domingo, 10 de maio de 2020

QUARTO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

 Leituras: Epístola de São Tiago Apóstolo 1, 17-21.
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 16, 5-14:



 "Naquele tempo , disse Jesus a seus discípulos: Eu vou Àquele que me enviou e nenhum de vós me pergunta: Para onde ides? Mas porque vos disse estas coisas, o vosso coração se encheu de tristeza. Digo-vos, porém, a verdade: é bom para vós que eu vá; porque se eu não for, não virá a vós o Consolador; mas, se for, eu vo-lo enviarei. E, quando Ele vier, convencerá o mundo que existe o pecado, a justiça e o juízo. Quanto ao pecado, porque não creram em mim. Quanto à justiça, porque eu vou ao Pai, e já não me vereis. E também quanto ao juízo, porque o príncipe deste mundo já foi julgado. Ainda tenho muitas coisas a dizer-vos, mas agora não as podeis compreender. Quando vier, porém, aquele Espírito de verdade ensinar-vos-á toda a verdade. De si mesmo não há de falar, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   A Santa Madre Igreja já nos vai preparando para a grande festa de Pentecostes, ou a Vinda do Divino Espírito Santo. "Vou para Àquele que me enviou," disse Jesus, " e nenhum de vós me pergunta: para onde vais?" "A vós convém que eu vá, porque se eu não for, não virá a vós o Consolador; mas se eu for, eu vo-Lo enviarei". Jesus disse estas palavras na véspera de Sua morte. Na verdade, só a morte de Jesus nos pôde merecer esta vinda do Enviado do Pai e do Filho, o Divino Espirito Santo. Podemos dizer que a descida do Espírito Santo à Igreja e às nossas almas é o maior fruto da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus trabalhou no meio dos seus Discípulos de um modo visível; depois de sua Morte, Ressurreição e Ascensão ao Céus, enviará o Divino Espírito Santo que continuará a Sua obra, mas agora de maneira invisível, porém, não menos real e eficaz. O próprio Jesus diz que a ação do Divino Paráclito completará a Sua: "Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas vós não as podeis compreender agora. Quando vier, porém, aquele Espírito de Verdade, Ele vos ensinará toda a verdade. O coração dos Apóstolos, ainda endurecido pelo pecado, não pode entender as verdades mais profundas; será necessário que Jesus, morrendo na cruz, destrua o pecado que é, na verdade, o grande obstáculo à ação do Espírito Santo. 

   Caríssimos e amados fiéis, devemos dispor-nos com todo ardor para o Pentecostes a fim de que se renove em nós, em toda a sua plenitude, a descida do Espírito Santo. Esta preparação consiste, sobretudo, numa particular pureza de consciência. Combatamos os pecados até nas suas raízes mais profundas. Procuremos praticar sobretudo as virtudes da pureza, da caridade, doçura e mansidão, humildade e simplicidade. 

   Invoquemos, outrossim, a ação do Espírito Santo sobre a Igreja e sobre todo o mundo. Sobre a Igreja, para que a governe e dirija no cumprimento da sua missão; sobre o mundo, para que o convença da verdade por ele rejeitada. "E Ele, quando vier - disse Jesus - convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo", ou seja, mostrar-lhe-á que é escravo do pecado por não ter acreditado em Cristo, far-lhe-á compreender como só n'Ele, o Redentor, está a justiça e a santidade e mostrar-lhe-á que o demônio, "o príncipe deste mundo", foi finalmente vencido e condenado. 

   Vinde, ó Espírito Santo, santificai-me! Vinde, Espírito de verdade, enchei-me!" A vossa Sabedoria divina me estabelecerá na verdade. Tenho sede dela e quereria que a verdade reinasse na minha mente, nas minhas palavras, nos meus afetos, nas minhas ações, evitando tudo o que lhe é contrário, não só o orgulho, não só a mentira, mas também a dissimulação, a duplicidade, a falta de sinceridade comigo mesmo. Vinde, ó Espírito Santo, abrasai-nos no Vosso amor, e nele inflamados, que sobretudo os sacerdotes transbordem este amor sobre as almas! Amém!

DIA DAS MÃES

DIA DAS MÃE


Teresa menina e sua Mãe
Segundo um desenho de "Celina".
 "Há um nome na pobre linguagem humana que traduz todos os arroubos da alma e toda a sensibilidade do nosso coração. 
  Esse nome põe bálsamo nas feridas mais pungentes da nossa pobre vida. Ele se transforma em constelação de luzes para as noites mais apocalípticas e mais sombrias. Ele acaricia as frontes mais cansadas e decepcionadas do mundo. 
  Esse nome significa o tabernáculo da amizade mais profunda e sincera. O sacrário do amor que não se cansa, da capacidade de sacrifício que não se limita, da renúncia que não se mede, do perdão que não se pode calcular.
   Esse nome que está na alegria de todos os poemas, na sensibilidade de todas as músicas, no sonho de todas as artes, na ternura de todos os corações, é o nome de MÃE. (D. Antônio de Almeida Morais Júnior).

   Na verdade, uma boa mãe não é mais uma mera mulher, é sempre uma santa. "Um coração de mãe", dizia Santa Terezinha, "vale mais que a ciência dos mais peritos doutores". 

   "Como o sol", diz Alves Mendes, "ela é luz, calor, fecundidade. Como o sol alumia, aquece, alegra, move, alenta, expande, acaricia, fascina, atrai: O que é o sol perante os astros é-o a mãe perante os povos - o ponto cêntrico da vida, a fonte da família, a chave da sociedade. Cooperadora da Providência e complemento do homem, a mãe gera, nutre, educa, dá forma, brilho e esmalte à existência. É autora maravilhosa e destra escultora dos seres. Não houve ainda, e não haverá jamais, criatura mais adorável do ela é". 

   Dom Ramón Jara, Bispo de la Serena no Chile, deixou-nos uma página belíssima: RETRATO DE MÃE.

   "Uma simples mulher existe que pela IMENSIDÃO DE SEU AMOR, tem um pouco de DEUS; e pela constância de sua DEDICAÇÃO, tem muito de ANJO; que, sendo NOVA, pensa como uma anciã e, sendo VELHA, age com as forças todas da juventude; quando analfabeta, melhor que qualquer sábio desvenda os SEGREDOS DA VIDA; e, quando SÁBIA, assume a simplicidade das crianças; POBRE, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama, e, RICA, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos; FORTE, entretanto estremece ao choro de uma criancinha, e, FRACA, entretanto se alteia com a bravura dos leões; VIVA, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, MORTA, tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para VÊ-LA DE NOVO, e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios. Não exijam de mim que diga o NOME DESSA MULHER, se não quiserem que ensope de lágrimas este álbum: porque eu a vi passar no meu caminho. Quando crescerem seus filhos, leiam para eles ESTA PÁGINA: eles lhe cobrirão de BEIJOS A FRONTE, e, dirão que um pobre viandante, em troca da suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o RETRATO DE SUA PRÓPRIA 'MÃE'".

   "Se o homem pudesse na idade da razão lembrar o ardor de um só beijo materno, não poderia ter coragem de cometer a menor injustiça para quem o tem beijado tão ternamente... Ensinar aos próprios filhos a praticar o bem é deixar-lhes a mais preciosa herança. Desta maneira podemos asseverar ser-lhes úteis até depois da morte" ( Mantegazza).

   Para terminar não posso deixar de contar um fato do qual fui humilde ministro de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há 35 anos, era padre novo e Capelão dos Hospitais de Campos, RJ. Encontrei, um dia, hospitalizado um senhor de certa idade, que estava bem mal, mas que ainda falava. Conversei com ele procurando incutir-lhe coragem e que tivesse confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo que morreu na cruz por nós. Depois perguntei se não queria uma bênção e eu estava disposto a ajudá-lo a confessar-se para depois dar-lhe a unção dos enfermos e o viático. Respondeu-me que não queria confessar-se porque achava que para ele não havia perdão já que passara toda a vida só praticando o mal. Procurei incutir-lhe confiança na misericórdia divina. A nossa maldade, nossos pecados nunca chegam a ser infinitos; mas a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo é infinita. Por mais graves e numerosos que sejam nossos pecados o sangue de Jesus Cristo tem o poder de lavá-los inteiramente. Deus é Nosso Bom Pai que espera o pecador com paciência, vai a sua procura com toda solicitude e o recebe com toda a alegria quando ele se arrepende. Mas o enfermo continuou naquela tentação de desespero da salvação. Para não cansá-lo nem aborrecê-lo, mudei um pouco o rumo da conversa. Perguntei-lhe se seus pais eram católicos. Ele respondeu: sim, sobretudo minha mãe. Rezou muito por mim, deu-me muitos bons conselhos. Nunca os segui, mas também não os esqueci, embora ela já tenha morrido há muitos anos. Por isso, padre, continuou ele, é que eu digo: para mim não há salvação. Apesar dos conselhos de minha mãe, só pratiquei o mal em toda minha vida. E eu lhe disse: Meu filho, tendo sido sua mãe como o sr. explicou, tendo ela cumprido o seu dever de estado como uma mãe verdadeiramente cristã, o sr. pode ter certeza que ela está no céu. E ainda lhe digo mais: o sr. pode ter certeza que se o sr. está tendo a graça de ter ao seu lado um padre na hora da morte, é porque sua santa mãe está lá no céu pedindo a Nosso Senhor Jesus Cristo esta graça tão grande. E o sr. pode ter certeza que ela o aguarda no paraíso. E o doente, então, começou a chorar! Deixei. Depois, dei-lhe o Crucifixo para beijar. Beijou-o e disse-me: Senhor padre, sinto neste momento que agora quero receber o perdão dos meus pecados, mas nunca me confessei. Eu disse-lhe: Meu filho, esta é minha missão. Todo o meu tempo é dedicado para salvar almas. Posso ficar aqui horas e horas se for necessário, para prepará-lo. De fato fiquei por mais de duas horas talvez. Ele não sabia nada de religião. Depois que  percebi que já sabia o mínimo indispensável para receber os sacramentos, atendi sua confissão que foi a primeira e a última. Dei-lhe a extrema-unção, o Santo Viático e a Indulgência plenária com a Bênção papal. Depois de tudo, chorando ele disse-me: sr. padre, antes de morrer quero fazer-lhe um pedido: em todos os lugares em que o sr. trabalhar conte este fato: um grande pecador se converteu na hora da morte, por causa das orações e conselhos de sua mãe santa. 

   Obedecendo o seu pedido, determinei que todo ano na festa das Mães, contaria este fato, como acabei de fazê-lo. Tenho certeza que esta alma ou já está junto de sua mãezinha no céu, ou está segura de um dia ter esta felicidade eternamente. 

   "DEEM-ME MÃES VERDADEIRAMENTE CRISTÃS, E EU SALVAREI ESTE MUNDO DECADENTE" (São Pio X). 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

COVID-19 E PREOCUPAÇÃO SADIA

  NÃO VOS PREOCUPEIS...


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

Essa pandemia do Corona vírus é ocasião para refletirmos um pouco sobre a tranquilidade que devemos cultivar e o excesso de preocupação que devemos evitar. Fugir da depressão, do estresse e da ansiedade. A depressão, como dizem, é excesso de passado, estresse é excesso de presente e ansiedade é excesso de futuro. Enfim, excesso de preocupações. Vivamos bem o presente, com a confiança de filhos que somos de Deus, pai que se preocupa conosco.
Assim nos disse Jesus no seu Sermão da Montanha, ensinando-nos a pôr a nossa confiança em Deus. É a receita da tranquilidade: “Não vos preocupeis quanto à vossa vida... Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que eles?... Aprendei dos lírios do campo, como crescem. Não trabalham nem fiam, e, no entanto, eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só dentre eles... Vosso Pai celeste sabe que precisais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não fiqueis preocupados com o amanhã, pois o amanhã terá sua própria preocupação! A cada dia basta o seu mal” (Mt 6, 25-34).
Claro que é normal a sadia preocupação. Jesus nos adverte contra a preocupação excessiva, com ansiedade: Não fiqueis excessivamente preocupados com o amanhã, ele quis dizer. A cada dia basta o seu mal. Nem com o passado, que não existe mais e está nas mãos de Deus, nem com o futuro, que a ele pertence. “Que a saudade do ontem e o medo do amanhã não roubem a alegria do nosso hoje” (Pe. Roque Schneider). Foi a oração de São Pio de Pietrelcina: “Senhor, eu peço para o meu passado a vossa misericórdia, para o meu presente o vosso amor, para o meu futuro a vossa providência”. E fiquemos tranquilos assim. Precisamos controlar as lembranças do passado e as expectativas do futuro, para não perdermos a paz de espírito no presente.
Mas não termos a preocupação ansiosa não significa que não devamos ter cuidados, precauções, prudência e prevenções. Deus mandou que a Sagrada Família de Belém fugisse para o Egito, porque Herodes queria matar o menino (Mt 2, 13). Também quando Deus mandou que retornassem para Israel, São José não quis voltar para a Judéia, com medo do filho de Herodes.  O próprio Jesus, quando foi tentado pelo diabo para que se lançasse do alto do templo, confiando que o Pai o protegeria, resistiu a essa tentação, dizendo que isso seria tentar a Deus. Quando ouviu a notícia de que Herodes tinha prendido e assassinado João Batista, retirou-se dali (Mt 14, 15); quando os judeus quiseram apedrejá-lo, escondeu-se deles (cf. Jo 8, 59). Quando aumentou o perigo, Jesus não quis andar pela Judeia, porque os judeus procuravam mata-lo (Jo 7, 1). Alguém acusaria Jesus e São José de não terem tido fortaleza, fé e confiança em Deus, para arrostar imprudentemente os perigos? Não! Agiram com sadia preocupação e prudência.  
Assim, não nos preocupemos ansiosamente, mas, com confiança em Deus, procedamos com cautela e os cuidados necessários que nos são recomendados pelas pessoas prudentes.

        *Bispo da Administração Apostólica Pessoal
                                                                         São João Maria Vianney


segunda-feira, 4 de maio de 2020

REVESTIR-SE DE JESUS

"Irmãos: Sabeis que já é hora de despertar-vos do sono, pois, a salvação está agora mais perto de nós, do que quando abraçamos a fé. A noite passou e aproxima-se o dia. Renunciemos, portanto, às obras das trevas, e revistamo-nos das armas da luz. Caminhemos honestamente como quem anda em plena luz, não em excesso de comida ou de bebida, não em dissoluções e impurezas, nem em contendas e emulações. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo." (Rom. XIII, 11-14)

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Primeiramente queria lembrar a todos que o pecador Agostinho, filho de Santa Mônica, passou definitivamente da trevas do erro e da morte do pecado para a luz da verdade e a vida da graça, através desta Epístola: Achando-se ele com seu amigo Alípio em um jardim, ouviu uma voz que lhe dizia: "Toma e lê". Impressionado com estas palavras misteriosas, segura o livro que vê ao seu lado e abre-o exatamente na página em que se encontra esta Epístola. Foi o golpe certeiro da graça a quebrar a última corrente férrea que ainda o detinha preso ao mundo de trevas e impurezas. Converteu-se! E oxalá, muitos e muitos lendo e meditando estas palavras inspiradas das Sagradas Escrituras, se convertam como aconteceu com Agostinho. 

   "Já é hora de despertarmos do sono".  Caríssimos, o sono é necessário para restaurar as forças, e por isto, reduz-nos à inércia. É indispensável para a vida física, mas referindo-se à vida espiritual, na linguagem ascética, o sono é sinônimo de negligência, de torpor nas coisas de Deus, é símbolo da tibieza. A alma vive esquecida de Deus, apegada que está muito mais à coisas exteriores da terra. Daí a oração ou é frequentemente omitida ou, então, feita com certo enfado. O mesmo acontece com a recepção dos sacramentos. A alma na tibieza fica alheia a todo amor divino e busca antes vãs consolações nos corações humanos. Quase não se mortifica. Preocupada com o tempo presente, não lhe interessam os destinos da vida futura. Nesta indolência espiritual a alma fica fraca e cai facilmente em pecado veniais deliberados e geralmente em quedas fatais. Do sono da alma passa facilmente à morte da alma. Por isso São Paulo define o pecado como sendo "obra das trevas". Na verdade é o príncipe das trevas que o inspira. E o pecado conduz ao reino das trevas. Por isso grita o Apóstolo: "Despojai-vos, pois, das obras das trevas" e "revistamo-nos das armas da luz". Devemos procurar a força na oração, meditação dos novíssimos, da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, procurar o força nos Sacramentos da Penitência e da Comunhão. Devemos estar acordados, bem vigilantes, para afastarmos as tentações do príncipe das trevas, com a mesma prontidão e energia com que afastamos uma brasa que cai em nossas vestes. 

   Assim com as palavras da Epístola da Missa do 1º Domingo do Advento, São Paulo anima os tíbios a acordarem do sono do espírito; aos pecadores o Apóstolo ordena que rejeitem as obras das trevas. Aconselha os fracos que empunhem as armas da luz. A todos São Paulo exorta a que se revistam de Jesus Cristo. 

   Para terminar, caríssimos, vejamos o que significa afinal "revestir-se de Jesus Cristo". Significa tomar os mesmos sentimentos de Jesus Cristo, seguir a sua doutrina, imitar seus exemplos, reproduzir suas virtudes. Significa, outrossim, unir-se interiormente a Deus com o maior grau de santidade possível e exteriormente revelar, através da nossa conduta, a bondade, caridade, e doçura de Jesus Cristo. 

   Por isso, é com imensa tristeza que constatamos que muitos cristãos, em lugar de ser o perfume de Jesus Cristo entre os demais, violando, portanto, a missão que lhes cabe de revelarem Jesus aos homens, profanam com sua vida, a vida d'Aquele que deviam com suas virtudes honrar e glorificar. 

  Ó Jesus, fazei que, pela prática das virtudes, especialmente da humildade e mansidão, eu possa ser o bom odor vosso junto aos meus irmãos. Amém!

FESTA DE SANTA MÔNICA NO CALENDÁRIO TRADICIONAL

MÃE E FILHO SANTOS 

                                                                                                                                             Dom Fernando Arêas Rifan*


          Dois santos admiráveis foram celebrados nessa semana: Santa Mônica (dia 27) e Santo Agostinho (dia 28), do século IV, cuja vida faz bem relembrar.
Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, na Região de Cartago, na África, filho de Patrício, pagão, e Mônica, cristã fervorosa. Segundo narra ele próprio, Agostinho bebeu o amor de Jesus com o leite de sua mãe. Infelizmente, porém, como acontece muitas vezes, a influência do pai fez com que se retardasse o seu batismo, que ele acabou não recebendo na infância nem na juventude. Estudou literatura, filosofia, gramática e retórica, das quais foi professor. Afastou-se dos ensinamentos da mãe e, por causa de más companhias, entregou-se aos vícios. Cometeu maldades, viveu no pecado durante sua juventude, teve uma amante e um filho, e, pior, caiu na heresia gnóstica dos maniqueus, para os quais trabalhou na tradução de livros.
Sua mãe, Santa Mônica, rezava e chorava por ele todos os dias. “Fica tranquila”, disse-lhe certa vez um bispo, “é impossível que pereça um filho de tantas lágrimas!” E foi sua oração e suas lágrimas que conseguiram a volta para Deus desse filho querido transviado.
Agostinho dizia-se um apaixonado pela verdade, que, de tanto buscar, acabou reencontrando na Igreja Católica: “ó beleza, sempre antiga e sempre nova, quão tarde eu te amei!”; “fizestes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós!”: são frases comoventes escritas por ele nas suas célebres “Confissões”, onde relata a sua vida de pecador arrependido. Transferiu-se com sua mãe para Milão, na Itália. Dotado de inteligência admirável, a retórica, da qual era professor, o fez se aproximar de Santo Ambrósio, Bispo de Milão, também mestre nessa disciplina. Levado pela mãe a ouvir os célebres sermões do santo bispo e nutrido com a leitura da Sagrada Escritura e da vida dos santos, Agostinho converteu-se realmente, recebeu o Batismo aos 33 anos e dedicou-se a uma vida de estudos e oração. Ordenado sacerdote e bispo, além de pastor dedicado e zeloso, foi intelectual brilhantíssimo, dos maiores gênios já produzidos em dois mil anos da História da Igreja. Escreveu numerosas obras de filosofia, teologia e espiritualidade, que ainda exercem enorme influência. Foi, por isso, proclamado Doutor da Igreja. De Santo Agostinho, disse o Papa Leão XIII: “É um gênio vigoroso que, dominando todas as ciências humanas e divinas, combateu todos os erros de seu tempo”. Sua vida demonstra o poder da graça de Deus que vence o pecado e sempre, como Pai, espera a volta do filho pródigo.
Sua mãe, Santa Mônica, é o exemplo da mulher forte, de oração poderosa, que rezou a vida toda pela conversão do seu filho, o que conseguiu de maneira admirável. Exemplo para todas as mães que, mesmo tendo ensinado o bom caminho aos seus filhos, os vêm desviados nas sendas do mal. A oração e as lágrimas de uma mãe são eficazes diante de Deus. E a vida de Santo Agostinho é uma lição para nunca desesperarmos da conversão de ninguém, por mais pecador que seja, e para sempre estarmos sinceramente à procura da verdade e do bem. 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

sábado, 2 de maio de 2020

SANTO ATANÁSIO

   Homem providencial, que Deus deu à sua Igreja, para defender a divindade do Seu Verbo. Nasceu no Egito pelo ano de 295. Pelos 25 anos da sua idade, era diácono da igreja de Alexandria e muito dedicado ao seu bispo Alexandre, a quem auxiliou, desde o começo na campanha contra o arianismo, acompanhando-o a Nicéia e tomando parte muito ativa no Concílio.
   Tendo falecido Alexandre, foi elevado à categoria de bispo Patriarca de Alexandria, tendo apenas 33 anos.
   Atanásio, diz Mourret, era de pequena estatura, franzino, mas de porte firme e rosto nobre.
   Desde a sua elevação ao episcopado, diz Tixeront, a sua história confunde-se com a da ortodoxia nicena, Ninguém esteve mais vigilante e ninguém defendeu mais corajosamente a divindade do Verbo do que ele. Foi o maior dos inimigos dos arianos. Não houve violência que o atemorizasse, nem prepotência que o fizesse transigir. Como bispo de Alexandria, durante 45 anos combateu arduamente o erro, pela pregação e por meio de escritos, e sofreu por isso cruéis peseguições e calúnias, sendo cinco vezes exilado.
   Santo Atanásio brilha na história pela valentia do seu ânimo e pela firmeza do seu caráter, que nunca quebrou, nem torceu, no meio das mais violentas tempestades. Parecia que todos os poderes do mundo se tinham conjurado contra ele; o ímpério e os seus agentes, os sábios, os filósofos e, ao menos em grande parte, o próprio episcopado. E, segundo alguns historiadores, até o papa Libério o teria abandonado. Mas não vacilou um momento, porque tinha a mais profunda convicção de que defendia a verdade e a confiança mais absoluta de que Deus lhe concederia a vitória. Todavia, tão forte como prudente, nunca desprezou os meios humanos, que Deus colocara ao seu alcance, defendendo-se qual outro São Paulo, protestando, fugindo, escondendo-se (certa vez ficou vários meses escondido no túmulo de seu pai), trabalhando.
   Aplicou-se diligentemente, a defender a consubstancialidade do Verbo, evitando, propositadamente, quaisquer especulações, ou teorias, que pudessem comprometer a exposição ou a defesa desta verdade. Ninguém como ele, sabia descobrir o ponto fraco de uma questão, a falta de lógica de um argumento, ou encontrar a distinção precisa para tirar à heresia toda a possibilidade de defesa. Daí a sua grande influência nos concílios e o conseqüente ódio dos arianos contra ele.
   Como literato Santo Atanásio não procurou a elegância do estilo. O seu espírito, claro e preciso, sabia muito bem o que queria dizer e di-lo numa linguagem firme, apropriada, sem ornatos escusados, sem arrebiques de retórica e sem a mínima ambiquidade que pudesse ser explorada pelos espertos arianos. Pôs nos seus escritos, isto sim! toda a sua alma.
   Como exemplo do que acabamos de expor, eis apenas um pequeno trecho de uma carta circular que ele escreveu a todos os bispos no ano de 340: "... Com efeito,  não é de agora que a Igreja recebeu ordem e constituição definida. Ela vos foi transmitida pelos pais como algo bom e seguro. Também não é de agora o início da fé. Ela veio a nós do próprio Senhor através dos Apóstolos. Queira Deus que não se renuncie hoje àquilo que foi conservado na Igreja desde o início até ao nosso tempo; queira Deus que não sejamos nós a defraudar o que nos foi confiado. Irmãos, como administradores dos mistérios de Deus, deixai-vos comover, uma vez que vedes como tudo isso é roubado pelos outros. Ouvireis mais da boca dos portadores desta carta; a mim impõe-se-me apresentar isto de forma resumida, para que realmente reconheçais que tal coisa jamais aconteceu contra a Igreja desde o dia em que o Senhor, subindo ao céu, confiou sua missão aos Apóstolos com as palavras: "Ide pelo mundo; ensinai a todos os povos e batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo"...

   "...Mas por isso não deveis  temer a malvadez dos adversários; deveis, isso sim,... indignar-vos contra as novas manobras de que somos vítimas. Pois, se um membro sofre, todos sofrem junto e, segundo a palavra do Apóstolo, devemos chorar com os que choram. Uma vez que é a grande Igreja que sofre, cada um deve providenciar pacientemente para que o crime receba o castigo. Por todos eles, é o Salvador que é injuriado. São as leis de todos que são dissolvidas por eles. Por todos estes motivos peço-lhes... que condenem os ateus, para que agora os sacerdotes daqui e o povo vejam a vossa verdadeira fé unânime em Cristo, e para que aqueles que  erraram tanto na Igreja se sintam atraídos para voltarem a ela e cheguem a uma mudança de orientação. Saúdo a comunidade dos irmãos que estão junto a vocês! Todos os irmãos reunidos comigo os saúdam. Que o Senhor os guarde incólumes e em fiel comunhão de pensamento conosco..."
   SANTO ATANÁSIO!  ROGAI POR NÓS!
   N.B.: Sua festa é celebrada no dia 2 de maio.

  O que certamente se gostaria de saber ainda sobre Santo Atanásio é o que ele mesmo teria dito do Papa Libério. Santa Atanásio escreveu inúmeras obras. Os vários anos que ficou no exílio ou escondido dos arianos, aproveitou-os também para desenvolver o seu zelo, sobretudo, escrevendo. Além de ter escrito a vida de Santo Antão que exerceu admirável influência nas vocações monásticas, escreveu ainda as seguintes obras: 1-Exegese: Comentários sobre o Eclesiastes e outro Sobre o Cântico dos Cânticos, As Cadeias (Catenae) sobre o Livro de Jó; Exposição sobre os Salmos. 2- Obras de Apologia: Discurso sobre os gregos e sobre a Encarnação do Verbo;  3- Obras Dogmáticas: Discursos contra os arianos; Um tratado da Encarnação contra os Arianos; Uma exposição da Fé; há várias outras obras, mas apócrifas. Por isso mesmo não as citarei a não ser a mais afamada: O Símbolo "Quicumque". 4. - Obras histórico-apologética: A Apologia contra os arianos, Um escrito contra Valente e Ursácio, Apologia ao Imperador Constâncio, Apologia de sua fuga (era acusado por ter fugido: É certo que se ocultou, no uso de um legítimo direito, não para obedecer ao medo, mas para poupar a vida e poder continuar a fazer ouvir bem alto a voz da verdade.); Carta do doutrina de Diniz; Decretos do Concílio de Niceia; O Tratado dos Símbolos de Rímini na Itália e de Selêucia na Isaura; A História dos Arianos aos Monges. 5 - Obras de Moral e Disciplina: Vida de Santo Antão; Tratado sobre a Virgindade; Uma doutrina ad Antiochum; Uns Cânones Eclesiásticos; Uma série de Homilias; 6 - As Cartas: são muito valiosas e cheias de interesse, tanto para a História como para a Doutrina. E algumas delas podemos considerá-las verdadeiros Tratados.
  Santo Atanásio tem uma frase contra o Papa Libério: "Historia Arianorum ad Monachos", c. 41: "Liberius, extorris factus, post biennium denique fractus est, minisque mortis perterritus subscripsit". Em Português: "Libério tendo sido desterrado, depois de dois anos finalmente abateu-se, e aterrorizado pelas ameaças de morte, subscreveu".

                       

quinta-feira, 30 de abril de 2020

ORAÇÃO DE SANTA CATARINA DE SENA PELO MUNDO E PELA IGREJA

   "Rogo-Vos, agora, Pai Eterno, tende piedade do mundo e da Santa Igreja. Não demoreis em usar de misericórdia para com o mundo. Escutai e realizai o desejo dos vossos servidores. Vós mesmo Vos fizestes clamar; escutai, pois, as suas vozes. Vosso Filho aconselhou que chamássemos, pois obteríamos resposta; que batêssemos, que a porta nos seria aberta; que pedíssemos, pois haveríamos de receber".
   "Ó Pai, vossos servidores imploram misericórdia; respondei-lhes, pois. Sei que a misericórdia é atribuída a Vós; não podeis deixar de concedê-la a quem suplica. Vossos servidores batem à porta do Vosso Filho; eles conhecem o amor que tendes pelo homem e por isso batem à vossa porta. A chama do Vosso amor não pode, não há de recusar a quem insiste com confiança. Abri, pois. Descerrai, despedaçai os corações endurecidos dos Vossos filhos. Eles mesmos nada pedem; escutai, porém, em força de Vossa infinita bondade e por amor dos Vossos servidores, que suplicam por eles. Vede como se acham ante a porta do Vosso Filho e clamam".
   "Que Vos pedem eles? O Sangue do Vosso Filho. Em tal Sangue lavastes o pecado e apagastes a mancha da culpa de Adão. É Sangue nosso, nele nos lavastes. Não ireis desdizer-Vos, nem o quereis diante de quem Vos implora. Concedei, pois, aos homens o fruto do Sangue. Colocai no prato da balança o preço do Sangue de Jesus, para que o demônio não mais arrebate as ovelhinhas. Vós sois o Bom Pastor, pois nos destes o Vosso Filho. Por obediência Ele morreu pelas ovelhas, lavando-as no Sangue. É esse Sangue que Vossos servidores pedem, como mendigos à Vossa porta. Rogam pelo mundo: que o perdoeis. Que a Santa Igreja floresça novamente com bons e santos pastores; que desapareça a iniquidade dos ministros maus".
   "Ó Eterno Pai! Prometestes misericórdia para o mundo, prometestes reformar a Santa Igreja, prometestes dar-nos conforto pelo amor que tendes aos homens e em atenção à oração dos Vossos servidores, bem como pela paciência que demonstram nas adversidades. Não demoreis em volver-nos um olhar piedoso. Já que amais dar resposta antes mesmo que peçamos, dizei uma palavra de perdão. Abri a porta da Vossa inestimável caridade, manifestada a nós no Verbo Encarnado. Bem sei que a abris antes de pedirmos. Baseando-Vos no próprio amor que lhes destes, Vossos servidores clamam à procura de Vossa glória e da salvação das almas. Concedei-lhes o pão da vida, ou seja, o fruto do Sangue. Eles o imploram para a glória do Vosso nome e para a santificação dos homens. Ao que parece, a salvação de numerosas pessoas dá maior glória a Vós, do que se todos fossem deixados no obstinação do mal. Tudo Vos é possível, Pai Eterno! Embora nos tenhais criado sem nossa colaboração, sem ela não nos quereis salvar; rogo-Vos, pois, que façais tais pessoas desejar quanto os vossos servidores imploram. Eu o imploro por Vosso infinito amor. Vós nos criastes do nada; agora existimos. Perdoai e reformai os vasos construídos à Vossa imagem e semelhança; reformai-os para a graça na misericórdia do Sangue do Vosso Filho".
                                               ( Livro "O Diálogo" de Santa Catarina de Sena, Terceira Parte, Cap. 29.2 ).

   Caríssimos e amados leitores, a exemplo dos santos, rezemos com fé, humildade e confiança, pela Santa Igreja, hoje invadida e dominada pelos modernistas, os piores inimigos da Igreja, como declarou São Pio X.
   As Sagradas Escrituras comparam os maus pastores a cães mudos que não podem ladrar: (Cf. Isaías, LVI, 10 ). Assim a Bíblia nos autoriza a comparar os bons pastores a cães que ladram.    Ora, a Santa Igreja, como denunciou São Pio X e mais tarde confirmou o Papa Pio XII, está invadida pelos inimigos. Penso que  os bispos e padres que lutam para defender a Fé e que foram injustamente suspensos têm que aproveitar a oportunidade de poder estar dentro da sua casa para mais eficazmente expulsar os invasores. Quando uma casa é invadida e os donos e seus verdadeiros filhos são expulsos, pouco adianta os cães ficarem latindo no terreiro. Têm que entrar com cuidado é claro; mas, embora a luta seja mais renhida, corpo a corpo, será mais eficaz e meritória. Temos que fazer como Santa Joana d'Arc, mas na ordem espiritual. Até acho que atualmente, não é a hora azada para se pensar em regularização canônica. Por isso entendo a prudência do Superior da Fraternidade em se preocupar em ser recebidos como sempre foram, pela graça de Deus, verdadeiros católicos.  
   É óbvio que os verdadeiros católicos têm que procurar fazer exatamente o que os modernistas não querem; e ter o cuidado em não fazer o que querem. Os modernistas tripudiam sobre as lamentáveis rebeliões e consequentes divisões provocadas entre os tradicionalistas. Alguns julgam estar resistindo ao progressismo, mas, na verdade, estão enfraquecendo a verdadeira "RESISTÊNCIA"  a esta terrível crise dentro da Igreja e em toda Sociedade. 
Todos aqueles que pretendem estar trabalhando para o Reinado do Sagrado Coração de Jesus, mas não têm o espírito reto de, como os Santos, resistir sem faltar com o respeito devido à dignidade divina do sacerdócio, na verdade não estão edificando mas escandalizando e fazendo coro aos inimigos da Santa Madre Igreja. 

   Santa Catarina de Sena, rogai por nós!


quarta-feira, 29 de abril de 2020

SOBRE O ABORTO

 SAGRADO E PERIGOSO


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

               Por causa do julgamento no STF da ADI 5581, que trata da descriminalização do aborto em grávidas de filhos doentes com o Vírus Zika, discutiu-se mais uma vez a questão do aborto provocado, contra o qual devemos ter argumentos sólidos e sadios.
            A nossa Constituição Federal, art. 5º, já tem como cláusula pétrea a inviolabilidade da vida humana, e considera que todos são iguais perante a lei, que visa o bem de todos, mesmo os doentes. Não podem ser discriminados. Não compete a ninguém julgar quem merece morrer ou viver. E o nosso Código Penal considera crime o aborto. Ademais, há que se levar em conta que o povo brasileiro, em sua grande maioria, já se manifestou ser contra o aborto. E, para os cristãos, vige o V Mandamento da Lei de Deus: “Não Matarás”, que proíbe matar um inocente.
            Na sociedade, há um lugar privilegiado, especialmente seguro, refúgio para todos os seus membros: a família, “santuário da vida”, “igreja doméstica”. Na família, há uma pessoa especial, a mãe, geradora da vida, objeto querido do nosso amor, pois é aquela da qual nascemos. E na mãe, há um lugar “sagrado”, o útero materno, sacrário onde a vida é gerada. Assim, no santuário da vida, a família, está esse sacrário da vida, o útero materno, lugar como que sagrado, protegido e seguro. O próprio Deus, quando enviou o seu Filho ao mundo para habitar entre nós, o aconchegou em um útero materno, o da Santíssima Virgem Maria, no qual o Verbo se fez carne e começou a ser um de nós. Por isso dizemos a Maria Santíssima: “bendito é o fruto do vosso ventre”, repetindo a saudação de Isabel (Lc 1, 42).
No caso de um aborto provocado, quando uma vida humana em gestação é artificialmente tirada, sob qualquer pretexto, é no útero materno que tal crime acontece, portanto no lugar mais sagrado do mundo, e, deveria ser, no lugar mais protegido por todas as leis do mundo.
            Raciocinemos: se uma criança já está fora do útero materno, após seu nascimento, não importando o tempo de sua gestação, até bem antes dos nove meses normais, ela é protegida por lei, em qualquer país civilizado, e seu assassinato é por todos considerado um crime hediondo. Todos condenam o infanticídio, seja por que pretexto for. Mas se essa criança ainda estiver no útero materno, a proteção já não é tão segura e ela não é tão protegida pela lei, dos homens, variável segundo a determinação dos que fazem as leis ou as interpretam. São esses homens que pretendem determinar até quando e se vale a pena a vida ser vivida ou não?  
            Assim, o útero materno, ao invés de ser um lugar seguro, tornou-se, por vontade dos homens, um lugar perigoso e arriscado. Fora dele se estaria seguro. Nele, corre-se o risco de ser assassinado sem maiores problemas. É a lógica dos homens, que pensam ser Deus.  
Chamava o Papa São Pio X de monstruosa e detestável iniquidade, própria do tempo em que vivemos, a pretensão de o homem se colocar no lugar de Deus. Foi a tentação dos nossos primeiros pais. Estão aí os absurdos consequentes dessa pretensão.

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal
                                                                         São João Maria Vianney
                                                                       http://domfernandorifan.blogspot.com.br/


domingo, 26 de abril de 2020

EXPLICAÇÃO DO EVANGELHO DO 2º DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

Leituras: Primeira Epístola de São Pedro Apóstolo, 2, 21-25.
                  Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, 10, 11-16:

 "Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: Eu sou o bom Pastor. O Bom Pastor dá a sua vida por suas ovelhas. O mercenário, porém, o que não é pastor, de quem não são próprias as ovelhas, vendo chegar o lobo, deixa as ovelhas e foge; e o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário foge, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor, e conheço minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem. Assim como o Pai me conhece, e eu conheço o Pai, eu dou a minha vida por minhas ovelhas. Outras ovelhas tenho eu ainda que não são deste aprisco. É preciso que eu as chame também e ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!
   
   Eu sou o bom Pastor. Quem assim fala é Jesus - pastor por excelência, pastor que possui todas as qualidades, todas as perfeições para tornar feliz o seu rebanho, procurando-lhe todas as vantagens:
  • Primeira qualidade característica: conhece suas ovelhas. Entre o Bom Pastor e as Suas ovelhas estabelece-se uma íntima relação de conhecimento amoroso, tão íntima, que o Pastor conhece uma a uma as Suas ovelhas. Cada alma pode dizer: Jesus conhece-me e ama-me, não de um modo genérico e abstrato, mas concreto, nas minhas necessidades, nos meus desejos, na minha vida. Para Ele, conhecer-me significa fazer-me bem, envolver-me cada vez mais com a Sua graça, santificar-me. Porque me ama, Jesus chama-me pelo meu nome. Chama-me na oração, nas consolações espirituais, e até nas provações. Chama-me, sobretudo, quando desperta em mim um amor mais profundo por Ele. Perante os Seus apelos, a minha atitude deve ser a da ovelha dedicada que reconhece a voz do seu Pastor e O segue sempre. 
  • O Bom Pastor guia as suas ovelhas: Nosso Senhor Jesus Cristo, na Sua bondade infinita, faz tudo por nós. Ele deixou os seus representantes aqui na terra e disse: "Quem vos ouve, a mim ouve". "Ide e ensinai a todos os povos a observar tudo o que Eu vos ensinei". Deixou a Sua Igreja: "Tu és Pedro (Kefas=pedra) e sobre esta pedra edificarei a MINHA Igreja". 
  • O Bom Pastor caminha à frente de suas ovelhas: Ele mesmo disse: "Eu sou o caminho". Ele nos deu o exemplo, para assim como Ele fez, façamos nós, suas ovelhas. Caríssimos, quereis vós praticar a modéstia, a obediência, a doçura, a paciência, a caridade, o perdão dos injúrias etc? Olhai para Jesus: "Olhai, e fazei segundo o exemplar"...Aprendei de mim, disse Jesus, que sou manso e humilde de coração. 
  • O Bom Pastor guarda e defende suas ovelhas: Assim diz o Salmo 23: "O Senhor é meu Pastor, e nada me falta; colocou-me num lugar de pastos. Conduziu-me à água fortificante. Converteu a minha alma. Levou-me por veredas de justiça, por causa do seu nome. Por isso, ainda que ande no meio da sombra da morte, não temerei males, porque estás comigo. Tua vara e teu báculo me consolaram. Preparaste uma mesa diante de mim, à vista daqueles que me perseguem. Ungiste com óleo a minha cabeça, e quão precioso é o meu cálice que transborda! Tua misericórdia irá após de mim todos os dias da minha vida, a fim de que eu habite na casa do Senhor, durante longos dias". (Na Vulgata é o Salmo 22).  

  • O Bom Pastor nutre suas ovelhas: Ó Senhor, meu Bom Pastor, o que poderíeis ter feito por mim que não tenhais feito? O que poderíeis dar-me, que não me tenhais dado? Vós mesmo Vos fizestes meu alimento e minha bebida. E que alimento mais delicioso e salutar, mais nutritivo e mais fortificante poderia eu encontrar do que o Vosso Corpo e o Vosso Sangue? Jesus, Nosso Bom Pastor, nutre-nos também com a sua doutrina: "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus". Mandou que pedíssemos no Pai-Nosso também o pão nosso de cada dia. E Ele, o melhor dos pais, nada nos poderá negar. "Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Vosso Pai que está nos Céus". Como vimos há pouco no Salmo 22: "O Senhor é meu Pastor, e nada me faltará". 
  • O Bom Pastor dá sua vida pelas suas ovelhas: Basta meditarmos a Sua vida: em Belém, no Egito, em Nazaré, durante seu ministério público, durante sua Paixão. "Amou-me e entregou-se a si mesmo ao sacrifício por mim. Jesus sofreu a morte para nos dar a vida, nos cumular de graças e nos merecer o Céu. Eis, caríssimos irmãos, o nosso verdadeiro e único bom Pastor. Ele não pensa em dinheiro como os mercenários. Resgatou-nos não com dinheiro, ouro ou prata, mas com o Seu preciosíssimo Sangue!
          Ó Jesus, todo meu amor, dai-me, o Vosso ardentíssimo amor para que por ele, com a Vossa graça, Vos ame, Vos agrade, Vos sirva, cumpra os Vossos preceitos, não seja separado de Vós, nem no tempo presente nem no futuro, mas convosco permaneça unido no amor pelos séculos eternos. Amém!

domingo, 19 de abril de 2020

A CONFISSÃO É REMÉDIO CONTRA O ORGULHO E O DESÂNIMO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Sabemos, caríssimos, como o orgulho, a pusilanimidade e o desespero são funestíssimos na vida espiritual do homem.  Com a graça de Deus, veremos  como a Confissão sacramental é, por sua vez, um excelente remédio para estes males.

O orgulho é a fonte de todos os vícios e de todos os pecados. Cometendo pecado o homem se revolta contra Deus e diz, se não de boca, ao menos pelas suas obras: " Não servirei a Deus!" Como Lúcifer, parece dizer que será igual ao Altíssimo (Cf. Isaías, XIV, 14). E sabemos que o orgulho só se pode curar pela humildade e esta só se pode adquirir pela humilhação. Mas sabemos que o ato mais humilhante para o homem decaído é a acusação franca e completa de suas obras, de suas palavras, de seus pensamentos e de seus desejos culpáveis. Pois bem, a confissão é esta acusação. Portanto, de todos os meios o mais eficaz para quebrar o orgulho, é a confissão. Por isso mesmo Tertuliano chama a confissão "a arte de humilhar o homem". E se o pecado entra na alma pelo orgulho, dela deverá sair pela humildade. Isto é feito sobretudo pelo sacramento da Confissão.

O desânimo é outra fonte de faltas. O infeliz que acaba de pecar sabe que manchou sua alma e que não é mais filho de Deus. Desonrado aos seus próprios olhos, não penetra no seu íntimo sem se envergonhar.  O demônio, que não dorme, para o reter em suas correntes, representa-lhe de modo exagerado a enormidade de sua falta, a vergonha que dela resulta, a dificuldade de receber o perdão, a impossibilidade de readquirir a virtude. Eis, que se torna triste, pesado a si mesmo e aos outros. Cai sobre o infeliz uma espécie de depressão. Logo desanima e novas recaídas se seguem. Judas Iscariotes, vendo que Jesus se deixara prender e fora condenado, se arrependeu e sentiu necessidade de ir até aos Príncipes dos Sacerdotes devolver as 30 moedas. Então disseram-lhe: Agora, arranja-te, que te vire! Ah! se o Iscariotes tivesse se ajoelhado diante de Jesus e pedido perdão! Seria perdoado na hora, e retornar-lhe-ia a paz. Mas como não o fez, e, diante da repulsa dos Sacerdotes da Antiga Lei, se desesperou e suicidou-se.


Quando uma alma cai, é necessário o quanto antes reanimá-la. Ora o meio mais eficaz para isto é justamente a confissão. Na verdade, quando o pecador cai e logo é curado da doença secreta que o consumia, torna-se outro homem. Sente-se renovado e parece que a vida recomeça para ele. Daí resulta uma coragem e um ardor de que não se sentia mais capaz. Romper com um passado infeliz, recomeçar a vida, isto é para ele de uma importância sem par. É o que o salva do desânimo e deste suicídio moral que consiste em não mais lutar contra o mal, e de precipitar-se de olhos fechados no abismo aberto aos seus pés.  Com esta renovação de vida, a alma vê reentrar nela a paz, a serenidade, alegria e a felicidade. O remorso a despedaçava quando estava sob o jugo do pecado; o confessor, que ali está no lugar de Jesus, lhe disse: "Filho, vai em paz, que Deus o abençoe!" A alma não duvida da verdade dessa sentença redentora; sabe que está reconciliada com Deus e tornou a ser sua amiga; esta suave segurança expulsou de sua alma todo o medo e toda a inquietação. Que felicidade para o homem ter a seu lado um tribunal onde sabe, com certeza que pode receber o perdão de suas faltas!  

HOMILIA SOBRE O EVANGELHO DO 1º DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

   Leituras: Primeira Epístola de São João 5, 4-10)
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 20, 19-31: 


   
"Naquele tempo, chegada já a tarde daquele dia, que era o primeiro dia da semana, e estando fechadas as portas do lugar onde se achavam reunidos os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio deles, disse-lhes: A paz esteja convosco. E dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se muito os discípulos, vendo o Senhor. Disse-lhes Jesus outra vez: A paz esteja convosco.  Assim como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio. Ditas estas palavras, soprou sobre eles, dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Os pecados daqueles a quem perdoardes ser-lhes-ão perdoados: os pecados a quem retiverdes, ser-lhes-ão retidos. Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles, quando veio Jesus. Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor" Ele, porém, lhes disse: Se eu não vir em suas mãos o sinal dos cravos, se não introduzir o meu dedo no lugar dos cravos, e se mão meter minha mão em seu lado, não acreditarei. Oito dias depois, estavam os discípulos de Jesus outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Veio Jesus, , estando as portas fechadas. E pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco! Depois disse a Tomé: Coloca aqui o teu dedo, o vê as minhas mãos; chega também a tua mão e mete-a em meu lado; não sejas incrédulo, mas fiel. Respondeu Tomé e disse-Lhe: Meu Senhor e meu Deus! Disse-lhe Jesus: Tu creste, ó Tomé, porque viste; bem-aventurados os que não viram e, creram; Jesus fez ainda, em presença dos discípulos muitos outros milagres, que não foram escritos neste livro. Estes, porém foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que, crendo, tenhais a vida em seu Nome."


Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

  Quantos assuntos de meditação nos oferece o Santo Evangelho de hoje: A Bondade e Misericórdia do Coração de Jesus, a paz, a fé, o Sacramento da Penitência! 

   Com a graça de Deus vamos falar sobre a Misericórdia. Como são assuntos que se entrelaçam, falaremos  de passagem também sobre os demais. 

   Caríssimos, a Misericórdia divina é infinita. Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e tenha a vida eterna. Deus espera com paciência o pecador; vai a procura dele com toda solicitude; e recebe com toda alegria o pecador arrependido.  Os Apóstolos estavam sem paz: haviam pecado, abandonado o Mestre, estavam fechados numa casa com medo dos judeus. Jesus ressuscitado lhes aparece. Suas primeiras palavras não foram de repreensão, foram de paz: A paz esteja convosco! Como Jesus é bom!. A paz é um dom tão precioso que sobrepuja todo entendimento humano. Jesus quer que seus discípulos tenham a paz e dá a eles o poder de transmiti-la a todos os pecadores arrependidos: dá-lhes o poder de perdoar os pecados. É o tribunal da misericórdia em que o próprio réu se acusa, mas para ser perdoado. Caríssimos, é o sangue de Jesus Cristo que banha e lava a nossa alma. Não vemos, mas tenhamos fé: "A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados". Façamos um profundo ato de fé: Deus ama-nos com amor infinito, distinto, imutável, se não me afasto d'Ele por um ato consciente de minha livre vontade, como infelizmente fez Judas Iscariotes. Este infeliz apóstolo até se arrependeu, mas não confiou na bondade do Coração de Jesus.

   Ensina a fé que Deus é misericórdia e que por esse motivo se inclina com tanto mais amor para nós quanto mais reconhecermos as nossas misérias: porque a miséria atrai a misericórdia. Invocá-Lo com confiança, é afinal honrá-Lo, é proclamar que Ele é a fonte de todos os bens e nada tanto deseja como conceder-no-los. É por isso que na Sagrada Escritura nos declara vezes sem conta que defere as súplicas dos que esperam n'Ele: "Porque esperou em mim, livrá-lo-ei; protegê-lo-ei, porque conheceu o meu nome" (Sl. XC, 14). Nosso Senhor Jesus Cristo convida-nos a orar com confiança; e, para inculcar esta disposição, recorre não somente às exortações mais insistentes, mas ainda às parábolas mais comovedoras. Ele possui o mais perfeito coração humano, o mais terno, o mais amante, o mais desejoso de praticar o bem, o mais sensível ao esquecimento e à ingratidão. Quando Jesus Cristo pode encontrar uma alma completamente confiante n'Ele e convencida de sua própria miséria, não há maravilhas que não opere nela.

   Quando o sentimento de nossas misérias nos inquietar, meditemos estas palavras de São Vicente de Paulo: "Representais-me as vossas misérias. E quem não se encontra, infelizmente, cheio delas? Tudo está em as conhecer e amar a abjeção que as acompanha, como vós fazeis, sem se deter mais que para nelas estabelecer o fundamento bem firme duma grande confiança em Deus; porque então o edifício levanta-se sobre rocha, de sorte que, ao rugir a tempestade, fica imóvel".  Na verdade, as nossas misérias atraem, efetivamente, a misericórdia divina, quando a invocamos com humildade, e não fazem senão pôr-nos na melhor disposição para recebermos as graças divinas. São Vicente acrescentava que, quando Deus começou a fazer bem a uma criatura, não cessa de lho continuar a fazer até o fim, se ela se não torna excessivamente indigna dele. Assim, as misericórdias passadas são penhor das futuras.

   Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e dos do mundo inteiro; pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro. Meu Jesus, misericórdia! Jesus, eu confio em Vós! Amém!

sábado, 18 de abril de 2020

COVID-19 E DEPRESSÃO




Com tantas mortes, temores e apreensões em virtude deste novo corona vírus, o Covid-19, a depressão pode se tornar mais frequente e mais forte na sociedade atual.

Não é meu intento falar de depressão econômica. Aliás, o Brasil está muito bem servido no ministério da economia com Paulo Guedes. Quero falar da depressão no campo da Teologia Ascética. Na verdade, as Sagradas Escrituras, como é óbvio, não falam especificamente de depressão; mas o Divino Espírito Santo inspirou na Bíblia muitos textos atinentes à tristeza. O que é dito a este respeito, se aplica à depressão, apenas  se fazendo necessários alguns ajustes em pontuais casos.

"A tristeza tem matado a muitos e não há utilidade nela" diz o Eclesiástico XXX, 25. O Eclesiastes VII, 5, no entanto diz: "O coração dos sábios está onde se encontra a tristeza e o coração dos insensatos onde se encontra a alegria". S. Paulo dá a razão desta aparente contradição. Mostra que há uma tristeza boa e uma má tristeza; o mesmo acontecendo com a alegria.  Eis o texto do Apóstolo dos gentios: "A tristeza, que é segundo Deus, produz uma penitência estável para a salvação, embora a tristeza do século produza a morte" (1 Cor. VII, 10). Foi esta tristeza segundo Deus, que levou Davi a regar seu leito com lágrimas todas as noites" (Cf. Salmo 6, 7). Foi esta tristeza mortal que acometeu a alma de Jesus no Getsêmani, oprimido pelo peso dos nossos pecados.

A tristeza que sentimos pelas mortes dos parentes e demais entes queridos ou mesmo de qualquer outra pessoa como vem acontecendo no mundo  pelo Covid-19, esta tristeza, digo, é justa. Deus é que fez assim o nosso coração. É natural. O próprio Jesus chorou diante do túmulo de seu amigo Lázaro; e vendo isto o povo presente exclamou: "Vede como ele o amava!" Caríssimos, porém, esta tristeza justa, para ser boa, é necessário que seja acompanhada de esperança e de conformidade com a santíssima vontade de Deus. É o que ensina S. Paulo falando aos Tessalonicenses: "Mas, não queremos, irmãos que estejais na ignorância acerca dos que dormem (morrem), para que não vos entristeçais com o outros (os pagãos), que não têm esperança" (1 Tessal. IV, 12). E justamente aí está o segredo para se evitar que esta tristeza leve à depressão: conformidade com a vontade de Deus e a esperança de nos encontrarmos novamente e para sempre no Céu. O que se faz necessário é que salvemos nossa alma, e, para tanto devemos fazer em tudo a santíssima vontade de Deus.

O remédio espiritual, pois, para as calamidades no mundo são a conformidade com a vontade de Deus e a fé na vida eterna com a esperança da ressurreição no final dos séculos. A fé é acompanhada da esperança e aperfeiçoada pela caridade, isto é, amor de Deus e amor do próximo. A fé dá-nos a convicção de que Deus governa tudo, a um tempo, com força e suavidade. Pois Ele é Onipotente e é a própria Bondade. Jesus disse que não cai um cabelo de nossa cabeça sem permissão de Deus. E S. Paulo diz: "Para aqueles que amam a Deus tudo concorre para o bem". Assim sendo, é necessário que, embora sintamos as calamidades públicas (como é o caso do Covid-19) e nos pese do mal e sofrimentos dos nossos próximos, porém, por outra parte, considerando estas calamidades enquanto são vontade de Deus e ordenadas por seus justos juízos para Sua infinita Sabedoria tirar deles bens, nos podemos conformar com Sua santíssima vontade. É o que Nosso Senhor Jesus Cristo ensina-nos a pedir no Pai-Nosso: "seja feita vossa vontade, assim na terra como no Céu". Na verdade, no Céu os santos se conformam com a vontade de Deus em todas as coisas, porque em todas elas vêem a ordem da Bondade e Justiça divinas. Assim devemos fazer nós aqui na terra.

É justamente esta conformidade com a vontade divina que suaviza  nossas dores. Vede o santo varão Jó: como sofreu! E que disse depois de perder seus bens, seus filhos e ficar leproso: "Deus me deu, Deus me tirou, o que foi de sua vontade foi feito, seja sempre bendito o seu nome". Assim temos pela fé e confiança inabaláveis que de nosso Pai do Céu através de qualquer calamidade, nos virá algum bem maior. Lembrando, no entanto, que, em última análise, o nosso bem maior é a salvação de nossa alma.

A esperança na ressurreição futura, outrossim, é, como ensina S. Paulo, o nosso consolo nas lágrimas que derramamos na morte de nossos entes queridos. Se, a exemplo de Jesus e por seu amor, levarmos a nossa cruz conformando sempre a nossa vontade com a vontade de Deus expressa nos mandamentos e nos nossos deveres de estado e mostrada também nos acontecimentos adversos, temos esperança inquebrantável de que, seremos ressuscitados brilhantes como o sol nos dia do Juízo Final.

Eis alguns remédios que S. Francisco de Sales nos prescreve em caso de tristeza: "Se fores algum dia, Filotéia, acabrunhada por essa má tristeza, lembra-te destas regras: "Se alguém de vós está triste, diz S. Tiago, pois que ele reze". E, com efeito, a oração é um remédio salutar contra a tristeza porque eleva o nosso espírito a Deus, que é a nossa alegria e consolação (...). "Consola-te com algum canto espiritual; muitas vezes têm eles servido para interromper o curso das operações do espírito maligno; sirva de  exemplo Saul, a quem Davi, com os suaves acordes de sua harpa, livrou do demônio, que o assediava ou possuía. Será bom ocupar-se com alguma ocupação exterior e variar de ocupações, seja para subtrair a alma aos objetos que a entristecem, seja para purificar e aquecer o sangue e os humores; porque a tristeza é uma paixão de natureza fria e seca (... ). Enfim, resigna-te à vontade de Deus, preparando-te a sofrer com paciência essa tristeza enfadonha como um justo castigo de tuas vãs alegrias e não duvides que Deus, depois de ter provado o teu coração, te venha em auxílio" (Filotéia, parte IV, c. XII).

Caríssimos, quando nos virmos a braços com as aflições, como na atualidade com o Covid-19  se alastrando no mundo e ceifando milhares de vidas, voltemo-nos para Jesus. Vamos expor a Ele a nossa dor. Refugiemo-nos em Seu Sacratíssimo Coração. Não deixemos, pois, que as tribulações, as tristezas nos levem à depressão. Conservemos a tranquilidade e a paz, aquela paz que só Deus nos pode dar pela Sua presença em nosso coração. Amém!

sexta-feira, 17 de abril de 2020

COVID-19 E PENSAMENTOS CONSOLADORES DE S. FRANCISCO DE SALES



Na triste conjuntura do Covid-19 com milhões de óbitos em redor do orbe, pensei em trazer aos aflitos alguns pensamentos consoladores, pensamentos estes extraídos das obras de do S. Francisco de Sales. Na verdade, nos livros do santo da mansidão tudo é consolador e amável. "Ninguém sabe como ele, dizia Bossuet, erguer uma alma prostrada, inerte, e animá-la , fortalecê-la, conduzi-la suavemente".

Mas, vamos aos pensamentos consoladores nas doenças e na morte (extraídos do "Livro Pensamentos Consoladores de S. Francisco de Sales", pelo Padre Huguet S.M. :

Quando estiverdes doentes, oferecei as vossas dores, angústias e penas ao Senhor, suplicando-Lhe que as una aos tormentos que Ele por nós sofreu. Obedecei ao médico; tomai os remédios e os alimentos por amor de Deus, lembrando-vos do fel que Ele tomou por nosso amor; desejai sarar para o servir.

Muitas vezes acontecem-nos estes males, para que, como não fazemos penitências voluntárias pelos nossos pecados, façamos as obrigatórias. Apliquemos contudo às enfermidades os remédios convenientes, mas com uma tal resignação que, se a divina mão de Deus os vencer, nos resignemos, e se eles forem eficazes façamos o mesmo. Oh! meu Deus! quanto é bom viver só para Vós, não trabalhar senão para Vós e não nos regozijarmos senão em Vós!

Consolai-vos pensando que é Deus que vos envia as cruzes; porque nada sai desta divina mão que não seja para utilidade das almas que o temem ou para purificar e firmá-las no seu santo amor.

As penas consideradas em si mesmas não podem amar-se; mas consideradas na sua origem, isto é, na providência e vontade divina que as ordena, são infinitamente amáveis. Vede a vara de Moisés estendida, é um serpente terrível, vede-a na mão de Moisés, é uma vara miraculosa. Considerai as tribulações em si mesmas, são insuportáveis; considerai-as na vontade de Deus, são amores e delícias.

As roseiras espirituais não são como as corporais; nestas os espinhos ficam e as rosas caem; naquelas vão-se os espinhos e ficam as rosas.

Nenhum perigo há em desejarmos o remédio; pelo contrário, convém termos o cuidado em procurá-lo, porque Deus é o autor dos remédios.

Julgai se deveis chorar o tempo em que estivestes ralado pelo sofrimento, pois que em um só destes momentos podeis adquirir uma coroa de glória imortal.

O único remédio para a maior parte das nossas doenças espirituais e corporais é a paciência e conformidade com a vontade de Deus.

Adorai do vosso leito a Jesus Cristo no altar e contentai-vos com isso. Daniel, não podendo ir ao templo, virava-se para esse lado para adorar a Deus; fazei o mesmo.

Se não podeis rezar muitas orações durante a vossa doença, ou de vosso marido (esposa ou filho) fazei com que a doença seja uma contínua oração.

Aspirai a Deus por curtos, mas ardentes suspiros do coração; admirai a sua beleza; invocai o seu auxílio; adorai a sua bondade; entregai-Lhe a vossa alma mil vezes por dia; fixai a vossa vista interior no seu palácio; estendei-lhe a mão como uma criancinha a seu pai, para que ele vos guie.

Enquanto estiverdes doente, usai duma meditação regulada; porque suportar os açoites de Nosso Senhor não é menos meritório do que meditar; porque é melhor estar com Jesus Cristo na cruz do que meditá-Lo na oração. Ponde-vos aí na presença de Deus e sofrei aí as vossas dores.

O sofrimento é a mais digna oferenda que podemos dar a quem nos salvou sofrendo.

Não vos inquieteis por não poderdes servir a Deus a vosso gosto; porque sujeitando-vos aos incômodos, servi-Lo-eis ao seu gosto, que vale mais do que o vosso. Seja Ele sempre bendito e glorificado.

Queixai-vos a Deus, com o espírito filial como uma criança à sua mãe; porque sendo com amor, não há perigo em nos queixarmos, nem em pedirmos a saúde, nem em mudarmos de lugar, nem em pedirmos alívio; convém só que façais isto com resignação e amor nos braços da santíssima vontade de Deus.

Suponho que a melancolia servir-vos-á da vossa indisposição para vos entristecer ainda mais e que vendo-vos triste vos inquietareis; mas não o façais, eu vo-lo peço. Se estais pesado, triste e melancólico, não deixeis por isso de estar em paz, e embora penseis que tudo o que fazeis é sem gosto, sem sentimento e sem força, não deixeis por isso de abraçar a Nosso Senhor Crucificado e de Lhe entregar o vosso coração e de Lhe consagrardes o espírito com os afetos lânguidos como estão.


Ou lânguidos ou vivos, ou moribundos, pertencemos a Deus e nada nos separará do seu amor tendo a sua graça. Nunca o nosso coração terá vida senão n'Ele e por Ele; se será sempre o Deus do nosso coração.

As noites são dias, quando Deus permanece em nosso coração, e os dias são noites quando Ele lá não está.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O SINAL DA RESSURREIÇÃO

  O SINAL DA RESSURREIÇÃO


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

A Páscoa, maior festa do calendário cristão, é a celebração da gloriosa Ressurreição de Jesus Cristo, a sua vitória sobre o pecado, sobre a morte e sobre a aparente derrota da Cruz. Cristo ressuscitou glorioso para nunca mais morrer, dando-nos o penhor da nossa vitória e da nossa ressurreição. A Páscoa é a festa da alegria e da esperança na vitória futura. 
Mesmo tendo sido profetizada por Jesus em diversas ocasiões, como sendo o maior de todas os sinais da sua divindade, os Apóstolos demoraram a crer nela. Eles estavam apavorados com a prisão, o julgamento, a paixão e a morte de Jesus, seu Mestre, e com medo de que o mesmo poderia acontecer com eles. A suposição de que eles poderiam roubar o corpo de Jesus é completamente sem fundamento. Os inimigos de Jesus, fariseus e chefes religiosos, sabiam que ele profetizara sua ressurreição no terceiro dia. Por isso foram a Pilatos e pediram que mandasse soldados guardar com segurança o sepulcro de Jesus, o que foi feito: “puseram em segurança o sepulcro, lacrando a pedra e colocando a guarda” (Mt 27, 66). O fato da ressurreição de Jesus não foi algo inventado pelos Apóstolos, eles mesmos incrédulos e temerosos. Só foram convencidos quando foram ao sepulcro e o encontraram vazio, conforme relataram as santas mulheres, que lá foram primeiro para terminar a unção de seu corpo. Foram convencidos mais ainda quando o Senhor lhes apareceu, mostrou-lhes as chagas e comeu com eles no Cenáculo. Tomé, representando a incredulidade de muitos, só acreditou depois que Jesus lhe fez colocar a mão nas suas chagas e penetrar no seu lado aberto pela lança.
Além disso, o próprio Sudário, o lençol que envolveu o corpo do Senhor e com o qual foi sepultado, que guardou misteriosamente a imagem dele e dos seus sofrimentos, ficou no sepulcro, quando Jesus ressuscitou. Era natural que, se alguém tivesse roubado o corpo, o teria levado envolto no lençol.
Ademais, “se se considera a importância que tem o sábado na tradição do Antigo Testamento, baseada no relato da criação e no Decálogo, torna-se evidente que só um acontecimento com uma força extraordinária poderia provocar a renúncia ao sábado e sua substituição pelo primeiro dia da semana. Só um acontecimento que se tivesse gravado nas almas com uma força fora do comum poderia haver suscitado uma mudança tão crucial na cultura religiosa da semana... Para mim, a celebração do Dia do Senhor, que distingue a comunidade cristã desde o princípio, é uma das provas mais fortes de que aconteceu uma coisa extraordinária nesse dia: o descobrimento do sepulcro vazio e o encontro com o Senhor Ressuscitado” (Bento XVI – Jesus de Nazaré II). Este fato extraordinário foi a base da pregação dos Apóstolos. Para testemunhar a verdade da Ressurreição de Jesus, os Apóstolos e mártires de todas as idades deram o seu sangue e a sua vida.
            Feliz Páscoa para todos: fiquemos alegres com a esperança que Jesus Cristo nos dá com o seu triunfo, penhor da nossa vitória no Céu, onde todos esperamos nos encontrar.

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney