segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

PERIGO DA AVAREZA CONSIDERANDO O EXEMPLO DE JUDAS ISCARIOTES

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 15 de fevereiro


Acautelemo-nos contra uma paixão, que pôde perverter um Apóstolo, na escola, e à vista de Jesus Cristo, e lança na alma tão densas trevas a ponto de poder levá-la ao desespero mesmo diante da própria Misericórdia.

Vimos que toda paixão cega. Mas, talvez este efeito seja mais espantoso na avareza. Vamos avaliar isto considerando seu triste efeito em um Apóstolo, Judas Iscariotes. Quem, melhor do que Judas, devia conhecer o nada das riquezas e a excelência da pobreza voluntária. E até podemos dizer que este infeliz Apóstolo tinha mais oportunidade de ver que o dinheiro  nos pode ajudar a ganhar o céu, quando o damos aos pobres. Ele era encarregado exatamente desta missão de caridade. Mas, pelo contrário, só pelo fato de estar lidando com o dinheiro, a ele se apegou. O dinheiro que ele recolhia era justamente para a Igreja poder ajudar aos pobres. Mas ele começou a se apegar, não combateu desde o início o vício da avareza. e cresceu tanto que os remédios foram frustrados, embora concedidos pelo Médico de nossas almas, Nosso Senhor Jesus Cristo. Confesso que prego contra a avareza, só porque Jesus Cristo pregou, mas, no fundo, acho que perco tempo, pelo menos em relação àqueles que já são dominados por este terrível vício.É óbvio, que, se pela pregação conseguir pela graça de Deus que muitos não venham cair neste precipício infernal, já seria razão suficiente para não só não deixar de pregar, mas um incentivo para pregar muito sobre este assunto.  Os corações dos avarentos são um terreno coberto de espinhos. Se não riem do pregador abertamente, por dentro não deixam de zombar. Estão sufocados pelos espinhos da avareza. Voltemos ao lúgubre exemplo de Judas.

Judas Iscariotes tinha ouvido os divinos ensinamentos de Jesus Cristo, a respeito do desapego dos bens da terra: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (S. Mateus, V, 3; tinha ouvido  os anátemas que fulminou contra os ricos: "Ai de vós, ó ricos! porque tendes a vossa consolação [neste mundo]; e também: "Jesus vendo esta tristeza [do moço rico a quem Jesus exigiu que deixasse tudo para O seguir] disse: Quanto é difícil que aqueles que têm riquezas entrem no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo [corda grossa de segurar navio] pelo orifício de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus" (S. Lucas, XVIII, 24 e 25). Judas, outrossim, ouviu muitas vezes, as instantes recomendações que fizera aos seus Apóstolos e a ele mesmo, mandando-os anunciar o seu Evangelho(Cf. S. Marcos VI, 8). Tinha experimentado, assim como os demais Apóstolos, como o Céu abençoa o ministério dos pobres. Quando a sua paixão desatou em murmurações contra Madalena: "Por que [este desperdício]se não vendeu este bálsamo  por trezentos dinheiros e se não deu aos pobres? Disse isto, não porque se importasse com os pobres, mas porque era ladrão, e, tendo a bolsa, roubava o que se lançava nela"(S João XII, 4-6); então Jesus louva a piedosa prodigalidade desta mulher, e profetiza que esta ação a honrará aos olhos de todo o mundo. Jesus ensinava assim que o dinheiro também ajuda a levar para o céu aqueles que o dão à Igreja para o culto de Deus. Mas Judas estava cego.

Mas, caríssimos, o exemplo do Salvador devia convencer o Iscariotes melhor que tudo o mais. Ele acreditava na sua divindade: tantas eram as provas que disso lhe tinha dado! Não ignorava que tudo o que Deus despreza, é desprezível, e o que Ele estima, estimável.  Ora, ele tinha diante dos olhos o Senhor dos universo, que não possuía nada, e nada queria possuir. E Judas com todas estas luzes não vê!

Ainda mais: o amor do dinheiro cega-o, a ponto de lhe fazer esquecer os interesses da sua mesma cobiça; pois, conhecendo a sanha dos inimigos de Jesus, podia explorar-lhes o ódio e vender por alto preço uma vingança que para eles nunca seria demasiadamente cara. Nada disto faz; é o que eles quiserem dar: "Quanto vocês me querem dar?" Contenta-se com trinta dinheiros, ele que pouco antes lamentava tanto ter perdido mais trezentos. Oh! que delírio, oh! que monstruosa cegueira! exclama São João Crisóstomo. Mas terá ela melhor explicação hoje?

Bossuet observa que Jesus Cristo não diz: Cuidado com a avareza; mas sim: "Guardai-vos e acautelai-vos de TODA a avareza, porque a vida de cada um, ainda que esteja na abundância, não depende dos bens que possui" (S. Lucas XII, 15).

Caríssimos, o amor do dinheiro endurece o coração e torna-o capaz dos maiores crimes. Apenas Judas se deixou dominar pelo espírito de interesse, tornou-se insensível a tudo: já não tem amor senão ao dinheiro. Os esforços do Salvador para o atemorizar e comover, são inúteis. Se fala da sua morte próxima, e da traição de um dos seus discípulos, todos os outros se entristecem, só Judas fica impassível. Se Judas pensava que Jesus poderia mais uma vez se escapar da morte, e assim ganharia as trinta moedas e continuaria junto do seu Mestre, Jesus desfaz este sofisma satânico, predizendo que era chegada a hora de ser entregue  aos inimigos e vai ser morto,; mas, como já dissemos, esta paixão, talvez mais do que as outras, cega o infeliz por ela dominado. Só acorda quando vê que Jesus realmente ficou preso e era conduzido pelos inimigos. Mas, em lugar de pedir perdão a Jesus, que o chamara de amigo no momento mesmo do beijo traidor, não! se desespera. e se suicida.
Jesus havia se abatido para lavar os pés dos Apóstolos. Pedro não pode consenti-lo, e exclama: "Senhor tu, lavares-me os pés? (S. João XIII, 6). Mas, Judas mostra-se indiferente e apresenta-lhe os pés. No Jardim das Oliveiras vê milagres: homens armados caindo ao som de uma palavra, e uma ferida curada repentinamente; vê a inefável bondade de seu Mestre que se inclina para receber o seu pérfido ósculo, e que ainda o trata de amigo! Nada o comove. Advertências, repreensões, ameaças, lágrimas, carícias, insinuações ternas e delicadas, Jesus emprega todos os meios para o ganhar; mas em vão; a sua alma materializada resiste a tudo; a sua avareza impele-o ao mais feio, ao mais sacrílego de todos os atentados. "Quanto quereis me dar, e eu vo-lo entregarei? Deus vítima da avareza! O Criador do mundo posto à venda, pois, há aqui um verdadeiro contrato: Jesus de um lado: eis, se é lícito dizê-lo, a mercadoria proposta; trinta dinheiros, eis o preço; Judas negociante, compradores os príncipes dos sacerdotes; Deus o vendido! A comunhão sacrílega e a desesperação virão completar estes horrores! Judas se suicida enforcando-se, e, como castigo visível de Deus, parte-se ao meio e suas vísceras se derramam pelo chão. Como não temer esta paixão, como não procurar dar esmolas aos pobres, como não pedir todos os dias a graça do desprendimento dos bens desta terra?!

E há ainda algo a mais neste vício que o torna ainda mais temível. É que a idade enfraquece as outras paixões, mas esta a idade fortalece. O avarento que viver muito para continuar procurando ter sempre mais. Quanto mais vive, mas quer juntar dinheiro. E quanto mais junta dinheiro, mais quer viver. No fundo sabe, que o ladrão da morte, roubar-lhe-á tudo. Procura não pensar nisso. Mas a graça de Deus por vezes o acorda. Mas ele abafa esta voz, abafa a consciência e procura abafar até a própria realidade.


Terminemos com a oração inspirada pelo Espírito Santo: "Inclina, Senhor, o meu coração para os teus preceitos, e não para a avareza" (Salmo 118, 36). Amém!

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