quinta-feira, 21 de abril de 2016

A "Nova Igreja" prega contra a família

   Extraído do livro "A TEMPO E CONTRATEMPO" de autoria do saudoso Gustavo Corção.
   Artigo escrito em 20 de abril de 1968.



    EM meu último artigo referi-me a um livro publicado pelo ISPAC (Instituto Superior de Pastoral Catequética) intitulado Os Jovens e a Fé, e disse que esse livro cuidava de tudo, até do fogo-fátuo dos cemitérios, mas omitia uma Coisa muito importante. Deixei o suspense. O que é, o que é que os novos padres, que se dizem especialistas em jovens, esquecem de mencionar, e quando mencionam é para agredir? Hoje trago a resposta: é simplesmente a FAMÍLIA.

   Sim, senhores, neste livro de duzentas páginas não há um só tópico para tentar, ao menos timidamente, um ajustamento do moço dentro da família em que nasceu, e uma preparação para a família que venha a fundar. Todos nós sabemos o papel de destaque que a família tem nas preocupações e nos ensinamentos da Igreja. Durante dois mil anos todos nós católicos ensinamos que a Família é a célula da sociedade, o seminário onde se preparam os homens para a Cidade ou para a Igreja. Hoje se diz que os jovens devem "fazer opções livres" sem se "deixarem enquadrar".

   Sim, a doutrina clássica, que qualquer homem do povo conhece e respeita, não é mais conhecida e respeitada pelos pregadores da "Nova Igreja". Em todo livro editado pelo ISPAC o jovem é visto no espaço, sem raízes, ou então é convidado a enquadrar-se nos grupos de segregação etária, onde o moço fica privado das ricas experiências do mundo e da vida, e de certo modo fixado na imaturidade.

   Poucas são, nesse livro, as referências aos pais, e essas mesmas em termos de conflito, como se houvesse um essencial antagonismo entre as gerações. Da Família, como instituição, não encontrei uma linha. E é contra esse desserviço prestado aos moços, à sociedade e à Igreja que eu clamo.

   Domingo passado, no sermão, um padre de Botafogo me fulminou, me arrasou, me achatou, por estar eu "combatendo os padres que cuidam dos jovens". Não é verdade. Eu não combato os padres que zelam pelos jovens, combato sim, e combaterei enquanto persistir o fenômeno, e enquanto os dedos tiverem força para calcar as teclas da máquina, o novo padre que entra no mimetismo dos jovens, com mentalidade de adolescente, para ajudar o mundo a desagregar a Família.

   Vimos há dias alguns eclesiásticos excitados tomarem parte nas desordens feitas por estudantes visivelmente teleguiados pelos comunistas, que nem se deram ao trabalho de disfarçar tal comando. Essa atitude foi imprudente e nociva a todos os altos valores que deviam prezar. Ouso entretanto dizer que mal maior fazem os que pregam contra a instituição familiar. O veneno corrosivo que espalham é muito mais grave do que a desordem social, porque atinge as almas nos mais profundos afetos. E, no entanto, por incrível que pareça, aí está o fenômeno: padres, organizações eclesiásticas, a serviço da desagregação da Família. 

   O livro editado pelo ISPAC é antes de tudo bobo. Tem frases assim: "Hoje o homem é capaz de conduzir a história, ao passo que ontem a história o conduzia (pág. 99), à qual, sem hesitar, eu daria o prêmio Nobel da estupidez do ano. Adiante, na página 121, encontramos o sucedâneo da família no capítulo intitulado A PROGRESSIVA SOCIALIZAÇÃO DOS JOVENS. Que quererá dizer isto? O autor responde: "Damos a entender por socialização que os jovens abandonem, cada vez mais, os traços próprios de sua individualidade, e o individualismo de seu impulso, em benefício de um nivelamento e de uma ação no grupo e pelo grupo".

   Não discuto hoje a imbecilidade desta frase escrita em mau francês e traduzida em português ainda pior. Obstino-me na reclamação: e a Família? E a mãe? E o pai? E a casa, os irmãos, as paredes, o chão em que nasceram, o teto que os protege?

   Tempos atrás apareceu no Rio um dominicano francês que escreveu um artigo contra a família, instituição burguesa. Foi muito festejado pelos espertinhos da UNE que nesse tempo tiravam milhões das tetas da Entidade Máxima. Escrevi eu um artigo contra o dominicano que supunha ser um idiota isolado. Hoje tornou-se legião esse tipo de frade ou de padre, e tornou-se trivial o sermão contra o Quarto Mandamento de Deus. Ouvi eu mais de dez. Um jovem padre excitado ensinava do púlpito: "Os jovens têm de fazer suas experiências próprias, e digo ainda que doa nos sacrossantos ouvidos dos adultos".

   Outro, ainda mais excitado, num sermão de domingo publicou um conflito caseiro onde evidentemente o jovem tinha toda a razão e mais alguma. E acrescentava esta nota pitoresca: "Ontem o pai veio me procurar, um pai com cara de palhaço". Perto daqui, no Largo do Machado, havia uma missa especial para jovens. Quem acaso entrasse na igreja para rezar, era convidado a se retirar. Dizia o padre, ao microfone, que uma pessoa de idade imprópria estava presente e era convidada a retirar-se.

   Numa reunião de jovens, quando apareceu a mãe de um dos garotos, com vontade de ver como era a dita reunião, o padre, irritado, disse à senhora que não havia ali lugar para espiões. Tudo isto parece mentira, mas infelizmente o que pareceria monstruosa mentira anos atrás tornou-se verdade hoje.

   Todos nós sabemos que os moços estão hoje vivendo uma situação dramática, justamente por causa da desagregação familiar. Ora, o que dói a mais não poder é ver um dos nossos a trabalhar com tanto entusiasmo na mesma direção da desagregação familiar. Não pararei, ainda que em todos os bairros e em todos os domingos me injuriem os padres da bossa revolucionária.

   Em nome da verdade exijo que digam publicamente que não é o zelo pelos jovens que eu combato, e sim a demagogia, a exaltação cheia de equívocos, e sobretudo a atividade desagregadora da família.


   Nota: Vemos pelo presente artigo que eclesiásticos já vêm semeando os ventos comunistas da destruição da Família, já há muito tempo.  Mas o que dói a mais não poder é constatar que a tempestade desta destruição está levantada por gente dos altos escalões eclesiásticos. 

    

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