terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O SERMÃO DOS ANÁTEMAS


 Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   No fim da tarde do Domingo de Ramos, Jesus sobe novamente o Monte das Oliveiras  e volta para à casa de seus amigos em Betânia. Será que ninguém ofereceu pousada ao recém aclamado Rei? 

   Mas nestes cinco dias, até sua prisão no Horto das Oliveiras, muitas coisas aconteceram. Jesus voltava a Jerusalém, oferecendo até o fim, oportunidade de conversão para os fariseus. Amaldiçoa uma figueira e no outro dia já está seca. É um ato que funciona qual parábola. Expulsa os vendilhões do templo. Desfaz por várias vezes as ciladas feitas a Ele. Jesus Cristo provou suficientemente a sua Divindade, rompendo as malhas destas redes de armadilhas, e deixa os astutos e maldosos fariseus reduzidos ao silêncio.

   Mas, talvez, o que mais prova sua Divindade nestas discussões com os seus figadais inimigos foi o discurso dos anátemas, discurso este lançado diretamente na cara dos inimigos e fê-lo com aquela autoridade que não tem similar entre os simples homens.

   Acabaram-se os chamamentos, e chega a hora terrível dos anátemas e da verdade nua e crua sobre o malévolo e orgulhoso espírito farisaico. Foi, de todos os discursos de Jesus, o mais terrível. A força da sua ira é tão fulminante como o império da sua doçura. Na verdade, já não havia nada a fazer com aqueles corações irredutíveis de orgulho.

   Como exórdio, Jesus começa por se dirigir a todos os ouvintes: "Os escribas e fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. Fazei, pois, o que vos dizem, mas não façais o que fazem. Dizem e não fazem. Atam fardos pesados e insuportáveis, e os põem aos ombros dos outros; mas eles nem com um dedo estão dispostos a tocar-lhes. Tudo o que fazem, fazem-no para que os homens os vejam". "Por isso alargam as filatérias e aumentam as orlas dos mantos. E procuram  os primeiros lugares nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas. Procuram as saudações na praça e ficam inchados quando os homens lhes chamam rabi". 

   - Mas vós, - acrescenta Jesus, dirigindo-se aos seus discípulos - a ninguém chameis pai nesta terra, porque um só é o vosso Pai, que está nos céus. Nem vos chameis mestres uns aos outros, porque um só é o vosso Mestre, Cristo". 

   Até aqui, apenas o exórdio do discurso. De súbito, Jesus Cristo levanta a voz  e pronuncia grandes e terríveis maldições:

   - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que fechais aos homens o reino dos céus; porque nem vós entrais, nem quereis que os outros entrem!

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que devorais as casas das viúvas com o pretexto de fazer longas orações!

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que percorreis os mares e a terra para fazer um prosélito e, mal o conseguis, o converteis num filho do inferno, duas vezes pior do que vós!

    - "Ai de vós, guias cegos, que dizeis que jurar pelo templo não é nada e que o que obriga é jurar pelo ouro do templo! Néscios e insensatos, o que vale mais, o ouro, ou o templo que santifica o ouro!

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que pagais dízimo da menta e do cominho e abandonastes as coisas essenciais da Lei, a justiça, a misericórdia e a fé! Devíeis observar estas, sem omitir aquelas. Guias de cegos, que filtrais um mosquito e engolis um camelo.

    "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que vos mostrais como sepulcros caiados, vistosos aos olhos dos homens e, por dentro, cheios de ossadas de mortos e de podridão asquerosa!..."

    - "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos santos e afirmais que, se tivésseis vivido nos tempos antigos, não teríeis manchado vossas mãos com o sangue dos profetas! Vós mesmos o confessais; Sois dignos filhos dos que assassinaram os enviados de Deus. Acabai de encher a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras, como conseguireis fugir à eterna condenação? Por isso, eis que Eu vos envio profetas e sábios e escribas; e matareis alguns deles e crucificareis outros; outros ainda, haveis de os açoitar nas vossas sinagogas e perseguir de cidade em cidade, para que desça sobre vós todo o sangue vertido na terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vós matastes entre o templo e o altar. Em verdade vos digo que tudo isto virá sobre esta geração".

   Caríssimos e amados irmãos, havia por detrás destes anátemas uma visão do futuro, um castigo. E Jesus, por isso, termina estas suas invectivas com um soluço vibrante de amor, pois tinha sido o amor que havia inspirado este requisitório supremo. À apóstrofe mais trágica junta-se uma exclamação transbordante de ternura: 

    - "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes Eu quis acolher teus filhos, com a galinha recolhe os pintainhos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa fica deserta. Porque Eu vos digo: Não me vereis enquanto não disserdes: Bendito seja o que vem em nome do Senhor!"

    

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