os haveria conduzido à apostasia, mas a necessidade do poder os forçaria a nos imolar. O que devemos pedir, e o que devemos procurar e esperar, como os judeus esperam o Messias, é um papa de acordo com nossas necessidades (...)
Assim podemos marchar com mais segurança ao assalto da Igreja do que com as liberalidades de nossos irmãos da França e mesmo da Inglaterra. Quereis saber a razão? Com ele já não precisaremos, para destruir a rocha sobre a qual Deus edificou sua Igreja, do vinagre mistificador nem da pólvora do canhão; já não precisaremos nem de nossos braços. Teremos o dedo do sucessor de Pedro comprometido com a conspiração, e nesta cruzada este dedo vale mais do que todos os Urbano II e todos os São Bernardos da Cristandade. 
Não temos dúvida que chegaremos a este resultado de nossos esforços, mas quando e como? A incógnita continua sem solução. Entretanto como nada nos deve separar do plano traçado, ao contrário, tudo deve tender para ele, como se desde amanhã o êxito viesse coroar a obra apenas esboçada, queremos com esta instrução, que para os simples iniciados permanecerá secreta, dar aos encarregados da Suprema Venda conselhos que deverão inculcar a todos os irmãos, sob a forma de ensinamento ou de memorandos (...).
Para assegurarmos um Papa nas devidas proporções, devemos inicialmente preparar para este Papa uma geração digna do reino que sonhamos. Deixai de lado a velhice e a idade madura, procurai a juventude e se possível até as crianças (...) lhes conquistareis sem grande esforços uma dupla reputação de bom católico e patriota.
Esta reputação fará chegar nossas doutrinas tanto ao meio do clero jovem, como no interior dos conventos. Dentro de alguns anos este clero jovem terá forçosamente ocupado todas as funções; será quem governa, administra, julga, forma o conselho soberano e será chamado para eleger o Pontífice que terá que reinar, e este pontífice como a maioria de seus contemporâneos, estará necessariamente mais ou menos imbuído dos princípios italianos e humanitários que começaremos a pôr em circulação. É um pequeno grão de mostarda que confiamos à terra; mas o sol da justiça o fará crescer até o mais alto poder, e um dia vereis a abundância de grãos que produzirá este grãozinho.
Na rota que indicamos a nossos irmãos, há grandes obstáculos que teremos de vencer, e muitas dificuldades a superar. Triunfaremos graças à experiência e perspicácia; mas a meta é tão brilhante que devemos içar todas as velas para alcançá-la. Quereis revolucionar a Itália? Procurai o Papa de que acabamos de pintar o retrato. Se quereis estabelecer o reino dos eleitos sobre o trono da prostituta Babilônia, que o clero marche sob vosso estandarte, acreditando ir sempre atrás das bandeiras das Chaves apostólicas. Se quereis fazer desaparecer o último vestígio dos tiranos e opressores, lançai vossas redes como Simão Bar-Jona; lançai-as não no fundo do mar, mas no fundo das sacristias, dos seminários, e dos conventos; e se não demorais, vos prometemos uma pesca mais milagrosa que a deles. O pescador de peixes se converteu em pescador de homens, vós os rodeareis de amigos junto à Cátedra Apostólica. Vós havereis pregado uma revolução em tiara e pluvial, marchando com a cruz e o estandarte, uma revolução que não precisará mais do que uma fagulha para incendiar os quatro cantos do mundo".

Vejamos ainda um extrato da carta de "Núbius" a "Volpe" de 3 de Abril de 1824: 

   "Foi posto sobre nossos ombros uma pesada carga, querido Volpe. Devemos tornar imoral a educação da Igreja, devemos chegar por pequenos meios mal definidos porém bem graduados, ao triunfo da ideia revolucionária graças a um papa. Marchamos ainda tateando neste projeto que sempre me pareceu sobre-humano (...).

Nota (1) - Vol. 2, Ed.orig., 1859; reimpr. "Cercle de la Renaissance Française", Paris 1976. Mons. Delassus reproduziu em "La Conjuration Antichetienne" DDB. 1910, III, pg. 1035-92. 
 Mons. Delassus é um grande autor. Vale a pena adquirir e ler suas obras. 

    No próximo post, se Deus quiser, mostrarei qual o autor sobre-humano deste plano maçônico. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A alma em colóquio com Jesus na Eucaristia ( VI )

  A alma: Meu dulcíssimo Jesus Sacramentado! Ainda tenho uma dúvida com relação à Comunhão: Os deveres de meu estado são muitas vezes um impedimento à Comunhão. São deveres que eu de boa vontade dispensaria para poder viver mais unida a Vós, e mais recolhida, mas não posso deixar de os cumprir; vossos ministros falam muito sobre isto. Entretanto, tenho a mente distraída e perturbada, o coração como que atrofiado; sinto demais o peso das minhas misérias, como demasiado conheço não ser um puro espírito à semelhança dos anjos. Ó meu Jesus, não ouso aproximar-me de Vós; é grande a distância entre os deveres do meu estado e a santa Comunhão!

   Jesus: Minha filha, antes de mais nada, e como regra geral, quero dizer-te uma coisa clara como o sol; e é que, o cumprimento dos deveres do próprio estado não pode ser pecado; e se não é pecado, não pode de modo algum, impedir-te a Comunhão ou torná-la menos frutuosa. Além disto, persuade-te de que sou eu com a minha providência que te coloquei no estado e condição em que te encontras; e por isso sou eu que quero tu me sirvas nestas mesmas condições e determinadas circunstâncias; fui eu que te impus aqueles deveres para tu cumprires; e por consequência, tu fazendo o teu dever, não fazes mais que cumprir a minha vontade. Temes, então, fazer mal a Comunhão, ou fazê-la somente menos frutuosa, porque a fazes preceder do cumprimento da minha vontade? Pelo contrário, exatamente porque o teu dever te coloca numa condição um pouco difícil, delicada e aparentemente até escabrosa, tens necessidade de auxílios especiais e extraordinários; e estes auxílios você recebe com abundância justamente na Sagrada Comunhão; por consequência, se não a fazes não terás um valiosíssimo auxílio nas dificuldades do teu estado, e mais dificilmente poderás cumprir bem os teus deveres. Donde, tu mesma podes concluir, que aquele mesmo motivo aduzido para não fazer a Comunhão é exatamente o que deve impelir-te a fazê-la. Recorda, finalmente, que muitas e muitas almas se encontraram  nas tuas mesmas dificuldades; e, contudo, umas chegaram a um altíssimo grau de santidade e conseguiram até as honras dos altares, e outras dão no meio da sociedade cristã e no ambiente em que vivem exemplos admiráveis de virtude e perfeição, e seguramente alcançarão o Paraíso. Portanto, coragem! Purifica sempre mais as tuas intenções, recorda que no cumprimento do teu dever não fazes senão servir o teu Deus; vem receber-me, e a Comunhão te fará santa.

   A alma: Meu Jesus! Como tenho que agradecer-Vos! Fiquei livre de um grande peso! Estou tranquila!Antes de despedir-me, ó Jesus, quero fazer mais um pedido: Fazei-me atenta na oração, sóbria  no alimento, diligente no dever e firme nas resoluções. Amém! 

domingo, 20 de julho de 2014

A alma em colóquio com Jesus na Eucaristia ( V )

   A alma: Meu dulcíssimo Jesus! Creio, mas dai-me a graça de crer mais firmemente. Espero, mas ajudai-me com a vossa graça para que a minha esperança seja sempre mais confiante em Vós. Amo-Vos, mas concedei-me a grande graça de amar-Vos com maior ardor. Arrependo-me, mas fazei que o arrependimento dos meus pecados seja com mais veemência. 
   Confiante em Vossa bondade infinita, eis-me aqui novamente na Vossa presença para expor-Vos mais uma dúvida a respeito da Comunhão. 
    Meu Jesus, não posso confessar-me todas as semanas, nem às vezes, passados quinze dias, e quando já tem passado muito tempo sem me confessar, não ouso fazer tranquilamente a Comunhão; parece-me que faria um sacrilégio. Então, ó meu Jesus, não é melhor ir primeiro confessar-me e depois comungar?

   Jesus: Escuta bem, minha filha: A Confissão foi instituída não como preparação necessária à Comunhão, mas para perdoar os pecados; portanto, se a consciência te não acusa de pecados graves, a Confissão não é necessária para comungares bem. É bom confessar-se todas as semanas, ou de quinze em quinze dias, porque assim se recebe a graça de um sacramento que avigora a alma; mas se esta frequência não é possível, não se conclui que se deva deixar a comunhão quando se não tenha pecados graves. Demais, tratando-se só de pecados veniais, antes de comungar pede-me perdão de todo o coração e fica tranquila, porque um dos efeitos da Comunhão é precisamente o de apagar os pecados veniais de que se tem sincero arrependimento. Compreendeste? Não cometas portanto mais o erro de deixares a Comunhão só porque não pudeste confessar-te de pecados veniais; porque então, além de ficares privada da graça da Penitência, sê-lo-ias também da graça da Eucaristia, e assim multiplicarias a tua espiritual pobreza. 

   A alma: Meu Jesus, compreendi a Vossa instrução e, com a Vossa graça, vou segui-la. Antes de me despedir, ó dulcíssimo Jesus, quero fazer-Vos mais um pedido: Fazei-me chorar os pecados passados, vencer as tentações futuras, reprimir as más tendências e praticar as virtudes de meu estado. Amém!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A alma em colóquio com Jesus na Eucaristia - ( III )

   A alma: Ó Jesus, meu perpétuo Benfeitor, eu Vos amo e dou-Vos graças. Vim hoje à Vossa presença para expor-Vos mais um temor que me aflige. Estou achando que é inútil, pois, por mais que eu faça, não consigo preparar-me como desejo. Tenho o espírito entorpecido, e o coração é como uma pedra de granito, duro e frio. Não sinto nada, meu Jesus Sacramentado; nem um pouco de ternura, nem a mínima consolação... Vejo realmente, ó meu Jesus, que hoje não quereis que eu comungue; porque compreendo também eu, que coisa podereis fazer dum coração apático, insensível e frio? Não procurais Vós porventura corações inflamados de amor? 

   Jesus: Também tu, minha filha, és do número daquelas almas iludidas que fazem consistir a virtude no sentimento, e que se julgam quase santas porque estão cheias de ternura sensível? Mas, dize-me, quando foi que a fé, a esperança e a caridade, a humildade, a contrição e semelhantes virtudes, para existirem houveram, necessidade de ser sentidas com ternura, ou deveram quase fazer chorar de emoção? Tu não sentes nada? Pouco importa. Crês em mim? Esperas em mim? Amas-me? Estás arrependida de me teres ofendido? Estás disposta a fazer sacrifícios por meu amor? Se assim é, não te importe mais nada, e vem à Comunhão. Quanto menos de satisfação sensível tiver o teu coração, tanto mais terá o meu; e na Comunhão o primeiro, entre nós ambos, que deve ser contentado sou eu... não acha? Não sentes nada? Tanto melhor! Assim comungarás com o coração mortificado, e com maior retidão de intenção. O que eu de preferência desejo encontrar em ti não é a sensibilidade, mas a disposição a renunciar a tudo., mesmo a ti própria, para me dares mais satisfação. Quando tu podes dizer-me que depois da última Comunhão tens feito alguns atos de humildade, de paciência, de caridade; que tens feito o possível por cumprir bem os teus deveres, e que tens sofrido alguma coisa por mim, então podes vir sem temor algum, porque me serás mais cara, e eu te concederei maiores graças do que se te visse desfeita em um mar de lágrimas da mais terna doçura. 

   A alma: Meu doce Jesus, com a vossa graça quero fazer todo possível para nunca me procurar a mim mesma nos exercícios de piedade e nas práticas de virtudes,  mas somente a Vós. Não quero, e reconheço que não mereço consolações. Peço a Vós esta graça: amar-Vos de verdade, com doçura, ou sem ela. O que importa é dar-Vos gosto. Amém!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A alma em colóquio com Jesus na Eucaristia ( I )

   A alma: Meu doce Jesus! hoje estou aqui diante de Vós, trazendo no coração um grande desejo: o de ouvir alguma palavra Vossa. Como a ouviria de boa vontade! É, porém, um desejo que nasce no meu coração  e logo desaparece, porque não sendo eu santa, uma palavra sensível dos vossos lábios, ó Jesus, não sou digna de ouvi-la. Mas Vós falais no íntimo do meu coração. E isto já é uma grande graça e, da qual tanto necessito. 
   Ó Jesus, a primeira coisa que quero expor-Vos é o sofrimento que sinto por causa das tentações. Inclusive, por esta vez, ó meu Jesus, tende paciência, mas a Santa Comunhão é que eu não faço. Se se tratasse de ter somente distrações, iria; mas sou tão combatida das tentações que tudo aquilo que ouço, que leio, que vejo se transforma para mim em outras tantas imagens horríveis. Tenho a mente confusa e o coração em tumulto. Não me sinto com coragem de receber-Vos para Vos obrigar a habitar numa alma toda cheia de coisas diabólicas. Hoje, farei a costumada visita a Vós aqui na Eucaristia, ouvirei a Santa Missa; mas a Comunhão vou deixá-la; estou muito perturbada. Mas, quem melhor do que Vós para me instruir e aconselhar! Falai, Senhor, que a vossa serva está escutando.

   Jesus: Então, porque és tentada, minha filha, não queres fazer a Comunhão? Não vês que raciocinas às avessas? Quem é que pode melhor ajudar-te, e realmente mais te ajuda a vencer as tentações? Não sou eu porventura? Tu, portanto, abandonas o auxílio quando ele mais te é necessário; e assim ficas mais enfraquecida, e tornas-te uma presa mais fácil ao demônio. Não creias que eu esteja disposto a aumentar a graça do meu auxílio só porque tu me fazes a afronta de não querer receber-me; sucederá tudo ao contrário, porque se hoje a tentação te investe, amanhã começará a vencer-te, e se hoje, porque és tentada não queres vir, ousarás vir amanhã, que estarás já um pouco ferida? Tu não conheces a astúcia do demônio, como não conheces a tua debilidade; o inimigo demonstra hoje muita audácia para desanimar-te e afastar-te para longe de mim, mas se tu desprezas a sua audácia e não te deixas vencer do medo, ele então terá medo de ti porque não estarás sozinha, e as suas tentações já não terão poder sobre ti. De resto, sabe que sou eu mesmo que muitas vezes te permito as tentações, e faço isto para que tu sintas sempre mais a necessidade que tens da Comunhão e para te fazer ver claramente que sem mim tu ficas sendo um joguete do demônio; e é para constranger-te a refugiar-te no meu Coração que eu te deixo assaltar de tantos pensamentos maus e de tantas imaginações malignas. Recorda bem que se presumes poder estar sozinha a combater as tentações, ainda que seja por um pretenso respeito para comigo, mais tarde ou mais cedo cairás no pecado. Tu és já tão débil quando fazes a Comunhão! que será quando a tiveres deixado? Vem, portanto, e sê tranquila, que o demônio saberei Eu bem contê-lo. Minha filha, você não ouve os meus representantes sempre pregarem que sentir tentação não é pecado? Pecado é consentir na tentação. Eu não mandei rezar pedindo para não ter tentação; pedi que rezassem para não cair na tentação. E Eu atendo sempre esta oração, sobretudo quando a alma me recebe na Comunhão. 

   A alma: Obrigada mil vezes, meu doce Jesus! Amém!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O EQUILÍBRIO DA DOUTRINA SANTIFICADORA - ( 10 )

   145. O SALVO PRATICA A VIRTUDE PARA SER SALVO.


   Finalmente aparecem os protestantes com esta sutil distinção: o homem não pratica a virtude, não pratica as boas obras PARA SER SALVO. Mas sim, PORQUE JÁ ESTÁ SALVO, pratica a virtude e as boas obras. As boas obras são uma consequência da salvação.

   - Não vemos oposição entre uma coisa e outra: O homem pratica a virtude e as boas obras PORQUE ESTÁ SALVO;  e também pratica a virtude e as boas obras PARA SER SALVO.

   -  Não estou entendendo nada, dirá o leitor. Não parece haver aí uma contradição?

   - Contradição nenhuma.

   Como já tivemos ocasião de explicar (nº 88), a Bíblia toma a palavra SALVO em dois sentidos. Às vezes se chama SALVO aquele que ESTÁ NO CAMINHO DA SALVAÇÃO,  porque está com a graça santificante. A criatura que tem a felicidade de se encontrar em estado de graça, a qualquer instante em que falecer permanecendo nesta situação, está com a salvação garantida.

   Enquanto estamos aqui na terra, esta situação do homem SALVO, ou seja, HERDEIRO DO CÉU, ainda pode perder-se pelo pecado mortal, por uma razão muito simples: a alma é livre e sendo tentada, ainda pode pecar gravemente. E o pecado, quando tiver sido consumado, gera A MORTE (Tiago I-15).

   Mas aquele que morreu em estado de graça, este está SALVO definitivamente, não pode mais perder este estado de salvação. E é neste sentido que diz a Escritura: Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse é que SERÁ SALVO (Mateus X-22).

   Assim ambas as proposições são verdadeiras. O homem pratica a virtude e as boas obras, porque ESTÁ SALVO, isto é, porque está na graça santificante, está na amizade de Deus e por isto tem a caridade, o amor de Deus e do próximo em seu coração, e eis a fonte para todas as boas obras. Além disto, já tivemos ocasião de explicar (nº 25 e 33) que as nossas obras só TÊM VALOR para o Céu, só são merecedoras da recompensa, na visão beatífica, se forem feitas em estado de graça, ou em outras palavras, se forem feitas quando estamos SALVOS.

   O homem pratica a virtude e as boas obras para SER SALVO, porque ele sabe muito bem que só conquistará o Céu, se morrer neste estado de graça. Por isto continua sempre a praticar a virtude, a fazer as boas obras para se manter neste feliz estado. Sabe que pode morrer a qualquer momento e quer comparecer diante do Juiz Supremo, no dia de sua morte, com a veste nupcial da graça, para que possa ter o direito de ser admitido no banquete celeste.

   O protestante toma a palavra SALVO somente no sentido de SALVO DEFINITIVAMENTE, de herdeiro do Céu que não pode mais por consideração alguma perder o direito à divina herança. Apresenta também o cristão felicíssimo, convencidíssimo já nesta vida de que TERÁ O CÉU COM TODA CERTEZA. E nos vem dizer que só porque o homem já está salvo, já está com a herança no bolso é que pratica a virtude e as boas obras.

   Mas isto não convence a ninguém: a ideia de que já está salva com toda certeza, sem perigo nenhum de perder-se, não seria para pessoa alguma um incentivo às renúncias e aos sacrifícios exigidos pela virtude e pelas boas obras. Muito pelo contrário... porque nós conhecemos muito bem como é a nossa pobre natureza humana. 

   

terça-feira, 15 de julho de 2014

2 - A alma falando a Jesus na Eucaristia

   Primeiramente, ó meu amantíssimo Jesus Sacramentado, quero dizer que, pela vossa graça,  creio firmemente na vossa presença real aí na Hóstia Consagrada. Mas aumentai a minha fé. Ó meu doce Jesus, Vós dissestes que, quem estivesse acabrunhado, aflito, cheio de problemas, viesse a Vós para ser aliviado e consolado por Vós. Aqui estou novamente com as minhas lamúrias e misérias. 
   Ó meu doce Jesus! Um outro mal que muito me faz sofrer é o ver-me sempre cheia de misérias espirituais. Desejaria fazer-me santa, desejaria sê-lo desde já, mas cometo todos os dias tantas faltas... As minhas paixões, longe de estarem mortas, mostram-se de vez em quando muito vivas; e eu recaio muitas vezes nas impaciências, na vaidade de pensamento e de coração, na tibieza e em muitas outras misérias. É então que me passa pela mente a ideia de que para mim não há perfeição possível, que Deus já não sabe que fazer comigo, que talvez já me tenha abandonado, e que à hora da morte me encontrarei em condições bem pavorosas, se um golpe da graça divina me não vier salvar.
   É com todos estes desalentos, ó meu Jesus, que estou aqui na vossa presença. Quero agora meditar no vosso amor, porque sei que estas minhas tristezas vão se dissipar e a serenidade voltará a esta pobre alma, que, apesar de tudo, Vos ama, e deseja ardentemente amar-Vos cada vez mais. 
   Pela Vossa misericórdia infinita vejo, ó doce Jesus, que Vós vos compadeceis de mim mais do que todos os outros, mais do que eu mesma posso de mim compadecer-me; pois, que se assim não fosse, não me daria certamente o desejo de O procurar quando me sinto culpada, e muito menos me suportaria na Vossa presença. E depois, estando convosco, começo a recordar que a Comunhão me purifica de todas as venialidades, e me ajuda a não cometer já tantas; sinto-me consolada e desejosa de ver chegar a hora e o momento de receber-Vos e me preparo com uma grande contrição e com o propósito firme de viver melhor para o futuro. Oh! se Vós, Jesus Eucarístico, não fôsseis um remédio, que seria desta pobre alma quando ela se vê combatida por alguma doença espiritual?
   Para eu viver contente devo, portanto, persuadir-me de duas coisas: a primeira é que, enquanto eu viver, hei de sentir sempre o coração amargurado por causa das minhas más inclinações; segunda é que Vós, ó Jesus na Eucaristia, sois o remédio perene para todas estas penas, e que sem Vós só me restaria sofrer por toda a minha vida, e sofrer sem merecimento algum. A conclusão que Vós me levais a tirar de tudo isto, é de recorrer a Vós em todas as minhas tribulações, confiar-Vos todas as minhas coisas, esperar de Vós, ó meu doce Jesus, todo auxílio. 
   Oh! se eu tivesse pensado sempre assim! quantos sofrimentos e quantas culpas a menos! Não teria caído na ingenuidade de confiar nas criaturas quando estava aflita, e de deixar-me abater pelo desalento quando caía na culpa.
   Mas, para o futuro, ó Jesus, Vós sereis sempre o médico piedoso de todos os meus males. Eu viverei convosco, de Vós e para Vó em todos os dias que me restam de vida. Se as criaturas me repelirem de si, eu contarei convosco, virei aqui dizer tudo para Vós. Se me negarem o necessário, eu viverei de Vós; se não souberem que fazer de mim, eu viverei para Vós; deste modo se acabarão para mim tantas dores. E quando por infelicidade eu cometer uma culpa, não me perderei em melancolias inúteis, mas refugiar-me-ei no Sacrário convosco, ó doce Jesus. Humilhar-me-ei diante de Vós, pedir-Vos-ei sinceramente perdão, e depois deixarei que o Vosso Sangue, ali no confessionário,  desça como um lavacro celeste a purificar-me e fazer-me santa. Amém!
   

segunda-feira, 14 de julho de 2014

1- A alma falando a Jesus na Eucaristia

   Temos o Emanuel, ou seja, Deus está conosco. Oh! que felicidade! Temos Jesus vivo na Eucaristia. Mais feliz porque não o vejo, mas Lhe falo como se O visse. Vós, ó Jesus dissestes: "Felizes os que não viram e creram". Pela vossa graça, não vejo, mas creio firmemente e, por isso, quero dirigir-me a Vós do mesmo modo como se o estivesse vendo. Primeiro quero dizer-Vos que Vos amo; mas aumentai o meu amor! 

  Ó Jesus, sinto às vezes certos pesares que me perturbam o coração, e me fazem perder o recolhimento e a doçura em todas as minhas devoções. Parece-me estar sob o peso da maior desventura que me tenha ferido ou esteja para ferir-me. Se, porém, resistindo por um momento ao sentimento penoso que provo, eu estudo com calma a causa do meu sofrer, não tardo a ver que tudo se reduz ao amor próprio ofendido ou a um apego desordenado às criaturas, e que o remédio para o meu mal está sempre ao meu alcance: basta que eu queira dele utilizar. O meu grande remédio é sempre Vós, ó meu doce Jesus!
   Acontece-me por vezes ser esquecida de todos, ou pelo menos parece-me sê-lo; e por causa do meu amor próprio sinto-me ferida no mais íntimo do coração, deixando-me dominar por um profundo sentimento de melancolia. Trabalho, mas não há ninguém que me diga se eu executo bem ou mal o meu serviço, não há ninguém que me diga um palavra de louvor; todos me deixam andar indiferentemente pelo meu caminho. Ninguém procura saber do meu estado, ninguém se compadece de mim. Faço uma boa obra; não há um louvor, um incitamento, uma só palavra que me faça crer que a minha obra seja apreciada.
   Mas, ó meu doce Jesus, eu não sofreria, deste modo se pensasse em Vós, se deveras O amasse. Não é melhor para mim ser esquecida de todos? Não é então exatamente que se me torna mais vizinha e preciosa a Vossa presença? Ninguém olha para mim? Todos de mim se esquecem? Seja muito embora: há porém, UM que nunca me abandona, que sempre me procura e que quisera ter-me sempre aos seus pés. E este UM vale mais sozinho que todas as criaturas juntas: sois Vós, ó doce Jesus!!!
   Como sois bom, ó meu Jesus! Vós avaliais todas as minhas fadigas, todos os meus sofrimentos e aquele pouco de bem que faço, Vós que sabeis quanto me custa o viver cristãmente, quando me vedes toda só abandonada a seus pés, como uma pobre náufraga arremessada sobre uma praia deserta, então me chamais para mais perto de Vós, e me segredais ao coração certas palavras misteriosas que me dão a vida. Ó doce Jesus, então desabafo convosco com a maior confiança, sem reticências, exatamente como uma filha com o seu bondoso pai, como uma esposa com o seu esposo; e acabo por ficar contente com o abandono a que me votaram, porque os confortos que me recusaram as criaturas recebo-os todos de Vós. E, se antes me senti ferida, depois dum quarto de hora passado aqui junto de Vós sinto-me curada, ó doce Jesus; porque, na verdade, para as enfermidades da alma o melhor remédio é sempre a Divina Eucaristia, que sois Vós, ó doce Jesus! Amém!