sexta-feira, 10 de abril de 2020

SERMÃO DO ENCONTRO




  "O vos omnes que transitis per viam, attendite et videte si est dolor, sicut dolor meus" (Lamentações de Jeremias, I, 12).
       "Ó vós todos os que passais pelo caminho, atendei e vede se há dor semelhante à minha dor".




"Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!

 Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Cena patética! Quadro doloroso é o que agora presenciamos! Tremei, ó terra! Enchei-vos de horror, ó céus!
    Os meus olhos se encontram com um homem atado com duras cordas, com a cabeça rasgada dos mais penetrantes espinhos. Ferido, dilacerado, com as vestes ensopadas na abundância do seu próprio sangue; trêmulo e arquejante caminha oprimido pelo enorme peso do mais infamante madeiro! Grande Deus! Será um assassino público, um parricida, um traidor da Religião e da Pátria, para sofrer tanto e ser assim tão cruelmente castigado?! 
    Mas não! É o inocente Jesus! O mais humilde, o mais modesto, o mais puro, o mais caridoso dentre os filhos dos homens!

   Não há, entretanto, uma só pessoa que se compadeça de suas desventuras. Não há um só coração, que compartilhe as suas dores e os seus sofrimentos!
   Que é feito agora de seus amados discípulos, que foram tão prontos em acompanhá-Lo  ao Tabor para presenciar a sua gloriosa Transfiguração?
   Que é feito destes milhares de enfermos que d'Ele tinham recebido a saúde, e de mortos que d'Ele tinham recuperado a vida?
   Onde estão estes homens de Religião e de piedade que ainda há poucos dias atiravam os seus mantos em terra para Jesus passar por cima; e que juncando a sua passagem de palmas e de flores, O acompanhavam bradando : Hosana ao Filho de Davi; bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!? 
   Todos O abandonaram e tornaram-se seus inimigos!

   Mas, ah! caríssimos irmãos, eu minto dizendo que todos O abandonaram. Sim, eu vejo uma mulher tão bela com seu rosto nimiamente pálido, romper heroicamente a grande multidão que O cerca. É Maria Santíssima. Pois, apenas recebera através de São João Apóstolo, a triste notícia de que Seu amado Filho Jesus caminhava com a cruz às costas em direção ao Calvário, ela parte imediatamente, e seu coração se achava em contínuos sobressaltos ao verificar as pedras das ruas de Jerusalém tintas do sangue de Seu amantíssimo Filho. 
   Ainda um pouco distante, seus olhos tão tristes e amortecidos parecem procurar um tão caro objeto que extremamente seu coração ama. Ó Virgem Mãe, é realmente o Vosso Filho!!! Aproximai-vos bem deste ferido, dilacerado dos pés até a cabeça! E esta Mãe Dolorosa, vacilante, trêmula com dificuldade pode conservar-se em pé!


 Oh! Dolorosa Mãe!!!
   Vede-O agora, e dizei-me, se é este aquele que era o mais lindo e mais formoso dentre todos os filhos dos homens cujo corpo fora formado pelo Espírito Santo em vossas puríssimas estranhas?!

   Vede-O e dizei-me se este é aquele mesmo homem poderoso em obras e palavras, a quem o vento, o mar, e toda natureza prontamente obedecia?!

   Vede-O e dizei-me se este é aquele mesmo Messias prodigioso, que curava os cegos, os surdos e os mudos, que restituía a saúde aos enfermos, ressuscitava os mortos?!

   Ó desumana ingratidão, vós rasgando o corpo deste Homem-Deus, dilacerais ainda muito mais cruelmente o terno coração desta Mãe amorosíssima. 

   Ah! caríssimos fiéis, que encontro doloroso! Que olhares de desolação! Maria vê seu Filho desfalecido e desfigurado e não Lhe pode valer. Jesus vê sua santa Mãe aflita e desolada e não a pode consolar. Não falam os lábios... falam os corações! Minha Mãe, minha pobre Mãe!!! - Meu Filho, meu querido Jesus!!! Ó único objeto de todas as potências de minha alma, demorai por um pouco, ó meu Filho tão sanguinolento sacrifício; concedei um pequeno alívio a esta angustiada mãe. Reparti comigo vossos pungentes tormentos. Deixai que eu coloque um pouco sobre meus ombros esse pesado madeiro, que tanto Vos oprime; dai-me licença, que eu afrouxe os laços dessas tiranas cordas que Vos prendem e maltratam; consenti que eu ponha sobre minha cabeça esta coroa de penetrantes espinhos, que faz jorrar torrentes de sangue sobre a Vossa adorável face!!!

   Ó Maria! quem poderá exprimir os tormentos deste tão doloroso encontro?! Nem o céu, nem a terra  vos oferecem o menor alívio, a mínima consolação!!! Se olhais para o Céu, contemplareis um Deus irritado contra os pecados que Vosso Filho tomou sobre Si. Contemplareis este Deus justíssimo que vos impõe o rigoroso preceito de imolar vosso Filho único e bem amado!!!
   Se volveis vossos olhos ao redor de vós, ouvireis os clamores públicos duma nação ingrata, duma vil populaça que brada em alta voz: "É réu de morte, seja crucificado!!!

    Caríssimos e amados irmãos, nós que assistimos a representação do encontro, nós que simbolicamente o realizamos; não a assistimos, não a realizamos com os sentimentos que teve o povo de Jerusalém. O que hoje nos traz aqui é o amor, é a gratidão àquelas santíssimas pessoas cujo encontro na rua da dor nos comove, nos enternece.
    O que nos traz aqui é também a confiança. Semelhante a Jesus, cada um de nós é colocado na rua da amargura. Cada um de nós arqueja sob o peso da cruz que a Divina Providência lhe impôs. E assim, gemendo e chorando seguimos o nosso caminho ao Calvário. As dores, as cruzes, as provações desta vida temporal constituem nossa existência cotidiana. Procuramos a quem nos conforte, nos anime, nos console. Ah! como Jesus sentiu o peso do lenho e sua ignomínia. No entanto, levou-o com paciência firme e sem queixas. Maria Santíssima fez o mesmo. Aceita a vontade de Deus. Dá o seu "fiat" para ser a Corredentora. Une seu sacrifício ao sacrifício de seu Jesus. Sofre com Ele e por nós. Idêntica é nossa tarefa. Avante, pois, com coragem e paciência!!!
    O que, outrossim, nos faz ainda comparecer neste lugar é o arrependimento, é a tristeza. O arrependimento de nossos pecados; a tristeza por vermo-nos culpados diante de Jesus e de Maria Santíssima.

   E assim, ó Jesus, ó Maria! termino reconhecendo meu pecado e pedindo perdão. Na Vossa Paixão, ó Jesus, perdoastes a todos, Perdoai, também os meus delitos.

  Ó Jesus, fui eu quem amarrou os vossos pulsos, não foram os soldados. Não foi Pilatos que lavrou a sentença de morte, fui eu, foram meus pecados. Eu, Jesus, bati esses espinhos para que entrassem bem dentro na cabeça. Ó Jesus, não foram os soldados que vos impuseram aso ombros este pesado madeiro, fui eu, foram meus pecados.
   Ó Maria, essas lágrimas que banham a vossa face, eu as provoquei. Esta espada de dor predita pelo velho Simeão, foram meus pecados que vo-la cravaram no coração. 

  Ó Jesus, ó Maria, unidos num mesmo sacrifício por meu amor, perdoai-me porque não quero mais nesta vida renovar vossas dores e os vossos sofrimentos; para que assim pelos méritos destes sofrimentos mereça a felicidade perfeita na Pátria do Repouso eterno. Amém!
    

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