domingo, 7 de junho de 2020

A SANTÍSSIMA TRINDADE NA ALMA ( Extraído dos escritos teológicos de Tanquerey)

   Era na última Ceia. Jesus Cristo acabava de anunciar aos apóstolos a vinda do Espírito Santo, do divino Paráclito, que ficaria para sempre com eles (S. João, XIV, 19 e 20 ), quando lhes fez esta consoladora promessa: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (S. João, XIV, 23 ).

   Assim, pois, toda a alma que ama a Jesus e guarda os seus mandamentos é amada pelo Pai, e o Pai vem a ela, com o Filho e o Espírito Santo, e vem não para uma simples visita, mas para se fixar e nela fazer a sua morada; portanto, não por um prazo limitado, mas para sempre, enquanto não tiver a infelicidade de o expulsar com um pecado grave.

   Mas como vem até nós a Santíssima Trindade?

   Deus, diz-nos Santo Tomás, está naturalmente nas criaturas de três modos diferentes: pelo seu poder, porque todas elas estão sujeitas ao seu império; pela sua presença, porque ele vê tudo, mesmo os mais secretos pensamentos da alma; pela sua essência, visto que opera em toda a parte e em toda a parte Ele é a plenitude do ser e a causa primária de tudo o que há de real nas criaturas, comunicando-lhes sem cessar não apenas o movimento e a vida, mas o próprio  ser: "porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos, XVII, 28). 

   Entretanto, a Sua presença em nós pela graça é de uma ordem muito superior e mais íntima. É a presença da própria Santíssima Trindade, tal como a fé no-la revelou; o Pai vem até nós e em nós continua a gerar o Verbo; com Ele recebemos o Filho, perfeitamente igual ao Pai, sua imagem viva e substancial, que não cessa de amar infinitamente o Pai como por Ele é amado; deste amor mútuo brota o Espírito Santo, pessoa igual ao Pai  ao Filho, laço mútuo entre os dois, e no entanto distinto de um e de outro. Quantas maravilhas se operam numa alma em estado de graça!

   Se quisermos exprimir em duas palavras a diferença essencial que existe entre a presença de Deus em nós pela natureza e  sua habitação pela graça, podemos dizer que pela sua presença natural Deus está e opera em nós, mas que pela sua presença sobrenatural Ele próprio se nos dá para que gozemos a sua amizade, a sua vida e as suas perfeições: " O amor de Deus está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom. V, 5). Assim, pois, é-nos dado o Espírito Santo e com ele a Santíssima Trindade, pois as três pessoas divinas são inseparáveis.; é nosso e, se disso tivéssemos uma consciência viva e profunda, compreenderíamos que a graça é já um início da vida eterna, desta inefável alegria que se experimenta com a posse de Deus.

   Que relações estabelece a graça entre nós e as três pessoas divinas?

   Para aprofundarmos um pouco mais os nossos conhecimentos desta presença íntima, nada mais apropriado e seguro do que a própria palavra de Deus. Por isso escolhemos alguns textos das Sagradas Escrituras, sobre a ação do Pai e do Filho e do Espírito Santo em nós pela graça.

   a) Pela graça o PAI adota-nos como filhos. Este insigne privilégio brota da nossa incorporação em Cristo; desde o momento em que somos membros de Jesus Cristo e como que um prolongamento, uma extensão da sua pessoa, o Pai envolve-nos com o mesmo olhar paternal que a seu Filho, adota-nos como filhos, ama-nos como Ele o ama, não com um amor igual, mas com um amor semelhante. É o que declara o discípulo amado, São João, que foi de todos o que mais aprofundou os segredos do Mestre: "Vede que amor nos testemunhou o Pai, determinando que sejamos chamados filhos de Deus, e que o sejamos com efeito!" ( 1ª Jo. III, 1). Como vimos na postagem sobre a graça santificante, a nossa adoção não é puramente nominal, mas verdadeira e real, embora distinta da filiação do Verbo Encarnado. Porque somos filhos, somos herdeiros de pleno direito do reino celeste, e co-herdeiros daquele que é nosso irmão primogênito (Rom, VIII, 17).  Em vista disto, Deus manifesta para conosco a dedicação e a ternura de um pai. Mais ainda: de uma mãe: "Poderá a mulher esquecer o seu filho? Não terá compaixão do fruto das suas entranhas? Porém, ainda que ela se esquecesse, eu nunca me esqueceria de ti" (Isaías, XLIX, 15). "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu  Filho unigênito, para que todo o que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna" (S.João, III, 16).

   Poderia Ele dar-nos uma maior prova de amor? Poderemos nós recusar algo Àquele que, para nos salvar e santificar, nos dá o Seu próprio Filho, o Seu Filho unigênito?

   b) O FILHO veio também habitar na nossa alma; chama-nos seus irmãos e trata-nos como amigos íntimos. Ele que é o Filho eterno do Pai, o Verbo gerado desde toda eternidade, em tudo igual ao Pai, trata-nos assim com toda bondade e ternura. Após a Ressurreição, aparece a Madalena, que o seguira até ao Calvário, e, falando-lhe dos discípulos, diz-lhe:"Vai aos meus irmãos e diz-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus" (S. João, XX, 17). São Paulo diz: "Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rom. VIII, 29). Ele terá, pois, para conosco a ternura, a dedicação que um irmão mais velho consagra aos mais novos; irá ao ponto de se sacrificar por nós, a fim de que, lavados e purificados no seu sangue (Apoc. I, 5), possamos participar de Sua vida e entrar com Ele um dia no reino do Pai.

   Quis ser também nosso amigo. Na última Ceia, declara aos apóstolos e, na pessoa deles, a todos os que acreditarem n'Ele: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (S. João, XV, 14 e 15).

   O Filho de Deus deu-nos a maior prova de amor: deu a sua vida por nós. Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos" (S. João, XV, 13). E deu-a numa altura em que, pelo pecado, éramos seus inimigos. Se assim foi, o que não fará por nós,agora que fomos reconciliados pela virtude do seu sangue? Ouçamos o que Ele nos diz: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir  a minha voz e abrir a porta, entrarei nele, cearei com ele e ele comigo" (Apc. III, 20). Podia, se quisesse, entrar como Senhor. Mas não, espera que lho abramos de boa vontade: não quer forçar a entrada, quer que nós mesmos lha vamos abrir, e só depois entrará como amigo. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia com uma candura extraordinária: "Jesus, eu queria amá-lo tanto, amá-lo como nunca foi amado". Em nossas orações, comunhões e visitas ao Santíssimo, procuremos tentar conversar afetuosamente com Jesus, nosso irmão muito amado, com Ele que vem mendigar junto de nós um pouco de amor: "Meu filho, dá-me teu coração" (Prov. XXIII, 26).

   c) O ESPÍRITO SANTO vem habitar em nosso coração a fim de o santificar e adornar com todas as virtudes, produzindo nele a caridade e dando-se a si próprio: "A caridade de Deus é espalhada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rom. V, 5).

   Ao dar-se  ao homem, o Espírito Santo transforma a nossa alma num templo sagrado: "Não sabeis, diz-nos São Paulo, que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós? ... O templo de Deus é santo, e vós sois santos" (1ª Cor. III, 16 e 17). Ele é, com efeito, o Deus de toda a santidade, e, quando vem à nossa alma, esta torna-se um recinto sagrado e onde se compraz em derramar as suas graça com santa profusão.

   Deste modo o Espírito Santo torna-se nosso colaborador no obra da santificação pessoal e ajuda-nos a cultivar a vida sobrenatural que depositou em nós. Por si, o homem nada pode na ordem da graça (S. João, XV,5); mas o Espírito Santo vem suprir a sua fraqueza. Temos necessidade de luz? Eis que Ele desce para nos fazer compreender e saborear os ensinamentos do Mestre: "O Consolador, o Espírito Santo , que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse" S. João, XV, 26). Precisamos de força para pôr em prática as divinas sugestões? O mesmo Espírito "opera em nós o querer e o agir" (Filip. II, 13), isto é, dá-nos a graça de querer e  de pôr em prática as nossas resoluções. Não sabemos orar? "O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que, segundo as nossas necessidades, devemos pedir; porém, o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis" (Rom, VIII, 26). Ora, as preces feitas sob a ação do Espírito Santo e apoiadas por Ele são forçosamente ouvidas.

   Se se trata de combater as nossas paixões, de vencer as tentações que nos importunam, é Ele ainda que nos dá forças para lhes resistirmos e tirar delas proveito: "Deus, que é fiel, não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dar-vos-á o poder de lhe resistir" (1ª Cor. X, 13). Quando, cansados de praticar o bem, caímos no desânimo e receamos pela nossa perseverança, Ele virá até nós par sustentar a nossa coragem abalada e dir-nos-á afetuosamente: "Aquele que começou em vós a obra da vossa santificação há de aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus" (Filip. I, 6).

   Não temos, pois, que temer, desde que ponhamos a nossa confiança nas três pessoas divinas, que vivem e operam em nós expressamente para nos consolar, fortificar e santificar. Nunca estamos sós: temos em nós Aquele que faz a felicidade dos escolhidos! Eis porque, se tivéssemos uma fé viva, poderíamos repetir com a irmã Santa Isabel da Trindade: "Encontrei o céu na terra, porque o céu é Deus, e Deus está na minha alma. No dia que compreendi isto, tudo se esclareceu em mim, e eu quereria dizer este segredo àqueles que amo". Quantas almas foram transformadas, a exemplo desta Carmelita, no dia em que compreenderam, sob a ação do Espírito Santo, que Deus habita nelas! Quantas conheceram então um novo rumo na sua vida, uma ascensão contínua para Deus e para a perfeição, sobretudo se se esforçaram por viver na intimidade com o hóspede divino. E é justamente isto que vamos ensinar na postagem seguinte: OS NOSSOS DEVERES PARA COM O HÓSPEDE DIVINO.
  
  

sábado, 6 de junho de 2020

O CORAÇÃO DE JESUS NA MANEIRA DE PREGAR

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
6º dia de junho

Em primeiro lugar, contemplemos a maneira como Jesus pregava. Do modo mais simples, sem discursos de profana e rebuscada eloquência. Emprega uma linguagem natural, espontânea, ao alcance de todos. Usa de comparações ou parábolas tomadas ora de objetos familiares conhecidos de todos, ora de seres animados ou inanimados da natureza. Emprega "parábolas sublimes na sua simplicidade, que conservam hoje a mesma vitalidade e majestade que quando se pronunciaram", diz um autor. O povo, ou melhor todos os de coração reto, ouviam a Jesus suspensos de seus lábios divinos, e deixava correr as horas sem cuidar de atender à suas necessidades corporais. Ávidos por alimentar suas almas o bom povo acompanhava, às vezes, a Jesus pelo deserto, até por dias, sem se preocupar com o alimento corporal. Isto porque o Divino Mestre ensinava com dignidade e majestade, com uma autoridade que demonstrava tratar-se de alguém superior aos demais mortais. E a simplicidade, a doçura, a mansidão e a humildade de Seu amabilíssimo Coração, atraíam a todos.

Caríssimos,  façamos brotar em nosso coração sentimentos da mais profunda gratidão, por nos ter deixado o precioso tesouro da sua doutrina, que é luz, caminho e guia para nossa inteligência, consolo e esperança para o nosso coração e doçura para os nossos lábios.

Como nós padres devemos nos esmerar não só em pregar o que Jesus pregou, mas também procurar fazê-lo seguindo o exemplo do Divino Mestre! "Quem vos ouve a mim ouve" disse Jesus aos seus ministros e dispensadores de seus mistérios. Sabemos que infelizmente há muitos Judas Iscariotes, mas não podemos por isso, generalizar e cairmos num anti-clericalismo que, na verdade, é uma atitude e pensamento contrários a ordenação que Jesus deu à sua Igreja, que é hierárquica.


Quando Jesus se transfigurou no Monte Tabor, na presença de seus apóstolos prediletos, Pedro, que seria o primeiro chefe visível da Igreja, Tiago, que seria o primeiro apóstolo a dar testemunho de Jesus pelo martírio, João que era o discípulo especialmente amado por Jesus Cristo, uma nuvem luminosa cobriu-os, e de dentro da nuvem  falou o Pai celestial: "Este é meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências. Ouvi-O". Caríssimos, se o Pai ama a Jesus, não o devemos amar nós? Se Jesus Cristo era digno de todas as Suas complacências, não devemos nós também colocar Nele todas as nossas complacências, todo nosso amor?! E se nos manda que ouçamos o que nos ensina, não o devemos ouvir? Na verdade, Jesus já subiu para os céus e assim não podemos ouvi-Lo diretamente,   dita esta que teve o povo da Palestina há 20 séculos. Mas Jesus disse claramente, dirigindo-se aos seus apóstolos e, na pessoa deles, aos seus sucessores: "Quem vos ouve, a mim ouve, e quem vos despreza a mim despreza". Amém!

sexta-feira, 5 de junho de 2020

O CORAÇÃO AMABILÍSSIMO DE JESUS E A VERDADE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
5º dia de junho

Logo no início de sua vida pública, isto é, de apostolado, o Coração adorável de Jesus Cristo quis alimentar as almas com a sua doutrina, com a Verdade. Dissera que a doutrina que pregava recebeu-a do Pai: ""Minha doutrina não é minha mas do Pai que me enviou". A nenhum homem é permitido adicionar ou subtrair algo sequer desta doutrina, nem um pontinho, nem um traço. É tão alta, é tão sublime que só o Divino Espírito Santo, poderá completá-la, no sentido de dar aos Apóstolos a capacidade de entender toda ela. Verdade imutável porque perfeita, porque se identifica com o próprio Jesus que é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre. "Eu sou a Verdade", dissera o Divino Mestre.

Não é sem motivo que Santo Agostinho lamentava: "Ó verdade sempre antiga e sempre nova, quão tarde de conheci, quão tarde de amei!" Caríssimos, a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo brota qual água viva, do manancial inefável de seu Amabilíssimo Coração. Quão pura, quão santa, a mais perfeita, mais humana e mais divina ao mesmo tempo. A doutrina de Jesus é superior a toda a sabedoria criada. Esta doutrina satisfaz plenamente o nosso coração, e só ela! Só a excelência e santidade desta doutrina é por si mesma um testemunho inegável da divindade do divino Mestre.

Tão sublime e tão amável esta doutrina que brota do Coração de Jesus! Pois ensinava que Deus é nosso Pai, e Pai amantíssimo e boníssimo; que nos protege; que nos criou para o céu; e que só serão eternamente condenados os que se afastam voluntariamente do seu amor e da obediência aos seus mandamentos.; que todos os homens são irmãos como filhos de um mesmo Pai; que constituímos uma só família, por termos todos a mesma origem e o mesmo destino e que assim devemos amar-nos uns aos outros como nos amamos a nós mesmos. Jesus ensinava que nunca devemos fazer a outrem o que não desejássemos que nos fizessem a nós; e que fizéssemos ao próximo tudo o que desejássemos que nos fizessem a nós. "Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e assim encontrareis descanso para as vossas almas", exortava Jesus. Ensinava enfim todas as virtudes mas sobretudo o amor para com Deus e a caridade para com o próximo, até para os próprios inimigos. Esta caridade, no seu duplo aspecto, é como a alma e a síntese de todos os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, deste princípio da caridade dimanam todos os outros deveres, que ensinava ao povo a colocar em prática. E sabemos como todos os de coração reto ficavam atraídos pelo encanto celestial da palavra e da Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todos percebiam que seus lábios divinos transmitiam o amor transbordante daquele Coração Divino.


É bem verdade que o Divino Mestre exigia a abnegação própria, a mortificação da soberba e da sensualidade, o desprezo das riquezas, mas convencia a todos que só assim teriam a verdadeira felicidade, e bondosamente lhes prometia uma grande recompensa nos Céus. O Coração de Jesus ensinava enfim todas as virtudes e combatia tudo o que pudesse afastar os homens de Deus e, portanto, da paz e felicidade verdadeiras. Mas caríssimos, vamos em postagens posteriores meditar sobre o "Sermão da Montanha". Jamais de lábios humanos poderá sair doutrina tão elevada, tão consoladora, tão celestial, tão divina!!! Amém!

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A IGREJA CATÓLICA


A Santa Igreja é um edifício cuja pedra angular é Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, sendo embora Jesus Cristo  o Mestre por excelência, antes de subir aos céus, quis deixar na terra seus representantes na pessoa dos Apóstolos  e de seus sucessores: "Quem vos ouve, a Mim ouve" (S. Lucas X, 16); outrossim, Jesus é Deus e só Ele pode perdoar pecados, e, no entanto, quis transmitir este poder divino também aos seus discípulos e aos seus sucessores, isto é, aos bispos e sacerdotes: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (S. João XX, 21-23). Assim também, embora seja Ele a pedra angular do edifício da Igreja, quis colocar uma pedra visível, ou seja, o Apóstolo Pedro e seus sucessores que são os Sumos Pontífices, que chamamos hoje PAPAS. Neste intuito é que Jesus já havia trocado o nome daquele que seria o chefe dos apóstolos: chamava-se Simão, e Jesus disse-lhe que seria chamado  Pedro, que em hebraico Kéfas significa PEDRA, como no idioma francês, Pierre é Pedro e pedra. "Tu és Pedro (=Kéfas = pedra, rocha) e sobre esta PEDRA edificarei a minha Igreja" (S. Mateus XVI, 18). E assim estava fundada a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, edifício sólido que nunca seria destruído pelas forças inimigas. Mas a Santa Igreja deveria ser  UNA, isto é, uma só, a única verdadeiramente de Jesus Cristo: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a MINHA Igreja". Jesus não disse as MINHAS, no plural. Assim como S. Paulo diz aos Efésios (IV, 5) que há "um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo", assim só uma Igreja verdadeira deveria existir sobre a terra. As Seitas são invenções dos homens. O Catecismo romano demonstra a unidade intrínseca e a extrínseca da Igreja.  Jesus Cristo quis ainda que sua Igreja fosse Apostólica, Santa e Católica. Se Deus quiser, falarei em outro artigo sobre as notas características da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo; agora quero explicar como esta única Igreja de Jesus Cristo, Seu Corpo Místico, se tornou  CATÓLICA (isto é, do mundo inteiro) segundo o mandato de Jesus: "Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei" (S. Mateus XXVIII, 19 e 20).

Caríssimos, esta outra nota característica da Santa Madre Igreja se concretizou no Pentecostes por virtude do Divino Espírito Santo. Eis a descrição de S. Lucas nos Atos dos Apóstolos: "Quando se completaram os dias do Pentecostes, estavam todos no mesmo lugar; e, de repente, veio do céu um estrondo como de vento que soprava impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, e pousou sobre cada um deles. Foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Estavam então residindo em Jerusalém judeus, homens religiosos de todas as nações que há debaixo do céu. Logo que se deu este ruído, acudiu muita gente e ficou pasmada, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. Estavam, pois, todos atônitos e admiravam-se, dizendo: Porventura não são galileus todos estes que falam? Como é que os ouvimos cada um de nós falar a nossa língua, em que nascemos? Partos, medos, elamitas , os que habitam a Mesopotâmia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito e várias partes da Líbia, que é vizinha de Cirene, e os vindos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes; (todos) os ouvimos falar nas nossas línguas das maravilhas de Deus" (Atos II, 1-11) E Pedro fez seu primeiro sermão e com ele converteu três mil pessoas que foram batizadas com o Batismo que Jesus instituíra. Depois,  o Apóstolo Pedro fez outro sermão e o número de pessoas que se converteram elevou-se a cerca de cinco mil. E caríssimos, e sem contar outros milhares que se converteram com as pregações dos outros dez Apóstolos. E S. Lucas diz no mesmo livro dos Atos V, 14: "Cada vez aumentava mais o número dos homens e mulheres que criam no Senhor".

Por conseguinte, vemos que com a descida do Espírito Santo no Pentecostes a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo se espalhou  pelo mundo todo até então conhecido, e assim com toda justeza podemos afirmar que a Santa Igreja já se tornara CATÓLICA. Esta é a Igreja de Jesus Cristo, a única verdadeira e divina. As seitas são falsas porque puramente humanas. Assim devemos crer e confessar, quer agrade, quer desagrade. Nada de "subsistit in" do Concílio Vaticano II, façam lá o malabarismo que quiserem para justificar tão desastrosa expressão ambígua!!! Não podemos entender que o Concílio Vaticano II, querendo ser pastoral e assim ser mais acessível ao povo, tenha abandonado uma expressão tradicional que nunca dera espaço à ambiguidades, para trocá-la por outra que até mesmo pessoas instruídas e teólogos tenham interpretado em sentido errado! Os frutos desta árvore são maus, logo esta árvore é má; é de inspiração modernista, envenenada em sua raiz. Isto digo sem julgar as intenções de quem aventou esta mudança. 

Termino com um trecho da Profissão de Fé do Concílio de Trento: "Condeno ao mesmo tempo, rejeito e anatematizo as doutrinas contrárias e todas as heresias condenadas, rejeitadas e anatematizadas pela Igreja". Amém!

O CORAÇÃO AMÁVEL E HUMILDE DE JESUS


LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
4º dia de junho

Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo o Filho de Deus feito Homem, é o modelo perfeitíssimo de todas as virtudes. Mas já na sua vida publica pregou dizendo: "Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração" (S. Mateus XI, 29). Quis dar um destaque especial a estas duas virtudes, que, na verdade são  gêmeas.

Caríssimos, vamos continuar contemplando a bondade e o amor do Coração de Jesus em sua vida pública. Já o contemplamos em sua vida oculta.

O Divino Salvador inicia sua vida de apostolado, com atos de profunda humildade: o seu batismo, o seu retiro de quarenta dias de jejum e oração para depois ser levado pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo demônio.

Jesus Cristo Nosso Senhor, como Ele mesmo afirmou, nunca fez nada por ser de seu agrado, mas procurou fazer tudo segundo a vontade de Seu Pai: "Não procuro a minha satisfação mas aquilo que é do agrado de meu Pai que me enviou" (S. João V, 30). Se passou trinta anos junto de sua Mãe Santíssima, é porque assim o Pai determinou. Chegada, no entanto, a hora determinada pelo Pai, Jesus despede-se de Sua Mãe, e sai para pregar e fazer milagres. Serão três anos em que passará fazendo o bem. Com a graça de Deus vamos contemplar o Coração amabilíssimo de Jesus. Não precisava porque era o Filho de Deus humanado, mas quis antes se humilhar: ser batizado no Rio Jordão pelo seu precursor  João Batista. Depois prepara-se para a sua missão salvadora por meio de um jejum rigoroso de quarenta dias numa montanha inacessível a qualquer pessoa (pode ser avistada de Jericó). Aí quis dar o exemplo de humildade e de como devemos afastar as tentações do demônio. Tudo isto flui da bondade de seu Coração. Jesus não precisava  passar por estas humilhações: ser batizado e ser tentado pelo demônio; mas tudo aceitou por nosso amor, visando sempre o nosso bem.

Vai dar início à sua Igreja. Aqui também o Coração amabilíssimo de Jesus pensa em todos os homens. Será através de sua Igreja que receberemos a verdade e a graça. Para tanto, logo vai conquistando pelos seus exemplos, pregações e milagres, os primeiros discípulos. Escolhe dentre eles doze homens, que serão seus Apóstolos. Acompanhados por eles  durante três anos, percorre as terras da Palestina, ensinando a Boa Nova, fazendo bem a todos, e realizando os mais extraordinários milagres em confirmação da sua missão divina. Nosso Senhor Jesus Cristo vai no decorrer destes três anos instituir os Sacramentos. Seu Coração amabilíssimo, sabe que terá que passar pela Paixão e morrer pregado numa cruz e deseja ardentemente que chegue este dia em que será batizado com um batismo de sangue. Sabe que irá ressuscitar para nos dar a justificação e que depois ainda estará na terra por quarenta dias e depois subirá ao céu para nos preparar um lugar.  Seu Coração não suporta deixar-nos órfãos. Assim através da Sua Igreja, dos Sacramentos e especialmente através da Santíssima Eucaristia, como Sacrifício e como Sacramento estará sempre conosco. O Filho de Deus se fez Homem através da sempre Virgem Maria, para ser o Emanuel, isto é, o Deus conosco. Amém!

quarta-feira, 3 de junho de 2020

O CORAÇÃO DE JESUS EM NAZARÉ


LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
3º dia de junho

Diz-nos o Evangelho que, depois de ter sido encontrado no Templo, Jesus voltou a Nazaré com Sua Mãe e São José, e ali permaneceu até à idade de trinta anos. E São Lucas resume todo este período nestas simples palavras: "E era-lhes submisso" (S. Lucas, II, 1). Assim, Aquele que é Sabedoria eterna quis passar trinta anos no silêncio e na obscuridade, na obediência e no trabalho.

São João Evangelista é considerado ditoso em ter recostado seu rosto sobre o peito de Jesus Cristo, de onde percebeu as batidas daquele Coração adorável. Que felicidade para o Coração de Maria Santíssima permanecer por trinta anos junto ao Coração adorável de seu Filho, que é o Filho de Deus feito homem por meio dela! Do Coração Imaculado de Maria é que saiu o sangue que jorra no Coração de Jesus!

Santa Isabel, repleta do Espírito Santo, chamou a Maria, Mãe do seu Senhor, bendita entre todas as mulheres, bem-aventurada porque acreditou. Nossa Senhora tinha certeza absoluta que o seu Filho é o Filho do Altíssimo. E assim podemos imaginar o doce enlevo com que conversou na intimidade daquela pequena e pobre casa de Nazaré com o seu Jesus. Que união daqueles dois corações!!!... Foi algo inefável que certamente, arrebatou em êxtases os próprios Anjos e todo Paraíso!

Ali em Nazaré, "a flor de Galileia", a "gentil rosa branca", como a chama São Jerônimo, decorreram calmamente os anos da adolescência e da juventude de Jesus Cristo. Quão afável, quão amável aquele Coração divino, nestas etapas de sua vida. Ali, "crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava n'Ele" (S. Lucas, II, 21). Ali levava uma vida exteriormente comum e podemos dizer até vulgar, porém aos olhos de Deus inteiramente extraordinária, celestial e divina pela puríssima intenção, a altíssima perfeição com que praticava todas as suas obras e virtudes. Evidentemente que não conheceu a ociosidade. A oração, a obediência, o trabalho foram as características da sua vida nestes quase trinta anos de permanência em Nazaré. Contemplemos o Coração de Jesus em Nazaré junto de Sua Mãe Santíssima: com que alegria no coração ao poder estar submisso a Ela. Pois o próprio Espírito Santo inspira São Lucas para colocar em relevo este detalhe: "Era-lhes submisso".

Podemos supor com justeza que, a maior parte do dia, Jesus passava com os seus Pais, constituindo o encanto e a felicidade deles. Com eles recitava os Salmos, e juntos oravam pela salvação do povo. Oh amabilíssima Trindade da terra! Os três corações mais puros e amáveis que existiram e é impossível existir outros iguais. Quanto ao Coração de Jesus, nele habita toda plenitude da Divindade, é o mais amável e o único digno de adoração. O de Nossa Senhora é o mais puro possível sobre a face da terra, é Imaculado; em uma palavra: é o Coração da Mãe de Deus. Não é preciso dizer mais nada, toda língua se cale. Quanto ao coração de S. José, sabemos pelo Espírito Santo, que é o coração dum justo.

Caríssimos, quem não amará Jesus, ao contemplá-Lo nesta época da sua vida em Nazaré, tão simples, tão bom, tão humilde, tão obediente, tão diligente, tão puro, tão modesto, tão religioso, tão belo... numa palavra tão amável? Ó dulcíssimo Coração de Jesus fazei que as crianças, os adolescentes e os jovens amem de verdade o Vosso adorável Coração!


Já tinha terminado e escrito Amém quando me veio um pensamento: Os infelizes Protestantes devem ficar embaraçados em pensar que Jesus Cristo só pregou durante três anos, e em companhia de Sua Mãe permaneceu trinta anos. Com certeza pensariam em protestar aqui também, mas preferem não tocar neste ponto. Não será isto dureza de coração sobretudo naqueles que dizem que Maria era uma mulher como as outras, enquanto a Bíblia diz que ela é cheia de graça e bendita entre todas as mulheres? Rezemos para que os protestantes se convertam. Amém!

terça-feira, 2 de junho de 2020

O CORAÇÃO DE JESUS EM BELÉM


LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, 2º dia de junho.

O Coração de Jesus se mostra amável em toda sua vida: em Belém, em Nazaré, na sua vida pública, na sua Paixão, na sua Ressurreição e Ascensão, na Santíssima Eucaristia e na glória do Céu! Em todos os mistérios da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo vemos brilhar de modo todo particular o AMOR. E tomamos o seu Coração como órgão símbolo deste amor. Na verdade foi o amor que fez Jesus nascer numa carne passível,  inspirou a obscuridade da Sua vida oculta, alimentou o zelo da Sua vida pública. No Calvário é por excesso dum amor sem medida que se entrega à morte por nós; se ressuscita é pelo amor afim de nos justificar: "Para nossa justificação" (Rom. IV, 25). Se sobe aos céus é o seu amor que O leva a preparar para nós um lugar, naquele Pátria de felicidade perfeita e eterna. É o Seu amor que nos envia o Divino Espírito Santo. E a Santíssima Eucaristia? São João diz tudo: "Tendo amado os seus que estavam neste mundo, amo-os até o fim". Caríssimos, todos estes mistérios têm a sua origem no amor; e o órgão e símbolo deste amor é o Seu Coração amabilíssimo.

Hoje vamos contemplá-Lo em Belém. Primeiramente, nos braços de Sua Mãe Santíssima, com o seu coraçãozinho já palpitando de amor por nós! Reclinado numa manjedoura sobre palha tiritando de frio por nosso amor. O Divino Infante olha para nós com doçura, estende para nós os seus bracinhos. Caríssimos, na verdade, como diz São Paulo: "Quando se manifestou a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens, não pelas obras de justiça que tivéssemos feito, mas por sua misericórdia" (Tito, III, 4). O Deus Onipotente faz-se Menino para a nossa salvação!!!... A simplicidade, a inocência, a candura, a pureza, a formosura, a bondade, a ternura, enfim o AMOR... tudo se encontra aqui no presépio de Belém, nesta criança que não fala mas com o coraçãozinho palpitante de infinito amor.

São Francisco de Sales contemplando o mistério do Divino Menino recém nascido na gruta de Belém, escrevia inflamado de amor: "O grande recém nascido de Belém seja para sempre a delícia e o amor do nosso coração. Ah, como é lindo! Quero cem vezes mais ver este pequeno Menino no seu presépio que a todos os reis da terra no seu trono".

Compreendemos perfeitamente como os santos faziam as suas delícias em contemplar o Menino Jesus na manjedoura de Belém. O coração cheio de amor do Menino-Deus fazia o encanto de São Francisco de Assis, de São Bernardo, de Santa Tereza d'Ávila. de Santa Teresinha do Menino Jesus e bem podemos dizer de todos os Santos.


"Sic nos amantem, quis non redamaret", "como não amar em troca Aquele que tanto nos ama? Caríssimos, procuremos, então, ao contemplarmos a amabilidade inefável do Divino Menino Jesus, despertar nas nossas almas aqueles mesmos sentimentos de amor que tiveram e têm os santos. Amém!

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O AMABILÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
1º DIA DO MÊS DE JUNHO

Caríssimos, é impossível saber quem é Jesus Cristo e não amá-lo de todo coração! O Símbolo Atanasiano explica de maneira completa e simples: "Esta é a fé reta: Crer e confessar que Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e Homem. É Deus formado da substância do Pai antes de todos os séculos, e é Homem nascido no tempo da substância de uma Mãe. Perfeito Deus e perfeito Homem, composto de alma racional e de carne humana. Igual ao Pai, segundo a Divindade; menos que o Pai segundo a Humanidade. E embora seja Deus e Homem, não são dois, mas um só Cristo".

Meditemos nas sublimes palavras com que o Apóstolo São João inicia o seu evangelho: "No princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus" e mais em baixo diz: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. E nós vimos a sua glória, glória qual corresponde ao Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade".

São João sobe, qual águia, e vai até a geração eterna do Verbo. "No princípio", diz Santo Agostinho, significa "antes de todas as coisas". "Verbo" quer dizer "palavra".  O Evangelista do amor não só proclama com toda clareza a divindade de Cristo, mas também a união da natureza divina com a natureza humana na única pessoa divina do Verbo: "E o Verbo se fez carne".  Fica claro outrossim, diz Santo Agostinho,  que o Verbo não é criado, pois por Ele foram feitas todas as coisas: "Todas as coisas foram feitas por Ele" (S. João, I, 3).

E assim com grande firmeza de espírito, com grande amor e júbilo proclamamos: Jesus Cristo Nosso Salvador é Deus e Homem juntamente. E assim: como Deus tem em Si todas as perfeições e atributos da Divindade. Jesus é o Ser infinito, é a própria Bondade, a divina Beleza, o sumo Poder, a Justiça e a Misericórdia infinita. Em poucas palavras: Nosso Senhor Jesus Cristo é o Infinito Amor, a Infinita Santidade. Daí concluímos: Nosso Senhor Jesus Cristo é digno de ser infinitamente amado! Jesus Cristo, sendo Deus é infinito, e, portanto, não temos capacidade de amá-Lo como realmente merece. E a conclusão lógica é esta: a medida de amar a Jesus é amá-Lo sem medida, é amá-Lo acima de todas as coisas. Neste vale de lágrimas, o nosso maior consolo é procurar amar a Jesus sempre mais, cada dia mais e mais e suspirar por contemplá-Lo no Céu.

E como Homem? É o mais perfeito e o mais amável de todos os homens. O próprio Espírito Santo assim fala através do Profeta e Rei Davi: "És o mais belo que todos os filhos dos homens; vê-se a graça derramada em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre" (Salmo 44, 3). Caríssimos, na formosura de Jesus, nada havia de mole ou efeminado que lisonjeasse os sentidos, no sentido que os mundanos julgam. Pelo contrário, o seu semblante  e todo o seu porte exalava inocência e pureza mais que angelical. Era a sua formosura de ordem superior, não meramente humana; era, em uma palavra, uma formosura digna do Homem-Deus. Sua Pessoa que era a mesma Pessoa do Filho de Deus, exalava um encanto  indescritível: as suas belas feições, viris, sim, porém cheias ao mesmo tempo de delicadeza, que inspiravam  simpatia e, simultaneamente, respeito. Poderia acaso haver voz mais sonora e modesta? A sua conversação e os seus modos afáveis, repletos de nobreza e cortesia; os seus movimentos e gestos, acompanhados de gravidade, de naturalidade. Enfim, todo seu semblante era nobre, digno, sacerdotal, majestoso, divinamente humano e humanamente divino, se assim podemos nos expressar.


Mas, caríssimos, há no corpo adorável de Jesus, uma parte que merece, já por si mesma, já pelo simbolismo, que façamos dela uma menção especial: é o seu CORAÇÃO AMABILÍSSIMO. É dele que vamos, com a graça de Deus, falar mais especificamente durante este mês. Amém!

COMO AUMENTAR A GRAÇA SANTIFICANTE



"Quando fazes alguma coisa boa, diz Santo Agostinho, faze-a por amor da vida eterna. Se por isso a fazes, estás seguro, porque assim o mandou Deus". Aqui na terra os eleitos começaram a amar merecendo, e lá no Céu continuaram a amar eternamente amando por prêmio.

A primeira causa capaz de aumentar os nossos méritos é o GRAU DE UNIÃO COM DEUS. Como sabemos, pelo Batismo o homem é realmente incorporado em Cristo; ora, sendo Ele a fonte de todos os nossos méritos, quanto mais intima, habitual e atualmente estivermos unidos a Ele, mais mereceremos. "Eu sou a videira, disse Jesus, e vós os ramos... Aquele que permanece em mim e eu nele dá muito fruto" (S. João, XV, 1-6). É por isso que a Santa Igreja nos exorta que pratiquemos as nossas ações por Ele, com Ele e n'Ele. POR ELE, porque ninguém vai ao Pai sem passar por Ele (S. João XVI, 6); COM ELE, porque sem Ele não podemos nada, e Ele quer ser o nosso colaborador; N'ELE, isto é, na sua virtude e sobretudo segundo as suas intenções. Assim fazendo, podemos dizer com S. Paulo: "Eu vivo, mas já não sou eu quem vive,é Cristo que vive em mim" (Gal. II, 20). Na vida prática, o cristão deve unir-se frequentemente, sobretudo no começo dos atos que vai praticar, a Jesus Cristo e às suas intenções, com a plena consciência de que é incapaz de fazer qualquer coisa de bom por si mesmo e uma indefectível confiança de que Ele pode remediar a sua fraqueza.

O segundo meio para aumentar a graça santificante é a PUREZA DE INTENÇÃO, isto é, a PERFEIÇÃO DO MOTIVO que nos leva a agir. Assim, como a caridade é a rainha e a forma de todas as virtudes, toda a ação inspirada pelo amor de Deus e do próximo tem mais mérito do que se for inspirada apenas pelo temor ou pela esperança. Portanto, todas as nossas ações, até as mais comuns como as refeições e recreios honestos e moderados, podem tornar-se atos de caridade e participar do valor dessa virtude, sem perderem o seu valor próprio. Demos um exemplo: comer para restaurar as forças é um motivo digno e meritório; mas refazer as forças para melhor trabalhar por Deus e pelas almas é um motivo de caridade muito superior, que lhe confere um valor meritório muito maior. Contudo não deve haver inquietação de espírito: os autores espirituais aconselham que aceitemos as intenções que se nos apresentarem espontaneamente e subordiná-las à caridade divina. Mas como a vontade humana é inconstante, é mister explicitar e atualizar frequentemente estas  nossas intenções sobrenaturais. Pois, pode acontecer que a gente comece merecendo muito, e durante a execução da obra, chegue a perder, pelo menos, uma parte de seu merecimento. O Santo Cura d"Ars dizia que, quando sentimos que o fervor está diminuindo e se desviando, devemos fazer oração jaculatória. Por ex.: MEU JESUS, TUDO POR VOSSO AMOR; MEU PAI DO CÉU, EU VOS AMO.

Daí o terceiro meio para aumentar a graça santificante: A INTENSIDADE DO AMOR, isto é, O FERVOR com que se age. Não basta fazer o bem, é preciso evitar a indolência, o pouco esforço, a negligência. E pode até acontecer de haver pecados veniais nestas negligências. Com certeza, uma obra boa mas feita com indolência trará pouco merecimento para a alma. Pelo contrário, se oramos, trabalhamos e nos sacrificamos COM TODO CORAÇÃO, cada uma das nossas ações merece um grau apreciável de graça habitual. Caríssimos, como vale a pena renovar frequentemente os esforços, com energia e perseverança!

A DIFICULDADE DO ATO, não em si mesma mas porque exige mais amor de Deus, despende um esforço mais enérgico e mais demorado, e enquanto não provém de uma imperfeição atual da vontade, também aumenta o mérito da alma. Devemos prestar atenção no seguinte: adquire-se uma virtude com atos repetidos desta virtude e aí torna-se fácil agir assim. No entanto, isto não diminui o mérito. Essa facilidade, quando dela nos servirmos para continuar e até aumentar o esforço sobrenatural, favorece o FERVOR do ato, e por conseguinte, aumenta, outrossim o mérito. Assim os santos que, pela prática das virtudes, fazem mais facilmente que os outros, atos por exemplo de humildade, de obediência e de religião, não têm menos mérito, pois praticam mais fácil e frequentemente o amor de Deus, e por outro lado, continuam a fazer esforços, sacrifícios, sempre que sejam necessários. A dificuldade aumenta o mérito, mas na medida em que suscita mais entusiasmo e amor.

Devemos ter sempre em mente que ser santo, é ocupar-se tranquilamente em cumprir os deveres do seu estado, para agradar a Jesus, é suportar por seu amor as penas da vida e deixar-Lhe plena liberdade para dispor a seu grado da alma e do corpo, da saúde e de todos os bens. Jesus pede o nosso coração, ou seja, quer o nosso amor. Amando-O, tudo está bem. Genoveva e Pascoal Bailão eram pastores, mas amavam a Jesus e eram santos. Isidoro era um lavrador, Zita uma criada. Crispim um sapateiro, Bento Labre um mendigo. Que importa? Não tinham senão um emprego: amavam a Jesus com o máximo fervor e esqueciam-se de si mesmos.

Devemos santificar todas e cada uma das nossas ações, mesmo as mais comuns. Quanto progresso na santidade podemos fazer num só dia! Não há meio mais eficaz, mais prático, e mais ao alcance de todos para se santificarem do que sobrenaturalizar todas as ações, com estes três meios de que acabamos de falar: recolhermo-nos um momento antes de agir, renunciarmos positivamente a toda a intenção natural ou má, unirmo-nos, incorporarmo-nos em Cristo e oferecermos por Ele a nossa ação a Deus para sua glória e bem das almas. Ponhamos em prática o conselho do Espírito Santo por boca de S. João Apóstolo no Apocalipse, XXII, 11: "Aquele que é justo se torne mais justo ainda; e aquele que é santo se santifique ainda mais". É assim que juntamos um tesouro no Céu, que o ladrão não rouba, a traça não rói e nem a ferrugem consome. Amém!

domingo, 31 de maio de 2020

PENTECOSTES

 Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, 14, 23-31: 




 "Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos morada. Quem não me ama, não guarda as minhas palavras. A palavra que ouvis não é doutrina minha, mas de meu Pai, que me enviou. Estas coisas vos tenho dito, permanecendo convosco. Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai há de enviar em meu nome, vos ensinará tudo, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. A paz vos deixo; a minha paz vos dou. Não vo-la dou, como o mundo vo-la dá. Não se turbe o vosso coração, nem se assuste. Ouvistes o que eu vos disse: Vou e volto a vós. Se me amásseis, certamente vos alegraríeis de eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que eu. Eu vo-lo disse agora, antes que isso suceda, para que, quando acontecer, tenhais fé. Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo. Em mim não terá parte alguma. Mas é para que o mundo conheça que amo o Pai, e que faço assim como meu Pai me ordenou".

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Antes de morrer, Jesus tinha feito esta promessa aos Apóstolos: "O Pai, em meu nome, vos enviará o Espírito Santo, o Consolador. Ele vos ensinará tudo, vos sugerirá tudo". 

   Eram passados apenas dez dias desde que Jesus subira ao Paraíso, e eis que um ímpeto veemente de vento desce do céu e abala toda a casa onde os discípulos estavam reunidos em oração com a Mãe, a Santíssima Sempre Virgem Maria. E foram vistas umas línguas de fogo pousar sobre a cabeça de cada um. Todos se sentiram habitados pelo Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, de modo que os estrangeiros que estavam em Jerusalém naqueles dias os ouviram pregar na sua própria língua, e ficaram maravilhados com isso.

   Caríssimos e amados irmãos, também nós cristãos havemos recebido o Espírito Santo no Batismo, e mais copiosamente na Crisma, quando o Bispo impôs as mãos sobre a nossa cabeça. 

   Na vida de Santa Ângela de Foligno lê-se que a santa foi, um dia, em peregrinação ao túmulo de São Francisco de Assis. E eis que uma voz lhe ressoa ao ouvido: "Tu recorreste ao meu servo Francisco, mas agora far-te-ei conhecer um outro apoio. Eu sou o Espírito Santo, que vim a ti e quero dar-te uma alegria que ainda não experimentaste. Acompanhar-te-ei, estarei presente em ti... falar-te-ei sempre... e, se me amares, nunca te abandonarei".
   Comparando os seus pecados com este favor infinito, Santa Ângela hesitava em crer. E, aquela voz continuou: "Eu sou o Espírito Santo, que vive interiormente em ti". Então a santa foi invadida por uma alegria celestial. 

   Isso que o Espírito Santo, por uma graça especial revelava a essa alma, a Igreja ensina-o a todos os cristãos. "Então - diz-nos São Paulo - não sabeis que o Espírito Santo habita em vós? Que os vossos membros são o seu templo e que a nossa alma é selada com o seu selo?

   O Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, igual ao Pai e ao Filho, Deus com o Pai e com o Filho, habita em nós. É o Doce Hóspede de nossa alma. Imaginai que grande graça e que profundo mistério! 

   Nós temos deveres preciosos para com Espírito Santo, doce Hóspede de nossa alma. 
  1. Não expulsar o Divino Espírito Santo (1 Tessalonicenses, V, 19).
  2. Não contristar o Espírito Santo (Efésios, IV, 30).
  3. Não queirais resistir ao Espírito Santo (Atos, VII, 51). 
   1. Não extingais o Espírito Santo.
   
   Toda vez que se comete um pecado mortal, o pecador expulsa da sua alma o Divino Espírito Santo. Onde há o espírito do mundo e do demônio, não pode estar o Espírito de consolação e de verdade. Sobretudo onde há o pecado imundo da sensualidade, aí não pode habitar o Espírito de Deus. 

   2. Não contristeis o Espírito Santo.

   Mas, sem chegarmos ao excesso de extinguir em nós o Espírito Santo pelo pecado mortal, podemos amargurar-Lhe de muitos modos a sua permanência no nosso coração. Em geral, os atos que contristam o Espírito Santo são todos aqueles a que, com demasiada desenvoltura, nós chamamos pecados veniais. Certas palavras de murmuração, levianas, certas imprecações de impaciência, certas mentiras, desobediências em coisas não graves etc.. Por exemplo este jovem que desperdiça tantas horas na ociosidade, que dá inteira liberdade aos seus olhos, que na igreja mantém uma atitude aborrecida e distraída, não sabe que contrista o Espírito Santo? Não o sabe aquela mãe que só cuida de adornar os cabelos ou o vestido sem seriedade, que não vela sobre a alma de seus filhos para que cresçam inocentes, bastando-lhe somente que sejam sadios no corpo? Não o sabem todos estes cristãos que vivem uma vida tíbia, sem entusiasmo pelo bem, sem fervor pela oração, sem amor à Eucaristia? Não sabem que o Espírito Santo que está neles se contrista? 

   3. Não resistais ao Espírito Santo.

   O Espírito Santo está sempre agindo em nós. E faz-se sentir de dois modos: impelindo-nos ao bem ou repelindo-nos do mal. Quantas vezes o Doce Hóspede de nossas almas nos convida docemente a fazermos o bem, e os seus esforços ficam vãos porque nós Lhe resistimos! Quantas vezes Ele nos tem dito, como a Filipe na estrada de Gaza: "Aproxima-te daquela família, ajuda-a no que puderes, dize-lhe uma boa palavra de religião e de esperança"; e nós, ao invés, sacudimos os ombros. 
   Há uma pessoa que te ofendeu e a quem tens ódio. Aproxima-te dela, concede-lhe o perdão, esquece o passado. 
   Há talvez uma pessoa afastada do Senhor ou que vive escandalosamente: vós a conheceis, podeis, com a vossa amizade, dizer-lhe uma advertência carinhosa, arrancá-la da trilha infernal. Não resistais ao Espírito Santo. Não resistais, tão pouco, quando Ele vos sugere rezardes mais, mortificar-vos mais, vos tornardes santos, fazendo uma santa confissão. 

   Vou contar-vos um fato, do qual, embora indigno, fui ministro do Espírito Santo. Há 39 anos atrás, eu era Capelão dos Hospitais de Campos, RJ..  Atendia todos os dias três hospitais: Santa Casa da Misericórdia, Beneficência Portuguesa e Plantadores de Cana. Como a Santa Casa era maior, eu atendia das 8 h até 12 h.  E à tarde a partir das 14 h atendia os outros dois. 
   Um dia terminei de percorrer toda a Santa Casa e estava saindo e olhando o relógio vi que faltavam 15 minutos para às 12 h. O Divino Espírito Santo assim me inspirou: aproveita estes 15 minutos e dá uma passada no hospital da Beneficência Portuguesa. Pela graça de Deus, obedeci a esta inspiração interior. Fui. Logo na entrada há duas alas. Sem titubear tomei a da direita. Logo no início vi um quarto com a porta semi-aberta e percebi que havia ali uma doente muito mal. Entrei. A doente, com voz fraca e comovida, assim me falou chorando: senhor padre, eu estava nestes momentos dizendo a Jesus: Meu Jesus, fiz as nove primeiras sextas-feiras, e tenho certeza que ireis cumprir a vossa grande promessa: terei um padre na hora da morte, que vejo está se aproximando. E eis que o senhor, padre, chega. Como Jesus é bom!!! - Dei-lhe todos os sacramentos, e a moribunda com sorriso nos lábios entregou sua alma a Deus. Ó Divino Espírito Santo, não mereço tamanha alegria!!!

   O Espírito Santo também nos repele do mal. 
   Na parede da sela de uma prisão, um condenado deixou escrito: "Eu sou aquele que não está contente". Caríssimos e amados irmãos, muitos cristãos, se quisessem ser sinceros, no término do seu dia poderiam repetir essas desconsoladas palavras: "Eu sou aquele(a) que não está contente". Mas quem é que lhes difunde no coração este terrível tédio e implacável remorso? É o Espírito Santo. E por que? para repelir o pecador do mal em que vive e levá-lo a fazer uma boa confissão. 



   Oh! se alguém, hoje que é Pentecostes, considerando a sua alma percebesse já não ser mais templo de Deus, não ser mais filho de Deus, por haver o pecado mortal entrado em si, reacenda no seu coração o fogo do amor de Deus, aproxime-se da Sagrada Confissão, purifique-se. Depois diga com a Santa Igreja: Vinde, ó Espírito Santo, e tornai a consagrar-me templo de Deus. Vinde, ó Espírito Santo, e tornai a fazer-me filho de Deus. Amém!

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Por São Boaventura

"A ternura e bondade de Nosso Senhor tinham-Lhe conciliado tanto a afeição dos discípulos e principalmente dos Apóstolos, que não podiam resignar-se a separar-se dele. Em vão lhes dissera que ia preparar-lhes morada na casa de seu Pai, e que lhes convinha que Ele fosse; só a ideia da sua ausência, ainda mesmo temporária, enchia-os de tristeza.

Tendo pois chegado o quadragésimo dia depois da sua ressurreição, tomou consigo os santos patriarcas e os outros justos, que tirara do limbo, e veio ter com os Apóstolos que estavam no Cenáculo com sua Mãe e os outros, e aparecendo, quis, antes de subir ao Céu, comer com eles, como prova do seu amor.

Enquanto todos participavam com grande júbilo deste último banquete com seu Mestre, o Senhor Jesus diz-lhes: "É chegado o tempo de eu voltar para Aquele que me enviou; mas vós permanecei nesta cidade, até que sejais revestidos da virtude do alto. Depois ireis por todo o mundo pregar o meu Evangelho, batizar os crentes, e me sereis testemunhas até aos confins da terra".

Todos eles comem, conversam e gozam da presença do seu Senhor; mas não obstante isto, perturba-os a sua partida. E que dizer de sua Mãe, que comia ao lado dele? Não é crível que, ouvindo anunciar esta partida, ela recline cheia de ternura maternal, sua cabeça no peito de Jesus? Não tinha ela mais direito a isso que S. João? E diz-lhe banhada em lágrimas: "Meu Filho, se quereis partir, levai-me convosco". E o Senhor consolando-a, lhe responde: "Peço-vos, minha querida Mãe, que vos não  aflijais, porque vou para meu Pai; e vós convém que fiqueis ainda algum tempo na terra, para confortar os que crêem em mim; depois, virei ter convosco e vos levarei para a minha glória".

Então esta Mãe disse resignada: "Ó meu querido Filho, seja feita a vossa vontade! Eu estou disposta a ficar e a morrer, em favor daquelas almas que remistes com o preço do vosso sangue; mas lembrai-vos de mim". O Senhor consola-a, assim como à Madalena e aos discípulos, acrescentando: "Não se perturbe vosso coração, não vos hei de deixar órfãos. Vou, e hei de voltar a vós, e estarei sempre convosco". Finalmente diz-lhes a todos, que saiam e se dirijam para o monte das Oliveiras, porque dali se elevaria ao Céu; e desapareceu. Sua Mãe e os outros partiram logo para aquele monte, onde o Salvador lhes apareceu de novo.

Considerai atentamente o Mestre, os discípulos, e tudo o que se passa. Estando cumpridos todos os mistérios, o Senhor Jesus abraça sua Mãe, e diz-lhe adeus, e sua Mãe estreita-O ternamente nos braços. Os Apóstolos, Madalena e todos os outros prostraram-se, e desfeitos em pranto beijam com ternura seu divinos pés. Ele levanta com bondade os Apóstolos e abraça-os. Então começa a elevar-se, todos se prostram de novo. Nossa Senhor dizia: "Meu abençoado Filho, lembrai-vos de mim!". Ainda que chorosa, experimentava uma íntima alegria: seu filho subia ao Céu com tanta glória!... Por sua parte os Apóstolos e discípulos diziam: "Senhor, nós renunciamos a tudo para vos seguir; lembrai-vos de nós".

E Jesus, com as mãos levantadas, o rosto radiante, coroado e vestido como um rei, eleva-se triunfalmente ao Céu! Então, abençoando-os, diz-lhes: "Sede constantes, tende coragem, porque estarei sempre convosco". E subia, levando após si aquele exército de escolhidos, a quem abria o caminho do Céu, segundo a profecia de Miquéias: "Ascendet pandens iter ante eos" (Miquéias, II, 13). É assim que o Senhor cheio de glória, vestido de branco, com o rosto alegre e radiante, os precedia. E eles cantando, transportados de júbilo, seguiam-no repetindo: Cantemus Domino qui ascendit super occasum : Dominus nomen illi. [...].

Todos os coros dos Anjos, postos em ordem segundo a sua jerarquia, descem e vêm ao encontro de Jesus, todos se inclinam profundamente diante dele, seu supremo Senhor, e o acompanham, repetindo hinos e cânticos inefáveis. E os patriarcas, que seguiam a Jesus, cantavam e diziam: Alleluia, alleluia, alleluia! [...].

Vede como duma e doutra parte, todos honram o Senhor, se alegram da sua presença, e cantam sua glória, com o maior júbilo. Assim se realiza o oráculo do profeta: Ascendet Deus in jubilatione et Dominus in voce tubae.

Jesus vai-se elevando pouco a pouco, para consolação de sua Mãe e de seus discípulos, para que possam gozar deste espetáculo; depois, por fim, uma nuvem interpõe-se, e oculta-O aos olhos de todos. Mais um instante, e estará com todos os Anjos e patriarcas na pátria celestial.
Mas, como a Mãe do Filho de Deus e os Apóstolos com os discípulos, ainda que já o não viam, se conservassem sempre de joelhos, com os olhos fitos no Céu, foi necessário que dois Anjos viessem tirá-los deste êxtase, dizendo-lhes: "Homens da Galileia, porque estais olhando para o Céu? Este Jesus que acabou de subir ao Céu com tanta glória e majestade, há de tornar do mesmo modo à terra. Voltai para Jerusalém, como Ele vos mandou, esperai ali o cumprimento das suas promessas.

Notai esta atenção de Jesus para com os seus: mal se ocultou aos olhos deles, logo lhes mandou os seus Anjos, para que se não cansem em olhar daquela maneira, e para que sejam confortados com este testemunho dos habitantes do Céu, que vem juntar-se ao deles, acerca da ascensão do seu bom Mestre.

Tendo ouvido estas palavras, Nossa Senhora rogou humildemente aos Anjos que a recomendassem a seu Filho; e os Anjos, inclinando-se diante de Maria até ao chão, receberam de bom grado a sua mensagem. Os Apóstolos, a Madalena e todos os mais fizeram aos Anjos a mesma petição; e estes desaparecendo, voltaram todos para a cidade, para o monte de Sião, ali ficaram esperando, como o Senhor Jesus lhes ordenara".

Também eu, ó Jesus, meu divino rei, com a minha alma cheia de júbilo e esperança, feliz pela vossa glória, vos obedeço, e me retiro para onde vossa vontade me chama. Elevo-me  desde já acima das coisas terrenas; quero que todos os meus pensamentos e afetos estejam no Céu. Amém!


domingo, 17 de maio de 2020

EXPLICAÇÃO DO 5º DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA


                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 16, 23-30:


 "Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Em verdade, em verdade, vos digo: Se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu Nome, Ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu Nome.  Pedi e recebereis para que a vossa alegria seja completa. Estas coisas vos disse em parábolas. Vem a hora em que já não vos falarei em parábolas, mas abertamente vos falarei do Pai. Naquele dia pedireis em meu Nome; e não vos digo que hei de rogar por vós ao Pai, pois, o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e crestes que eu saí de Deus. Saí do Pai e vim ao mundo, deixo outra vez o mundo e vou ao Pai. Disseram-Lhe os discípulos: eis que agora nos falais claramente e não usais nenhuma parábola. Agora conhecemos que sabeis tudo, e que não tendes necessidade de que alguém Vos interrogue. Por isso cremos que saístes de Deus."

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   Nossos Senhor Jesus Cristo, na véspera de sua Morte, anuncia a sua Ascensão ao Céu: "Saí do Pai e vim ao mundo, outra vez deixo o mundo e vou para o Pai". 
   Anuncia também a vinda do Divino Espírito Santo, o Pentecostes: "Mas vem o tempo em que não vos falarei já em parábolas, mas abertamente vos falarei do Pai." Nosso Senhor Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo, iluminará os seus apóstolos fazendo-lhes entender mais profundamente os mistérios divinos. Na verdade, caríssimos irmãos, tudo o que nós podemos estudar e conhecer das coisas de Deus é letra morta enquanto o Espírito Santo não nos abrir a inteligência. Devemos ter uma devoção especial ao Divino Espírito Santo. É Deus e o doce Hóspede de nossa alma, é o nosso Santificador. 

   Jesus Cristo, Nosso Senhor, no evangelho deste domingo ensina-nos também o segredo da oração eficaz: "Se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará". Aí está o meio seguro para encontrarmos acesso junto do Pai: apresentar-se em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se imolou para glória do Pai e para nossa salvação. Jesus está assentado à direita do Pai para interceder sempre por nós e Ele merece ser sempre atendido "pro sua reverentia", isto é, em razão da sua piedade (Hebreus V, 7). Diz São Paulo na epístola ao Hebreus VII, 25: "Por isso pode salvar perpetuamente os que por Ele mesmo se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós". 

   Pedir "em nome de Jesus" significa, estarmos convencidos de que as nossas ações e boas obras não valem nada se não se apoiam nos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por mais que façamos e rezemos, somos sempre servos inúteis, que não temos em nós nenhuma capacidade para o bem, mas toda a nossa suficiência vem de Jesus Crucificado. Portanto, a primeira condição para que a nossa oração seja feita em nome de Jesus e assim seja eficaz, é a virtude da humildade.  Isto significa uma convicção profunda e realista do nosso nada.
   A segunda condição para que a nossa oração seja feita em nome de Jesus e portanto eficaz, é a confiança. Uma confiança ilimitada nos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na verdade Seus merecimentos ultrapassam todas as nossas indigências, misérias, necessidades. E assim nunca seremos demasiado ousados em pedir a plenitude da graça divina sobre as nossas almas, em aspirar à santidade; santidade esta escondida, mas autêntica. Nossa miséria, por maior que seja, será sempre finita, mas os merecimentos e a misericórdia de Jesus serão sempre infinitos. Não existem infidelidades e culpas, tendências más e misérias SINCERAMENTE DETESTADAS que o Sangue de Jesus não possa sarar, fortificar e transformar. 
   Mas, caríssimos e amados fiéis, há ainda uma outra condição para que a nossa oração seja eficaz: que a nossa vida corresponda à nossa oração, isto é, que a nossa fé se traduza em boas obras. É vã a oração, é vã a nossa confiança em Deus, se não as acompanhamos com os nossos esforços generosos para cumprirmos todos os nossos deveres, para vivermos à altura da nossa vocação. 

  Terminemos com palavras de Santo Agostinho: "Ó Criador da luz, perdoai as minhas culpas pelos imensos trabalhos do Vosso Amado Filho! Fazei, Senhor, que a Sua piedade vença a minha impiedade, que a Sua modéstia satisfaça pela minha perversidade, que a Sua mansidão dome a minha irascibilidade. A Sua humildade repare a minha soberba; a Sua paciência, a minha impaciência; a sua benignidade, a minha dureza; a Sua obediência, a minha desobediência; a Sua tranquilidade transforme a minha inquietação; a Sua doçura, a minha amargura; a Sua caridade apague a minha crueldade". 

   Ó Jesus! ensinai-me a rezar, aumentai a minha fé! Amém!

RELIGIÃO PURA


"A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas, nas suas tribulações, e conservar-se puro da corrupção do mundo" (Tiago, I, 27).

Antes de fazermos as reflexões sobre este versículo 27, achamos por bem dar uma explicação geral desta leitura da Epístola no 5º domingo depois da Páscoa: Caríssimos irmãos, diz São Tiago, sede cumpridores da palavra de Deus e não apenas ouvintes. Do contrário, estariam se enganando a si mesmos. Pois, para se salvar, não basta ouvir a palavra do Santo Evangelho; é mister colocá-la em prática. Agora, quem medita atenciosa e profundamente o Evangelho, a nova lei que nos livrou do pecado e nele persevera não esquecendo e, sim, praticando o que ouviu, este será bem-aventurado neste e no outro mundo. Se alguém se tiver em conta de homem religioso, mas não refrear a língua, e entregando à maledicências, detrações e calúnias, este engana  a si mesmo, e a sua religião de nada vale.

E assim, depois de desmascarar o erro dos que pecam contra a caridade, o Apóstolo passa a enumerar os sinais da verdadeira religião: Consta de duas coisas: a caridade desinteressada e a pureza. Há, na verdade, uma falsa religiosidade estéril e inativa e que não leva em conta a caridade para com o próximo. Nosso Senhor quer, outrossim, que seja servido com um coração reto e puro, livre da corrupção deste mundo onde reina a tríplice concupiscência: orgulho, avareza e luxúria. Caridade e pureza devem estar sempre juntas na prática da verdadeira religião. Pois, reduzida apenas a atos de caridade, a Religião não passaria de sociedade filantrópica, o que os espíritas e maçons também fazem. Limitada, porém, à pureza, sem a prática da caridade, seria quando muito, simples seita filosófica ou moralista. Quão errados andam, pois, aqueles que se julgam religiosos tão somente por boas obras de caridade mas se conformando inteiramente ao espírito deste mundo colocado no maligno, e inundado de corrupção e impurezas. Devemos estar bem avisados contra estes modernistas que só falam em obras de misericórdia, mas procuram tranquilizar as consciências em pecados até mortais e grandes como o adultério, o sacrilégio e os escândalos. Devem estar lembrados de que existem 14 obras de misericórdia, sendo 7 delas, espirituais. E, entre estas está: CORRIGIR OS QUE ERRAM. Assim fez S. João Batista a Herodes: "Não te é lícito viver como estais vivendo" i, é, no adultério. 

Cada coração cristão seja um altar onde o fogo da caridade é perfumado pelo incenso da pureza. E, portanto, resumimos: Na palavra de Deus ouvida com atenção e interesse sobrenatural, na vigilância sobre a língua, na caridade operosa e na pureza conservada em meio da corrupção generalizada deste mundo, nesses preceitos, antes que mais nada, se forma o homem religioso que será bem-aventurado nesta e na outra vida. Amém!


domingo, 10 de maio de 2020

QUARTO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

 Leituras: Epístola de São Tiago Apóstolo 1, 17-21.
                   Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João 16, 5-14:



 "Naquele tempo , disse Jesus a seus discípulos: Eu vou Àquele que me enviou e nenhum de vós me pergunta: Para onde ides? Mas porque vos disse estas coisas, o vosso coração se encheu de tristeza. Digo-vos, porém, a verdade: é bom para vós que eu vá; porque se eu não for, não virá a vós o Consolador; mas, se for, eu vo-lo enviarei. E, quando Ele vier, convencerá o mundo que existe o pecado, a justiça e o juízo. Quanto ao pecado, porque não creram em mim. Quanto à justiça, porque eu vou ao Pai, e já não me vereis. E também quanto ao juízo, porque o príncipe deste mundo já foi julgado. Ainda tenho muitas coisas a dizer-vos, mas agora não as podeis compreender. Quando vier, porém, aquele Espírito de verdade ensinar-vos-á toda a verdade. De si mesmo não há de falar, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, e vo-lo anunciará". 

   Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

   A Santa Madre Igreja já nos vai preparando para a grande festa de Pentecostes, ou a Vinda do Divino Espírito Santo. "Vou para Àquele que me enviou," disse Jesus, " e nenhum de vós me pergunta: para onde vais?" "A vós convém que eu vá, porque se eu não for, não virá a vós o Consolador; mas se eu for, eu vo-Lo enviarei". Jesus disse estas palavras na véspera de Sua morte. Na verdade, só a morte de Jesus nos pôde merecer esta vinda do Enviado do Pai e do Filho, o Divino Espirito Santo. Podemos dizer que a descida do Espírito Santo à Igreja e às nossas almas é o maior fruto da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus trabalhou no meio dos seus Discípulos de um modo visível; depois de sua Morte, Ressurreição e Ascensão ao Céus, enviará o Divino Espírito Santo que continuará a Sua obra, mas agora de maneira invisível, porém, não menos real e eficaz. O próprio Jesus diz que a ação do Divino Paráclito completará a Sua: "Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas vós não as podeis compreender agora. Quando vier, porém, aquele Espírito de Verdade, Ele vos ensinará toda a verdade. O coração dos Apóstolos, ainda endurecido pelo pecado, não pode entender as verdades mais profundas; será necessário que Jesus, morrendo na cruz, destrua o pecado que é, na verdade, o grande obstáculo à ação do Espírito Santo. 

   Caríssimos e amados fiéis, devemos dispor-nos com todo ardor para o Pentecostes a fim de que se renove em nós, em toda a sua plenitude, a descida do Espírito Santo. Esta preparação consiste, sobretudo, numa particular pureza de consciência. Combatamos os pecados até nas suas raízes mais profundas. Procuremos praticar sobretudo as virtudes da pureza, da caridade, doçura e mansidão, humildade e simplicidade. 

   Invoquemos, outrossim, a ação do Espírito Santo sobre a Igreja e sobre todo o mundo. Sobre a Igreja, para que a governe e dirija no cumprimento da sua missão; sobre o mundo, para que o convença da verdade por ele rejeitada. "E Ele, quando vier - disse Jesus - convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo", ou seja, mostrar-lhe-á que é escravo do pecado por não ter acreditado em Cristo, far-lhe-á compreender como só n'Ele, o Redentor, está a justiça e a santidade e mostrar-lhe-á que o demônio, "o príncipe deste mundo", foi finalmente vencido e condenado. 

   Vinde, ó Espírito Santo, santificai-me! Vinde, Espírito de verdade, enchei-me!" A vossa Sabedoria divina me estabelecerá na verdade. Tenho sede dela e quereria que a verdade reinasse na minha mente, nas minhas palavras, nos meus afetos, nas minhas ações, evitando tudo o que lhe é contrário, não só o orgulho, não só a mentira, mas também a dissimulação, a duplicidade, a falta de sinceridade comigo mesmo. Vinde, ó Espírito Santo, abrasai-nos no Vosso amor, e nele inflamados, que sobretudo os sacerdotes transbordem este amor sobre as almas! Amém!