sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"UNIDOS EM DEFESA DA FÉ" ( V )

   Sua Excia. Revma. Sr. Dom Carlos Alberto Navarro, Bispo de Campos, nos convidou para mais uma reunião. A esta convocação do Sr. Bispo Diocesano fizemos algumas ponderações através de uma carta datada de 25 de janeiro de 1984. Eis a carta:

Exmo. e Revmo. Sr. Bispo de Campos
Dom Carlos Alberto Navarro

               Laudetur Jesus Christus!

   Vossa Excelência nos convoca para uma reunião reservada aos 25 Padres tradicionalistas da Diocese, inclusive os destituídos de seus cargos e privados do uso de ordens, e mesmo, os excluídos da Diocese por Vossa Excelência.
   Da Circular de convocação consta que a intenção expressa de V. Exa. é obter uma larga confraternização de todos os Padres da Diocese, de maneira a realizar-se a "Unidade tão desejada por Cristo em Sua Igreja".

   À convocação de Vossa Excelência devemos ponderar:

  I - Nós, os chamados 25 Padres tradicionalistas, realmente temos um mesmo pensamento: somos Padres da Igreja Católica de sempre e tomamos o símbolo desta Fé apostólica como critério único e imutável de nosso julgamento e procedimento (Cf. DS 1.500). Por isso, as acusações, em matéria de fé, lançadas contra alguns de nós, na realidade nos afetam a todos.

  II - Esta mesma solidariedade torna comuns as calúnias levantadas contra nosso procedimento. Assim, todos nos sentimos atingidos quando Vossa Excelência publicamente nos acusou de dilapidadores dos bens eclesiásticos. Igualmente, todos fomos afetados pelas difamações públicas com que V. Exa. nos capitulou como "ervas daninhas" e 'envenenadores do rebanho" de Cristo. A oposição de V. Exa. animou certo Juiz a tentar enquadrar, embora sem base, um de nossos Padres na Lei de Segurança Nacional (processo posteriormente arquivado pela Justiça Militar). Na ocasião, V. Exa. explorou o fato apontando-nos como avessos ao diálogo, fanáticos e subversivos.

   III - Tais atitudes persecutórias de V. Exa. obrigaram-nos à defesa pública, que fizemos, guardando todo o respeito à pessoa de V. Exa. Por outra parte, firmamos nossas posições em sólida base doutrinária, como se pode verificar em nossas publicações sobre "A Nova Missa: um caso de consciência", O Magistério sacerdotal em período extraordinário de grave crise, etc.
   Não podemos, pois, ser apontados como causa de desunião na Igreja, pois a união se faz com fundamento na Fé, sem a qual não há caridade.

   IV - Aliás, nós, por primeiro, procuramos o diálogo com V. Exa. e aceitamos outros que V. Exa. propôs: um, assessorado por Dom Romer; outro, por Dom Inácio Accioly, Mons. Tapajós e Dom Cirilo Gomes; sem contar o especial com o Exmo. Sr. Núncio Apostólico. No segundo desses encontros fomos destratados: Mons. Tapajós quis forçar-nos a assinar um documento cheio de inexatidões doutrinárias e contra nós mesmos.
   Aos nossos argumentos, jamais nos deram resposta satisfatória, de maneira que eles ainda se mantêm.

   V - Pelo Decreto de V. Exa. de 25 de agosto de 1982, o que V. Exa. nos quer impor é a aceitação do "Novus Ordo Missae". Não nos custa repetir, ainda uma vez, que, em consciência, não podemos aceitá-lo, porque ele extenua a profissão de fé nos dogmas eucarísticos, contra a lei geral que nos manda orar segundo a fé: "Lex credendi legem statuat suplicandi".

   Nestas condições, qualquer encontro com a finalidade de realizar a unidade eclesial - da qual jamais nos afastamos, pede:
    1. que, sem a menor censura ou constrangimento, possamos celebrar  sempre a SANTA MISSA, de acordo com o Ordo tradicional, chamado impropriamente de São Pio V.
   Achamos este ponto capital. Pois, como católicos apostólicos romanos, interessa-nos não somente o problema de Campos, mas também, e principalmente, o de toda a Santa Igreja. Toda a crise contemporânea procede da diminuição da Fé, que o Vaticano II e as inovações dele decorrentes, entre elas o Novo Ordo, introduziram no seio da Igreja.
   2. em conseqüência, que não sejamos impedidos de defender e propugnar a Fé, o que aconteceria se nos obrigassem a não censurar o novo "Ordo Missae", e a dele não afastar os fiéis.
   3. que sejam reparadas as injustiças e difamações de que fomos objeto.
   Os padres precisam aparecer diante do povo como realmente são: íntegros e puros na Fé, e não debaixo da suspeição de hereges, cismáticos ou rebeldes. Ademais, é contra a Moral a pessoa aprovar, cismáticos ou rebeldes. Ademais, é contra a Moral a pessoa aprovar, mesmo que apenas com seu procedimento, uma injustiça e, mais ainda, difamações que prejudiquem o cumprimento de seu dever.
   E aqui nos perguntamos sobre a viabilidade deste ponto, uma vez que V. Exa., ao mesmo tempo que nos convida para o diálogo, acaba de punir dois sacerdotes tradicionalistas incardinados na Diocese, retirando-lhes a jurisdição.
   4. Enfim, para se evitarem os inconvenientes das reuniões passadas, e assim não caminharmos rumo ao desconhecido, é necessário que V. Exa. nos mande por escrito quais as propostas concretas desta sua atual atitude.
  
   Fora destes contornos, parece-nos que um encontro, longe de contribuir para a unidade eclesial, só serviria para criar confusão.

   Certos de que V. Exa. levará na devida consideração estas nossas ponderações, com nossos melhores votos, subscrevemos-nos
                                       pelos 25 sacerdotes
                                  servo em N. S. Jesus Cristo,

                                                        _________________________
                                                               Mons. Licínio Rangel
Campos, 25 de janeiro de 1984.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"UNIDOS EM DEFESA DA FÉ" ( IV )

  O novo bispo da Diocese de Campos, Sua Exa. Revma.. D. Carlos Alberto Navarro escreveu-nos uma carta datada de 22 de outubro de 1982 onde, de maneira irônica e capciosa, pede que nós mesmos apresentemos uma solução concreta para o impasse: ficar dentro da Igreja visível, discordando, porém, do Papa e do Bispo.
   Eis a nossa resposta:

Exmo. e Revmo. Sr.
Dom Carlos Alberto Navarro              
DD. Bispo Diocesano
                                                       Laudetur Jesus Christus!

   Apresentamos a V. Exa.  as homenagens que devemos a nosso Bispo Diocesano, e passamos a responder à questão que V. Exa, nos impôs na carta de 22 de outubro do corrente.
   A demora na resposta procede da dificuldade em entender a questão. Vossa Excelência pede-nos que apresentemos uma sugestão concreta que nos permita ficar dentro da Igreja visível, discordando, porém, do Papa e do nosso Bispo.

   1. Pedimos licença para lembrar que, na nossa resposta ao decreto de Vossa Excelência, manifestamos a dificuldade de atender ao seu primeiro ponto. Este nos impunha a explícita e pessoal aceitação de uma decisão do Santo Padre. No entanto, V. Exa. não nos indicava, de modo claro, qual seria essa decisão pontifícia e onde ela se acharia, e a nós não nos seria possível acatar uma decisão que não conhecíamos. Dizíamos, depois, que, devido às limitações apresentadas pelo novo Ordo Missae, na profissão de Fé nos dogmas eucarísticos, ele se tornava ambíguo e inaceitável.
   V. Exa., agora, também não diz quais as determinações do Papa, cuja recusa envolveria, de nossa parte, uma rejeição do próprio Romano Pontífice como tal, e, em conseqüência, de V. Exa. como nosso Bispo Diocesano. De maneira que não vemos a procedência da questão que V. Exa. nos impôs.
   Permita-nos V. Exa. observar que a questão, no caso, seria propriamente outra, a saber: Como poderia um fiel, sacerdote ou leigo, conservar-se dentro da unidade visível da Igreja, aceitando um Ordo Missae reconhecidamente ambíguo, que não distingue nitidamente a liturgia católica da liturgia, por exemplo, luterana? Como poderia mostrar-se ele ao mundo, como fiel católico, admitindo um culto que serviria também para a liturgia de uma seita herética?
   Em outras palavras: que entende V. Exa. por pertencer à Igreja visível? Será que não pertenciam à unidade visível da Igreja de Cristo os que não seguiram Honório I ao mandar silenciar as duas vontades em Jesus Cristo? Será que estavam fora da unidade visível da Igreja os Santos que discordaram de Pascoal II e a ele se opuseram, na questão das investiduras?
   Esperamos ter dado a V. Exa., com respeito e franqueza, a possível resposta à questão que V. Exa. nos impôs. Pedimos, novamente, excusas pela demora em responder, à vista da, como dissemos, dificuldade de entender a questão proposta.

  2. Esta resposta é redigida quando V. Exa. já iniciou a aplicação das penas cominadas contra os padres fiéis à Missa Tradicional. Realmente, V. Exa. acaba de despedir da Diocese os Revmos. Pes. Edmundo Gutierres Delgado, Vigário de Cambuci, e José Olavo Pires Trindade, Vigário de Miracema.
   V. Exa. declara que essa ordem de se retirar da Diocese não é punição. Acreditamos que assim o diga para minorar - se é que minora - o impacto de uma expulsão, que é a que se reduz a brusca dispensa do ministério e o reencaminhamento às dioceses onde eles estão encardinados.
   Não podemos deixar de dar aos nossos colegas o conforto de nossa solidariedade. Eles, já há dez anos, aqui exercem seu zelo pela salvação das almas. E são agora postos na rua, sem o menor reconhecimento pelo trabalho apostólico abnegado e freqüentemente heróico em benefício de paróquias desta Diocese.
   Merecem nossa especial solidariedade porque são assim punidos em virtude de se manterem fiéis à Missa tradicional católica, sem ambigüidades nem extenuações na Fé. De fato, essa foi a razão invocada por V. Exa. quando cominou as penas que agora, com grande rigor, passa a aplicar.
   Acresce que, por ironia dos tempos, estamos na época em que o episcopado, através da CNBB, se proclama a defensora dos direitos dos posseiros contra os proprietários legais de terras. Seria injurioso equiparar nossos caríssimos colegas a posseiros invasores. Acreditamos, por isso mesmo, que não se lhes pode negar o direito adquirido, em 10 profícuos anos de trabalho, de continuar aqui seu apostolado, tanto mais quanto se timbra em afirmar que o bilhete de "retire-se" não é uma punição!
   Sr. Bispo, não seríamos leais a V. Exa. se não externássemos estes sentimentos que em nós desperta o golpe que atingiu nossos colegas no apostolado e na defesa da integridade de nossa Fé. E não estaríamos bem com nossa consciência se assistíssemos impassíveis aos sofrimentos a que são injustamente submetidos por sua fidelidade aos Santo Sacrifício da Missa.

   Apresentamos a Vossa Excelência as nossas orações.
Campos, 10 de novembro de 1982.

Seguem-se as assinaturas dos padres.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"UNIDOS EM DEFESA DA FÉ" ( III )

NOSSA  POSIÇÃO

AOS FIÉIS DE NOSSAS PARÓQUIAS

   Nossos paroquianos e inúmeros outros fiéis olham para nós com ansiosa expectativa. Que resposta demos à intimação feita pelo Sr. Bispo Diocesano através do Decreto de 25 de agosto do corrente? Aceitamos ou não o novo "Ordo Missae".
   Neste momento crucial, em que se suspeita da ortodoxia de nossa fé e se põe em dúvida nosso acatamento à autoridade sagrada do Papa; em que somos ameaçados de demissão de nossos cargos e de outras severas penas, mais do que em nenhum outro momento de nossa vida, não poderíamos omitir uma palavra de esclarecimento para aqueles que sempre confiaram em nós.
   Nosso silêncio causaria grave escândalo aos fiéis, diante dos quais temos o dever de dissipar qualquer dúvida sobre a coerência de nosso procedimento com a Fé Católica.
   É, pois, diante de Deus, Juiz supremo que um dia nos vai julgar a todos nós, que fazemos esta declaração. Temos presentes as conseqüências que nos possam advir da parte dos homens, mas tememos muito mais as que nos adviriam da parte de Deus.

   I - Somos sacerdotes católicos apostólicos romanos, filhos da Santa Igreja, que amamos com todas as veras de nossa alma e em cujo seio queremos viver e morrer, como esperamos pela graça de Deus.
    Renovamos, pois, nossa profissão de Fé, já conhecida de nossos fiéis. Mais particularmente, declaramos que damos plena e amorosa adesão e obediência ao Santo Padre, o Papa, Vigário de Jesus Cristo na Terra, Chefe visível da Igreja. Aceitamos todos os direitos e atribuições, honras e privilégios que ao Romano Pontífice conferem a Tradição e o Direito Canônico, dentro dos limites especificados no Concílio Vaticano I, ao definir o dogma da Infalibilidade Pontifícia. Reconhecemos o primado e o magistério do Papa sobre a Igreja Universal, Pastores e fiéis. Baseados, no entanto, na Tradição, não temos dúvida em afirmar que uma medida que ponha em risco a pureza e a integridade da Fé não deve ser aceita, seja qual for o Superior que a ordene.
   É esta doutrina da Igreja que nos leva a, em consciência, não poder aceitar e pôr em prática a nova ordenação da Santa Missa, instaurada em 1969.
    Toda obediência na Igreja está condicionada à fidelidade à Fé. Ora, nessa nova ordenação do Santo Sacrifício do Altar, extenuam-se e obscurecem-se os dogmas eucarísticos: da Presença Real e substancial de Jesus Cristo na Hóstia Consagrada; da Transubstanciação; da Missa como verdadeiro sacrifício propiciatório; do sacerdócio hierárquico especificamente distinto do sacerdócio comum dos fiéis. E no nº 7 da "Institutio", que precede e explica o novo Missal reformado, chega a afirmar, contrariamente ao ensino do Concílio de Trento e de acordo com a doutrina luterana, que a ação sacrifical é de toda a assembléia, e não exclusivamente do sacerdote hierárquico.

   Santo Tomás de Aquino: "(...) havendo perigo próximo para a Fé, os prelados devem ser argüídos, até mesmo publicamente, pelos súditos. Assim, S. Paulo, que era súdito de S. Pedro, argüiu-o publicamente, em razão de um perigo iminente de escândalo em matéria de Fé" (Suma Teol. II-II, 33, 4, 2)

   São Roberto Belarmino: "(...) assim como é lícito resistir ao Pontífice que agride o corpo, assim também é lícito resistir ao que agride as almas, ou que perturba a ordem civil, ou, sobretudo, àquele que tentasse destruir a Igreja. Digo que é lícito resistir-lhe não fazendo o que ordena e impedindo a execução de sua vontade..." (De Rom. Pont.. lib. II c. 29)

   II - Nossa recusa é motivada, portanto, justamente pela obediência aos ensinamentos perenes da Santa Igreja.
         Será justo nos apontarem como rebeldes, desobedientes, cismáticos, se, ao nos dirigirmos aos nossos superiores, usamos as mesmas palavras de S. Bruno de Segni ao Papa Pascoal II: "Eu vos estimo como a meu Pai e senhor (...) Devo amar-vos; porém devo amar mais ainda Aquele que criou a vós e a mim."
   Esta atitude não é perfeitamente coerente com o ensinamento de S. Pedro: "Importa obedecer antes a Deus que aos homens"? (Atos 5,29)
   A resistência é uma forma heróica de obediência. Repitamos com São Bernardo: "Aquele que faz um mal porque lhe mandam, faz menos um ato de obediência do que de rebeldia". (Carta XXIII, em "Cartas Diversas")

   III - Nossa posição, por outro lado, se ajusta ao propósito explícito do Concílio Vaticano II, quando declara, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia (Proêmio, nº 4), que: "obedecendo fielmente à Tradição, a Santa Mãe Igreja considera todos os ritos legitimamente reconhecidos com igual direito e honra e, para o futuro, os quer defender e, de todos os modos, favorecer." (grifos nossos)

   Afirmamos, outrossim, que nossa atitude é patrocinada pelo mesmo Concílio Vaticano II, ao estabelecer que, em matéria religiosa, ninguém pode ser impedido por nenhum poder humano de agir segundo a sua consciência, em privado ou em público, só ou associado a outros, desde que se respeitem os direitos alheios segundo a justiça e a benevolência. (Decl. sobre a Liberdade Religiosa, nn. 2 e 7)

   Concluímos dirigindo uma súplica filial e confiante à Virgem Santíssima, Mãe do Sumo Sacerdote e nossa Mãe, para que nos obtenha de Seu Divino Filho a graça de permanecermos fiéis, até à morte, à Missa Católica.

   SUB TUUM PRAESIDIUM CONFUGIMUS, SANCTA DEI GENITRIX.
   DEBAIXO DA VOSSA PROTEÇÃO NOS REFUGIAMOS, Ó SANTA MÃE DE DEUS.

                                             Campos, 26 de setembro de 1982.

     Seguem-se as assinaturas dos 25 padres que eram: Mons. Licínio Rangel; Mons. Dr. Benigno de Britto Costa;
Mons. Francisco Apoliano; Mons. Ovídio Simón; Mons. Henrique Conrado Fischer; Pe. Emanuel José Possidente;
Pe. Fernando Arêas Rifan; Pe. José M. F. Collaço; Pe. Edmundo G. Delgado; Pe. José Moacir Pessanha; Pe. Eduardo Athayde; Pe. Antônio Alves de Siqueira; Pe. Gervásio Gobato; Pe. José Olavo Pires Trindade; Pe. Elcio Murucci; Pe. David Francisquini; Pe. Antônio Paula da Silva; Pe. José Eduardo Pereira; Pe. José Gualandi; Pe. José Ronaldo Menezes; Pe. Alfredo Oelkers; Pe. José Onofre Martins de Abreu; Pe. Alfredo Gualandi.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"UNIDOS EM DEFESA DA FÉ" ( II )

   Vimos no post anterior que o novo Bispo de Campos, Sua Excia Revma Dom Carlos Alberto Etchandy G. Navarro fez um DECRETO  preceituando que déssemos a resposta por escrito até o dia 25 de setembro. Além da resposta individual, os 25 padres fiéis à Tradição deram uma resposta em conjunto. Eis a carta:

   Exmo. e Revmo Sr.
   Dom Carlos Alberto Etchandy Gimeno Navarro
   DD. Bispo Diocesano

                                                         Laudetur Jesus Christus!

   Em atenção à ordem constante do decreto que Vossa Excelência nos entregou e fez publicar nos jornais de Campos, em 25 de agosto p. p., cabe-nos, respeitosamente, dar a seguinte resposta, que envolve considerações de ordem jurídica e teológica.
   I - Quanto ao aspecto jurídico:
        1. Vossa Excelência não especifica precisamente qual a "decisão do Santo Padre" que devemos acatar, nem nos indica o documento em que o mesmo Santo Padre no-la impõe.
            Nestas condições, torna-se difícil uma resposta precisa, porque não podemos dizer que acatamos, se não sabemos com clareza o que devemos acatar.
        2. Entre os documentos emanados da Santa Sé, não se encontra nem um que exclua formalmente dos livros litúrgicos aprovados o Missal chamado de São Pio V. Quanto a cláusula com que, segundo Vossa Excelência, Paulo VI teria promulgado o Missal Romano restaurado, se ela de fato afirma a validade e eficácia daquilo que estabelece e ordena, de modo algum revoga qualquer Missal preexistente. Em outras palavras, tal cláusula derroga a Bula "Quo primum" apenas enquanto esta obrigava, de maneira exclusiva, o Missal Tridentino.

   II - Quanto ao aspecto teológico, em consciência declaramos:
        1. Somos sacerdotes Católicos Apostólicos Romanos, filhos da Santa Igreja, que amamos com todas as veras de nossa alma e em cujo seio queremos viver e morrer, como esperamos pela graça de Deus.
        2. Como católicos e filhos da Santa Igreja, damos plena e amorosa adesão e obediência ao Santo Padre, Vigário de Jesus Cristo na terra, Chefe visível da Igreja, segundo as determinações constantes do Cap. 4º da Ses. IV do Concílio Vaticano I, que definiu a Infalibilidade Pontifícia (Cf. Denz.-Sch. 3070). Pio IX precisou as delimitações ou contornos do poder papal mais acuradamente, ao aprovar a carta dos Bispos alemães à circular do chanceler Bismark (Denz.-Sch. 3212-3117).
            Aceitamos, pois, todos os direitos e atribuições, honras e privilégios que ao Romano Pontífice conferem a Tradição e o Direito Canônico.
         3. De acordo com essa mesma doutrina católica tradicional, toda obediência na Igreja está condicionada à fidelidade à Fé. A Igreja é uma sociedade constituída para manter a integridade e pureza da Fé transmitida pelos Apóstolos. Ora, esta Fé é que nos impede de poder, em consciência, aceitar a imposição que Vossa Excelência nos faz, no sentido de admitir e pôr em prática o novo "Ordo Missae", uma vez que nele se extenuam os dogmas eucarísticos e há mesmo ensinamento contrário ao depósito revelado no nº 7 da "Institutio Generalis Missalis Romani". De fato, por esse nº 7, contrariamente ao ensino do Concílio de Trento (Ses. XXII. c. 1; Ses. XXIII. c. 1), e de acordo com a doutrina luterana, a ação sacrifical é de toda a assembléia, e não exclusivamente do sacerdote hierárquico.
          4. Se aceitássemos - como gostaríamos, por deferência a Vossa Excelência - a imposição que nos faz, nós nos estaríamos, ipso facto, excluíndo da fé e da mesma Igreja.
          5.  Nos casos em que pode haver perigo para a Fé, os súditos têm o direito, e até o dever, de resistir. (Cf. Inocêncio III, apud Billot, Tract. de Eccl. Christi, Tom. I, pp. 618-619; S. Tomás de Aquino, Summa Theol. II-II, 33, 4, 2 - Ad Gal. 2, 11-14, lect. III, nn. 77, 83-84; - S. Roberto Belarmino, De Rom. Pont., lib. II, c. 29).

   III - Observamos
                              a) que nossa atitude coincide com deliberações do Concílio Vaticano II, segundo as quais nenhum poder humano pode impedir alguém de, em matéria religiosa, agir de acordo com sua consciência (D. Hum. nº 2), desde que mantenha convivência pacífica com os demais cidadãos.
                               b) que nossa posição também se ajusta ao propósito explícito do Concílio Vaticano II, onde este declara que, "atendendo fielmente a Tradição, a Igreja atribui igual direito e honra a todos os ritos legitimamente reconhecidos e quer que no futuro se conservem e fomentem (grifos nossos), por todos os meios." (Sac. Conc., Proem. n. 4).

   IV - Aos que nos acusam de estarmos pondo em dúvida a ortodoxia de "Paulo VI, de João Paulo I e de João Paulo II que adotaram o novo "Ordo Missae", fazemos as seguintes ponderações:
                             O Concílio de Trento lançou anátema contra quem condenasse o rito, que manda dizer em voz baixa as palavras da Consagração na Missa; o novo "Ordo" manda que, em virtude da própria natureza das palavras (Rub. 91; Institutio, nn. 10 e 12), a prece eucarística - portanto também as palavras da Consagração - sejam ditas em voz alta. A aceitação desta segunda proposição envolve a rejeição da primeira, onde haveria, aliás, erro palmar, por estabelecer um rito contrário à própria natureza das palavras a serem pronunciadas! Diriam nossos opositores que quantos aceitam o novo "Ordo Missae" põem em dúvida a ortodoxia de Pio IV, que aprovou o Concílio de Trento, e de seus sucessores até Paulo VI?
                              Queremos notificar, outrossim, que já respondemos a carta de S. Exa. D. Giuseppe Casoria, DD. Pró-Prefeito da Sagrada Congregação dos Sacramentos e do Culto Divino, que V. Exa. nos entregou.
                               Ao enviar esta resposta, renovamos a expressão de nossos respeitos devidos a V. Exa., e apresentamos as nossas orações.
                               De Vossa Excelência Reverendíssima
                                   devotíssimos no Senhor
Campos, 24 de setembro de 1982.

         Seguem-se as assinaturas dos 25 padres fiéis à Tradição



"UNIDOS EM DEFESA DA FÉ" ( I )

   Faz hoje 30 anos que Sua Excia. Revma. D. Carlos Alberto Etchandy Gimeno Navarro tomou posse da Diocese de Campos em lugar de Sua Excelência Reverendíssima Dom Antônio de Castro Mayer.
   Em agosto de 1982 o novo Bispo mostrava bem para o que veio: "Ecce venio ut...!" Eis o  seu decreto:

D E C R E T O
1) A todos e a cada um dos sacerdotes incardinados ou com uso de ordens nesta Diocese de Campos se preceitua:
             a) responder-nos, por escrito, individualmente, até 25 de setembro, se aceita, como esperamos, a decisão do Santo Padre;

             b) a partir do dia 25 de outubro de 1982, o uso EXCLUSIVO dos Livros Litúrgicos aprovados pela Sé Apostólica, e em vigor na Igreja Latina, fazendo-se especial menção da Constituição Apostólica do Santo Padre Paulo VI, de três de abril de 1969, que promulga o Missal Romano restaurado, com a cláusula: "Tudo o que aqui estabelecemos e ordenamos, queremos que seja válido e eficaz agora e no futuro, não obstante qualquer coisa em contrário nas Constituições e Ordenações Apostólicas de Nossos Predecessores e outros estatutos, embora dignos de menção e derrogação especiais";

             c) Se algum presbítero ousar desobedecer a quanto se prescreve neste Decreto, o que esperamos não aconteça, fica desde já canonicamente advertido de que seremos obrigados a dar cumprimento aos Sagrados Cânones, com especial menção dos cc. 2331 §§ 1 e 2  e/ou 2337 §§ 1 e 2, dentro das normas do direito em vigor.

             Este Decreto entra em vigor a partir da data de sua comunicação ao Clero, inclusive para aqueles que se recusarem a recebê-lo, do que o Revmo Chanceler fará fé pública.

            Dado e passado nesta Episcopal cidade de Campos, sob nosso selo e armas, no dia 25 de agosto de 1982, memória de São Luís de França.

Dom Carlos Alberto Etchandy Gimeno Navarro
Bispo Diocesano

Padre Joaquim Ferreira Sobrinho
Chanceler do Bispado


   
D. Fernado Arêas Rifan, DD. Bispo e Administrador Apostólico, numa reunião feita a alguns Congregados Marianos da minha Paróquia, disse que D. Navarro quis jogar a Missa de Paulo VI goela abaixo, mas que não é assim que se faz.  Na verdade só Deus é que pode julgar a culpa de cada um. E esperamos que Deus teve misericórdia de D. Navarro. Afinal é a formação que ele recebeu. Estava obedecendo ao Papa. E sobretudo, ainda um Papa não havia declarado depois do Vaticano II que a Missa chamada de S. Pio V nunca fora abrogada. Este mérito tão glorioso só veio a ser creditado ao nosso queridíssimo Papa gloriosamente reinante Bento XVI.
  Caríssimos e amados leitores, em seguida, se Deus quiser, postarei a resposta dos então 25 padres tradicionalistas de Campos, resposta a este decreto e logo depois o esclarecimento da NOSSA POSIÇÃO, aos fiéis de nossas Paróquias.

  


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Êxodo XX, 5: legítima interpretação

   Caríssimos e amados leitores, vejamos agora o versículo 5º: "Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque Eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem".
   Já que o versículo 3º se refere aos deuses estrangeiros: "Não terás outros deuses diante de mim".
   Já que o versículo 4º: "Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra", como já provamos, se refere a imagens de escultura ou figuras destes mesmos deuses estrangeiros ( ou seja: os deuses falsos dos outros povos que eram pagãos idólatras) conclui-se claramente que a proibição de prestar culto, que lemos no versículo 5º se refere a imagens ou figuras destes mesmos deuses pagãos. Bastam os pronomes A ELAS e NEM AS (que sublinhamos no texto) para nos mostrar que é àquelas imagens de que fala o versículo anterior que é proibido prestar culto. No versículo anterior, Deus proibiu FAZER tais ídolos. Mas podia acontecer que os judeus, nas suas viagens ou recebendo visitas de gente de outros povos, se deparassem com tais ídolos que eles, judeus, não tinham fabricado, mas que foram feitos pelos outros. Ou podia acontecer que alguém, mesmo no seio do povo israelita, teimasse em fazer tais ídolos. Neste caso era preciso que soubessem os judeus que também lhes estava proibido, tanto adorá-los, como o prestar-lhes qualquer culto.
   E a prova de que Deus se refere a estes ídolos, a estas representações de deuses falsos, está na razão que Deus lhes apresenta: "Não te encurvarás a elas nem as servirás PORQUE EU SOU O SENHOR TEU DEUS". O que mostra muito bem que, sendo Ele o único Deus dos israelitas, não quer entrar em pé de igualdade com DEUSES ESTRANGEIROS, nem quer ser substituídos por eles.
   Os protestantes provariam que aí Deus está proibindo aos católicos fazer imagens de Jesus Cristo, de Maria Santíssima e dos anjos e santos e reverenciá-las, se conseguissem provar que estas imagens, venerandas e sagradas pelas pessoas que representam, são imagens daqueles DEUSES ESTRANGEIROS, que eram pura invenção do demônio, para afastar os homens do culto do Deus verdadeiro, culto este que nós, católicos, Lhe prestamos, reconhecendo o Seu supremo domínio sobre todas as coisas e reservando a Ele, só a Ele, o culto de LATRIA, ou seja, de verdadeira adoração. Nós não substituímos o culto de Deus pelo de outros deuses, nem pelo de nenhuma criatura.
   Diante, portanto, da legítima interpretação do texto, não há aí nenhuma proibição do culto das imagens, tal como é compreendido e praticado pela Igreja que Cristo fundou, ou seja, a Igreja Católica.

   A interpretação protestante.
   Analisemos agora a interpretação que os protestantes dão ao texto.
   Não é a interpretação verdadeira; mas ainda mesmo que o fosse, a proibição contida neste texto do ANTIGO TESTAMENTO não nos atingiria, assim como eles também não se sentem atingidos por ela. É o que iremos provar.
   Os protestantes separam completamente os dois versículos: para eles o 3º versículo é uma ordem; e o versículo 4º é outra ordem que nada tem que ver com o versículo anterior.
   Aqui o homem menos instruído logo se atrapalha com o sentido da palavra IMAGEM; e desta confusão se aproveita o protestante.
   Hoje, quando falamos em IMAGEM, logo nos lembramos das imagens sagradas, que vemos nas igrejas católicas. Era justamente o que não existia naquele tempo. Não havia imagem de Jesus Cristo, nem da Virgem Maria, nem de São Pedro ou de Santo Antônio ou de São Francisco etc., etc., por uma razão muito simples: é porque nem Jesus como homem, nem Maria Virgem, nem nenhum desses santos existia ainda. Havia, sim, os anjos, DOS QUAIS, como vimos, DEUS MESMO MANDOU FAZER IMAGENS.
   Imagens aí no texto se toma no sentido geral: representação de um ser, mostrando-lhe a semelhança. Uma imagem de escultura é, por exemplo, a estátua de um homem (quando trabalhei em Campos e discutia com algum protestante, eu dava o exemplo da estátua do Pastor Barreto que se vê em frente do Colégio Batista), um animal qualquer: um cachoro, um elefante; um carneiro feito de gesso ou de madeira ou de prata ou de ouro etc.
   Desde que acha o protestante que também para nós está proibido fazer qualquer imagem de escultura, então estão proibidas todas as estátuas. São condenadas pela lei de Deus... É preciso acabar com elas... São proibidos todos os animais feitos por escultura. Entrando numa casa, onde encontra na sala um gato ou um leão ou um cavalo ou um boi fabricado em gesso ou em madeira ou em metal, o "evangélico" deve protestar indignado, porque toda imagem de escultura é proibida por Deus. Tem que acabar, portanto, a profissão de ESCULTOR,  como sendo uma profissão de homens rebeldes e pecadores, que vivem fazendo justamente aquilo que Deus proíbe no seu mandamento.
   Mas não são somente os escultores que entram na dança; entram também todos os PINTORES, DESENHISTAS, GRAVADORES E FOTÓGRAFOS, porque o texto não proíbe somente qualquer imagem de escultura, mas proíbe qualquer FIGURA, SEMELHANÇA, seja de criaturas humanas, seja de astros, seja de animais ou de plantas, seja lá do que for, pois continua assim NEM ALGUMA   SEMELHANÇA  do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas.
   Entrando no atelier de um pintor e encontrando-o a pintar uma figura humana, o protestante terá que protestar: É proibido: Êxodo cap. 20, versículo 4; não podes fazer isto.
   E se o pobre pintor disser: Ao menos, deixe-me pintar um peixe ou outro animal qualquer, uma planta, ao menos uma flor. - Não! está na Bíblia, nada disto é permitido. Não se pode fazer a figura de coisa alguma: nada do que há em baixo na terra, nada do que há nas águas.
   Os livros ilustrados, bem como as fotografias, as gravuras, os desenhos que aparecem nas revistas ou jornais, bons ou maus, todos são proibidos.
   Ora, esta interpretação é evidentemente absurda. Não foi assim; Deus só proibiu fazer figuras de DEUSES ESTRANGEIROS, fosse qual fosse a forma sob a qual se apresentassem.
   E mesmo que se quisesse dizer que Deus falava sobre qualquer imagem ou figura em geral, ainda se poderia conceber que houvesse esta proibição PARA OS JUDEUS num tempo em que não havia ainda imprensa nem fotógrafos. Podia-se ainda imaginar que Deus, diante do grande perigo em que estavam os judeus de cair na idolatria pelo exemplo dos povos vizinhos, proibisse a este pequenino povo a arte dos pintores e dos escultores, afim de se evitar a ocasião de pecado. Seria então UM PRECEITO POSITIVO SÓ PARA ELES E OCASIONADO PELAS CIRCUNSTÂNCIAS. Mas querer fazer daí um preceito geral para todos os tempos, mesmo para os povos cristãos e civilizados que não estão mais, pelo simples fato de ver uma pintura ou uma estátua, em perigo de cair na idolatria, seria evidentemente cair no ridículo.
   O protestante, portanto, se não quer admitir que este versículo 4º se refere aos deuses estrangeiros, mencionados no versículo precedente, fazendo parte, portanto, da LEI NATURAL, como é em geral todo o Decálogo, tem que admitir que se trata de um preceito positivo só para os judeus. A não ser que queira apresentar como abomináveis e condenados por Deus todas as estátuas, todos os objetos de adorno em forma de figuras humanas ou de animais, todos os brinquedos de criança feitos no mesmo sistema, todas as pinturas, todas as gravuras de livros, todas as fotografias...

   Mas dirá o protestante: Deus não proíbe somente fazer imagens. Proíbe PRESTAR-LHES CULTO no versículo 5º e os católicos prestam culto às imagens. Resposta: É o caso de perguntar: Se você é obrigado a admitir (para não cair no ridículo) que o versículo 4º é endereçado só AOS JUDEUS, como pode provar agora que o versículo 5º, ou seja a proibição de prestar culto às imagens não é também um preceito SÓ para eles? Este versículo 5º está. não só logicamente, mas também GRAMATICAMENTE ligado ao versículo 4º. Um preceito que era SÓ PARA OS JUDEUS não nos atinge a nós, cristãos.

   CONCLUSÃO: Nós católicos sabemos muito bem que estamos obrigados a NÃO COMETER NENHUM ATO DE IDOLATRIA. Esta é uma lei natural, escrita nos nossos corações; e uma lei cristã, constantemente pregada pelos Apóstolos, como por exemplo: "Nem os idólatras... hão de possuir o reino de Deus" (1 Cor. VI, 9 e 10); "Meus caríssimos, fugi da idolatria" (1 Cor. X, 14).
   Mas o nosso culto às imagens está muito longe de ser uma idolatria, porque 1º, como já explicamos, as nossas imagens não são ídolos (ídolo é a representação de um deus falso); 2º, não prestamos a elas o culto de adoração ou latria (pois isto seria reconhecer-lhes o supremo domínio sobre todas as coisas), culto este que só prestamos a Deus.
   E, como já esclarecemos no princípio, este culto não é obrigatório no sentido de que só se salva quem rezar diante das imagens, ou que só se possa fazer oração diante delas. Mas a Igreja o conserva como um MÉTODO utilíssimo para instruir os fiéis, para avivar sempre no espírito de todos, até mesmo dos mais rudes, a lembrança das coisas celestiais e para melhor fomentar nos seus filhos o fervor, a piedade e a devoção.
  

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO: ÊXODO XX, 3, 4 e 5.

   Os protestantes citam este texto da Bíblia para acusar a Igreja Católica de idolatria, ao fazer e venerar as imagens dos santos.
   Como já provamos anteriormente, os católicos veneram as imagens dos santos, mas os protestantes, fazendo jus ao seu verdadeiro nome, protestam que nós católicos adoramos imagens. Protestam, portanto, que somos idólatras como os pagãos, e, portanto desobedecemos o primeiro mandamento do Decálogo.
   Caríssimos e amados leitores, não será difícil desfazer tão grave acusação. É só vermos a verdadeira interpretação do texto do Êxodo XX, 3-5 e do Deuteronômio V, 7-9 que são iguais. 
    Vamos examinar o texto do Êxodo XX, 3-5:
     Versículo 3: "Não terás OUTROS DEUSES diante de mim.
     Versículo 4: "Não farás para ti IMAGEM DE ESCULTURA, NEM  ALGUMA SEMELHANÇA DO  QUE HÁ EM CIMA NOS CÉUS, NEM EM BAIXO NA TERRA.
     Versículo 5: "NÃO TE ENCURVARÁS A ELAS NEM AS SERVIRÁS; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem". 
   Vê-se claramente que estas imagens e semelhanças de que Deus fala no versículo 4º são as imagens dos deuses falsos ou ídolos dos pagãos. Se no versículo 4º  Deus diz que não façam imagem de escultura, nem alguma semelhança (ou figura) do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, entende-se que Deus não fala aí de qualquer espécie de desenho ou de pintura ou de escultura (pois assim estaria proibindo até o termos em casa o retrato de nossos pais, ou qualquer pintura decorativa representando flores, bichos, peixes, aves, pássaros etc.), mas sim de ídolos, de figuras de pessoas, ou de animais, ou de astros, ou de outras coisas. Tudo era deus, exceto o próprio Deus. Por isso Deus proíbe os outros deuses ( ou deuses estrangeiros), SEJA QUAL FOR A FORMA SOB A QUAL ELES SE APRESENTEM. 
    E a prova de que Deus aí não se refere a qualquer imagem, a qualquer semelhança, a qualquer pintura, está no fato de que Deus mesmo mandou Moisés FAZER uma serpente de metal (se há proibição de fazer qualquer figura ou semelhança de tudo o que há em cima no céu, e DO QUE HÁ EM BAIXO NA TERRA, a serpente é um animal que há em baixo na terra): "E o Senhor lhe disse: FAZE UMA SERPENTE DE METAL, e põe-na sobre uma haste: todo o que sendo ferido olhar para ela, viverá. Fez, pois , Moisés UMA SERPENTE DE METAL e pô-la sobre uma haste; e era que, mordendo alguma serpente a alguém, olhava para a serpente de metal, e ficava vivo". (Números, XXI, 8 e 9).
   Não creio que "os crentes" protestem contra o próprio Deus! Mas já encontrei pastor que me disse com ar de triunfo: você não sabe que o rei Exequias mandou destruir esta serpente? Respondi: Sei, sim senhor. Estudei e estudo as Sagradas Escrituras já durante muitos anos. Mas sr. pastor você quer dizer com isto que Deus errou e Exequias fez certo? - Não recebi resposta. Então eu lhe disse: Isto prova mais uma vez que Deus proibiu fazer imagem de qualquer coisa como ídolo para ser adorado como um deus. O rei Exequias mandou destruir aquela serpente porque justamente o povo passou, depois de alguma tempo, a considerar aquela serpente como se fosse uma deusa, inclusive queimando incenso diante dela, o que significava adoração. 
   Esta imagem de serpente em escultura era prefigurativa de Jesus na Cruz. É o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo quem o disse: "Como Moisés no deserto levantou a serpente, assim importa que seja levantado o Filho do Homem, para que todo o que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna" (S. João, III, 14 e 15). 
   Deus mandou Moisés fazer também dois querubins de ouro (com faces e com asas, portanto, representação em escultura, ou seja imagens de pessoa humana com asas). E é assim que a Igreja Católica representa os anjos, como Deus mesmo indicou. E em Êxodo XXV, 22 Deus disse:"E ali virei a ti, e falarei contigo de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins (que estão sobre a arca do testemunho), tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel". Será que os protestantes teriam a ousadia blasfema de dizer: Deus não teria um outro lugar melhor para falar a Moisés do que entre duas imagens!?  Quando trabalhei nos Hospitais em Campos como Capelão, encontrei um doente protestante. Logo pegou a sua Bíblia e abriu em Êxodo XX e mandou eu ler. Eu disse-lhe: vire três folhas e leia primeiro o capitulo XXV, versículos 17-22. Ele leu e depois disse-me: Sr. padre, isto o pastor nunca leu para nós!  - Eu falei: é claro! ele só lê para vocês o que eles acham que é contra a Igreja Católica.  
   Portanto, quando os protestantes dizem, procurando impressionar a gente simples: Os católicos estão contra a Bíblia, porque a Bíblia proíbe FAZER IMAGENS e eles fazem imagens de Jesus Cristo, de Maria, dos anjos e dos santos, trata-se de uma acusação muito fora de propósito. Deus proibiu aí no texto do Êxodo fazer imagens dos DEUSES FALSOS ( falsos porque só há um Deus Verdadeiro, Vivo e Eterno) pois é dos deuses pagãos (que são ídolos) que Ele está falando. E a prova é que Ele mesmo mandou fazer outras imagens e Deus não cai em contradição consigo mesmo. Nem se concebe que Deus, tendo horror a quaisquer imagens, como querem os protestantes, fosse o primeiro a mandar fabricá-las.
   E baste ler com atenção o Pentateuco, se não quisermos falar em todo o Antigo Testamento, para ver como a grande preocupação, se assim se pode dizer, de Deus, era fazer com que aquele povo pequenino, cercado como estava, de tantos povos idólatras, não se deixasse contaminar pelo exemplo dos outros, adorando os deuses estranhos. Basta conferir algumas passagens: Gêneses, XXXV, 2; Êxodo XX, 23; Êxodo XXIII, 23; Êxodo XXIV, 14; Levítico XIX, 4; Números XXXIII, 4; Deuteronômio VI, 14; Deuteronômio VIII, 19; Deuteronômio XXVIII, 36 e 37; Deuteronômio XXXII, 16.
   Na próxima postagem, veremos a interpretação do versículo 5º do capítulo XX do Êxodo.
  
       

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A CONSUMAÇÃO DO SACRIFÍCIO: A COMUNHÃO

   Nos sacrifícios do Antigo Testamento, o povo gostava que por qualquer sinal Deus lhe fizesse saber que o sacrifício era aceito por Ele e que Lhe era agradável. As vezes, como sinal, Deus mandava fogo do céu para consumir á vítima. E algo de análogo encontramos na imolação do Calvário. Deus, ressuscita o seu Filho e consome pelo fogo do amor as imperfeições do seu corpo mortal, para lhe conferir num grau superior todas as qualidades dos corpos gloriosos e, porque de certo modo se tornou espírito vivificante, para lhe permitir uma ação santificante sobre as almas. É sobretudo na Eucaristia que aparece este papel santificante : "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia" (S. Jo. VI, 54). Por isso, Jesus ressuscitado aparece subitamente no meio dos apóstolos reunidos no Cenáculo. São Paulo, depois de ter observado que os sacerdotes antigos tinham necessidade de sucessores, porque eram mortais, acrescenta: "Mas Ele, porque permanece para sempre, tem um sacerdócio que não passa. Por isso pode salvar perpetuamente aqueles que por Ele se aproximam de Deus, sempre vivo para interceder por nós" (Heb. VII, 24). Depois de cumprir a sua missão, depois de confirmar a fé dos apóstolos, e de lhes explicar o reino de Deus, passados quarenta dias depois da sua ressurreição, subiu ao céu, onde está sentado à direita do Pai, e onde pede e ora constantemente por nós, mostrando as cicatrizes das suas chagas gloriosas. Jesus é, portanto, no céu, o nosso Soberano Pontífice. Mas está também em estado de vítima.  São João no Apocalípse diz que viu   um Cordeiro vivo mas como se estivesse sido imolado. É certo que no céu, Cristo não oferece um sacrifício no mesmo sentido que no Calvário e nos nossos altares, mas aparece diante do Pai como tendo sido imolado outrora, com as cicatrizes gloriosas das suas chagas e na qualidade de vítima que lhe pertence tanto como a de sacrificador. Daqui se conclui que o sacrifício inaugurado na terra atinge no céu a sua consumação, no sentido de que Jesus não só recebe a recompensa do seu sacrifício, mas continua o papel de mediador e de sacerdote, não cessando nunca de se oferecer e de interceder por nós (Heb. VII, 25). É do céu ainda, que Ele faz descer sobre nós uma chuva ininterrupta de bênçãos, que nos permite participar dos frutos da redenção.

   Em certos sacrifícios antigos, os sacerdotes e os fiéis que apresentavam a vítima consumiam uma parte, para deste modo entrarem em comunhão com ela e com a divindade, à qual havia sido consagrada. Este ato, então meramente simbólico, encontra-se em toda a sua realidade no sacrifício oferecido por Cristo. Se Jesus subiu ao céu, fê-lo, segundo a sua promessa, para nos preparar um lugar para, enquanto vivermos na terra, nos tornar participantes das graças que nos mereceu. Estas graças, obtemo-las nós pelos sacramentos e sobretudo pela Eucaristia, que, ao dar-nos Jesus, nosso sacerdote e nossa hóstia, faz-nos participar dos seus pensamentos, dos seus sentimentos e virtudes. Mas podemos também obtê-las pela comunhão espiritual, que perpetua os efeitos da comunhão sacramental, ao levar-nos a pensar, a falar, a atuar sempre em união com Jesus. Caríssimos e amados leitores, ditosas as almas que vivem em união habitual com Jesus, sacerdote e vítima!. A sua transformação será total: em vez de se deixarem guiar por pensamentos egoístas, pelo desejo de agradar aos homens, pela curiosidade, pela vaidade ou pela sensualidade, fixaram toda a sua atenção em Nosso Senhor Jesus Cristo, o único a quem querem agradar. Para essas almas, Jesus é o centro de toda a vida. É por Ele, com Ele e n'Ele que elas oram, trabalham e vivem. Podem dizer com São Paulo: "Eu vivo, mas não sou eu que vivo: é Jesus que vive em mim"; "a minha vida é Jesus".
   Na próxima postagem vamos meditar nestas palavras: POR ELE, COM ELE E NELE.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Jesus se imola como Vítima

   A IMOLAÇÃO: Começa com a dolorosa Paixão, no horto das Oliveiras com a agonia do Getsêmani, e tem o seu remate no Calvário. Antes porém de se deixar imolar pelos carrascos, Jesus quis oferecer-se de novo como vítima, desta vez num verdadeiro sacrifício, acompanhado de ritos misteriosos - o sacrifício da Ceia. Depois de ter celebrado a antiga Páscoa com os apóstolos, dá início, por assim dizer, à nova Páscoa, e institui um sacrifício que se perpetuará nos altares até ao fim dos tempos. Tomando o pão, abençoa-o e dá-o aos apóstolos, dizendo: "Comei, isto é o meu corpo, dado e entregue por vós". E tomando o cálice do vinho, acrescenta: "Bebei dele todos; é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que é derramado por vós e pela multidão dos homens em remissão dos pecados". Jesus sabe que vai ser imolado no dia seguinte e oferece antecipadamente ao Pai a sua imolação, a efusão do seu sangue, a sua morte, para patentear publicamente aos Apóstolos que se entrega livre e voluntariamente à morte expiatória e às torturas físicas e morais que a acompanharão. A Ceia é, portanto, um verdadeiro sacrifício, porque é um dom antecipado da vítima que será imolada no dia seguinte.
   É por esta mesma razão que Jesus é chamado sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Com efeito, Melquisedeque oferecera a Deus pão e vinho. Ora, é sob as espécies de pão e de vinho que Jesus se oferece ao Pai e se dá aos Apóstolos. A santa missa celebrada hoje nos nossos altares é uma reprodução do sacrifício da Ceia, com a diferença de que o sacerdote oferece atualmente a vítima outrora imolada no Calvário, ao passo que Cristo oferecia no Cenáculo a vítima que ia ser imolada no dia seguinte.
   Jesus pode agora começar a sua dolorosa Paixão. Deve mesmo começá-la, já que com as palavras que disse na Ceia se votou à morte.
   É exatamente isto que Jesus faz. Entra nos Horto das Oliveiras, onde vai ter agonia e suar sangue. Jesus deixa que a sua imaginação Lhe represente, de uma maneira clara, todas as torturas e humilhações que há de sofrer no dia seguinte. Fica tão sensibilizado, que sente medo, tédio e uma tristeza muito profunda. Jesus vê-se , sobretudo, como cabeça de um corpo místico de que nós somos membros, carregado com o peso dos nossos pecados, sente-se como que submergido pela vaga de todas as iniquidades humanas, em face do Deus de toda a santidade. Uma tristeza mortal apodera-se da sua alma e pelo seu corpo cansado perpassa um suor de sangue. "Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice. Mas não se faça como eu quero, mas como tu queres" (S. Mat. XXVI, 39).
   E o martírio começa. Traído por Judas, renegado por Pedro, abandonado por quase todos os seus discípulos, é vilipendiado, insultado, ferido pelos servos do Sumo Sacerdote, condenado pelo Sinédrio por se ter confessado Filho de Deus, condenado por Pilatos que proclamara momentos antes a sua inocência. Flagelado, coroado de espinhos como um rei fantoche, carregado de um pesado lenho, sobe penosamente o Calvário, estende os seus membros doloridos sobre a cruz, vê as suas mãos e os seus pés perfurados pelos cravos, ouve os insultos e os sarcasmos dos escribas e dos fariseus, que o convidam ironicamente a descer do patíbulo, se é verdadeiramente o Messias, o Filho de Deus. E em vez de se vingar, suplica ao Pai que lhes perdoe, porque, diz Ele, "não sabem o que fazem" (S. Luc. XXIII, 34).
   E enquanto o seu corpo é torturado pelos algozes e a sua alma se angustia ao pensamento de que muitos não tirarão proveito do seu sangue, que faz Jesus, o Soberano Pontífice, no altar da cruz? Renova o dom de sua vida, já tantas vezes feito: "Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas... ninguém me tira a vida, mas sou eu que a dou; eu tenho o poder de a dar e o poder de a tomar; tal é a ordem que recebi de meu Pai" (S. Jo. X, 11-18). Esta ordem foi tão bem cumprida que podia dizer com toda a verdade: "Tudo está consumado". Os sacrifícios figurativos do Antigo Testamento são substituídos pelo único verdadeiro sacrifício. As profecias estão cumpridas, em particular a profecia de Isaías anunciando com antecipação de séculos os sofrimentos e a morte do Homem das dores.
   Jesus acabou a sua obra, cumpriu toda a justiça. Sofreu, sem se queixar, as mais espantosas torturas do corpo e da alma. Sofreu-as por amor, por amor do Pai, a quem queria glorificar, e por amor dos homens, a quem queria salvar. Já só Lhe resta permitir que a morte se apodere da sua vítima voluntária. É  o que Ele faz, depois de se oferecer pela última vez como hóstia ao Pai: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (S. Luc. XXIII, 46).
   Nosso Senhor Jesus Cristo expira. Deus foi glorificado como nunca tinha sido, e os homens foram salvos, pelo menos de direito. Resta aos homens fazer seus pela fé e pela caridade, pelas obras e pela recepção dos sacramentos, os méritos do Redentor. Ao fazê-lo consumarão o sacrifício de Cristo e comungarão com Jesus-Vítima. É o que meditaremos, se Deus quiser, na próxima postagem.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Jesus se oferece como Vítima

   A OBLAÇÃO DA VÍTIMA: Como já dissemos, no mesmo instante em que o Filho de Deus se encarnava no seio virginal de Maria Santíssima, era constituído Sacerdote Soberano. Sabendo que os sacrifícios da Lei Antiga não podiam glorificar ao Pai como Ele o merece, Jesus Cristo apresenta-se diante d'Ele e oferece-se como vítima. Assim começa o primeiro sacrifício verdadeiro e digno deste nome: sobre o altar puríssimo do coração de Maria Santíssima, o Verbo Encarnado oferece, como sacrificador, uma vítima, e esta vítima é Ele mesmo. Jesus oferece-se inteiramente: corpo e alma. É o seu corpo que um dia imolará na cruz e que, até que chegue o seu dia, vai sacrificando pela prática da mortificação. É a sua alma, com todos os seus pensamentos, desejos, afetos, volições, que não cessará de imolar sob a espada da obediência até o dia em que, no Calvário, completará o seu sacrifício pelo supremo ato de amor. "Aniquilou-se a si mesmo, tomou a forma de servo e fez-se obediente até a morte, e morte de cruz". Toda a vida de Jesus será uma cruz e um martírio voluntários. Será mártir desde o momento da Encarnação. Seu primeiro olhar é para o Pai, a quem constantemente oferece, em seu nome, os mais perfeitos atos de religião e expiação. O seu segundo olhar é para nós: olhar de comiseração e amor para com os pecadores, que vem salvar com o seu sangue; olhar de afetuosa ternura para os justos, que ama já como membros do seu corpo místico e nos quais deseja crescer e aumentar para lhes comunicar os tesouros da sua vida divina. Por todos eles, Cristo oferece ardentes súplicas, que são ouvidas em virtude da dignidade da sua pessoa, (Heb. V, 7). Maria Santíssima, que traz em seu seio puríssimo o Verbo Encarnado, já começa a exercer o seu papel de colaboradora secundária na obra da nossa Redenção; e também o papel de Medianeira de todas as graças.
   Depois de nove meses, Jesus nasce e os seus não o receberam, diz São João, I, 2). Já São Lucas constata dolorosamente que Jesus nasce num estábulo, porque não havia lugar para sua Mãe e para Ele na hospedaria. (S. Luc. II, 7). Assim, ao chegar ao mundo já sofre o frio da estação e o dos corações da maioria. Sofre a penúria da pobreza e mais ainda a ingratidão dos homens. E não cessará de ser vítima. No dia da Circuncisão, cerimônia humilhante e dolorosa, derrama as primeiras gotas de sangue para confirmar a intenção de o derramar um dia até à última gota por nós. Perseguido por Herodes, é obrigado a tomar o caminho do exílio e quando, após a morte do tirano, regressa à Palestina, é para se encerrar numa pobre casa de Nazaré, aldeia desconhecida da Galileia, e passar aí trinta anos na obscuridade, na obediência, no trabalho manual, de tal modo escondido, que os compatriotas o olham como um vulgar carpinteiro. A sua vida pública não será, com exceção de algumas alegrias e sucessos passageiros, senão um longo martírio. Desde o início que os Fariseus e os Escribas O perseguem, a princípio com suspeitas, depois, com inveja e ódio; armam-Lhe constantes ciladas, procuram contrariar a sua influência sobre o povo. Se, na verdade, consegue fazer alguns discípulos fiéis e converter alguns pecadores insignes, não há dúvida de que a massa do povo permanece indiferente ou hostil, porque não pode reconhecer o Messias glorioso tão ansiosamente esperado, num jovem Rabi tão humilde e tão modesto, que em vez de conviver com os grandes e preparar o triunfo temporal do seu povo, visita os humildes, os aflitos, os pobres, os publicanos e os próprios pecadores. Como devia ter custado a Jesus ver-se assim incompreendido e desprezado, apesar de tantos milagres, que eram outros tantos sinais que provavam a divindade da sua missão e da sua pessoa! Mas, caríssimos leitores, tudo isto não era mais do que o prelúdio do autêntico sacrifício. Jesus será imolado como vítima. É o que veremos, se Deus quiser, na próxima postagem.  

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

JESUS, SACRIFICADOR E VÍTIMA

   Nos sacrifícios do Antigo Testamento, o sacerdote era distinto da vítima. Escolhia-se como vítima para os sacrifícios sangrentos, que eram considerados os mais perfeitos, um ser vivo, normalmente um animal doméstico, que era mais indicado para substituir o homem, visto que lhe pertencia. Este animal era oferecido a Deus, segregado de todo o uso profano, e consagrado ao serviço e honra da divindade. Era em seguida imolado, para mostrar que o pecador, depois de ofender a Deus, já não tem direito de viver e merece a morte. Depois de ser queimado, em certos sacrifícios, uma parte da vítima, comia-se a outra porção, para comungar assim com a vítima e, por ela, com a divindade. A união com Deus, despedaçada pelo pecado, era, portanto, após a glorificação da divindade, o fim a que tendia o sacrifício.
  Assim, pois, três atos principais constituíam o sacrifício: a OBLAÇÃO, a IMOLAÇÃO, a COMUNHÃO, também chamada consumação.
   Todos estes sacrifícios eram figuras e símbolos que preparavam o sacrifício verdadeiro, aquele que o Homem-Deus, Soberano Sacerdote da Nova Lei, devia oferecer para glorificar a Deus e salvar os seus irmãos. Mas Deus tem direito a homenagens infinitas. Para lhas tributar e reparar a ofensa feita a Deus pelo pecado, era necessário um sacrifício de valor moral infinito. Para que assim fosse, Jesus, nosso Soberano Sacerdote, quis ser não apenas o SACRIFICADOR, mas também a VÍTIMA. Assim, sob este duplo aspecto (de sacrificador e vítima ao mesmo tempo) o Sacrifício por Ele oferecido teria verdadeiramente um valor infinito, porque a dignidade dum sacrifício depende da dignidade da pessoa que o oferece e da vítima que é oferecida. Ora, Jesus, sacerdote e vítima, não é outrem senão o Homem-Deus, isto é, uma pessoa infinita porque divina.
   Vamos, se Deus quiser, compreender tudo isto melhor ainda, meditando sucessivamente, nas postagens seguintes, os três grandes atos que constituem este sacrifício de um valor infinito, isto é, falaremos da OBLAÇÃO: Jesus se oferece como Vítima; em outra postagem, falaremos da IMOLAÇÃO: Jesus se imola como Vítima; e finalmente em outra postagem, falaremos da CONSUMAÇÃO ou COMUNHÃO: Jesus ressuscita, sobe aos Céu e lá está sempre vivo a interceder por nós; pelos sacramentos e especialmente pela Eucaristia, Jesus faz-nos participantes dos seus pensamentos, dos seus sentimentos e virtudes. Há também a comunhão espiritual que perpetua os efeitos da comunhão sacramental.

domingo, 23 de outubro de 2011

Jesus Cristo, Sacerdote por excelência.

2 - JESUS SATISFAZ AS CONDIÇÕES DO SACERDÓCIO

  Vimos na postagem anterior que as condições essenciais para o sacerdócio são: ser homem, ser consagrado e oferecer sacrifício. Pois bem. Vamos ver agora, com a graça de Deus, que Jesus satisfaz perfeitamente estas três condições.
   A)  SER HOMEM. Jesus é o  Filho de Deus feito homem. Antes da Encarnação, sendo só Deus, não poderia ser sacerdote. Mas desde que no dia da Encarnação no seio da sempre Virgem Maria se fez homem, nada O impede de se revestir da condição de sacerdote. Neste momento, o Verbo entra na família humana e pode, sem nada perder da sua divindade, abater-se, humilhar-se, aniquilar-se, adorar e pedir, como homem que é. Diz São Paulo: "Por isso, entrando no mundo, diz(Jesus): "Não quiseste hóstia, nem oblação mas formaste-me um corpo...Então Eu disse: Eis-me que venho... para fazer, ó Deus, a tua vontade...Por esta vontade somos santificados  mediante a oblação do corpo de Jesus Cristo..." (Heb. X, 5, 7 e 10). Em Hebreus, IV, 15 diz ainda o Apóstolo: "Não temos um Pontífice que não possa compadecer-se das nossas enfermidades, mas que foi tentado em tudo à nossa semelhança, exceto no pecado". Bossuet assim comenta: "Mas não a tomastes (=a natureza humana) sã, perfeita, imortal, tal como saíra no princípio das vossas mãos. Assumiste-la tal como o pecado e a justiça vingadora de Deus a tornaram - mortal, enferma, pobre -, porque queríeis carregar com o nosso pecado. Queríeis carregá-lo sobre a cruz, vítima inocente; queríeis carregá-lo durante todo o decurso da vossa vida... Como não podíeis assumir também a iniquidade e a mácula do pecado, tomastes a pena, o justo suplício, isto é, a mortalidade com todas as consequências. Assim Vos  tornastes sensível aos nossos males - Vós que os experimentastes na Vossa carne... Quem duvida que não possais ajudar-nos nas coisas que já sofrestes, pois sofrestes livremente e quisestes, ao suportá-las, fazer nascer em Vós a compaixão para conosco? Sede para sempre louvado, Senhor, e compadecei-Vos dos nossos males, não como os ricos se compadecem dos pobres, mas como os pobres choram os outros pobres" (Bossuet, Méditations sur l'Evangile, 95ª).
   Acrescentemos que, por não ter deixado de ser Deus, ao fazer-se homem, Jesus é o mediador ideal entre o Céu e a terra, não apenas santo e imaculado, mas impecável , o Filho bem-amado do Pai, em quem Ele pôs todas as suas complacências, o sacerdote escolhido por natureza para adorar a infinita majestade e defender a nossa causa. Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Como homem, pode compadecer-se das fraquezas dos seus irmãos e abater-se, humilhar-se, sofrer, morrer, para glorificar seu Pai; Como Deus, pode dar a todas as suas ações um valor infinito.
   São Paulo na mesma Epístola aos Hebreus, V,4-6 mostra ser necessário  que Cristo fosse chamado e estabelecido sacerdote pelo Pai. Portanto Jesus não se elevou por si mesmo à glória do Sumo Pontificado, mas recebeu-o d'Aquele que disse: tu és meu Filho, eu te gerei hoje; como disse ainda em outra passagem: "tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque". Foi, portanto, a livre escolha de Deus que fez de Jesus o sacerdote supremo, o sacerdote por excelência. Como devemos agradecer a Deus essa sua bondade infinita!

   B) SER CONSAGRADO. Jesus foi consagrado sacerdote perfeito pelo próprio Deus. Escolhido desde toda a eternidade, Cristo é feito sacerdote no próprio momento da Encarnação e desde logo começa o seu duplo papel de Religioso de Deus e de Salvador dos homens. É o que declara São Paulo: "Ao entrar no mundo, Cristo disse (a seu Pai): não quiseste sacrifícios nem holocaustos mas formaste-me um corpo; não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. Então eu disse: Eis-me aqui!... Venho, ó Deus, para fazer a tua vontade... É em virtude desta vontade que somos santificados pela oblação que Jesus fez, uma vez por todas, do seu corpo" (Heb. X, 5-7-10).
  Que vem a ser Religioso de Deus?  Jesus recebeu a consagração sacerdotal para desempenhar junto de Deus o papel de Religioso; e junto dos homens o papel de Salvador. O papel de Salvador, todos sabem em que consiste. Mas talvez nem todos compreendem em que consiste este papel de Religioso de Deus.
Vamos explicá-lo. Como Religioso de Deus, Jesus Cristo oferece-se como vítima, em substituição de todos os holocaustos e sacrifícios do Lei Antiga. É a obediência, a humildade e amorosa submissão à vontade do Pai que imolará todos os atos à glória de Deus e reparará assim, nobremente, a desobediência dos nossos primeiros pais. Desta forma, Deus será glorificado como nunca o fora; será glorificado como merece, com uma glória infinita, porquanto o Verbo comunica às ações e sofrimentos da sua humanidade um valor infinito. E por este mesmo sacrifício, Jesus salvará em princípio todos os homens, no sentido de que lhes merecerá, de uma maneira abundante e mesmo superabundante, todas as graças de que têm necessidade para serem salvos: se alguns não aproveitam da sua redenção, é porque resistiram à sua graça. E São João diz: "Se alguém pecou, temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo; Ele próprio é uma vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas pelos de todo o mundo" (1 João, I, 2). E se, possuindo o estado de graça, tivermos necessidade de novos socorros para perseverar ou progredir na vida espiritual, Jesus estará presente, "sempre vivo para interceder por nós" (Heb. VII, 25).

   C) OFERECER SACRIFÍCIO. Se alguém é sacerdote, então importa que ofereça sacrifício; se é  o sacerdote por excelência, importa que ofereça um sacrifício perfeito. Foi exatamente o que Jesus fez. Quanto ao sacrifício, começou a oferecê-lo interiormente desde o primeiro instante da sua existência e renovou exteriormente este oferecimento no dia da sua apresentação no templo. Preparou a imolação sangrenta por uma vida de rudes trabalhos e profundas humilhações. Completou o seu sacrifício na última Ceia e sobre o altar da Cruz, oferecendo-se livre e generosamente para suportar com paciência heróica todas as torturas físicas e morais que os seus algozes lhe infligiram. Consumou-o, ressuscitando e subindo ao céu; aí, aparece diante do Pai com a sua humanidade imolada por nós e, embora lá não ofereça um sacrifício propriamente dito, não cessa de interceder por nós e de pedir que os frutos da sua Paixão nos sejam aplicados.
   No Santo Sacrifício da Missa, Jesus Cristo continua o sacrifício do Calvário, oferecendo de novo a seu Pai a Vítima imolada sobre a Cruz, com as mesmas disposições de obediência e amor. E, como diz o Beato Olier, "como este augusto interior de Jesus é o mesmo sobre a cruz e sobre o altar, sob os véus do pão e sob os véus da carne, é ainda o que mais devemos estimar e honrar nos sacrifício de Cristo, que começou sobre a cruz e continua sobre os santos altares".

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

JESUS É TUDO PARA NÓS.

   Caríssimos e muito amados leitores, nestes dez dias que antecedem a festa de Cristo Rei, desejo, com a graça de Deus, alimentar as vossas almas num amor sempre maior ao Nosso Rei de Amor. Amor se paga com amor. Fá-lo-ei, outrossim, no intuito de desagravar o Sacratíssimo Coração de Jesus, tão ofendido pelos "Encontros de Assis".
   Com São Paulo, digamos do fundo do coração: "A minha vida é Jesus!" (Fil, I, 21). Quando um sábio está de tal modo absorvido nas suas investigações e só pensa na ciência, só vive por ela, não tem dúvida em dizer a todo mundo: A minha vida é a ciência. Quando um comerciante se dedica tanto aos seus negócios que esquece tudo o mais, pode com razão afirmar: A minha vida são os negócios.
   Assim também, quando um cristão autêntico compreende que Jesus é tudo para o homem, de tal modo que Ele constitui o seu único pensamento, a razão de ser da sua vida, pode repetir com o Apóstolo das Gentes: A minha vida é Jesus. Para este cristão Jesus é tudo: o caminho, a verdade, a vida, a luz, a alegria infinita e o centro de seus pensamentos e afetos. Na verdade Jesus é a cabeça de um corpo místico do qual nós somos membros; é o nosso mediador junto do Pai, é o sacerdote que oferece por nós o único sacrifício verdadeiro, o doutor que nos ensina a verdade eterna, o modelo perfeito que nos arrasta doce e fortemente nos caminhos da perfeição e da felicidade sem fim. ELE É PORTANTO TUDO PARA NÓS! Entendemos, então, que Jesus é o centro de todos os nossos pensamentos. Em quem poderíamos pensar senão naquele que é tudo para nós? Os santos colocavam suas delícias em meditar no Santo Evangelho! Com que amor eles percorrem essas páginas que fielmente evocam os fatos e os gestos do seu divino Salvador! Para eles, a doutrina e as virtudes de Nosso Senhor Jesus Cristo são um verdadeiro alimento e constituem a medida de tudo. Os santos sabem que os nossos juízos para serem verdadeiros, devem estar de acordo com os d'Aquele que é a verdade infalível. Unem-se a Jesus para adorar a Deus e pedir graças. Nos seus trabalhos, pensam em Jesus que auxiliou sua Mãe nos humildes cuidados de Nazaré. Se fazem alguma visita, se conversam com o próximo, não esquecem que Jesus vive ou deve viver no coração dos nossos irmãos, e é com Ele que conversam na pessoa do próximo. Assim compreendemos aquele encanto na sua conversação. Os santos viviam com Jesus e viam Jesus no coração do próximo. Quem conversava com Santa Catarina de Sena, com São Francisco de Assis, com o Santo Cura dArs, etc., sentiam  a presença de Jesus, é como se vissem Jesus. São Paulo dizia: "Eu vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus que vive em mim". Feliz de quem conviveu com algum santo! "Ecce quam bonum, et quam jucundum habitare fratres in unum!" (Salmo 132, 1).
   Caríssimos leitores, Nosso Senhor Jesus Cristo deve assim ser também o centro dos nossos afetos. São Paulo dizia em todo arroubo de sua alma: "Quem não amar a Jesus, seja anátema". Como pensar em Jesus sem O amar? Ele é a beleza e a bondade infinitas. Possui por natureza todas as perfeições da divindade. Ele é o Verbo Eterno feito Homem. É o Filho de Deus vivo que veio a este mundo. Santa Teresa d'Ávila depois de ter visto Jesus que lhe apareceu, dizia: "Tudo agora me parece cisco."
   Se os Apóstolos no Monte Tabor, diante da humanidade de Jesus transfigurado, ficaram tão arrebatados de admiração que exclamaram: "É bom estarmos aqui" (S. Mat., X, 7), quanto mais arroubados não ficaremos nós em face da beleza sobre-humana que resplandece em Jesus ressuscitado!
   Santo Tomás de Aquino resumiu numa estrofe, de maravilhosa concisão, as grandes manifestações do amor divino para conosco:
           No presépio fez-se nosso irmão,
           Na ceia, nosso alimento;
           Na cruz, nosso resgate,
           No céu, nossa recompensa.
   No dia do Seu nascimento, Ele aparece como um companheiro de viagem nesta terra de exílio, como amigo, como irmão, como consolador, e desde então nunca mais nos deixou sozinhos. Apareceu entre nós com toda benignidade e doçura.
   Ao instituir a Eucaristia, torna-se nosso alimento e sacia com o  seu corpo, sangue, alma e divindade, as almas que têm fome e sede de Deus.
   Morrendo na Cruz, pagou o preço do nosso regate, libertou-nos da servidão do pecado, restitui-nos a vida espiritual e deu-nos o maior sinal de amor que é possível dar aos amigos.
   No céu, enfim, será Ele mesmo a nossa recompensa, veremos face a face a sua divindade, contemplaremos embevecidos a sua humanidade glorificada, possuí-Lo-emos sem partilhas, e participaremos da sua glória.
    "Tendo amado os seus, amou-os até o fim": até o fim de sua vida, até o fim do mundo, até o último extremo, de tal modo, que somos levados a exclamar com Santo Agostinho: "Jesus, sendo poderosíssimo, não poderia dar mais, sendo sapientíssimo, não saberia dar mais; e sendo riquíssimo, não teria mais para dar.
   Ó Pedro, Chefe dos Apóstolos, quanto motivo tínheis para chorar até o fim da vida, como realmente o fizestes, porque negastes a Jesus dizendo: "Não conheço este homem!" Ó Jesus, dai-me lágrimas, lágrimas de profundo arrependimento por tantas e tantas vezes que Vos neguei e traí!
   Ah! caríssimos leitores, quem medita atentamente nestas verdades não pode deixar de amar generosamente Aquele que tanto nos ama e que é o único ser digno do nosso amor.
   Na verdade, Jesus é o nosso melhor amigo, o único que deu a sua vida por nós, o único que pode satisfazer o nosso coração feito expressamente para Ele. Quem tem Jesus, tem tudo. Quem não tem Jesus, não tem nada. Todo cristão que compreende a fé, vive na presença e na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Caríssimos, depois desta meditação, poderemos nós ligar importância às visões dos poetas, às musas inspiradoras, à beldades da vida? Nem poesia, nem paixão, nem encanto algum igualarão jamais o real e terno amor que nos inspira a Pessoa de Jesus Cristo. Sentimos indignação quando alguém cita um filósofo, um cientista, um escritor, um fundador de seita, e diz: Assim disse o Mestre. Só há um Mestre: é Nosso Senhor Jesus Cristo. É o Mestre por excelência, porque é Deus, a própria Sabedoria, o Deus das ciências. Só há uma Religião verdadeira: é a de Nosso Senhor Jesus Cristo. VIVA CRISTO REI!!!
  
    

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

PAZ E PAZES

Livro "Quer agrade, Quer desagrade", autor: Revmo. Padre Fernando, hoje Sua Excelência Revma. Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo Administrador Apostólico.

   Quando do nascimento do Príncipe da Paz, os anjos de Belém anunciaram "paz na terra aos homens de boa vontade". E, no dia da Ressurreição, a sua saudação aos Apóstolos foi "a paz esteja convosco". A paz é um dom de Deus.
   Entretanto, quando se despedia dos Apóstolos na última ceia, Jesus lhes explicou: "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não como o mundo dá, eu vo-la dou" (Jo. 14, 27). Isto significa que há duas espécies de paz: a paz de Cristo e a paz do mundo.
   A paz do mundo é fria, aparente, é a paz do homem e não a paz de Deus. Consiste apenas na mera coexistência pacífica entre os povos mantida pelo temor uns dos outros e pelo recíproco desengano; ou então na convivência sossegada e respeitosa entre a religião verdadeira e as religiões falsas, na tranqüila cordialidade entre a verdade e o erro, bem ao estilo da maçônica fraternidade universal.
   "Não há paz para os ímpios", nos adverte a Sagrada Escritura. Na verdade, entre os males que mais nos afligem está a falta de paz. Falta a paz internacional, faltam a paz política e social, a paz doméstica e econômica.
   A causa destes males está justamente na ausência de Deus da sociedade e da vida dos homens. Quando veio ao mundo o Príncipe da Paz, não houve lugar para ele nos lares e nos corações. "A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más" (Jo 3, 19). Hoje, o mesmo se repete. Não há lugar para Nosso Senhor nas sociedades, nas leis, nas escolas, nas famílias. Procura-se expulsá-lo até das igrejas instalando nelas a religião dos direitos humanos com detrimento dos direitos de Deus. O mundo atual substituiu a honra do Deus verdadeiro pelo culto de outros deuses, pela ânsia imoderada dos bens terrenos e pela busca desenfreada do prazer. Assim não se tem a paz.
   "A paz verdadeira é o fruto da Justiça" (Is. 32, 17). A paz de Cristo, a única verdadeira, não existirá enquanto os homens não seguirem fielmente os ensinamentos e os exemplos de Nosso Senhor na vida pública ou particular. Paz de Cristo no Reino de Cristo.
   A paz é "a tranqüilidade da ordem" (Stº Agostinho). A ordem é condição para a paz. Por isso não há paz no pecado, que é a desordem na nossa relação com o Criador. O pecado das nações,  o pecado das famílias, o pecado das consciências é que destrói a paz. Só haverá paz das armas quando houver a paz das almas.
   E não se constrói a paz batendo-se apenas pelos direitos do homem. A paz virá quando forem respeitados os direitos de Deus. O restabelecimento da paz será concomitante com a restauração do reino de Cristo. Não é pela religião do homem que se faz Deus, mas pela religião do Deus, que se fez homem, para nos salvar, que reconstruiremos a paz.
   Por isso, a paz exige luta. Combate às paixões; ao erro, ao mal. Neste sentido foi que Jesus disse: "Não vim trazer a paz e sim a espada" (Mt 10, 34). Alguns, com a falsa idéia da paz, pensam que para salvaguardar a união não se deve se indispor com os outros em hipótese alguma. A estes São Paulo responde: "Se eu procurasse agradar aos homens não seria servo de Cristo" (Gal. 1, 10).
   Que Nossa Senhora, Rainha da Paz, nos alcance de Deus a paz verdadeira, sinônimo de felicidade.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"RESPONSABILIDADE TERRÍVEL!!!"

   Só o título é de minha autoria. A matéria é um trecho do PREFÁCIO do livro "A IGREJA, A REFORMA  E A CIVILIZAÇÃO" de autoria do sábio e erudito Padre Leonel França, S. J.

   "Grande é a responsabilidade de quem escreve. Agitar idéias é mais grave do que mobilizar exércitos. O soldado poderá semear os horrores da força bruta desencadeada e infrene; mas enfim o braço cansa e a espada torna à cinta ou a enferruja e consome o tempo. A idéia, uma vez desembainhada é arma sempre ativa, que já não volta ao estojo nem se embota com os anos. A lâmina do guerreiro só alcança os corpos, pode mutilá-los, pode trucidá-los, mas não há poder de braço humano que dobre as almas. Pela matéria não se vence o espírito. A idéia do escritor é mais penetrante, mais poderosa, mais eficazmente conquistadora. Vai diereito à cidadela da inteligência. Se a encontra desapercebida ( e quantas inteligências desaparelhadas para as lutas do pensamento!) toma-a de assalto, instala-se no seu trono e daí dirige e governa, a seu arbítrio, toda a atividade humana. Pelo espírito subjuga-se a matéria.
   Quantos crimes que se atribuem à força e são filhos da idéia! Se fora perfeita a justiça humana, muita vez, não sobre o braço que vibrou o punhal assassino mas sobre a pena que semeou a idéia homicida, é que deveram pesar os rigores da sua severidade.
   Grande sempre é a responsabilidade de quem escreve! Mas se é religioso o livro que se atira às multidões, essa responsabilidade assume quase proporções infinitas. Semear idéias religiosas é dirigir consciências. E dirigir consciências é orientar o homem no problema do seu destino, cuja incógnita se resolve na tremenda alternativa de duas eternidades, uma infinitamente feliz, outra infinitamente desventurada. À perspectiva destas inelutáveis e irreparáveis consequências, como devera tremer a mão do escritor que se abalança à gravidade de tamanha empresa! Que respeito religioso à verdade! Que prudência circunspecta nas asserções! Que certeza absoluta e inconcussa nas doutrinas que se querem inculcar às almas! Que delicadeza de escrúpulos em fulminar anátemas contra convicções que nutrem, vigoram e confortam a vida espiritual de milhões dos nossos semelhantes! Mais do que qualquer outro, um livro religioso deve ser obra de ciência e obra de consciência." (1).
   NOTA: (1) - Em argumento semelhante RUY BARBOSA: "A natureza de tais questões exigia que delas não se aproximasse ninguém senão com uma sinceridade absoluta e uma intensíssima percepção da sua gravidade... É dos interesses eternos do homem que se trata, das suas relações com Deus, das suas responsabilidades eternas, das bases morais da família e da sociedade. Com a consciência, a sua liberdade, os seus direitos não se especula, não se transige, não se joga". (Discurso proferido em Belo Horizonte em 1910).
   A este respeito leiamos também Sertillanges, La vie intellectuelle, Paris, 1921, p. 12: "Jouer avec les questions qui dominent la vie et la mort, avec la nature mystérieuse, avec Dieu, se faire um sort littéraire et philosophique aux dépens du vrai, ou hors la dépendance du vrai n'est-ce pas un sacrilége?"
   Para os que não sabem francês vou traduzir. Peço desculpas em não saber fazê-lo com a perfeição que merece tão belo idioma: "Jogar com as questões em cujo domínio, entram a vida e a morte, jogar com a natureza misteriosa, com Deus, habituar-se a um estilo literário e filosófico a espensas da verdade, ou independentemente dela, não é porventura, um sacrilégio?"

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O SANTO ROSÁRIO - (continuação).

   4. Na recitação do Têrço se aumenta em nós a fé, quando contemplamos a vida oculta, pública e gloriosa de Jesus Cristo, que é o "autor e consumador de nossa fé" (Hebr. XII, 2), e exteriormente por meio de orações vocais manifestamos que cremos em Deus nosso Pai providentíssimo; que cremos na vida eterna, na remissão dos pecados e nos mistérios da augustíssima Trindade, da Encarnação, da maternidade divina de Nossa Senhora e de outros; "de modo que, ao recitarmos bem o Rosário, sentimos em nossa alma uma unção suavíssima, como se ouvíssemos a própria voz da Mãe celestial, que amavelmente nos ensina os divinos mistérios e nos indica o caminho da salvação". (Leão XIII).

   5. Pela recitação do Rosário aumenta-nos a esperança de por Maria Santíssima obtermos a abundância da divina misericórdia: pois são justamente os mais importantes mistérios da Redenção, em que Maria apresenta no seu papel de Corredentora: assim na Encarnação, na santificação do Batista, Precursor do Nascimento de Jesus, na apresentação do Menino Jesus no Templo e no encontro do jovem Jesus entre os doutores. Enquanto recitamos o Têrço, mentalmente acompanhamos a Mãe do Redentor no acerbo caminho da cruz, vemo-la, no altar do monte Calvário, unir ao sacrifício de seu Filho; no têrço glorioso a nossa mente se prende à pessoa de Nossa Senhora e medita a fase de sua vida depois da Ressurreição, até sua gloriosa Assunção e Coroação no céu.

   6. Pela recitação do Terço acende-se em nosso coração a caridade, o amor, a gratidão a Jesus e Maria, que tanto fizeram pela nossa salvação. Ao mesmo tempo desperta em nossa alma o desejo de seguir-lhes as pegadas e pertencer-lhes inteiramente. O nosso espírito enleva-se na contemplação dos grandiosos exemplos que se nos deparam nas pessoas de Jesus e Maria. Ele, ansioso por fazer o vontade de seu Pai; ela, fazendo sua consagração perpétua de serva do Senhor.

   7. Três males afligem a sociedade moderna: a aversão a uma vida modesta e laboriosa, a repugnância pelo sofrimento, o esquecimento dos bens futuros. No Rosário encontramos um remédio salutar contra estes três males gravíssimos (Leão XIII). Os mistérios gozosos apresentam-nos na Sagrada Família o modelo perfeitíssimo da vida doméstica: pureza e simplicidade de costumes, perfeita e perpétua harmonia dos ânimos, ordem jamais perturbada, respeito e amor recíprocos, amor e dedicação ao trabalho para poder fazer algum bem ao próximo, tranqüilidade do espírito e alegria da alma, companheiros inseparáveis da consciência reta e bem formada.
   Nos mistérios dolorosos vemos Jesus Cristo entregue a uma tamanha tristeza, que o corpo se lhe cobriu de suor de sangue; vemo-lo preso a modo dos malfeitores, submetido a um julgamento de celerados, maldito, ultrajado, caluniado; vemo-lo preso à coluna da flagelação, coroado de espinhos, pregado na cruz, julgado indigno de ter vida; sua morte é impetuosa e sacrilegamente exigida pelo povo. Com os sofrimentos do Filho unem-se os sofrimentos de sua Mãe Santíssima. O Coração de Maria, apesar de não ser ferido, é transpassado por uma espada de dor, e o título de Mãe dolorosa é a expressão da verdade. Assim o Têrço nos ensina que indigno de usar o nome de cristão é todo aquele que se nega a levar a cruz de sua vida.
   Nos mistérios gloriosos se nos revelam os altos ideais do céu, infinitamente superiores aos bens transitórios e falazes deste mundo. O Têrço glorioso nos faz compreender que a morte não é o cutelo que tudo corta e destrói, mas a passagem desta vida à outra. Ensina-nos que o caminho para o céu é estreito para todos, e diante de nós vemos Nosso Senhor, que nos conforta com a promessa deixada aqui na terra: "Eu vou, para vos preparar um lugar". - Vemos mais, que tempo virá em que Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos e não haverá mais luto, nem lamento, nem dor, mas viveremos em Deus Nosso Senhor, feitos semelhantes a Ele, pois o veremos como é, inebriados pela torrente das suas delícias, concidadãos dos Santos, na companhia felicíssima de nossa Rainha, nossa Mãe Maria, Uma alma que se eleva a tais sentimentos, inflama-se de tal maneira no amor de Deus, que com Santo Inácio de Loiola chega a exclamar: "Oh! como é desprezível a terra, se a comparo com o céu!" e consola-se com a palavra do Apóstolo: "um sofrimento leve e instantâneo importa-nos glória eterna".
   Com efeito, o Rosário mostra-nos a único meio de unirmos o tempo à eternidade, a cidade terrena à cidade de Deus. É o único meio de formar caracteres generosos e magnânimos. 
   

O SANTO ROSÁRIO

Pe. João B. Lehmann. S.V.D. -  Livro: "NA LUZ PERPÉTUA".
   1.  O Rosário é uma devoção sumamente meritória:
   Uma oração é tanto mais meritória, quanto mais cara é a Deus. Ora, o Rosário compõe-se justamente das duas orações mais caras a Deus, o Pai-Nosso, ensinado pelo próprio Deus feito homem, e da Ave-Maria, como nô-la ensinaram o Arcanjo São Gabriel e, por inspiração de Deus, Santa Isabel e a Santa Igreja. Se os Santos do Paraíso pudessem voltar à terra e aumentar seus méritos, de preferência a qualquer outra oração, se serviriam do Pai-Nosso e da Ave-Maria para honrar e louvar a Deus.
   Uma oração é tanto mais meritória, quanto mais a invocação material for vivificada pela intenção espiritual e pelo afeto do coração. Pouco ou nenhum valor teria a recitação vocal, se não partisse da devoção interna da alma.
   Pois bem, o Rosário une perfeita e graciosamente a oração vocal com a mental, apresentando à nossa meditação os Mistérios da nossa Redenção.
   Recitando o Rosário, dirigimos o nosso pensamento a Deus, ao Filho de Deus e à Mãe de Deus. Estes afetos são outros tantos raios de luz sobrenatural, que nos iluminam, nos inflamam, deixando-nos o mérito de uma contemplação, se bem que breve, mas altíssima e proveitosa.
   Uma oração, como qualquer outra obra boa, é tanto mais meritória, quanto mais a nossa vontade se identificar com a de Deus; quanto mais é feita por obediência à legítima autoridade, que é representante de Deus. Pois bem, recitando o Terço, satisfazemos a um dos desejos mais ardentes da Igreja, a qual embora não o tendo como oração propriamente litúrgica, o apregoou sua oração por excelência, distinguindo-a com festa solene e dedicando-lhe o mês inteiro de outubro. "Desejamos ver sempre mais largamente propagada esta piedosa prática (do Rosário) e tornar-se devoção verdadeiramente popular de todos os lugares, de todos os dias". ( Leão XIII).
   Desta maneira, assim como por razão de obediência, o Divino Ofício (breviário) para o clero é a oração mais meritória, assim a recitação do Rosário , recomendada a todos os fiéis, é de um valor inestimável para o povo.

   2. É uma devoção sumamente impetratória:
   A oração tira sua maior eficácia de duas qualidades principais: a perseverança assídua e a união de muitos corações pela mesma oração. Estas duas qualidades vemos admiravelmente ligadas ao Rosário. Com ardente e reiterada súplica se pede, se procura, se bate, faz-se doce violência aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. (No Evangelho diz-se que Jesus, no Horto das Oliveiras, voltou a rezar  por três vezes repetindo sempre as mesmas palavras; e Jesus mesmo nos ensinou a fazermos esta doce violência). Recitado em comum, terá o cumprimento da divina promessa: "Se dois de vós se unirem entre si sobre a terra, qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos Céus. Porque onde estão dois ou três congregados em meu nome, aí estou no meio deles" (Mt. XVIII, 19).
   Eficacíssima é a oração do Rosário, porque dispõe em nosso favor o Coração de Maria, "Que doce alegria não deve ser para ela ver-nos piamente empenhados em lançar-lhe coroas de súplicas e de louvores belíssimos! Se de fato com estas preces rendemos a Deus, como é nosso desejo, a devida honra; se fazemos o protesto de nunca mais procurar outra coisa senão cumprir em tudo sua santíssima vontade; se exaltamos sua bondade e magnifecência, invocando o Pai, e pedindo nos conceda, embora imerecidamente, os mais estimáveis bens; de tudo isto, oh! quanto não se alegrará Maria, e como não enaltecerá ao Senhor! Certamente não pode haver linguagem mais digna para nos dirigirmos à  divina majestade, que a da oração dominical. Tudo que no Pai-Nosso pedimos, é muito reto, muito bem ordenado e conforme à fé, à esperança e à caridade cristã, e já por isto tem o especial agrado da Santíssima Virgem. Além disto, ouvindo-nos rezar, ela reconhece em nossa voz o timbre da voz de seu Filho, que nos deu e nos ensinou à viva voz esta oração e nô-la impôs, dizendo: assim deveis rezar. Maria Santíssima, vendo-nos assim com o Rosário, cumprindo fielmente a ordem recebida, com tanto mais amor e solicitude nos atenderá. As místicas coroas que lhe oferecemos, são-lhe sumamente agradáveis e penhores de graça par nós". (Leão XIII).
   A  própria Rainha do Céu fez-se fiadora da eficácia desta excelente oração. Por seu impulso e inspiração foi que São Domingos fez do Rosário a arma poderosa para combater a heresia dos Albigenses.
   À recitação do Rosário é que a Igreja atribui os seus maiores triunfos, e grata atesta, pela boca dos Sumos Pontífices, que "pelo Rosário todos os dias desce uma chuva de bênçãos sobre o povo cristão". (Urbano IV); "que é a oração oportuna para honrar a Deus e a Virgem, como afastar bem longe os iminentes perigos do mundo" (Sixto IV); "propagando-se esta devoção, os cristãos entregues à meditação dos mistérios, começarão a transformar-se em outros homens, as trevas das heresias dissipar-se-ão e difundir-se-á a luz da fé católica". (São Pio V).

   3. O Rosário é um verdadeiro alimento espiritual:
   Uma oração feita com atenção produz, juntamente com o mérito e com sua eficácia impetratória, o efeito de refeição espiritual; e é precisamente esta atenção que nos falta muitas vezes, pelas distrações a que somos sujeitos, quando estamos a rezar. O Rosário tem em si a virtude de excitar e nutrir em nós o recolhimento, pondo-nos em contato com os mistérios da nossa religião. É a oração do sábio e do analfabeto, pois, como nenhuma outra, se adapta à capacidade de todos.