quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

OBRIGAÇÕES DE VÁRIOS ESTADOS DE VIDA


 S. Antônio M. Claret

OBRIGAÇÕES DOS CHEFES DE FAMÍLIA
01.  Sustentar a família conforme o próprio estado.
02.  Não dissipar os bens da família em jogos nem em vaidades.
03.  Pagar pontualmente o ordenado aos criados, jornaleiros, etc.
04.  Vigiar sobre os costumes de seus filhos e dependentes.
05.  Procurar que freqüentem a palavra de Deus e os santos Sacramentos.
06.  Corrigi-los com prudência.
07.  Castigá-los sem paixão de ira, etc.
08.  Tratá-los com benevolência.
09.  Tê-los ocupados.
10.  Assisti-los em suas doenças.
11.  Edificá-los com o bom exemplo.
12.  Encaminhá-los a Deus, e proporcionar-lhes bons mestres, patrões, etc.
13.  Procurar a devida separação entre pessoas de diferente sexo.
14.  Não admitir pessoa alguma que possa, com suas conversações, ou de qualquer outra maneira, ser motivo de escândalo à família.

OBRIGAÇÕES DOS FILHOS E DEPENDENTES
01.  Olhar e considerar os pais e patrões como representantes de Deus.
02.  Amá-los de coração.
03.  Respeitá-los devidamente e falar bem deles, tanto em sua presença como em sua ausência.
04.  Obedecer-lhes com prontidão.
05.  Servi-los com fidelidade.
06.  Socorrê-los em suas necessidades.
07.  Sofrer seus defeitos, calando sempre.
08.  Rogar a Deus por eles.
09.  Ter cuidado das coisas de casa.

OBRIGAÇÕES DOS MARIDOS
01.  Amar a sua esposa, como Jesus Cristo a Igreja.
02.  Não desprezá-la, porque é companheira inseparável.
03.  Ter cuidado dela, como guarda de sua pessoa.
04.  Sustentá-la com decência.
05.  Suportar seus defeitos com toda paciência.
06.  Assisti-la com caridade.
07.  Quando necessário, corrigi-la com benevolência.
08.  Não maltratá-la com palavras nem obras.
09.  Não fazer nem dizer coisa alguma diante dos filhos, ainda que pequenos, que possa ser para eles motivo de escândalo.

NB. Continua em próximas postagens. 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

MÁXIMAS PARA CADA DIA DO MÊS


 S. Antônio M. Claret

01.  Deus me vê, Deus me ouve, Deus há de julgar-me.
02.  Deus é meu Criador, meu Redentor, meu Benfeitor, meu Pai: ousarei eu ofendê-Lo?
03.  A alma é minha, é uma só, é eterna... infeliz de mim se a perder!
04.  Se a alma se salvar, tudo está salvo; se ela se perder, tudo está perdido para mim e perdido para sempre.
05.  Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se perder sua alma?
06.  Não há paz, felicidade nem contentamento para quem vive apartado de Deus.
07.  A morte chega na hora menos pensada.
08.  Num instante se peca, num instante se morre, num instante se cai no inferno.
09.  A morte é conforme à vida: tal vida, tal morte.
10.  Fomos criados unicamente por Deus e para o Céu.
11.  Tudo é vaidade, menos amar a Deus.
12.  Um momento de prazer... e depois?... depois uma eternidade de tormentos!
13. Quem poderá habitar em meio do fogo devorador do inferno, e entre os ardores sempiternos?
14.  Que faria um condenado se tivesse o tempo que eu tenho? E eu, que faço?
15.  O inferno está cheio de bons desejos não levados a efeito.
16.  A estrada do céu é estreita e poucos são os que caminham por ela; a estrada do inferno é larga e muitos vão por ela. Convém viver com os poucos, para salvar-se com os poucos.
17.  Breve sofrer, e eterno gozar.
18.  Quem desprezar os pecados veniais, não tardará em cair nos mortais.
19.  Na hora da morte nada nos consolará senão as boas obras, nada nos dará pena senão o mal que houvermos feito.
20.  Foi conveniente que Jesus padecesse e assim entrasse na glória.
21.  Cristo em jejum, eu em fartura! Cristo pobremente vestido, e eu luxuosamente vestido? Cristo entre penas, e eu nadando em delícias?
22.  Faze agora o que quiseres ter feito na hora da morte, porque naquele instante quererás fazê-lo, mas não será tempo.
23.  Vigiai e orai para não cairdes em tentação: Jesus Cristo é quem nos avisa.
24.  É necessário orar e nunca deixar de o fazer.
25.  Sem fazer-se violência a si mesmo, não se entra no reino dos céus.
26.  Ai do mundo por causa dos escândalos; mais desgraçado ainda aquele por quem vier o escândalo. Jesus Cristo mesmo o diz.
27.  Que consolação recebem agora os condenados, dos deleites que gozaram neste mundo, com os quais compraram o inferno?
28.  Aquele que não faz o que pode para salvar sua alma, ou não tem fé, ou é um louco.
29.  Para salvar-se é preciso ter a eternidade na cabeça, Deus no coração, e o mundo debaixo dos pés.
30.  Se desejarmos entrar no céu, lembremo-nos que Maria é a porta do céu.
31.  O Anjo da guarda está sempre conosco; respeitemos sua presença, agradeçamos seu amor, confiemos em seu auxílio, e tenhamos uma terna devoção a S. José.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A IGREJA CORPO MÍSTICO DE CRISTO

A IGREJA CORPO "MÍSTICO" DE CRISTO

"Cristo é a Cabeça do Corpo da Igreja" (Colossenses I, 18).

"Ao meditar este ponto da doutrina católica ocorrem-nos logo aquelas palavras do Apóstolo: 'Onde o delito abundou superabundou a graça' (Rom V, 20). Sabemos que Deus constituiu o primeiro progenitor do gênero humano em tão excelsa condição, que com a vida terrena transmitiria aos seus descendentes a vida sobrenatural da graça celeste. Mas depois da triste queda de Adão toda a humana linhagem, infeccionada pela mancha original, perdeu o consórcio da natureza divina (cf 2 Ped I, 4) e todos ficamos sendo filhos de ira (Ef II, 3). Deus, porém, na sua infinita misericórdia 'amou tanto ao mundo que lhe deu seu Filho unigênito' (Jo III, 16); e o Verbo do Eterno Pai, com a mesma divina caridade, revestiu a natureza humana da descendência de Adão, mas inocente e imaculada, para que do novo e celeste Adão dimanasse a graça do Espírito Santo a todos os filhos do primeiro pai; e estes que pelo primeiro pecado tinham sido privados da filiação adotiva de Deus, pelo Verbo encarnado, feitos irmãos segundo a carne do Filho Unigênito de Deus, recebessem o poder de virem a ser filhos de Deus (Cf Jo I, 12).

"E assim Jesus Crucificado não só reparou a justiça do Eterno Pai ofendida, senão que nos mereceu a nós, seus consaguíneos, inefável abundância de graças. Estas graças podia Ele distribuí-las diretamente por si mesmo a todo o gênero Humano. Quis, porém, comunicá-las por meio da Igreja visível, formada por homens, a fim de que por meio dela todos fossem em certo modo seus colaboradores na distribuição dos divinos frutos da Redenção. E assim como o Verbo de Deus, para remir os homens com suas dores e tormentos, quis servir-se da nossa natureza, assim, de modo semelhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para continuar perenemente a obra começada".
"Ora, para definir e descrever esta verdadeira Igreja de Cristo, - que é Santa, Católica, Apostólica Igreja Romana, nada há mais nobre, nem mais excelente, nem mais divino do que o conceito expresso na denominação "Corpo Místico de Jesus Cristo"; conceito que imediatamente resulta de quanto nas Sagradas Escrituras e nos escritos dos Santos Padres frequentemente se ensina".
"Que a Igreja é um corpo, ensinam-nos muitos passos da Sagrada Escritura. 'Cristo, diz o Apóstolo, é a Cabeça do Corpo da Igreja' (Col I, 18). Ora, se a Igreja é um Corpo, deve necessariamente ser um todo sem divisão, segundo  aquela sentença de Paulo: 'Nós, muitos, somos um só corpo em Cristo' (Rom XII, 5). E não só deve ser um todo sem divisão, mas também algo concreto e visível, como afirma Nosso Predecessor de feliz memória Leão XIII, na Encíclica 'Satis Cognitum': 'Por isso mesmo que é um corpo, é a Igreja visível aos olhos'.

"Estão pois longe da verdade revelada os que imaginam a Igreja por forma, que não se pode tocar nem ver, mas é apenas, como dizem, uma coisa 'pneumática' que une entre si com vínculo invisível muitas comunidades cristãs, embora separadas na fé."
"O corpo requer também multiplicidade de membros, que unidos entre si se auxiliem mutuamente. E como no nosso corpo mortal, quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele, e os sãos ajudam os doentes; assim também na Igreja os membros não vivem cada um para si, mas socorrem-se e auxiliam-se uns aos outros, tanto para mútua consolação, como para o crescimento progressivo de todo o Corpo".

"Mais ainda. Como na natureza não basta qualquer aglomerado de membros para formar um corpo, mas é preciso que seja dotado de órgãos ou membros com funções distintas e que estejam unidos em determinada ordem, assim também a Igreja deve chamar-se corpo sobretudo porque resulta de uma boa e apropriada proporção e conjunção de partes e é dotada de membros diversos e unidos entre si. É assim que o Apóstolo descreve a Igreja quando diz: 'como num só Corpo temos muitos membros, e os membros não têm todos a mesma função, assim muitos somos um só Corpo de Cristo, e todos e cada um membros uns dos outros' (Rom XII, 4).

"Não se julgue, porém, que esta bem ordenada e 'orgânica' estrutura do Corpo da Igreja se limita unicamente aos graus da hierarquia; ou, ao contrário, como pretende outra opinião, consta unicamente de carismáticos, isto é, dos fiéis enriquecidos de graças extraordinárias, que nunca hão de faltar na Igreja. É fora de dúvida que todos os que neste Corpo estão investidos de poder sagrado são membros primários e principais, já que são eles que, por instituição do próprio Redentor, perpetuam os ofícios de Cristo Doutor, Rei e Sacerdote. Contudo, os Santos Padres, quando celebram os ministérios, graus, profissões, estados, ordens, deveres deste Corpo Místico, não consideram só os que têm ordens sacras, senão também todos aqueles que, observando os conselhos evangélicos, se dão à vida ativa, ou à contemplativa, ou à mista, segundo o próprio instituto; bem como os que, vivendo no século, se consagram ativamente a obras de misericórdia espirituais ou corporais; e finalmente também os que vivem unidos pelo santo Matrimônio"


"Antes é de notar que, sobretudo nas atuais circunstâncias, os pais e as mães de família, os padrinhos e madrinhas, e notadamente todos os seculares que prestam o seu auxílio à Hierarquia eclesiástica na dilatação do reino de Cristo, ocupam um posto honorífico, embora muitas vezes humilde, na sociedade cristã, e podem muito bem sob a inspiração e com o favor de Deus subir aos vértices da santidade, que por promessa de Jesus Cristo nunca faltará na Igreja" (Todo o artigo compõe-se de excertos da Encíclica do Papa Pio XII "MYSTICI CORPORIS CHRISTI" - 1943). 

domingo, 28 de janeiro de 2018

São Pio X: "Um dos graves erros do "Sillon" é o interconfessionalismo"

   Apresentamos aqui apenas alguns excertos da Encíclica "Notre Charge Apostolique" com que São Pio X condenou o movimento nascido na França e chefiado por Marc Sangnier: "Le Sillon" ( = Sulco).
   No início foi bom. Eis como São Pio X fala dos bons tempos do "Sillon":
 "O "Sillon" levantou, entre as classes operárias, o estandarte de Jesus Cristo, o sinal da salvação para os indivíduos e as nações, alimentando sua atividade social nas fontes da graça, impondo o respeito da religião nos ambientes menos favoráveis , habituando os ignorantes e os ímpios a ouvir falar de Deus..."
  Era um movimento da juventude. Infelizmente, os sillonistas, como demonstra São Pio X, caíram em vários erros e se tornaram anti-clericais. São Pio X desmascara e condena os seus erros. Mas aqui vamos transcrever o que São Pio X diz sobre o "INTERCONFESSIONALISMO":
"Houve um tempo em que o Sillon , como tal, era formalmente católico. Em matéria de força moral, só conhecia uma: a força católica, e ia proclamando que a democracia havia de ser católica, ou não seria democracia. Em dado momento, entretanto, mudou de parecer. Deixou a cada um em sua religião ou sua filosofia. Ele próprio deixou de se qualificar de "católico", e a fórmula "A democracia há de ser católica" substituiu-a por esta "A democracia não há de ser anti-católica", tanto quanto, aliás, antijudaica ou antibudista. Foi a época do "maior Sillon". Todos os operários de todas as religiões e de todas as seitas foram convocados para a construção da cidade futura. Outra coisa não se lhes pediu a não ser que abraçassem o mesmo ideal social, que respeitassem todas as crenças e que trouxessem um saldo de forças morais. Certamente, proclamava-se, "Os chefes do Sillon põem sua fé religiosa acima de tudo. Mas podem recusar aos outros o direito de haurir sua energia moral lá onde podem? Em troca, querem que os outros respeitem seu direito, deles, de hauri-la na fé católica. Pedem, pois, a todos aqueles que querem transformar a sociedade presente no sentido da democracia, que não se repilam mutuamente por causa de convicções filosóficas ou religiosas que os possam separar mas que marchem de mãos dadas, não renunciando a suas convicções, mas experimentando fazer, sobre o terreno das realidades práticas, a prova da excelência de suas convicções pessoais. Talvez que neste terreno de emulação entre almas ligadas à diferentes convicções religiosas ou filosóficas a união se possa realizar" (Marc Sangnier, discurso de Rouen, 1907); ... "Os camaradas católicos se esforçarão entre si próprios, numa organização especial, por se instruir e se educar. Os democratas protestantes e livre-pensadores farão o mesmo de seu lado. Todos, católicos, protestantes e livre-pensadores terão em mira armar a juventude não para uma luta fratricida, mas para uma generosa emulação no terreno das virtudes sociais e cívicas" (Marc Sangnier, Paris, maio de 1910). Estas declarações e esta nova organização da ação sillonista provocam bem graves reflexões. Eis uma associação interconfessional, fundada por católicos, para trabalhar na reforma da civilização, obra eminentemente religiosa, porque não há civilização verdadeira sem civilização moral, e não há verdadeira civilização moral sem a verdadeira religião: é uma verdade demonstrada, é um fato histórico. E os novos sillonistas não poderão pretextar que só trabalharão "no terreno das realidades práticas" onde a diversidade das crenças não importa. Seu chefe tão bem percebe esta influência das convicções do espírito sobre o resultado da ação, que os convoca, qualquer que seja a religião a que pertençam, a "fazer no terreno das realidades práticas a prova da excelência de suas convicções pessoais". E, com razão, porque as realizações práticas revestem o caráter das convicções religiosas, como os membros de um corpo, até às últimas extremidades, recebem sua forma do princípio vital que o anima. Isto posto , que deve pensar da promiscuidade em que se acharão agrupados os jovens católicos com heterodoxos e incrédulos de toda espécie, numa obra desta natureza? Esta não será mil vezes mais perigosa para eles do que uma associação neutra? Que se deve pensar deste apelo a todos os heterodoxos e a todos os incrédulos para virem provar a excelência de suas convicções no terreno social, numa espécie de concurso apologético, como se este concurso já não durasse há 19 séculos, em condições menos perigosas para a fé dos fiéis e sempre favorável à Igreja Católica? Que se deve pensar deste respeito a todos os erros e deste estranho convite, feito por um católico a todos os dissidentes, fortificarem suas convicções pelo estudo e delas fazer as fontes sempre mais abundantes de novas forças? Que se deve pensar de uma associação em que todas as religiões, e mesmo o livre-pensamento, podem manifestar-se altamente à vontade? Porque os sillonistas que, nas conferências públicas e em outras ocasiões proclamam altivamente sua fé individual, não pretendem certamente fechar a boca aos outros e impedir que o protestante afirme seu protestantismo e o cético, seu cetiscismo. Que pensar, enfim, de um católico que, ao entrar em seu círculo de estudos, deixa na porta seu catolicismo, para não assustar seus camaradas que, "sonhando com uma ação social desinteressada, têm repugnância de a fazer servir ao triunfo de interesses, de facções, ou mesmo de convicções, quaisquer que sejam"?  Tal é a profissão de fé na nova Comissão Democrática da Ação Social, que herdou a maior tarefa da antiga organização, e que, assim afirma, "desfazendo o equívoco em torno do maior Sillon, tanto nos meios racionários como nos meios anticlericais", está aberta a todos os homens "respeitadores das forças morais e religiosas e convencidos de que nenhuma emancipação social verdadeira será possível sem o fermento de um "generoso idealismo". Ah, sim! O equívoco está desfeito; - conclui com ironia São Pio X - a ação social do Sillon não é mais católica; o sillonista, como tal não trabalha para uma facção, e "a Igreja, ele o diz, não deveria, por nenhum título, ser a beneficiária das simpatias que sua ação possa suscitar". Insinuação estranha, em verdade! Teme-se que a Igreja se aproveite, com objetivo egoísta e interesseiro, da ação social do Sillon, como se tudo o que aproveita à Igreja não aproveitasse à humanidade! Estranha inversão de idéias: a Igreja é que seria beneficiária da ação social, como se os maiores economistas já não houvessem reconhecido e demonstrado que a ação social é que, para ser real e fecunda, deve beneficiar-se da Igreja. Porém, mais estranha ainda, ao mesmo tempo inquietantes e acabrunhadoras, são a audácia e a ligeireza de espírito de homens que se dizem católicos, e que sonham refundir a sociedade em tais condições, e estabelecer sobre a terra, por cima da Igreja Católica, "o reino da justiça e do amor", com operários vindos de toda parte, de todas as religiões ou sem religião, com ou sem crenças, contanto que se esqueçam do que os divide: suas convicções religiosas e filosóficas, e ponham em comum aquilo que os une: um generoso idealismo e forças morais adquiridas "onde possam". Quando se pensa em tudo que foi preciso de forças, de ciência, de virtudes sobrenaturais para estabelecer a sociedade cristã, e nos sofrimentos de milhões de mártires, e nas luzes dos Padres e dos Doutores da Igreja, e no devotamento de todos os heróis da caridade, e numa poderosa Hierarquia nascida no céu, e nas torrentes da graça divina, e tudo isto edificado, travado, compenetrado pela Vida e pelo Espírito de Jesus Cristo, a Sabedoria de Deus, o Verbo feito homem; quando se pensa, dizíamos, em tudo isto, fica-se atemorizado ao ver novos apóstolos se encarniçarem por fazer melhor, através da atuação dum vago idealismo e de virtudes cívicas. Que é que eles querem produzir? Que é que sairá desta colaboração? Uma construção puramente verbal e quimérica, em que se verão coruscar promiscuamente, e numa confusão sedutora, as palavras liberdade, justiça, fraternidade e amor, igualdade humana, e tudo baseado numa dignidade humana mal compreendida. Será uma agitação tumultuosa, estéril para o fim proposto, e que aproveitará aos agitadores de massas, menos utopistas. Sim, na realidade, pode-se dizer que o Sillon escolta o socialismo, o olhar fixo numa quimera. Tememos que ainda haja coisa pior. O resultado desta promiscuidade em trabalho, o beneficiário desta ação cosmopolita só poderá ser uma democracia, que não será nem católica, nem protestante, nem judaica; seria uma religião (porque o sillonismo, como seus chefes o afirmam, é uma religião) mais universal do que a Igreja Católica, reunindo todos os homens tornados enfim irmãos e camaradas no "reino de Deus". - "Não se trabalha pela Igreja, dizem, trabalha-se pela humanidade".

Que é a Igreja para o Teólogo Modernista?

  É um parto da consciência coletiva, isto é, da coletividade das consciências individuais, que, por virtude da permanência vital, estão todas pendentes do primeiro crente, que para os católicos foi Cristo. 
  Afirmam os modernistas que foi erro das eras passadas pensar-se que a autoridade da Igreja emanou de princípio estranho, isto é, imediatamente de Deus; e por isso, com razão, era ela considerada autocrática. Estas teorias, porém, já não são para os tempos modernos. Assim como a Igreja emanou da coletividade das consciências, a autoridade nasce também da consciência religiosa, e por esta razão fica dependente da mesma; e se faltar a essa dependência, torna-se tirânica. Nos tempos que correm o sentimento de liberdade atingiu o seu pleno desenvolvimento. No estado civil a consciência pública quis um regime popular. Mas a consciência do homem, assim como a vida, é uma só. Se, pois, a autoridade da Igreja não quer suscitar e manter uma intestina guerra nas consciências humanas, há também mister curvar-se a formas DEMOCRÁTICAS. Seria loucura pensar que o vivo sentimento de LIBERDADE, ora dominante, retroceda. Dizem os modernistas que se a Igreja quiser reprimir e enclausurar este sentimento de liberdade, ele transbordará mais impetuoso, destruindo conjuntamente a religião e a Igreja. 

A IGREJA E A SOCIEDADE CIVIL: São as mesmas regras que serviram para a ciência e a fé. Falava-se outrora do temporal sujeito ao espiritual; nas questões mistas, a Igreja intervinha qual senhora e rainha, porque então se tinha a Igreja como instituída  imediatamente por Deus, enquanto autor da ordem sobrenatural. Mas, dizem os modernistas, estas crenças já não são admitidas pela filosofia, nem pela história. Deve, pois, a Igreja separar-se do Estado, e assim também o católico do cidadão. E é por este motivo também que o católico, não se importando com a autoridade, com os desejos, com os conselhos e com as ordens da Igreja, e até mesmo desprezando as suas repreensões, tem direito e dever de fazer o que julgar mais oportuno ao bem da pátria. Querer, sob qualquer pretexto, impor ao cidadão uma norma de proceder, é por parte do poder eclesiástico verdadeiro abuso, que se deve repelir com toda a energia. (Estas heresias já tinham sido condenadas por Pio VI na "Auctorem fidei").

Observação importante: Hoje que os modernistas comandam e estão nos postos mais elevados da hierarquia, dizem que o povo deve obedecer à hierarquia e em tudo. Assim, o modernismo vai se alastrando também entre os fiéis. Sabemos que, sendo a Igreja divina, nunca faltará o "sensus fidei", isto é, sempre haverá, nem que seja em pequeno número, fiéis que guardem íntegra a Tradição e não aceitem a evolução dos dogmas. Muitos guardam o bom senso de que a Igreja está em crise, e fora do campo da infalibilidade a hierarquia pode fazer e ordenar coisas que favoreçam  à heresia e da parte de bispos, vêem muitas heresias. Assim sendo sabem que não devem obedecer tais ordens. Infelizmente é muito mais cômodo obedecer em tudo e fechar os olhos por conveniência. Talvez, hoje, a maioria age desta maneira e não dá testemunho da verdade.

  Na coisas temporais a Igreja tem que sujeitar-se ao Estado dizem os modernistas. Os protestantes liberais caíram em mais um erro que é a religião individual. 
   O que acabamos de explicar, refere-se à autoridade disciplinar. Agora, as afirmações modernistas em relação à autoridade doutrinal e dogmática. Aí são ainda mais graves e perniciosas. Dizem: A sociedade religiosa não pode deveras ser uma, sem unidade de consciência nos seus membros e unidade de fórmula. Daí tiram o conceito de Magistério eclesiástico: Não é mais do que um produto das consciências individuais, e só para cômodo das mesmas consciências lhe é atribuído ofício público. Assim sendo, ele, dependendo dessas consciências, deve inclinar-se a formas DEMOCRÁTICAS. É abuso da autoridade querer impedir a necessária evolução dos dogmas. Protestando embora o seu profundo respeito à autoridade, o católico deve continuar sempre a trabalhar à sua vontade. Em geral, os modernistas admoestam a Igreja de que, sendo o fim do poder eclesiástico todo espiritual, não lhe assenta bem essas exibições de aparato exterior e de magnificência, com que sói comparecer às vistas da multidão. São Pio X, de imediato, refuta tão descabida crítica modernista: "E quando assim o dizem procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que as honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que a instituiu. 

   A DOUTRINA MODERNISTA DA EVOLUÇÃO NA IGREJA. Têm eles por princípio geral que, numa religião viva, tudo deve ser mutável e mudar-se de fato. Por aqui abrem caminho para uma das suas principais doutrinas, que é a da EVOLUÇÃO.  O dogma, a Igreja, o culto, os livros sagrados a té mesmo a fé, se não forem coisas mortas, devem sujeitar-se às leis da evolução. Dizem ainda os modernistas: A Igreja mostra-se inimiga dos progressos das ciências naturais e teológicas; A verdade não é menos imutável do que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele; Cristo não ensinou um corpo fixo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares; A Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno; O progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, a Criação, a Revelação, a Pessoa do Verbo Encarnado e a Redenção; O Catolicismo atual não pode harmonizar-se com a verdadeira ciência a não ser que se transforme num cristianismo sem dogmas, isto é, num protestantismo largo e liberal. 

sábado, 27 de janeiro de 2018

O PAPA HONÓRIO I E SÃO MÁXIMO, O CONFESSOR

   Honório I foi um papa legitimamente eleito em 625 e que governou a Santa Igreja até sua morte que se deu no ano de 638. Portanto governou a Igreja durante 13 anos.Na lista dos papas legítimos da Igreja, Honório I ocupa o 70º lugar. Dizem os historiadores que ele foi um ótimo administrador. Reconstruiu o Aqueduto de Trajano e o teto da Basílica de São Pedro construída por Constantino. Transformou muitos ambientes pagãos em igrejas cristãs. O essencial, porém, é que um papa seja um muro de bronze contra as heresias. Mas, infelizmente, não o foi.
   Baseada nas Sagradas Escrituras e na Tradição a Teologia Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa (a Pessoa Divina do Filho de Deus); mas são duas naturezas, a divina e a humana, que tem cada uma sua vontade e sua operação; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana.
   A heresia que ensinava haver em Jesus Cristo uma só vontade e uma só operação, chamava-se Monotelismo. E os seus principais chefes foram dois Bispos e Patriarcas: Sérgio e Pirro. É bom saber que Patriarca era a maior autoridade no Oriente. O Bispo Sérgio era Patriarca de Constantinopla; e o Bispo Pirro era Patriarca de Alexandria. Diz São João Bosco que estes dois hereges empregaram toda sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro. E também o Imperador que, na época, era Constante, favorecia os hereges. Para este fim o Bispo Patriarca Sérgio escreveu uma carta mui subtilmente insidiosa ao Papa Honório I. Nesta carta o Bispo Patriarca Sérgio dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente para se evitar tais discussões e escândalos, proibir que se afirmasse haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. E o Papa Honório I não tendo advertido o laço que lhe havia armado o Bispo e Patriarca Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este herege. O Papa Honório I em duas cartas dirigidas ao Bispo Sérgio (Cf. D. 251 e 252) além de expor a doutrina de maneira ambígua (sobre as duas vontades em Jesus Cristo) cai também na cilada do Bispo e Patriarca Sérgio. Eis, em resumo, o que escreveu o Papa Honório I nestas cartas ao Bispo e Patriarca de Constantinopla: 1º - a ambigüidade: Ele afirma que em Jesus Cristo há uma só vontade. A primeira vista e não lendo todo o contexto, e, sobretudo, escrevendo para o Bispo Sérgio que erradamente dizia haver uma só vontade em Jesus Cristo, esta afirmação de Honório I parecia herética. Mas, na verdade, ele queria apenas dizer uma vontade moral, e não física; em outras palavras, ele queria dizer que em Jesus Cristo não podia haver duas vontades contrárias, como acontece conosco pecadores, em que pela concupiscência encontram-se em nós a vontade do espírito e a vontade da carne. Então todos os teólogos dizem que no contexto a doutrina era ortodoxa, mas dado o contexto histórico, ou seja, naquelas circunstâncias, o Papa Honório I deu ocasião para ser mal interpretado, ou melhor dizendo, ele deu azo para ser malevolamente interpretado pelos hereges monotelitas.
   Além desta falha, ou seja a ambigüidade, que é sempre um mal, mas que se torna mais desastrosa na época de heresia, Honório I teve uma outra falha não menos perniciosa: foi negligente e consequentemente imprudente, fazendo não o que os teólogos ortodoxos, como São Máximo monge e São Sofrônio bispo, ensinaram segundo a Tradição e as Sagradas Escrituras, mas deu ouvidos com facilidade, para não dizer com displicência, aos Bispos e Patriarcas hereges Sérgio e Pirro.
   Eis algumas de suas palavras: "Não nos devemos preocupar em dizer ou entender que em Jesus Cristo, por causa das obras da divindade e da humanidade, seja uma ou duas operações. Deixamos estas coisas para os gramáticos discutirem... Nós, porém, não percebemos pelas Sagradas Escrituras, se (em Jesus Cristo) é uma ou se são duas operações, mas vemos que Ele opera de muitas maneiras."... "Portanto, para evitar o escândalo de uma nova invenção, não nos interessa pregar definindo se é uma ou se são duas operações". E depois o Papa Honório I diz que se pode falar em duas naturezas, mas não se deveria empregar a expressão "duas operações". Em latim está assim: "ablato geminae operationis vocabulo".
   Agora vejamos a atitude de São Máximo, o Confessor. Na verdade, não foi só ele que não obedeceu ao Papa Honório I, mas, entre muitos outros podemos citar ainda: São Sofrônio que era Bispo e dois discípulos de São Máximo ambos chamados Anastácio. Um era núncio do Papa, e o outro era monge. Mas vamos falar só de São Máximo, o Confessor. D. Antônio de Castro Mayer na sua carta pastoral "Aggiornamento e Tradição" diz: "Entre os que continuaram a ensinar as duas vontades em Jesus Cristo está o grande São Máximo, chamado o Confessor porque selou com o martírio sua fidelidade à doutrina católica tradicional".
   São Máximo se tornou um dos homens mais sábios do século VII. Sua capacidade era tanto mais notável quanto a cobria uma grande humildade.
   Embora em consciência viu claramente que não podia obedecer ao Papa Honório I, no entanto, nunca lhe faltou o respeito, e na medida do possível, procurou até defender o Papa Honório I. Por exemplo, numa carta a um padre chamado Marino, São Máximo faz ver que os Santos Padres da Igreja reconhecem em Jesus Cristo duas vontades e diz: "Eu estou mesmo persuadido de que o Papa Honório, falando em sua carta a Sérgio de uma vontade, não negou as duas vontades naturais, mas ao contrário, as estabelece. Pois ele somente negou a vontade carnal e viciosa. A razão que dá prova-o, isto é, que a divindade tomou nossa natureza e não nosso pecado".
   São Máximo, apesar da proibição do Papa Honório I, teve uma disputa pública com o Bispo Pirro, Patriarca de Alexandria, e companheiro de heresia do Bispo e Patriarca Sérgio. Pois bem! São Máximo conseguiu refutar o Bispo Pirro e este terminou abjurando a heresia do monotelismo. Mas, talvez influenciado pelas fraquezas que teve o papa Honório I, infelizmente recaiu na heresia.
   Como acontecera com o Arianismo, favorecido pelo Papa Libério (embora isto seja nebuloso) e pelos imperadores, e, por outro lado, combatido por mais de quarenta anos seguidos por Santo Atanásio, o Monotelismo foi favorecido pelo Papa Honório I e também pelos imperadores.
   Quase 1200 anos mais tarde, se discutia no Concílio Vaticano I, a proclamação do dogma da Infalibilidade papal, e os adversários da definição, puseram sobre o tapete a chamada questão de Honório I, e se procedeu a um estudo de todas as fontes documentais e se rechaçou a objeção como infundada.
   1º - A defesa de Honório I, feita pelo próprio São Máximo, como já vimos.
   2º- A defesa feita por alguns papas. Por exemplo: o Papa João IV (640-642) dá, das palavras de seu antecessor o papa Honório I, a mesma explicação dada por São Máximo, que referimos acima.
   3º - A maior objeção contra Honório I, foi o III Concílio de Constantinopla, que foi o VI Concílio Ecumênico na Igreaja (680). Neste Concílio os bispos (que eram em número de 160) condenaram os monotelitas como hereges e entre eles o papa Honório I. Mas é preciso lembrar uma verdade básica sobre um Concílio Ecumênico. E é o seguinte: Os bispos num Concílio Ecumênico são infalíveis em questão de fé e moral. Mas não podemos esquecer que para tanto é absolutamente necessária a confirmação do Papa. Do contrário não é infalível. Pois bem! O que aconteceu neste Concílio de Constantinopla III? Todos os bispos condenaram o Papa Honório como herege. Mas o Papa São Leão II, não aprovou esta condenação de Honório I como herege. É certo que aprovou a condenação dos monotelitas como hereges. Mas quanto ao Papa Honório I, aprovou a sua condenação, ou seja, o lançamento do anátema, não por ter sido herege, mas por ter favorecido a heresia por sua ambiguidade, negligência e omissão. Eis então a condenação do Papa Honório I feita pelo Papa São Leão II: "Anatematizamos também Honório (Papa) que não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por sua traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada (...) "e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica, a chama incipiente da heresia, mas a estimulou por sua negligência". ( Denz-Sch. 563 e 561).
   O Papa Adriano II diz que Honório I foi condenado pelos bispos orientais como herético. Sabemos que os bispos reunidos no 3º Concílio de Constantinopla realmente incluíram o papa Honório I na condenação dos monotelitas como hereges. Mas, como acabamos de ver, a decisão de um Concílio mesmo Ecumênico, depende da aprovação do Papa. E São Leão II aprovou o anátema contra os monotelitas por serem heréticos, mas, quanto ao papa Honório I, lançou um anátema em separado, ou seja, como favorecedor de heresia por ambiguidade, negligência e omissão. E, em um papa, estas faltas são realmente merecedoras de anátema.
   Vamos resumir aqui as falhas do Papa Honório I:
   1º - O Papa Honório I foi ambíguo em expor a verdade. E isto é objetivamente muito grave da parte de um papa. E se torna mais grave ainda se a ambiguidade é sobre uma verdade pregada pela Tradição da Santa Igreja e que está sendo negada pelos hereges como foi o caso. E vejam bem, caríssimos leitores. Apesar de alguns papas sucessores de Honório I terem procurado dar a interpretação ortodoxa da exposição ambígua de Honório I, no entanto, a heresia continuou, alimentada sempre pela fraqueza de Honório I. A ambiguidade é como algo inflamável. Mas, se uma tubulação de gaz está com algum vazamento, é claro que as pessoas de bem evitarão qualquer faísca; mas, não faltará um terrorista para lançar de propósito a faísca.  Então, não é suficiente, colocar um aviso alertando para o perigo. Chama-se imediatamente o Corpo de Bombeiros para eliminar o vazamento. Na verdade, o papa Honório I fora ambíguo. Não resolveu o problema o fato de alguns papas sucessores de Honório alertarem para não se lançar nenhuma faísca herética. Mas a ambiguidade continuava. Consequentemente também o perigo. Então, que fez o Papa Leão II. Eliminou a causa, eliminou o mal pela raiz. Condenou o Papa Honório I pela sua ambiguidade e negligência. E, assim, a heresia do Monotelismo só acabou mesmo depois que São Leão condenou expressamente e de maneira enérgica, as falhas de Honório I. E, para sermos mais preciso, a heresia ainda sobreviveu alguns poucos anos após a condenação de Honório  feita pelo Papa São Leão II; mais ou menos como uma roda de uma máquina que, mesmo depois de desligada da energia elétrica, ainda trabalha mais um pouco pelo impulso anteriormente recebido. É bom, caríssimos leitores, para se avaliar melhor o mal que Honório I causou à Igreja, saber que a heresia do Monotelismo durou mais de 40 anos. O papa Honório I morreu no ano de 638 e o Papa São Leão II condenou-o no ano 680.
   2º- Além da ambiguidade, a segunda falha do Papa Honório I foi a imprudência.
   Se o pastor e guia, não vigia, ai do rebanho!!! Os hereges, sobretudo os saídos da própria hierarquia da Igreja (e a maioria o é) são astutos, são lobos com peles de ovelha. Então, o guia supremo da Igreja, o Papa, deve estar muito atento para não cair nas ciladas dos seus inimigos. Aliás, não é precisamente isto que a Santa Madre Igreja nos ensina a rezar?! ..."et non tradat eum in animam inimicorum ejus"? (Oração pelo Sumo Pontífice na bênção do SS. Sacramento). E pedimos a Deus na Ladainha de Todos os Santos: "Para que Vos digneis conservar em santa Religião o Sumo Pontífice".
   Como diz São Leão II, a atitude de Honório I foi uma "traição sacrílega", porque, como papa, ele tinha obrigação de vigiar e, notando que a fumaça, ou melhor, a chama de Satanás estava começando, ele, como autoridade apostólica e suprema, tinha o grave dever de extingui-la inteira e imediatamente; e, não só não o fez, mas alimentou esta mesma chama com a ambiguidade e negligência e, sobretudo tendo a fraqueza de impor silêncio aos santos e doutos homens da Igreja, São Máximo e São Sofrônio que defendiam a verdade contra os bispos e patriarcas hereges. Ainda bem que estes homens, hoje canonizados pela Igreja, não obedeceram ao Papa Honório I. Não faltaram o respeito ao Papa Honório I, que favorecia a heresia; nem tão pouco caíram no SEDEVACANTISMO.
   Para terminar,vejamos as lições que nos dá São Máximo, o Confessor: Quando um papa, por sua negligência e/ou imprudência, favorece a heresia, em consciência diante de Deus, não podemos obedecer; não podemos segui-lo. Aí, devemos obedecer antes a Deus que aos homens. O Papa Honório I proibiu que se falasse em duas operações em Jesus Cristo. São Máximo não obedeceu e continuou pregando a verdade da Tradição. Talvez, na época, o monge Máximo fosse considerado desobediente e rebelde. Mas hoje sabemos que um papa e aliás, um papa santo, ou seja São Leão II condenou o Papa Honório I como Traidor da Tradição; e o monge Máximo foi canonizado pela Igreja e recebeu o epíteto de "o Confessor". De fato desobedeceu ao Papa, para confessar a Tradição.
   O que o Papa Honório I fez moralmente contra São Máximo, fê-lo também fisicamente o Imperador que era monotelita. Este também proibiu São Máximo de continuar pregando que em Cristo há duas operações e duas vontades. Como São Máximo não obedeceu, o imperador mandou o carrasco lançá-lo na prisão, açoitá-lo e finalmente mandou cortar-lhe a língua e a mão direita.
   São Máximo é venerado na Igreja como mártir e "o Confessor" no dia 13 de agosto.
   Caríssimos e amados leitores, invoquemos a São Máximo que nos obtenha junto a Nosso Senhor Jesus Cristo as luzes e a força necessárias para defendermos a Santa Madre Igreja contra as ciladas dos modernistas, contra a fumaça de Satanás, contra a autodemolição desta amada "Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo". Peçamos, outrossim, a Nosso Senhor Jesus Cristo que nos livre do Sedevacantismo; que nos livre de toda rebelião contra a autoridade em si. Que nos dê a firmeza para obedecermos antes a Deus que aos homens, quando as autoridades legítimas nos mandarem algo contra a Lei de Deus. Mas, mesmo nestes casos de resistência às autoridades, que Deus, Nosso Senhor, nos guarde de qualquer desrespeito, insulto à autoridade em si mesma. Amém!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A BATINA

ORIGEM
   Padres e fiéis vestiam-se da mesma túnica de mangas largas, toga e manto, na primitiva Igreja. Veio depois, com as invasões bárbaras, o uso de vestes curtas e exóticas, Só então é que, no Concílio de Macom em 581, a Igreja tornou obrigatório aos clérigos o uso da toga. Começa daí a distinção entre leigos e clérigos, no modo de trajar. E os cânones castigavam com penas severas os clérigos que ousassem trajar vestes seculares. No século XIII introduziram-se abusos na toga. Usavam-na muitos clérigos de cores berrantes e de ricos tecidos. Diversos Concílios protestaram  contra estas vaidades pouco edificantes em homens consagrados ao serviço de Deus. Foi regulamentado o uso das cores: o vermelho e o verde eram reservados só aos bispos. Os sacerdotes e clérigos inferiores podiam escolher entre o roxo, o preto e o branco. Mas, ai! a impenitente vaidade humana ainda achou pábulo na veste clerical. Vieram as golas plissadas  e  bordadas com arte e fino gosto, as sobre-mangas de seda, etc. Era mister uma reforma. Vem Xisto V, o severo Pontífice das reformas. Em 1588 pela Bula "Sacrosanctum", fica definitivamente introduzido o uso da batina como hoje a temos. Os termos da Bula de Xisto V são enérgicos. A veste eclesiástica será toda preta, longa e bem fechada. A vaidade de alguns clérigos e os alfaiates encontraram, na batina da Bula "Sacrosanctum" , uma barreira intransponível. Que fariam diante desta mortalha preta e simplificada ao extremo (Dictionaire des connaissances religieuses....(soutaine)  tomo VI).
  
SIMBOLISMO
   A Igreja de Deus, dirigida pelo Divino Espírito santo, faz transparecer nas coisas sensíveis e exteriores o quanto possível, o que há de mais oculto nos seus mistérios. Pelos gestos, vestes litúrgicas, cerimônias etc. Traduz na medida do possível o que se passa nas profundezas da alma. A veste clerical, a batina, não foi arbitrariamente imposta ao clérigo. Tem um simbolismo profundo e belo. Ela nos repete as palavras de Jesus Cristo aos discípulos: "Vos de mundo non estis". "Vós não sois do mundo". E como não é o padre do mundo, diz Bossuet, nos recorda que ela é a bandeira mortuária do mundo.
   E sob este aspecto é que é preciso considerá-la. Estamos mortos para o mundo para vivermos com o Cristo para sempre. O beato Olier no seu admirável "Traté des saintes Odres" nos dá o simbolismo da batina, da santa batina, "la sainte soutaine", como ele sempre a chamava. "A santa batina, diz o bem-aventurado Olier, é um sudário que nos traz sepultados, e exprime ao bispo o estado de morte e de sepultura em que pela obediência o clérigo se apresenta diante de seu prelado. Eu digo a santa batina, porque sendo a Igreja um mundo novo, um mundo de santidade, na qual fomos chamados a representar Deus e Jesus Cristo, Seu Filho, nada pode aí haver que não seja santo. A santa batina diz que o clérigo morreu para o século e dele há de se separar pelo coração como está separado pelo hábito. A santa batina cobre todo o seu corpo para testemunhar que toda a carne está morta em Jesus Cristo. São Paulo diz que todo cristão deve estar cercado em todo o seu corpo da morte de Jesus Cristo: "Semper mortificationem Jesu in corpore nostro circumferentes" (2 Cor., IV, 10).
   É o que simboliza a santa batina cobrindo todo o corpo do clérigo como um hábito de morte, que só deixa ver a cabeça, os pés e as mãos. A cabeça para nos dizer a nós padres, que somos: "Viri caput Christus"; mãos livres, para as boas obras, para a luta pelo reino de Deus; dos pés para a evangelização; " Bem-aventurados os pés daqueles que evangelizam"... Quanta lição no simbolismo da santa batina!!!
  
Exortação do Santo Padre João Paulo II (hoje santo) ao Clero de Bolonha, no dia 19 de abril de 1979.
   Não é cedendo às sugestões de uma fácil laicização que se exprima, ou no abandono do hábito eclesiástico, ou na assimilação dos costumes mundanos, ou na adoção de um ofício profano, não é assim que se aproxima eficazmente do homem de hoje. Tal assimilação poderia talvez, à primeira vista, dar a impressão de vantagem nos contatos imediatos mas que vantagem haveria se ela devesse ser paga com a perda da específica função evangelizadora e santificadora que faz do sacerdote "Sal da terra" e "Luz do mundo"? O risco que o sal se torne insípido e que a luz se apague, é claramente previsto por Jesus no Evangelho. A que serviria um sacerdote assim "assimilado" ao mundo que se torne diminuído e não seja mais o fermento transformador"?
   Exortação do Papa João XXIII, santo: " Convém saber usar por toda a parte e com grande dignidade o traje eclesiástico, nobre e distinto: imagem da túnica de Cristo, sinal resplandecente da veste interior da graça".
    Gosto imensamente do testemunho de convertidos, almas profundamente trabalhadas pelo Divino Espírito Santo: Em primeiro lugar uma poesia escrita por um protestante convertido:
   Aquela simples batina
   Que o Sacerdote trazia
   Aos meus olhos de menino
   Lindas coisas traduzia.
               
          Era o emissário divino,
          Tinha  que ser diferente,
           Fosse grande ou pequenino,
           A consolar sempre a gente.

                    Hoje me vai adiante
                    Um moço todo frajola
                    Será "aquele estudante",
                    Ou o padre que vem da escola?

                             Meu padre, estou muito triste...
                             Poderei chamá-lo assim?
                             Será que em ti ainda existe,
                             O pai de todos enfim...?!

                                       Se do pastor protestante
                                       Tu fizeste à imitação,
                                       Deve ter sido um instante
                                       De uma grande tentação.

                                                   Pode o pastor protestante
                                                   Ser um grande pregador. 
                                                   Tu, porém, vais adiante:
                                                    És um Ministro do Senhor!

                                                               Se um ministério do mundo
                                                               Ao protocolo obedece, 
                                                               Ministério tão profundo
                                                               Ser distinguido carece!
  
   Agora o testemunho também de uma convertida, não em versos mas não menos  valioso. É da caríssima Juliana Fragetti Ribeiro Lima já de todos muito conhecida e estimada pelo seu blog "Diligit anima mea". Eis apenas um trecho de seu post "Até um cético vê": "Acreditem, padres, não há coisa mais linda que ver um sacerdote que ama e tem orgulho - no bom sentido desta palavra - do chamado que Deus lhe fez. Que não se envergonha de ser sacerdote, ao contrário. Isso é um colírio numa sociedade secularizada. O padre nos lembra do sagrado, nos lembra de rezar, nos lembra de Deus. Se estivermos afastados, irá nos tocar a consciência: volta a Deus. Se estivermos bem, iremos procurar com mais desejo que nunca a santidade, seremos lembrados que temos muito que caminhar nessa senda da santidade ainda. É lindo andar no centro de uma metrópole como Rio de Janeiro, São Paulo etc e ver um sacerdote de batina. Faz você parar e pensar: dediquei tempo hoje para Deus? Saímos dessa inércia que muitas vezes nos toma."

   A batina também é uma defesa para o padre e para o próximo. Hoje nem tanto, mas nas décadas de 70 e 80 nós padres que conservamos a santa batina, sofremos muito. Comigo mesmo se deram algumas passagens tristes ou melhor divertidas. Uma vez, em plena rua, umas pessoas me chamaram de urubu.  Mas continuei andando e pensando com os botões de minha santa batina: não é que elas têm razão?! Quem tira a podridão e o mau cheiro dos pecados e vícios do mundo? Não é o pobre sacerdote?! Com uma grande diferença: os sacerdotes ressuscitam os mortos espirituais, uns, como a filha de Jairo , logo após a morte; outros, como o jovem filho da viúva de Naim, já sendo levados à sepultura; e outros, como Lázaro, já cheirando mal na sepultura dos vícios e pecados. E também os padres devem por muito tempo ficar pairando nas alturas dos ares puros do silêncio, da oração e da contemplação, bem perto de Deus, para que não se deixem contaminar pelos miasmas do mundo. Outro exemplo:  Umas moças ficaram rindo e dizendo: quem será que morreu? Eu respondi: "Quem morreu foi eu mesmo.. Morri para o mundo, e talvez haja uma outra defunta: a fé de vocês". Mas isto mostra como a batina mexe nas consciências, como bem explicou a Filotéia. "O mundo vos odeia", disse Jesus. São  Paulo diz: "Aqueles que querem viver piedosamente com Jesus Cristo, hão de sofrer perseguições". Afinal muitos acham que os padres de batina são tristes. Não é verdade: somos felizes por sofrer por amor a Jesus as ofensas dos maus e também felizes por ter o apoio e alento dos bons. Como diz São Paulo: "Parecemos tristes, mas sempre alegres..."
Vale a pena terminar com mais uma poesia, esta de autoria de Dom Aquino Correia:

     A MINHA BATINA
Minha pobre batina mal cerzida,                                    
Tu vales mais que todos os amores,                               
Pois, negra embora, enches-me de flores                   
E de esperanças imortais a vida.

Com seus sorrisos escarnecedores,                                 
Zomba o mundo de ti, de ti duvida,                                  
Porque não sabe a força, que na lida,                               
Tu me dás, do teu beijo aos resplendores.

Tu serenas de orgulho as brutas vagas,
E a mostrar-me do mundo a triste sina,
Toda volúpia das paixões apagas.

Oh! como o bravo envolto na bandeira,
Contigo hei de morrer, minha batina,
Ó minha heroica e santa companheira.




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

 DE PERSEGUIDOR A APÓSTOLO

                                                                                                                            Dom Fernando Arêas Rifan*

Celebraremos amanhã a conversão do grande apóstolo São Paulo, uma das colunas da Igreja ao lado de São Pedro. São Paulo foi o apóstolo dos gentios, dos povos não judeus, instrumento da propagação da Igreja fora da Judéia; o verdadeiro propagador do cristianismo.
           O primeiro livro de História da Igreja, os Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, discípulo de São Paulo e testemunha dos fatos, narra-nos que Saulo - esse era o seu nome antes - era um fariseu fanático, cheio de ódio pelos discípulos de Cristo. Ele, quando jovem, já havia participado, como coadjuvante, do apedrejamento de Santo Estevão, diácono. Quando ia pelo caminho de Damasco, capital da Síria, com ordens dos Sumos Sacerdotes, para prender os cristãos da cidade, foi violentamente derrubado do cavalo por uma luz misteriosa, que o cegou, da qual saia uma voz tonitruante que o invectivava: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E ao perguntar quem era aquele a quem ele perseguia, a voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Jesus atribuía a si a perseguição feita aos seus discípulos, os cristãos.
           A partir daí, Saulo foi instruído na Fé cristã e batizado. Tornou-se o grande Apóstolo Paulo, escolhido por Deus para evangelizar os gentios, os povos não judaicos. É o autor de 14 epístolas endereçadas às primeiras comunidades cristãs, mas de valor e ensinamento perenes.
            Foi martirizado em Roma, na perseguição de Nero. Sua grande basílica é a homenagem cristã àquele que, com São Pedro, é uma das colunas da Igreja Romana.
Jesus tinha escolhido 12 apóstolos para evangelizarem o mundo. Mas eles eram pessoas simples. Deus tudo pode, mas usa dos meios humanos mais apropriados, conforme ele quer e capacita. Para espalhar sua doutrina no mundo greco-romano pagão, ele quis escolher alguém, perito em diversas línguas, douto na doutrina judaica, cidadão romano, conhecedor do mundo grego e homem de decisão e forte personalidade. E o escolheu entre os seus piores inimigos: os fariseus. E esse fariseu fanático tornou-se, pela graça de Deus, o grande São Paulo.
            A admirável conversão de São Paulo é a mostra do que pode a Graça de Deus. E essa Graça tem operado maravilhosas conversões no decurso dos séculos. Temos, entre tantos, os exemplos de Agostinho, gênio intelectual que, de gnóstico e herege, tornou-se o grande Santo Agostinho, doutor da Igreja, convertido pela força das lágrimas de sua mãe e pela convincente pregação de Santo Ambrósio; de Francisco de Assis que, de mundano tornou-se o grande santo da pobreza; de Santo Inácio de Loyola, convertido ao ler a vida dos santos, num leito de hospital; de Dr. Aléxis Carrel, prêmio Nobel de medicina, ao examinar um milagre de Lourdes.
            Conversão é a saída do pecado para a Graça de Deus. É mudança de mentalidade e de vida. Para melhor. É por isso que todos nós precisamos nos converter. Todos os dias.
            “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (Francisco, Evangelii gaudium, 1).
                                                                                      *Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney
                                                                                                             http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

O HÁBITO NÃO FAZ O MONGE, MAS MOSTRA-O

   O fato que primeiro vamos contar foi ocorrido em Brasília há muitos anos atrás.
   Uma freira, vestida em trajes mundanos, queixou-se a um policial de que estava sendo importunada por um galanteador que a seguia. Travou-se, então, o seguinte diálogo:
   Policial -  O que é que a senhora quer que eu faça?
   Freira  -   O senhor é uma autoridade, portanto é de sua obrigação tomar providências.
   Policial -  Como é que a senhora sabe que eu sou um policial?
   Freira  -   Pelo seu uniforme, é claro!
   Policial -  Pois a senhora use o seu hábito religioso, que é o seu uniforme, e ninguém ousará importuná-la.
   
"A BATINA É O UNIFORME DA MILÍCIA SANTA"
Santo Antônio Maria Claret.

   Agora vou contar um fato sobre a batina, ou melhor, sobre a falta da batina, fato este que também se deu há muitos anos, mas que infelizmente é de aplicação bem atual.
  
O BISPO E A BAILARINA
   Com este título o jornal "A Província do Pará" de 13 de setembro de 1977 publicou a seguinte nota:
   "Um espetáculo totalmente inesperado foi assistido pelos espectadores que participaram da apresentação, sexta feira última, do Holiday on ice, quando uma das bailarinas ao terminar seu número, sentou-se ao colo de D. Alberto Ramos, cobrindo-o de beijos.
   A maior surpresa foi do próprio arcebispo que corado e constrangido, ficou visivelmente incomodado com a inesperada demonstração de carinho da jovem e bonita integrante do balé de gelo. A atitude da jovem, é bom deixar claro, não teve nenhuma intenção desprimorosa, já que a "cena" é feita por ela, ao fim de cada espetáculo, com os espectadores da primeira fila. O que deve ter levado a jovem a cometer a "gaffe" foi o fato de estar D. Alberto Ramos trajando uma roupa de passeio, e por isso mesmo se confundindo com os espectadores comuns".

 Estivesse revestido de sua batina, este bispo, que por sinal não era dos piores, teria evitado um escândalo dessa natureza. A bailarina que se sentou ao seu colo certamente teria respeitado a sua condição de religioso. Talvez, se ele não deixasse a batina, nem lá iria. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O ZELO PELAS ALMAS


LEITURA ESPIRITUAL 


  "À medida que o amor de Deus vai tomando posse dos nossos corações, faz nascer e alimenta neles um amor cada vez maior para com o próximo, amor que, sendo sobrenatural, tende acima de tudo ao bem sobrenatural dos nossos semelhantes e converte-se em zelo pela salvação das almas.
   Se amamos pouco a Deus, também amaremos pouco as almas e, vice-versa, se o nosso zelo pelas almas é fraco, também o é o nosso amor a Deus. Efetivamente, como seria possível amar muito a Deus sem amar muito os que são Seus filhos, os que são objeto do Seu amor, dos Seus cuidados, do Seu zelo? As almas são, por assim dizer, o tesouro de Deus. Ele criou-as à Sua imagem e semelhança por um ato de amor, remiu-as com o Sangue do Seu Unigênito por um ato de amor ainda maior. "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna" ( Jo. III, 16 ). Quem penetrou o mistério do amor de Deus aos homens, não pode permanecer indiferente pela sua sorte: à luz da fé compreendeu que tudo quanto Deus opera no mundo é para seu bem, para sua felicidade eterna e quer de algum modo participar nesta ação, sabendo que não pode fazer coisa mais agradável a Deus do que prestar a sua humilde colaboração na salvação dos que Lhe são caros. Foi sempre este o desejo ardente dos santos, desejo que os impeliu a realizar heroísmos de generosidade, ainda que fosse para o bem de uma só alma. "Esta - escreve Santa Teresa d'Ávila- é a inclinação que o Senhor me deu. Parece-me que Ele aprecia mais uma só alma que Lhe ganhemos com as nossas indústrias e orações mediante a Sua misericórdia, do que todos os serviços que Lhe possamos fazer" ( Fd. 1, 7 ).
   É verdade que o fim primordial da ação de Deus é a Sua glória, mas Ele, infinitamente bom, gosta de a procurar particularmente através da salvação  e felicidade das Suas criaturas. De fato nada exalta tanto a Sua bondade, o Seu amor, a Sua misericórdia, como a obra salvífica em favor dos homens. Por isso, amar a Deus e a Sua glória significa amar as almas, significa trabalhar e sacrificar-se pela sua salvação.
   O zelo pelas almas nasce da caridade, da contemplação de Jesus crucificado: as Suas chagas, o Seu Sangue, os sofrimentos dilacerantes da Sua agonia, dizem-nos como valem as almas na presença de Deus e como Ele as ama. Este amor, porém, não é correspondido e parece que os homens ingratos querem fugir cada vez mais à Sua ação. É  o triste espetáculo de todos os tempos que ainda hoje se repete, como se quisessem insultar Jesus e renovar a Sua Paixão. "Todo mundo está em chamas: os ímpios querem, por assim dizer, voltar a sentenciar a Cristo, pois levantam contra Ele mil falsos testemunhos e querem deitar por terra a Sua Igreja". Se Teresa d'Ávila ( Caminho 1, 5 ) podia afirmar isto do seu século atormentado pelo protestantismo, com muito maior razão podemos afirmá-lo nós do nosso, em que a luta contra Deus e contra a Igreja aumentou desmedidamente e alastra por todo o mundo. Felizes de nós se pudéssemos também repetir com a Santa: "Despedaça-me o coração a perda de tantas almas. Quisera não ver perder-se mais nenhuma... Mil vidas sacrificaria eu para salvar uma só alma das muitas que se perdem" ( ib. 4 e 2 ). Mas não se trata só de formular desejos; é preciso agir, é preciso trabalhar e sofrer pela salvação dos irmãos.
   São João Crisóstomo afirma que "nada há de mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos  outros". Esta frieza  é consequência de uma caridade muito frouxa; acendamos, reavivemos a caridade e acender-se-á em nós o zelo pela salvação das almas. Então o nosso apostolado deixará de ser um dever imposto do exterior  que devamos  cumprir    necessariamente por obrigação do nosso estado, para se tornar uma exigência do amor, uma chama que se inflama espontaneamente no fogo interior da caridade.
   Dar-se à vida interior não significa fechar-se numa torre de marfim para gozar tranquilamente as consolações divinas, desinteressando-se do bem alheio, mas significa concentrar todas as energias na busca de Deus, no trabalho da santificação pessoal para agradar a Deus e adquirir um poder de ação e intercessão capaz de obter a salvação de muitas almas". ( Extraído do Livro "Intimidade Divina" de autoria do P. Gabriel de Sta. M. Madalena, O.C.D. ).
      Vamos completar este artigo com alguns excertos do livro "Tratado do Amor de Deus" de autoria de São Francisco de Salles.
   "Não há dúvida, meu caro Teótimo, de que Moisés, Fineas, Elias, Matatias, e muitos servos de Deus se serviram da cólera, para exercerem o zelo em muitas ocasiões assinaladas.
   Convém, porém, notar que eram pessoas com a capacidade suficiente para bem manejarem as paixões e dominarem a cólera.
   São Dionísio, falando a Demófilo que pretendia chamar zelo à fúria e raiva que o dominavam, disse-lhe: "Quem quiser corrigir os outros deve, em primeiro lugar, empregar o máximo cuidado,  de impedir que a cólera exceda a razão do império e domínio que Deus deu à alma, e provoque revolta, sedição ou confusão em nós mesmos. E por isso nunca podemos aprovar vossos ímpetos de zelo indiscreto, ainda que mil vezes aponteis o exemplo de Fineas e Elias, porque tais palavras não agradaram a Jesus Cristo, quando lhe foram dirigidas pelos Discípulos, que não tinham ainda participado do seu doce e benigno espírito".
   Quando Fineas, continua São Francisco de Salles, viu aquele desgraçado Israelita ofender a Deus com uma Moabita, matou-os ambos; Elias predissera a morte de Ocozias, que, indignado com a profecia, enviou dois capitães, um depois do outro, com cinquenta soldados para o prender; o homem de Deus fez descer o fogo do céu, que os fulminou.
   Ora um dia Nosso Senhor, passando na Samaria, mandou a uma cidade pedir hospedagem, mas os habitantes, ao saberem que Nosso Senhor era Judeu de nação e ia para Jerusalém, recusaram-lha.
   À vista desta recusa, São João e São Tiago, disseram a Jesus: Quereis, Senhor, que façamos descer sobre eles fogo que os devore? Mas Nosso Senhor, voltando-se para eles, repreendeu-os com estas palavras: Vós não compreendeis de que espírito sois; o Filho do Homem não veio para perder as almas, veio para as salvar ( Luc. IX, 52-56. ).
   Ora, é isto que quer dizer São Dionísio a Demófilo quando este alegava em sua defesa o exemplo de Fineas e de Elias. São João e São Tiago queriam imitar a Elias, fazendo descer o fogo do céu  sobre os homens, mas Nosso Senhor repreendeu-os e fez-lhes perceber que o Seu zelo, era doce, bondoso e afável e que empregava a cólera rarissimamente só quando não houvesse esperança alguma de tirar resultado doutra sorte.
   Aqueles grandes santos eram inspirados imediatamente por Deus e conseguiam por isso empregar a cólera sem perigo. O mesmo Espírito que os incitava, segurava também as rédeas da sua justa cólera, para que esta não excedesse os limites que lhe fixava.
   Porque São Paulo uma vez chamou aos Gálatas de insensatos; porque descobriu aos de Cândia as suas depravadas inclinações; porque resistiu de frente ao glorioso São Pedro, seu superior, segue-se daí que nos seja lícito injuriar os pecadores, difamar as nações, desautorizar e censurar os nossos superiores e prelados? Não, porque nós não somos S. Paulos, para sabermos fazer essas coisas com cabimento.
   Porém os espíritos avinagrados, descontentes, presumidos e maldizentes, servindo apenas as inclinações, humores, aversões e temeridades próprias, querem encobrir a sua injustiça com a capa de zelo e deixam-se, sob o nome deste fogo sagrado, devorar pelas próprias paixões.
   O verdadeiro zelo é filho da caridade, porque reside no ardor; como ela é paciente, benigno, imperturbável; não quer debates, não tem ódios, nem invejas, e compraz-se na verdade.
( Confira: Tratado do Amor de Deus, de S. Francisco de Salles, livro X, capítulo XVI ).

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

UM SANTO CAMPISTA

UM SANTO CAMPISTA
                                                          Dom Fernando Arêas Rifan* 
A grande devoção em nossa região a Santo Amaro, cuja festa celebraremos no próximo dia 15, é explicada pela presença dos monges beneditinos que foram os valorosos missionários da zona rural de Campos dos Goytacazes, em cujo município se situa o célebre Mosteiro de São Bento, em Mussurepe. Vale a pena recordar um pouco a sua vida, por muitos desconhecida.
Santo Amaro, ou São Mauro, foi monge e abade beneditino, ou seja, da Ordem de São Bento. Nascido em Roma, de família senatorial, Amaro, quando tinha apenas doze anos, foi entregue no mosteiro por seu pai, Egrico, homem ilustre pela virtude e pela nobreza do nascimento, confiando-o aos cuidados de São Bento, em 522.
Correspondeu tão bem à afeição e à solicitude do mestre, que foi em breve proposto como modelo aos outros religiosos. São Gregório exaltou-o por se ter distinguido no amor da oração e do silêncio. Sempre se lhe notou profunda humildade e admirável simplicidade de coração. Mas nele sobressaia a virtude da obediência, sendo por isso recompensado por Deus, com o milagre semelhante ao de São Pedro no lago de Tiberíades, caminhando sobre as águas. Foi o caso de um jovem chamado Plácido, que caiu num lago perto de Subiaco, onde ficava o mosteiro. São Bento soube-o por revelação e, chamando Amaro, disse-lhe: “Irmão Amaro, vai depressa procurar Plácido, que está prestes a se afogar”. Munido com a bênção do mestre, o discípulo correu sobre a água a socorrer Plácido, a quem agarrou pelos cabelos e trouxe para a margem, não se apercebendo Amaro ter saído da terra firme. Quando deu pelo milagre, atribuiu-o aos méritos de São Bento. Mas este o atribuiu à obediência do discípulo.
“O homem obediente contará vitórias” (Pr 21,28). A obediência é a virtude cristã pela qual a pessoa sujeita sua própria vontade à de seu superior, no qual vê um representante de Deus. O maior exemplo de obediência temos em Jesus Cristo, obediente até a morte de Cruz (Fl 2, 8), reparando assim a desobediência de Adão (Rm 5, 19-20). Assim, o conselho evangélico da obediência, professado na vida consagrada, assumido livremente com espírito de fé e amor no seguimento de Cristo obediente até a morte, leva o consagrado à submissão da vontade aos legítimos superiores, que fazem as vezes de Deus quando ordenam de acordo com as próprias constituições (cf. CDC cân. 601).
Santo Amaro foi fiel ao seu ideal monástico, a ponto de todos o considerarem o perfeito herdeiro espiritual de São Bento. Segundo uma tradição, foi Santo Amaro que substituiu São Bento quando este se transferiu para Monte Cassino. Consta também que Santo Amaro se distinguiu particularmente por sua aplicação aos estudos. Sendo enviado à França, lá fundou o Mosteiro de Glanfeuil, em Anjou, vindo a falecer em 15 de janeiro de 584.
Possa o exemplo de Santo Amaro levar os filhos a serem mais obedientes aos seus pais, os alunos aos seus mestres, os cidadãos às leis e superiores civis, os católicos aos seus superiores hierárquicos. “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5, 21).

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney