quinta-feira, 8 de setembro de 2016

AÇÕES COM VALOR DIVINO



   Mas se a graça, o pecador não pode MERECÊ-LA, como é que, depois de receber a graça santificante, pode MERECER a glória do Céu? Não é o mesmo homem fraco, mortal, limitado, imperfeito, como são todos os homens?

   - Sim, continua fraco, mortal, imperfeito, limitado, mas já não é o mesmo homem, enquanto perseverar na graça santificante. Se Você visse o seu amigo, inerte, morto, estirado na sala, e depois Deus o ressuscitasse e Você o passasse a ver rindo, conversando, trabalhando, exercendo toda a sua atividade, Você diria que este de agora é o mesmo homem? É o que se dá na vida espiritual: quem não está na graça santificante está morto pelo pecado para a vida sobrenatural; o morto não pode merecer; o morto nada pode fazer por si, para sair do estado de morte em que se encontra; é preciso que Deus o ressuscite, o crie espiritualmente, faça dele uma NOVA CRIATURA (2ª Coríntios V-17), um HOMEM NOVO (Efésios IV-24), para que possa andar, operar e produzir alguma coisa na vida da graça: Ele é quem vos deu a VIDA, quando vós estáveis MORTOS pelos delitos e pecados (Efésios II-1).

   Uma vez que esteja a alma com a graça santificante, sendo uma habitação do Espírito Santo, as suas boas obras feitas com reta intenção, as quais são efeito, portanto, não só do livre arbítrio, mas também da graça do Espírito Santo, são ações sobrenaturalizadas, ações divinizadas pela graça. As boas obras feitas pela alma que se tornou participante da natureza divina, tomam assim um valor divino e já merecem, não uma recompensa natural, mas a recompensa da vida eterna, dada por justiça, pois o prometido é devido e Deus assim o prometeu: Irão estes para o suplício eterno, e os JUSTOS, PARA A VIDA ETERNA (Mateus XXV-46). Não precisamos mais citar aqueles textos em que a vida eterna nos aparece como um RECOMPENSA (Mateus XIX-29), um GALARDÃO (Mateus V-11 e 12), uma COROA DE JUSTIÇA (2ª Timóteo IV-8), um TESOURO ACUMULADO NO CÉU (Mateus VI-19 e 20), uma PAGA SEGUNDO AS OBRAS (Mateus XVI-27), e em que Nosso Senhor nos fala num verdadeiro e real MERECIMENTO (Lucas VI-32 a 35).

   À proporção que a alma santificada pelo Divino Espírito vai fazendo boas obras e praticando atos de virtude, vai crescendo na graça (2ª Pedro III-18), e aumentando em si esta graça divina, vai aumentando também o seu prêmio no Céu, pois Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras (Romanos II-6).

GRAÇA SANTIFICANTE, ESFORÇO E MERECIMENTO



   Aqui naturalmente o leitor pede a palavra para fazer uma pergunta: O senhor disse que a graça santificante, a gente recebe "de graça". Se eu fui batizado, quando não tinha ainda uso de razão, estou perfeitamente de acordo: recebi a graça santificante "de graça", pois nada fiz para recebê-la. Mas se já recebi o Batismo depois de grande, como é que esta graça santificante foi recebida "de graça", se precisei, para isto, instruir-me com os princípais conhecimentos da fé, arrepender-me dos meus pecados, procurar o Batismo etc? Se eu já me batizei  e depois caí no pecado, preciso fazer exame de consciência, arrepender-me sinceramente, fazer um firme propósito, confessar-me etc. Como é que posso dizer nestes casos que recebi "de graça" a justificação, se precisei fazer esforços para consegui-la?

   - Você está apenas confundindo duas coisas bem diversas. Esforço que se faz para conseguir uma coisa nem sempre é o mesmo que MERECIMENTO. Quantas vezes Você faz os seus esforços precisamente para isto: para conseguir uma coisa "de graça"? Suponhamos que um amigo lhe telefone: Venha aqui agora mesmo, e eu lhe darei um anel de ouro cravejado de brilhantes! Você vai com sacrifício, abandonando seus afazeres, dispõe-se a dar muitas passadas, pode até fazer despesas com a condução e no fim de tudo recebeu o anel "de graça". Não foi a caminhada que Você fez que lhe deu merecimento para adquirir o anel: Você o recebeu sem o ter merecido, uma vez que não havia pago um preço equivalente, nem feito ação alguma, para a qual fosse o anel um prêmio adequado; a caminhada foi apenas uma providência necessária para entrar em posse do objeto.

   Diga-se o mesmo do homem carregado de crimes e condenado à pena de morte, a quem o rei manda dizer: "Venha a meu palácio, ajoelhe-se aos pés de meu ministro, confesse seus erros e eu assinarei o decreto, libertando-o da morte". Ainda mesmo que ele precise andar algumas léguas para isto, o perdão lhe foi concedido sempre "de graça", sem merecimento seu e por pura misericórdia; pois o que ele merecia era a morte, e não o perdão.

   Assim também Deus pode exigir algumas condições, algumas DISPOSIÇÕES nossas, para nos conceder a sua graça, mas não são estas disposições que estão na altura de merecê-la. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

MÉRITO



   O princípio do mérito é, portanto, A GRAÇA SANTIFICANTE. Antes de alcançá-la, não pode o homem ter nenhum MERECIMENTO.
  Ora, não é na graça santificante que o homem nasce. Nasce com o pecado original que consiste precisamente nisto: na privação da graça santificante. Tem que haver, portanto, um momento na sua vida, em que ele passa do estado de pecado (ou seja pecado original só, ou seja pecado original e mais os pecados mortais que ele já cometeu) para o estado de graça santificante.

   Esta passagem se dá SEM MERECIMENTO algum de sua parte, não pode MERECÊ-LA COM AS SUAS OBRAS, dá-se GRATUITAMENTE, por mera misericórdia de Deus, e a razão é muito simples: a graça santificante é um DOM SOBRENATURAL, enquanto o homem não for elevado a um estado sobrenatural, não pode merecer este dom que supera a sua própria natureza.

   A graça nos torna participantes da natureza divina ( 2ª Pedro I-4) já nesta terra, para melhor ainda nos tornarmos participantes da natureza divina lá na glória do Céu. É uma altura a que não podemos chegar por nossas próprias forças; é preciso, portanto, que Deus mesmo nos coloque nela. 

   E quando se dá esta passagem do estado de pecado para o de graça santificante? Dá-se a primeira vez na nossa vida, quando recebemos o Batismo, que apaga na alma o pecado original, com o qual fomos concebidos, bem com perdoa todos os pecados cometidos até aquela hora, desde que seja recebido com as devidas disposições.

   Dá-se outras vezes na vida, quando a alma que, tendo cometido pecado mortal, perdeu a graça santificante, recebe o perdão dos pecados cometidos. Para isto é que foi instituída a Confissão ou o Sacramento da Penitência (João XX-23). O perdão é dado por pura misericórdia, "de graça", não por merecimento das obras humanas, mas o que nos conforta é o que a Escritura nos diz sobre a misericórdia de Deus que é de muita bondade para perdoar (Isaías LV-7). Ele é misericordioso e clemente, sofredor e de muita compaixão (Êxodo XXXIV-6). Não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que ainda fumega (Isaías XLII-3), diz o profeta Isaías a respeito de Jesus. Ele é o primeiro, portanto, a sair em busca do pecador para lhe oferecer a sua graça, como Bom Pastor que se esforça por reabilitar a ovelha perdida. 

   

  

domingo, 4 de setembro de 2016

OS NEO-MODERNISTAS.

INTRODUÇÃO
   Em primeiro lugar, creio haver mister uma observação preliminar, não ignorando da possibilidade de existir consciências falseadas. Aliás, a observação não é minha mas de São Pio X na Encíclica "Pascendi", com a qual condenou o Modernismo. Diz o imortal Pontífice: "Pasmem embora homens de tal casta (=os modernistas) que nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá, porém, pasmar com razão quem quer que , postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, (sublinhado meu) se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão" (sublinhado meu). Ao falar dos neo-modernistas podemos e até devemos, aplicar o mesmo princípio acima enunciado. O próprio Divino Mestre declarou que pelos frutos se conhece a árvore. 
  Outra observação: Entre nós tradicionalistas, ou melhor dizendo, entre aqueles que, pela graça de Deus, permanecem fiéis à Santa Madre Igreja, e, portanto, devem combater o Modernismo, é extremamente necessário que não aja divisão e sobretudo REBELIÃO contra a autoridade legítima;  pois isto, é fazer papel de sapa no próprio exército. Em uma palavra: é, mesmo pretendendo combater o modernismo,  fazer o papel  dos mesmos.  
   Uma última observação que é de Santo Agostinho: "In principiis unitas, in dubiis libertas, in omnibus charitas" - Nos princípios unidade, nas coisas livres liberdade, em tudo a caridade. 
   O modernismo, nos últimos tempos, recebeu o nome de "Progressismo". É o modernismo colocado em prática através do fator "progresso". Como vimos na postagem anterior, os modernistas ensinam que a Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno; e o progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, a Criação, a Revelação, a Pessoa do Verbo Encarnado e a Redenção. Como eles sabem que esta mudança na doutrina, nos dogmas da Igreja, não é aceita pelos católicos, nem mesmo por aqueles que só conhecem o Primeiro Catecismo, usam, então, o disfarce, para assim conseguirem uma baldeação ideológica inadvertida. Em outras palavras, não atacam de frente, têm paciência diabólica para trabalhar as mentes aos poucos e de maneira disfarçada. Fazem uma lavagem cerebral mudando as idéias tradicionais, aos poucos, sem a pessoa perceber. Agem mais através dos ambientes que vão criando com imprecisões de linguagem e termos ambíguos. Há, no entanto, um critério para surpreendê-los, critério este que não falha. Qual é? É o seguinte: Todas as suas imprecisões , ambiguidades,  novos formulários, etc., obedecem à mesma direção. Operam no sentido de afastar os fiéis da Tradição, das fórmulas tradicionais, dos limites precisos entre a verdade e o erro, dos costumes elaborados lenta e seguramente pelos séculos de Cristianismo, de tudo enfim que indique, sem o menor perigo de engano, o Cristianismo ortodoxo, a fidelidade à Revelação e ao Espírito de Jesus Cristo.
   Mas, leiamos o que D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória, escreveu sobre o Neo-Modernismo:
   "Os modernistas foram sempre muito astutos, de maneira que, uma vez condenados, deixaram de se manifestar em plena luz do dia. Todavia, não desarmaram. Persistem em permanecer no seio da Igreja - pois fora de seu grêmio seria impossível levar adiante sua obra de sabotagem - (Sabotagem é o crime que consiste em invadir um estabelecimento para impedir ou atrapalhar o curso normal do trabalho ou danificar o estabelecimento) - e refugiam-se em sociedade secreta. É São Pio X quem o denuncia: "Os modernistas, mesmo depois que a Encíclica "Pascendi" arrancou-lhes a máscara com que se cobriam, não abandonaram seus desígnios de perturbar a paz da Igreja. Eles, com efeito, não cessaram de procurar e agrupar em uma sociedade secreta novos adeptos. (Motu Proprio "Sacrorum Antistitum", 1º de setembro de 1910).
           ESPÍRITO MODERNISTA
   "Pois, de seus antros secretos, eles dirigem uma campanha tenaz contra o Catolicismo tradicional, e em favor de um espírito revolucionário no seio de família de Deus. Não se observa mais tanto a doutrina modernista explícita, a não ser aqui e acolá como notava Bento XV. A obra modernista prossegue através do espírito modernista, difuso um pouco por toda parte. Na sua primeira Encíclica "Ad Beatíssimi", Bento XV caracteriza a maneira de agir dos que se acham tomados do espírito modernista: "rejeitam com náusea o que tem sabor de antigo, procuram avidamente e em toda parte o novo, na maneira de falar das coisas divinas, na celebração do culto sagrado, nas instituições católicas e mesmo nos exercícios da piedade privada". A estas notas podemos ajuntar outras fornecidas por Pio XI, cuja primeira Encíclica, ao declarar que ao modernismo dogmático sucedeu o modernismo moral e jurídico e social, assim descreve os neomodernistas: "nos seus discursos, nos seus escritos, e no todo de sua vida agem exatamente como se os ensinamentos e as ordens promulgadas várias vezes pelos soberanos Pontífices, nomeadamente por Leão XIII, Pio X e Bento XV, tivessem perdido seu primeiro valor, ou mesmo não devessem mais ser tidos em consideração" (Enc. "Ubi Arcano", 23 de dezembro de 1922).
           FINALIDADE, TÁTICA E ESTRATÉGIA DOS MODERNISTAS
 "Os modernistas queriam reformar a Igreja, de maneira a reduzi-la a uma das muitas manifestações religiosas que há no mundo, dando-lhe por base um mero e cego sentimento religioso; pois que o modernista não acredita na verdade do conteúdo dos dogmas revelados. Para ele tudo não passa de fenômenos ou manifestações de algo incognoscível. O Cristianismo, portanto, não é para o modernista mais que um dos muitos coloridos religiosos que sossegam a excitação sentimental do fiel. Para chegar à sua finalidade, precisavam os modernistas arruinar a estrutura monárquica da Igreja, em que foi Ela constituída pelo seu Divino Fundador; era mister desprestigiar o Magistério Eclesiástico, intérprete autêntico da verdade revelada; era necessário destruir a confiança nas tradições da Igreja, a adesão à Escolástica, o apego às devoções populares, tudo enfim que constitui o arcabouço do edifício multissecular da Igreja de Cristo, e que lhe dá solidez e vida concreta entre os homens.
 "Por isso, os modernistas:
 - "põem todo o empenho em diminuir e enfraquecer o Magistério Eclesiástico" (Enc. "Pascendi").
- "ostentam certo desprezo das doutrinas católicas, dos Santos Padres, dos Concílios Ecumênicos, do Magistério Eclesiástico" ( ibid.); 
- declaram que "o católico, não se importando com a autoridade, com os conselhos e com as ordens da Igreja, e até mesmo desprezando as suas repreensões, tem direito e dever de fazer o que julgar mais oportuno para o bem da pátria" ( ibid.);
- apregoam que "devem ser transformadas as Congregações Romanas, e antes de todas a do Santo Ofício e do Índice" ( ibid.) - que como sabeis, deve zelar pela pureza da Fé e tem como Prefeito o próprio Papa; 
- desterram "a filosofia escolástica para a história da filosofia, entre os sistemas obsoletos" ( ibid.). (Este ódio à Escolástica é tão fundamental nos modernistas, que São Pio X declara que "não há sinal mais manifesto de que começa alguém a volver-se para o modernismo do que começar a aborrecer a Escolástica");
- no estudo das Sagradas Escrituras, abandonam a interpretação dos Padres da Igreja e as normas do Magistério, para se aterem exclusiva e preponderantemente à crítica textual ou crítica interna, assim chamada (cf. "Pascendi");
- clamam que se deve diminuir as devoções externas e proibir que aumentem", e "procuram a todo transe desfazer as piedosas tradições populares" (ibid.);
- dizem que "as virtudes ativas devem antepor-se às passivas" e "desprezam os trabalhos da ascese" (ibid.);
           - desejam mesmo "ver suprimido do sacerdócio o sagrado celibato" (ibid.).
AJUSTAMENTO ÀS CONDIÇÕES MODERNAS
"Acobertam a revolução que entendem promover através das medidas táticas acima enumeradas, com a capa de ajustamento da Igreja às condições hodiernas. "A Igreja, dizem, por dentro e por fora deve se pôr de acordo com a consciência moderna" (ibid.). Como estratégia, ocultam o desprezo das repreensões e condenações sob o véu da mais apurada humildade; elevam às nuvens qualquer autor, ainda que medíocre ou nulo, desde que concorde com suas idéias; ao passo que "aos católicos defensores denodados da Igreja, votam-nos ao ódio mais despudorado, não havendo injúrias que lhes não atirem em rosto; chamam-nos especialmente de ignorantes e obstinados. Se, porém, a erudição e o acerto de quem os refuta os atemoriza, procuram descartá-lo, recorrendo ao silêncio" (ibid.). Como conseqüência de semelhante audácia, criam um ambiente de desconfiança em torno dos bons, inutilizando-lhes o trabalho apostólico; enganam os menos avisados, e atemorizam os pusilânimes. Como observa São Pio X: "Da prepotente imposição dos extraviados, do incauto assentimento dos pusilânimes, produz-se certa corrupção da atmosfera que penetra em toda parte e difunde o contágio" (Enc. "Pascendi", de 8 de setembro de 1907). 
     
            

SÃO PIO X INDICA AS CAUSAS DO MODERNISMO

 Diz São Pio X na Encíclica "Pascendi": "Para mais a fundo conhecermos o modernismo e o mais apropriado remédio acharmos para tão grande mal, cumpre agora, Veneráveis Irmãos, indagar algum tanto das causas donde se originou e por que se tem desenvolvido. - Não há duvidar que a causa próxima e imediata é a aberração do entendimento. As causas remotas são duas: O AMOR DAS NOVIDADES E O ORGULHO.  O amor de novidades basta por si só para explicar toda a sorte de erros. Por esta razão o Nosso sábio predecessor Gregório XVI com toda a verdade escreveu: "Muito lamentável é ver até onde se atiram os delírios da razão humana, quando o homem corre após as novidades, e, contra as admoestações de São Paulo, se empenha em saber mais do que convém, e, confiando demasiado em si, pensa que deve procurar a verdade fora da Igreja Católica, onde ela se acha sem a menor sombra de erro".
  "Contudo, continua São Pio X, o orgulho tem muito maior força para arrastar ao erro os entendimentos; e é o orgulho que, estando na doutrina modernista como em sua própria casa, aí acha à vontade o alimento de que se cevar e com que ostentar as suas manifestações. Efetivamente, o orgulho fá-los confiar tanto em si, que se julgam e dão a si mesmos como regra dos outros. Por orgulho loucamente se gloriam de ser os únicos que possuem o saber, e dizem desvanecidos e inchados: Nós cá não somos como os outros homens; e, de fato, para o não serem, abraçam e devaneiam toda sorte de novidades, até das mais absurdas. Por orgulho repelem toda sujeição, e afirmam que a autoridade deve aliar-se com a liberdade.
   ... "Para se chegar ao modernismo não há, com efeito, caminho mais direito do que o orgulho". ...
   - "Para conduzirem os espíritos ao erro os modernistas usam de dois meios: primeiro, removem os obstáculos; segundo, procuram com máxima cautela os ardis que lhes poderão servir, e põem-nos em prática, incessante e pacientemente. - Dentre os obstáculos, três principalmente se opõem aos seus esforços: o metódo escolástico de raciocionar, a autoridade dos Santos Padres com a Tradição e o Magistério eclesiástico. ..."a mania de novidades neles se acha aliada com o ódio à escolástica; e não há sinal mais manifesto de que começa alguém a volver-se para o modernismo, do que começar a aborrecer a escolástica"; ... "São também muito astuciosos em desvirtuar a natureza e a eficácia da Tradição, a fim de privá-la de todo o peso e autoridade"; ... "O mesmo juízo que fazem da Tradição, estendem-no os modernistas também aos santos Padres da Igreja. Com a maior temeridade, tendo-os embora como muito dignos de toda veneração, fazem-nos passar por muito ignorantes da crítica e da história, no que seriam indesculpáveis, se outros houveram sido os tempos em que viveram". Põem finalmente todo o empenho em diminuir e enfraquecer o magistério eclesiástico, ora deturpando-lhe sacrilegamente a origem, a natureza, os direitos, ora repetindo livremente contra ele as calúnias dos inimigos"; ... "quanto mais alguém mostra ousadia em destruir as coisas antigas, em rejeitar as tradições e o magistério eclesiástico, tanto mais encarecem a sua sabedoria"; ... "os ânimos juvenis, instigados interiormente pelo orgulho e pelo amor da novidades, dão-se por vencidos e desertam para o modernismo". "Os modernistas procuram conseguir cadeiras nos Seminários e nas Universidades, para tornarem-nas insensivelmente cadeiras de pestilência"; ...Infelizmente lamentamos a perda de grande número de moços, que davam ótimas esperanças de poderem um dia prestar relevantes serviços à Igreja, atualmente fora do bom caminho. Lamentamos esses muitos que, embora não se tenham adiantado tanto, tendo contudo respirado este ar infeccionado, já pensam, falam e escrevem com uma tal liberdade, que em católicos não assenta bem. Vemo-los entre os leigos, vemo-los entre os sacerdotes; e, quem o diria? Vemo-los até no seio das Famílias Religiosas".
   ... "Enfim, vivem preocupados em fazer o mundo falar de suas pessoas; e sabem que isto não será possível, se disserem as mesmas coisas que sempre se disseram". Podem estar eles na persuasão de fazerem coisa agradável a Deus e à Igreja; na realidade, porém, ofendem gravemente a Deus e à Igreja".

sábado, 3 de setembro de 2016

A SALVAÇÃO NO CASO DOS PAGÃOS



   Basta igualmente esta palavra de Cristo - se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17)  - para mostrar que, se o Protestantismo se distingue de todas as religiões do mundo ensinando que o homem se salva pela fé e não pelas obras, isto não é sinal de que seja a única Religião Verdadeira; é sinal, apenas, de que ensina uma coisa que evidentemente está contra a lógica e o bom senso.

   Este princípio estabelecido por Jesus Cristo - guardar os mandamentos, para salvar-se -  vigora em todas as religiões, porque é também um imperativo da razão humana, e a razão, assim como a fé, procede de Deus, Nosso Criador. A Humanidade viveu milhares de anos antes de Jesus Cristo vir a este mundo e, durante todo esse tempo, excetuando o povo judaico, pequenino povo que tinha a revelação dada por Deus a Moisés e aos Profetas, todas as nações da terra estavam imersas no paganismo, desconhecendo as verdades da fé. Mesmo depois da vinda de Jesus Cristo, quantos milhões de pessoas tem havido e ainda há, como por exemplo entre budistas, bramanistas, confucionistas, maometanos, índios selvagens etc. que sem culpa nenhuma sua, desconheceram ou ainda desconhecem a revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo! Podiam ou podem estes homens salvar-se?
   Sim, sem dúvida alguma, porque não é admissível que Deus os condenasse a todos irremediavelmente ao inferno, se eles não tinham culpa nenhuma em desconhecer a revelação cristã. Mas salvar-se como? Seguindo o que Cristo disse: Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus, XIX-17). E aqui perguntará o leitor:
  - Se os mandamentos foram revelados aos judeus por intermédio de Moisés, e as religiões pagãs não conheciam esta revelação, como podiam admitir este princípio: -  guarda os mandamentos, se queres salvar-te? Conheciam por acaso estes mandamentos?
   - Conheciam, sim; embora não tão perfeitamente como nós os conhecemos. Porque estes mandamentos, Deus os gravou no coração do homem. Honrarás pai e mãe, não matarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, não desejarás a mulher de teu próximo etc., são leis que se impõem a todos os homens pela voz imperiosa de sua consciência. Se a Religião tem por fim o aperfeiçoamento moral do homem e a sua união com Deus, esta união, este aperfeiçoamento não se realizam senão quando ele obedece à voz da consciência, que é a própria voz de Deus falando a sua alma, a seu coração. Só assim podia (ou pode ainda hoje) o pagão que nunca ouviu falar de Cristo, agradar a Deus e, agradando a Deus pelas suas obras, conseguir a salvação.
   - Mas, dirá o protestante, esta história da possibilidade de se salvarem os pagãos, pode-se provar pelas Escrituras?
   -  Perfeitamente. Abra-se a Epístola de S. Paulo aos Romanos. Lemos aí que Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras; com a VIDA ETERNA, por certo, aos que, perseverando em fazer OBRAS BOAS, buscam glória e honra e imortalidade; mas com ira e indignação aos que são de contenda e que não se rendem à verdade, mas que obedecem à injustiça. A tribulação e a angústia virá sobre toda a alma do homem que obra mal, ao judeu, primeiramente, e ao grego; mas A GLÓRIA E O HONRA E A PAZ será dada a todo o obrador do bem, ao judeu, primeiramente, e ao grego; porque não há para com Deus acepção de pessoas (Romanos II-6 a 11). O grego, a que se refere aí S. Paulo, em contraposição ao judeu, é o gentio, o pagão, o que não conhecia a lei de Moisés. Deus não tem acepção de pessoas: todo o que opera o bem recebe a vida eterna, seja judeu, seja gentio. Porque, como diz em continuação o Apóstolo São Paulo, se os judeus tinham uma lei escrita dada por Deus e os gentios não a tinham, o que interessa a Deus não é que SE OUÇA  a lei que foi dada por Ele, ma sim que SE PRATIQUE o que ordena esta mesma lei. E o gentio, cumprindo a lei que estava escrita no seu coração , se podia tornar também justificado diante de Deus. Vejamos as palavras do Apóstolo: Não são justos diante de Deus os que ouvem a lei; mas os QUE FAZEM O QUE MANDA A LEI SERÃO JUSTIFICADOS; porque, quando os gentios que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, esses tais, não tendo semelhante lei, a si mesmos servem de lei, os quais MOSTRAM A OBRA DA LEI ESCRITA NOS SEUS CORAÇÕES, dando testemunho a eles A SUA MESMA CONSCIÊNCIA (Romanos II- 13-15).

   -  Mas perguntará alguém: Não diz a Bíblia que sem a fé é impossível agradar a Deus? Como podiam esses pagãos agradar a Deus sem a fé?

   -  A dificuldade é muito fácil de resolver. Na mesma ocasião em que diz a Bíblia  -  ser impossível sem a fé agradar a Deus  - mostra imediatamente qual o programa mínimo de fé que é exigido desses que não cheguem a ter conhecimento da revelação divina; deles se exige apenas que creiam o seguinte: que existe um Deus e que este Deus recompensa os bons. Vejamos o texto: Sem a fé é impossível agradar a Deus; porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6). Se eles estavam ou estão, sem nenhuma culpa sua, na ignorância de muitas outras verdades da fé, Deus se contenta com este mínimo; crer na existência de um Deus Remunerador; é o bastante para se aproximarem de Deus.

   Portanto, se as religiões pagãs que existiram antes do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo ensinavam que seus adeptos podiam conseguir a recompensa divina mediante as suas obras, se as religiões pagãs ainda hoje existentes ensinam que os seus seguidores (que não têm suficiente conhecimento da doutrina de Jesus Cristo) se salvam pela maneira digna e correta de proceder, essas religiões podem ter lá os seus erros graves em matéria de doutrina, mas NESTE PONTO têm ensinado uma coisa certa, confirmada por São Paulo, quando afirmou que os gentios se salvam obedecendo à lei que está escrita em seus corações (Romanos II-15). O caminho do Céu para eles é este mesmo. Agora, se de fato foram muitos ou foram poucos os que procederam corretamente e obedeceram a esta lei, isto já é outra questão. O homem tem a sua liberdade; pode usar dela bem ou mal. Infelizmente a tendência desta nossa corrupta Humanidade é mais para usar mal do que para usar bem; porém tinha que haver para os pagãos, assim como para os cristãos (falamos, é claro, dos pagãos de boa fé) algum direito, alguma possibilidade de salvar-se. Do contrário Deus seria injusto, não seria bom para todos os homens que O temem. Bem-aventurados todos os que temem ao Senhor, os que andam nos seus caminhos ( Salmo 127, 1). E o pagão que não recebeu as luzes da revelação cristã, mas crê na existência de um Deus Justiceiro, embora erre, por ignorância invencível, sobre a própria natureza da Divindade, não tem outro meio para mostrar que teme o Senhor e que quer andar nos seus caminhos, senão obedecendo fielmente aso ditames da sua própria consciência. 

   

GRAÇA ATUAL E GRAÇA SANTIFICANTE SÃO NECESSÁRIAS



   Conforme o ensino da Igreja, o homem não pode, por suas próprias forças naturais, cumprir a lei de Deus, nem fazer nenhum ato meritório para a vida eterna; para a salvação, portanto, necessita continuamente do auxílio DE DEUS, ou seja, da GRAÇA ATUAL: Não que sejamos capazes, de nós mesmos, de ter algum pensamento, como de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus (2ª Coríntios III-5).
   Além disto, para salvar-se, precisa estar na GRAÇA SANTIFICANTE no momento de sua morte: é a veste nupcial, sem a qual ninguém pode ser admitido no banquete da bem-aventurança celeste. A graça santificante é quem nos faz filhos adotivos de Deus e, portanto, herdeiros da vida eterna; os que não estiverem na categoria de filhos não poderão herdá-la.

   Finalmente, para fazer qualquer ato merecedor de um prêmio na vida eterna, é preciso que o homem esteja na GRAÇA SANTIFICANTE. A alma que não possui este estado de graça é ramo que não está enxertado na divina videira que é Cristo; não pode produzir frutos para a eterna bem-aventurança (João XV-4 e 5). Isto é uma verdade tremenda, que encerra séria advertência para aqueles que, afastando-se dos sacramentos da Confissão e da Comunhão, (e aqui nos dirigimos especialmente aos católicos negligentes em aproveitar-se dos tesouros da divina misericórdia que a sua Religião lhes oferece), afastando-se dos sacramentos, ficam por longo tempo em estado de pecado mortal: além do perigo de se condenarem eternamente, em consequência de uma morte repentina, tão fácil de acontecer, perdem também todo o fruto de suas boas ações que nenhuma recompensa terão na eternidade. Podem estas boas ações feitas assim por um homem em estado de pecado mover o coração de Deus a lhe conceder mais depressa a graça do arrependimento ou a não lhe faltar com ela no momento mais crítico, mas são infrutuosas para o Céu.

"Que adianta o homem, disse Jesus Cristo, ganhar o mundo todo se vier a perder a sua alma, e que poderá o homem dar em troca de sua alma?

Caríssimos, rezemos sempre para que a nossa alma não venha sofrer detrimento pelas preocupações das coisas terrenas. Procuremos preservar as obras de Deus e delas usarmos tanto quanto nos levam para o céu. 













sexta-feira, 2 de setembro de 2016

GRAÇA ATUAL E GRAÇA SANTIFICANTE



   Segundo a doutrina católica, o homem, para salvar-se, precisa da graça atual e da graça santificante. Qual a diferença entre graça santificante e graça atual?
   Graça atual é o AUXÍLIO DE DEUS, pelo qual Ele ilumina a inteligência e ajuda a vontade do homem, para que este possa vencer as tentações ou praticar as virtudes necessárias para a conquista do Céu. Ela pode visitar o homem, como uma boa inspiração e ser rejeitada, como também ser aceita e produzir o seu bom efeito; neste último caso a tentação é vencida ou a virtude é praticada. É à GRAÇA ATUAL, que se refere São Paulo quando diz, falando a respeito do Espírito Santo: o Espírito AJUDA também a nossa fraqueza (Romanos VIII-26).

   Graça santificante é o ESTADO DA ALMA que, pelo fato de estar livre do pecado original e perdoada de todos os pecados mortais que porventura tenha cometido, é vista com agrado aos olhos de Deus. Com a graça santificante, o homem se torna um justo, filho adotivo de Deus, templo do Espírito Santo, herdeiro da vida eterna. Já não é Deus visitando-o, auxiliando-o, fortalecendo-o; é mais do que isto: é Deus habitando no seu coração. Assim São Paulo, falando ainda sobre o Espírito Santo, chama-o: Espírito que HABITA em vós (Romanos VIII-11). E Nosso Senhor disse no Evangelho: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará; e nós viremos a ele e faremos nele morada (João XIV-23).

   O homem que está neste feliz estado, pode perdê-lo, bastando, para isto, que cometa um pecado mortal; depois de perdido o estado de graça, pode ser recuperado e isto acontece quando lhe são perdoados os pecados mortais cometidos.

CONCÍLIO VATICANO I - CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA SOBRE A FÉ CATÓLICA

Capítulo III  -  A Fé

    Visto que o homem depende inteiramente de Deus como de seu Criador e Senhor, e que a razão criada está inteiramente sujeita à Verdade incriada, somos obrigados a prestar, pela fé, à revelação de Deus, plena adesão do intelecto e da vontade (cân. 1). Esta fé, porém, que é "o início da salvação humana", a Igreja a define como uma virtude sobrenatural pela qual, inspirados e ajudados pela graça, cremos ser verdade o que Deus revelou, não devido à verdade intrínseca das coisas, conhecida pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade do próprio Deus, autor da revelação, que não pode enganar-se nem enganar (cân. 2). Pois, segundo o testemunho do Apóstolo, a fé é o fundamento firme das coisas esperadas, uma prova das coisas que não se vêem" (Hebr. 11,1).
   Não obstante, para que a homenagem de nossa fé estivesse em conformidade com a razão (cf. Rom. 12, 1), quis Deus ajuntar ao auxilio interno do Espírito Santo os argumentos externos da sua revelação, isto é, os fatos divinos, e sobretudo os milagres e as profecias, que, por demonstrarem abundantemente a onipotência e a ciência infinita de Deus, são sinais certíssimos da revelação divina, acomodados que são à inteligência de todos (cân. 3 e 4). Foi por isso que Moisés, os profetas e principalmente o próprio Jesus Cristo fizeram muitos e manifestíssimos sinais e profecias; e dos Apóstolos lemos: Eles, porém, partiram e pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a sua palavra com os sinais que a acompanhavam (S. Marc. 16, 20). E em outro lugar se lê: E temos ainda mais firme a palavra dos profetas, à qual fazeis bem de atender, como a uma candeia que alumia em um lugar tenebroso (2 S. Ped. 1, 19).
   Embora, porém, a adesão da fé não seja de modo algum um movimento cego do espírito, ninguém, contudo, pode "crer na pregação evangélica", como se exige para conseguir a salvação, "sem a iluminação e a inspiração do Espírito Santo, que a todos faz encontrar doçura em consentir e crer na verdade" (Concílio II Arausicano). Pelo que, [já] a própria fé em si, embora não opere pela caridade (cf. Gál. 5, 6), é um dom de Deus, e o seu exercício é um ato salutar, pelo qual o homem presta livre obediência ao próprio Deus, prestando consentimento e cooperação à sua graça, à qual poderia resistir. (cân. 5).
   Deve-se, pois, crer com fé divina e católica tudo o que está contido na palavra divina escrita ou transmitida pela Tradição, bem como tudo o que a Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos propõe a crer como revelado por Deus.
   Como, porém, sem fé é impossível agradar a Deus (Heb. 11, 6) e chegar ao consórcio dos seus filhos, ninguém jamais pode ser justificado sem ela, nem conseguir a vida eterna se nela não permanecer até o fim (S. Mat. 10, 22; 24, 13). E para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé e nela perseverar constantemente, Deus instituiu por meio de seu Filho Unigênito a Igreja, e a muniu com os sinais manifestos da sua instituição, para que pudesse ser por todos reconhecida como guarda e mestra da palavra revelada.
   Porquanto somente à Igreja Católica pertencem todos os caracteres, tão numerosos e tão admiravelmente estabelecidos por Deus para tornar evidente a credibilidade da fé cristã. Além disso, a Igreja em si mesma, por sua admirável propagação, exímia santidade e inesgotável fecundidade em todos os bens,  pela sua unidade católica e invicta estabilidade, é um grave e perpétuo motivo de credibilidade, e um testemunho  irrefragável   da sua missão divina. Donde resulta que a mesma Igreja, como um estandarte que se ergue no meio das nações (Isaías, 11, 12), não só convida os incrédulos a entrarem no seu grêmio, mas também garente a seus filhos que a fé que professam se baseia em fundamento firmíssimo. E este testemunho acresce o auxílio eficaz da virtude do alto. Porquanto o benigníssimo Senhor excita e ajuda com a sua graça os que vagueiam no erro, a fim de poderem chegar ao conhecimento da verdade (1 Tim. 2, 4). E aos que chamou das trevas à luz maravilhosa (1 Ped. 2, 9), confirma-os com sua graça, para que permaneçam nesta mesma luz, não os abandonando senão quando primeiro abandonado por eles. Pelo que, de maneira alguma é igual a condição daqueles que, pelo dom celeste da fé, abraçaram a verdade católica, e dos que, levados por opiniões humanas, seguem uma religião falsa; pois os que receberam a fé sob o Magistério da Igreja, jamais poderão ter justa razão de alterar ou pôr em dúvida esta mesma fé (cân. 6). E por isso, dando graças a Deus Pai, que nos fez idóneos de participar da sorte dos santos na luz (Col. 1,12), não menosprezemos tão grande vantagem, mas, pondo os olhos em Jesus, autor e consumador da fé (Heb. 12, 2), conservemos firme a profissão da nossa esperança (Heb. 10, 23).
  

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

PROFISSÃO DE FÉ

Composta pelo Papa Paulo VI para o término do Ano da Fé (1968)
Extraída do ANEXO do livro "A TEMPO E CONTRATEMPO de autoria de Gustavo Corção, EDITORA  PERMANÊNCIA

     CREMOS em um só Deus, Pai, Filho e  Espírito Santo, Criador das coisas visíveis, como este mundo, onde se desenrola a nossa vida passageira; Criador das coisas invisíveis, como os puros espíritos que também são denominados Anjos (1); e Criador, em cada homem, da sua alma espiritual e imortal. 
   CREMOS que este Deus único é absolutamente uno na sua essência infinitamente santa, assim como em todas as suas perfeições, na sua onipotência, na sua ciência infinita, na sua providência e no amor. Ele é aquele que é, como Ele mesmo revelou a Moisés (2); Ele é amor, como no-lo ensinou o Apóstolo São João (3); de tal maneira que estes dois nomes, Ser e Amor, exprimem inefavelmente a mesma divina realidade d'Aquele que se quis dar a conhecer a nós e que, "habitando uma luz inacessível" (4), é, em si mesmo, acima de todo nome, de todas as coisas e de toda inteligência criada. Só Deus pode dar-nos o conhecimento exato e pleno de si mesmo, revelando-se como Pai, Filho e Espírito Santo, eterna Vida, de que nós somos chamados a participar, aqui na  terra, na obscuridade da fé, e, depois da morte, na Luz eterna. As relações mútuas que constituem eternamente as três Pessoas, que são, cada uma delas, o único e mesmo Ser divino, são a bem-aventurada vida íntima de Deus três vezes santo, infinitamente acima de tudo o que podemos conceber à maneira humana (5). Entretanto, rendemos graças à Bondade divina pelo fato de numerosíssimos crentes poderem dar testemunho conosco, diante dos homens, da Unidade de Deus, embora não conheçam o Mistério da Santíssima Trindade.
   CREMOS, portanto, no Pai que gerou eternamente o Filho; no Filho, Verbo de Deus, que é eternamente gerado; no Espírito Santo, Pessoa incriada, que procede do Pai e do Filho, como seu eterno Amor. Assim, nas três Pessoas divinas, "coaeternae sibi et coaequales" (6), superabundam e consumam-se, na superexcelência e glória próprias do Ser incriado, a vida e a felicidade de Deus perfeitamente uno, e sempre "deve ser venerada a Unidade na Trindade e a Trindade na Unidade" (7). 
Continua nas próximas postagens.

   Notas: 
   (1) Cfr. Dz-Sch. 3002. -   (2) Cfr. Ex. 3, 14.  -   (3) Cfr. I Jo. 4, 8.  -  (4) Cfr. I Tim. 6, 16.  -   (5) Cfr. Dz-Sch. 804.  -   (6) Cfr. Dz-Sch. 75.  -   (7) Cfr. Dz-Sch. 75.
   Obs.: "Coaeternae sibi et coaequales= igualmente eternas e iguais.        

PROFISSÃO DE FÉ (continuação)

CREMOS em Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Filho de Deus. Ele é o Verbo eterno, nascido do Pai antes de todos os séculos e consubstancial ao Pai, "homoousios to Patri" (8), e por Ele tudo foi feito. Ele encarnou por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem. Portanto, é igual ao Pai, segundo a divindade, e inferior ao Pai segundo a humanidade (9), e é uno, Ele próprio, não por uma impossível confusão de naturezas, mas pela unidade da pessoa. (10).
   Ele habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. Ele anunciou e instaurou o Reino de Deus e nos fez conhecer nele o Pai. Deu-nos o seu mandamento novo de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou. Ensinou-nos o caminho das Bem-aventuranças evangélicas: pobreza de espírito, mansidão, sofrimento suportado com paciência, sêde de justiça, misericórdia, pureza de coração. vontade de paz, perseguição suportada pela justiça. Padeceu sob Pôncio Pilatos, Cordeiro de Deus que carregou sobre si os pecados do mundo: morreu por nós na Cruz, salvando-nos com o seu sangue redentor. Foi sepultado e, por seu próprio poder, ressuscitou ao terceiro dia, elevando-nos por meio de sua Ressurreição à participação da vida divina, que é a vida da graça. Subiu ao céu e virá de novo, mas desta vez com glória, para julgar os vivos e os mortos: cada um segundo os seus méritos - os que corresponderam ao Amor e Misericórdia de Deus, indo para a vida eterna; os que os recusaram até ao fim, indo para o fogo que não se extinguirá jamais.
   E o seu Reino não terá fim. 

   CREMOS no Espírito Santo, que é Senhor e que dá a vida; que é adorado e glorificado com o Pai e com o Filho. Foi Ele que nos falou por meio dos profetas; Ele nos foi enviado por Jesus Cristo, depois da sua Ressurreição e da sua Ascensão ao Pai. Ele ilumina, vivifica, protege e conduz a Igreja; Ele purifica os seus membros, se estes não se furtam à ação da graça, que penetra no mais íntimo da alma, torna o homem capaz de responder ao apelo de Jesus: "sede perfeitos, como também o vosso Pai celestial é perfeito" (Mt. 5, 48). 

   NOTAS: (8) Dz-Sch. 150. -  (9) Cfr. Dz-Sch. 76  -   (10) Cfr. Ibid..  

   OBS.: 1ª- ( 8) "homoousios to Patri" é uma expressão em grego que significa: "consubstancial ao Pai".
             2ª- (10)   "impossível confusão de naturezas": aqui significa= impossível fusão das duas naturezas em uma só. Em outras palavras: dizemos que Jesus é UNO não porque as duas naturezas se tivessem fundido em uma só, mas porque é uma só pessoa: a Pessoa Divina do Filho de Deus. ( 10 ) Cfr. Dz-Sch. 76. No mistério da Santíssima Trindade, no entanto, devemos dizer que Deus é UNO porque é uma só natureza divina, mas três pessoas iguais e distintas. Daí, em Deus, adoramos a Unidade na Trindade, e a Trindade na Unidade. Deus é UNO quanto à Natureza; é TRINO quanto às Pessoas.

                . 

   

   

PROFISSÃO DE FÉ - (continuação)

   CREMOS que Maria é a Mãe sempre Virgem do Verbo Encarnado, nosso Deus e Salvador Jesus Cristo ( 11 ), e que, em razão desta eleição singular, ela foi, em consideração dos méritos de seu Filho, resgatada de maneira sublime ( 12 ), preservada de toda mancha do pecado original ( 13 ), repleta do dom da graça, mais do que todas as outras criaturas ( 14 ).
   Associada por um vínculo estreito e indissolúvel aos Mistérios da Encarnação e da Redenção ( 15 ), a Santíssima Virgem Maria, a Imaculada, foi, no termo de sua vida terrestre, elevada em corpo e alma à glória celeste ( 16 ) e configurada ao seu Filho ressuscitado, antecipando a sorte futura de todos os justos. Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, Nova Eva, Mãe da Igreja ( 17 ), continua no céu a desempenhar o seu papel materno, em relação aos membros de Cristo, cooperando para o nascimento e desenvolvimento da vida divina nas almas dos resgatados ( 18 ).

   CREMOS que em Adão todos pecaram: isto significa que a falta original, cometida por ele, fez com que a natureza humana, comum a todos os homens, caísse num estado em que arrasta as consequências desta falta e que não é aquele em que ela se encontrava antes, nos nossos primeiros pais, constituídos em santidade e justiça, e em que o homem não conhecia o mal nem a morte. É a natureza humana assim decaída, despojada da graça que a revestia, ferida nas suas próprias forças naturais e submetida ao domínio da morte, que é transmitida a todos os homens, e neste sentido é que cada homem nasce em pecado. Professamos, pois, com o Concílio de Trento, que o pecado original é transmitido com a natureza humana, "não por imitação mas por propagação" e que, portanto, ele é "próprio de cada um" ( 19 ).

   CREMOS que Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo sacrifício da Cruz, nos resgatou do pecado original e de todos os pecados pessoais, cometidos por cada um de nós, de modo que, segundo a frase do Apóstolo: "onde abundou o pecado, aí também superabundou a graça" ( 20 ).

   CREMOS num só Batismo, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para a remissão dos pecados. O Batismo deve ser administrado mesmo às criancinhas que não foram ainda capazes de cometer algum pecado pessoal, a fim de que, tendo nascido privadas da graça sobrenatural, renasçam "da água e do Espírito Santo" para a vida divina em Jesus Cristo ( 21 ).

   NOTAS: ( 11 )  Cfr. Dz-Sch . 251-252.  - ( 12 ) Cfr. Lumen Gentium 53.  -  ( 13 ) Cfr. Dz-Sch. 2803.  - ( 14 ) Cfr. Lumen Gentium 53.  - ( 15 ) Cfr. Lumen Gentium  53, 58, 61.  - ( 16 ) Cfr. Dz-Sch. 3903.  - ( 17 ) Cfr. Lumen Gentium 53, 56, 63; Paulo VI Aloc. no encerramento da III Sessão do Concílio Vat, II: AAS  LVI (1964) p. 1016; Exhort.Apost. Signum Magnum, Introd.. -  - ( 18 ) Cfr. Lumen Gentium 62; Paulo VI, Exhort. Apost. Signum Magnum, p. 1, n. 1.  - ( 19 ) Cfr. Dz-Sch. 1513.  - ( 20 ) Rom. 5, 20.   - ( 21 ) Cfr. Dz-Sch. 1514. 

PROFISSÃO DE FÉ - (CONTINUAÇÃO)

   CREMOS na Igreja una, santa, católica e apostólica, edificada por Jesus Cristo sobre esta pedra que é Pedro. Ela é o corpo Místico de Cristo, sociedade visível instituída com órgãos hierárquicos e comunidade espiritual simultaneamente; Igreja terrestre, Povo de Deus em peregrinação aqui na terra e Igreja cumulada  de bens celestes; germe e primícias do Reino de Deus, por meio da qual continuam, ao longo da história humana, a obra e as dores da Redenção; e que aspira pela sua realização completa, para além do tempo, na glória ( 22 ). No decurso do tempo, o Senhor Jesus edifica a sua Igreja pelos sacramentos que emanam da sua Plenitude ( 23 ). Por eles é que a Igreja faz com que os seus membros participem no mistério da Morte e da Ressurreição de Cristo, na graça do Espírito Santo que lhe dá vida e ação ( 24 ). Ela é, portanto, santa, não obstante compreender no seu seio pecadores, porque não possui em si outra vida senão a da graça: vivendo da sua vida é que  os seus membros se santificam; e é subtraindo-se à sua vida que eles caem em pecado e nas desordens que ofuscam o brilho da sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por estas faltas, tendo o poder de curar delas os seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo. 
   Herdeira das promessas divinas e filha de Abraão segundo o Espírito, por aquele Israel de que ela conserva com amor as Escrituras e do qual ela venera os Patriarcas e os Profetas; fundada sobre os Apóstolos e transmitindo de geração em geração a sua palavra sempre viva e os seus poderes de Pastores no Sucessor de Pedro e nos Bispos em comunhão com ele; perpetuamente assistida pelo Espírito Santo, ela tem encargo de conservar, ensinar, explicar e difundir a Verdade que Deus revelou, de maneira ainda velada pelos Profetas e plenamente pelo Senhor Jesus. Cremos em tudo o que está contido na palavra de Deus, escrita ou transmitida, e que a Igreja nos propõe para acreditarmos como divinamente revelado, seja por afirmação solene, seja pelo magistério ordinário e universal ( 25 ). Cremos na infalibilidade de que goza o Sucessor de Pedro, quando ensina "ex cathedra", como Pastor e Doutor de todos os fiéis ( 26 ), e que o Colégio dos Bispos possui também, quando com ele exerce o magistério supremo ( 27 ). 
   CREMOS que a Igreja fundada por Jesus Cristo e pela qual Ele orou, é indefectivelmente una, na fé, no culto e no vínculo da comunhão hierárquica. No seio desta Igreja, a rica variedade dos ritos litúrgicos e a diversidade legítima dos patrimônios teológicos e espirituais e das disciplinas particulares, longe de prejudicarem a sua unidade, manifestam-na grandemente.
   Reconhecendo também a existência, fora do organismo da Igreja de Cristo, de numerosos elementos de verdade e de santificação, que lhe pertencem como coisa própria e tendem à unidade católica ( 29 ), e, crendo na ação do Espírito Santo, que suscita no coração dos discípulos de Cristo o amor por esta unidade ( 30 ), temos a esperança de que os cristãos, que não estão ainda em plena comunhão com a única Igreja, se reunirão um dia num só Rebanho e com um único Pastor.
   CREMOS que a Igreja é necessária para a salvação, pois Cristo, que é o único Mediador e Caminho de salvação, torna-se presente para nós no seu Corpo, que é a Igreja ( 31 ). Mas o desígnio divino da salvação estende-se a todos os homens; e aqueles que, sem culpa de sua parte, ignoram o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, mas sinceramente procuram a Deus, e, sob o influxo da graça, se esforçam por cumprir a sua vontade, reconhecida nos ditames da própria consciência, num número que só o mesmo Deus conhece, podem obter a salvação ( 32 ). 

NOTAS: ( 22 ) Cfr. Lumen Gentium, 8 e 5.  -  ( 23 ) Cfr. Lumen Gentium, 7, 11.  -  ( 24 ) Cfr. Sacrosanctum Concilium, 5, 6 Lumen Gentium 7, 12, 50.  -  ( 25 ) Cfr. Dz-Sch. 3011.  - ( 26 ) Cfr. Dz-Sch. 3074.  -  ( 27 ) Cfr. Lumen Gentium, 25.  -  ( 28 ) Cfr. Lumen Gentium 23; Orientalium Ecclesiarum, 2, 3, 5, 6.  -   ( 29 ) Cfr. Lumen Gentium, 8.   -  ( 30 ) Cfr. Lumen Gentium 15.  -  ( 31 ) Cfr. Lumen Gentium 14.  -  ( 32 ) Cfr. Lumen Gentium 16. 

PROFISSÃO DE FÉ - (continuação)

CREMOS que a Missa, celebrada pelo sacerdote, que representa a pessoa de Cristo, em virtude do poder recebido pelo sacramento da Ordem e oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do seu corpo Místico, é o sacrifício do Calvário, tornado sacramentalmente presente sobre os nossos altares. Cremos que, como o pão e o vinho consagrados pelo Senhor, na Última Ceia, foram mudados no seu Corpo e no seu Sangue, que iam ser oferecidos por nós na Cruz, assim também o pão e o vinho consagrados pelo sacerdote se mudam no Corpo e no Sangue de Cristo glorioso que está no céu; e cremos que a misteriosa presença do Senhor naquilo que continua a aparecer aos nossos sentidos do mesmo modo que antes, é uma presença verdadeira, real e substancial ( 33 ). 
   Cristo não pode estar assim presente neste Sacramento senão pela mudança no seu Corpo da realidade mesma do pão e pela mudança no seu Sangue da realidade mesma do vinho, permanecendo apenas inalteradas as propriedades do pão e do vinho, que os nossos sentidos percebem. Esta mudança misteriosa é denominada pela Igreja, de modo muito apropriado, "transubstanciação". Toda explicação teológica que procura alguma compreensão deste mistério deve, para estar de acordo com a fé católica, admitir que na própria realidade, independentemente do nosso espírito, o pão e o vinho cessaram de existir depois da consagração, de tal modo que estão realmente diante de nós o Corpo e o Sangue adoráveis do Senhor Jesus, sob as espécies sacramentais do pão e do vinho ( 34 ), conforme Ele assim o quis, para se dar a nós em forma de alimento e para nos associar à unidade do seu Corpo Místico ( 35 ).
   A única e indivisível existência do Senhor glorioso que está no céu não é multiplicada, mas torna-se presente pelo Sacramento, em todos os lugares da terra onde a Missa  é celebrada. E permanece presente, depois do sacrifício, no Santíssimo Sacramento, que está no Sacrário, coração vivo de cada uma das nossas igrejas. E é para nós dulcíssimo dever honrar e adorar, na sagrada Hóstia, que os nossos olhos vêem, o Verbo Encarnado, que eles não podem ver e que, sem deixar o céu, se tornou presente no meio de nós.

   NOTAS: ( 33 ) Cfr. Dz-Sch. 16, 51.  -  ( 34 ) Cfr. Dz-Sch. 1642, 1651-1654; Paulo VI, Enc. Mysterium Fidei.  ( 35 ) Cfr. Santo Tomás, III, 73, 3. 

PROFISSÃO DE FÉ - (continuação e término)

   CONFESSAMOS que o Reino de Deus, começado aqui na terra na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja imagem passa; que o seu crescimento próprio não pode ser confundido com o progresso da civilização e da ciência, ou da técnica humanas; mas consiste em conhecer sempre mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar sempre mais ardentemente os bens eternos, em responder sempre mais decididamente ao Amor de Deus, e em distribuir sempre mais largamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo Amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o verdadeiro bem temporal dos homens. Não cessando de recordar aos seus filhos que eles não possuem aqui na terra morada permanente, insistentemente os incita a contribuírem, cada um segundo a sua vocação e os seus meios, para o bem da cidade terrestre, a promoverem a justiça, a paz e a fraternidade entre os homens e a proporcionarem a ajuda aos seus irmãos, principalmente aos mais pobres e aos mais infelizes. A grande solicitude da Igreja, Esposa de Cristo, pelas necessidades dos homens, pelas suas alegrias e esperanças, pelas suas penas e esforços., não é senão a expressão do seu ardente desejo de lhes dar a sua presença para iluminá-los com a luz de Cristo e reuni-los todos n'Ele, seu único Salvador. Tal solicitude não significa absolutamente que a Igreja se conforme com as realidades deste mundo, ou que perca o ardor da expectativa do seu Senhor e do Reino eterno.

   CREMOS na vida eterna. Cremos que as almas de todos os que morrem na graça de Cristo, quer se devam ainda purificar no Purgatório, quer sejam recebidas por Jesus no Paraíso, no mesmo instante em que deixam os seus corpos, como sucedeu com o Bom Ladrão, formam o Povo de Deus, para além da morte, a qual será definitivamente vencida no dia da Ressurreição, em que estas almas se reunirão aos seus corpos.

   CREMOS que a multidão das almas que já estão reunidas ao redor de Jesus e de Maria, no Paraíso, formam a Igreja do céu, onde, na eternidade feliz, vêem a Deus como Ele é ( 36 ), e onde são também, em graus diversos, associados aos santos Anjos no governo divino exercido por Cristo glorioso, intercedendo por nós e ajudando a nossa fraqueza com a sua solicitude fraterna ( 37 ).

   CREMOS  na comunhão de todos os fiéis de Cristo: dos que ainda peregrinam sobre a terra, dos defuntos que ainda estão em purificação e dos bem-aventurados do céu, formando todos juntos uma só Igreja. E cremos que nesta comunhão o amor misericordioso de Deus e dos seus santos está sempre pronto para ouvir as nossas orações, como Jesus nos disse: "Pedi e recebereis" ( 38 ). Assim, com fé e com esperança, nós aguardamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. 

   Bendito seja Deus, três vezes Santo. Amém.


   Vaticano, Basílica de S. Pedro, 30 de Junho de 1968.
                                                                   
                               PAULUS PP. VI

   NOTAS: ( 36) Cfr. I Jo. 3, 2; Dz-Sch. 1000.  -  ( 37 ) Cfr. Lumen Gentium 49.  -  ( 38 ) Cfr. Lc. 10, 9-10; Jo. 16, 24.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AS PALAVRAS DA CONSAGRAÇÃO NA MISSA

 Tenho recebido por e-emails algumas perguntas sobre as palavras da Consagração na Missa, ou seja qual seria a forma? Quais as palavras essenciais? E questões sobre o "pro multis", traduzido na Missa Nova "por todos". 
 Neste post trataremos das palavras que constituem a "Forma". 

 Primeira Consagração, isto é, a do pão:
 As palavras da Consagração do pão são transcritas literalmente dos Evangelhos sinópticos (São Mateus, São Marcos e São Lucas).São somente as palavras essenciais. São João não fala da instituição da Eucaristia; fala, porém, da promessa da Eucaristia no capítulo VI.
Cotejemos os textos bíblicos:
São Mateus, XXVI, 26: "Accipite et comedite: Hoc est corpus meum". "Tomai e comei: Isto é o meu corpo".
São Marcos, XIV, 22: "Sumite, hoc est corpus meum", "Tomai, isto é o meu corpo".
São Lucas, XXII, 19: "Hoc est corpus meum, quod pro vobis datur", "Isto é o meu corpo, que é dado por vós". 
São Paulo, 1ª Coríntios, XI, 24: "Accipite et manducate: hoc est corpus meum, quod pro vobis tradetur", "Tomai e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós".

  Vemos que a Santa Igreja tomou destes autores sagrados para a forma da consagração do pão apenas as palavras essenciais: "Hoc est (enim) corpus meum". Só acrescentou a partícula "enim". As palavra de São Paulo: "Accipite et manducate" vêm antes das palavras propriamente da Consagração do pão. As palavras de São Lucas: "quod pro vobis datur"; e as de São Paulo: "quod pro vobis tradetur" simplesmente são omitidas.
Apenas devemos observar que foi acrescentada a conjunção "enim" (=pois) que serve para situar a fórmula consecratória dentro do relato da Ceia. Na verdade, como vimos, tal conjunção não se encontra no Evangelho. Mas São Mateus a emprega na consagração do vinho. Foi, certamente, por analogia que ela passou também para a consagração do pão. Mas, desde já, fique claro que esta conjunção não faz parte das palavras essenciais da Consagração. Isto significa que, se não for pronunciada, isto não invalida a Consagração. 

Segunda Consagração, isto é, a do vinho:
A fórmula da consagração do vinho é uma combinação dos textos bíblicos relativos à Última Ceia e não corresponde literalmente a nenhum deles tomado separadamente. Cotejemos os três Evangelhos: 
   
São Mateus, XXVI, 28: "Hic est enim sanguis meus novi testamenti, qui  pro multis effundetur in remissionem peccatorum". "Isto é, pois, o meu sangue da nova aliança, que será derramado por muitos, para remissão dos pecados".

São Marcos, XIV, 24: "Hic est sanguis meus novi testamenti, qui pro multis effundetur". "Isto é o meu sangue da nova aliança, que será derramado por muitos". 

São Lucas, XXII, 20: "Hic est calix novum testamentum in sanguine meo, qui pro vobis fundetur". "Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que será derramado por vós".

Observação: "Pro multis" é traduzido - "por muitos", "em prol de muitos", "em benefício de muitos". "Testamentum" pode ser traduzido por Testamento ou por Aliança, pois, são sinônimos. 
   

São Paulo na sua 1ª Epístola aos Coríntios XI, 23-25 diz: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei a vós, que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, dando graças, o partiu e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Igualmente também, depois de ter ceado, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto em memória de mim todas as vezes que o beberdes". 
   Vemos que, no que se refere às palavras essenciais da consagração do vinho, São Paulo coincide com o texto de São Lucas quase que literalmente: "Hic calix novum testamentum est in meo sanguine" "Este cálice é a nova aliança em meu sangue". São Paulo, como podemos notar, não traz as palavras referidas por São Lucas: "qui pro vobis fundetur", "que será derramado por vós". 

Isto posto, comparemos agora a fórmula litúrgica (é claro, da Santa Missa de Sempre):

     "Hic est enim calix sanguinis mei novi et aeterni testamenti: mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum".
       
       Em Português: "Este é, pois, o cálice do meu sangue, da nova e eterna aliança: mistério de fé: que será derramado em prol de vós e em prol de muitos em remissão dos pecados". 

Vê-se claramente que a Santa Madre Igreja preferiu o texto de São Lucas e São Paulo, combinando-o com o de São Mateus e São Marcos. Além disso, fez dois acréscimos:
         a) O adjetivo eterno: "cálice do meu sangue, do novo e eterno Testamento";
         b) A expressão mistério da fé. 
 Agora limito-me a observar que estes dois acréscimos não alteram a forma do sacramento. 
Foi intencionalmente que a Igreja preferiu o texto de São Lucas e São Paulo. De fato, é só nestes dois autores sagrados que aparece a palavra cálice, e ela tem uma significação técnica, pois Nosso Senhor Jesus Cristo, duas vezes pelo menos, a empregou para indicar o Sacrifício da Cruz:
     "Podeis beber o cálice que eu hei de beber?" (São Marcos, X, 38).
     "Pai, se for possível, passe de mim este cálice" (São Mateus, XXVI, 39). 
  O Catecismo Romano também assim explica: "Quando, pois, se diz: 'Este é o Cálice do Meu Sangue' - cumpre entender: 'Este é o Meu Sangue, que se contém neste cálice'. Como aqui se consagra sangue, para ser bebida, é oportuno e acertado fazer-se menção do cálice. Sangue como tal não lembraria bastante a ideia de bebida, se não estivesse colocado num recipiente". 

  Por último, observemos que a Igreja ainda acrescentou ao "em benefício de vós", de São Lucas, o "Em benefício de muitos" de São Mateus e São Marcos.

  CONCLUINDO, podemos agora reproduzir a fórmula da Consagração do vinho, destacando o que pertence a cada autor sagrado. Vou dar em latim, visto como a tradução de todas as partes já está acima:

  "Hic est enim (São Mateus) calix (São Lucas e São Paulo) sanguinis mei (São Mateus e São Marcos)novi (São Mateus e São Marcos) et aeterni (a Igreja) testamenti (São Mateus e São Marcos): mysterium fidei (a Igreja): qui pro vobis ( São Lucas ) et pro multis (São Mateus e São Marcos) effundetur (São Mateus e São Marcos) in remissionem peccatorum" (São Mateus).


VERDADEIRA ARGUMENTAÇÃO DE SÃO PAULO



   A interpretação protestante que quer ver neste texto - o homem é justificado pela fé sem as obras da lei - uma prova de que as nossas obras, a observância dos mandamentos não contribuem para a justificação do homem, está completamente em desacordo com a argumentação apresentada por São Paulo. São Paulo apresenta a fé em Cristo, a Religião de Cristo, como remédio contra o pecado. Para prová-lo, deplora aqueles crimes cometidos pelos pagãos, principalmente a idolatria que é contra o 1º mandamento, os pecados de impureza que são contra o 6º, os homicídios que são contra o 5º, a desobediência aos pais que é contra o 4º São Paulo, o que mais deplora nos judeus é a falta de obediência ao 7º, ao 6º e ao 1º mandamento: Tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, e cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras (Romanos II-21 e 22). E se destes crimes cometidos pelos gentios e pelos judeus, tira a conclusão de que eles não estão justificados diante de Deus, o que se segue daí é que a observância dos 10 mandamentos é necessária para a justificação do homem. Se ele apresenta, portanto, a fé em Cristo como realizadora da justificação do homem, é claro que não está dispensando o homem de observar estes mandamentos para viver como um justo diante de Deus; está mostrando a fé em Cristo como o caminho para melhor observá-los. O remédio para a depravação não seria de forma alguma Deus desobrigar o homem da prática dos 10 mandamentos; isto seria levá-lo a uma depravação ainda maior, a saber: antigamente se fazia o mal, desobedecendo a Deus; agora se faria o mal, sem medo algum de desagradar-lhe, porque Ele, dando-se por vencido, teria desistido de exigir do homem a prática do bem, exigindo somente a fé, e não mais a observância do Decálogo, como meio para obter-se a salvação. Não seria um remédio para o pecado; seria piorar horrivelmente a situação moral do mundo.

   A fé em Cristo é o remédio para o pecado, porque, embora Cristo exija a observância dos 10 mandamentos com maior perfeição do que antigamente (Sede vós, logo, perfeitos, como também vosso Pai Celestial é perfeito - Mateus V, 48), Ele nos orienta admiravelmente para a verdadeira santificação, ensinando-nos a não confiar nas nossas próprias forças e a implorar continuamente o auxílio da sua graça (Sem mim não podeis fazer nada - João XV-5); Ele, cheio de graça, de cuja plenitude todos nós recebemos, nos veio distribuir esta vida da graça mais abundantemente: Eu vim para elas terem vida, a para a terem em maior abundância (João X-10).

   É neste sentido que o homem é justificado, que a Humanidade toma o caminho da justiça, da santificação, pela fé em Cristo e sem as obras da lei, isto é, sem mais obrigação daquelas cerimônias e prescrições do Antigo Testamento, que serviram apenas de preparação para a justiça cristã que nos foi trazida pelo Evangelho.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

UM PARÊNTESIS PARA ENTENDER ARGUMENTAÇÃO DE S. PAULO



   Para bem entendermos a argumentação de São Paulo, precisamos fazer um confronto entre o pensamento paulino e a mentalidade dos judeus. Estes estavam muito envaidecidos, julgando-se superiores aos gentios por causa da LEI, que lhes fora dada por Deus e também muito confiados em suas próprias forças para a prática da virtude. Mas não sabiam estes judeus de uma coisa muito importante: é que a lei nada adianta como remédio do pecado, se Deus não der a sua graça, sem a qual não é possível observá-la. A lei é na verdade, santa; e o mandamento é santo, e justo, e bom (Romanos VII-12), porque é a expressão da vontade de Deus. Mas a lei, por si só, não resolve o problema do homem, porque o que a lei nos traz é o conhecimento do que é pecado e do que não é: Pela lei é que vem o conhecimento do pecado (Romanos III-20); se a lei que foi dada pudesse VIVIFICAR,  a justiça, na verdade, seria pela lei (Gálatas III-21). O problema do homem não é somente saber o que é pecado e o que não é, o seu maior problema é este: quem o vivificará na luta contra o mal? quem lhe dará  forças para viver santamente, para evitar o pecado? Quem lhe dá forças para isto é a graça de Deus. A lei é espiritual, mas eu sou carnal (Romanos VII-14). Eu me deleito na lei de Deus, segundo o homem interior; mas sinto nos meus membros outra lei que repugna à lei do meu espírito e que me faz cativo na lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz homem eu, quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor (Romanos VII-22 a 25).

   A graça de Deus, tinham-na os judeus e os gentios e tinham suficiente para a salvação, pois Deus quer que todos os homens se salvem (1ª Timóteo II-4). E não sabiam eles que esta graça que Deus lhes concedia era graça de Cristo (veja-se Atos XV-10 e 11), que Deus lhes dava por antecipação, em virtude dos futuros merecimentos do Salvador.

   Mas, apesar de ter sido oferecida a todos esta graça, apesar de terem podido, com o auxílio desta graça, os gentios observar a lei natural, e os judeus, a lei mosaica; na realidade estiveram muitíssimo longe de observá-las como deviam. E a conclusão natural disto é que sejam substituídas a lei natural e a lei mosaica, que pela ingratidão e malícia dos homens vieram a dar num grande fracasso, sejam substituídas pela fé em Cristo, pela Religião de Cristo, que nos vem trazer a graça em muito maior abundância: Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Romanos V-20). De forma que, segundo os desígnios altíssimos de Deus, a lei mosaica serviu para mostrar aos homens a necessidade imensa em que o mundo se achava de receber a Cristo, a sua doutrina e a sua graça. E é neste sentido que diz São Paulo: A lei nos serviu de PEDAGOGO que nos conduziu a Cristo, para sermos justificados pela fé. Mas depois que veio a fé, já não estamos debaixo do pedagogo (Gálatas III-24 e 25). 

REATANDO O FIO DA ARGUMENTAÇÃO



   Fechando o parêntesis, voltamos à argumentação feita nos 3 primeiros capítulos da Epístola aos Romanos. São Paulo quer demonstrar como não é mais suficiente nem a lei natural, nem a lei mosaica, uma vez que tanto sob o regime de uma como de outra, os homens pecaram da maneira mais desastrosa. Já mostrou, no 1º capítulo, como os gentios, que estavam sob a lei natural, caíram nos mais abomináveis pecados. 

   No capítulo 2º chega a vez dos judeus. Estão eles muito orgulhosos de sua lei, falando com bastante desprezo a respeito dos gentios que são pecadores, e no entanto, são eles, judeus, pecadores da mesma forma: Assim diz o 1º versículo: És inescusável tu, ó homem qualquer que julgas; porque no mesmo em julgas a outro, a ti mesmo te condenas, porque fazes essas mesmas coisas que julgas (Romanos II-1).

   São Paulo se baseia neste princípio de que, seja qual for a lei sob a qual o homem se encontre, ou lei natural, ou lei mosaica, ou lei de Cristo, o que é fato é que não são justos diante de Deus aqueles que ouvem a lei, ou que leem as palavras da lei, mas os que cumprem o que a lei manda: Não são justos diante de Deus os que ouvem a lei mas os que fazem o que manda a lei, serão justificados (Romanos II-113), porque Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras (Romanos II-6) e não há para com Deus acepção de pessoas (Romanos II-11). Basta este princípio estabelecido por São Paulo para nos mostrar que erram os protestantes atribuindo ao Apóstolo a doutrina de que o homem se justifica pela fé somente.

   Estabelecido o princípio de que são justos os que cumprem a lei, não os que a ouvem, São Paulo tira a conclusão de que os judeus já não são justos, nem agradáveis a Deus, estão fora do caminho da salvação. Ele fala ao judeu de seu tempo: Se tu que tens o sobrenome de judeu e repousas sobra a lei, e te glorias em Deus, e sabes a sua vontade, e distingues o que é mais proveitoso, instruído pela lei, tu mesmo que presumes ser o guia dos cegos, o farol daqueles que estão em trevas, o doutor dos ignorantes, o mestre das crianças, que tens a regra da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que a outro ensinas, não te ensinas a ti mesmo; tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, o cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras; tu que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei (Romanos II-17 a 224). 


   Depois de mostrar o fracasso de ambos os lados, da parte dos gentios e dos judeus, depois de resolver uma objeção sobre as vantagens da circuncisão até aquele tempo, São Paulo vai enfeixar, no capítulo 3º, o seu argumento: Já que temos provado que judeus e gentios estão todos debaixo do pecado, assim como está escrito: Não há, pois, nenhum justo; não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis, não há quem faça bem, nem sequer um. A garganta deles é um sepulcro aberto; com as suas línguas fabricaram enganos; um veneno de áspides se encobre debaixo dos lábios deles, cuja boca está cheia de maldição e de amargura; os pés deles são velozes para derramar sangue. A dor e a infelicidade se acha nos caminhos deles, e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante dos olhos deles (Romanos III-9 a 18).

   Alguns protestantes de hoje ainda não compreendem este texto, porque se mostram apegados ao erro de Lutero, o qual aí enxergava a prova de que a natureza do homem está depravada completamente pelo pecado, de tal modo que não possa haver nenhum homem justo. Aí não se diz que não pode haver justos na terra, mas sim que o mundo tinha degenerado de tal forma, que os justos praticamente haviam desaparecido, nos tempos que antecederam a vinda de Cristo. Não há nenhum - explica Santo Tomás que é um modo de falar por hipérbole, figura pela qual se procura exagerar para encarecer. Desta figura usamos frequentemente dizendo - não vejo nada - quando o que vemos é muito pouca coisa. Uma hipérbole usou São João quando disse: Muitas outras coisas, porém, há ainda que fez Jesus; as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que NEM NO MUNDO TODO PODERIAM CABER os livros que delas se houvessem de escrever (João XXI-25) e os judeus, quando disseram a respeito de Jesus: eis aí vai após ele todo o mundo (João XII-19); todo o mundo, isto é, muita gente. 

   Que podem existir justos na terra, que havia um ou outro naquele tempo, isto se mostra em outros textos da Escritura: E José, seu esposo, como era JUSTO... (Mateus I-19). Para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre JUSTOS e injustos (Mateus V-45). Eu não vim a chamar os JUSTOS, mas os pecadores (Mateus IX-13). O que recebe um JUSTO na qualidade de justo receberá a recompensa de justo (Mateus X-41). Herodes temia a João, sabendo que ele era varão JUSTO e santo (Marcos VI-20). Haverá maior júbilo no céu sobre um pecador que fizer penitência que sobre noventa e nove JUSTOS que não hão de mister penitência (Lucas XV-7). Havia, então em Jerusalém um homem chamado Simeão; e este home JUSTO e timorato esperava a consolação de Israel (Lucas II-25). O centurião Cornélio, homem JUSTO e temente a Deus... (Atos X-22).

   O caso de Cornélio é típico: era um gentio, não era circuncidado, nem observava a lei de Moisés, ainda não conhecia a Religião de Cristo e já é chamado justo. O que mostra que São Paulo fala de um modo geral. Em regra geral os gentios e os judeus, ou seja, todos os homens, não eram justos diante de Deus, mas esta regra geral tinha exceções. No meio da depravação geral, alguns cooperavam com a graça de Deus e a Ele eram agradáveis.