sábado, 4 de junho de 2016

POSIÇÃO DE D. MARCEL LEFEBVRE - Excertos de algumas declarações

  Refiro-me a posição de D. Lefebvre em relação à Santa Sé ou, mais explicitamente, atinente ao cisma ou sedevacantismo. Tempo de guerra, mentira como terra!  Ontem como hoje houve muitos mal-entendidos atinentes à posição de D. Lefebvre em relação à Santa Sé. Com a grande diferença que, enquanto era vivo, D. Lefebvre sempre que mal interpretado, procurava dar esclarecimentos. Hoje, cada qual, dependendo de sua posição, procura puxar a brasa para a sua sardinha, como se diz vulgarmente aqui no Brasil. 

  Defunctus adhuc loquitur: fala através de suas declarações públicas que até à morte não foram desmentidas: 

  Foi célebre a Declaração de 21 de novembro de 1974:

    "Nós aderimos de todo o coração, de toda a nossa alma à Roma Católica, guardiã da Fé Católica e das tradições necessárias para a manutenção desta Fé, à Roma eterna, Mestra de Sabedoria e de verdade.

   Nós recusamos, ao contrário, e sempre recusaremos seguir a Roma de tendência neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no Concílio  Vaticano II e, depois do Concílio, em todas as reformas que dele saíram. Todas estas reformas, de fato, contribuíram e contribuem ainda para a demolição da Igreja, para a ruína do Sacerdócio, do Sacrifício e dos Sacramentos.
    
   Eis porque, sem nenhuma rebelião, nenhuma mágoa, nenhum ressentimento, nós prosseguiremos nossa obra de formação sacerdotal, sob a orientação do Magistério de sempre, persuadidos de que não podemos prestar melhor serviço à Santa Igreja Católica, ao Sumo Pontífice e às gerações futuras..."

    Em 18 de maio de 1975, D. Lefebvre dava o sentido exato desta declaração:

    "Jamais foi minha intenção e a dos meus colaboradores, romper em qualquer coisa que fosse, com a unidade com a Igreja Católica e com o seu Chefe legítimo o Papa Paulo VI. Por isso, solenemente renovo minha adesão dedicada ao Soberano Pontífice e à Hierarquia católica de que, pela graça de Deus e autoridade da Sé Apostólica, faço parte já há cerca de 30 anos. Interpretar minha declaração de 21 de novembro (de 1974) num sentido cismático, é uma coisa impossível e esclareci ao Revmo. Padre de Nantes em minha carta de 19 de março de 1975 na qual eu escrevia: "Sabei que se um bispo romper com Roma este não serei eu". Minha declaração di-lo explicita e fortemente. 

    No entanto, negar a influência modernista que se exerce na Igreja, especialmente depois do Concílio Vaticano II, nas reformas que pretendem ser inspiradas no Concílio, equivaleria negar a evidência que se faz cada dia mais premente e dolorosa ao coração dos fiéis.

    Nós respeitamos com toda sinceridade os textos deste Concílio pastoral na linha de toda Tradição, assim como o indicava com precisão o Soberano Pontífice João XIII em sua alocução no final da missa de abertura (do Concílio) em 11 de Outubro de 1962. 

    Por isso reprovamos com vigor toda ambiguidade e toda interpretação abusiva dos textos do Vaticano II e professamos a autoridade deste Concílio no que diz respeito às diferentes notas teológicas, aplicáveis a todos os textos conciliares. 

  Fé na Igreja, fé no Primado do Romano Pontífice, a rejeição de tudo o que contribui para a autodemolição da Igreja, tal é a linha que nós seguimos no meio e apesar da provação presente". 
  
  Ecône é um manancial sacerdotal para contribuir na edificação de Igreja Católica, Apostólica e Romana. Ecône não tem outra pretensão". 


Declaração de 16 de Janeiro de 1979 (alguns excertos)


  "O problema que se põe: como pode acontecer que, existindo as promessas que Nosso Senhor Jesus Cristo fez de assistir ao seu Vigário, ao mesmo tempo esse Vigário possa, por si mesmo ou por outros, corromper a fé dos fiéis?"

  "Alguns insistem sobre o caráter da assistência ao Papa e que, por isso, ele não pode equivocar-se, logo deve-se obedecer-lhe: logo não temos o direito de discutir de nenhuma maneira o que faz ou diz o Papa. Esta é uma obediência cega, que tão pouco é conforme à prudência". 

  "Constatamos que coisas que nos são ensinadas, não estão em conformidade com o que a Tradição nos ensina. Há uma situação de fato diante da qual nos encontramos. Que devemos fazer? (...)

   "Evidentemente, aqueles que raciocinam de uma maneira muito lógica, sem considerar todos os matizes que há na realidade, a qual não é feita de uma lógica implacável, concluem precipitadamente que o Papa não é Papa".

   "Há dois princípios de solução:

  - Afirmar que o Papa diz heresias; logo não é Papa; logo é um intruso; logo não devemos obedecer. 
  - Questionar-se em que medida as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo de assistir ao Papa deixam a este a possibilidade de realizar certos atos ou dizer certas coisas que, por sua própria lógica, fazem perder a fé aos fiéis. Em que medida são compatíveis as promessas e a destruição da fé por negligência, omissão, atos equívocos, etc. Dadas as dificuldades para resolver todas estas questões difíceis e delicadas, eu não ouso dirimir, de maneira absoluta, entre todas estas opiniões, hipóteses. Não me sinto capaz posto que não conheço suficientemente as circunstâncias que rodeiam os fatos do Papa, para determinar de maneira certa que não temos Papa". 

  "Na prática isto não tem influência sobre nossa conduta, porque rechaçamos firmemente tudo aquilo que vai contra a fé, sem saber inclusive quem é o culpado".

   "Prefiro partir do princípio de que tem que se defender nossa fé. Este é o nosso dever. Aqui não há lugar para dúvida alguma. Conhecemos a nossa fé. Se alguém ataca nossa fé, dizemos: não! Mas daqui a dizer em seguida que, porque alguém ataca nossa fé, é herético, logo não é mais autoridade, logo seus atos não têm nenhum valor... Atenção, atenção, atenção!... Não nos metamos em um círculo infernal do qual não saberemos como sair. Nesta atitude existe um verdadeiro perigo de cisma". 

   "Não pretendo ser infalível; pretendo combater nas circunstâncias atuais com toda a fé possível, com a oração e com o auxílio da graça". 

   
Declaração de 08 de Novembro de 1979 (alguns excertos)

  "A questão da visibilidade da Igreja é demasiado importante para sua existência, como para que Deus possa omiti-la durante décadas".

   "O argumento dos que afirmam a inexistência do Papa põe a Igreja em situação confusa. Quem nos dirá onde está o futuro Papa? Como poderia ser designado um Papa onde não houvesse mais cardeais? Este espírito é um espírito cismático, ao menos para a maioria dos fiéis, que se afiliarão a seitas verdadeiramente cismáticas como a de Palmar de Troya, a da Igreja Latina de Toulouse, etc.".

   "Queremos permanecer aderidos a Roma, ao sucessor de Pedro, mas rechaçamos seu liberalismo por fidelidade aos seus antecessores. Não temos medo de dizê-lo respeitosa mas firmemente, como São Paulo frente a São Pedro. Por isso, longe de rechaçar as orações pelo Papa, aumentamos nossas rezas e suplicamos para que o Espírito Santo o ilumine e o fortaleça no sustento e defesa da fé".

    "Por isso jamais rejeitei ir a Roma a seu chamado ou ao chamado de seus representantes. A verdade deve firmar-se em Roma mais do que em qualquer outro lugar. Pertence a Deus quem a fará triunfar". 

    "...Creio necessário fazer estas precisões para permanecer dentro do espírito da Igreja". 

  Caríssimos e amados leitores, devo dizer que, pelo que eu sei, D. Marcel Lefebvre manteve esta posição até o fim, mesmo após o desastroso encontro de Assis, conforme suas declarações em Março de 1986 e Dezembro de 1988. 

   Para o bem da verdade, pelo o que eu pude até agora constatar, em um ponto somente D. Lefebvre voltou atrás: é o caso das Sagrações Episcopais: Eis o que o Fundador da FSSPX escreveu no final de seu Livro "CARTA ABERTA AOS CATÓLICOS PERPLEXOS", escrito em 04 de julho de 1984: 

Olhar perscrutador! Teria sagrado quatro
bispos, se pudesse ter lobrigado o futuro?
Creio que não sagraria aquele que hoje
 é o fundador da "RESISTÊNCIA", porque
D. Lefebvre nunca aprovou qualquer
espírito de rebelião e desacato
às autoridades. 
     "Escreve-se também que minha obra desparecerá depois de mim, porque não haverá bispos para substituir-me. Estou certo do contrário, não tenho inquietação alguma. Posso morrer amanhã, o Bom Deus tem todas as soluções. Encontrar-se-ão pelo mundo, eu o sei, bispos suficientes para ordenar nossos seminaristas. Mesmo se ele se cala hoje em dia, um ou outro destes bispos receberia do Espírito Santo a coragem de se erguer a seu turno. Se minha obra é de Deus, Ele saberá mantê-la e fazê-la servir ao bem da Igreja. Nosso Senhor no-lo prometeu: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela".
        "É por isso que eu me obstino, e se quereis conhecer a razão profunda desta obstinação, ei-la. Eu não quero, na hora de minha morte, quando Nosso Senhor me perguntar: "Que fizeste de teu episcopado, da tua graça episcopal e sacerdotal?" ouvir de sua boca estas palavras terríveis: "Tu contribuístes para destruir a Igreja com os outros". 

        Quando em 30 de junho de 1988, deixando de lado aquela "obstinação", sagrava não um ou dois mas quatro bispos, D. Lefebvre fez a seguinte declaração: "Não é de modo algum no espírito de ruptura e de cisma que nós realizamos estas sagrações. Nós afirmamos nossa adesão e submissão à Santa Sé e ao Papa". 
  
  

    
  

2 comentários:

  1. A Benção, Pe. Elcio!!!

    Não poderia deixar de manifestar-lhe o quanto acho importantíssimo esse trabalho de exposição histórica com justa crítica sobre o Movimento Pró Tradição de Dom Antônio e Dom Lefebvre.

    Para muitos como eu (que nasci em 1988) e estou envolvido com esse Movimento, por ser da Administração Apostólica desde nascido, e que preciso dar respostas satisfatórias às questões que me vêm (sem contudo desejar passar-me por teólogo), as informações que o Sr. expõe aqui são de imenso valor. Pois não precisamos conhecer o passado para entender o presente???

    Muito obrigado por esse Acervo que o Sr. nos está disponibilizando neste blog!

    Nota mil!!! Para esse artigo sobre Dom Lefebvre e para a série de artigos sobre os Papas Honório I e Libério!

    Salve Maria!

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  2. A questão acima acerca do que disse D Lefebvre gera uma reflexão bastante profunda; procuro diferir a Igreja-Jesus, sendo outro caso os componentes dela, seus membros, nós, falíveis, à exceção do S Padre em certas situações, gozando do privilegio da infalibilidade.
    Alíás, as críticas diretas que alguns fazem ao papa Francisco de forma ferina são reprovaveis, como tantas leio; os procedimentos dos cardeais e bispos discordantes dele são respeitosos.
    Perseguir a Igreja e seus ministros como um todo de forma generalizada é gravíssimo erro - à exceção dos que aparentam ser dela, desviaram-se, hoje aliados de ideologias em todos os níveis - seria infiltrados - enfiados até em PCs ou protetores do PT, MST etc., de forma patente - combater seus erros e influencias nefastas que fazem no meios católicos, creio que seja dever nosso, citando por ex., o Pe João, deputado do PT, de imediato aderente ao aborto e aos comunistas, votando contra a saída de Dilma, os quais o papa Leão XIII sentenciou-os de "pestes mortais", na QAM.
    Mesmo o saudoso emérito papa Bento XVI em Erfurt: nazistas e fascistas = pestes negras; comunistas = pestes vermelhas e quem se ajuntar a esses tenebrosos, compartilharão e se excluirão da Igreja - pior ainda se clérigos!

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