quinta-feira, 30 de junho de 2016

SALVAÇÃO: Impossível concordar com Lutero


O QUE É CRER

    A CONCEPÇÃO DE LUTERO. 

   Quem não sabe o que é CRER? Quem não entende o que quer dizer crer em Cristo? É aceitar como verdadeiro, abraçar e professar tudo o que Cristo ensinou; qualquer criança sabe disto. Que necessidade há de fazermos uma longa dissertação sobre este assunto?

   Sim; não haveria necessidade, se Lutero e os protestantes não houvessem confusamente adulterado esta noção. Lutero, como sabemos, quis ir buscar nas Escrituras a certeza absoluta de que estava salvo folgadamente, sem ter que continuar naquela luta tremenda contra as tentações. Gostou muito daqueles textos em que se diz que quem crê em Cristo se salva. Mas, se fosse tomar a palavra CRER no sentido de convencer-se de todas as palavras de Jesus, isto iria dar novamente num ponto que ele não queria, porque Cristo se mostrou não só um Salvador, mas também um Legislador. Daí a alteração que faz no sentido da palavra CRER: crer em Cristo é crer que eu estou salvo, certamente salvo, e salvo por Cristo; é, portanto, confiar em Cristo, como em meu Salvador. 

   Todo o mundo percebe logo a adulteração que se está fazendo aí da noção de fé. 

   Que Cristo é meu Salvador é de fé, está na Bíblia. Mas a mesma Bíblia nos mostra que uns se salvam, outros se condenam, o que não impede que Cristo seja o Salvador de TODOS, é sinal apenas de que muitos não se sabem aproveitar da salvação que a todos é oferecida por Cristo. E irão estes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna (Mateus XXV-46). Que uns se salvam, outros se condenam é de fé; que eu, Martinho Lutero; que eu Lúcio Navarro; que eu, Fulano de tal, me salvo com toda certeza, isto não é objeto de FÉ, porque não foi revelado. Não é o fato de sugestionar-me a mim mesmo de que estou salvo que me dá a salvação, pois o que a Bíblia nos diz é que Cristo é o autor da salvação eterna para TODOS OS QUE LHE OBEDECEM (Hebreus V-9). Posso ter esperança firme de salvar-me. Mas aí já se trata de outra virtude diferente: a virtude da esperança. E é a própria Bíblia quem no-las apresenta como virtudes diversas: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas TRÊS,  virtudes; porém a maior delas é a caridade (1ª Coríntios XIII-13). Sejamos sóbrios, estando vestidos da couraça da FÉ e da CARIDADE  e tendo por elmo  A ESPERANÇA DA SALVAÇÃO (1ª Tessalonicenses V-8). Sois fiéis em Deus, o qual O ressuscitou dos mortos e Lhe deu glória, para que a vossa FÉ e a vossa ESPERANÇA fosse em Deus, fazendo puras as vossas almas na obediência da CARIDADE (1ª Pedro I-21 e 22). 
   

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O QUE DIZ A BÍBLIA SOBRE A HOMOSSEXUALIDADE?

ANTIGO TESTAMENTO
   Gêneses, XIII, 13: "Os homens de Sodoma eram péssimos, e grandes pecadores diante de Deus"...
   Gêneses, XIX, 4-7: "Os homens da cidade, desde os moços até os velhos, e todo o povo junto cercaram a casa. E chamaram por Lot, e disseram-lhe: Onde estão aqueles homens que entraram em tua casa ao cair da noite? Faze-os sair para que abusemos deles. Saíu Lot, fechando nas costas a porta e disse-lhes: Não queirais, vos rogo, meus irmãos, não queirais fazer este mal".
   Gêneses, XIX, 24 e 25: "Fez, pois, o Senhor da parte do Senhor chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu; e destruíu estas cidades, e todo o país em roda, todos os habitantes das cidades, e toda verdura da terra". 
   Levítico, XX, 13: "Aquele que pecar com um homem, como se ele fosse uma mulher, ambos cometeram uma coisa execranda"...
   Deuteronômio, XXIX, 22 a 24: "E dirá a geração vindoura, os filhos que nascerem depois de vós, os estrangeiros que vierem de longe, ao verem as pragas desta terra e as doenças, com que o Senhor a tiver afligido, abrasando-a com enxofre e ardor de sal, de modo que se não semeie jamais, nem se crie nela verdura, à semelhança da destruição de Sodoma e Gomorra, de Adama e Seboim, que o Senhor destruiu na sua ira e furor; e dirão todas as nações: Por que é que o Senhor fez assim a esta terra"?
   Juízes, XIX, 22: "... Chegaram uns homens daquela cidade (de Gabaa), filhos de Belial, e, cercando a casa do velho, começaram a bater à porta, gritando ao dono da casa, e dizendo: Deita cá para fora esse homem, que entrou para tua casa, a fim de abusarmos dele". Oséias, IX, 9: "Pecaram (os iníquos e loucos profetas de Israel) gravemente, como nos dias de Gabaa. O Senhor se lembrará da sua iniqüidade e castigará os seus pecados". X, 9: "Desde os dias de Gabaa, Israel não fez mais que pecar; nisso têm eles perseverado, não os apanhará em Gabaa (mas sim noutras regiões) a guerra (declarda) contra os filhos da iniqüidade".
   Isaías, III, 4; 8 e 9: "Eu lhes darei meninos para príncipes, e dominá-los-ão efeminados"..."Pois Jerusalém vai-se arruinando e Judá caindo, porque as suas palavras e as suas obras são contra o Senhor, para provocarem os olhos de sua majestade. O próprio aspecto do seu semblante depõe contra eles, pois fizeram, como os de Sodoma, pública ostentação do seu pecado, e não o encobriram. Ai da sua alma! porque lhes será dado o castigo merecido".
   1 Reis, XIV, 24: "Até houve também no país efeminados, e cometeram todas as abominações daqueles povos que o Senhor tinha destruído à vista dos filhos de Israel".
    1 Reis, XV, 11 e 12: "Asa (rei de Judá) fez o que era reto aos olhos do Senhor, como seu pai Davi. Tirou do país os efeminados e limpou-o de todas as imundícies dos ídolos que seus pais tinham fabricado".
  
    NOVO TESTAMENTO
   S. Lucas, XVII, 28: "Como sucedeu também no tempo de Lot; comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Lot saiu  de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que exterminou a todos". (Palavras de Jesus sobre o fim do mundo).
   1 Coríntios, VI, 9-10: "Porventura não sabeis que os injustos não  possuirão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus". (Entende-se obviamente: se não se converterem e deixarem o pecado).
   Romanos, I, 26 a 28 e 32: "Por isso Deus entregou-os (= os pagãos) a paixões de ignomínia. Efetivamente, as suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a natureza, e, do mesmo modo, também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam nos seus desejos mutuamente, cometendo homens com homens a torpeza e recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento. Como não procuraram conhecer a Deus, Deus abandonou-os a um sentimento depravado, para que fizessem o que não convém, cheios de toda iniqüidade, de malícia..." Versículo 32: "Os quais, tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem tais coisas são dignos de morte; e não somente quem as faz, mas também quem aprova aqueles que as fazem". Romanos, XIV, 10: "Todos compareceremos ante o Tribunal de Cristo".
   1 Timóteo, I, 9 e 10: "...A lei não foi feita para o justo, mas para os injustos e desobedientes, para os irreligiosos e profanos, para os parricidas, matricidas e homicidas, para os fornicadores, sodomitas, roubadores de homens, para os mentirosos e perjuros, e para tudo o que é contra a sã doutrina..."
   Epístola de São Judas Tadeu, versículo 7: "Assim como Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas, que fornicaram com elas e se abandonaram ao prazer infame, foram postas por escarmento, sofrendo a pena do fogo eterno, da mesma maneira também estes contaminam a sua carne, desprezam a dominação (de Cristo) e blasfemam da Majestade (de Deus)".
   2 S. Pedro, II, 4-10: "Em realidade, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, precipitados no tártaro, os entregou às cadeias das trevas para serem atormentados e reservados até ao juízo, e se não perdoou ao mundo antigo, mas somente salvou , com outros sete , a Noé, pregador da justiça, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo dos ímpios, e se condenou a uma total ruína as cidades de Sodoma e de Gomorra, reduzindo-as a cinzas, para servir de exemplo àqueles que venham viver impiamente, se, enfim, livrou o justo Lot oprimido pelas injúrias e pelo viver luxurioso desses infames, ( esse justo que habitava entre eles sentia, diariamente, a sua alma atormentada, vendo e ouvindo as suas obras iníquas), (é porque) o Senhor sabe livrar os justos da tentação e reservar os maus para o dia do juízo, a fim de serem atormentados, principalmente aqueles que vão atrás da carne, na imunda concupiscência e desprezam a soberania (de Cristo)".

Os católicos sejam leigos ou não,  que simplesmente rejeitam e/ou maltratam os gays devem pedir perdão à Santa Madre Igreja, Esposa Mística de Nosso Senhor Jesus Cristo; os católicos, sejam leigos ou principalmente eclesiásticos,  que acolhem os gays sem procurar fazer o possível para afastá-los dos pecados abomináveis que sua tendência os levaria a cometer, estes católicos, digo, devem também pedir perdão a Deus e à Santa Madre Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para ajudar na salvação das almas de pessoas que cometem a abominação do pecado de homossexualidade ou sodomia, apresentamos acima as palavras do próprio Deus. É de fé que Deus nunca permite que alguém seja tentado acima de suas forças. Também é de fé que Deus dá a graça suficiente para todos conseguirem a salvação. Também é de fé que Deus quer que oremos, fujamos das ocasiões e que façamos penitência. 
  
  
  

As famílias devem reagir

Capítulo XXII da "CARTA ABERTA AOS CATÓLICOS PERPLEXOS" escrita por D. Marcel Lefebvre em 1984


   É o tempo apropriado de reagir. Quando Gaudium et Spes fala do movimento da história que "se torna tão rápido que cada um tem dificuldade de o seguir", pode-se entender este movimento como uma precipitação das sociedades liberais na desagregação e no caos. Acautelemo-nos de o seguir!

   Como compreender que dirigentes apelem para a religião cristã ao passo que destroem toda a autoridade no Estado? Importa ao contrário restabelecê-la, que foi querida pela Providência nas sociedades naturais de direito divino cuja influência neste mundo é primordial: a família e a sociedade civil. É a família que recebeu nestes últimos tempos os mais rudes golpes; a passagem para o socialismo em países como a França e o Espanha não fez senão acelerar o processo.

   As leis e medidas que se sucederam mostram uma grande coesão na vontade de arruinar a instituição familiar: diminuição da autoridade paterna, divórcio facilitado, desaparecimento da responsabilidade no ato da procriação, reconhecimento administrativo dos casais irregulares e mesmo de duplas homossexuais, coabitação juvenil, casamento de experiência, diminuição das ajudas sociais e fiscais às famílias numerosas... O mesmo Estado, em seus interesses próprios, começa a perceber as consequências disto no que toca à diminuição da natalidade, ele se pergunta como, num tempo próximo, as jovens gerações poderão assegurar os regimes de retração daquelas que deixaram de ser economicamente ativas. Mas os efeitos são consideravelmente mais graves no domínio espiritual.

   Os católicos não devem seguir mas ponderar com todo o seu peso, uma vez que são também cidadãos, para endireitar tudo o que for preciso. É por isso que eles não poderiam ficar à margem da política. Portanto seu esforço será sobretudo sensível na educação que proporcionam a seus filhos.

   Sobre este assunto, a autoridade é contestada nas suas próprias fontes por aqueles que declaram que "os pais não são os proprietários dos filhos", querendo dizer com isto que a educação destes cabe ao Estado, com suas escolas leigas, suas creches, suas maternais. Censuram-se os pais de não respeitar a "liberdade de consciência" de seus filhos quando os educam segundo suas próprias convicções religiosas. 

   Estas ideias remontam aos filósofos ingleses do século XVII que não queriam ver nos homens senão indivíduos isolados, independentes de nascimento, iguais entre si, subtraídos a toda autoridade. Nós sabemos que isto é falso. A criança recebe tudo de seu pai e de sua mãe, alimento corporal, intelectual, educação moral, social. Eles se fazem ajudar por professores que partilharão, no espírito dos jovens, a sua autoridade mas, seja por meio de uns ou por meio de outros, a quase totalidade da ciência adquirida no decurso da adolescência pessoal será mais uma ciência apreendida, recebida, aceita, do que uma ciência deduzida da observação e da experiência pessoal. Os conhecimentos vêm por uma parte considerável da autoridade que transmite. O jovem estudante acredita em seu pais, em seu professores, em seus livros e assim seu saber se estende.

   Isto é ainda mais verdadeiro com os conhecimentos religiosos, com a prática da religião, com o exercício da moral conforme à fé, às tradições, aos costumes. Os homens em geral vivem em função das tradições familiares, isto se observa em toda a superfície do globo. A conversão a uma outra religião do que aquela que se recebeu durante a sua infância encontra sérios obstáculos.

   Esta extraordinária influência da família e do meio é querida por Deus. Ele quis que seus benefícios se transmitissem em primeiro lugar através da família; é por esta razão que concedeu ao pai de família a grande autoridade, um imenso poder sobre a sociedade familiar, sobre sua esposa, sobre seus filhos. A criança nasce numa fraqueza tão grande que se pode julgar da necessidade absoluta da permanência do lar, de sua indissolubilidade.

   Querer exaltar a personalidade e a consciência da criança em detrimento da autoridade familiar, é fazer a sua desgraça, impeli-la à revolta, ao desprezo dos pais, enquanto que a longevidade é prometida àqueles que honrarem os seus. São Paulo, ao relembrá-lo, estabelece também um dever aos pais de não exasperarem os filhos, mas de educá-los na disciplina e no temor do Senhor.

   Se fosse preciso esperar ter a inteligência da verdade religiosa para crer e converter-se, não haveria senão bem poucos cristãos atualmente. Crê-se nas verdades religiosas porque as testemunhas são dignas de credibilidade por sua santidade, seu desinteresse, sua caridade. Pois, como diz Santo Agostinho, a fé dá inteligência.

   A função dos pais tornou-se muito difícil. Nós o vimos, a maioria das escolas livres foram laicizadas de fato, e nelas não se ensina mais a verdadeira religião nem as ciências profanas a luz da fé. Os catecismos difundem o modernismo. A vida trepidante é devoradora de tempo, as necessidades profissionais distanciam pais e filhos dos avôs e avós que participavam outrora da educação. Os católicos não estão apenas perplexos mas desarmados.

   Mas isto absolutamente não a ponto de não poderem assegurar o essencial, suprindo a graça de Deus o resto. O que é preciso fazer? Existem escolas verdadeiramente católicas, se bem que em número reduzido. Enviai para lá vossos filhos, mesmo se isto pesar no vosso orçamento. Abri novas, como alguns já o fizeram. Se não podeis frequentar senão escolas onde o ensino é desnaturado, manifestai-vos, reclamai, não deixeis os educadores fazer vossos filhos perder a fé.

   Lede, relede em família o catecismo de Trento, o mais belo, o mais perfeito e o mais completo. Organizai "catecismos paralelos" sob a direção espiritual de bons sacerdotes, não tenhais medo de ser tratados, como nós, de "selvagens". Aliás, numerosos grupos já funcionam que acolherão vossos filhos.

   Rejeitai os livros que veiculam o veneno modernista. Fazei-vos aconselhar. Editores corajosos difundem excelentes obras e reimprimem as que os progressistas destruíram. Não adquirais qualquer Bíblia; toda família cristã deveria possuir a Vulgata, tradução latina feita por São Jerônimo no século IV e canonizada pela Igreja. Atende-vos à verdadeira interpretação das Escrituras, conservai a verdeira missa e os sacramentos tais como eram administrados por toda a parte até bem pouco.

   Atualmente o demônio desencadeou-se contra a Igreja pois é bem disso que se trata: nós assistimos talvez a uma de suas últimas batalhas, uma batalha geral. Ele ataca em todas as frentes e se Nossa Senhora de Fátima disse que um dia ele subiria até as mais altas esferas da Igreja, é que isto podia acontecer. Nada afirmo de mim mesmo, entretanto há sinais que podem fazer-nos pensar que, nos mais elevados organismos romanos, pessoas perderam a fé.

   Devem-se tomar medidas espirituais urgentes. É preciso rezar, fazer penitência, como a Santíssima Virgem o pediu, recitar o terço em família. As pessoas, viu-se em cada guerra, se põem a rezar quando as bombas começam a cair. Mas precisamente, elas caem neste momento: estamos a ponto de perder a fé. Compreendeis que isto ultrapassa em gravidade todas as catástrofes que os homens temem, as crises econômicas mundiais ou os conflitos atômicos?

   Renovações se impõem, mas não creiais que não possamos contar para isto com a juventude. Não é toda a juventude que está corrompida, como se tenta persuadir-nos. Muitos tem um ideal, a muitos outros basta propor um. Abundam os exemplos de movimentos que fazem apelo com sucesso à generosidade: os mosteiro fiéis à tradição os atraem, não faltam vocações de jovens seminaristas ou de noviços que pedem formação. Há um magnífico trabalho a realizar conforme as instruções dadas pelos Apóstolos: Tenete traditiones...Permanete in iis quae didicistis [=Conservai as tradições... Permanecei firmes em todas as coisas que aprendestes]. 

   O velho mundo chamado a desaparecer é o do aborto. As famílias fiéis à tradição são ao mesmo tempo famílias numerosas, sua própria fé lhes assegura a posteridade. "Crescei e multiplicai-vos!" Conservando o que a Igreja sempre ensinou, vós vos ligais ao futuro. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

Lutero e o Demônio

Excertos do livro "A Igreja, a Reforma e a Civilização" de autoria do Padre Leonel Franca.

   "Satanás não o deixa um instante tranquilo; acompanha-o de dia e de noite, na igreja e na adega. Mais de uma vez declarou Lutero que a sua vida fora "uma série de duelos com Satã". Com o diabo dormia ele mais vezes de que com a sua Catarina. Em toda parte o via: na nuvem que passa, no raio que fuzila, no trovão que ribomba, nas florestas, nas águas, nos desertos, empestando os ares e os campos; diabos se escondem nas serpentes e lagartos, nos macacos e nos papagaios; diabo na mosca que vem pousar nas páginas do seu livro, diabos, até, nas nozes que lhe envia uma admiradora. O espírito do mal é o deus ex-máquina que desata todos os nós difíceis. À sua ação maligna atribui o reformador todas as desordens morais, todas as calamidades sociais desencadeadas por suas doutrinas subversivas.
   Esta obsessão diabólica que torturava a alma do infeliz renegado espelha-se em todos os seus escritos. De diabos está cheio o seu estilo; algumas das suas páginas dir-se-iam escritas no inferno. No opúsculo contra o duque Henrique de Brunswick, o demônio tem a honra de ser nomeado 146 vezes; no livro dos concílios em 4 linhas se fala 15 vezes de diabos.
   Em 1541 quando os turcos ameaçavam invadir a Alemanha, publicou Lutero a seguinte oração: "Sabeis, Senhor, que o diabo, o papa e o turco não têm razão nem direito de nos vexar, porque nunca os ofendemos. Mas porque confessamos que vós, Pai, vosso Filho, Jesus Cristo, e o Espírito Santo sois um só Deus eterno, nos odeiam e perseguem. Se renunciáramos a esta fé, nada teríamos que recear deles".(Erlangen, XXXII, 89). Quanta ceguira! quanta calúnia! O diabo, o papa e o turco postos no mesmo plano! O papa que persegue a Lutero pela sua fé na Santíssima Trindade! Lutero que se gloria de nunca haver descontentado o demônio!!!
   Os adversários da Reforma, têm "o coração satanizado, persatanizado e supersatanizado". A Lutero cabe a inglória iniciativa de haver posto em voga este novo gênero de literatura diabólica, em cujo diapasão afinaram o tom os outros reformadores.
   Sinceramente, esta linguagem, estas incertezas e contradições doutrinais, esta frivolidade em construir e destruir dogmas, esta soberba luciferina dizem bem num enviado do céu para restaurar o cristianismo?
   Até aqui não acenamos senão aos vícios que mancham a parte superior do homem. Mas por uma lei infatigável da Divina Providência, a soberba do espírito é castigada com as rebeldias da carne. Desce abaixo do bruto quem se arvora em divindade.
   Lutero ofereceu à história mais um triste exemplo desta punição providencial. Em 1521, uns restos de educação católica ditavam-lhe estas palavras de uma carta a Spalatino: "Santo Deus! os nossos Wittembergenses quererão casar também os frades? A mim é que não hão de impingir mulher... Toma tento e não cases para não incorreres nas tribulações da carne". (De Wette, II, 40 e 41). Com os anos, as novas doutrinas abriram brecha no seu propósito. Em 1525, estalou às súbitas no mundo reformado a inesperada notícia que Lutero, aos 41 anos, havia casado com Catarina de Bora, religiosa egressa cisterciense. Que acontecera? Lutero resolvera-se repentinamente ao casamento para fechar a boca às más línguas. As más línguas, porém, não taramelavam sem motivo. Numa carta de 1525 endereçada a Rühel, conselheiro de Mansfeld, dizia o heresiarca: "se posso, a despeito do demônio (sic!) ainda hei de casar com a minha Catarina, antes de morrer". (De Wette, II, 655). Como quer que seja, a impressão causada nos contemporâneos e correligionários foi das mais desfavoráveis. Lutero percebeu-o. "Com este meu casamento tornei-me tão desprezível que os anjos se hão de rir e os demônios chorar. Só em mim escarnece o mundo a obra de Deus como ímpia e diabólica". (De Wette, III, 2,3). A vida escandalosa de Lutero já tinha começado havia mais tempo, como se pode ver numa carta datada de 1522 ao amigo Spalatino.
   Tanto esta carta como outros escritos sobre a vida desregrada de Lutero são escritos em latim, tal a vergonha que os escritores sentiam em relatar tantas baixezas nojentas. Também, muito menos tenho coragem de traduzí-los para o português. Assim sendo, paremos por aqui.. Só uma frase do próprio Lutero ao seu amigo Bernardo Koppe: "Saiba que estou ligado à cauda de minha Kette". ( De Wette, III, 9). Este o santo que o ecumenismo elogia!!!

Lutero: Reformador?

Textos e comentários extraídos do livro "A Igreja, a Reforma e a Civilização", livro escrito pelo célebre, seguro e erudito Padre Leonel Franca, S. J.

   "Não é meu intuito humilhar aqui os protestantes. Quisera tão somente iluminá-los. Verdades que amargam são muitas vezes verdades que salvam.
   Lutero inaugura a sua missão com o gravíssimo pecado do sacrilégio e da apostasia. Jovem, era livre. Um dia, enamorado do ideal evangélico de perfeição, desejoso de seguir de perto a Cristo, estende espontaneamente a mão sobre o altar e pronuncia os votos religiosos de pobreza, obediência e castidade. Passam os anos (dois). Raia o dia do seu sacerdócio. Ainda uma vez, quando o crisma sagrado lhe ungia as mãos, o neo-levita renova a consagração do religioso. Mais tarde que faz Lutero de todas estas promessas firmadas com a santidade inviolável do juramento? Quebra a fé empenhada, rasga os seus compromissos, atira o burel do religioso às urtigas e enxovalha a candura da estola sacerdotal no lodo de um casamento duplamente sacrílego!
   O orgulho fizera o fedífrago, o orgulho cegou o doutor. Na sua autossuficiência dir-se-ia que esqueceu não só a humildade evangélica mas as reservas da modéstia mais elementar. Até ao aparecimento do seu Evangelho ninguém soubera quem era Cristo, que eram sacramentos, que era a fé, quem era Deus e a sua Igreja. Os Santos Padres, os Apóstolos, os Concílios, a Igreja toda errou! Sua doutrina é a única verdadeira. "Muito embora, escreve Lutero, a Igreja, Agostinho e os outros doutores, Pedro e Apolo e até um anjo do céu ensinem o contrário, minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus e condena a justiça de todos os homens na sua sabedoria". (Cf. Weimar, XL, 1 Abt., 132).  Que demência de soberba!
   Mais ao vivo ainda se revela o frenesi desta inteligência decaída, nestas palavras que não têm semelhantes nos fastos do despotismo e do orgulho humano: "Quem não crê como eu, escreve Lutero, é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu juízo é o juízo de Deus". (Cf. Weimar, X, 2 Abt., 107). "Tenho certeza que meus dogmas vêem do céu... eles hão de prevalecer e o Papa há de cair a despeito de todas a portas do inferno, a despeito de todos os poderes dos ares, da terra e do mar" (Cf. Weimar, X, 2 Abt., 184). "Não devemos ceder aos ímpios papistas... Nossa soberba contra o Papa é necessária... Não havemos de ceder nem a todos os anjos do céu, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a cem imperadores, nem a mil papas, nem a todo o mundo... a ninguém, "cedo nulli". (Cf. Weimar, XV, 1Abt., 180-1). "Este Lutero nos vos parece um homem extravagante? Quanto a mim penso que ele é Deus. Senão, como teriam os seus escritos e o seu nome a potência de transformar mendigos em senhores, asnos em doutores, falsários em santos, lodo em pérolas". (Cf. Ed. Wittemb. 1551, t. IV, pág. 378). Orgia de orgulho satânico ou caso de patologia mental?
   Não é pois de maravilhar que este homem assim enfatuado de sua ciência, depois de haver negado a infalibilidade do Papa e proclamado a liberdade de exame para legitimar os próprios excessos, se tenha arvorado em cátedra inerrante de fé, constrangendo os seus sequazes a curvarem submissos a fronte ante os arestos inapeláveis de suas decisões infalíveis. Não houve tirania mais insuportável nem arrogância mais impetuosa que a deste pregador do livre exame. Todos os seus correligionários gemem sob o peso de seu jugo de ferro. Münzer dizia: "há dois papas: o de Roma e Lutero, e esse mais duro". Ao seu confidente Bulinger escrevia Calvino: "já não é possível suportar os arrebatamentos de Lutero; cega-o a tal extremo o amor próprio que não vê os próprios defeitos nem tolera que o contradigam"; e a Melanchton dizia Calvino: "com que impetuosidade fulmina o vosso Pericles! Singular exemplo deixamos à posteridade quando preferimos abrir mão de nossa liberdade a irritar com a menor ofensa um homem só! Dizem que é de gênio arrebatado, de movimentos impetuosos, como se esta violência não se exaltasse com lhe comprazerem os outros em tudo. Ousemos ao menos soltar um gemido livre". (Calvini Opera, XII, 99). "Vivo na escravidão, como no antro de Cyclope", murmura por sua vez Melanchton. (Bossuet, Hist, des variations, 1. 5, n. 15 e16). Contra Carlostadt, seu antigo mestre, que em tirar as conclusões da nova doutrina foi além do que pretendia o reformador, obteve o decreto de expulsão da Saxônia e não o readmitiu senão com a promessa de "não defender em público, por palavra ou por escrito, suas opiniões contrárias às de Lutero". (Weimar, XVIII, 86 sgs). A Münzer, por motivo análogo, cassou a liberdade de palavra apesar do "verbum Dei non est alligatum", que ele tantas vezes invocara contra a Igreja Católica. Assim entendia Lutero o livre exame!
   Ao ver esta prepotência com que o chefe da Reforma impunha despoticamente as suas opiniões, crê toda a gente sensata que nada mais firme, nada mais assentado e maduramente refletido que a nova doutrina. Erro. O inculcado emissário divino que modestamente se prefere a todos os doutores do céu e da terra, que blasona de inspirado do Espírito Santo, que recebeu "os seus dogmas do céu", hesita, retrata-se, contradiz-se, assenta e destrói dogmas pelos motivos mais fúteis, muda de opinião como um ator de roupa.
   NB.: Entre os inúmeros exemplos apresentados pelo Padre Leonel Franca, cingir-me-ei apenas à alguns, para não cansar meus caríssimos leitores.
   "Quanto à origem e legitimidade de sua missão, em pouco mais de 15 anos, Lutero mudou pelo menos 14 vezes de parecer. (Cf. Döllinger, Die Reformation, III, 205 ss.)
   Em 1519 Lutero escreve: "Confesso plenamente o supremo poder da Igreja Romana; fora de Jesus Cristo, Senhor Nosso, nada no céu e na terra se lhe deve preferir". (Cf. De Wette, I, 234). "Esta Igreja é a predileta de Deus; não pode haver razão alguma, por mais grave, que autorize a quem quer que seja a apartar-se dela e, com o cisma, separar-se da sua unidade". (Cf. Weimar, II, 72.). Em 1520 na sua Epístola Luterana tece os mais rasgados encômios a Leão X, louva-lhe a vida intemerata superior a qualquer ataque. (De Wette, I, 498). Nesse mesmo ano já Leão X é o Anticristo, e a igreja romana "uma licenciosa espelunca de ladrôes, o mais impudente dos lupanares, o reino do pecado, da morte e do inferno" ( De Wette, I, 498).
   ... Em 1523 escrevia: "Se acontecesse que um, dois, mil ou mais concílios decidissem que os eclesiásticos pudessem contrair matrimônio, preferiria, confiado na graça de Deus, perdoar a quem, por toda a vida, tivesse uma, duas ou três meretrizes, do que, consoante à decisão conciliar, tomasse mulher legítima e sem tal decisão não a pudesse tomar". (Cf. Weimar, XII, 237).

NB.: A obra do autor mais citado pelo Padre Leonel Franca é: "D. Martin Luthers, Werke. Kritische Gesmtausgabe, 1883 ss. Desta Edição crítica que até 1914 contava 50 volumes, é que o Pe. Leonel Franca mais freqüentemente se serviu.
            Depois, se Deus quiser, entenderemos melhor ainda  este homem desequilibrado quando fizermos a seguinte postagem: "Lutero e o Demônio".

terça-feira, 21 de junho de 2016

FRUTOS DE SANTIFICAÇÃO QUE PRODUZ O PENSAMENTO DA ETERNIDADE

LEITURA MEDITADA 


Primeiramente, o pensamento da eternidade é uma luz segura, que nos dirige nas nossas resoluções. Que é o conjunto de todas as dores, e o agregado de todas as venturas, se umas e outras são eternas? Tratando-se de uma eternidade, diz S. Gregório, nunca há demasiada precaução e prudência porque nunca há demasiada segurança. Esta máxima tem sido a de todos os santos. São Luiz de Gonzaga, por exemplo, dizia: "O que não é eterno, nada é". E antes de fazer qualquer coisa dizia: "Que vale isto para a eternidade". Riqueza ou pobreza, vida cômoda ou penitente, honras ou opróbrios? E, é claro, consultavam não o que o mundo diz, mas o que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. E seguiam com generosidade e alegria o que o Divino Mestre mostrou como mais seguro para se conquistar o Reino de Deus. 

Depois, o pensamento da eternidade ampara-nos e fortalece-nos. Opõe prazer a prazer, dor a dor. Na presença de um gozo que durará sempre, um prazer que é momentâneo, perde todo o seu atrativo; e temo deveras os tormentos que nunca terão fim; e assim não me assusta uma tribulação que dura um momento. Tudo o que não é eterno, nada vale, ou deve ter-se em conta de nada: é a minha resposta aos atrativos do vício, e aos rigores da virtude.

Ademais, o pensamento da eternidade é motivo de zelo na prática do bem. Seguro de que acharei na eternidade o fruto de minhas boas obras, e não sabendo quando nela entrarei, animo-me com esta poderosa consideração: Não esqueças, alma minha, que trabalhas para a eternidade. Em recompensa deste ato de humildade e de caridade, verei a Deus mais claramente, possuí-Lo-ei mais deliciosamente por toda a eternidade. Vem a noite; multipliquemos os nossos merecimentos, enquanto temos tempo. Diz a Sagrada Escritura que aquele que semeia pouco, colherá pouco, e o que semeia em abundância colherá em abundância. E Nosso Senhor Jesus Cristo dá-nos este conselho: "Juntai um tesouro no Céu, onde o ladrão não rouba, a traça não rói, nem a ferrugem consome"
Devemos estar profundamente persuadidos de que aquilo que sacrificamos pela nossa santificação, o pomos nas mãos de Deus, que no-lo restituirá cem vezes mais na felicidade eterna. Caríssimos, devemos fazer as nossas ações conscientes de que as suas consequências podem ser eternas. E a eternidade se aproxima. Somos como uma vela acesa: a medida que ilumina, vai-se acabando. Assim, a medida que vivemos, estamos morrendo. E não sabemos nem o dia, nem a hora. Devemos trabalhar para o céu enquanto é dia.


Vinde, ó Jesus, Rei dos bens eternos; Vós no-los prometestes no vosso Evangelho, e no-los alcançastes com a vossa morte, e disso nos dais penhor no altar: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, terá a vida eterna" (S. João VI, 55). Ó meu doce Jesus, se me alimentais com o pão dos escolhidos, é porque só quereis que eu participe da sua felicidade. Oh! vinde, Senhor, tomar posse da minha alma, e contrair com ela uma aliança que nada possa alterar daqui em diante! Amém!

quinta-feira, 16 de junho de 2016

RECESSO

Por problemas de saúde estarei por algum tempo me tratando. Peço as orações de todos!
Desde já agradeço de coração.
Padre Elcio Murucci.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

PANEGÍRICO DE SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA



"Qui fecerit et docuerit hic magnus vocabitur em regno coelorum" (S. Mat. V, 19)
"Aquele que praticar e ensinar esse será chamado grande no reino do céu".


Da Arca do Testamento, do martelo das heresias, do Defensor da fé, do Lume da Igreja, da maravilha de Itália, da glória de Portugal celebramos hoje a festa. O coração transborda de júbilo, uma expressão de santo orgulho se manifesta a pesar nosso, vendo atravessar as idades mais remotas, um homem, que lançado na arena da humildade, vestido com uma pobre túnica,  cingido de uma corda, tinha só que esperar o esquecimento e o desprezo. Nossa imaginação, no entanto, voa diante destes cânticos, destes hinos de mil povos e mil nações prostrados ao pé deste homem do evangelho, que, não possuindo ouro nem tendo honras, obteve as mais nobres conquistas com esta eloqüência irresistível que o Eterno depositara em seus lábios. Esmagou o crime, confundiu o erro, alcançou os mais assinalados triunfos. Todos os olhos estão fixados neste homem tão extraordinário, a cuja vista, apaga-se o facho da discórdia, tremem os gigantes da terra, e um grito de admiração rompe de todos os lados ouvindo-se dizer que este homem era um filho espiritual de Francisco de Assis e que se chamava Antônio.
Santo Antônio de Pádua é um dos santos mais populares, mais conhecidos e venerados em todo o mundo. Todos com confiança se dirigem a ele em suas necessidades materiais e espirituais. É invocado e festejado tanto nas soberbas catedrais das grandes cidades como nas capelinhas humildes da roça.
Santo Antônio nasceu no dia 15 de agosto em 1195. Oito dias depois do nascimento foi o mesmo levado à pia batismal recebendo o nome de Fernando. Nome este depois trocado pelo de Antônio quando entrou na Ordem de S. Francisco. Sua santa e piedosa mãe levando-o para diante de uma imagem de Nossa Senhora, ofereceu-o, consagrando-o e pedindo lhe fosse ela protetora e mãe. Belo costume este de os progenitores consagrarem os filhos a Nossa Senhora!
"Qui fecerit et docuerit hic magnus vocabitur em regno coelorum". "Aquele que praticar e ensinar esse será chamado grande no reino dos céus". Assim foi Santo Antônio: praticou a virtude, ensinou a verdade, operou milagres, é o santo taumaturgo por excelência; converteu milhares de pecadores e de hereges.
Os grandes santos que hoje há gozam no céu a visão beatífica de Deus, tinha cada um sua virtude de maior predileção. Uns se fizeram admirar na terra por sua pureza, outros por sua humildade, estes por sua penitência, aqueles por sua caridade. Cada um enfim, tinha o seu característico de mérito, que o distinguia dos outros. Santo Antônio, porém, nos oferece um admirável complexo de todas as virtudes. A sua conduta foi sempre um tocante convite à perfeição e santidade. E em todos os seus atos se divisava uma solene condenação de todos os crimes. Já na idade de cinco anos ele prometeu a Deus guardar intacta a sua virgindade, em honra da pureza da Rainha dos Anjos. E esse voto, emitido em tão tenra idade, foi por ele sempre religiosamente cumprido. Em nenhum momento de sua vida o monstro hediondo da luxúria pôde manchar com sua baba impura a inocência de sua alma. A castidade, essa divina virtude, que confunde o homem com o anjo, que torna uma criatura semelhante a própria Divindade foi a mais linda flor da coroa de méritos, que sempre cingiu a sua fronte.
Depois de ter recebido uma educação religiosa entre os cônegos da Catedral de Lisboa, Antônio, contando apenas 17 anos parte para Santa Cruz de Coimbra para aí unir ao seu voto de castidade, os de pobreza e obediência. Descendente de uma família nobre, ele avistava no século uma carreira juncada de prazeres, de grandezas e de honras. Calca, porém, aos pés tudo quanto podia afagar a sua carne, e acariciar o seu orgulho, para se consagrar exclusivamente aos santos exercícios da religião e da caridade. Com as pompas e riquezas mundanas ele abandona parentes e amigos, pai e mãe, para se entregar inteiramente ao serviço de Deus.
Depois de oito anos de residência neste mosteiro, os seus confrades, não admiravam a sua vasta erudição, como também já o consideravam  como um anjo de piedade, de pureza e de caridade. Antônio, no entanto, não estava ainda satisfeito; desejava ardentemente selar a sua fé com a efusão de seu sangue pelo martírio. Para ver se realizava este seu desejo, foi se unir aos Franciscanos, que enviavam missionários a Marrocos onde então se exercia contra eles uma atroz e sanguinolenta perseguição. A Providência, porém, que lhe aguardava um outro destino, frustrou as suas heróicas tentativas. Na hora de pisar na arena, em que pretendia conquistar a palma do martírio ele foi acometido duma grave enfermidade, que o obrigou a regressar para o seu convento. Não devendo por determinação divina avistar a sua cara pátria, quando o barco que o conduzia, se aproximava das costas de Espanha, uma furiosa tempestade o arremessou para Cicília. Daí, por ordem de seu superior, partiu para o monte Paulo, para celebrar missas num convento de irmãos leigos. A sua vida neste mosteiro foi a dum verdadeiro anacoreta: jejuava a pão e água, passava as noites inteiras em fervorosas orações; fazia jorrar na terra o seu sangue sob os rudes golpes duma disciplina. Foi assim que Deus o quis preparar para o brilhante apostolado que lhe estava reservado. Aí no eremitério Santo Antônio vivia só para Deus e a santificação própria. Foi somente por uns nove meses que o Taumaturgo gozou das delícias da vida solitária. Deus, porém, achou o tempo suficiente para coroar o seu servo também diante dos homens com a coroa de glória de que a sua fronte já estava cingida diante de Deus. Sendo daí chamado para assistir a celebração dum capítulo geral ele foi por seu superior, obrigado a falar perante as mais distintas notabilidades. A vista de sua extrema modéstia e profunda humildade ninguém confiava em sua ciência e ilustração; entretanto que, apenas tomou a palavra, de seus lábios se desprenderam passagens tão admiráveis dos Santos Padres, imagens tão belas das Escrituras Sagradas, pensamentos tão sublimes e tocantes que encheram a todos os seus ouvintes de admiração e espanto. A maior parte dos religiosos, extasiados e derramando lágrimas, confessavam nunca ter ouvido um discurso tão eloquente, nem orador tão veemente. O auditório quedou estupefato, todos pendiam de seus lábios. Não restava dúvida: Deus queria revelar um apóstolo de sua palavra, queria colocar o seu servo sobre o candeeiro para com a luz de sua doutrina e exemplo de santidade iluminar os povos. Por isso será grande: "Qui fecerit et docuerit magnus vocabitur".
Assim inicia seu apostolado público convertendo milhares e milhares de pecadores. Antônio era tudo para todos, abrasado nas chamas desta caridade que não conhece exceções mesquinhas e odiosas, ele mostra os flagelos da cólera divina prontos a subterrar os perjuros, e oferece a reconciliação à consciências dilaceradas. Tão rica mas tão variada, a linguagem deste home apostólico apresenta com assombro este contraste maravilhoso, cujos efeitos são rápidos e seguros. Umas vezes é uma torrente transbordada, que precipita com estrondo suas águas espumosas; outras vezes é um rio plácido e sereno que fertiliza os campos e fecunda os prados que bordam suas margens. Aqui é o raio que espanta, estrui, abrasa; ali é um fogo lento e suave, uma luz pura e silenciosa que gradualmente se fortifica e ilumina sem esforço.
Antônio depois de entornar as ondas da ciência com que o Senhor o dotara ensinando a teologia e interpretando os Livros Santos em Montpellier, em Tolosa, em Pádua, depois de reformar os costumes e a moral pública desde o interior da Itália até as províncias meridionais da França, refreia em Grenoble a audácia dos sacramentários, confunde os hereges com o aparato de seus milagres e restaura o dogma primitivo da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Foi verdadeiramente um muro de ferro em torno do rebanho de Jesus Cristo, a fim de preservá-lo da surpresa dos inimigos, e uma barreira inexpugnável à inundação dos males que alagava já todo orbe. Deus o revestiu de fortaleza no meio dos acasos, entregou-lhe o coração dos príncipes e fez estalar em suas mãos a lança dos bravos, como diz a Sagrada Escritura, sem  que o som belicoso dos tambores e o tinido das espadas pudessem assustar sua firmeza, nem abalar sua constância.
O seu zelo abrasador o empelia a argüir em face os horrendos crimes dos maiores potentados da terra, como o tirano Azzelino. Combateu tão denodadamente a heresia, converteu tantos hereges que chegou a ser qualificado de martelo das heresias e flagelo de todos os hereges. São Gregório descreve todas as suas virtudes e o seu apostolado dizendo que Antônio foi um João Batista pela pureza de sua vida e austeridades de sua penitência. Um Pedro pelo seu zelo na conversão dos pecadores, Um Paulo pela força e veemência de sua pregação.
Depois de tanto amar a virtude e odiar o vício, depois de tanto combater o erro e ensinar a verdade, Antônio coroou a vida dum grande apóstolo, pela morte dum grande santo. O discípulo da Cruz não podia mais conter o incêndio de amor que o abrasava. Suas forças esgotadas com suas macerações, seus estudos, e seus trabalhos evangélicos, não podiam reagir contra a violência da febre que o devorava. Antônio está em Pádua rodeado de seus irmãos, que choram sua perda. Recebeu os últimos sacramentos. Seu rosto brilha de felicidade. Em seguida, moribundo entoou o seu hino predileto: O gloriosa Domina, excelsa super sidera. O gloriosa Senhora sublimada acima das estrelas. Depois levantou os olhos ao céu e permaneceu assim algum tempo. o irmão que o encostava nos seus braços perguntou para onde olhava e ele respondeu: "Vidi Dominum". Vi o Senhor. Afugentava com a irradiação de sua face as sombras e palidez da morte. Era o mais belo dos astros que parece aumentar seu brilho no momento em que abandona o horizonte que iluminará com os últimos raios de sua luz. Entrou em agonia e entregou sua alma ao Criador.
Eclipsara-se o astro fulgurante que tanta luz espargiu na cristandade. Fechara-se a boca que, com tanto ardor e arroubos de eloquência anunciou o Evangelho da salvação. Cerram-se os olhos que em doce enlevo contemplaram os Divino Infante, e ainda antes de se apagar a sua luz, viram a Deus na glória. Deixara de bater o coração que outra coisa não amou senão o Criador e por seu amor as almas imortais. Estava com 44 anos de idade e 10 de profissão. Era a tarde de sexta feira, dia 13 de junho de 1231.
A vista dum quadro tão majestoso e comovente, quando os povos lamentam a falta deste grande homem, quando a natureza celebra a sua feliz transição e as crianças gritam nas ruas de Pádua: morreu o santo, morreu o santo, ousarei perguntar, onde está a glória de Portugal. A honra daquele povo de Pádua? Onde está o libertador de Itália? Onde está o profeta que sufocou a blasfêmia na boca impura do heresiarca? Mas no instante mesmo que dirijo estas perguntas, ouço as vozes dos anjos que me respondem, Antônio está no céu: o Senhor é sua herança, o Senhor é sua partilha. Sim, aquele que consumiu sua existência na prática do bem, que tanto trabalhou e sofreu para ganhar milhares de almas a Jesus Cristo, que galardão, que prêmio não receberia no céu de Deus que prometeu recompensar até um como d'água dado em seu nome. Ah! Antônio contempla a verdade eterna; goza o soberano bem, está e estará eternamente abrigado no seio da própria Divindade.
"Qui fecerit et docuerit hic magnus vocabitur em regno coelorum"
Quão justa, caríssimos devotos de Santo Antônio (e qual católico não o é?) quão justa, digo, a ufania que sentis por este santo cuja língua, depois de vários séculos está conservada: "Língua bendita, diz o Padre Vieira, depois da morte, viva, antes da ressurreição, ressuscitada; apesar da terra,  incorrupta; apesar das cinzas, inteira; apesar da sepultura, imortal; a apesar dos tempos, eterna".  Nossa devoção a este santo é justa, pois ele é realmente grande: Espelho de todas as virtudes, coluna da Igreja, Doutor da verdade, Arca do Testamento, Trombeta do Evangelho. Terror dos demônios, Restituidor das coisas perdidas, Glorioso Taumaturgo, Santo do mundo inteiro. Talvez uma glória lhe faltasse: a palma do martírio. Mas foi ele mártir pelo desejo. Se belo seria Antônio trazer na mão a palma do martírio, mais belo ainda é ter nos braços o Menino Jesus, a coroa dos mártires.
Santo Antônio foi grande neste terra, maior ainda no reino dos céus. Já fez séculos que foi tomar posse do eminentíssimo lugar que tem na corte do céu. "Mangnus in regno coelorum'. Mas nem por isso em todos os anos e dias de tantos séculos deixou de estar sempre conosco na terra. Quando vivia estava juntamente em diferentes lugares, agora está em todos os do mundo. Neste mesmo dia, e nesta mesma hora em que nós celebramos a Santo Antônio na América, o celebram e festejam em todos os estados dos países de todos os continentes do orbe. Nenhuma ação, pois, nem estado há nele, que nos trabalhos e necessidades a que todos estão expostos, grandes e pequenos, não invoque e chame por Santo Antônio e nenhuma voz há dos que o invocam a que ele não responda: aqui estou. "Os lavradores nos campos, diz o Padre Viera, os navegantes no mar, os soldados na guerra, os presos nos cárceres, os cativos nas masmorras, os enfermos nas doenças, os agonizantes na morte, e até os mortos nas sepulturas, acham em Antônio o consolador".
Assim, caríssimos, é tão grande o nosso santo que não há tempo para descrever todas as suas prerrogativas, tudo o que fez e ensinou. Quem poderá enumerar seus milagres? Não obstante, quem de nós não os conhece? Quem é que não tenha lido ou ouvido falar da mula do judeu Bonvillo que, por ordem do santo se prostrou de joelhos na presença do SS. Sacramento? Quem não conhece suas profecias, suas revelações de segredos íntimos, as curas maravilhosas, as ressurreições de mortos, entre os quais um, que por um instante voltou à vida para que o pai de Santo Antônio não perdesse a sua? Quem é que não conhece aquele milagre da pregação aos peixes, onde santo Antônio se fez primeiro pescador de peixes não com redes senão com a pregação da palavra de Deus, e da pescaria da mesma palavra fez as redes com pescou os homens, porque os hereges que não o queriam ouvir, com a evidência e assombro do mesmo milagre, vencidos e convencidos, se converteram.
Caríssimos, se desejais ser verdadeiros devotos de Santo Antônio, o martelo das heresias, rejeitai o Modernismo que é a reunião de todas. Imitai as virtudes de Santo Antônio e rejeitai assim o comodismo da heresia progressista. Aproveitai os belos exemplos da conduta desta santo. Com ele convencei-vos de que não podemos ser verdadeiramente felizes nem na vida, nem na morte, nem na terra nem no céu, nem no tempo, nem na eternidade, senão com pureza de consciência, com a intima e estreita amizade de Deus, com a íntegra fidelidade à doutrina tradicional, viva e perene da Santa Madre Igreja.

E vós, glorioso Santo Antônio esquecei-vos por um momento de vossa glória e felicidade eterna para lançar as vossas vistas propícias sobre os católicos que hoje imploram a vossa valiosa proteção; fazei com que do céu se derramem torrentes de graças sobre os  nossos corações. Ó martelo das heresias, não permitais  que o Modernismo continue vingando e tomando conta da Igreja. Que jamais falte na Igreja estes padres tradicionalistas para que levem os fiéis a trilhar o mesmo caminho que seguistes a assim possam pastores e ovelhas chegarem a mesmo Jerusalém celeste, e felizes convosco participem das recompensas eternas merecidas na verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!

domingo, 12 de junho de 2016

POR ELE, COM ELE, NELE

Extraído do Livro JESUS, REI DE AMOR, pelo Pe. Mateo Crawley-Boevey, SS. CC.

   Para que se compreenda bem a imponente majestade da Missa, evocarei agora, cheio de emoção, um gesto do celebrante que resume admiravelmente todo o ideal de glorificação da Trindade pelo admirável Pontífice e Mediador da Santa Missa. Parece-me que nesse momento, mil vezes sublime, os nove coros dos Anjos, toda a assembléia dos Santos, e o Purgatório, circundando de perto o celebrante, bebem suas palavras e ficam suspensos a seus gestos, impregnados de divina majestade.
   Pouco depois da consagração, o sacerdote, tendo na mão direita a Hóstia divina, traça com Ela cinco cruzes sobre o Priciosíssimo Sangue, dizendo: "Por Ele, com Ele e n'Ele, a Ti, Deus Pai Onipotente, na unidade do Espírito Santo, damos toda honra e glória!" e, com essas palavras, eleva ao Céu a Hóstia e o Cálice juntos.
   Sublinhemos com ardor a grandeza inexplimível desse gesto, divino entre todos...
   O próprio genial São Paulo, descendo do terceiro Céu, teria tido a eloquência necessária para explicar-nos toda a majestade dessa fórmula litúrgica, de infinita riqueza de significado?
   Por Ele, o Homem-Deus de Belém, do Tabor e do Calvário, realmente presente nas mãos do padre, tal como estava presente nas mãos de Sua Mãe Santíssima...
   Com Ele, o Homem-Deus crucificado, morto e ressuscitado... que subiu aos céus e está sentado, como Deus à direita do Pai, e a quem o Pai conferiu todo poder no céu e na terra...
   N'Ele, o Homem-Deus, por Quem e para Quem tudo foi criado, que foi constituído Rei imortal, e que virá sobre as nuvens do céu, como Juiz, a julgar os vivos e os mortos...
   Sim: por Ele, com Ele e n'Ele, glória infinita à Trindade adorável e augusta!
   Se neste momento lhe fora milagrosamente revelado, em clarão divino, toda a significação desse gesto, morreria o celebrante, não de temor, porém de emoção e júbilo!
   Somente à Virgem-Mãe coube o insigne privilégio de antecipar-se ao padre, mediante a oblação por Ela feita do Filho ao Pai, em Belém, no templo de Jerusalém, e no Calvário.
   Não é, pois, exato ser a Santa Missa o hino oficial de glória, único digno da Trindade augusta?
   E nessa ordem de idéias, saboreemos deliciosamente a magnífica estrofe desse hino, pelo próprio Cristo ensinando aos apóstolos, e tal como Ele o canta no Altar, pela voz e liturgia da Igreja: "Pai nosso que estais no céu... Pai santificado seja o Vosso nome!... Pai, venha a nós o Vosso reino!... Pai, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu!..."
   Consideremos que o orante que assim reza é o próprio Verbo Encarnado, o Filho de Deus e de Maria Santíssima, que no Altar exalta a glória d'Aquele que é Seu Pai e nosso Pai!
   Podemos pois afirmar que a criação do Universo, tirado do nada, é apenas pálida centelha de glória, quando comparada à glória que Jesus, Grão-Sacerdote, rende no Altar às Três Pessoas da Trindade augusta.
   E agora, fixos o olhar e o coração no Gólgota do Altar, façamos uma audaciosa hipótese, legítima e verossímil criação de nossa fantasia... o próprio Senhor a utilizou para pintar os inimitáveis quadros de Seus discursos figurados e de Suas incomparáveis parábolas.
   Suponhamos que, desde os tempos dos imperadores romanos Augusto e Tibério, já tivessem sido descobertos e vulgarizados os maravilhosos aparelhos de televisão, com aperfeiçoamento ainda maior que os de hoje. (Como atualmente, diria o Pe. Mateo). E suponhamos que César, informado por seus agentes acerca da emoção produzida na Palestina pela prédica de Jesus, e sobre a resolução do Sinédrio de fazê-Lo morrer, houvesse ordenado a Pilatos o envio a Roma, juntamente com os autos do processo, de um filme do drama da crucifixão do pretenso Rei dos Judeus.
   Qual não seria nossa indizível emoção se esse filme sonoro-visual, reprodução exata, fotográfica, do deicídio da Sexta feira Santa, nos fosse exibido nas igrejas, antes do Santo Sacrifício da Missa! Tal filme seria uma visão autêntica, de ordem natural e científica, do divino drama da nossos altares. Ele nos permitiria ouvir as sete palavras de Jesus, e também as blasfêmias pronunciadas pelos inimigos diante da vítima adorável. Veríamos com os próprios olhos o que viram as três testemunhas fiéis, Maria, João e Madalena, desde o meio-dia até as três horas da tarde.
   Pois bem: infinitamente maior do que tudo isto é a maravilhosa realidade que, através do fino e transparente véu, nos mostra a Fé, incapaz de nos enganar, quando, bem instruídos e piedosos, assistimos ao Santo Sacrifício! o filme teria apresentado um fato passado, tal como o santo sudário de Turim, ao passo que a Santa Missa nos oferece uma realidade atual e presente!
   Essa mesma Missa, renovada, reproduzida, prolongada, através do tempo, constitui essencialmente nossa Missa quotidiana... Mais uma vez insistimos: não se trata de um belo símbolo religioso, ou de um filme admirável tirado, digamos, pelos Anjos: trata-se da admirável e divina realidade do Calvário, exatamente reproduzida no Altar, exceto a dor e o derramamento de sangue, pois a Vítima eucarística é hoje impassível, porque gloriosa.
   É nesses princípios que se baseia o Concílio de Trento ao declarar que o Santo Sacrifício realiza, antes de tudo, uma obra de estrita justiça, resgatando as nossas faltas com o "Sangue do Cordeiro que apaga os pecados do mundo".
   É fato verificado, de ordem sobrenatural, que o Santo Sacrifício nos salva, aplacando a Justiça divina quando oferece, no Cálice, o preço já oferecido no Calvário. Sem tal resgate - único adequadro - não teriam remissão os nossos delitos. Felizmente para nós, porém, Jesus morreu exclamando: "Pai, perdoa-lhes!"
   Uma vez consumada a obra de rigorosa justiça, irrompe a misericórdia como sol fulgurante. Firma-se a reconciliação entre o céu e a terra revoltada... Deus, porém, exige a constante aplicação do Sangue redentor às cicatrizes de nossas almas pecadoras, o qual, derramado outrora no Calvário, enche agora o Cálice do Santo Sacrifício!
   É de toda conveniência salientar com nitidez a diferença entre o Gólgota de Jerusalém e o Calvário de nossos Altares. Este é um Tabor glorioso, embora sempre purpureado de um sangue adorável... Digo, "glorioso" pois a Vítima que se imola é o Homem-Deus ressuscitado, vencedor da morte na madrugada do Domingo de Páscoa.
   Ao mesmo tempo que Tabor, o Altar é também legítimo Calvário, radioso porque revestido dos esplendores da Ressurreição.
   Ah! se não existisse o véu discreto do Mistério, nem mesmo o Santo Cura d'Ars teria ousado celebrar o Santo Sacrifício... e Santa Teresinha de Lisieux teria hesitado em aproximar-se da Mesa Santa, de tal modo a glória do Senhor ofusca, aos olhos dos Anjos, o celebrante e os fiéis. Assim, graças a penumbra do Mistério, torna-se o Altar acessível, e até convidativo, embora esteja muito mais perto do Céu que o próprio Sinai.
   Assim compreendida, a oração oficial do Cristo Mediador durante a Missa é a única que tem o poder de atravessar as nuvens, indo atingir e empolgar o Coração do Pai... Esta súplica é verdadeiramente uma onipotência, pois que jorra do próprio Coração de Jesus, Mediador todo-poderoso. É Ele mesmo quem no-lo declara: "O Pai me ouve sempre!" Quando Ele reza, Ele ordena. Sua palavra realiza o que pede, pois Ele é Deus! Eis porque nossa primeira oração espontânea, nas visitas ao Santíssimo Sacramento, na adoração eucarística ou quando fazemos adoração noturna no lar, e sobretudo quando assistimos ao Santo Sacrifício, deveria ser sempre o "Cânon" da Missa, fórmula litúrgica mil vezes sagrada e venerável, por seu conteúdo dogmático e por sua antiguidade. Poderíamos desta forma unir-nos, em todas as horas do dia e da noite, aos milhares de celebrantes que elevam, como rutilante arco-íris, a Hóstia e o Cálice... E por meio deste tão simples impulso do coração, realizaríamos esplendidamente o "Glória a Deus nas alturas" dos Anjos, na noite de Natal.

sábado, 11 de junho de 2016

ORAÇÃO DA FAMÍLIA CATÓLICA

Caríssimos, nesta luta satânica para destruir o matrimônio e a família cristã temos, antes de tudo, que pedir a Deus  apresse a vitória do Coração Imaculado de Maria Santíssima. Há quase cem anos foi isto que nossa Mãe do Céu nos garantiu: "POR FIM MEU IMACULADO CORAÇÃO TRIUNFARÁ". E temos que fazer a nossa parte. E o principal é rezar e fazer penitência. Rezemos esta oração:

Sacratíssimo Coração de Jesus, a quem nossa família tem a honra de ser consograda, prostrados em vossa presença, desejamos suplicar-vos que sejais em verdade o nosso Rei, o nosso Mestre, o Senhor de nossa casa.

Vós, que prometestes a paz ás famílias devotas de Vosso Coração, concedei-nos a paz. Afastai de nosso lar o ódio, a discórdia, os desentendimentos. Conservai-nos todos unidos na Fé, firmes na Esperança, perseverantes na Caridade.

Pedimo-Vos de coração que nos guardeis a todos sob vossa proteção. Convertei os pecadores de nossa família, amparai nossos idosos e doentes, conservai a inocência de nossas crianças, dai força e coragem aos nossos jovens na luta contra as tentações, consolai-nos em todas as nossas aflições, dai-nos a saúde do corpo e a santidade da alma.

Nossa família, Senhor, deseja ser vossa. Pedimo-vos portanto que nos ajudeis a cumprir nossos deveres de católicos e afastar de nossa casa tudo o que Vos ofende, especialmente as enxurradas de obscenidades dos programas de TV , Internet, revistas e jornais, as festas mundanas, as modas indecentes, as conversas levianas, enfim a vida pagã da sociedade que nos cerca.

Suplicamo-Vos que nos conservais a fidelidade à doutrina e à moral que a Santa Madre Igreja sempre nos ensinou. Afastai de nós todas as heresias e erros atuais, especialmente o progressismo que sorrateiramente extenua a santidade de vossos preceitos e destrói a integridade das verdades que nos revelastes. Senhor, fazei que sejamos firmes até o fim, em defender a indissolubilidade do sacramento do matrimônio, sem modificar em nada o que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. Senhor, fazei que vivamos segundo o que Nosso Divino Mestre nos ensinou e não segundo o que o mundo ensina. Queremos a paz de Jesus Cristo e não a do mundo que é enganadora. Queremos a alegria do Amor de Deus, e por Ele, a alegria do amor do próximo. 

Concedei-nos enfim que um dia toda a nossa família se reúna no Céu, tendo trilhado aqui na terra o caminho que para lá conduz.

Nós v-lo pedimos pela intercessão de Vossa e Nossa Mãe Santíssima, a Puríssima Virgem Maria. Amém. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

VÍNCULO INDISSOLÚVEL DO MATRIMÔNIO


LEITURA ESPIRITUAL

REFLEXÕES SOBRE TEMA DA SAGRADA ESCRITURA

"Foram ter com ele os fariseus para o tentar e disseram-lhe: É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, respondendo, disse-lhes: Não lestes que quem criou o homem no princípio, criou-os homem e mulher, e disse: Por isso deixará o homem pai  e mãe, e unir-se-á com sua mulher, e os dois serão uma só carne? Por isso, não mais são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu" (S. Mateus XIX, 3 e sgs).

No último dia do ano de 1930, no início de sua Encíclica "CASTI CONNUBII", Pio XI já constatava com tristeza "a ignorância total da altíssima santidade do matrimônio cristão"... Lamentava como a maior parte dos homens desconhecia essa santidade. Ou negavam-na impudentemente, ou ainda, apoiando-se sobre os princípios falsos de uma moralidade nova e absolutamente perversa, calcavam-na aos pés. Aliás, 50 anos já antes de Pio XI, o Papa Leão XIII, na Encíclica "ARCANUM", denunciava que os detratores da fé cristã recusavam admitir sobre a origem do matrimônio a doutrina constante da Igreja e se esforçavam já há muito tempo por destruir a Tradição de todos os povos e de todos os séculos.

"... Tendo Deus no sexto dia da criação formado o homem do limo da terra e insuflado na sua face o sopro da vida, quis dar-lhe uma companheira, que maravilhosamente tirou do lado do mesmo homem, enquanto ele dormia; quis Deus com isto, na Sua alta providência, que estes dois esposos fossem o princípio natural de todos os homens e a fonte de onde o gênero humano deveria sair e conservar-se através dos tempos por uma série ininterrupta de gerações. E para que esta união entre o homem e a mulher melhor se harmonizasse com os Seus sapientíssimos desígnios, lhe imprimiu desde esse dia, à maneira de um selo e de um sinal, duas qualidades principais, nobres entre todas as outras, a saber: 'a unidade e a perpetuidade'. - É isto que vemos declarado e abertamente confirmado no Evangelho pela divina autoridade de Jesus Cristo, quando afirmou aos judeus e aos Apóstolos que o casamento, segundo a sua própria instituição, não deve ter lugar senão entre duas pessoas, um homem e uma mulher; que os dois devem constituir como que uma só carne e que o laço nupcial está pela vontade de Deus tão íntima e tão fortemente ligado, que nenhum homem tem o poder de o desligar ou quebrar. 'O homem unir-se-á à sua companheira e serão dois numa só carne'. Por isso já não são dois, mas uma só carne. 'O que Deus uniu não o separe o homem' (Mt 19, 5 e 6).

"Mas esta forma de matrimônio, tão excelente e tão elevada, começou pouco a pouco a corromper-se entre as nações pagãs, e até entre os hebreus pareceu eclipsar-se e obscurecer-se. Tinha-se na verdade introduzido entre eles o costume geral de permitir a um homem possuir mais de uma mulher, e quando, mais tarde, Moisés, 'em virtude da dureza do coração deles', teve a tolerância de autorizar a repúdio das mulheres, abriu-se a porta ao divórcio.  Com relação à sociedade pagã, custa crer a que grau de corrupção e de fealdade desceu o casamento, entregue à ondas dos erros de cada povo e das mais ignóbeis e vergonhosas paixões. (...).

"Mas todos estes vícios e todas estas ignomínias, que maculavam os casamentos, encontraram em Deus a reforma e o remédio. Porquanto, Jesus Senhor Nosso, restabelecendo a dignidade humana e aperfeiçoando as leis mosaicas, fez do casamento um dos objetos importantes da Sua solicitude. Com efeito honrou com a Sua presença as bodas de Caná, na Galileia, e tornou-as memoráveis pelo primeiro dos Seus milagres. Em virtude deste fato, parece que desde esse dia o matrimônio começou a receber um novo caráter de santidade. Em seguida o Salvador restabeleceu o matrimônio na nobreza da sua origem primitiva, já reprovando os costumes dos judeus com relação à pluralidade de mulheres e ao uso que faziam do repúdio, já proclamando sobretudo o preceito de que ninguém ousasse reparar o que o próprio Deus uniu por um laço perpétuo. Por isso, depois de ter resolvido as dificuldades provenientes da legislação das instituições mosaicas, formulou, na qualidade de Legislador Supremo, esta Lei sobre o matrimônio: 'Em verdade vos digo que todo aquele que separar de si sua mulher, exceto o caso de adultério, e tomar outra, é adúltero; e todo aquele que tomar a que foi repudiada é adúltero' (Mt 19, 9).

 (Salvo o primeiro parágrafo, este artigo compõe-se de excertos da Encíclica "ARCANUM" do papa Leão XIII).  

A VIDA INTERIOR


"Vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gál. II, 20.

Este artigo é dirigido especialmente a nós do Clero, mas, obviamente,  "mutatis mutandis", se aplica também aos leigos.
Hoje lamenta-se a falta de padres, mas antes a lamentar seria a falta de padres santos. Sob o pretexto desta falta de padres, avoca-se até a necessidade de se acabar com o celibato sacerdotal. Realmente teríamos mais padres, mas o necessário é que tenhamos padres santos. Aí está a diferença, aí está a solução. 

Também, D. Gänswein disse:  "um ministério ampliado – com um membro ativo e um membro contemplativo", se referindo respectivamente ao Papa Francisco e ao "Papa Emérito" Ratzinger. "Data venia", na minha humilde visão, acho isto impossível de ser legitimado por argumentos teológicos, e mesmo, pelos da Teologia Ascética e Mística.

Deus exige de nós Padres, seus Ministros, uma dupla vida: a vida interior, vida de recolhimento, de piedade, de oração e mortificação, "vigiai e orai", "fazei penitência"; e a vida exterior, a vida ativa, a vida das obras, do apostolado: "ensinai"; pregai"... "apascentai minhas ovelhas". Estas duas vidas não se devem separar, aliás completam-se maravilhosamente.

Embora a vida contemplativa seja em si mesma, melhor que a ativa, o ideal todavia, para o sacerdote, é a fusão das duas vidas que constitui o verdadeiro apostolado, obra principal do cristianismo. Mas é preciso que a vida contemplativa seja a base da vida ativa, que esta seja a exteriorização daquela. A contemplação deve ser a raiz da seiva da qual a vida ativa vive e se alimenta.

A vida interior é a vida mesma de Jesus Cristo animando a alma como a alma anima o corpo ao qual está unida. Do mesmo modo como a alma é o princípio das operações do corpo, cujos órgãos move; os olhos para ver, os pés para andar, a língua para falar, a mão para agir, assim Jesus Cristo vivendo na alma verdadeiramente interior é o princípio de todas as suas operações sobrenaturais, sem nunca encontrar da sua parte a menor resistência. É Ele que inspira todos os pensamentos, todos os afetos, todas as determinações, quem regra mesmo exteriormente todos os atos e movimentos do seu corpo para contê-los nos limites de uma perfeita modéstia.

Por conseguinte, a alma é penetrada do Espírito de Jesus Cristo, espírito que , a leva a pensar, julgar, amar, detestar, sofrer, trabalhar, querer como Ele, por Ele, com Ele e então as ações exteriores só podem ser a manifestação da vida, do espírito de Jesus Cristo em nós. "Não sou mais eu que vivo, é Jesus que vive em mim". Este é o ideal da vida cristã.

São Paulo, para no-la fazer entender melhor, serve-se da comparação do enxerto que vem a ser uma mesma coisa com a árvore em que foi inserido, vive da sua vida, alimenta-se de sua seiva. A alma interior é este enxerto, inserido em Jesus Cristo, a árvore de cuja vida participa, de sorte que ela tem com ele uma só pensamento, um só querer e não querer.

O mesmo Apóstolo diz ainda que Jesus Cristo é o chefe do corpo do qual nós somos membros, "Cristo é a cabeça... nós somos os membros do seu corpo" (Ef. V, 30). Mas a cabeça e os membros vivem da mesma vida; e como da cabeça a vida dimana sobre os membros inferiores, assim de Jesus dimana sobre as almas que Lhe são unidas, como ao seu Chefe, uma vida toda divina e esta vida é a vida interior. Portanto, vida cristã, vida interior, santidade não diferem essencialmente; são três graus desta união da alma a Nosso Senhor, da ação de Nosso Senhor sobre a alma, dócil à sua direção; são a aurora, a plena luz, o esplendor do mesmo sol. VIDA INTERIOR é, pois, o estado da atividade de uma alma que, pela sua união a Jesus Cristo, reage contra as inclinações naturais e se esforça por alcançar ao hábito de julgar e dirigir-se em tudo, segundo a doutrina e os exemplos de Jesus Cristo. Dois movimentos, portanto: a alma se retira, se separa daquilo que a criatura tem de contrário à união a Deus; e se orienta para Deus. Faz o caminho inverso do pecado.

Caríssimos, não posso deixar de enumerar aqui alguns princípios e avisos práticos dados por D. Chautard:
1.       Não se lançar nas obras por mera atividade natural. Orar para conhecer e seguir sempre a vontade de Deus.
2.       É imprudente e nocivo ficar durante muito tempo num período de ocupações excessivas.
3.       Regulamento determinando o emprego habitual do tempo.
4.       Quanto mais ocupações, maior necessidade de contemplação.
5.       Nas múltiplas obras que são da vontade de Deus, conservar a sede de vida interior.
6.       Relance de olhos seguro, justo e penetrante para distinguir se é sob a influência de Jesus que se conserva na ação.

AVISOS PRÁTICOS:
1.       Convencer-se profundamente da necessidade do regulamento sobretudo quanto a hora de se levantar rigorosamente fixada. E levantar cedo, dizia S. Francisco de Sales, faz bem ... "à la santé et à la sainteté"...
2.       A meditação de manhã é a base e elemento indispensável da vida interior.
3.       Missa, comunhão, recitação do Breviário, funções litúrgicas são minas incomparáveis de vida interior e devem ser exploradas com fé e fervor cada dia crescentes.
4.   Exame particular e exame geral, bem como meditação e vida litúrgica, devem tender sempre par o hábito da guarda do coração, por meio da qual se realiza a união do "vigilate" e do "orate".
5.       Comunhões espirituais e orações jaculatórias.
6.       Piedoso estudo da Sagrada Escritura, sobretudo do Novo Testamento. Todos os dias, ou pelo menos muitas vezes na semana.
7.       Preparada pela guarda do coração, confissão hebdomadária impregnada de contrição sincera, de dor verdadeira e de firme propósito cada vez mais leal e resoluto.
8.       Retiro anual utilíssimo, mas insuficiente. É preciso também um retiro mensal sobretudo ao homem de obras.
- Todos estes meios concorrem para a meditação bem feita ou dela decorrem. Por isso a meditação é o elemento indispensável da vida interior e portanto do apostolado.

(O assunto continua no próximo artigo).


quinta-feira, 9 de junho de 2016

PERIGOS DA VIDA ATIVA SEM A VIDA INTERIOR



Caríssimos, na verdade, a vida das obras sem a vida interior é o caminho curto e certo da tibieza e do pecado. Primeiramente a tibieza, porque o padre absorto pela vida ativa e esquecido da vida interior, escorrega necessariamente no hábito do pecado venial, o que já é tibieza. É fácil compreendê-lo: Eis um padre ativo, trabalhador, mas inexperiente; aliás correto em sua conduta, mesmo piedoso, mas de uma piedade talvez mais de sentimento que de vontade. A oração mental, se ainda a pratica, é coisa vaga, vaporosa; o exame de consciência, a leitura espiritual superficiais, quando não omitidas; o Breviário despachado o mais depressa possível e, muitas vezes, o mais tarde possível. Esta alma é um terreno preparado para a dissipação cada dia mais acentuada, para as curiosidades, para os apegos por demais naturais, para a invasão progressiva de toda forma de fraquezas e sutis sensualidades.

Com tudo isso consideremos o germe de corrupção que a concupiscência entretém em nossa natureza, a guerra sem tréguas que nos movem nossos inimigos de dentro e de fora, os perigos que nos ameaçam de toda parte. Então as feridas são frequentes, as faltas se acumulam fatalmente. Pululam os pecados veniais. O que outrora perturbava a consciência reta, hoje passa por vão escrúpulo desprezível. De resto, as obras prosperam, (pelo menos parece); os homens aplaudem, mas o Anjo do Santuário já está desconfiado, está triste, talvez já chore. Está prevendo o infalível desenlace. A alma está cega, está enfraquecida, basta uma tentação mais forte, uma ocasião mais perigosa e dá-se a queda.

E do hábito dos pecados veniais, da tibieza ao pecado mortal, a passagem é fácil e freqüente. Num retiro clerical, diz D. Chautard, um padre disse-me: "Foi a dedicação que me perdeu! Minha disposição natural fazia-me experimentar alegria em me despender, felicidade em prestar serviço. O sucesso aparente dos meus empreendimentos ajudando, Satanás soube obrar tão bem durante longos anos, para me iludir, excitar o delírio da ação, desgostar-me de todo trabalho interior, até finalmente atrair-me ao abismo".

Como caiu esta alma? Por falta de fé, de piedade, falta de vida interior. A alma acaba por ver as obras e não a Deus, procura a si e não a Deus, daí relaxamento, presunção, imprudência, anemia e morte.
"É preciso, diz o card. Lavigérie, persuadir-se de que para um apóstolo não há meio termo entre a santidade completa, ao menos desejada e prosseguida com fidelidade e coragem, ou a perversão completa". O padre, ou é santo, e então santifica; ou não o é, e então, arruína. O Santo Cura d'Ars derramava muitas lágrimas "pensando na desgraça dos sacerdotes que não correspondem à santidade de sua vocação. O sábio e prudente Pe. Desurmont afirmava: "Meditação, ou grande, muito grande risco de condenação para o padre em contato com o mundo".

Portanto, caríssimos colegas no sacerdócio, para obviar tão grande perigo, nunca descuidemos da vida interior. E para nos animarmos a trabalhar neste sentido é bom meditarmos nas vantagens e na fecundidade da vida interior. É o  que, com a graça de Deus, iniciaremos neste artigo e prosseguiremos no seguinte.

1. O homem de vida interior está sempre vigilante, desconfia de si a cada instante, e se acautela contra o perigo, segundo o conselho de São Paulo: "Revesti-vos  da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio..." (Ef. VI, 11). Qual é esta armadura? Conhecimento do seu nada, convicção de nada poder sem a graça, pureza de intenção, solicitude pela sua salvação e, por isto, oração  freqüente e suplicante.

2. A vida interior repara as forças que o apostolado porventura nos faz perder. É como aquele pão do profeta Elias. São Vicente de Paulo queria que os missionários, depois de algumas missões, voltassem para casa para refocilar o corpo e o espírito no recolhimento. Ordenava-lhes um dia de retiro. É a este  repouso que Jesus Cristo convidou os Apóstolos depois de suas primeiras missões: "Vinde à parte, num lugar deserto e descansai um pouco" (S. Marc. VI, 31). Caríssimos colegas no sacerdócio, sem isto as nossas obras de apostolado (em si tão santas) podem se tornar "ocupações malditas", na expressão de S. Bernardo a seu discípulo o Papa Eugênio III: "Temo que, no meio de vossas numerosas ocupações, deixeis endurecer vossa alma. Fareis bem em suspender de vez em quando vossas ocupações, para não vos deixar dominar por elas. Sem isso é para temer que chegueis aonde não desejais chegar. Aonde? ao endurecimento do coração. Sim, é até lá, continua o Santo, que podem levar "as ocupações malditas". E eis o comentário de D. Chautard: "Que há aí de mais augusto, de mais santo que o governo da Igreja? Haverá nada mais útil para a glória de Deus e para o bem das almas? E contudo, malditas ocupações, exclama S. Bernardo, se hão de servir para impedir a vida interior daquele que a elas se dedica. 'Ocupações malditas', que expressão! Vale por um livro inteiro, tanto ela amedronta e tanto obriga a refletir. E estaria exigindo um protesto, se não caísse da pena tão precisa de um doutor da Igreja, de um São Bernardo".

3. A vida interior multiplica as energias e os méritos: Em Jesus Cristo está a força da vida interior. Podemos enumerar seus caracteres:

1º - Empreender coisas difíceis e enfrentar resolutamente os obstáculos.
2º - Desprezo das coisas da terra: "Omnia detrimentum feci et arbitror ut stercora".
3º - Paciência nas tribulações: "Fors ut mors dilectio".
4º - Resistência às tentações: "... cui resistite fortes in fide".
5º - Martírio interior. Testemunho da própria vida que clama a Jesus: "Quero ser todo vosso". Combater as concupiscências, domar os vícios, trabalhar com energia na aquisição das virtudes: "Bonum certamen certavi".

"Sem esta vida, diz S. Pio X, as forças faltarão para suportar com perseverança as dificuldades que acarreta todo apostolado, a frieza e o pouco concurso dos mesmos homens de bem, as calúnias dos adversários (e piores quando vindas dos próprios colegas como delas foram vítimas alguns santos, por ex, o S. Cura d'Ars e S. Pio de Pietrelcina).

A vida interior dá ainda um acréscimo de méritos: pela vida de oração, de piedade, de união a Nosso Senhor, porque quanto mais dificultoso o ato de virtude, mais meritório, não por causa da dificuldade, mas por causa da intensidade de amor que a dificuldade supõe.


(Continua no próximo artigo). 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

MÉTODO PARA ASSISTIR COM FRUTO À SANTA MISSA (Extraído de S. Leonardo de P. Maurício)

INTRODUÇÃO
   Era opinião de S. João Crisóstomo( e também de S.Gregório) que, no momento em que o padre celebra a Missa, os céus se abrem, e multidões de anjos  descem do Paraíso para assistir ao Santo Sacrifício. S. Nilo, abade, discípulo do mesmo S. João Crisóstomo , afirmava que via, quando este santo doutor celebrava, uma grande multidão daqueles espíritos celestes assistindo os ministros sagrados em suas augustas funções...
   Entre os hebreus, enquanto se celebravam os sacrifícios da antiga Lei, nos quais se ofereciam apenas touros, cordeiros e outros animais, era coisa digna de admiração ver com quanto recolhimento, modéstia e silêncio o povo todo acompanhava. E, se bem que o número de assistentes fosse incalculável, além de setecentos ministros que sacrificavam, parecia, no entanto, que o templo estava vazio, pois não se ouvia o menor ruído. Ora, se havia tanto respeito e veneração por estes sacrifícios que, afinal, não eram mais que uma sombra e figura do nosso, que silêncio, que atenção, que devoção não merece a Santa Missa, na qual o próprio Cordeiro Imaculado, o Verbo de Deus feito homem, se imola por nós.
   Bem o compreendia Santo Ambrósio. Após o Evangelho ele virava-se para o povo e o exortava a um piedoso recolhimento e impunha a todos guardar o mais rigoroso silêncio, não só proibindo a menor palavra, mas ainda abstendo-se de ficar raspando goela ou fazer qualquer ruído.E era obedecido. Dizia Santo Agostinho que um santo fervor como que contagiava a todos. Quem quer que assistisse à missa do Santo Bispo, sentia-se tomado de profundo respeito e comovido até ao fundo da alma, tirando assim grande proveito e acréscimo de graças.
  Hoje, infelizmente, até os fiéis não compreendem o valor do silêncio!!! Creio que também é falta de fé.
   Primeiro método: É o das pessoas que, de livro à mão, seguem atentamente todas as ações do sacerdote, a cada uma recitam outra prece vocal que lêem no livro, e  assim passam todo o tempo da Missa a ler. Não há dúvida que, se a essa leitura se junta a meditação dos grandes mistérios, é uma excelente maneira de assistir ao santo Sacrifício, e produz também grandes frutos. 
   São Leonardo considera este método fatigante.

   Segundo método: É o das pessoas que não se servem de livros e não lêem absolutamente nada durante todo o tempo do santo Sacrifício , mas que, com viva fé, fixam os olhos da alma em Jesus crucificado, e, apoiados na árvore da cruz, dela recolhem os frutos por meio de doce contemplação. Passam todo o tempo em piedoso recolhimento interior e na consideração dos sagrados mistérios da Paixão de Jesus Cristo, que são não somente representados, mas misticamente reproduzidos no santo Sacrifício. É certo que estas pessoas, mantendo suas almas assim recolhidas em Deus, exercem atos heróicos de fé, de esperança e de caridade e de outras virtudes, e não há dúvida que esta maneira de assistir à Santa Missa é muito mais perfeita que a primeira, e também mais doce e mais suave, como atesta a experiência de um bom irmão converso. Costumava ele dizer que, ao ouvir a Missa, não lia mais que três letras: a primeira, negra, era a consideração de seus pecados que lhe produziam confusão e arrependimento, e ocupava-o desde o começo ao ofertório. A segunda letra era vermelha: a meditação da Paixão de Cristo, na qual considerava o precioso Sangue que Jesus derramou por nós no Calvário, sofrendo morte tão cruel; nisto se entretinha até à comunhão. A terceira letra era branca:. Enquanto o sacerdote,scomungava, ele se unia a Jesus pela comunhão espiritual, ficando em seguida todo absorto em Deus, contemplando a glória eterna que esperava como fruto do divino Sacrifício. (Ele fazia só a comunhão espiritual, porque naquela época não era permitida a comunhão quotidiana).Esse homem simples, continua S. Leonardo, ouvia a Missa com grande perfeição e quisera eu que todos aprendessem dele tão alta sabedoria.

MÉTODO DE SÃO LEONARDO (Resumo)
   Logo que a Missa começa, enquanto o padre se humilha ao pé do altar, dizendo o Confiteor, fazei também um pequeno exame, excitai em vosso coração um ato de contrição sincera, pedindo a Deus perdão de vossos pecados, e implorando o auxílio do Espírito Santo e da Santíssima Virgem Maria, a fim de ouvir essa Missa com todo o respeito e devoção possíveis. Em seguida, dividi em quatro partes o tempo da Missa, para, nestas quatro partes, vos desobrigardes dos quatro grandes deveres, que são os fins para os quais é celebrado o Santo Sacrifício da Missa.
   PRIMEIRA PARTE: Desde o começo até o Evangelho. Cumpris o primeiro dever de honrar e louvar a majestade de Deus, digno de receber honras e louvores infinitos.É o primeiro fim da Missa, chamado fim latrêutico: ADORAR.  Para isso humilhai-vos com Jesus, abaixando-vos na consideração de vosso nada,e confessai sinceramente que nada sois absolutamente diante da imensa Majestade Divina. Dizei-lho, humilhando-vos não só em vosso coração. como também exteriormente, pois importa assistir à Santa Missa com uma atitude recolhida e modesta. Continuai a fazer muitos atos interiores, comprazendo-vos de que Deus seja infinitamente honrado, e repeti muitas vezes: "Sim, meu Deus, regozijo-me da honra infinita que resulta deste santo Sacrifício, para vossa Majestade; felicito-me e regozijo-me quanto posso".
   Não vos preocupeis em observar à risca as palavras que vos indico, mas usai aquelas que vos inspirar vossa piedade, mantendo-vos recolhido e unido a Deus, Desde modo cumpris o primeiro dever para com Deus: ADORÁ-LO.
   SEGUNDA PARTE: Deste o Evangelho até á Elevação: Cumpris o segundo dever de pedir perdão dos pecados. Este é um outro fim da Missa, chamado propiciatório: PEDIR PERDÃO. Lançando um rápido olhar aos vossos pecados; e vendo a dívida imensa que por eles contraístes com a Justiça divina, dizei com o coração humilhado: "Meu Jesus Bem-Amado, dai-me as lágrimas de Pedro, a contrição de Madalena, e a dor daqueles pecadores que, depois de terem sido grandes pecadores, se tornarm verdadeiros penitentes, a fim de que, por esta Missa, eu obtenha o mais completo perdão de meus pecados. Repeti muito destes atos de profunda e sincera contrição. Dai livre curso a vossos sentimentos e, sem confusão de palavras, mas do fundo do coração. Fazendo estes muitos atos de contrição, todo recolhido em Deus,  ficai certo de que assim pagareis completamente todas as dívidas que, por vossos pecados, contraístes com Deus.
   TERCEIRA PARTE: Depois da elevação até à Comunhão: Cumpris o terceiro dever de agradecer a Deus as graças recebidas. É outro fim da Missa chamado eucarístico: AGRADECER. Considerai os imensos benefícios de que foste cumulado e, em troca, oferecei a Deus um presente de valor infinito: o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. Convidai mesmo todos os anjos e santos a render graças a Deus, por vós, da maneira seguinte: "Eis-me aqui, meu amado Senhor, cumulado de benefícios tanto gerais como particulares, que concedestes e quereis concder-me no tempo e na eternidade. Reconheço que vossas misericórdias para comigo foram e são infinitas. Eis aqui, portanto, em reconhecimento e em paga, este sangue divino, este corpo sacratíssimo , que vos apresento pela mão do sacerdote. Ó queridos santos, meus advogados, agradecei por mim a Deus a sua bondade, não viva eu e morra como ingrato, Poço-vos, suplicai-lhe aceitar minha boa vontade e levar em conta o agradecimemto cheio de amor, que, por esta missa, lhe oferece, por mim, o meu Jesus". Devemos repetir muitas vezes estes atos de ações de graça pelos benefícios recebidos da Bondade divina.
   QUATA PARTE: Depois da Comunhão até o fim da Missa: Cumpris o quarto dever que é o de pedir novas graças. É o fim da Santa Missa chamado impetratório: PEDIR GRAÇAS. Depois da comunhão sacremental do sacerdote e depois que comungardes também sacramentalmente, ou, senão for o caso, depois que fizerdes a comunhão espiritual, podeis e deveis pedir a Jesus novas graças. Comtemplando a Deus nos íntimo de vosso coração, não receeis pedir-Lhe muitas graças, pois neste momento Jesus une-se todo a vós e Ele mesmo ora por vós. Expandi, portanto, vosso coração, pedindo, não coisas de somenos importância, mas grandes graças, já que tão grande é a oferenda que Lhe fazeis, o seu divino Filho. Dizei-Lhe então com o coração repleto de humildade:"Ó meu Deus, reconheço-me por demais indigno de vossos favores; Não mereço ser atendido. Como poderíeis, porém, deixar de escutar vosso divino Filho, que, sobre este altar, pede por mim, oferendo-Vos a sua vida e o seu sangue?"
   Pedi graças para vós, para as crianças, para vossos amigos, parentes e conhecidos; implorai socorro para todas as vossa necessidades espirituais e temporais, rogai para a santa Igreja a plenitude de todos os bens e o fim de todos os males. E não o façais com negligência, mas com grande confiança, seguros de que vossas orações, unidas às de Jesus, serão atendidas. Saí da Igreja com o coração conpungido, como se descêsseis do Calvário.
   Dizei-me agora: se tivésseis ouvido deste modo todas as missas às quais assististes até ao presente, de quantos tesouros não teríeis enriquecido vossa alma!?
   No fim de seu livro sobre "As excelências da Santa Missa" São Leonardo traz alguns exemplos para excitar os padres e os fiéis, a uma grande devoção à Santa Missa. Vou transcrever apenas três.

EXEMPLOS
   1º - A piedosa rainha Maria Clemtina, que morreu em Roma com 33 anos de idade e foi assistida no hora da morte pelo mesmo São Leonardo de Porto Maurício. Diz este santo Missionário: "Como a própria Maria Clementina se dignou dizer-me muitas vezes, punha todas as suas delícias em assistir ao divino Sacrifício e cada dia ouvia quantas Missas podia, Mantinha-se imóvel, diz S. Leonardo que o presenciou muitas vezes, sem almofadas, sem apoio , imóvel como uma estátua. Sua carruagem, continua S. Leonardo, percorria a toda velocidade as ruas de Roma, a fim de permetir-lhe chegar a tempo nas diversas igrejas." Esta santa rainha era dirigida espiritualmente por S. Leonardo. Ele afirma que Maria Clementina lhe escreveu um carta jé no leito de morte onde ela afirma que morria porque seu coração não agüentava mais o ardente desejo de receber Jesus todos os dias. E isto naquela época não era permitido.  

  2º - Fora de Roma, diz São Leonardo, conheço uma grande princesa, ilustre tanto por sua piedade como pelo seu nascimento, que ouve cada manhã várias missas, e ocupa suas damas nos trabalhos destinados ao altar, a ponto de enviar caixas cheias de corporais, manustérgios e outras peças semelhantes aos missionários e pregadores, para que as distribuam às igrejas pobres e a fim de que o divino Sacrifício seja oferecido a Deus com toda pompa, decência e solenidade adequadas.

   3º- Para ouvir a Missa Santa Isabel da Hungria se dirigia com grande pompa à igreja. Mas para assistir o Santo Sacrifício da Missa, retirava da cabeça a coroa, os anéis dos dedos, depunha seus ornamentos de rainha, e cobria-se com um véu, ficando em atitude tão modesta que jamais foi vista desviar sequer os olhos. Tudo isso agradou de tal modo a Deus, que Ele quis manifestá-lo a todos: durante a Missa, a Santa aparecia envolta de tal claridade que se velavam de deslumbramento os olhos dos assistentes; parecia-lhes comtemplar um anjo do Paraíso.
São Leonardo apresenta inúmeros exemplos e de todas as classes de pessoas. Mas não posso cançar-vos.
Não posso, porém, deixar de fazer-vos uma pergunta: Diante do que vemos hoje, há ou hão motivo de chorar?