quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE - ( V )

O SUJEITO DA INFALIBILIDADE
   Sujeito da Infalibilidade significa aqueles a quem Nosso Senhor Jesus Cristo confiou o poder de ensinar, e prometeu a Infalibilidade. São dois: a) O Papa. b) Os bispos em comunhão com o Papa.
   Vamos explicar ambos; mas antes vamos falar sobre o Magistério Eclesiástico. Na verdade, Nosso Senhor Jesus Cristo deu a Sua Igreja três poderes: 1º - de governar; 2º - de ensinar; 3º - de santificar.
   Em primeiro lugar, vamos ver mais detalhadamente em que consiste o poder de ensinar. Em outras palavras, vamos tratar do Magistério da Igreja, isto é, MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO.

MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO

   A Teologia Tradicional formula a seguinte tese: "O Magistério autêntico e vivo, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, é infalível ao transmitir a doutrina revelada".

   Explicação das palavras: Magistério autêntico: isto é, aquele que é concedido e firmado por um poder legítimo. Portanto, para que alguém ensine autenticamente é preciso uma delegação legítima para ensinar.
   Devemos observar que o simples magistério autêntico eclesiástico não é necessariamente um magistério infalível. Por exemplo: cada bispo tomado isoladamente e mesmo os bispos reunidos num concílio e até mesmo o Romano Pontífice, podem ensinar autenticamente, sem que a doutrina seja proposta infalivelmente; porque para isso (isto é, propor de maneira infalivel) requer-se pelo menos a intenção de ensinar alguma doutrina como infalível. Além desta intenção são requeridas ainda outras condições, como veremos depois.
   Vamos aqui, mais uma vez, explicar melhor o que é infalibilidade.
   DEFINIÇÃO DE INFALIBILIDADE: Infalibilidade é uma prerrogativa sobrenatural, que a Igreja docente (isto é, que ensina) goza em virtude de uma assistência divina, pela qual ela não pode errar (nem de fato nem de direito) ao propor uma doutrina revelada. Em duas palavras: é imunidade de erro. Não pode errar.
   Por que dissemos que a infalibilidade é uma prerrogativa sobrenatural? Porque o homem por sua natureza é falível, portanto, precisa de uma graça especial para não errar quando ensina.
Por que dissemos na definição: da Igreja docente? Porque aqui se trata da infalibilidade ativa. Pois, existe a infalibilidade  passiva, isto é, a infalibilidade da Igreja discente, isto é, infalibilidade daqueles que aprendem. A infalibilidade da Igreja docente é chamada ativa porque deve influenciar nos fiéis.
   A infalibilidade da Igreja discente é chamada passiva porque recebe a doutrina infalível da Igreja docente. Em outras palavras: a adesão por parte dos fiéis à doutrina proposta pela Igreja docente de modo infalível, faz com que a Igreja discente que aceita, se torne infalível. Depois vamos, se Deus quiser, explicar isto melhor, ao falarmos do "Sensus Fidei". Pelo que acabamos de expor, observemos de passagem, que não é vício capital de orgulho, conservar com firmeza, as verdades que a Santa Madre Igreja sempre nos propôs como infalíveis; mas, pelo contrário, é a virtude da fé, pela graça de Deus.
   Por que dissemos na definição: em virtude de uma assistência divina? Porque a assistência divina é causa eficiente. Portanto, a infalibilidade não vem nem da ciência, nem da santidade do sujeito, nem do talento natural.
   Por que dissemos na definição: ao propor uma doutrina revelada? Porque o objetos em torno do qual o Magistério autêntico da Igreja se diz infalível, são a doutrina revelada e todas aquelas que são necessariamente conexas com as verdades reveladas. Por exemplo: A imortalidade da alma é uma verdade revelada, é um dogma, e portanto, objeto direto da infalibilidade. A espiritualidade da alma é uma verdade necessariamente conexa com a imortalidade da alma, e portanto, é indiretamente, objeto da infalibilidade.
   Para terminar a explicação dos termos da definição de infalibilidade, quero lembrar mais uma vez que infalibilidade não significa que o sujeito (o papa e/ou os bispos em comunhão como o papa) seja onisciente, isto é, saiba todas as coisas; ou seja impecável, isto é, que não peca nunca. Só Deus é onisciente e não comunicou a onisciência a ninguém; e entre as criaturas humanas, só Nossa Senhora foi impecável.
  Ainda falta explicar por que na Tese sobre o Magistério Eclesiástico se diz Magistério VIVO?
   Antes de responder, devemos saber que os modernistas atualmente dizem Magistério Vivo num sentido ambíguo. Isto aconteceu sobretudo depois do Concílio Vaticano II. Para os modernistas o dogma deve evoluir segundo os tempos e as circunstâncias; e a Igreja deve estar sempre procurando se adaptar as novidades que o Povo de Deus vivencia, criando-as pelo sentimento religioso que vem do coração. As palavras: evolução, novidades, progresso, vivência, são capitais para os modernistas. Em outras palavras: o Magistério da Igreja é vivo, segundo os modernistas, porque tem que acompanhar o progresso do mundo. Os modernistas dizem que a Igreja é infalível, enquanto aprova as opiniões comuns do Povo de Deus. Portanto, invertem os papéis.
   Observação: Depois, ao tratarmos do Concílio Vaticano II, vamos explicar que o "aggiornamento" desejado por João XXIII, naquele concílio, era no sentido tradicional. Inclusive o Papa João XXIII, hoje Santo, que convocou o Concílio Vaticano II, havia incumbido alguns cardeais de confiança como o Cardeal Ottaviani, de preparar os esquemas do Concílio. Por exemplo, foi feito um esquema sobre a Igreja e lá fala do Magistério da Igreja. É o capítulo VII, "De Ecclesiae Magisterio", da 2ª parte do esquema "De Ecclesia", proposto pela Comissão de Teologia preparatória para o Concílio.O Cardeal Ottaviani era o presidente desta Comissão Teológica. Na confecção deste esquema sobre a Igreja trabalharam 31 membros, mais 36 consultores pertencentes a 15 nações, a maioria professores de universidade ou que ensinavam em grandes instituições eclesiásticas do mundo inteiro. Cada um deles estava credenciado por várias publicações de grande valor, algumas das quais eram utilizadas como manuais nos seminários e universidades. E levaram em conta até o lado pastoral do Concílio. Acontece que os modernistas queriam outra coisa, como veremos mais tarde, se Deus quiser.
   Vê-se claramente que o Papa João XXIII pretendia fazer como fizera o beato Pio IX no Concílio Vaticano I. Só que no Concilio Vaticano I não foram mudados os esquemas preparatórios por outros; e no Vaticano II, infelizmente foram mudados. Neste ponto o Papa João XXIII não teve a mesma força que teve o Papa Pio IX.  Vejam o que fizeram no Vaticano II: Dos 11 capítulos do esquema "De Ecclesia", ficaram só 4 e mesmo assim inteiramente mudados. O Capítulo VII sobre o Magistério foi simplesmente morto antes de nascer. Neste Capítulo VII não há nada de ambíguo: está inteiramente correto à luz da Tradição. E são grandes teólogos tradicionais que o afirmam. Lá diz: "Magistério Perene e Vivo". D. Antônio de Castro Mayer nos dizia que o seu grande amigo, o cardeal Ottaviani ficou triste e revoltado com esta troca dos esquemas e isto feito na última hora). Costumo dizer que os Modernistas trabalham muito mas onde não se deve: são como as formigas. O Cardeal Ottaviani, que era o Presidente da Comissão Teológica Preparatória, alertou várias vezes que havia muitas ambiguidades naqueles novos esquemas. E uma delas é o "subsistit in". Hoje já foi dado o sentido correto (embora até grandes teólogos tenham dificuldade em entender o emprego desta expressão) mas não foi retirada a expressão que deu azo ou espaço a tantos erros. Na minha opinião foi uma ponte para o ecumenismo, a ideia central de todo o Concílio Vaticano II.
   No próximo post, veremos o que escreveu D. Antônio de Castro Mayer sobre o Magistério Perene e Vivo.
  

 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA ( IV )

   EXPLICAÇÕES DA TEOLOGIA SOBRE INFALIBILIDADE
   Que vem a ser propriamente INFALIBILIDADE?
   Com relação à Igreja, infalibilidade é não poder a Igreja alterar a doutrina do Seu Divino Mestre, nem poder enganar-se sobre o verdadeiro sentido do que o mesmo Divino Mestre lhe ensinou, ordenou ou proibiu.
   É verdade que só Deus é infalível por natureza; mas pode Ele muito bem, por uma providência especial, conceder este privilégio a outro e proteger ou defender do erro aos que em Seu nome estão encarregados de ensinar, de tal forma que nunca neste ensino se apartem da verdade. E foi o que Deus realmente fez, dando ao seu magistério o dote da infalibilidade.
   A infalibilidade não provém de uma inspiração propriamente dita (como é o caso da Bíblia); nem vem de uma nova revelação, mas sim da uma ASSISTÊNCIA ESPECIAL concedida ou ao episcopado em união com o Papa, ou só ao Supremo Pastor para bem compreenderem e exporem a doutrina revelada por Jesus Cristo e os Apóstolos e que está contida nas Sagradas Escrituras e na Tradição. Infalibilidade não é uma moção interna miraculosa. É simplesmente uma garantia que Deus, cuja providência governa a Igreja, se digna conceder-lhes para impedir que ensinem autenticamente uma doutrina que esteja maculada de erro. E esta prerrogativa, não só não inutiliza as investigações, as controvérsias e as diligências humanas, senão também que as supõe e as exige. Vou explicar melhor. É como se o Divino Mestre dissesse aos seus representantes: "Eu estarei convosco nas vossas diligências e empenho em precisar bem a verdade, de modo que nunca proclamareis decisão alguma, que não esteja de acordo com a verdade". E assim é que somente depois de empregar todos os meios indispensáveis para não proceder com temeridade e imprudência, somente depois de ter cuidadosamente explorado as duas fontes da Revelação: a Sagrada Escritura e a Tradição, é que a Igreja (os bispos em união com o Papa) ou o Papa sozinho "ex cathedra" declara revelada uma verdade até então implicitamente encerrada no tesouro da Revelação.
   Também é preciso notar que infalibilidade é coisa inteiramente diversa da impecabilidade, que consiste em não poder alguém cometer pecado. Este privilégio foi concedido a Santíssima Virgem, mas não foi concedido aos papas. Houve papas, poucos aliás, que não foram lá modelos de virtude, infelizmente foram até viciosos. Mas devemos tomar muito cuidado neste ponto, porque há muita mentira histórica, ou seja, há muitas calúnias. O mais seguro é ler o que algum santo disse. Vamos dar apenas um exemplo. Ouçamos São João Bosco falando dos papas do século X: "O décimo século da Igreja foi assinalado por muitos deploráveis acontecimentos devidos à prepotência exercida em Roma pelo conde Adalberto e por suas filhas Marósia e Teodora. Estas duas ambiciosas mulheres introduziram no Pontificado, por meio da força, os de seu partido, sem consideração alguma a sua virtude e doutrina. Por isso, muitas vezes, fizeram-se eleições nas quais, homens de pouca ciência e de não muito bons costumes eram preferidos a outros que por doutrina e santidade eram os únicos que mereciam ser eleitos". E depois São João Bosco faz a seguinte observação: "Deve-se fazer sobressair a especial assistência que prestou Deus a Sua Igreja, posto que neste século, não houvesse heresia ou cisma, contra o qual fosse necessário convocar um Concílio Universal".
   Caríssimos e amados leitores, para que tenham uma ideia mais completa da situação, eis mais um exemplo (embora ainda no século IX). É o caso tristemente célebre do Papa Formoso que governou a Igreja de 891 a 896. O papa Estêvão VI (896-897) fez desenterrar o cadáver do papa Formoso, seu antecessor, julgou-o diante de um tribunal e depois mandou jogar o cadáver no rio Tibre. Pouco depois o próprio papa Estêvão VI foi preso e estrangulado no cárcere. É claro que em tudo isto não entra infalibilidade, mas pecados dos homens, dos quais nem os papas estão livres. Vocês já devem ter ouvido falar também do caso triste do papa Alexandre VI. Mas vamos antes meditar na palavras de São João Bosco citadas acima. Devemos só observar que em todo este século X não houve nenhum papa que até hoje fosse canonizado pela Igreja. Este triste século X foi chamado "o século de ferro".
   O Revmo. Pe. Álvaro Negromonte, célebre e erudito Diretor do Ensino Religioso na Arquidiocese do Rio de Janeiro anos antes do Concílio Vaticano II, dá a seguinte nota triste deste século X: "Morta Marósia (que, segundo São João Bosco, elegera à força papas indignos), seu filho Alberico elegeu sucessivamente, sob a influência de Santo Odon, monge de Cluny, quatro papas dignos; mas, por fim, fez eleger papa o seu próprio filho Otaviano que levou para o trono papal uma vida depravada. Mudou-se de nome, chamando-se João XII (955-964), mas não mudou de vida, sendo um dos mais indignos papas de toda a história. No entanto, continua o Padre Negromonte, nenhum papa indigno, procurou justificar seus pecados com erros doutrinários; todos guardaram intacta a pureza da Fé Católica; o que mostra como a Providência, que permite estas tormentas, vela pela Igreja. Isto deve ser frisado, porque constitui uma da mais extraordinárias vitórias da Igreja" (Cf. Hist. da Igreja, Pe. Álvaro Negromonte, p. 77 e 78, ed. de 1954. E confira também: "BREVE HISTÓRIA DOS PAPAS", livro vendido no Vaticano).

   NECESSIDADE DA INFALIBILIDADE: Um dogma fixo exige necessariamente uma infalibilidade para salvaguardá-lo. "Sem a promessa de uma assistência divina nenhum homem pode dizer a outro homem: tu hás de pensar e crer como eu. Onde não há um centro de unidade (como não há no Protestantismo) cada homem dá sua opinião, cada sábio levanta sua cátedra e funda a sua escola. E quando uma doutrina é prática (moral), quando os seus preceitos atingem a vida em todas as suas manifestações, refreiam a cobiça, mortificam a sensualidade, humilham o orgulho, é geral a oposição por causa dos interesses feridos.
   Nenhuma verdade se defende então por si só. É necessário montar-lhe ao lado uma sentinela vigilante e incorruptível que rechace assaltos, que lhe defenda a existência, a integridade, a eficácia iluminadora. Uma tocha exposta às rajadas dos ventos apaga-se; colocai-a no alto de uma torre, abrigai-a num invólucro de cristal; é farol... Divinamente assistida para repelir do tesouro da verdade qualquer mão sacrílega, ela mantém no seio da humanidade sempre aceso o farol da luz divina" (Padre Leonel Franca).
   Por isso, negar a infalibilidade, seria negar a própria Igreja. Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o Magistério da Igreja para continuar sua missão, para iniciar todos os homens de todos os tempos na doutrina revelada e conservar absolutamente íntegro e intacto, qual precioso tesouro, o "DEPÓSITO" da verdade revelada (Depositum Fidei). É evidente que esse Magistério seria ilusório se pudesse correr o risco de falhar e se os fiéis não tivessem a garantia de que é o próprio Jesus Cristo, o Mestre, quem, por este meio lhes propõe Sua doutrina. Em outras palavras: O Magistério da Igreja deve ser dotado das prerrogativas da Infalibilidade.
  Caríssimos e amados leitores, em alguns posts seguidos, falaremos, se Deus quiser, do MAGISTÉRIO DA IGREJA. Acompanhem! Obrigado!

  

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA - ( III )

B - O DOGMA DA INFALIBILIDADE DO PAPA

   Nº 1836 - Antes da definição do dogma, o Concílio Vaticano I diz: "...Os Pontífices Romanos, conforme lhes aconselhavam a condição dos tempos e as circunstâncias, ora convocando Concílios Ecumênicos, ora sondando a opinião de toda a Igreja, dispersa pelo mundo inteiro, ora por Sínodos particulares ou empregando outros meios, que a Divina Providência lhes proporcionava, têm definido como verdade de Fé tudo aquilo que, com o auxílio de Deus, reconheceram ser conforme com a Sagrada Escritura e as Tradições Apostólicas. Pois o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de São Pedro para que estes sob a revelação do mesmo (=Espírito Santo), pregassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja a Revelação herdada dos Apóstolos. E esta doutrina dos Apóstolos abraçaram-na todos os veneráveis Santos Padres, veneraram-na e seguiram-na todos os santos doutores ortodoxos, firmemente convencidos de que esta cátedra de São Pedro, sempre permaneceu imune de todo erro, segundo a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo feita ao Príncipe dos Apóstolos: "Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos" (São Lucas XXII, 32).

   Nº  1837-  "Foi, portanto, este dom da verdade e da fé, que nunca falece, concedido divinamente a Pedro e aos seus sucessores nesta cátedra, a fim de que cumprissem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do venenoso engodo do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim, removida toda ocasião de cisma, e apoiada no seu fundamento, se conservasse unida a Igreja Universal, firme e inexpugnável contra as portas do inferno.

   Nº  1838 -  "Mas, como nestes nossos tempos, em que mais do que nunca se precisa da salutífera eficácia do ministério apostólico, muitos há que combatem esta autoridade, julgamos absolutamente necessário afirmar solenemente esta prerrogativa que o Filho Unigênito de Deus dignou-se ajuntar ao supremo ofício pastoral.

  Nº  1839  - (Segue-se a definição dogmática da infalibilidade do papa):  "Por isso Nós, apegando-nos à Tradição recebida desde o início da fé cristã, para a glória de Deus, Nosso Salvador, para exaltação da Religião Católica, e para a salvação dos povos cristãos, com a aprovação do Sagrado Concílio, ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala "Ex Cathedra", isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica alguma doutrina referente à fé e à moral, para toda a Igreja, em virtude da assistência prometida a ele na pessoa de São Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual o Divino Redentor quis munir a Sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e que portanto, tais declarações do Romano Pontífice, são por si mesmas e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis".

   Nº 1840  - "Se, porém, alguém ousar contrariar esta nossa definição, o que Deus não permita, seja excomungado".

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA ( II )

HISTÓRIA DO CONCÍLIO VATICANO I   (continuação)

     Já vimos que Pio IX começou a preparar o concílio há quatro anos antes, constituindo para isso uma comissão de cardeais de sua maior confiança. Por prudência foi tudo feito em segredo. Mas quando foi revelada a intenção do papa em convocar um Concílio Ecumênico e sobretudo quando ficou-se sabendo que neste concílio deveria ser definido solenemente o dogma da Infalibilidade do Sumo Pontífice, então começaram já as disputas. (Era a fase do demônio). Muita divisão! Mas Pio IX não desistiu e disse que confiava na proteção de Maria Santíssima. Apareceram três grupos: 1º - OS ANTI-INFALIBILISTAS, cujo chefe foi o padre Döllinger, sábio historiador da Igreja, teólogo e professor de História da Igreja. Infelizmente não se converteu, morreu herege e fundou a seita dos "Velhos Católicos".
   2º grupo: OS ANTI-OPORTUNISTAS: Admitiam a Infalibilidade do papa (a verdade) mas achavam que não era oportuno na época, defini-la como dogma. O chefe foi o bispo de Orléans Mons. Dupanloup e também Montalembert. Todos os anti-infalibilistas e os anti-oportunistas apresentavam como objeção os casos dos papas Libério e Honório I, sobretudo este último.
   3º grupo: OS INFALIBILISTAS: os que eram do lado do papa. Os chefes foram vários, mas vamos citar apenas alguns. Entre os bispos: D. Dechamps, bispo de Malinas; o cardeal Manning de Westminster. Entre os leigos sobressai o grande Louis Veuillot, que, como já dissemos, era um homem de fé viva e firme, de um amor ardente a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Santa Madre Igreja. Seu jornal chamava-se: "L'Universe", nele Veuillot combateu o célebre bispo de Orléans Mons. Dupanloup que era liberal e escrevia no jornal "Le Français". Louis Veuillot combateu também um dos chefes do "Catolicismo Liberal", o conde e Montalembert (+ 1870). Este escrevia no jornal "L'Avenir" juntamente com Lamennais (Este era padre, apostatou-se e morreu sem se retratar). Como defendia a "Liberdade Religiosa" e não se retratou, foi excomungado pelo Papa Gregório XVI. Um dos seus livros: "Ensaio sobre a indiferença em matéria de Religião". Vejam uma das suas frases: "Todos os amigos da Religião precisam compreender que ela necessita somente de uma coisa: da liberdade". 
   O bispo D. Dupanloup, uma vez definido o dogma da infalibilidade do papa, aceitou-o plenamente. Montalembert morreu antes da definição do dogma, mas deixou preparado um escrito em que declarava morrer como filho obediente de Igreja, admitindo desde já todas as suas definições. 

REALIZAÇÃO DO CONCÍLIO VATICANO I

   Deveriam os bispos reunirem-se na Basílica de São Pedro do Vaticano e por isso chamou-se Primeiro Concílio do Vaticano ou Concílio Vaticano I. Inaugurou-se no dia 08 de dezembro de 1869 - Festa da Imaculada Conceição - achando-se presentes cerca de 770 pessoas entre bispos (como Santo Antônio Maria Claret), cardeais, abades (como D. Guerénger), gerais de Ordens Religiosas e insignes teólogos. Mais de três quartos dos que tinham direito a votos na Igreja. Neste Concílio só houve quatro sessões. O Concílio tinha 52 assuntos para serem tratados, mas não foi possível porque o papa foi obrigado a suspendê-lo por causa da guerra chamada franco-prussiana. E Roma também foi invadida. Portanto, este Concílio ficou inacabado. 
   NOTA: Acho necessário explicar alguns termos técnicos: "PADRES" do Concilio: Este termo é colocado entre aspas para significar os bispos, cardeais e outros que têm voz deliberativa, isto é, aqueles que podem votar. "PERITOS" do Concílio: são os teólogos que dão assistência aos "Padres". "OBSERVADORES"do Concilio: são os que não têm direito a voto e nem o direito de dar assistência aos "Padres". São geralmente autoridades católicas ( ou não, isto é, podem ser hereges: protestantes e ortodoxos cismáticos). Mas o termo "Observadores" também é técnico, ou seja, podem também falar apresentando suas sugestões. No Concílio Vaticano I, como vimos, não compareceram. Já no Concílio Vaticano II, não só compareceram, mas fizeram suas sugestões, como a História o comprova. Aliás, foram convidados justamente para falarem, já que a meta primordial do Concílio Vaticano II foi o diálogo ecumênico. Os Encontros de Assis são um prolongamento. (Fim da NOTA).
   A história da definição do dogma da Infalibilidade Pontifícia.
   Um esquema já retocado, foi apresentado a reunião ferial dos "Padres" do Concílio no dia 13 de julho de 1870. Dos 601 "Padres" votaram "SIM" (em latim= PLACET) 451; votaram "NÃO" (em latim ="NON PLACET) 88; e votaram "SIM" mas com correções (em latim= "PLACET JUXTA MODUM") 62 "Padres".
   Assim ficou preparado o decreto para a sessão pública solene, que seria no domingo seguinte; mas estourou a guerra franco-prussiana e os "Padres" anteciparam a sessão solene para o dia 18 de julho. Dos que se opunham, chefiados pelo bispo D. Dupanloup, 55 preferiram se retirar, do que votar "não" diante do papa. Como havia permissão para sair do Concílio por causa da guerra, aproveitaram e saíram.
   Então no dia 18 de julho de 1870 à 9 horas começou a sessão. No momento em que os "Padres" estavam dando os votos, estalou uma terrível tempestade, com trovões e relâmpagos, que durou duas horas e meia. Assistiam a sessão 535 "Padres". Só dois votaram "não" ou "non placet". Mas depois estes dois aceitaram docilmente.
   Ao sancionar Pio IX com sua suprema autoridade a constituição apostólica, contam que, passada a tempestade, um raio de sol penetrou pelas janelas e iluminou o rosto de Pio IX. No dia seguinte, por causa da guerra, o papa suspendeu o Concílio. O raio de sol penetrando na Basílica de São Pedro foi simbólico. Depois de tantas tempestades, de discussões apaixonadas, brilhou o sol da verdade e todos foram se acalmando. A definição tal como foi proclamada, dissipou muitas trevas, deu a chave da explicação de muitos fatos históricos (como dos papas Libério e Honório I) e houve por todas as partes o aplauso dos bispos e dos fiéis. Os que achavam que não era oportuna a definição do dogma da Infalibilidade - como D. Dupanloup, mais 54 bispos que saíram antes - se apressaram a escrever ao papa dando total adesão ao dogma e reconheceram que sua definição foi mais que oportuna, porque definindo os limites da Infalibilidade, resolveram-se as objeções sobretudo no caso do papa Honório I.
   Como já dissemos, o único caso triste foi do do Padre Döllinger ( que nem quis participar do Concílio) que não aceitou o dogma da Infalibilidade e portanto caiu na heresia e terminou fundando uma seita que se chamou "Os Velhos Católicos". Infelizmente este padre apóstata, herege e cismático morreu excomungado.

domingo, 12 de novembro de 2017

A INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA ( I )

  Faremos, se Deus quiser, uma série de artigos sobre a INFALIBILDADE PONTIFÍCIA.  Em primeiro lugar daremos um resumo da História e Doutrina do Concílio Vaticano I.

A - A HISTÓRIA DO CONCÍLIO VATICANO I

   Ano 1869 - 1870 inacabado. É o vigésimo Concílio Ecumênico da Igreja. Concílio Ecumênico é a reunião de todos, ou de uma grande parte dos Bispos da Igreja Católica, aos quais convoca e preside pessoalmente ou por delegação, o mesmo Sumo Pontífice. Ecumênico aqui quer dizer: de toda a Igreja.
   Quem convocou este Concílio foi o Papa Pio IX, hoje beato. (1846-1878). Chamava-se João Maria Mastai Ferretti. Foi um homem totalmente extraordinário. Não só foi extraordinária a duração de seu pontificado - trinta e um anos - mas também as consequências que este teve para a História da Igreja. Nunca houve um papa que fora tão querido dos católicos do mundo inteiro e tão respeitado pelos não católicos. É o papa da época de São João Bosco. Morreu dez anos antes de São João Bosco. E eis o que diz dele este grande santo: "Pela firmeza de sua fé, por sua caridade, por sua benevolência, por seus conselhos e por sua mansidão, tinha-se tornado a delícia do mundo inteiro e dos corações. Os próprios não católicos o consideravam qual amigo, pai, irmão e benfeitor... "Prova disto, continua São João Bosco, "a 6 de julho de 1871 completava-se o 25º aniversário de seu pontificado. Comoveu-se o mundo e todas as partes se prepararam de mil e diferentes modos para atestar ao Pontífice sua alegria e sua veneração... Deste a mais humilde aldeia até a mais ilustre cidade, os próprios protestantes, hereges e o Grão Sultão, todos compartilharam daquele grande dia. Os transportes de alegria dos católicos pela ocorrência do 25º ano de seu pontificado renovaram-se ao festejarem o 50º ano da celebração de sua primeira missa. O do seu jubileu episcopal, porém, excedeu a todos os demais acontecimentos da História Eclesiástica, e a tudo o que é possível legar à posteridade. Basta dizer que no ano de 1877, fiéis cristãos de toda idade e condições, partiam das mais longínquas regiões da terra para irem venerar ao chefe da Igreja e levar a seus pés quanto possuíam de mais precioso em trabalho da arte, em ouro, em prata ou em trabalhos científicos" (Hist. Ecl. de S. João Bosco). Foi um papa sobretudo missionário. "As Missões estrangeiras, diz São João Bosco, formaram um dos maiores objetos de seu paternal zelo".
   Pio IX foi ainda o papa que condenou os erros do Naturalismo e do Liberalismo com a Encíclica Dogmática "Quanta Cura" e o célebre "Syllabus" que, segundo vários abalizados teólogos, também é um documento dogmático. Foi Pio IX que definiu o dogma da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus. É o papa, como já foi dito, que convocou e presidiu o Concílio Vaticano I e nele definiu o dogma da Infalibilidade Pontifícia. Depois destes parênteses para falarmos um pouco sobre o papa Pio IX, vamos agora fazer um resumo da história do Concílio Vaticano I.
   A História deste Concílio está intimamente ligada com a história do século XIX e de seus erros. Na Constituição "DEI FILIUS" deste Concílio Vaticano I, caíram feridos de morte os erros do Racionalismo e do Ateísmo. Na Contituição "PASTOR AETERNUS" ficaram sepultadas as idéias galicanas. (Depois vamos ver o que significa GALICANISMO).

OS ANTECEDENTES DO CONCÍLIO VATICANO I

   Quatro anos antes do Concílio (em 1865) o papa Pio IX já nomeara cinco comissões de cardeais de sua maior confiança para preparar o Concílio. Enviou a trinta e cinco cardeais dos mais conspícuos e sábios da Igreja latina seu desejo de que expusessem sua opinião sobre os temas que no Concílio se haviam de ventilar e pediu que enviassem suas respostas às comissões dos cardeais. Fez o mesmo com os bispos do rito oriental. E, por prudência, os trabalhos foram feitos em segredo.
   Pio IX, aproveitando da estima que gozava até junto aos não católicos (hereges = os protestantes e os ortodoxos cismáticos) com espírito missionário e não por falso ecumenismo, convidou-os para estarem presentes no Concílio. Declarou que seria um tempo de graças e de bênçãos para eles. Tanto os protestantes como os ortodoxos cismáticos não aceitam a Infalibilidade Pontifícia. Por isso eu disse "não por falso ecumenismo," porque o próprio Pio IX  em julho de 1871 vai dizer aos Peregrinos de Nevers "... sem dúvida, deve-se praticar a caridade, fazer o possível para atrair os extraviados; entretanto, não é necessário por causa disto compartilhar com suas opiniões".
   Quando, se Deus quiser, escrevermos sobre o Concílio Vaticano II, veremos, também baseados nas palavras do papa (no caso Paulo VI), que foi bem diferente o espírito com que foram convidados os protestantes para estarem no Concílio Vaticano II e na Comissão para elaboração do "Novus Ordo Missae".
   Diz o célebre historiador eclesiástico Llorca: "O convite do papa Pio IX aos protestantes e ortodoxos cismáticos caiu no vazio", isto é, ninguém aceitou, ninguém compareceu. Se soubessem (como aconteceu no Concílio Vaticano II e na Comissão do Novus Ordo Missae) que lá ouviriam e leriam coisas ambíquas que poderiam interpretar a seu favor, certamente teriam ido, e depois teriam aceito uma foto ao lado de Pio IX, com sorrisos de satisfação e teriam elogiado os trabalhos do Concilio e de sua Comissão talvez mais do que o fizeram os próprios católicos. É preciso que todos saibam que foram os próprios protestantes que iniciaram o movimento ecumênico no começo do século passado.
   Bom! Depois de mais estes parênteses, continuemos. Diz Llorca que certo dia, um dos familiares de Pio IX se queixava das dificuldades contra a celebração do Concílio. O Papa tranqüilo respondeu: "Todos os concílios passam por três fases: a do diabo, a dos homens e a de Deus; agora estamos na fase do diabo; não são de se estranhar as dificuldades". Efetivamente a fase do demônio no furor dos inimigos da Igreja antes do concílio e mesmo durante o concílio; a fase dos homens nas disputas demasiado acres dos teólogos e "Padres" no Concílio e fora dele. A fase de Deus resplandece em suas definições dogmáticas e na aceitação pacífica delas".
   Como já dissemos anteriormente, o Concílio Vaticano I condenou os erros do Racionalismo, do ateìsmo e as idéias galicanas. Na ordem política, Pio IX sofreu a perseguição brutal de um tal Bismark na Alemanha e um tal Cavour na Itália. Pio IX foi perseguido pelas armas por Garibaldi que invadiu os Estados Pontifícios, e o Santo Padre teve que fugir para Gaeta.
   Na ordem social: o Socialismo de Luis Blanc e o Anarquismo de Proudhon (este dizia: "A propriedade é um roubo").
   Na ordem intelectual religiosa, um homem fizera muito mal às almas: um tal de Renan que escreveu a "Vida de Jesus". (1863). Este homem, padre apóstata, foi o símbolo do racionalismo ímpio. Na época de Pio IX ( que nascera em 1792 e morreu em 1878; governou a Igreja de 1846 a 1878), os católicos estavam divididos em dois grupos: os ultramontanos que condenavam todas as tendências modernas da sociedade; e os católicos liberais (como Montalembert) que pretendiam acomodar-se às exigências modernas. E o Papa Pio IX com a Encíclica "Quanta Cura" e o "Syllabus" deu razão aos ultramontanos. Entre os ultramontanos se destacou um leigo de grande firmeza na fé e um jornalista vigoroso: chamava-se Louis Veuillot ( pronuncia-se Luí Veiô).
   Sobre a situação religiosa da época diz São João Bosco: "As doutrinas errôneas destes últimos tempos, os chamados filósofos modernos, as diferentes formas de sociedades secretas, a maçonaria, o socialismo, os livres-pensadores, os espiritistas e outras seitas semelhantes se apoderaram de tal sorte do coração e da mente dos homens que o romano Pontífice Pio IX julgou necessária a convocação de um Concílio Ecumênico.

sábado, 11 de novembro de 2017

O PAPA S. LEÃO II ANATEMATIZA O PAPA HONÓRIO I

 Honório I foi um papa legitimamente eleito em 625 e que governou a Santa Igreja até sua morte que se deu no ano de 638. Portanto governou a Igreja durante 13 anos.Na lista dos papas legítimos da Igreja, Honório I ocupa o 70º lugar. Dizem os historiadores que ele foi um ótimo administrador. Reconstruiu o Aqueduto de Trajano e o teto da Basílica de São Pedro construída por Constantino. Transformou muitos ambientes pagãos em igrejas cristãs. O essencial, porém, é que um papa seja um muro de bronze contra as heresias. Mas, infelizmente, não o foi.
   Baseada nas Sagradas Escrituras e na Tradição a Teologia Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa (a Pessoa Divina do Filho de Deus); mas são duas naturezas, a divina e a humana, que tem cada uma sua vontade e sua operação; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana.
   A heresia que ensinava haver em Jesus Cristo uma só vontade e uma só operação, chamava-se Monotelismo. E os seus principais chefes foram dois Bispos e Patriarcas: Sérgio e Pirro. É bom saber que Patriarca era a maior autoridade no Oriente. O Bispo Sérgio era Patriarca de Constantinopla; e o Bispo Pirro era Patriarca de Alexandria. Diz São João Bosco que estes dois hereges empregaram toda sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro. E também o Imperador que, na época, era Constante, favorecia os hereges. Para este fim o Bispo Patriarca Sérgio escreveu uma carta mui subtilmente insidiosa ao Papa Honório I. Nesta carta o Bispo Patriarca Sérgio dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente para se evitar tais discussões e escândalos, proibir que se afirmasse haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. E o Papa Honório I não tendo advertido o laço que lhe havia armado o Bispo e Patriarca Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este herege. O Papa Honório I em duas cartas dirigidas ao Bispo Sérgio (Cf. D. 251 e 252) além de expor a doutrina de maneira ambígua (sobre as duas vontades em Jesus Cristo) cai também na cilada do Bispo e Patriarca Sérgio. Eis, em resumo, o que escreveu o Papa Honório I nestas cartas ao Bispo e Patriarca de Constantinopla: 1º - a ambigüidade: Ele afirma que em Jesus Cristo há uma só vontade. A primeira vista e não lendo todo o contexto, e, sobretudo, escrevendo para o Bispo Sérgio que erradamente dizia haver uma só vontade em Jesus Cristo, esta afirmação de Honório I parecia herética. Mas, na verdade, ele queria apenas dizer uma vontade moral, e não física; em outras palavras, ele queria dizer que em Jesus Cristo não podia haver duas vontades contrárias, como acontece conosco pecadores, em que pela concupiscência encontram-se em nós a vontade do espírito e a vontade da carne. Então todos os teólogos dizem que no contexto a doutrina era ortodoxa, mas dado o contexto histórico, ou seja, naquelas circunstâncias, o Papa Honório I deu ocasião para ser mal interpretado, ou melhor dizendo, ele deu azo para ser malevolamente interpretado pelos hereges monotelitas.
   Além desta falha, ou seja a ambigüidade, que é sempre um mal, mas que se torna mais desastrosa na época de heresia, Honório I teve uma outra falha não menos perniciosa: foi negligente e consequentemente imprudente, fazendo não o que os teólogos ortodoxos, como São Máximo monge e São Sofrônio bispo, ensinaram segundo a Tradição e as Sagradas Escrituras, mas deu ouvidos com facilidade, para não dizer com displicência, aos Bispos e Patriarcas hereges Sérgio e Pirro.
   Eis algumas de suas palavras: "Não nos devemos preocupar em dizer ou entender que em Jesus Cristo, por causa das obras da divindade e da humanidade, seja uma ou duas operações. Deixamos estas coisas para os gramáticos discutirem... Nós, porém, não percebemos pelas Sagradas Escrituras, se (em Jesus Cristo) é uma ou se são duas operações, mas vemos que Ele opera de muitas maneiras."... "Portanto, para evitar o escândalo de uma nova invenção, não nos interessa pregar definindo se é uma ou se são duas operações". E depois o Papa Honório I diz que se pode falar em duas naturezas, mas não se deveria empregar a expressão "duas operações". Em latim está assim: "ablato geminae operationis vocabulo".
   Agora vejamos a atitude de São Máximo, o Confessor. Na verdade, não foi só ele que não obedeceu ao Papa Honório I, mas, entre muitos outros podemos citar ainda: São Sofrônio que era Bispo e dois discípulos de São Máximo ambos chamados Anastácio. Um era núncio do Papa, e o outro era monge. Mas vamos falar só de São Máximo, o Confessor. D. Antônio de Castro Mayer na sua carta pastoral "Aggiornamento e Tradição" diz: "Entre os que continuaram a ensinar as duas vontades em Jesus Cristo está o grande São Máximo, chamado o Confessor porque selou com o martírio sua fidelidade à doutrina católica tradicional".
   São Máximo se tornou um dos homens mais sábios do século VII. Sua capacidade era tanto mais notável quanto a cobria uma grande humildade.
   Embora em consciência viu claramente que não podia obedecer ao Papa Honório I, no entanto, nunca lhe faltou o respeito, e na medida do possível, procurou até defender o Papa Honório I. Por exemplo, numa carta a um padre chamado Marino, São Máximo faz ver que os Santos Padres da Igreja reconhecem em Jesus Cristo duas vontades e diz: "Eu estou mesmo persuadido de que o Papa Honório, falando em sua carta a Sérgio de uma vontade, não negou as duas vontades naturais, mas ao contrário, as estabelece. Pois ele somente negou a vontade carnal e viciosa. A razão que dá prova-o, isto é, que a divindade tomou nossa natureza e não nosso pecado".
   São Máximo, apesar da proibição do Papa Honório I, teve uma disputa pública com o Bispo Pirro, Patriarca de Alexandria, e companheiro de heresia do Bispo e Patriarca Sérgio. Pois bem! São Máximo conseguiu refutar o Bispo Pirro e este terminou abjurando a heresia do monotelismo. Mas, talvez influenciado pelas fraquezas que teve o papa Honório I, infelizmente recaiu na heresia.
   Como acontecera com o Arianismo, favorecido pelo Papa Libério (embora isto seja nebuloso) e pelos imperadores, e, por outro lado, combatido por mais de quarenta anos seguidos por Santo Atanásio, o Monotelismo foi favorecido pelo Papa Honório I e também pelos imperadores.
   Quase 1200 anos mais tarde, se discutia no Concílio Vaticano I, a proclamação do dogma da Infalibilidade papal, e os adversários da definição, puseram sobre o tapete a chamada questão de Honório I, e se procedeu a um estudo de todas as fontes documentais e se rechaçou a objeção como infundada.
   1º - A defesa de Honório I, feita pelo próprio São Máximo, como já vimos.
   2º- A defesa feita por alguns papas. Por exemplo: o Papa João IV (640-642) dá, das palavras de seu antecessor o papa Honório I, a mesma explicação dada por São Máximo, que referimos acima.
   3º - A maior objeção contra Honório I, foi o III Concílio de Constantinopla, que foi o VI Concílio Ecumênico na Igreaja (680). Neste Concílio os bispos (que eram em número de 160) condenaram os monotelitas como hereges e entre eles o papa Honório I. Mas é preciso lembrar uma verdade básica sobre um Concílio Ecumênico. E é o seguinte: Os bispos num Concílio Ecumênico são infalíveis em questão de fé e moral. Mas não podemos esquecer que para tanto é absolutamente necessária a confirmação do Papa. Do contrário não é infalível. Pois bem! O que aconteceu neste Concílio de Constantinopla III? Todos os bispos condenaram o Papa Honório como herege. Mas o Papa São Leão II, não aprovou esta condenação de Honório I como herege. É certo que aprovou a condenação dos monotelitas como hereges. Mas quanto ao Papa Honório I, aprovou a sua condenação, ou seja, o lançamento do anátema, não por ter sido herege, mas por ter favorecido a heresia por sua ambiguidade, negligência e omissão. Eis então a condenação do Papa Honório I feita pelo Papa São Leão II: "Anatematizamos também Honório (Papa) que não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por sua traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada (...) "e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica, a chama incipiente da heresia, mas a estimulou por sua negligência". ( Denz-Sch. 563 e 561). 
   O Papa Adriano II diz que Honório I foi condenado pelos bispos orientais como herético. Sabemos que os bispos reunidos no 3º Concílio de Constantinopla realmente incluíram o papa Honório I na condenação dos monotelitas como hereges. Mas, como acabamos de ver, a decisão de um Concílio mesmo Ecumênico, depende da aprovação do Papa. E São Leão II aprovou o anátema contra os monotelitas por serem heréticos, mas, quanto ao papa Honório I, lançou um anátema em separado, ou seja, como favorecedor de heresia por ambiguidade, negligência e omissão. E, em um papa, estas faltas são realmente merecedoras de anátema.
   Vamos resumir aqui as falhas do Papa Honório I:
   1º - O Papa Honório I foi ambíguo em expor a verdade. E isto é objetivamente muito grave da parte de um papa. E se torna mais grave ainda se a ambiguidade é sobre uma verdade pregada pela Tradição da Santa Igreja e que está sendo negada pelos hereges como foi o caso. E vejam bem, caríssimos leitores. Apesar de alguns papas sucessores de Honório I terem procurado dar a interpretação ortodoxa da exposição ambígua de Honório I, no entanto, a heresia continuou, alimentada sempre pela fraqueza de Honório I. A ambiguidade é como algo inflamável. Mas, se uma tubulação de gaz está com algum vazamento, é claro que as pessoas de bem evitarão qualquer faísca; mas, não faltará um terrorista para lançar de propósito a faísca.  Então, não é suficiente, colocar um aviso alertando para o perigo. Chama-se imediatamente o Corpo de Bombeiros para eliminar o vazamento. Na verdade, o papa Honório I fora ambíguo. Não resolveu o problema o fato de alguns papas sucessores de Honório alertarem para não se lançar nenhuma faísca herética. Mas a ambiguidade continuava. Consequentemente também o perigo. Então, que fez o Papa Leão II. Eliminou a causa, eliminou a mal pela raiz. Condenou o Papa Honório I pela sua ambiguidade e negligência. E, assim, a heresia do Monotelismo só acabou mesmo depois que São Leão condenou expressamente e de maneira enérgica, as falhas de Honório I. E, para sermos mais preciso, a heresia ainda sobreviveu alguns poucos anos após a condenação de Honório  feita pelo Papa São Leão II; mais ou menos como uma roda de uma máquina que, mesmo depois de desligada da energia elétrica, ainda trabalha mais um pouco pelo impulso anteriormente recebido. É bom, caríssimos leitores, para se avaliar melhor o mal que Honório I causou à Igreja, saber que a heresia do Monotelismo durou mais de 40 anos. O papa Honório I morreu no ano de 638 e o Papa São Leão II condenou-o no ano 680.
   2º- Além da ambiguidade, a segunda falha do Papa Honório I foi a imprudência.
   Se o pastor e guia, não vigia, ai do rebanho!!! Os hereges, sobretudo os saídos da própria hierarquia da Igreja (e a maioria o é) são astutos, são lobos com peles de ovelha. Então, o guia supremo da Igreja, o Papa, deve estar muito atento para não cair nas ciladas dos seus inimigos. Aliás, não é precisamente isto que a Santa Madre Igreja nos ensina a rezar?! ..."et non tradat eum in animam inimicorum ejus"? (Oração pelo Sumo Pontífice na bênção do SS. Sacramento). E pedimos a Deus na Ladainha de Todos os Santos: "Para que Vos digneis conservar em santa Religião o Sumo Pontífice". 
   Como diz São Leão II, a atitude de Honório I foi uma "traição sacrílega", porque, como papa, ele tinha obrigação de vigiar e, notando que a fumaça, ou melhor, a chama de Satanás estava começando, ele, como autoridade apostólica e suprema, tinha o grave dever de extingui-la inteira e imediatamente; e, não só não o fez, mas alimentou esta mesma chama com a ambiguidade e negligência e, sobretudo tendo a fraqueza de impor silêncio aos santos e doutos homens da Igreja, São Máximo e São Sofrônio que defendiam a verdade contra os bispos e patriarcas hereges. Ainda bem que estes homens, hoje canonizados pela Igreja, não obedeceram ao Papa Honório I. Não faltaram o respeito ao Papa Honório I, que favorecia a heresia; nem tão pouco caíram no SEDEVACANTISMO.
   Para terminar,vejamos as lições que nos dá São Máximo, o Confessor: Quando um papa, por sua negligência e/ou imprudência, favorece a heresia, em consciência diante de Deus, não podemos obedecer; não podemos segui-lo. Aí, devemos obedecer antes a Deus que aos homens. O Papa Honório I proibiu que se falasse em duas operações em Jesus Cristo. São Máximo não obedeceu e continuou pregando a verdade da Tradição. Talvez, na época, o monge Máximo fosse considerado desobediente e rebelde. Mas hoje sabemos que um papa e aliás, um papa santo, ou seja São Leão II condenou o Papa Honório I como Traidor da Tradição; e o monge Máximo foi canonizado pela Igreja e recebeu o epíteto de "o Confessor". De fato desobedeceu ao Papa, para confessar a Tradição.
   O que o Papa Honório I fez moralmente contra São Máximo, fê-lo também fisicamente o Imperador que era monotelita. Este também proibiu São Máximo de continuar pregando que em Cristo há duas operações e duas vontades. Como São Máximo não obedeceu, o imperador mandou o carrasco lançá-lo na prisão, açoitá-lo e finalmente mandou cortar-lhe a língua e a mão direita.
   São Máximo é venerado na Igreja como mártir e "o Confessor" no dia 13 de agosto.
   Caríssimos e amados leitores, invoquemos a São Máximo que nos obtenha junto a Nosso Senhor Jesus Cristo as luzes e a força necessárias para defendermos a Santa Madre Igreja contra as ciladas dos modernistas, contra a fumaça de Satanás, contra a autodemolição desta amada "Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo". Peçamos, outrossim, a Nosso Senhor Jesus Cristo que nos livre do Sedevacantismo; que nos livre de toda rebelião contra a autoridade em si. Que nos dê a firmeza para obedecermos antes a Deus que aos homens, quando as autoridades legítimas nos mandarem algo contra a Lei de Deus. Mas, mesmo nestes casos de resistência às autoridades, que Deus, Nosso Senhor, nos guarde de qualquer desrespeito, insulto à autoridade em si mesma. Amém!

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O ATO SOBRENATURALMENTE MERITÓRIO


ATO MERITÓRIO SOBRENATURALMENTE é aquele que move a Deus Nosso Senhor a conceder-nos um prêmio sobrenatural.

DIVISÃO: Há o ato meritório DE CONDIGNO, isto é, quando seu valor é de algum modo (suposta a promessa de Deus) igual ao prêmio, de maneira que este fosse como que devido por justiça ao homem. Há o ato meritório DE CONGRUO, isto é, quando não há essa proporção e igualdade, nem se deve, por conseguinte, o prêmio ao ato senão por certa liberalidade.

Devemos dizer já inicialmente que os atos morais, pelos quais possamos chegar ao fim sobrenatural da vida eterna, devem ser sobrenaturais, e isto em razão da sobrenaturalidade interna do próprio ato, pela qual é elevado acima da natureza no seu próprio ser e quanto à substância deve ser sobrenatural: pois o caminho deve ser proporcionado ao término, e a obra ao prêmio. Ora, o fim da vida eterna é estritamente sobrenatural e é diverso essencialmente do último fim natural; logo também os atos pelos quais tendemos para este fim, devem, quanto à sua essência, ser sobrenaturais.

Vejamos, então, quais as CONDIÇÕES requeridas para que os atos humanos verdadeiramente sejam sobrenaturais. Quanto a isto há certas divergências entre os teólogos. Limitar-me-ei a expor o que todos admitem: a) É necessário que o ato seja MORALMENTE BOM; pois, o ato humano de si moralmente indiferente, não pode ser sobrenatural. Realmente o ato sobrenatural tem Deus por autor principal que move e ajuda pela graça; Deus, porém, não excita pela sua graça para a realização de atos indiferentes. Donde uma outra condição: b) É necessário que o ato proceda de um PRINCÍPIO SOBRENATURAL, ou seja, da potência elevada pela graça atual. Para o ato ser sobrenatural não basta só as forças naturais, mas é mister que seja realizado pelas forças sobrenaturais da graça. c) Autores de grande autoridade, como Santo Afonso, Suarez, Lehmkuhl e Mazzella exigem também que o MOTIVO seja SOBRENATURAL, ou seja, que proceda da fé. Mas como? Há várias explicações, mas o teólogo Noldin diz que se pode afirmar que o ato humano do homem fiel é sobrenatural e não se exige outra condição senão que seja etnicamente bom (honesto) e proceda da graça, ou seja, dum princípio sobrenatural.  Portanto, não é necessário  que o objeto do ato sobrenatural seja sobrenatural. Assim o objeto pode ser natural, desde que seja movido pelas forças da graça de Deus. É obvio que não queremos negar que o ato feito por um motivo sobrenatural de fé, seja de maior dignidade e valor. Daí, devemos aconselhar os fiéis a que se acostumem a fazer suas ações por motivos sobrenaturais de fé. Vamos dar o exemplo da esmola, e por ele podemos fazer aplicação às outras obras em si boas etnicamente. Aprendemos nas aulas de catecismo que a esmola é uma obra santa e muito agradável a Deus, como Ele mesmo revelou. Suponhamos que um fiel, sem no momento pensar nisso (que foi revelado por Deus como uma obra agradável a Ele) deu uma esmola ao pobre, fez na verdade uma obra sobrenatural meritória, embora só virtualmente este ato tenha procedido de um ato de fé. No entanto, suponhamos que, ao dar a esmola, lembrado dos ensinamentos da fé, pensou que o pobre foi remido por Jesus Cristo, que o pobre é irmão de Cristo; que Cristo assim preceituou a esmola porque por ela se consegue mais facilmente a vida eterna, então, digo, esta esmola teve muito mais merecimento diante de Deus.  Mas, no primeiro caso, não podemos negar que a obra foi também sobrenatural.  Daí devemos concluir que A RETA INTENÇÃO ATUAL, embora não seja necessário, no entanto, ela torna o ato sobrenatural mais digno e mais meritório.

Especificamente, quais as condições para o mérito DE CONDIGNO e DE CONGRUO? 1º - CONDIÇÕES PARA MERECER DE CONDIGNO: a) Da parte de quem merece se requer que  esteja na Igreja militante (procurando o caminho do Céu), que obre livremente, que seja justo (esteja em graça santificante) e que mereça para si. Agora, da parte da obra, que seja boa moralmente e também sobrenatural, isto é, que o ato seja realizado com o auxílio da graça atual. Da parte de Deus, que haja promessa de tal prêmio vinculado a tal obra. 2º - CONDIÇÕES PARA MERECER DE CONGRUO, são as mesmas condições, excetuando o estado de graça em quem merece para si, e a promessa certa de Deus.

Nós padres devemos exortar os fiéis a que façam toda manhã o ato de oferecimento do dia como é preceituado para o Apostolado da Oração: "Ofereço-vos, ó meu Deus, em união com o Santíssimo Coração de Jesus, por meio do Coração Imaculado de Maria, etc., e que façam com frequência orações jaculatórias de amor a Deus para atualizar os motivos sobrenaturais.

O teólogo Noldin explica esta palavra do Divino Mestre: "Quem ouve a minha palavra e crê em quem me enviou, tem a vida eterna" (S. João V, 24) isto é, tem, donde possa realizar obras de vida eterna, porque tem a condição, posta a qual, são fornecidas por Deus as graças sobrenaturais. Daí, continua Noldin, segue-se que a todos os fiéis, sejam justos ou pecadores, sempre está presente a graça atual, pela qual suas ações moralmente boas, se tornam sobrenaturais; mas com maior certeza pode-se afirmar que todas as obras moralmente boas dos JUSTOS sempre são executadas com o auxílio da graça de Deus e portanto, são sobrenaturais. Pois o Concílio de Trento assim fala sobre isto: "Porquanto Jesus Cristo mesmo dá a sua força aos justificados como a cabeça aos membros e a vide aos ramos. Esta força sempre antecede às suas obras que foram feitas em Deus, poderem plenamente, segundo o estado de vida, satisfazer à lei divina e a seu tempo (morrendo em estado de graça) conseguir a vida eterna" (Sessão VI, cap. 16. n. 809).


Terminemos com a advertência que o Sacrossanto Concílio de Trento faz no final do capítulo 16, nº 810: "Não se deve, todavia, omitir o seguinte: Embora na Sagrada Escritura se atribua tão grande valor às boas obras, que Cristo prometeu: Quem oferecer um copo de água fresca a um destes pequeninos, em verdade não ficará sem a sua recompensa(Mt. X, 14); e o Apóstolo testifique: O que presentemente é para nós uma tribulação momentânea e ligeira, produz em nós um peso de glória" (2 Cor. IV, 17); contudo, longe esteja o cristão de confiar ou se gloriar em si mesmo e não no Senhor (1 Cor. I, 31; 2 Cor. X, 17), cuja bondade é tanta para com todos os homens, que Ele quer que estes seus próprios dons se tornem merecimentos deles. E porque todos nós pecamos em muitas coisas (S. Tiago III, 2), cada qual deve ter diante dos olhos tanto a misericórdia e bondade de Deus, como a sua severidade e juízo, e não se julgar a si mesmo, embora nada lhe pese na consciência, porque a vida do homem há de ser toda examinada e julgada, não pelo tribunal humano, mas pelo de Deus, que há de alumiar as trevas mais recônditas e manifestar os desígnios dos corações, e então cada um receberá de Deus o louvor (1 Cor. IV, 4), que  -  como está escrito  -   dará a cada um conforme as suas obras (Rom. II, 6). 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MOMENTO ATUAL

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MOMENTO ATUAL
                                                        
            “Ficai bem atentos à vossa maneira de proceder. Procedei não como insensatos, mas como pessoas esclarecidas... porque estes dias são maus” (Ef 5, 16). “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2).

PROPAGANDA DA IMORALIDADE – ATAQUES À FAMÍLIA:

Junto com a divulgação da imoralidade, fantasiada de arte, e a propaganda maciça do homossexualismo, travestido de respeito à diversidade, reaparece a doutrinação da Ideologia de Gênero, também com ares de liberdade e de orientação sexual.          
Configura-se, visando sua destruição, um verdadeiro ataque à família, santuário da vida, que vai perdendo seus direitos na educação dos seus filhos, os quais se tornam alvo fácil dessa onda destruidora da moral. Os bons ficam acuados. E os meios de comunicação, através de novelas e entrevistas direcionadas, vão divulgando essa mentalidade de modo bem orquestrado.
Se a crise social, política e familiar por que passamos é, sobretudo, moral, essa propaganda em nada a faz diminuir, mas, pelo contrário, aumenta-a rompendo todas as barreiras éticas que deveriam pautar o comportamento humano.
            Ao repetir o Mandamento divino “Não pecar contra a castidade”, a Igreja nos ensina a vencer a luxúria e evitar tudo o que a ela conduz, como a pornografia e a indecência no vestir. A castidade faz parte da temperança, conduz ao domínio de si, que exige um esforço constante em todas as idades da vida, especialmente quando se forma a personalidade, durante a infância e a adolescência (cf. Catecismo da Igreja Católica – CIC - 2331-2356).
São Paulo já advertia: “Fostes chamados à liberdade. Porém, não façais da liberdade um pretexto para servirdes à carne” (Gl 5, 13).
            Sobre a propaganda da imoralidade, recordo as graves palavras do saudoso Cardeal Dom Lucas Moreira Neves, acusando a Televisão, o que poderíamos aplicar também a certos sites da Internet, devido à onda de impureza que traz para dentro dos lares: “Acuso-a de ministrar copiosamente a violência e a pornografia. A primeira é servida em filmes para todas as idades. A segunda impera, solta, em qualquer gênero televisivo: telenovelas, entrevistas, programas ditos humorísticos, spots publicitários e clips de propaganda. A TV brasileira está formando uma geração de voyeurs, uma geração de debilóides. Acuso-a de ser corruptora de menores”.
E não é só contra essa imoralidade que a Igreja levanta a sua voz. Ela também repudia o assassinato de crianças e adolescentes, a prostituição infantil, a morte de crianças para o roubo de órgãos, a mortalidade das crianças nos hospitais públicos, a violência doméstica, o estupro e o feminicídio.  

            PROFANAÇÃO DOS SÍMBOLOS CRISTÃOS:

            Quanto à profanação dos símbolos cristãos, como o crucifixo, a hóstia, a imagem da Padroeira do Brasil, fazendo eco às palavras dos Bispos do Regional Nordeste 1 da CNBB, manifesto a minha indignação e repúdio diante do escárnio público desses nossos símbolos, crime de vilipêndio, condenados também pelo Código penal (Artigo 208).
            E essa indignação e repúdio deve ser a de todos os católicos e pessoas de bom senso e respeito.

            PROPAGANDA DO HOMOSSEXUALISMO:

            Sobre a homossexualidade, observamos primeiramente que se deve fazer a distinção entre pessoas e atos, entre a tendência e a prática.

Na linha do pensamento de Santo Agostinho, que dizia que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador, e em seguimento do Papa Francisco, que pastoralmente nos ensina a aplicar sempre a misericórdia, as pessoas que apresentam essa inclinação, objetivamente desordenada, cuja gênese psíquica continua em grande parte por explicar, devem ser acolhidas com respeito, delicadeza e compaixão, pois, para a maioria, isso constitui uma provação. Evitar-se-á para com elas todo sinal de descriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã (cf. CIC nn. 2357-2358).   
A Igreja, e nós com ela, condenamos e repudiamos, pois, todas as ofensas e, mais ainda, os assassinatos e espancamentos de LGBTIs por conta da intolerância.

Mas não podemos deixar de dizer que a prática do homossexualismo é condenável. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (cf. Gn 19,1-29; Rm 1, 24-27; I Cor 6, 9-10; I Tim 1, 10), a tradição sempre declarou que ‘os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados’ (Congregação para a Doutrina da Fé, declaração Persona Humana, 8). São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados (CIC n. 2357).
            Por isso, a propaganda do homossexualismo como sendo algo natural é maléfica e, por isso mesmo, condenável. 
São Paulo, apóstolo, fala “com lágrimas”, que muitos “se gloriam daquilo de que se deveriam envergonhar” (Fl 3,19). E, referindo-se aos pecados e perversidade dos pagãos, o mesmo apóstolo nos recorda a moral natural: “Por isso, Deus os abandonou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador... Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario” (Rm 1, 24-27).  
Aliás, já no Antigo Testamento, Deus já havia condenado os atos homossexuais: “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável” (Lv 20, 13).
Por isso, São Paulo, desejoso de nossa salvação, nos adverte: “Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados (em latim, molles), nem os homossexuais (em latim ‘masculorum concubitores’), nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10).

IDEOLOGIA DE GÊNERO:

            A ideologia de gênero quer eliminar a ideia de que os seres humanos se dividem em dois sexos, afirmando que as diferenças entre homem e mulher não correspondem a uma natureza fixa, mas são produtos da cultura de um país, de uma época. Algo convencional, não natural, atribuído pela sociedade, de modo que cada um pode inventar-se a si mesmo e o seu sexo.
            O feminismo do gênero, que promove essa ideologia, procede do movimento feminista para a igualdade dos sexos. A ideologia de gênero, própria das associações LGBT, baseia-se na análise marxista da história como luta de classes, dos opressores contra os oprimidos, sendo o primeiro antagonismo aquele que existe entre o homem e a mulher no casamento monogâmico. Daí que essa ideologia procura desconstruir a família e o matrimônio como algo natural. Em consequência, promovem a “livre escolha na reprodução”, eufemismo usado por eles para se referir ao aborto provocado. Como “estilo de vida”, promovem a homossexualidade, o lesbianismo e todas as outras formas de sexualidade fora do matrimônio. Entre nós, querem introduzir essa ideologia, usando o termo “saúde reprodutiva”. E usam a artimanha de palavras, especialmente “discriminação” e "luta contra o preconceito”. Sob esse nome sedutor – pois todos somos contra a discriminação injusta e o preconceito – querem fazer passar a ideologia do gênero, a ditadura do relativismo moral, estabelecendo uma nova antropologia anticristã, sob o nome de democracia.
Essa campanha é internacional. Na Itália, por exemplo, os folhetos distribuídos nas escolas pretendem ensinar a todos os alunos que “a família pai-mãe-filho é apenas um ‘estereótipo de publicidade’; que os gêneros masculino e feminino são uma abstração; que a leitura de romances em que os protagonistas são heterossexuais é uma violência; que a religiosidade é um valor negativo; chega-se ao ridículo de censurar os contos de fadas por só apresentarem dois sexos em vez de seis gêneros, além de se proporem problemas de matemática baseados em situações protagonizadas por famílias homossexuais”. 
 O Papa Francisco, alarmado, fala que estamos diante de uma “colonização ideológica”, de uma maldade ao ensinar a ideologia de gênero (Filipinas, janeiro de 2015). E nos alerta: “Na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina, na África, em alguns países da Ásia, existem verdadeiras colonizações ideológicas. E uma delas – digo-a claramente por ‘nome e sobrenome’ - é a ideologia de gênero (gender)! Hoje às crianças – às crianças! –, na escola, ensina-se isto: o sexo, cada um pode escolhê-lo... São as colonizações ideológicas, apoiadas mesmo por países muito influentes. E isto é terrível” (Encontro com os Bispos poloneses, 27/7/2016).

A Igreja nos ensina: “Deus criou o ser humano como homem e mulher, com igual dignidade pessoal, e inscreveu nele a vocação ao amor e à comunhão. Compete a cada um aceitar a sua identidade sexual, reconhecendo a sua importância para a pessoa toda, bem como o valor da especificidade e da complementaridade” (Compêndio do C.I.C. n. 487).




FOGO! SOCORRO! ACUDAM!

É HORA DO PROTESTO DE TODOS:

É preciso dar um basta! É preciso que as forças morais de toda a humanidade se levantem e deem o seu brado de inconformidade com tudo isso. É hora de gritar com São Luiz Maria Grignion de Montfort: “Fogo! fogo! fogo! Socorro! socorro! Socorro!... Socorro, que assassinam nosso irmão! Socorro, que degolam nossos filhos!...”.
A Igreja levanta a sua voz de repúdio a tudo isso: sua doutrina clara já condena esses erros. É preciso que os católicos sejam lógicos e coerentes com o que a Igreja lhes ensina.
            É hora, principalmente de os leigos agirem. Não fiquem se perguntando: o que a Igreja vai falar ou fazer sobre isso? Vocês também são a Igreja. A pergunta deve ser: o que nós estamos fazendo contra tudo isso? Não fiquem esperando pelos pastores. As ovelhas têm o direito de se defenderem dos lobos que as atacam. Falem, protestem, escrevam, alertem os filhos, os amigos. Gritem nas redes sociais! Pais de família, reajam! É preciso que o mundo escute a voz dos bons e saiba que ainda existem famílias corretas, pessoas de bem e de coragem que não concordam com a imposição dessas ideologias.
            “Unindo suas forças, os leigos purifiquem as instituições e as condições do mundo, caso estas incitem ao pecado. Isto de tal modo que todas essas coisas se conformem com as normas da justiça e, em vez de a elas se oporem, antes favoreçam o exercício das virtudes. Agindo dessa forma, impregnarão de valor moral a cultura e as obras humanas” (LG 36).
            Dom Prosper Guérranger (L’Année Liturgique), sobre o episódio em que um leigo, Eusébio, levantou-se em meio à multidão contra a impiedade de Nestório, salvando assim a fé de Bizâncio, comenta: “Há no tesouro da Revelação pontos essenciais, cujo conhecimento necessário e guarda vigilante todo cristão deve possuir, em virtude de seu título de cristão. O princípio não muda, quer se trate de crença ou procedimento, de moral ou de dogma. Traições como a de Nestório são raras na Igreja; não assim o silêncio de certos Pastores que, por uma ou outra causa, não ousam falar, quando a Religião está engajada.  Os verdadeiros fiéis são homens que extraem de seu Batismo, em tais circunstâncias, a inspiração de uma linha de conduta; não os pusilânimes que, sob pretexto especioso de submissão aos poderes estabelecidos, esperam, pra afugentar o inimigo, ou para se opor a suas empresas, um programa que não é necessário, que não lhes deve ser dado”.

            Campos dos Goytacazes, 26 de outubro de 2017

                         Dom Fernando Arêas Rifan
          Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

FONTES DA MORALIDADE


Em se tratando de Teologia, nunca será supérfluo lembrar, de quando em vez, que muitos termos teológicos não coincidem exatamente com a noção que vulgarmente deles se tem. Assim sendo é bom lembrar que MORALIDADE no sentido teológico significa algo que é feito livremente e levando em conta a bondade ou malícia do objeto. Portanto, ato moral não é só o que é bom, mas também pode ser o que é mau. Assim pois,  MORALIDADE, teologicamente falando, é a consideração se a coisa é boa ou má diante de Deus.

FONTES DA MORALIDADE são os elementos que podem contribuir para que um ato seja conforme ou não com a norma de moralidade. E são três: o OBJETO do ato, as CIRCUNSTÂNCIAS do mesmo e o FIM do agente. Todas estas três coisas devem ser inteiramente boas para que o ato seja bom; se, portanto, uma só delas for má, também o ato moral, será mau. Daí aquele célebre axioma teológico: Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu (=para uma coisa ser moralmente boa é necessário que o seja inteiramente, isto é, que o objeto, as circunstâncias e o fim sejam bons; para ser má, basta que uma só destas três coisas seja má).

NB. Desculpem-me os teólogos por eu, às vezes, me estender em explicações, porque falo evidentemente para todos, inclusive para os que não são afeiçoados à Teologia. E como hoje infelizmente, pessoas da hierarquia eclesiástica, estão lançando a verdadeira Teologia às urtigas, é mister que todos os fiéis a conheçam bem claramente, e não venham perder a fé.

Consideremos hoje estas três fontes da moralidade: o objeto, as circunstâncias e o fim.

1. O OBJETO.
É aquilo para o qual o ato moral tende imediatamente e no qual proximamente e por si mesmo termina o vontade do agente. É o que constitui a moralidade essencial e primária, pois, ela aparece antes de qualquer outra proveniente do fim ou das circunstâncias.

A MORALIDADE DO OBJETO: 1º - Pode ser EXTRÍNSICA e INTRÍNSECA.
A moralidade do objeto é extrínseca quando o objeto, indiferente em si mesmo, se torna bom ou mau porque foi mandado ou proibido. A moralidade do objeto é intrínseca se está mandado ou proibido por ser em si mesmo bom ou mau, seja em absoluto, ou seja, independentemente de toda circunstância; seja condicionalmente, isto é, em função de algo que pode mudar. Devemos observar que, às vezes, se diz intrinsecamente mau o que com mais propriedade deveria dizer-se intrinsecamente perigoso, como por ex. o olhar algo incentivo da luxúria.

Na verdade, o objeto é bom, ou mau, ou indiferente, enquanto está de acordo com a razão, a lei ou com a reta ordem (bom) ou não(mau); ou então está fora da lei ou da reta razão (indiferente). Quando o objeto é indiferente, isto é, em si mesmo não é nem bom nem mau, o ato terá sua moralidade determinada ou pelo fim ou pelas circunstâncias. Quando a moralidade é proveniente do objeto, chama-se moralidade (bondade ou malícia) OBJETIVA.

2º - O ATO EXTERNO enquanto é objeto da vontade, comunica ao ato interno sua própria moralidade objetiva, específica; e quando é efeito ou realização, nada acrescenta de per si à moralidade do ato interno; contudo, circunstancialmente a modifica quase sempre, já por seu influxo no ato interno, que intensifica ou faz repetir, já por razão dos efeitos e consequências que se originam do ato externo, como são a edificação, o escândalo, as censuras, o dever de reparar o dano, etc..  Se o ato externo é gravemente pecaminoso, se deve manifestar sempre na confissão, pois, constitui moralmente um mesmo ato com o interno.

Devemos notar que os atos maus podem ser de três classes: a) ABSOLUTAMENTE MAU:  é mau independentemente de toda circunstância; isto porque estes atos envolvem uma repugnância com a reta ordem absolutamente necessária, por exemplo, o ódio a Deus, a blasfêmia etc.. b) INTRINSECAMENTE MAU: não precisamente em si mesmos, mas em razão de algum adjunto ou condição que depende do poder de domínio de Deus ou do homem, por exemplo, tirar coisa alheia, lesar o corpo ou a fama e coisas semelhantes que, às vezes, se tornam lícitas. Resumindo: Intrinsecamente maus são ditos proibidos porque são maus; e extrinsecamente maus são ditos maus, porque são proibidos.  c) MAU SOMENTE EM RAZÃO DO PERIGO que ordinariamente vem acompanhando o ato, como por ex., o olhar de um objeto torpe, a leitura de um livro mau, etc. Estes atos, quando houver uma causa razoável, e o perigo é remoto, se tornam lícitos. 

AS CIRCUNSTÂNCIAS: São as qualificações acidentais do ato, sem as quais este pode existir quanto à substância (substancialmente), e que, no entanto atingem de algum modo a sua moralidade. Em outras palavras: circunstâncias são as condições acidentais que modificam o moralidade substancial que sem elas tinha já o ato humano. São sete, expressas em latim neste frase: "Quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando?". Traduzido: Quem, que coisa, onde, com que meios, por que, como, quando? Vamos explicá-los:
QUEM: isto é, qual o agente? Por ex.: se é solteiro ou casado, se é leigo ou consagrado a Deus, etc.  -  QUE COISA: isto é, qual  a qualidade acidental ou a quantidade do objeto?  -  ONDE: isto é, em que lugar, se sagrado ou profano, etc.  -  COM QUE MEIOS: isto é, que instrumentos, meios etc.  usou o agente?  -  POR QUE: ou seja, com que finalidade, certamente extrínseca?  -  COMO: por exemplo, se de má fé ou boa fé, se de modo intenso ou não, se advertidamente ou não etc.  -  QUANDO: isto é, em que tempo e por quanto tempo? (Cf. S. Tomás, 1-2, q. 7, a. 3 e 4).

O ato humano haure sua verdadeira moralidade das circunstâncias, porque elas, que só podem ser procuradas juntamente com o objeto seja direta ou indiretamente, afetam o ato em si mesmo, enquanto é ato humano, e este depende da regras dos costumes. Ora, muitas vezes têm relação de conveniência ou inconveniência com  a razão e reta ordem. Logo, as circunstâncias afetam no ser do costume ou quanto à moralidade; e nos atos indiferentes, são as circunstâncias que determinam a moralidade do ato.

INFLUXO DAS CIRCUNSTÂNCIAS: umas determinam a moralidade do ato; outras em nada a modificam, e são consideradas indiferentes; umas deixam o objeto em sua própria espécie; e outras mudam a própria espécie do ato, ou acrescentam uma nova espécie. Assim por ex. um único pecado pode ser tornar mais de um: quem rouba comete um pecado contra o 7º mandamento de Deus; com a circunstância de roubar num igreja, acrescenta outro pecado de espécie diferente que é o sacrilégio. Assim sendo, há obrigação de na confissão contar as circunstâncias que mudam a espécie de pecado.  Lembramos também que umas circunstâncias agravam e outras diminuem a malícia do ato. E podem agravar de tal modo a malícia de um ato que, de venial, se torne mortal; como também pode diminuir de tal modo a gravidade que, de mortal, o torne venial. Nestes casos dizemos que o ato permanecendo em sua mesma espécie moral diz-se que mudou quanto à espécie teológica. As circunstâncias GRAVEMENTE pecaminosas danificam gravemente a bondade natural do ato e destroem a sua bondade sobrenatural porque afastam totalmente do fim último. Já as CIRCUNSTÂNCIAS LEVEMENTE pecaminosas (p. ex. orar com tibieza, agir precipitadamente) não tiram TODA bondade do ato, porque este conserva a moralidade essencial que lhe vem do objeto.

O FIM: É aquilo que intenta conseguir aquele que obra. O fim da obra é intrínseco à própria obra e é justamente para ele que a obra por si mesma tende. Já o fim do operante é aquele para o qual o agente livremente dirige sua intenção ou é aquele que o agente preferiu, quer se identifique com o fim da obra, quer lhe seja diverso e extrínseco à obra. Aqui considera-se somente o FIM DO OPERANTE porque, na verdade, só ele é propriamente considerado FIM.

SEU INFLUXO: O FIM DO AGENTE  comunica ao ato humano uma moralidade, não precisamente ESSENCIAL, a não ser que se identifique com o fim da obra. O fim comunica, porém, uma moralidade PRINCIPAL, pois é a causa principal do ato (S. Tomás, 1-2 q. 7 a. 4).
 1 - UM FIM GRAVEMENTE MAU corrompe TOTALMENTE   o ato se ele é o único motivo de obrar. Por ex.: se alguém dá uma esmola tão somente para arrancar a fé ao pobre que socorre. UM FIM GRAVEMENTE MAU também corrompe o ato mas SÓ PARCIALMENTE, quando o fim mau não é o motivo total e adequado da ação, p. ex., alguém vai à Missa para cumprir o preceito dominical e, ao mesmo tempo, para se encontrar com uma pessoa e fomentar maus desejos.
2 - UM FIM LEVEMENTE MAU se é TOTAL , vicia também todo o ato, porque toda a intenção do agente é má, como naquele que reza unicamente para ser visto pelos homens. Se O FIM LEVEMENTE MAU  é PARCIAL,  vicia o ato só parcialmente, pois não destrói a tendência da vontade para a bondade objetiva da ação ou para outro fim extrínseco bom, p. ex., quando alguém se aproxima dos sacramentos com reta intenção e ao mesmo tempo com o vão desejo de agradar aos homens.
3 - Um ato humano é bom na ordem moral, se é buscado como tal e com referência a Deus, com uma relação ao menos virtual implícita. Esta consiste em que a obra, por sua própria natureza e objetivamente, está ordenada ao fim último, isto é, em que seja conforme com a natureza racional e se a realize como tal.

CONSEQUÊNCIAS: Sendo Deus o único fim último,  buscar um prazer não proibido por outros capítulos,COMO FIM ÚLTIMO,  é pecado grave, pois encerra uma grave desordem, com desprezo virtual de Deus. No entanto, quando O FIM NÃO É ÚLTIMO, aí temos duas hipóteses: a) se o agente exclui positivamente o fim que pretende a natureza, pelo menos é pecado venial, pois há nisso alguma desordem; b) se o agente não exclui positivamente, provavelmente não comete nenhum pecado já que com isso não se faz senão secundar a intenção de Deus.

NOTAS: 1ª - ATOS MORAIS INDIFERENTES podem dar-se EM ABSTRATO na ordem natural, se levamos em conta só o objeto; segundo a sentença mais comum, porém, não podem dar-se EM CONCRETO, levando em conta o fim e as circunstâncias: p. ex., passear para recrear-se é uma ação boa, não indiferente, se o recreio é moderado e portanto pode ser referido a Deus; do contrário, é mau.

2ª - Para que o objeto e as circunstâncias comuniquem ao ato sua bondade, devem buscar-se diretamente e por razão dessa bondade; em troca, para que o infeccionem com sua malícia, basta que se os busque ainda indiretamente em sua causa voluntária pecaminosa e sabendo que são maus, ainda que não se queira precisamente por serem maus.