quinta-feira, 15 de novembro de 2012

QUESTIONAMENTO E DIÁLOGO

Extraído do Livro "DO LIBERALISMO À APOSTASIA", escrito por D. Lefebvre

O Questionamento
   
   Temos visto que o espírito católico-liberal não tem suficiente confiança na verdade. O espírito conciliar, por sus vez, perde a esperança de conseguir chegar à verdade; sem dúvida a verdade existe, mas ela passa a ser objeto de uma procura sem fim.
   Veremos que isto significa que a sociedade não se pode organizar sobre a verdade, verdade que é Jesus Cristo. Em tudo isto, a palavra chave é "questionamento", ou orientação, tendência para a verdade, procura da verdade, caminho para a verdade. Na linguagem conciliar e post-conciliar encontra-se com abundância os termos "movimento" e "dinâmica".
   Com efeito, o Concílio Vaticano II canonizou a procura em sua Declaração sobre a liberdade religiosa: "A verdade deve ser procurada conforme o modelo próprio da pessoa humana e de sua natureza social, ou seja, por meio da livre procura..." O Concílio põe a procura em primeiro lugar, antes do ensino e da educação. Entretanto a realidade é outra: as convicções religiosas são impostas pela educação das crianças, e uma vez que estão fixadas nos espíritos e manifestadas nos cultos religiosos, para que procurá-las? 
   Por outro lado, muito raramente a "livre procura" conseguiu alcançar a verdade religiosa e filosófica. O grande Aristóteles não está isento de erros. A filosofia do livre exame acaba em Hegel... E também, que dizer das verdades sobrenaturais? eis o que diz São Paulo falando aos pagãos: "Como poderão crer, se não lhes fazem prédicas? Como se poderá pregar, se não lhes enviam missões? (Rom. X, 15). Não é o questionamento que a Igreja deve pregar, mas a necessidade das missões: "Ide e ensinai todas as nações" (Mt. XXVIII,19), tal é a ordem dada por Nosso Senhor. Sem a ajuda do Magistério da Igreja, quantas almas poderão encontrar a verdade, permanecer na verdade? A livre procura é um irrealismo total, no fundo um naturalismo radical. Na prática, qual a diferença entre quem se questiona e um livre pensador?

O Diálogo
  O diálogo não é uma descoberta conciliar, Paulo VI em "Ecclesiam Suam" (1) é o seu autor: diálogo com o mundo, com as outras religiões; mas é preciso reconhecer que o Concílio aumentou imensamente sua tendência liberal. Exemplo:

     "A verdade deve ser procurada (...) por meio (...) de um intercâmbio e de um diálogo para que uns exponham aos outros a verdade que encontraram ou pensam haver encontrado para se ajudarem mutuamente na procura da verdade" (DH. 3).
  
  Assim, tanto o crente como o não crente deveriam estar sempre em procura. São Paulo entretanto, denunciou os falsos doutores "que estão sempre aprendendo sem nunca chegar à verdade" (2Tim. III, 7). .Por seu lado, o não crente pensaria em fornecer ao crente elementos da verdade que lhe faltaram! O Santo Ofício, em sua Instrução de 20 de Dezembro de 1949, sobre o ecumenismo, afastava este erro e falando da volta dos cristãos separados para a Igreja católica, escrevia:

     "Deve-se evitar falar sobre isso de um modo tal que ao voltar à Igreja, eles imaginem que tragam para ela algo de essencial que lhe teria faltado até então". (2). 

  O contato com não católicos só pode nos trazer experiências humanas, mas nunca elementos doutrinais!
  Além disso o Concílio modificou consideravelmente a atitude da Igreja diante das outras religiões, em particular das não-cristãs. Na entrevista que eu tive em 13 de Setembro de 1975 com o secretário de Mons. Nestor Adam, então bispo de Sion na Suíça, o secretário estava de acordo comigo: "Sim, algo mudou na orientação missionária da Igreja". Mas ele acrescentava: "...e tinha mesmo que mudar". "Por exemplo, dizia ele ainda, agora nós procuramos naqueles que não são cristãos ou nos que se separaram da Igreja, o que há neles de bom, de positivo; procuramos ver nos seus valores os germes de sua salvação."

  É claro que todo erro tem lados verdadeiros, positivos; não há erro em estado puro, assim como o mal absoluto não existe. O mal é a corrupção de um bem; o erro é a corrupção da verdade, mesmo sendo evidente que a pessoa má ou errada conserva sua natureza, suas qualidades naturais, algumas verdades. Mas há grande perigo em tomar este resto de verdade não atingido pelo erro como base. O que deveríamos pensar de um médico que, chamado para assistir um doente grave chegasse dizendo: - "Ainda há muita saúde neste doente, isso é que conta". Você poderia objetar:  - "Mas é melhor examinar a doença antes que ele morra!" E o médico a insistir: - "Ah! mas ele não está tão doente. Além disso meu método de trabalho é de não prestar atenção à doença de meus pacientes: isso é negativo; eu me volto para a saúde que lhe resta." Então diria eu, deixemos que morram os doentes! O resultado é que à força de se dizer aos não-católicos ou aos não-cristãos: "afinal vocês têm uma consciência reta, vocês têm meios de salvação" eles acabam acreditando que não estão doentes. E depois, como os converter?

  Nunca tal espírito foi o da Igreja. Pelo contrário, o espírito missionário foi sempre o de mostrar abertamente aos enfermos suas chagas, para curá-los e dar-lhes os remédios de que necessitavam. É uma crueldade encontrar-se com não cristãos e não lhes dizer que têm necessidade da Religião cristã, e que somente se podem salvar por Nosso Senhor Jesus Cristo. Sem dúvida no começo de uma conversão se faz uma "captatio benevolentiae", (3) elogiando o que há de honesto em sua religião, ou seja, o que é legítimo; mas fazer disso um princípio doutrinal é um erro, é enganar as almas! "Valores salvíficos das outras religiões": isto é uma heresia! Fazer deles a base do apostolado missionário é querer manter as almas no erro. Este "diálogo" é anti-missionário ao extremo. Nosso Senhor não enviou seus apóstolos para dialogar, mas para pregar. Por ser este espírito de diálogo liberal  o recomendado aos sacerdotes e missionários desde o concílio, entende-se porque a Igreja Conciliar perdeu completamente o zelo missionário, o verdadeiro espírito da Igreja.  

NOTAS: (1) - Esta Encíclica é de 6 de Agosto de 1964.
                 (2) - Instrução "De Motione Oecumenica".
            (3) - "Captar a benevolência". D. Lefebvre era missionário e sabia bem o que significa isto: o missionário ao chegar para início de alguma missão deve em primeiro lugar atrair a simpatia dos ouvintes: mansidão, tolerância de algumas coisas que por prudência vai corrigindo aos poucos ( exemplo: falta de modéstia) e também elogios, como diz D. Lefebvre, das coisas honestas e legítimas;  obras de caridade, como fizeram os santos, por ex. São Vicente de Paulo.
  Estive em Jerusalém em 2000 e, estando perto do muro das lamentações, conversava com o sr. Leão, nosso guia, que era da religião judaica. Perguntei a ele: Não quero só sua opinião particular, queria saber qual foi a reação dos judeus e muçulmanos pelo fato de o Papa ter beijado o livro do Alcorão e ter rezado ali no muro das lamentações e ter ali deixado um escrito pedindo perdão pelas (pretensas) faltas da Igreja com relação a eles. O Sr. Leão respondeu-me: "Todos achamos ótimo. Afinal a Igreja  Católica vem reconhecendo que nós estamos certos!" 
  Quando dissemos ao Sr. Leão que iríamos rezar para ele se converter, respondeu-nos: - "Também irei rezar para vocês católicos se converterem".  
   No monte das Oliveiras, na Igreja do Pater Noster que é também um Carmelo, e lá vemos o "Pater Noster" escrito em todas as línguas. Foi ali que Jesus ensinou o Pai-Nosso. Pedimos, então ao Sr. Leão que lesse para nós o Pai-Nosso em hebraico e aramaico, línguas em que Jesus falou. Ele leu, mas não falou o Amém. E lá está escrito. Perguntamos a ele o porquê. Respondeu: "O 'Amém' confirma o que Jesus ensinou e nós judeus não aceitamos a Jesus". 
   Uma árvore má não pode dar bons frutos!

      
  

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O ESPÍRITO DO CONCÍLIO - ( II )

Por D. Lefebvre

  Tendência ao Indiferentismo Religioso

  Quando se afirma que toda religião é caminho para Deus, ou que o Estado não está qualificado para fazer um juízo sobre a verdade desta ou daquela religião, são ditas coisas que combinam com a heresia chamada indiferentismo: indiferentismo do indivíduo ou do Estado, com relação à verdadeira religião. 

  É inegável que o Concílio apresenta este indiferentismo ou uma tendência para ele. Exaltando a consciência individual, os valores espirituais e os valores das outras religiões (Nostra Aetate nº 2, Unitatis Redintegratio nº 3, Dignitatis Humanae nº 4) alimenta-se o indiferentismo individual. Proferindo incongruências inauditas, como faz Mons. De Smedt, sobre a incompetência do Estado para julgar a verdade religiosa e reconhecer o verdadeiro Deus, propaga-se o indiferentismo do Estado, seu ateísmo. 

  Estão aí os frutos deste espírito e destas doutrinas deletérias: nenhum católico hoje sustenta que nos países católicos o Estado ainda deva reconhecer a verdadeira religião, ajudá-la com suas leis e inclusive impedir a propagação das falsas religiões. Já ninguém o faz!

  Em 1966 a Colômbia era ainda um país 95% católico, graças ao Estado que impediu, pela Constituição, a propagação das seitas protestantes, o que significou uma grande ajuda para a Igreja Católica. Protegendo a Fé dos cidadãos, estas leis e estes chefes de estado terão contribuído para levar para o céu milhões de indivíduos, que gozarão da vida eterna graças a estas leis sem as quais não a teriam conseguido. Mas agora na Colômbia, isto acabou. Esta lei fundamental foi suprimida a pedido do Vaticano, na aplicação da liberdade religiosa do Vaticano II! Atualmente as seitas pululam e estes pobres homens estão desarmados ante a propaganda da seitas protestantes, cheias de dinheiro e meios, que trabalham sem cessar para doutrinar os analfabetos. Não invento nada. Por acaso, isto não é uma verdadeira opressão protestante e maçônica para as consciências? A isto chega a pretendida liberdade religiosa do Concílio!

  Tendência ao Naturalismo

  Se lermos o capítulo V da "Gaudium et Spes" sobre as relações internacionais, as organizações internacionais, a paz e a guerra, não encontraremos quase nenhuma referência a Nosso Senhor Jesus Cristo. Pode por acaso o mundo se organizar sem Nosso Senhor Jesus Cristo, ter paz sem o "Príncipe da Paz"? É impossível! Em troca o mundo está afundando na guerra e na subversão, antes de tudo porque está afundado no pecado. É preciso primeiro dar-lhe a graça de Jesus Cristo e convertê-lo em Nosso Senhor. Ele é a única solução para o problema da paz no mundo. Sem Ele, fala-se no vazio.

  Mons. Hauptmann, reitor do Instituto Católico de Paris, presidiu a comissão de redação deste texto. Esta comissão se reuniu com protestantes, na Suíça, tendo por objetivo que este capitulo pudesse agradar e chegar ao mundo internacional. Como querem que tudo isto seja sobrenatural, marcado verdadeiramente por Nosso Senhor Jesus Cristo?

  Limitarei a isto minha enumeração. Não digo que neste Concílio tudo seja mau, e que não haja alguns belos textos que mereçam ser meditados; mas afirmo, com as provas na mão, que há documentos perigosos e inclusive errôneos, que apresentam tendências liberais modernistas, que inspiraram as reformas, que agora deitam a Igreja por terra. 

O ESPÍRITO DO CONCÍLIO - ( I )

Capítulo XXV do Livro "DO LIBERALISMO À APOSTASIA" escrito por D. Lefebvre

  Quantos enganos e orientações heterodoxas poderiam ter sido evitados, se o Vaticano II tivesse sido um concílio dogmático e não um concílio que se chamou pastoral!
  Quando se examina as sucessivas redações de documentos conciliares, vê-se as orientações que eles deram. Permitam-me indicar algumas:  

O Sacerdócio dos Fiéis

  "Lumen Gentium" faz distinção entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial dos padres (nº 10). Mas em continuação, apresenta as páginas que falam do sacerdócio em geral, confundindo os dois e fazendo do sacerdócio ministerial uma função mais ligada ao sacerdócio comum (nº 11).

Exaltação da Consciência acima da Lei

  Igualmente se diz que o homem deve se submeter à lei de Deus (Dignitatis Humanae, nº 2). Mas logo a seguir exalta-se a liberdade do homem, a consciência pessoal (nº 3), chega-se a sustentar a "objeção de consciência (ib. nº 3) de maneira tão geral que chega a ser falsa: "o homem não deve ser constrangido a agir contra a sua consciência". Isto está certo somente para uma consciência verdadeira ou para uma consciência invencivelmente errônea. A tendência é colocar a consciência acima da lei e a subjetividade acima da ordem objetiva, quando na verdade, é evidente, a consciência existe para conformar-se com a lei. 

Definição Liberal da Verdade

  Da mesma maneira, continuamente e de um modo especial na Declaração sobre a liberdade religiosa, repete-se que não se deve forçar, que não deve haver coação (Gaudium et Spes, nº 47, Dignitatis Humanae, nº 1, 2, 3, 10). A liberdade é definida como a ausência de coação. É evidente que não há sociedade sem a coação física das penas, sem a coação moral do temor das penas que estão nas leis; em caso contrário surge a anarquia. Nosso Senhor ele mesmo não deixou de usar a coação; que coação mais forte do que a frase: "Quem não crer será condenado" (Mc. XVI, 16)? O inferno pesa sobre as consciências, isto é bem uma coação. Há portanto boas e saudáveis coações. 

Confusões e Incoerências

  Além disso, em "Dignitatis Humanae" não se faz a necessária distinção entre os atos religiosos isentos de coação por parte do Estado, e os que não são isentos; seria necessário distinguir os atos internos e externos, privados e públicos, e não atribuir a todos a mesma liberdade (Cf. nº 2).
 Certamente em um país católico, tem-se o direito de impedir que os falsos cultos se manifestem publicamente, de limitar sua propaganda!
   Se o Estado não tem direito de intervir em matéria religiosa, então os pais também não têm o direito de transmitir e impor uma religião a seus filhos. Se a liberdade religiosa for generalizada sem nenhuma distinção, chega-se a um absurdo!
                                               (Continua no próximo post)
   
  

A MISTIFICAÇÃO DO VATICANO II - ( II )

Por  D. Lefebvre

  
  O    I. D. O. C. ou o Intox
  Um dos meios de pressão mais eficaz do clã liberal sobre o Concílio foi I.D.O.C., Instituto de Documentação... a serviço das produções da "inteligência" liberal, que afogou os Padres conciliares com inúmeros textos. Até o final da terceira sessão conciliar, o I. D. O. C.  declarou haver distribuído mais quatro milhões de folhas. A organização e as obras do I. D. O. C. foram da Conferência Episcopal Holandesa, e o financiamento havia sido assegurado em parte pelo Padre Werenfrid (por desgraça) e pelo Cardeal Cushing, arcebispo de Boston nos Estados Unidos. O secretariado do Instituto situava-se na Via dell"Amina, em Roma. 

  Do nosso lado, bispos conservadores, havíamos tratado de contrabalançar esta influência graças ao Cardeal Larraona, que colocou seu secretariado à nossa disposição. Tínhamos máquinas de escrever e mimeógrafos e algumas pessoas, três ou quatro. Fomos muito ativos, mas éramos insignificantes em comparação com a organização do I. D. O. C.. Brasileiros, membros da T. F. P. nos ajudaram com grande abnegação, trabalhando durante a noite rodando os textos que cinco ou seis bispos havíamos redigido. Era o comitê diretor do "Coetus Internationalis Patrum" que eu havia fundado com Mons. Carli, bispo de Segni e Mons. de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina, no Brasil. Duzentos e cinquenta bispos se haviam filiado à nossa organização. ( 4 ) Com o Padre V. A. Berto meu teólogo particular, com os bispos já citados e outros como Mons. de Castro Mayer e alguns bispos espanhóis, redigíamos estes textos que eram impressos durante a noite; de madrugada alguns destes brasileiros iam distribuir nossas folhas nos hotéis e caixas de correio dos Padres conciliares, como fazia o I. D. O. C.  com uma organização vinte vezes superior à nossa. 

  O   I. D. O. C. e muitas outras organizações e reuniões liberais, são o indício de que houve uma conjuração neste Concílio, preparada com antecedência desde muitos anos. Eles souberam o que se devia fazer, como fazer e quem devia fazê-lo. Lamentavelmente esta trama teve êxito, o Concílio foi intoxicado em sua grande maioria, pelo poder da propaganda liberal. 

Astúcia dos Redatores dos Esquemas Conciliares

  Com 250 Padres conciliares do Coetus, havíamos tratado por todos os meios postos a nossa disposição, de impedir que se expressassem os erros liberais nos textos do Concílio. Podíamos assim limitar os danos e trocar algumas afirmações inexatas ou perigosas e agregar alguma frase para retificar proposições tendenciosas ou expressões ambíguas.

  Mas devo confessar que não conseguimos purificar o Concílio dos espírito liberal e modernista que impregnava a maioria dos esquemas. Com efeito, os redatores eram os peritos e os Padres manchados com este espírito. Que querem? Quando um documento está em todo seu conjunto redigido com um espírito falso, é praticamente impossível expurgá-lo deste espírito; seria necessário recompô-lo completamente para dar-lhe um espirito católico.

  O que pudemos fazer pelas modificações que apresentamos, foi agregar incisos nos esquemas e isto se pode ver muito bem: basta comparar o primeiro esquema da liberdade religiosa e o quinto que foi reeditado. Este documento foi reeditado cinco vezes e cinco vezes voltou ao plenário, e deste modo logramos atenuar o subjetivismo que infestava as primeiras redações. O mesmo para "Gaudium et Spes", onde se vêem os parágrafos que foram agregados, a nosso pedido, e que estão ali, eu diria, como peças colocadas em um vestido velho; não combinam com o conjunto. Não existe mais a lógica da redação primitiva, os adendos feitos para atenuar ou contradizer as afirmações liberais, ficam ali como corpos estranhos.

  Não somente nós conservadores, fizemos agregar tais parágrafos, o próprio Papa Paulo VI, como se sabe, fez acrescentar uma nota explicativa preliminar à Constituição sobre a Igreja "Lumen Gentium", para retificar a falsa noção de colegialidade que se insinua no Nº 22. ( 5 ).

  Lamentavelmente os liberais praticaram este mesmo sistema nos textos dos esquemas: afirmação de um erro, de uma orientação perigosa, ou de uma ambiguidade, tendo imediatamente antes ou depois, afirmação em sentido contrário, destinada a tranquilizar os Padres conciliares conservadores.

  Assim fizeram na Constituição sobre a Liturgia "Sacrosanctum Concilium", escrevendo no Nº 36, 2: poderá se dar maior destaque à língua vernácula "confiando às Assembleias Episcopais o cuidado de decidir adotar a língua vernácula ou não adotar" (cf. Nº 36, 3); os redatores dos textos assim abriram as portas à supressão do latim na liturgia. Para atenuar esta pretensão, tiveram o cuidado de escrever, no nº 36, 1: o uso da língua latina, salvo caso especial, será conservado nos ritos latinos. Tranquilizados com esta afirmação, os Padres admitiram sem problemas as outras duas.

  Igualmente na declaração sobre a liberdade religiosa "Dignitatis Humanae", cujo último esquema havia sido rechaçado por numerosos Padres, Paulo VI fez acrescentar um parágrafo dizendo, em resumo: "esta Declaração não contém nada que seja contrário à tradição" ( 6 ). Mas todo o conteúdo é contrário à Tradição! Alguém dirá: leia, está escrito... Mas isto não impede que seja tudo contrário à Tradição. ( 6a ). Esta frase foi acrescentada pelo Papa no último minuto, para forçar aqueles, em particular os bispos espanhóis, que se opunham ao esquema. Com efeito, desgraçadamente a manobra surtiu efeito e em vez de 250 "não" houve somente 74, por causa de uma pequena frase: "não há nada contrário à Tradição". Afinal de contas, sejamos lógicos! Não trocaram nada no texto, é fácil apor uma etiqueta de inocência! Procedimento espantoso! Nada mais direi sobre tais maquinações e organizações. Passemos a falar sobre o espírito do Concílio.

  Notas: ( 4 ) - Cf. Ralph Wiltgen, op, cit. pg. 147. 
               ( 5 ) -  Cf. Ralph Wiltgen, op, cit. pg. 224, seg.
               ( 6 ) -  "Dignitatis Humanae", nº 1 in fine, cf. cap. 27.
               (6a) -  É claro! A palavra do Santo Padre tranquilizaria se se tratasse de circunstâncias em que entrasse a Infalibilidade; o que claramente não era o caso: primeiro por ser um Concílio Pastoral, e segundo em se tratando de uma simples Declaração em que o Papa não empenhava a sua Infalibilidade.  Fico imaginando o seguinte: Se a quinta redação já é o que é, o que deve ter sido a primeira!!!?

 Observação: Os testemunhos de D. Lefebvre sobre o Concílio Vaticano II são valiosíssimas porque ele participou do Concílio, conta o que viveu lá. E, depois, é um homem de virtude, aliás reconhecida até pelo Papa João Paulo II: "Um homem de piedade e de fé".  
   Além disso, D. Lefebvre cita frequentemente o Padre Ralph Wiltigen "O RENO SE LANÇA NO TIBRE".  Eis o que o autor  diz no prefácio de seu Livro: "Na minha qualidade de padre, jornalista poliglota e membro da Sociedade Missionária, Internacional e Inter-Racial Sociedade do Verbo Divino, tinha inúmeras ocasiões de entrar em contato direto com os Padres Conciliares. Eles não demoraram em descobrir a imparcialidade de meus noticiários, o que me permitiu obter informações de primeira mão, tanto da parte dos conservadores como dos liberais. De fato, as correntes minoritárias procuraram muitas vezes entrar em contato comigo e me forneceram informações com exclusividade. Para escrever a presente história tive acesso a todos os documentos oficiais comunicados aos Padres Conciliares, durante as quatro sessões. Além disso pude tomar conhecimento de cartas particulares ou oficiais, das atas das sessões e de numerosos documentos difundidos pelas Conferências Episcopais. Minha permanência em Roma durante toda a redação desta obra revelou-se extremamente útil, pois me permitiu obter, depois do Concílio, informações suplementares."

  Gostaria de acrescentar que o Padre Ralph Miltigen sabia muito bem o latim. Isto certamente o ajudou muito, já que tudo no Concílio (ou quase tudo, não sei) foi discutido em latim e os documentos oficiais são todos escritos em latim. Se cada um fosse falar no seu idioma aí sim seria uma Babel.  Permitam-me uma comparação: Quem estivesse no Concílio e não soubesse latim, deveria ficar como pintainho chocado em pata, na beira do lago vendo sua "mãe" nadando tranquilamente. Os clérigos devem saber bem o latim, tanto quanto a sua língua pátria. 
  Dizem que D. Helder Câmara não ficou satisfeito pelo fato de o  concílio ainda ter sido feito em latim. Teria dito: "No próximo Concílio o latim já terá morrido e estará sepultado".  Esperamos que as iniciativas do Papa Bento XVI a favor do estudo do latim, faça com que no próximo Concílio o latim não ofereça nenhuma dificuldade, pelo menos para os Padres do Concílio. Amém! Os modernistas odeiam o latim porque os dogmas não mudam e são expressos em latim que também não muda.  D. Lefebvre no artigo acima mostra a tática que os modernistas usaram para acabar com o latim na liturgia.  
 Língua é um fenômeno à parte: A língua morta (como o latim) está sempre viva e não se decompõe. A língua viva está sempre morrendo porque está sempre se decompondo. Quantas discussões por causa de linguagem! A Babel parece nunca  acabar! E os dialetos e gírias!!! Babel e mais Babel!! Viva o Latim!!! "Defunctus adhuc loquitur". Perdoem-me a digressão!. 

  

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A MISTIFICAÇÃO DO VATICANO II - ( I )

Capítulo XXIV do Livro "DO LIBERALISMO À  APOSTASIA" de D. Lefebvre.


  É interessante encontrar um precedente ao Concílio Vaticano II, pelo menos quanto aso métodos usados por uma ativa minoria liberal, que rapidamente se transformou em maioria. A este respeito deve-se observar o Concílio Geral de Éfeso, a que o Papa São Leão I deu o nome de "A Mistificação de Éfeso". Este concílio foi presidido por um bispo ambicioso e sem escrúpulos, Dióscoro, que com a ajuda de seus monges e dos seus soldados imperiais, exerceu uma pressão extraordinária sobre os Padres do Concílio. Foi negada a presidência aos legados do Papa, presidência que eles reclamavam; as cartas pontificais não foram lidas. Este Concílio, não não foi ecumênico, chegou a declarar ortodoxo o herege Êutiques, que sustentava o erro dos monofisismo ( uma única natureza em Cristo). 

  O Vaticano II foi igualmente uma mistificação, com a diferença de que os Papas (João XXIII e Paulo VI) apesar de estar presentes, não opuseram resistência nem ao menos à manipulação dos liberais, mas até a favoreceram. Como foi possível isto? Declarando este Concílio pastoral e não dogmático, insistindo no "aggiornamento" e no ecumenismo, estes Papas privaram a si mesmos e ao próprio Concílio da intervenção do carisma da infalibilidade, que o haveria preservado de qualquer erro. 

  Neste capítulo mostrarei três manobras do clã liberal durante o Concílio Vaticano II.

  Manipulações nas Comissões Conciliares

  O Pélerin Magazine de 22 de Novembro de 1985 citava declarações muito esclarecedoras do Cardeal Liénart ao repórter Claude Beaufort, em 1972, sobre a primeira congregação Geral do Concílio. Cito "in extenso" este artigo intitulado "O Cardeal Liénart : "O Concílio, a Apoteose de Minha Vida". Apenas acrescentarei minhas observações ( 1 ). 
   
    "Dia 13 de Outubro de 1962: O Concílio Vaticano II tem sua primeira sessão de trabalho. A ordem do dia prevê que a Assembleia designe os membros das Comissões especializadas, chamadas para ajudá-la em sua tarefa. Mas os 2300 Padres reunidos na imensa nave de São Pedro mal se conheciam. Podem eleger assim equipes competentes? A Cúria resolve a dificuldade: distribui juntamente com as células de votação as listas das comissões preparatórias, que haviam sido constituídas por ela. É evidente o convite para manter as mesmas equipes..."
  
  O que seria mais normal do que voltar a eleger para as comissões conciliares aqueles que durante três anos haviam elaborado, dentro das comissões preparatórias, textos irrepreensíveis? Mas evidentemente, esta proposta não podia ser do agrado dos inovadores:

    "Na entrada da Basílica, o Cardeal Liénart foi informado pelo Cardeal Lefebvre, arcebispo de Borges ( 2) deste procedimento ambíguo. Os dois conheciam o grande perigo das comissões pré-conciliares: seu caráter muito romano e pouco acomodado à sensibilidade da Igreja universal. Eles temiam que as mesmas causas produzissem os mesmos efeitos. O bispo de Lille tem sua posição no Conselho de Presidência do Concílio. Esta posição lhe permite intervir, opor-se a alguma manobra e exigir os espaços de tempo necessários para que as Conferências Episcopais possam propor candidaturas representativas". 

  Portanto os liberais temem os teólogos e os esquemas "romanos". Para obter comissões de sensibilidade liberal, digamos, é preciso preparar novas listas que conterão os nomes da máfia liberal mundial: um pouco de organização, para começar uma primeira intervenção, e o conseguiram. 
  Ajudado por Mons. Garrone, o Cardeal Lefebvre preparou um texto em latim e o passou para o Cardeal Liénart. Havia então um texto preparado pelo Cardeal Lefebvre, arcebispo de Bourges. Quer dizer que nao houve improvisação, mas premeditação, digamos: preparação, organização entre os cardeais de sensibilidade liberal. 

  Dez anos depois, o Cardeal Liénart recordava seu estado de ânimo naquele dia com os termos seguintes:

    "Fiquei sem resposta, mas convencido de que não era razoável ficar calado pois se não falasse faltaria com meu dever. Nós não podíamos renunciar à nossa função, que era eleger. Então assumi meu papel: me inclinei par o Cardeal Tisserant que estava a meu lado e presidia  e lhe disse: Eminência, não se pode votar, não é razoável, nós não os conhecemos, peço-lhe a palavra. Ele respondeu: é impossível, a ordem do dia não prevê nenhum debate; estamos reunidos simplesmente para votar, e não posso dar-lhe a palavra. Eu respondi: então vou tomá-la. Me levantei e tremendo li meu papel. Imediatamente percebi que minha intervenção respondia à angústia de toda a assistência. Aplaudiram e logo depois o Cardeal Frings, que estava um pouco mais longe, se levantou e disse o mesmo. Os aplausos redobraram. O Cardeal Tisserant propôs levantar a sessão e relatar aos Santo Padre. Tudo havia demorado apenas vinte minutos. Os Padre saíram da Basílica, fato que alarmou aos jornalistas. Inventaram histórias: "Os bispos franceses se rebelam no Concílio, etc. Não era uma rebelião, era uma sábia reflexão. Pela minha posição e pelas circunstâncias, eu estava obrigado a falar ou renunciar". 

  Saindo do local do Concílio, um bispo holandês expressava sem rodeios seu pensamento e o dos bispo liberais franceses e alemães, dizendo a um sacerdote amigo que estava a uma certa distância: "Nossa primeira vitória!" ( 3). 

  Notas: (1) - Le Figaro de 9 de Dezembro de 1976, publicou extratos do "Journal du Concile" do Cardeal Liénart, Michel Martin comenta estes extratos em seu artigo "L'Ardoise Fefilée", no nº 165 do "Corrier de Rome, Janeiro de 1977. 

                (2) - Não confundir com seu primo Mons, Marcel Lefebvre.

                 (3) - Ralp Wiltgen "Le Rhin se jette dans le Tibre", L'Alliance Européenne", pg. 16-17. 

                                                                 NB. Continua no próximo post.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O PAPA LIBÉRIO - (continuação - III)

  Na época do Arianismo houve muitos Concílios e foram feitas nove fórmulas de Fé que os Orientais propuseram aos Ocidentais para serem assinadas por eles. Se o Papa Libério realmente tenha assinado alguma delas, por tudo o que dizem os historiadores, podemos concluir que o Papa  assinou alguma fórmula que não continha o palavra "omoousios" (=consubstancial) mas que com outras palavras exprimia a mesma coisa. Teria sido ou a fórmula quarta de Antioquia ou a terceira de Sírmio.  Percebemos com facilidade que todos os autores ao se referirem a suposta queda de Libério, se baseiam em Santo Atanásio, Santo Hilário e São Jerônimo. Estes grandes santos foram os denodados e intrépidos defensores da fórmula Nicena, ou seja da palavra "omoousios" (=Consubstancial). Assim sendo, o fato de o Papa Libério ter assinado alguma fórmula que não continha esta palavra capital, fora considerado por Santo Atanásio como uma fraqueza e uma queda; por São Jerônimo, uma "uma perversidade herética" e por isso também consideraram que o Papa Libério teria entrado em comunhão com os arianos, teria abandonado a causa de Atanásio e até, segunda as supostas cartas de Santo Atanásio que Santo Hilário trazia consigo ( Fragmenta) o Papa Libério teria excomungado a Santo Atanásio. Mas tudo isto fica inteiramente no campo das suposições, já que os documentos em que tais autores se baseiam, são de autenticidade, pelo menos duvidosa. 
   Assim as sentenças ou juízos sobre o Papa Libério São três: 
   1. Os autores que isentam inteiramente o Papa Libério de qualquer culpa, de qualquer queda. Destes autores, os principais são: Órsio, Hilting, Belarmino, Zacaria, Palma, Dumont, Remerding, Scernermann, Wouthers, etc. Estes se baseiam nos testemunhos de Santo Ambrósio, de Sulpício Severo e de Teodoreto. E quanto aos testemunhos de Santo Atanásio e Santo Hilário, estes grandes autores os consideram falsificados pelos arianos, e assim os rejeitam.  

   2- Os autores que julgam que o Papa Libério tenha assinado uma fórmula ortodoxa, ou a Quarta de Antioquia, ou a Terceira de Sírmio.
 Segundo eles estas fórmulas de fé embora omitissem a palavra "omoousios" (consubstancial), no entanto traduziam através de uma paráfrase o mesmo sentido da palavra "omoousios". 
  Estes autores são: Hefele, Funck, Kraus, Hergenroether, e o célebre Duchesne. Ele se apoiam no testemunho de Santo Atanásio, de Santo Hilário e de São Jerônimo, mas os explicando no sentido que acima já transmitimos. 

   3- E finalmente aqueles que acusam o Papa Libério de ter assinado uma fórmula Ariana:  a Segunda de Sírmio. 
    Estes autores são: Inácio Döllinger, Barônio, Natal Alexandre e o Cardeal de La Luzerne. 
    Quanto ao grande Bossuet, é certo que no início fora desta opinião, mas mais tarde ele mesmo suprimiu, nos seus escritos, tudo quanto dissera da pretensa queda de Libério e conclui que ainda mesmo que esse papa tivesse subscrito uma fórmula duvidosa, isso não constituía uma defecção sobre a Sede de Pedro: com efeito, continua Bossuet,  este ato não constituía um ensino dogmático dado ao mundo "ex cathedra". 
   Muito interessante é a observação do célebre Mons. Cauly: "O Papa Libério teria realmente subscrito uma fórmula favorável ao arianismo? A opinião dos que negam parece tanto mais verossímil, que os católicos da época de Libério não julgaram que esse papa fosse culpado ou fautor de heresia. Com efeito, enquanto condenavam pelos juízos mais severos a memória de Ósio de Córdoba, legado do Papa, é para extranhar que os bispos e o povo romano tenham recebido triunfalmente, depois do seu exílio, um Sumo Pontífice cuja queda tivesse sido celebrada pelos arianos como uma vitória. A ser real, essa queda não teria passado despercebida entre os católicos". 

  Outra autoridade não menos célebre e erudita é a do Padre  Leonel Franca. No seu Livro "A IGREJA, A REFORMA E A CIVILIZAÇÃO", refutando as objeções do protestante sr. Carlos Pereira. Este tentava provar que Libério professou o arianismo. Responde o grande Jesuíta: "Outra falsidade histórica. Libério provavelmente não subscreveu nenhuma fórmula e se alguma assinou foi a primeira de Sírmio que é ortodoxa. É notável, continua o Padre Leonel Franca, como até os centuriadores de Magdeburgo, fina flor do calvinismo, na sua vasta obra composta acinte contra a Igreja católica tenham vindicado o caluniado papa da imputação malévola: "constantem certe in professione fidei Nicoenae mansisse exemplum Macedoniorum... indicat". Em Português: "O exemplo dos Macedônios indica que (Libério) com certeza, permaneceu constante na profissão da Fé de Niceia".  

Observação: Queria esclarecer que de todas as fórmulas de fé, a única que é abertamente ariana é a segunda de Sírmio (a.357). A primeira de Sírmio  traz em lugar de "omoousios" a palavra "omoiousios", isto é, "Filius omnino similis Patri" (=O Filho é inteiramente (em tudo) semelhante ao Pai). Todos que defendiam esta palavra em lugar da palavra "omoousios" eram tidos como semi-arianos. Na verdade, pelo menos, globalmente falando, isto era uma injustiça. Quem defendia a palavra "omoiousios", nas circunstâncias daqueles tempos, não queria de modo algum ceder ao arianismo, mas defendendo a Divindade do Filho contra Ario, apenas dizia que a palavra "omoousios" além de não se encontrar nas Sagradas Escrituras, podia se interpretada com sabor sabeliano, e não deixava claro a distinção entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Como vimos, o Papa Libério reconheceu isto, e os próprios Santo Atanásio e Santo Hilário terminaram mais tarde, passado o ardor das discussões, reconhecendo que, embora nunca se devesse renunciar o termo "omoousios" mas explicá-lo devidamente,  admitiam, no entanto, a ortodoxia do termo "omoiousios" desde que também fosse bem explicado à luz do Concílio de Niceia. 
   
  

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O PAPA LIBÉRIO (continuação - II )

  Para entendermos melhor esta questão envolvendo o Papa Libério, talvez seja útil (para compreendermos melhor o que já escrevi e o que ainda escreverei sobre o assunto) explicar os vários ramos ou divisões que se criaram dentro do Arianismo. 
  Os arianos depois da morte de Ario e de seu sucessor à frente do Arianismo, Eusébio de Nicomédia,  se dividiram em três grupos muito distintos: 1º grupo - os arianos puros, ou anomeanos que sustentavam, intransigentemente, que o Filho não é igual ao Pai e que nem sequer lhe é semelhante. Em grego é expresso com a palavra "anomoios" que em Português quer dizer "não semelhante"; 2º grupo - os semi-arianos, mais transigentes, que rejeitavam a palavra "omoousios", (em Português quer dizer "consubstancial" palavra esta canonizada pelo Concílio de Niceia e defendida intransigentemente por Santo Atanásio), mas admitiam que o Filho era semelhante ao Pai, na substância e em tudo, e empregavam a palavra "omoiousios" (com um i a mais no meio) que quer dizer semelhante em substância. 3º grupo - constituído mais por políticos que por doutrinários. Estes se contentavam com afirmar simplesmente que o Filho é semelhante ao Pai. Em grego "omoios" (=semelhante). Cada um destes grupos escolheu o seu chefe e defendeu sua posição. Lutaram uns contra os outros, no campo da doutrina, e também no campo da política, para alcançarem os favores do Estado (dos imperadores). O chefe dos anomeanos foi Aécio, bispo sem sede.  O dos semi-arianos foi Basílio, bispo de Ancira, ; o dos omoianos foi Acácio, bispo de Cesareia.
   Vimos no post anterior que, segundo testemunho de Sozômeno na sua Historia Ecclesiastica, IV, 15, o Papa Libério estando em Sírmio, excomungou todos aqueles que não criam que o Filho é semelhante ao Pai em substância e em todas as coisas. Na verdade, o Papa Libério não era contra a palavra "consubstancial" mas,  com esta excomunhão deixava claro que não condenava a palavra "omoiousios" desde que fosse devidamente explicada, ou seja, semelhante em substância e em tudo. O fato é que esta atitude de Libério foi acolhida favoravelmente pelos bispos que defendiam a ortodoxia contra os anomeanos. 
  Santo Hilário e Santo Atanásio, os dois grandes exilados, os porta-vozes mais autorizados do Ocidente e do Oriente, aplaudiram ambos a tentativa de Libério de reaproximação de Basílio de Ancira que defendia o "omoiousios". Aproximação evidentemente não só dele mais de todo o grupo de que era chefe. Em fins de 358 ou em inícios de 359 Santo Hilário explicará sua posição numa obra chamada "De Synodis", obra esta endereçada aos seus colegas das Gálias (hoje França) e de Bretanha. Aí Santo Hilário reserva toda a sua severidade contra os anomeanos de 357; ele, em contrapartida, julga com indulgência a fórmula do Concílio de Ancira e lembra aos bispos do Ocidente que até o termo "omoousios" não é isento totalmente de ambiguidade, e que, no fundo, as duas expressões "omoousios" e "omoiousios" tem o mesmo sentido, contanto que os entenda bem; pois exprimem a mesma verdade, ou seja, a perfeita divindade do Filho. Santo Hilário suplica que nunca seja rejeitado o "omoousios" que, aliás foi já canonizado pelo Concílio de Niceia. Ele declara aos Bispos do Ocidente que eles não são arianos e nem têm a aparência de sê-lo. Como diz o Historiador Tillemont, Hilário "desculpa tudo o que pode desculpar. Dá um bom sentido à tudo  que é possível dar. Justifica tudo o que  não é absolutamente mau, tanto para não irritar os Orientais e os poder levar de um estado que lhe parecia tolerável mas perigoso a um outro que fosse inteiramente perfeito mas também para impedir que os bispos de França rompessem sem necessidade com pessoas que poderiam servir à verdade". (Conf. Tillemont, Memoires, t. VII, p. 445). 
  Um pouco mais tarde, ou seja, em fins de 359, Santo Atanásio escreveu, por sua vez, um livro em tudo semelhante ao de Santo Hilário, até no título, isto é, "De Synodis" para promover uma reconciliação. Hoje, chamaríamos de "acordo". Aí, primeiramente Santo Atanásio estuda as diferentes fórmulas de fé que foram propostas aos Orientais depois do Concílio de 341; e chegado ao texto de 358, o aprecia com uma benevolência marcante: "Aqueles, - escreve o Santo Bispo, - que aceitam tudo o que fora decidido em Niceia, conservando deste Concilio inteiramente os cuidados minunciosos sobre o "omoousios", não devem ser tratados como inimigos. Eu não os ataco como os anomeanos nem como adversários dos Padres do Concílio de Niceia; eu discuto com eles como um irmão com os irmãos que pensam como nós e não diferem senão por uma palavra... Deste número incluo Basílio de Ancira que escreveu sobre a fé". (Conf. Santo Atanásio, De Synodis, c. 41). Diz o historiador Filostorge, História Eclesiástica, IV, 16 que, enquanto Santo Atanásio agiu assim com tanta magnanimidade, o próprio Basílio de Ancira conseguira convencer o Imperador a mandar para o exílio nada menos do que 70 bispos arianos (anomeanos). 
  Esta questão envolvendo o mistério da Santíssima Trindade, hoje, para nós pode parecer bem mais simples, uma vez que tudo o que devia ser esclarecido já o foi. Mas no século IV, não era bem assim. O cristãos tinham acabado de sair das 10 grandes perseguições dos pagãos que eram politeístas. Assim o povo católico gostava de ouvir falar num só Deus. Mas sabemos que em Deus há três Pessoas, que são iguais e distintas (são iguais em tudo mas cada uma é uma, distinta da outra, uma não é a outra). Uma substância ou natureza, três pessoas, iguais e distintas. No afã de defender a unidade de natureza houve quem negasse a igualdade ou/e a distinção das Pessoas. Assim antes do arianismo apareceu a heresia de Sabélio afirmando que as pessoas em Deus eram apenas modalidades. Daí Santo Hilário dizer que até o termo "omoousios" = consubstancial, teria que ser bem explicado, do contrário podia trazer ambiguidade. Podia parecer Sabelianismo. 
  O que podemos deduzir atinente ao Papa Libério,  de tudo isto que acabamos de estudar? Não poderemos nunca saber com certeza, mas se Libério realmente assinou alguma fórmula, esta teria sido uma que não trazia o "omoousios", mas em tudo ortodoxa,  ou trazia o "omoiousios", mas explicado no mesmo sentido de "consubstancial". 

No próximo post, se Deus quiser, falaremos ainda sobre o Papa Libério.
  

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O PAPA LIBÉRIO (continuação I )

  "Sim, sim; não, não" é norma do Evangelho que deve ser aplicada também em História. Em outras palavras: dizer como certo o que realmente o é; como duvidoso, o que é duvidoso; como errado, o que é realmente errado. 
   Assim na História uma preocupação primordial e precípua é a de averiguar por todos os meios possíveis a autenticidade das fontes, ou seja, dos documentos. Estabelecer, por exemplo, uma tese baseando-se sobre documentos de autenticidade duvidosa; e, pior ainda, de reconhecida falsidade, é construir sobre areia. Tal tese estaria fadada à completa ruína. Só a verdade nos dá a liberdade da segurança e a vitória. Jesus Cristo disse a Pilatos: "Eu sou Rei; para isto vim ao mundo para dar testemunho da Verdade". 
  Eis brevemente alguns exemplos: O famoso historiador eclesiástico de Munique Inácio Döllinger, que desde algum tempo vinha já demonstrando um certa hostilidade contra o papado e a Cúria, quando o Papa Pio IX colocou na pauta principal do Concílio Vaticano I, a definição do Dogma da Infalibilidade Pontifícia, ele se mostrou contra, e, aduzindo os exemplos de Libério e de Honório I, lutou ferrenhamente contra a Infalibilidade do Papa e terminou morrendo na heresia e no cisma, depois de ter fundado a seita dos "Velhos Católicos" que até hoje se consideram os verdadeiros católicos. 
  Também os Protestantes de todos os tempos e matizes citam infalivelmente os exemplos de Libério e de Honório I para combater a Infalibilidade Pontifícia.
   Nos nossos dias, alguns sedevacantistas ( com Homero Johas e outros) tentam se basear nestes mesmos  exemplos da História. 
   Continuemos as considerações sobre o Papa Libério. 
   No post anterior demos uma resenha dos documentos que chegaram até nós. Sobre alguns já fizemos  alguns comentários e análise.  
    Dos documentos citados no post anterior, que podemos aduzir de certo? Primeiramente que, na Sede de Roma, tanto antes como depois do exílio, o Papa Libério defendeu denodadamente a ortodoxia, e especificamente tomou a defesa de Santo Atanásio, o arauto da ortodoxia contra o Arianismo. É certo que o Imperador ariano Constâncio, mandou Libério para o exílio por ter defendido com toda firmeza a causa da fé que era defendida por sua vez por Santo Atanásio. 
   É certo que o imperador Constâncio procurou isolar Libério inteiramente dos seus conselheiros e de todo e qualquer lutador pró ortodoxia e contra o Arianismo. Por outro lado fez que Libério lá no exílio em Bereia fosse cercado só de inimigos arianos, especialmente encarregando o bispo do lugar Demófilo para estar sempre junto de Libério, armando-lhe todos os dias ciladas e conjurando-o a ceder aos desejos do Imperador ariano Constâncio. É certo que Libério durante o exílio sofreu um verdadeiro martírio físico e moral. 
  É historicamente certo que o Imperador Constâncio, depois de ter mandado o Papa Libério para o exílio, nomeou o diácono Félix como papa, e este teve a fraqueza de aceitar. Mas este anti-papa foi logo expulso pelo próprio povo católico romano. O Imperador no Circo teve oportunidade de ouvir o povo católico gritando o nome do Papa Libério e pedindo que o Imperador o trouxesse de volta para Roma. O Imperador quis fazer uma composição esdrúxula pretendendo colocar em Roma dois papas: Félix e Atanásio. O povo zombava e dizia: Imperador, só existe um Deus e só existe um Papa e este é Libério. As próprias Matronas Romanas fizeram um pedido público ao Imperador: trazer de volta o Papa Libério. Como já disse, o povo e também o Senado de Roma expulsaram o ilegítimo papa Félix, que aliás não demorou muito (em 22/11/365) tempo foi chamado pelo Supremo Juiz a prestar contas (morreu antes do Papa Libério). Uma outra notícia certa e de capital importância é que o Papa Libério no exílio, como vimos acima, não tinha como se defender das calúnias dos arianos, e estes por sua vez tinham todo interesse que Atanásio fosse por elas influenciado. Temos todos os motivos para nos perguntarmos: Se Libério estava no exílio cercado só de arianos ferrenhos e inescrupulosos, quem teria espalhado a notícia de que Libério tinha assinado uma fórmula que não era a do Concílio de Niceia? É certo que esta fórmula supostamente assinada por Libério nunca foi vista por ninguém. Se ela existiu, só os arianos tinham condição de dar-lhe sumiço. Mas não há explicação plausível para tal atitude. O interesse dos arianos, pelo contrário, seria o de publicá-la pelos quatro ventos da terra. E tanto mais, que eles tinham facilidade em fazê-lo, porque tinham o Imperador Constâncio a seu lado. Mais importante ainda é a notícia certa dada pelo historiador Sozômeno na sua Historia Ecclesiastica, IV, 15, onde afirma categoricamente que o Papa Libério já deixado o exílio de Bereia, estando em Sírmio chamado aí pelo próprio imperador para tomar parte num Concilio por ele (imperador) convocado, e sabendo que os arianos (anomeanos) tinham espalhado o boato de que ele Libério tinha rejeitado o "omoousios" (consubstancial) do Concílio de Niceia e que tinha professado uma doutrina própria, entregou a Basílio de Ancira um formulário onde ele declara excomungados todos aqueles que não cressem que o Filho é semelhante ao Pai em substância e em todas as coisas. Depois os próprios Santo Hilário e Santo Atanásio reconheceram que o termo "omoiousios" (semelhante) assim devidamente explicado equivaleria ao termo "omoousios". É o que veremos, se Deus quiser no próximo post. Pasmem muitos embora, é, no entanto verdade histórica, que ambos, Atanásio e Hilário fizeram um "acordo" com os que antes eram considerados "semi-arianos" ou chamado "omoiousianos". Para esta "reconciliação de paz" Santo Hilário escreveu um livro "De Synodis"; Santo Atanásio pouco depois escreveu para o mesmo fim também um livro, por sinal com o mesmo nome "De Synodis". É o que veremos, se Deus quiser, no próximo post. 

domingo, 4 de novembro de 2012

O PAPA LIBÉRIO

  Sem exagero, enchi uma mesa de livros abertos na questão do Papa Libério (10 livros). E quanto mais estudo a questão, mais me sinto confuso. É algo historicamente muito complicado, não por míngua de documentos, mas pela insegurança dos mesmos, até dos dos santos. Isto, em parte por culpa de copistas, mas sobretudo por culpa dos arianos que não tinham o mínimo escrúpulo de empregar toda espécie de calúnia, de fraudes e de insídias. Mas esta questão se torna, não só complicada, mas insolúvel. Isto porque o único documento que poderia esclarecer tudo, levou um misterioso e total sumiço. Não sendo possível ter diante dos olhos este "corpo de delito" não há como se chegar à uma certeza. Este corpo de delito é justamente a fórmula de fé que o Papa Libério teria assinado. E eram várias: umas claramente ortodoxas,  outras neutras por omitir o vocábulo "omoousios" "consubstancial" ,mas no resto são ortodoxas (não acho correto tachá-las de semi-arianas; talvez naquelas conjunturas sim) e finalmente as abertamente arianas.   Como vimos, o próprio Santo Atanásio diz que Libério fraquejou porque assinou. Mas ele mesmo não diz o que Libério  teria assinado. A verdade é que, Santo Atanásio era de tal modo apegado a palavra "omoousios" (e com razão) que só o fato de assinar alguma fórmula de fé que não a trazia, seria por ele considerada uma fraqueza. Depois, vamos ver as opiniões de vários autores a respeito desta suposta fraqueza de Libério. Portanto, mesmo que ficasse provada a autenticidade das palavras de Santo Atanásio, não necessariamente significaria que o Papa Libério tivesse assinado uma fórmula ariana.
  Esta questão torna-se também mais confusa por causa da intromissão dos imperadores que naturalmente não entendiam lá muita coisa de Teologia. Inclusive alguns nem batizados eram.
  Já tivemos ensejo de expor a questão do Papa Honório I e São Máximo. Como vimos, é bem mais clara. 
  Mas, com a graça de Deus, vou procurar fazer um resumo de tudo. 
 Primeiramente, farei uma resenha das principais fontes históricas: Documentos contemporâneos, Documentos imediatamente próximos aos contemporâneos e Opiniões de Teólogos e Historiadores Modernos.(=Da Idade Moderna).
   
  1- Documentos contemporâneos ao arianismo: 
  a) Santo Atanásio (+ 373): Historia Arianorum, c. 41 (a. 358); Apologia contra Arianos, c. 89 (358) (destinada ao Imperador Constâncio, mas depois da sua morte, sofreu acréscimos. 

  b) Santo Hilário (+ 366): In Constantium, 11 (360-361); Fragmenta, IV-VI: São três cartas do Papa Libério: 1ª  Studens pacis, onde teria declarado que Atanásio estava fora da comunhão com ele (Libério) e com a Igreja Romana; 2ª Pro deifico onde Libério declara que aderia à condenação de Atanásio, e que estava em paz com os adversários de Atanásio; 3ª Quia scio, carta dirigida a Ursácio, Valente, e Germínio Aí Libério teria dito: "Atanásio, que foi bispo da Igreja de Alexandria. está separado da comunhão da Igreja Romana". 
  Este documento "Fragmenta" de posse de Santo Hilário apresenta uma 4ª carta "Non doceo" onde Libério pede para voltar para Roma.
  Obviamente, todo o veneno de Libério contra Atanásio estaria nestas cartas. No entanto, há autores de peso que negam a autenticidade destas cartas. E o célebre e erudito Henrique Denzinger no seu Livro em que traz  todos os Símbolos, Definições e Declarações referentes à Fé e aos Costumes, não traz esta cartas do Papa Libério mas traz, por outro lado, a carta "Da mihi plurimum" do Papa Santo Anastásio (398-4001) dirigida a Venerium,  Bispo de Milão no ano 400. Esta carta mostra a ortodoxia do Papa Libério que é aí lembrado como Bispo da Igreja Romana, de santa recordação ao lado inclusive de Santo Hilário.
  Foi Shönmetzer que acrescentou à obra de Denzinger, estas cartas de Libério.
  Mas não foi só Henrique Denzinger a omitir estas cartas; há outros Historiadores Eclesiásticos  que negam a autenticidade destas cartas. Entres eles cito apenas o célebre P. Batiffol (La paix constantinienne, p, 515-521. 
 Historicamente há duas coisas, porém, muito certas e claras que enormemente nos auxiliam na interpretação destas dúvidas: a volta do exílio do Papa Libério e sua ortodoxia e luta contra a heresia ariana até o fim de seu Pontificado, que coincide com a sua morte. O outro fato é também a volta de Santo Atanásio do exílio e seu ministério como Bispo de Alexandria até a morte, sem que, em nenhum lugar da História Eclesiástica se fale em levantamento de excomunhão. E, além do mais, a Santa Madre Igreja canonizou a Santo Atanásio como outrossim, venera Libério como santo da Igreja. Como poderia ser santo um Papa que tivesse caído em heresia, ou, pelo menos a houvesse favorecido e tivesse excomungado um defensor da ortodoxia? E como poderia ser canonizado alguém que tivesse sido excomungado, sem que, pelo menos, a Santa Igreja declarasse nula sua excomunhão?
  c)  S. Ambrósio (+397): De Virginibus, Lib. III, c. 1 (377). Esta obra do Santo Bispo de Milão é de muita importância, tanto mais que sua autenticidade nunca foi posta em dúvida. No lugar citado, Santo Ambrósio conta o seguinte: "Uma irmã religiosa de nome Marcelina recebeu em 353 o véu das mãos do Papa Libério e na oportunidade, recitou uma oração composta por ele, a quem chama de "santa memória". 
  d) Libellus Precum, a. 384. 
  e) São Jerônimo, (+420), Chronicon, N. 2365 (a. 380); De Viris, N. 97 (392). 

  2 - Documentos imediatamente próximos dos contemporâneos ao arianismo: 
   a) Sulpício Severo: Chronica até a. 400. Primou pela crítica e concisão de estilo. Historia Sacra, II, 39 (a. 400): Aí o autor afirma que Libério voltou do exílio para Roma por causa das sedições romanas.
   b) Sozômeno: Historia Ecclesiastica, 9 livros escritos entre 324 a 425. Meio confuso.
   c) Teodoreto Cirense: Historia Ecclesiastica. a. 450, II, 14: Ele diz aí que o Papa Libério voltou para Roma sem nenhuma condição. (Esta observação histórica é de muita valia porque os inimigos do Papa Libério quiseram fazer crer que ele voltou do exílio porque aceitou subscrever uma fórmula ariana ou semi-ariana).  Este historiador não é muito crítico mas tem a vantagem de transcrever na íntegra muitos documentos.
   d) Próspero de Aquitânia: escritor crítico e que no seu Chronicon liv. II afirma categoricamente que Libério saiu do exílio e voltou para Roma "sine conditione", isto é, incondicionalmente e não porque tivesse assinado algo não ortodoxo por exigência do Imperador.
   e) Filostórgio: Historia Ecclesiastica em 12 livros. Tem cheiro de arianismo, e por isso não é confiável. .  f) Socrates, escolástico (+ 440 em Constantinopla). Afirma com segurança que o Papa Libério voltou do exílio para Roma em virtude da rebelião do povo  que não aceitou como papa a Félix e até o expulsou de Roma.
   g) Rufino Aquilense: Historiador da Igreja e escreveu dois livros até o ano 395.

  N. B. No próximo post, se Deus quiser, vamos tirar as conclusões das coisas que relatamos destes autores. Daremos algumas opiniões de autores da Idade Moderna. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

OS ARIANOS E SANTO ATANÁSIO

  "Os arianos que tinham sido condenados - continua S.João Bosco - no Concílio de Niceia, para não serem desterrados, fingiram aceitar a decisão dos Padres, ao passo que trabalhavam secretamente contra os católicos. Santo Atanásio, Bispo de Alexandria, foi seu mais formidável adversário e a coluna que Deus pôs para que servisse de dique contra aqueles ímpios, blasfemos de seu Filho. Nasceu em Alexandria do Egito, e ainda muito jovem, apenas diácono, tomou parte no Concílio de Niceia onde deu visíveis sinais de santidade, zelo e profunda doutrina. Morto o bispo Santo Alexandre, foi eleito com aplauso universal para ocupar seu posto.
  "Tendo ele reprimido a impiedade de Ario, de tal modo concitou contra si o ódio de todos os arianos, que desde então nunca mais deixaram de lhe armar insídias. E como vissem que saíam baldados todos os esforços, dirigiram contra ele a arma costumada dos malvados, a calúnia. Em conciliábulo reunido em Tiro, os arianos apresentaram a Santo Atanásio, que se achava presente, a mão de um morto, dizendo-lhe: "Eis aqui o que te condena. Conheces esta mão? é a mão daquele santo varão chamado Arsênio, a quem tu mandaste dar a morte". Atanásio ficou algum tempo em silêncio, e dirigindo-se em seguida à assembleia, disse: "Recorda alguém de vós as feições de Arsênio?" Muitos responderam afirmativamente. Então Atanásio fez um sinal a Arsênio, que tinha feito ir ali para provar as sua inocência, e mandou-lhe que, deixando o manto em que estava envolto, se adiantasse e mostrasse que estava vivo e que possuía ambas as mãos. Em vista disto, aqueles ímpios caluniadores se cobriram de vergonha; longe, porém, de se apaziguarem ante justificação tão evidente, se enfureceram ainda mais e, acrescentando calúnia a calúnia, obrigaram ao imperador a tirar Atanásio de sua sede e à mão armada pôr outro em seu lugar. O santo prelado viu-se obrigado a salvar sua vida passando muitos anos em penoso desterro. Pôde é verdade, voltar de vez em quando a Alexandria, porém, teve de retirar-se novamente dali pela perseguição dos arianos: e para não cair em suas mãos viu-se forçado a ficar escondido cinco anos em uma cisterna enxuta, e outros quatro meses no sepulcro de seu pai. Contudo não deixou por isto de refutar e combater por meio de cartas, livros e todos os meios a seu alcance a esses inimigos de Jesus Cristo; até que voltando à sua sede, concluiu em paz sua vida no ano 373, tendo sido bispo durante 46 anos".

MORTE DE ARIO. - Ario, depois de ter causado males gravíssimos à Igreja, desejando abrir-lhe chagas mais profundas ainda, fingiu emendar-se: para isso se apresentou ao imperador, e com juramento lhe assegurou que acreditava tudo o que ensinava a Igreja Católica. Receando Constantino algum engano, disse-lhe: "Se mentes, Deus vingará teu perjúrio, entretanto podes voltar a ocupar teu cargo!", e deu ordens para que pudesse voltar ao exercício de seu ministério em Constantinopla. Os hereges seus sectários, estavam sobremaneira contentes de poder levar Ario a tomar posse daquela Igreja, donde tinha sido expulso; e para que a reintegração fosse mais solene estabeleceram que se realizaria no domingo seguinte.
  Um povo imenso acompanhava o obstinado herege que, sentado em um carro elegantemente adornado, tratava de aumentar sua pompa espraiando-se em fastidiosos e arrogantes discursos; porém, ali o esperava a divina vingança. Tendo chegado no meio de tanta glória, perto da Igreja onde devia dar-se a reintegração, apodera-se dele um repentino terror, empalidece e treme agitado por violentos remorsos. Acometido ao mesmo tempo de horríveis dores de ventre e laceração de intestinos, morreu desesperado em uma pública sentina, tendo caído com muito sangue uma parte de suas entranhas. Ano 336."

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ARIO E SUA DOUTRINA

Por São João Bosco  -  Compêndio de História Eclesiástica


  "Nosso Divino Salvador nos deixou dito no Evangelho, que sua Igreja sempre seria perseguida, e que o inferno poria em campo todas as suas más artes para destruí-la, nunca, porém, poderia prevalecer contra ela. Os três primeiros séculos foram tempos de perseguições, de sangue e de estragos; mas a fé de Jesus Cristo passou gloriosa e triunfante por entre esses desastres. À perseguição seguiu-se o triunfo e a paz, mas assim que pôde respirar a Igreja, ao cessarem as perseguições, acometeram-na ferozmente a heresia e o cisma, especialmente por meio de um sacerdote de Alexandria chamado Ario. Era Ario homem ambicioso que se achava disposto a cometer qualquer crime para satisfazer sua vaidade. Teve o atrevimento de pregar contra a divindade de Jesus Cristo afirmando que o Filho de Deus não é igual ao Pai, mas sim criatura sua. Esta doutrina foi desprezada no mesmo instante com o horror que merecia, ouvindo-se reprovar em todas as partes essas impiedades e blasfêmias. Bispos e doutores se levantaram contra Ario com a voz e com escritos; encontrou não obstante partidários enganados por sua hipocrisia, e conseguiu perturbar a Igreja em todas as partes. 

  CONCÍLIO DE NICEIA.  - "Conhecendo o imperador os progressos da nova heresia, concordou com o Papa São Silvestre, em opôr-se a ela, convocando um Concílio Ecumênico, isto é, uma reunião geral dos bispos. Nesse ínterim ordenou a todos os governadores de províncias que os provessem de todo o necessário para a viagem. O Pontífice consentiu de bom grado e resolveu que o Concílio se reunisse em Niceia, cidade principal de Bitínia. Abriu-se o Concílio no ano 325 e achavam-se presentes 318 bispos. O Papa, não podendo ir pessoalmente, mandou para o representar a Ósio, Bispo de Córdova, e dois sacerdotes romanos chamados Vito e Vicente. Eram, pois, eles os legados do Papa, que deviam presidir em seu nome ao Concílio. Foi uma reunião imponente, nunca vista e impossível de se descrever: parte dos prelados que a compunham distinguia-se já por doutrina, santidade e milagres, e muitos deles traziam as cicatrizes dos tormentos que tinham sofrido na última perseguição. No dia em que devia inaugurar o Concílio, reuniram-se todos os bispos em uma grande sala. Constantino, como sinal de repeito aos que se achavam presentes, quis entrar por último, e não quis tomar assento até que o tivessem feito os demais. Tomou parte no Concílio, não como juiz, senão como protetor dos bispos e para impedir que os hereges causassem turbulências.
  Ario, que também tinha sido admitido, atreveu-se a sustentar jactosamente sua blasfêmia em presença do Concílio. Horrorizaram-se os Padres, e com argumentos tirados dos Livros Sagrados e da Tradição, provaram e definiram que Jesus Cristo é igual ao Pai e verdadeiro Deus, e que tem a mesma substância e a mesma natureza que o Pai. Para exprimir este dogma, empregaram os católicos a palavra consubstancial. Ósio, como presidente do Concílio e legado do Vigário de Jesus Cristo compôs uma profissão de fé conhecida sob o nome de Símbolo de Niceia. Os bispos pronunciaram anátema contra Ario, e o imperador apoiou o juízo dogmático da Igreja com a força do braço secular, desterrando o herege e seus partidários. Tal foi a conclusão desta célebre reunião, cuja memória sempre será venerada pelos católicos, por ter constituído o primeiro Concílio Geral da Igreja. 

Continua no próximo post.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA SOBRE A FÉ CATÓLICA

Capítulo II   -    A Revelação

   A mesma Santa Madre Igreja crê e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas; pois as perfeições invisíveis tornam-se visíveis depois da criação do mundo, pela conhecimento que as suas obras nos dão dele (Rom. 1, 20); mas que aprouve à sua misericórdia e bondade revelar-se a si e os eternos decretos da sua vontade ao gênero humano por outra via, e esta sobrenatural, conforme testemunha o Apóstolo: Havendo Deus outrora falado aos pais pelos profetas, muitas vezes e de muitos modos, ultimamente, nestes dias, falou-nos pelo Filho (Heb. 1, 1 s; cân. 1).
   A esta revelação divina deve-se certamente atribuir o poderem todos, mesmo nas condições atuais do gênero humano, conhecer expeditamente, com firme certeza e sem mistura de erro, aquilo que nas coisas divinas não é de per si inacessível à razão humana. Contudo, não se deve dizer que a revelação é absolutamente necessária por este motivo, mas porque Deus, em sua infinita bondade, ordenou o homem para o fim sobrenatural, isto é, para participar dos bens divinos, que estão inteiramente acima da compreensão da inteligência humana; pois nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem penetrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam (I Cor. 2, 9; c^n. 2 e 3).
   Esta revelação sobrenatural, porém, segundo a doutrina da Igreja universal, definida pelo Concílio Tridentino, está contida "nos livros e nas tradições não escritas que, recebidas pelos Apóstolos da boca do próprio Cristo, ou que transmitidas como que de mão em mão pelos próprios Apóstolos sob a inspiração do Espírito Santo, chegaram até nós" (Concilio Tridentino). E estes livros do Antigo e do Novo Testamento, inteiros e com todas as suas partes, conforme vêm enumerados no decreto do mesmo Concílio e se encontram na antiga edição latina da Vulgata, devem ser aceitos como sagrados e canônicos. E a Santa Igreja os tem como tais, não por terem sido redigidos somente por obra humana e em seguida aprovados pela sua autoridade, nem somente por conterem a revelação isenta de erro, mas porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor, e como tais foram confiados à mesma Igreja (cân. 4).
   Todavia, já que o salutar decreto dado pelo Concílio Tridentino sobre a interpretação da Sagrada Escritura para corrigir espíritos petulantes é erradamente exposto por alguns, Nós, renovando o mesmo decreto, declaramos que o seu sentido é que nas coisas da fé e da moral, pertencentes à estrutura da doutrina cristã, deve-se ter por verdadeiro sentido da Sagrada Escritura aquele que foi e é mantido pela Santa Madre Igreja, a quem compete decidir do verdadeiro sentido e da interpretação da Sagrada Escritura; e que, por conseguinte, a ninguém é permitido interpretar a mesma Sagrada Escritura contrariamente a este sentido ou também contra o consenso unânime dos Santos Padres. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

DA FÉ: segundo o CATECISMO DE SÃO PIO X, que hoje faz cem anos

Da Fé

  Que é a Fé?
  A Fé é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual nós, apoiados na autoridade do mesmo Deus, acreditamos que é verdade tudo o que Ele revelou e por meio da Santa Igreja nos propõe para crer.

Possuo um catecismo (foto) da época de São Pio X
O livro fica velho, mas a doutrina é a Verdade sempre
antiga e sempre nova, viva mas perene. 
  Como conhecemos as verdades reveladas por Deus?
  Conhecemos as verdades reveladas por Deus por meio da Santa Igreja infalível, isto é, por meio do Papa, sucessor de São Pedro, e por meio dos Bispos, que, em união com o Papa, são sucessores dos Apóstolos, os quais foram instruídos pelo próprio Jesus Cristo. 

  Temos nós certeza de que são verdadeiras as doutrinas que a Santa Igreja nos ensina?
  Sim, temos a certeza absoluta de que são verdadeiras as doutrinas que a Santa Igreja nos ensina, porque Jesus Cristo empenhou a sua palavra de que a Igreja nunca se enganaria. 

  Com que pecado se perde a Fé?
  A Fé perde-se negando ou duvidando voluntariamente ainda que seja de um só artigo que nos é proposto para crer. 

  Como recuperamos a Fé?
  Recuperamos a Fé perdida arrependendo-nos do pecado cometido e crendo de novo em tudo aquilo em que crê a Santa Igreja.

  Dos mistérios

  Podemos compreender todas as verdades da Fé?
  Não; não podemos compreender todas as verdades da Fé, porque algumas destas verdades são mistérios. 

O sinal da cruz é o sinal do cristão, porque indica os mistérios
principais de nossa Fé, que são: Unidade e Trindade de Deus,
Encarnação, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
  Que são mistérios?
  Os mistérios são verdades superiores à razão, nas quais devemos crer, ainda que não as possamos compreender.

  Por que devemos crer nos mistérios?
  Devemos crer nos mistérios porque os revelou Deus, que, sendo Verdade e Bondade infinitas, não pode enganar-Se, nem enganar-nos. 

  São porventura os mistérios contrários à razão?
  Os mistérios são superiores mas não contrários à razão; e até a própria razão nos persuade a admiti-los. 

  Por que os mistérios não podem ser contrários à razão?
  Os mistérios não podem ser contrários à razão porque é o mesmo Deus quem nos deu a luz da razão e quem revelou os mistérios, e Ele não pode contradizer-Se a Si mesmo. 

  Onde se acham as verdades que Deus revelou?
  As verdades que Deus revelou acham-se na Sagrada Escritura e na Tradição.
                        
[ No próximo post, se Deus quiser, transmitiremos as Lições sobre a Sagrada Escritura e a Tradição].
  

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O SIMBOLO DA FÉ CATÓLICA: Sessão III do Concílio Ecumênico de Trento

Este sacrossanto Concílio Ecumênico e Geral de Trento, legitimamente reunido no Espírito Santo, presidindo-o os três legados da Sé Apostólica, tendo em vista a importância das coisas a serem tratadas, principalmente daquelas que estão contidas nestes dois pontos: a de extirpar as heresias e a de reformar os costumes, motivo principal de estar reunido, julgou seu dever professar, com as mesmas palavras segundo as quais é lido em todas as igrejas, o Símbolo de Fé usado pela Santa Igreja Romana como princípio em que devem concordar todos os que professam a fé cristã e como fundamento firme e único contra o qual jamais prevalecerão as portas do inferno (S. Mat. 16, 18). O qual é o seguinte: Creio em um só Deus, Pai Onipotente, Criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis. E em um só Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; é Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; é gerado, não feito; consubstancial ao Pai, por quem foram feitas todas as coisas. O qual, por amor de nós homens e pela nossa salvação, desceu dos céus. E se encarnou por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Foi também crucificado por nossa causa; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos e foi sepultado. E ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E subiu ao céu, está sentado à mão direita de Deus Pai. E pela segunda vez há de vir com majestade a julgar os vivos e os mortos. E o seu reino não terá fim. E [creio] no Espírito Santo, [que também é] Senhor e Vivificador, o qual procede do Pai e do Filho. O qual, com o Pai e o Filho, é juntamente adorado e glorificado, e foi quem falou pelos profetas. E [creio] na Igreja, que é una, santa, católica e apostólica. Confesso um só Batismo para remissão dos pecados. E aguardo a ressurreição dos mortos e a vida da eternidade. Assim seja. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Credo in Unum Deum...

Artigo do saudoso Gustavo Corção no livro A TEMPO E CONTRA TEMPO,  Coleção Permanência, ano 1969

   Foi no ano 325 que trezentos bispos da Igreja se reuniram em Niceia para responder definitivamente ao desafio do arianismo. E quando tudo parecia indicar que a heresia penetrava nos vasos capilares da Igreja, e que estavam isolados e em minoria os seguidores da doutrina tradicional que afirmava a divindade do Cristo Jesus, o Concílio proclama solenemente a verdadeira doutrina e anatematiza o erro dos arianos. O pronunciamento tomou o nome de Símbolo de Niceia, e constitui um resumo, uma condensação da verdade revelada, não mais no tom tranquilo e expositivo do Símbolo dos Apóstolos, mas no novo tom exigido pelas procelas da história. 
   Mais tarde, o Concílio de Constantinopla retomou o texto e deu-lhe nova redação com um desenvolvimento maior relativo à teologia do Espírito Santo. Mas foi somente no século VIII que veio à baila, tempestuosamente, a necessidade de adicionar o termo filioque relativo à processão do Espírito Santo. Foi em 809 que o Concílio de Aix-la-Chapelle consagrou o uso litúrgico que tem até hoje o Credo que rezamos na missa, depois da leitura do Evangelho.
   Essas datas, essas reminiscências da história da Igreja passavam-me pela mente, ontem, enquanto lia com emoção e gratidão o Credo que nosso bom Papa Paulo VI pronunciou solenemente no encerramento do Ano da Fé. ( * ) O mundo inteiro ouviu as ressonâncias da grande foz que continuava a longa e viva tradição.
   "Credo in unum Deum..." disseram no ano 325 os padres conciliares reunidos em Niceia; "Credo in unum Deum..." diz o Papa Paulo VI no centro de torvelinho de ideias, de lutas, de confusões levantadas dentro da Igreja pelos inimigos internos da Igreja. E o desenvolvimento majestoso da grande oração ao mesmo tempo suplicante e explicativa, impetratória e ensinante, e ao mesmo tempo pacificadora e lutadora, prossegue na mesma linha adotada e fixada há mais de um milênio.
   Preocupado com o frenesi e a "inquietação de certos meios" que "se deixam dominar por uma espécie de sede da mudança e da novidade", o Papa fez questão de frisar, de acentuar, de reafirmar que o Credo de Niceia é perfeitamente apto, sem necessidade de retoque, à famosa mentalidade de nosso tempo. E é nisto que se reconhece o dinamismo de constante renovação da Igreja.
   Uma coisa é "renovação" e outra é "inovação". Para nós, em todas as passagens mais decisivas da Sagradas Escrituras, novo é sinônimo de íntegro e até de santo, e renovar é sinônimo de restaurar a primitiva integridade. Renovar não é transformar uma coisa em outra, não é substituir uma coisa por outra, é recuperar e voltar ao que a coisa era em sua pureza. A Igreja peregrina, que passa no mundo "entre as aflições dos homens e as consolações de Deus", cobre-se de pó e até de lama, sem que essas manchas penetrem sua substância una e santa.
   Renovar é purificar, renovar é limpar. Não digo que a Igreja tenha necessidade intrínseca de penitência e de purificação, ou que ela precise lavar-se naquilo que constitui propriamente o seu ser sobrenatural, encabeçado por Cristo e animado pelo Espírito Santo. Digamos entretanto que precisa purificar e lavar o seu manto, isto é, os sinais exteriores com que passa no mundo. 
   A grande oração de Paulo VI, no encerramento do Ano da Fé, neste sentido foi um ato de purificação e de renovação. Aí tem o mundo a Santa Igreja como mostrada em sua virginal maternidade, em sua onipotência suplicante: unam, sanctam, catholicam e apostolicam... E aí temos o imenso conforto de saber, de sentir que as grandes verdades que balbuciamos a repeito de Deus não hão de sofrer inflexões e deflexões pelo fato de estarem transistorizados os gravadores de som, e pelo fato de conseguir o homem fazer a análise espectral das estrelas. 
   Essas coisas afetarão, sem dúvida alguma, o andamento geral da vida humana. Os padres andarão em automóveis e não a cavalo, mas seria um pouco ridículo, um pouco pueril demais, supor que essas coisas viessem modificar a vida profunda da Igreja, e viessem alterar nosso Credo. Fala-se demais em adaptar isto ou aquilo às exigências dos tempos modernos que realmente se tornaram o deus ciumento, o mais ciumento dos deuses. 
   Ora, o exemplo principal que a Igreja deve dar não é este. Há evidentemente um aspecto exterior da vida da Igreja que se presta a tal adaptação, mas não é essa flexibilidade a nota essencial e principal da Igreja. Ao contrário, a nota principal é a de um testemunho de perenidade, sem o qual não pode viver a alma humana, não apenas para a Fé, mas também para a contemplação natural.
   A alma precisa não perder noção de sua fidalguia, de sua transcendência, de sua dignidade. A grande permanência da Igreja, a virgindade da Mãe e Mestra, a integridade e a perenidade são as arestas luminosas que nos permitem, de longe, distinguir das outras casas mal fundadas, a Casa de Deus fundada na Pedra.
   E foi este testemunho de perenidade e de transcendente constância que nos deu o nosso Papa Paulo VI quando retomou em Roma de hoje a mesma grande oração que há mais de mil anos todos nós rezamos depois da leitura do Evangelho. E retomou-a não apenas no lugar litúrgico que ainda tem, mas com um desenvolvimento de lição que deu ao texto venerável uma inesperada grandeza.
   Lendo a tradução, e através de suas deficiências, parecia-me ouvir o eco de mil abóbodas e de muito mais de mil vozes a insistir, a ensinar, a suplicar, a declarar: Credo in unum Deum Patrem Omnipotentem...
                                                                                                                         11-7-68

( * )  Transcrevemos em Anexo a íntegra do texto da Profissão de Fé, proclamada por Paulo VI, no dia 30-6-68. (Nota da Editora). 

NB. Transcreveremos, se Deus quiser, toda a Profissão de Fé de Paulo VI, em várias postagens seguidas. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O que é a Fé? - Segundo Santo Tomás de Aquino ( 1 )

S. T., 2ª  2ª; Q. IV, a. 1.
DA FÉ EM SI MESMA
ART.1 - Se é uma definição exata da fé a que dá o Apóstolo quando diz: É a fé a substância das coisas que se devem esperar, um argumento das coisas que não aparecem.


   - Parece inexata a definição da fé que dá o Apóstolo quando diz: É a fé a substância das coisas que se devem esperar, um argumento das coisas que não aparecem.

OBJEÇÕES:
 1. - Pois, nenhuma qualidade é substância. Ora, a fé, sendo uma virtude teologal, é uma qualidade. Logo, não é substância.

 2. - Demais. - Virtudes diversas têm objetivos diversos. Ora, o que esperamos é objeto da esperança. Logo, não deve entrar na definição da fé, como seu objeto.

  3. - Demais. - A fé mais se aperfeiçoa pela caridade do que pela esperança, porque a caridade é a forma da fé, como a seguir se dirá. Logo, devia-se introduzir, na definição da fé, a coisa que devemos amar, de preferência à que devemos esperar.

  4. - Demais. - Uma mesma coisa não deve entrar em gêneros diversos. Ora, substância e argumento são gêneros diversos sem subalternação. Logo, inconveniente é dizer que é a fé substância e argumento. 

  5. - Demais. - Um argumento manifesta a verdade daquilo a que se aplica. Ora, chama-se aparente ao que é de verdade manifesta. Logo, há uma oposição implicada no dito - argumento das coisas que não aparecem. Portanto, a fé está inconvenientemente definida. 

  Em contrário, basta a autoridade do Apóstolo.

  SOLUÇÃO. - Muitos dizem que as palavras do Apóstolo não constituem definição da fé. Quem as considerar porém, retamente, verá que encerram tudo o que entra em tal definição, embora não estejam ordenadas em forma de definição. Assim também os filósofos aplicam os princípios dos silogismos, pondo de parte a forma silogística. 
  E para evidenciá-lo, devemos considerar que, sendo os hábitos conhecidos pelos atos e estes, pelos seus objetos, a fé, sendo hábito, deve ser definida pelo seu ato próprio posto em relação com o seu objeto próprio. Ora, é o ato de fé crer, que é ato do intelecto determinado a um objeto, por império da vontade. Assim, pois, o ato de fé se ordena, de um lado, ao objeto da vontade, que é o bem e o fim, e, de outro ao do intelecto(=inteligência), que é a verdade. E sendo a fé uma virtude teologal, o seu objeto se identifica com o seu fim. Por onde, é necessário que o objeto e o fim da fé se correspondam proporcionalmente. Ora, a verdade primeira (=Deus) enquanto inevidente e as verdades a que, por causa dela, aderimos constituem o objeto da fé. E deste modo, é necessário que a verdade primeira se comporte, em relação ao ato de fé, como fim, enquanto realiza a essência da realidade não vista. Ora, isto é essencialmente o que esperamos, conforme  àquilo do Apóstolo: O que não vemos esperamos. Pois, ver a verdade é possuí-la. Mas, ninguém espera o que já tem; pois que a esperança se refere ao que ainda não possuímos. 
  Assim, pois, a relação entre o ato de fé e o fim o qual é o objeto da vontade, está expressa pelas palavras: É a fé a substância das coisas que se devem esperar. Pois, de ordinário se chama substância à primeira incoação de uma coisa qualquer, e sobretudo quando no princípio primeiro está contido, virtualmente, tudo quanto dele se segue. (...) Ora, é deste modo que se diz - é a fé a substância das coisas esperadas. Pois onde a primeira incoação (início) da coisas esperadas, em nós, depende do assentimento da fé, que contém virtualmente tudo o que esperamos. Pois, esperamos que havemos de ser felizes por vermos, com visão plena, a verdade a que aderimos pela fé. 
   Por outro lado, a relação entre o ato de fé e o objeto do intelecto, enquanto objeto da fé, é designada pela expressão: argumento das coisas que não aparecem. E toma-se o argumento, pelo seu efeito. Pois, pelo argumento, a inteligência é levada a aderir a alguma verdade; por onde, à mesma adesão firme do intelecto à verdade da fé que não aparece, chama-se, no caso, argumento. Por isso, outra versão diz - convicção; pois, pela autoridade divina, o intelecto do crente é convencido a assentir ao que não vê. 
   Quem quiser, pois, reduzir as palavras referidas à forma de definição, poderá dizer: é a fé um hábito da mente, pelo qual começa a vida eterna em nós, e que faz a inteligência assentir ao que não aparece. - Por onde, a fé distingue-se de tudo o mais que pertence ao intelecto. Assim, chamando-se - argumento - distingue-se da opinião, da suspeita e da dúvida, pelas quais não é firme a primeira adesão da inteligência a nada. Quando se diz - Das coisas que não aparecem - distingue-se a fé da ciência e do intelecto, que tornam as coisas aparentes. E enfim, quando se diz - substância das coisas que se devem esperar - distingue-se a fé, virtude, da fé comumente considerada, que não se ordena à beatitude esperada (no Céu).
   Quando a quaisquer outras definições dadas da fé, elas são explicações da que dá o Apóstolo. Assim Santo Agostinho: É a fé uma virtude pela qual cremos o que não vemos. Damasceno: É fé um consentimento que não indaga. E outros: É a fé uma determinada certeza da alma, sobre objetos ausentes, superior à opinião e inferior à ciência(=aquilo que se pode ver e provar).  Ora, todas estas definições se identificam com o dito do Apóstolo: Argumento das coisas que não aparecem. Enfim, a definição de Dionísio - é a fé um fundamento permanente dos crentes, que os faz ter a verdade e, por eles, a manifesta - é a mesma que a referida: substância das coisas que se devem esperar. 

 Observação: O artigo de Santo Tomás continua respondendo as objeções feitas por ele no início. Será o objeto do próximo post, se Deus quiser. 

Que é a Fé - Segundo Santo Tomás de Aquino ( 2 )

Respondendo às objeções

  DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. [Assim foi formulada: Parece inexata a definição da fé que dá São Paulo: Pois nenhuma qualidade é substância. Ora, a fé, sendo uma virtude teologal, é uma qualidade. Logo, não é substância.]
  R.: No texto em questão não se toma substância como gênero generalíssimo, dividido, por oposição, dos outros gêneros. Mas enquanto que, em qualquer gênero, se encontra uma certa semelhança de substância. Assim, ao primeiro, em qualquer gênero, que contém virtualmente, em si, as mais subdivisões dele, se chama substância delas. 

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO. [Assim foi formulada: Virtudes diversas têm objetivos diversos. Ora, o que esperamos é objeto da esperança. Logo, não deve entrar na definição da fé, como seu objeto.]
 R.: Pertencendo a fé ao intelecto, enquanto imperado pela vontade, há de necessariamente ordenar-se como ao fim, aos objetos das virtudes pelas quais a vontade é aperfeiçoada. Entre elas está a esperança. Por onde na definição da fé inclui-se o objeto da esperança. 

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO. [Assim foi formulada: A fé mais se aperfeiçoa pela caridade do que pela esperança, porque a caridade é a forma da fé. Logo devia-se introduzir, na definição da fé, a coisa que devemos amar, de preferência à que devemos esperar.]
  R.:  O amor pode recair tanto sobre o visível como sobre o invisível, sobre o presente como sobre o ausente. Por isso, o amável não se adapta à fé tão propriamente como o esperado, porque a esperança recai sempre sobre um objeto ausente e invisível. 

RESPOSTA À QUARTA OBJEÇÃO. [Assim foi formulada: Uma mesma coisa não deve entrar em gêneros diversos. Ora, substância e argumento são gêneros diversos sem subalternação. Logo, inconveniente é dizer que é a fé substância e argumento.]
  R.: A substância e o argumento, enquanto incluídos na definição da fé, não implicam gêneros diversos dela, nem atos diversos. Mas relações diversas de um ato para objetos diversos, como do sobredito resulta. 

RESPOSTA À QUINTA OBJEÇÃO. [Assim foi formulada: Um argumento manifesta a verdade daquilo a que se aplica. Ora, chama-se aparente ao que é de verdade manifesta. Logo, há uma oposição implicada no dito - argumento das coisas que não aparecem. Portanto a fé está inconvenientemente definida.]
  R.: O argumento fundado nos princípios próprios de uma verdade faz que ela se apareça visível. Mas o fundado na autoridade divina [como é a fé] não a torna aparente. Ora, é um argumento dessa espécie que entra na definição da fé. Logo, a fé é aí definida de maneira conveniente. 

Observação: É normal e óbvio que as pessoas não conhecedoras da linguagem filosófica e teológica, terão certa dificuldade em entender Santo Tomás de Aquino. Mas, como faremos, se Deus quiser, muitas outras exposições sobre a fé numa linguagem mais popular, todos terão condições de entender bem o que seja a fé. Estamos no Ano da Fé (inicia-se dia 11). Depois do Concílio Vaticano II sobretudo, vivemos uma crise de fé. Como sem fé é impossível a salvação, pois, sem ela não se agrada a Deus, é sumamente útil e necessário que tenhamos noções bem claras e exatas da fé. É o que procuraremos dar, se Deus quiser e com sua graça, aos caríssimos leitores, durante o decorrer do Ano da Fé.