segunda-feira, 21 de setembro de 2020

NOVENA A SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS

PRIMEIRO DIA

ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS DA NOVENA: Ó Santa Teresinha, branca e mimosa flor de Jesus e de Maria, que embalsamais o Carmelo e o mundo inteiro com o vosso suave perfume, atraí-nos e convosco correremos em seguimento de Jesus, nosso Deus e único Bem, pelo caminho da renúncia, do amor e do abandono. Fazei-nos simples e dóceis, humildes e confiantes para com nosso Pai do Céu. Ah! não permitais que O ofendamos pelo pecado, que O contristemos pela desconfiança. Assisti-nos em todos os perigos e necessidades, socorrei-nos em todas as aflições e alcançai-nos todas as graças espirituais e temporais, particularmente...

Lembrai-vos. ó Santa Teresinha do Menino Jesus, que prometestes passar o vosso Céu fazendo bem sobre a terra, sem descanso, até ver completo o número dos eleitos.

Ah! cumpri em nós vossa promessa: sede nosso anjo protetor na travessia desta vida e não descanseis até que nos vejais no Céu, cantando ao vosso lado eternamente as ternuras do amor misericordioso do Coração de Jesus e do Coração de Maria. Assim seja!

ORAÇÃO PARA O 1º DIA: Eterno Pai, Vós coroais no Céu todos aqueles que Vos serviram na terra com fidelidade. Lembrai-Vos, pois, nós vo-lo pedimos instantemente, do ardente amor e da inalterável fidelidade com que Vos serviu na terra a vossa serva Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela estava certa de que Vós, um dia, havíeis de fazer a sua vontade como ela fazia a vossa; portanto, meu Deus, atendei às suas súplicas, concedendo-nos, benigno. o que Vos pedimos por sua intercessão.

Ó Santa Teresinha, vós dissestes uma vez, aqui na terra: "A minha missão é amar" e seguistes desde a infância a voz da graça, vivendo uma vida de verdadeiro e puro amor a Deus, não só nos dias venturosos, mas também nas mais duras provações. Ajudai-nos, pois, para que o nosso lema também seja: "Tudo por Deus! Tudo por amor de Deus!" Ó Santa Teresinha, consegui que nos aperfeiçoemos sempre mais no amor divino. Amém!

JACULATÓRIA: Santa Teresinha, rosa de amor! Rogai por nós!

OREMOS: Senhor Jesus Cristo, Esposo e amante das almas puras, as quais distinguis com coroa especialíssima: concedei-nos por intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus, a graça de segui-la aqui na terra, amando-Vos com todo o nosso coração, para que com ela recebamos o prêmio da eterna recompensa. Vós que viveis e reinais, pelos séculos dos séculos. Amém.

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai.

LEITURA PARA O !º DIA

SANTA TERESINHA E O AMOR DE DEUS

   Santa Teresinha tomou o AMOR DE DEUS como caminho da perfeição. "O amor, diz sua irmã Celina, foi o objetivo de toda a sua vida, o móbil de todas as suas ações". Disse a mesma Santa Teresinha: "Os grandes santos trabalharam pela glória de Deus, mas eu que não sou senão uma alma muito pequena, trabalho para Lhe dar gosto". Durante sua doença confidenciou: "Nunca desejei senão dar gosto a Deus". "Se a chama do seu amor, diz Celina, era sempre pura e devoradora, é porque ela tinha cuidado de a isolar de todas as coisas criadas, alimentando-a somente de sacrifício. Um dia que nos encontrávamos diante de uma biblioteca, disse-me: 'Como estaria arrependida de ter lido todos estes livros!'  ---- Afinal, retorqui eu, depois que estivessem lidos, seria um bem adquirido; eu compreenderia se dissesse que lamentava ter de os ler, mas não de os ter lido.  ----  'Se eu os tivesse lido, respondeu ela, teria quebrado a cabeça, teria perdido um tempo precioso que empreguei simplesmente a amar a Deus'. "Fez-me notar, diz Celina, que a característica do amor era sacrificar tudo, dar a torto e a direito...'O amor dá tudo e entrega-se! Mas, muitas vezes, não damos senão após deliberação, hesitamos em sacrificar os nossos interesses temporais e espirituais. Isso não é amor!'

   Eis um exemplo que Santa Teresinha gostava de contar: "Li que um grande senhor, querendo erigir uma igreja, publicou um edito pelo qual proibia os seus servidores de darem a mais pequena esmola com essa intenção, porque só ele queria ter a glória da construção. E assim se construiu a igreja. Contudo, um dia, uma pobre velhinha, vendo os cavalos, que transportavam as pedras, subir com custo a colina, disse consigo mesma: 'É proibido dar dinheiro para ajudar a construir este templo a Deus, mas eu ficaria contente por contribuir para isso, e se eu ajudasse os pobres animais que trabalham inconscientemente nesta grande obra, talvez Deus ficasse contente!' Com alguns tostões, os últimos que tinha, comprou um molho de feno e deu-o aos cavalos. Quando a igreja ficou acabada, o senhor quis celebrar a sua dedicação e, para esse efeito, fez gravar numa pedra o seu nome. Mas eis que, no dia seguinte, este nome estava apagado e lia-se no seu lugar o duma  mulher desconhecida. O senhor, furioso, fez recomeçar a inscrição repetidas vezes; e o milagre repetia-se sempre. Por fim, ordenou buscas, e tendo encontrado a humilde e pobre mulher, perguntou-lhe se não tinha dado alguma coisa para construir a igreja. Toda a tremer pediu desculpa disso. Enfim, apertada com perguntas, lembrou-se do molho de feno e disse que, conforme a proibição, não tinha dado dinheiro, mas somente tinha ajudado os cavalos, dando-lhes a comer um pouco de capim. Compreendeu-se então porque é que o seu nome estava inscrito e ninguém mais ousou apagá-lo.

   "Assim, concluía Teresa, vê-se que a obra mais pequena e mais escondida, feita por amor, tem muitas vezes mais valor que as grandes obras. Não é o valor nem mesmo a santidade aparente das ações que conta, mas somente o amor que nelas se põe, e ninguém poderá dizer que não pode dar estas coisas pequeninas a Deus porque elas estão ao alcance de todos".

   Eis o que Celina conta sobre o brinquedo chamado caleidoscópio. Era uma espécie de óculo, em cuja extremidade se viam lindos desenhos de cores diversas; girando o tubo, estes desenhos variam até ao infinito. "Este objeto, dizia Teresa a Celina, causava a minha admiração; e perguntava a mim mesma o que poderia produzir um fenômeno tão encantador; até que um dia, depois dum exame sério, vi que eram simplesmente alguns pedacinhos de papel e de lã aqui e ali, e cortado de qualquer maneira. [ou pedacinhos de vidros de várias cores]. Continuei com minhas pesquisas e descobri três espelhos no interior do tubo [juntados com fitas em forma de triângulo eqüilátero]. Tinha a chave do enigma. Foi isto para mim, continua Teresa, a imagem de um grande mistério. Enquanto as nossas ações, mesmo as mais pequenas, não saem do foco do amor, a Santíssima Trindade, figurada pelos espelhos convergentes, dá-lhes um reflexo e uma beleza admiráveis. Sim, enquanto o amor está no nosso coração, enquanto não nos afastamos do seu centro, tudo está bem e, como diz S. João da Cruz, 'o amor sabe  tirar proveito de tudo, do bem e do mal que encontra em mim e transformar em si todas as coisas'. O bom Deus, olhando-nos pelo pequeno óculo, isto é, através de si mesmo, encontra as nossas miseráveis palhas e as nossas ações mais insignificantes belas; mas, para isso, é preciso não se afastar do centrozinho! Porque, então, o que Ele veria seriam pedacinhos de lã [de vidro] e minúsculos papéis".

Santa Teresinha dizia que "o que nos interessa é unir-nos a Deus"... "O coração que ama, trabalha com amor, isto é, com fervor: corre, voa, nada acha impossível e nada o detém". Pensamento esse tirado do livro da Imitação de Cristo.

 Santa Teresinha tinha um sentimento profundo da Paternidade divina. Não se cansava de sublinhar as riquezas inefáveis do Amor misericordioso, a necessidade essencial do coração paterno de perdoar, de ajudar, de cumular, atraindo a Si o coração dos seus filhos contanto que estes se entreguem a Ele numa confiança total na sua bondade. Ela quis e foi inundada, consumida pelo Amor do Pai Celestial. Amém!

  

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

UMA OBRA DE AMOR

 UMA OBRA DE AMOR

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

 

Ontem celebramos Nossa Senhora das Dores ou Nossa Senhora da Piedade, padroeira da Pastoral da Sobriedade, como mãe que chora e sofre por tantos filhos extraviados pelas drogas e outras dependências. Quantas famílias destruídas e atingidas por esse sofrimento! 

            Considerando que 25% da população brasileira está, direta ou indiretamente, ligada ao fenômeno das drogas, e que cada vez mais cedo os adolescentes entram em contato com elas, carregando consigo, em média, quatro outras pessoas, chamadas de codependentes, membros da família e amigos, a Pastoral da Sobriedade, instituição da Igreja do Brasil, vem prestando imenso benefício à sociedade, como ação concreta na prevenção e recuperação da dependência química.

Trata-se de uma ação pastoral conjunta que busca a integração entre todas as Pastorais, Movimentos, Comunidades Terapêuticas, Casas de Recuperação para, através da pedagogia da fé e da ciência, usando a terapia de grupo, resgatar e reinserir os excluídos, conduzindo a uma mudança de vida através da conversão. A Pastoral da Sobriedade nos propõe a libertação da dependência das drogas, do álcool, dos vícios, das manias, das compulsões e pecados, ajudando a resgatar valores, numa transformação de vida e valorização da pessoa humana. Como Bispo referencial dessa Pastoral no Estado do Rio de Janeiro, desejo que se institua em todas as paróquias essa benéfica instituição da Igreja.

Nas reuniões semanais da Pastoral da Sobriedade, instituída em quase todas as Paróquias brasileiras, incutem-se, através do convencimento, as virtudes humanas e cristãs, base da serenidade e da sobriedade. Virtude é a disposição habitual e firme para fazer o bem. Permite à pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si: tender ao bem, procura-lo e escolhe-lo na prática. As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé. Facilitam, assim, e nos ajudam a ter domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem. As virtudes morais são adquiridas humanamente e nos dispõem a entrar em comunhão com Deus.

A PASTORAL DA SOBRIEDADE vem nos propor a libertação das dependências das drogas, ou o correto uso da liberdade que Deus nos deu: “Comportai-vos como homens livres, e não à maneira dos que tomam a liberdade como véu para encobrir a malícia” (1Pd 2, 16).

Em nossa região, temos uma comunidade terapêutica que se propõe esse objetivo. É a COMUNIDADE REFÚGIO, situada em Cajueiro, município de São João da Barra, na Rodovia BR-356, com a capacidade para atender inicialmente 15 pessoas, para acolher dependentes químicos para tratamento de desintoxicação, em regime de internato, com acompanhamento de profissionais, com reabertura no próximo dia 29. Ela tem a assistência espiritual de nossa Administração Apostólica. Necessita da colaboração de todos para essa obra de amor

 

        *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

  

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

AMOR CONFIANTE

 

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 38)

(Continuação e término da conferência do Servo de Deus Padre Mateo Crawley-Boevey, SS. CC.)

 

"Digo-vos mais: confiai, porque esse Jesus, que vos convida ao abandono, à Sua intimidade, vê mais claro que vós mesmos. Se vedes cem defeitos, Ele encontra mil e, não obstante, voa ama e vos chama. Seu amor não é, nem pode ser, com o de um amigo ou o de um noivo, um amor-ilusão, e sim fundamentado na verdade. Ele não vos quer porque imagine coisas diferentes da realidade, pois para Ele, na ordem moral, não há camuflagens. Ama-vos tais como sois.

Daí a frase, tão feliz quanto ousada, de Santa Teresinha: "Que mau gosto tiveste, Jesus, querendo-me feia como sou... Não modifiques em nada esse mau gosto, para que não me exponha a ser substituída por um anjo".

Na amizade terrena, o excesso de familiaridade revela misérias anteriormente desconhecidas. Por isso, desmoronam-se tantos carinhos, fundados em ilusões...

Mas com Nosso Senhor a coisa é outra. "Jesus vos ama como ninguém e vos perdoa como ninguém - diz o famoso convertido inglês Pe. Faber - justamente porque vos conhece como ninguém".

A Ele, jamais se surpreende, porque mesmo no santo, que faz milagres, pode-se ver o abismo de fragilidade que traz, no interior, o taumaturgo.

Por isso mesmo também vos disse, há pouco, que se contenta,  Ele, que tudo vê, com grandes e santos desejos, pois melhor do que nós sabe que muitos deles, por sinceros que sejam, não são realizáveis.

Mas vosso desejo já é a Seus olhos um ato de amor, quando sois sinceros e não vaidosos. Quanto são de fato desejos, e não caprichos ou devaneios.

"Paz, portanto, aos de boa vontade" (Lc  2, 30). Paz àqueles que compreenderam e saborearam quão bondoso é o Senhor! Paz aos que sabem, por experiência, que seu jugo é suave e leve a sua carga (Mt 11, 30).

Muito mais que a preocupação exagerada, ainda que legítima de curar vossos males, tende a santa preocupação da Sua glória. "Preocupa-te de Mim, só de Mim, dizia Jesus a Santa Margarida Maria - e Eu me preocuparei de ti e de tudo que é teu".

Há apóstolos que não compreendem ainda este grande espírito e gastam suspiros e tempo em pedir isto ou aquilo. Depois, quando já estão cansados, ajuntam: "Venha a nós o Vosso Reino".

Não façais assim. Começai o trabalho da vossa santificação e do apostolado com este grito, vindo da alma: "Venha a nós o Vosso Reino, o reino do Vosso Coração, do vosso Amor", e Ele dirá: "E Eu me encarrego de todos os teus outros interesses".

Por aí vedes quanto é ampla, segura, sólida e bela a doutrina do Coração de Jesus!

Como se vive bem, luta-se, trabalha-se nesse santuário em que tudo é verdade, paz e força e gozo no Espírito Santo! Bebei à saciedade desse Coração "Fonte inesgotável de vida" e de amor misericordioso.

Nele quero ter minha morada, minha escola, meu céu. Esse Coração me basta. Sou pobre, paupérrimo, mas nesse Coração não temo. São muitos aqueles que julgam ser árduo e dificílimo salvar-se. Eu, ao contrário, creio, raciocinando junto desta cátedra divina, luminosa, que não é tão fácil perder-se, pois que para isso é preciso romper as amarras que são os braços do Senhor, forçar a cidadela redentora que é Seu Coração.

Compenetrai-vos, zelosos apóstolos, desta grande doutrina, visto que não há novidades depois do Evangelho, mas que, por vontade explícita do céu, é todo um sistema doutrinário, toda uma espiritualidade, que envolve hoje a terra sob o título de "Reinado do Coração de Jesus".

Vivei deste pão do amor e da confiança ilimitada, para depois dar essa mesma substância, verdadeiro maná, a muitas almas que têm um conceito mesquinho, desfigurado de Cristo Nosso Senhor.

Ardei na chamas do Coração Divino para, em seguida, queimar a outros. Confiai, vivei no abandono, para infiltrar em outros a confiança, alicerçada no Evangelho, na lei de Cristo, no espírito da Igreja.

Aos débeis, aos maus e pecadores, falai no mesmo tom de Jesus, como Jesus, como o Coração de Jesus. Ouvi como sentencia a pecadora que jaz aos Seus pés divinos: Mulher, "nem eu te condenarei. Vai e não peques mais" (Jo 8, 11).

Discípulos, aprendei as ideias, a linguagem, o estilo do Mestre!

Para terminar, um dos parágrafos mais admiráveis, em doutrina e eloquência, de Santa Teresinha: "Não vou a Deus pelo caminho da confiança e do amor por me julgar preservada do pecado mortal. Ah! Sinto-o perfeitamente, ainda que tivesse por sobre a consciência todos os crimes possíveis, não perderia nada da minha confiança; iria, com o coração destroçado pelo arrependimento, refugiar-me nos braços do meu Salvador. Bem sei quanto ama ao filho pródigo e já ouvi as Suas palavras a Santa Madalena, à mulher adúltera e à Samaritana. Não, ninguém poderá jamais amedrontar-me, porque sei a que ater-me, acerca do seu amor e sua misericórdia. Sei que toda essa multidão de ofensas desapareceriam num abrir e fechar de olhos, como uma gota d'água lançada sobre brasas ardentes" (História de uma alma).

Término.

AMOR CONFIANTE VI

AMOR CONFIANTE  ( V )

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

(Continuação da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey)

 

"Precisamente porque justo, o Senhor deve ser muito mais Pai e Mãe e não Juiz tremendo. Justamente porque sabe quem sou, porque sabe onde termina minha malícia e onde começa minha debilidade e ignorância.

Por isso dizia Teresinha: "Eu me confio tanto à justiça de Deus, e espero tanto dela quanto de sua Misericórdia". E é eminentemente teológico. Creio tanto mais na misericórdia que prego, quanto mais firmemente creio na Justiça e equidade do Rei da Glória.

Justiça não quer dizer sempre e ainda menos exclusivamente "rigor e castigo", e sim equidade.  Deus, porque é justo, deve dar-me às vezes ternura e compaixão, e outras vezes, castigo. Mas de fato, em virtude da ordem estabelecida por um Deus Crucificado, Ele é neste desterro muito mais paternal e compassivo que Juiz inclemente.

Quereis disto um prova simples e eloquente?

Se o leitor destas linhas cometeu, por suposição, um só pecado mortal em sua vida, - e se cá embaixo, Deus fosse inexoravelmente severo e rigoroso - por que sua alma não está já no inferno, tão justamente merecido?

Por que saboreia agora o pão de mel, o pão de fortaleza desta doutrina salvadora, por que? Ah! Será diferente quando, cerrando os olhos, cairmos na outra margem da eternidade, diante do Tribunal Supremo...

Lá em cima, consumada a obra de misericórdia, ser-nos-á feita a justiça a frio. Mas por enquanto, aqui embaixo, "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5, 20) e a misericórdia.

Eis aqui uma lindíssima história ou lenda, sobre um Crucifixo milagroso. Aos seus pés, chora, confessando-se, um pecador sinceramente arrependido. Eram tantos os seus pecados, que o confessor vacila por um momento, em dar-lhe a absolvição. Mas, vencido pelas lágrimas, "Absolvo-te, lhe diz, mas cuidado em não recair!"

Passado bastante tempo, volta o penitente.

- Lutei com vontade, mas tive um momento de vertigem, de fraqueza, recaí..." Confundido, volta imediatamente a reconciliar com Deus.

- Não, lhe diz o confessor, desta vez não posso absolver-te!"

- Mas, Padre, tenha pena de mim! Pensa que sou apenas um convalescente de grave e demorada enfermidade... Por piedade, sou sincero!"

A muito custo, e depois de severas recriminações, tornou a dar-lhe a absolvição.

O penitente estava deveras arrependido, mas o hábito de tantos anos de pecado, a natureza toda comprometida, envenenada pelo vício, dá por terra uma terceira vez com os seus propósitos, depois de longo tempo de perseverança. Procura com simplicidade e confiança o confessor, quer reabilitar-se.

- "Não posso", diz o sacerdote, e levanta-se para sair, procurando desvencilhar-se do penitente que o segura com ambas as mãos.

Neste momento, ouve-se um gemido de imenso amor e compaixão imensa... Levantaram, os dois, os olhos ao mesmo tempo e, que vêem? O peito do Crucificado erguido por um soluço de emoção, os olhos cheios de lágrimas e ainda, - ó prodígio! - a mão direita solta. E ouvem Sua voz suavíssima, que diz em soluços trançando a cruz: "Eu, sim, perdoo-te, que me custaste meu sangue!"

Não me detenho em averiguar se o fato é histórico em lendário, que pouco me importa. O que me encanta é a lição, a doutrina. O Senhor é suave e bom, compassivo e terno, é misericordioso num grau que não imaginamos, "porque a esse Jesus, custamos os Seu Sangue!"

Fora, portanto, fora com as aberrações do jansenismo, gás asfixiante, deletério, que, apesar dos anátemas, continua fazendo estragos em casas religiosas e nas almas  mais puras e delicadas!

Lembrai-vos sempre de que o grande respeito é o grande amor. E o amor, quando é profundo e grande, traz infalivelmente consigo imensa confiança.

Vivemos sob o império da graça, por felicidade imerecida. Por favor do céu, não somos judeus de espírito. Nascemos do lado de cá do Calvário.

A falta de confiança é uma grande ingratidão, e falta de simplicidade e abandono. Sede mais crianças com vosso Pai que está nos céus. Reconhecei vossos defeitos, mas não vos deixeis sufocar ou desanimar por eles. Ao contrário, fazei como o Senhor, tirai partido da doença e da miséria, para Sua glória e vosso bem. Que santo, com exceção da Imaculada, não teve defeitos? Arrojai-os ao braseiro do Coração de Jesus... e queimai-vos, vós também, depois deles. 

Conheceis aquela conversa de Jesus com S. Jerônimo?

- Jerônimo, diz o Senhor, queres me dar um presente?

- Mas, Senhor, responde o Santo, já não vos dei tudo? Minha vida, meus bens, minhas energias, meus sofrimentos, minha felicidade, minha alma, tudo é vosso, e só vosso.

- Jerônimo, dá-me mais uma coisa.

- O que, Senhor, o quê? Haverá sequer uma fibra do meu coração que não vos pertença?

- Jerônimo, Jerônimo, dá-me uma coisa que ainda não é minha. Guardas ainda, para ti, algo que devia ser meu...

- Falai, Senhor, pedi. De que se trata?

- Jerônimo, dá-me os teus pecados!

Dai-os, confiai-os a Ele, como pó, como lepra, que Ele parece procurar com afã de Médico e de Salvador. "Levai-os, dizei-Lhe, levai-os todos, com as raízes, e para sempre! Creio em vosso Amor, abandono-me ao Vosso Coração. Venha a nós o Vosso Reino!"

E ficai sabendo que falando desta forma, não pretendo camuflar ridiculamente vossos defeitos, dissimular a fealdade e o número deles, não! A humildade deve ser a verdade.

(A conferência continua e terminará no próximo artigo). 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

AMOR CONFIANTE IV

 

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

(Continuação da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey)

 

Já vos disse antes: para conhecer-vos deveras, mirai-vos no espelho divino dos olhos de Jesus. O sol do Seu Coração (Guarda-te de mirar-te, ainda que por uma vez, fora de meu Coração (Vida y Obras, t. I, p. 93) mostrar-vos-á o que sois e ao mesmo tempo vos animará com a visão das suas misericórdias.

Lendo com atenção o Evangelho, acaba-se por compreender que Nosso Senhor vivia sedento das misérias humanas.

Leiamos refletindo as passagens do Bom Pastor, do Samaritano, as cenas da Madalena e da mulher adúltera, as refeições com os publicanos e onde quer que encontremos as palpitações violentas da Coração misericordioso de Jesus.

Os publicanos não só existiram, mas continuam a existir, somos nós mesmos. E Jesus se apressa a buscar-nos, justamente porque somos publicanos.

Compreendamos portanto, uma vez por todas, que a única maneira de ficarmos quites com o Médico divino é dar-Lhe o coração, cheio de confiança.

Jamais conseguiremos que ela seja bastante grande, dizia Teresinha, jamais!

Quantos não fizeram do Coração de Jesus uma novidade e uma devoçãozinha poética, nascida em Paray-le-Monial!

Mas não é verdade.

O Coração de Jesus autêntico, inteiro, maravilhoso, doutrina substanciosa, vida e misericórdia, centro dos corações, eu o encontro no Evangelho.

Creio - pois claro! - nas grandes revelações feitas a Santa Margarida Maria, justamente porém, o que mais comove nelas e o que mais me convence - depois da autoridade da Igreja - é a concordância perfeita entre o Evangelho e os manuscritos de Margarida Maria.

Nem ela, nem coisa nenhuma me são indispensáveis ao conhecimento daquele Coração que se revelou a nós de maneira maravilhosa em Belém, Nazaré, no Calvário e que prossegue revelando-se no Tabernáculo. Paray lançou forte luz e é deveras uma revelação, seus pedidos e promessas são marcos divinos que dão relevo à doutrina. Esta, porém, encontra-se a cada linha do Evangelho, suprema e definitiva revelação do Coração de Jesus.

O acontecimento de Paray reveste-se, antes, de uma outra importância, certamente capital.

O Salvador regressa a essa terra-santa, para condenar, reafirmando o que há havia dito na Palestina, a heresia horrenda e fatídica do jansenismo.

Resumindo: o que Nosso Senhor disse em Paray condensamos nesta frase: "Crede em Meu amor, não temais, sou Jesus; amai-Me, dando-Me o vosso coração, e fazei-Me amado, porque sou Jesus".

Não era isso nenhuma novidade. Nos lábios, porém, de Jesus, e depois, firmado pela Igreja, constituía o anátema de morte contra o jansenismo hipócrita, heresia daquela época.

Como os fariseus de Jerusalém, estes mais modernos, não menos repugnantes e venenosos, não acertaram que um Mestre de Israel, um enviado do Altíssimo, novo Profeta de uma lei bondosa, manifestasse, como o fazia Jesus, tais preferências, fraquezas de ternura, para com aqueles por eles desdenhados como escória moral.

E precisamente para recolher, com mãos divinas, "essa escória" e convertê-la em tesouros de glória eterna, vinha Jesus, enviado do Pai, para salvar.

Magnífico e eloquente escândalo! As criaturas chamadas justas, os condutores das almas e conhecedores das Escrituras não concebiam um Deus, um Jesus que, sendo quem é, coma e converse com pecadores e que por eles tenha deixado os anjos do céu.

Jansenistas já eram essa turba de fariseus soberbos e hipócritas ... E fariseus são também os idênticos orgulhosos, os idênticos sepulcros caiados que não aceitam como autêntica e divina a doutrina do Coração de Jesus: "Quero Misericórdia", Misericordiam volo  (Mt 9, 13).

Com que veemência maldigo esse jansenismo, que parece haver fomentado, especialmente nas almas mais ricas e generosas, a heresia que, como um vampiro, sorveu-lhes o sangue da nobreza e da generosidade, dissecou-lhes o coração, paralisou-as. Converteu em múmias de terror e aparente austeridade, almas gigantes que, se tivessem amado, se houvessem levantado vôo, se tivessem fixado por horizonte, não suas misérias, mas a Jesus, e muito mais que a obsessão do inferno, o Amor, teriam chagado a maravilhas de santidade.

Jansenismo nocivo, infecto, que se atreveu a converter o Senhor de suma caridade e misericórdia em um Moloch feroz, num Júpiter tonante, cruel e assustador. Quantas e quantas vítimas desse sistema sem luz, sem esperança, sem amor, encontrei em meu caminho!

Mas, demos graças a Deus, esses miasmas parecem ceder, depois de combate rude; e à escola jansenista, falta de entranhas, de piedade e de Eucaristia, sucede hoje no governo das almas a escola do Coração de Jesus, radiante de beleza, rica de doutrina, entusiasta pela Eucaristia, saturada de confiança evangélica.

Fazemos agora tremer, sim, mas de amor imenso.

Nunca poderei esquecer o que me dizia um jansenista, ilustre advogado, que se julgava católico perfeito: "Não me fale, Padre, de misericórdia; o que eu peço e quero é que me seja feita justiça seca". Infeliz dele. Se o Sagrado Coração não houvesse sido mil vezes mais compassivo que rigoroso, já saberia o pobre a estas horas o que é justiça inexorável, eterna.

Mas Nosso Senhor vinga-se, sim, à sua maneira porém. E o tal jansenista morreu abraçando com amor apaixonado uma imagem do Sagrado Coração, e pedindo misericórdia.

Não foram de estilo semelhante os Apóstolos, antes de receberem instrução e educação, quando diziam: "Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?" (Lc 9, 54).

Não tinham ainda penetrado no espírito e no Coração do Mestre. Quando o Espírito Santo abriu-lhes os olhos e suas almas dilataram-se, fizeram reparação, mandando baixar fogo de Caridade que incendiasse almas e povos no amor de Jesus Cristo. Foi esse o seu apostolado.

Há daqueles para os quais, dir-se-ia, não há senão um atributo em Deus: justiça tremenda.

É claro que Deus, porque é Deus, há de ser infinitamente justo. Mas precisamente por isso, aqui embaixo, enquanto percorremos esse caminho escabroso de viajores, conhecendo Ele o barro com que nos formou, deve ser muito mais bondoso que rigoroso, muito mais Salvador e Pai que Juiz inexorável.

Ele veio e ficou na Eucaristia e na Igreja, para salvar ... Nós o forçamos, desgraçadamente, a condenar, obrigamo-Lo a ser Juiz severíssimo.

Se não houvesse senão justiça, ou se houvesse mais justiça que misericórdia, ou se fosse tanta a justiça quanta a misericórdia, cá embaixo, no governo providencial das almas, para que então o confessionário, o sacerdócio, a Eucaristia, e todo o plano mil e uma vezes prodigioso de redenção misericordiosa?

Para quem tenha um poucochinho de experiência das almas, a aplicação prática e diária desse plano redentor constitui o milagre dos milagres, e milagre permanente.

(A Conferência continua no próximo artigo).

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

AMOR CONFIANTE III

 


"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

 P. Mateo Crawley-Boevey SS. CC.

"Para que encarnou-se o Verbo?

Para estabelecer uma nova lei, portentosa, poderosa, lei positiva e fundamental do cristianismo, lei imperecível e salvadora, a lei da Misericórdia.

E por isso a desconfiança Lhe fere o Coração.

Sabeis qual foi, na realidade, o maior delito de Judas, ainda maior que a traição e os suicídio? Ter recusado a crer naquela misericórdia que Jesus ofereceu-Lhe, de joelhos, quando lavou-lhe os pés, na última Ceia!

Não alteremos o Evangelho, que não temos esse direito.

O Senhor veio não para os justos e sadios, mas para os pecadores e enfermos (Mc 2, 17).

E a retribuição que Ele pede em troca de uma tão grande condescendência é o amor de confiança, que é sempre o mais sincero e o mais humilde dos arrependimentos. Quem não compreende isso, não compreendeu ainda o que há de mais delicado e belo no Coração de Jesus!

Nada, nem ninguém, pode impedir-nos a aproximação do seu Peito ferido.

Vossos pecados, dizeis?

Lavou-os com Seu Sangue. Vossa indignidade? Ele a conhece mil vezes melhor que vós mesmos. E quanto a qualidades, não pede senão uma: crerdes com humildade e confiança em seu Amor.

Sabei que se alguma coisa há que O distancie de vós é justamente esse olhar para trás, para vossa vida passada. E esse duvidar do seu Coração, e revolver-vos em vossas próprias misérias, o que aliás, frequentemente, mais que arrependimento, é refinado amor-próprio.

Se não quereis envenenar vossas feridas, não as toqueis excessivamente. Vossas mãos as irritam... Só as de Nosso Senhor curam e as cicatrizam.

Pela última vez, não abuseis da palavra "respeito". sob cuja sombra tem-se inculcado sempre o mais repugnante e odioso jansenismo.

Confiai-vos a Ele, que é Pai e Mãe e Salvador. Confiar não é nem será jamais falta de respeito, como nunca será igualmente obedecê-Lo, acercar-se d'Ele quando Ele, conhecedor de vossas fraquezas, chama e insiste oferecendo-vos o Coração.

Resistir a esse chamado, sob pretexto de não estar ainda suficientemente purificados e dignos, é soberba disfarçada. E nesse caso, sede ao menos sinceros e confessai que sobre amor-próprio e que falta o amor de Nosso Senhor.

Se amásseis, como seria diferente o vosso modo de raciocinar, pois que tão diversa é a atitude da humildade, irmã gêmea da confiança!

Motivo tinha Santo Agostinho para dizer: "Ama, e faze o que quiseres".

O que quiseres, porque tendo na alma a conselheira de uma verdadeira caridade, não há perigo que, amando e confiando, chegues a ofender a quem ames.

Como é belo pensar que antes de Pentecostes São Pedro disse: "Retira-te de mim, Senhor, que sou um pecador" (Lc , 8).

E Pedro caiu!

Depois que a luz de Pentecostes lhe mostrou junto ao abismo da sua fraqueza um outro da infinita misericórdia, deve ter pensado e exclamado com freqüência: "Senhor, não Te afastes ... aproxima-Te mais, muito mais, inteiramente, porque sou um grande pecador".

Perguntai a um São Francisco de Assis, a um S. João da Cruz, a um Francisco de Sales, a um S. Paulo, onde encontraram o segredo da vida, da santidade, do amor: à distância de Nosso Senhor, ou no afã de chegar à intimidade, no caminho da fraqueza e da confiança?

Onde, senão no Evangelho, aprendeu Teresinha a teologia prodigiosa com a qual está provocando, segundo afirmam graves doutores, um renascimento espiritual. Quero dizer a teologia que chamaríamos dos garotos, daqueles atrevidozinhos que, encarapitados nos joelhos do Mestre (Mt 19, 13-15) e sedentos de carinhos, aprenderam muito antes de Teresinha que o amor tende à união e que esta supõe confiança ilimitada.

Não é este o perfume mais puro e celestial do Evangelho? Quem se excedeu na medida, os meninos ou Jesus? Se houve excesso, foi de ternura e condescendência de Nosso Senhor.

As almas pequeninas e simples tiveram sempre o privilégio de compreender essas exigências e sublimidades do amor. Entre as crianças que disputam o posto de honra, para ouvir as batidas do Coração do Amigo, e os apóstolos e S. Pedro, que se surpreendem com tanta familiaridade, que não a compreendem e se afastam: Deixai-Me os garotos, prefiro-os incomparavelmente, nesse momento do céu ... Na vida e no morte, quero para mim a sua simplicidade, sua confiança e ... o seu posto!

Não percebeis quão capcioso é o ardil do inimigo distanciando-vos do Senhor, com a obsessão dos vossos pecados. Daí a desanimar-vos, a abater-vos, e fazer-vos logo rolar mais para baixo, basta um passo.

Estudai um instante diante do Sacrário a atitude de Jesus com a Samaritana ... (Jo 4). Evita Nosso Senhor dirigir a palavra a essa grande culpada? Fala-lhe em tom ou de forma a fazê-la retirar-se envergonhada de sentir-se tão próxima d'Ele que é a mesma Santidade? Qual o fruto imediato dessa proximidade? Confusão e fuga da Samaritana, ou expansão de confiança simples, de arrependimento e conversão?

Aprendamos a lição, para proveito nosso e das almas. Todo o mal grave começa e se consuma no afastamento de Jesus. E toda virtude e principalmente a do arrependimento e a da humildade, levam-nos como por instinto ao Coração do Salvador.

Porque, se às vezes, procurando embora essa intimidade, não vedes nem sentis, não apalpais os frutos de aproveitamento e correção dos defeitos, não atribuais a esterilidade à vizinhança de Jesus.

Sabei discernir. Nem todo progresso espiritual é sensível. Além disso, com freqüência, passados longos anos nesta via de amor e confiança, vêem-se mais claramente as maldades da natureza. Não se trata, portanto, de haver piorado junto de Nosso Senhor. Mas cresce a luz, o sol, que é seu Coração, penetra em vós, e mostra hoje na alma  "bactérias" cuja existência, um ou dez anos atrás, não havíeis percebido a pouca luz.

Ademais, Ele continua a permitir que sintais, ainda depois de convalescidos, o mal-estar do vosso pecado, para que seja expiado e se complete, com a humilhação, a cura da alma.

Continuais trabalhando por aproximar-vos de Jesus, com menos preocupações e com mais confiança em Sua misericórdia. Pensai mais no Médico e no Seu tratamento que na doença e no doente.  

 

 

AMOR CONFIANTE II


"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

(Continuação da Conferência do P. Mateo Crawlei-Boevey SS. CC.)

 

"Para consolo vosso, observai que o amor com que Jesus vos ama não é perfeitamente o mesmo amor com que ama a sua Mãe, toda pura, santa, perfeita, imaculada, única. Ele é, poderíamos dizer, um amor à parte.

Nem tão pouco se trata do mesmo amor com que ama aos seus anjos, espíritos perfeitos, sempre fiéis, puríssimos. Lembrai-vos de que o Verbo deixou-os, os noventa e nove fidelíssimos, pela... ovelhinha desgarrada que és tu que estás lendo isto.

E há mais: o amor de que te falo não é, em certo sentido, aquele com que amou ao grupinho de almas de neve e fogo, almas-lírios, criaturas privilegiadas, que foram e serão sempre na Igreja o oásis do Coração de Jesus, o "rebanhozinho pequenino" que O segue, cantando um cântico que mais ninguém poderá cantar... (Ap 14, 3). Estas almas, preciosas por sua fidelidade heróica e constante, por sua pureza sem mácula, mereceram as carícias do Rei de Amor.

O amor, no entanto, com que ama  cumula a imensa maioria de pecadores, miseráveis e ingratos, é o Amor Misericordioso, quer dizer, uma condescendência infinita. É o Verbo, Deus-Salvador, que baixou ao pântano para converter o lodo em estrelas contanto que a lama se humilhe e creia na misericórdia do Senhor.

Já compreendeis por que estabelecemos as diferenças acima, pois era preciso pôr em relevo aquilo que Teresinha chama o Amor Misericordioso de Jesus, e fazê-lo apreciado, quanto possível, no seu valor exato.

São de fato duas coisas diferentes, uma o amor que doura e diviniza a neve com dardo de fogo, e outra, o amor que em torrentes de sangue purifica e embeleza a baixeza do lodo.

Com que e quando merecemos nós essa condescendência do Amor Misericordioso?

Nunca! Pecamos, agimos iniquamente, crucificamos e matamos, com maior culpa que os próprios verdugos, o Senhor da vida... Todos nós Lhe deitamos as nossas mãos tintas com Seu Sangue. Todos nós! E Ele estende-nos os braços, oferece-nos Seu perdão, Sua amizade, Seu Coração!

Não é o cúmulo dos cúmulos, a loucura das loucuras do amor de um Deus?

Por essa razão é inconcebível o pecado do temor, da desconfiança. Quase diria que é imperdoável.

É possível que seu Coração busque o nosso com afã  - atração dos abismos - e que nós, afogados em nossa miséria moral, nos neguemos, por falta de confiança, a dar entrada Àquele que quer, pede e suplica que o deixemos preencher o nosso abismo de morte com o seu Coração, abismo de perdão e vida?

Às Suas insistências, respondemos com o argumento tocado de indignidade e respeito, como se Ele ignorasse a verdade ao presentear com o tesouro de Suas ternuras, como se Ele fosse monopólio dos justos, ou dos que se crêem merecedores de Suas graças. Dir-se-ia que estes tais pretendem chamar à razão a um Deus que parece exagerar ( ! ) querendo confundir Sua vida imortal com a nossa.

E então, quando Ele se achega, estas almas retrocedem. Quando diz: "Vinde todos", elas parecem repetir com o endemoniado do Evangelho, "Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos?" (Mt 8, 29). Infelizes, fogem!

Esquecem-se os pobres que entre o Pai Justiceiro e nós rebeldes, interpõe-se o Filho Misericordioso, como ponte de esperança pela qual culpados e perdoados teremos acesso ao Pai de Clemência.

"Passai, meus filhinhos, diz, passai por esta ponte que Sou o Crucificado. Não temais, passai, porque Eu sou o Caminho. Por que tremeis? Passai meditando em minha Cruz, em meu Calvário, em minha Eucaristia. Avançai em paz e com plena confiança, Eu quero replenar o abismo do vosso pânico com o da minha ternura. Mas, por favor, meus filhinhos, não caveis o abismo de distâncias e receios que Eu mesmo suprimi com minha Encarnação e minha Eucaristia".

Almas pusilânimes e de pouca fé, não percebeis que a maior de vossas faltas, que a fonte de muitas delas e que a que mais ofende ao Senhor é vossa falta de confiança!

A quantas de vós, almas assustadiças, que jamais ficais satisfeitas com vossas confissões, que estais sempre duvidando do perdão de pecados cem vezes acusados, poder-se-ia aplicar a história que segue:

Uma dessas tantas almas que parecem considerar a Jesus um tirano, prepara-se para fazer uma confissão geral pela centésima vez. Inquieta, perturbadíssima, passa o seu retiro escrevendo os pecados de toda a sua vida. Não medita, não reza, está inteiramente engolfada num exame que a sufoca.

Chega, por fim, ao confessionário. Lê, acusa, repete dez vezes, explica sempre a tremer transtornada...

Quando imagina que tenha terminado, ouve o confessor dizer-lhe em voz suave e bem triste:

- Esqueceste uma coisa muito importante.

- Bem que desconfiava, replica ela em sobressalto, dispondo-se a voltar atrás para recomeçar a leitura das suas laudas...

- Não, diz então o confessor, não está nos teus papéis, e me entristece muito mais do que os que acusaste. Acusa sobretudo tua falta de confiança!

Levanta-se; a voz comoveu-a. Quer certificar-se se realmente é a de seu confessor. Mas o confessionário está vazio, Jesus viera dar-lhe uma lição SUPREMA.

Não censuramos, é claro, as confissões gerais, muito proveitosas em determinadas ocasiões, e sim a falta de confiança, o sobressalto sistemático, o temor exagerado que é um ultraje à bondade do Salvador.

Semelhante mentalidade desfigura a Nosso Senhor, diminuindo-O.

Se os cegos, os leprosos e paralíticos curados por Jesus tivessem raciocinado dessa forma, e houvessem duvidado de sua cura por acharem-se indignos, teriam merecido, certamente, recair em suas enfermidades, e com maior gravidade, como castigo de sua ingratidão e orgulho a que se reduz sempre no fundo o pecado de desconfiança.

 

(A conferência continua no próximo artigo).

  

AMOR CONFIANTE


"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36)

Pelo Padre Mateo Crawley-Boevey  SS. CC.

É uma conferência extraída do seu Livro "JESUS, REI DE AMOR"

 

Caríssimos, não acrescentarei uma só palavra minha, não venha ela empanar o brilho daquela eloquência mais do céu que da terra; nem arrefecer o calor daquele fogo divino que abrasava o peito deste grande apóstolo da devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Assim, demos a palavra ao Bem-aventurado Missionário:

"Palavra inefável, eloquente como poucas, talvez como nenhuma. Tende confiança, "sou Eu".

- Eu, vosso Pai, vosso Amigo, vosso Salvador. Nolite timere! "Não temais!".

- Mas, como?... E minhas ruindades?

- Ego sum! "Porque sou Eu" ...

Se fosse um Anjo, um profeta, um Santo, poderíeis temer, pois as criaturas, as melhores, não podem amar-vos como Eu ... Não temais, porque sou Jesus.

E por isso Ele disse: "Eu vos dou a minha paz" (Jo 14, 27). A Sua, não a nossa, tão desprezível. A Sua e não a do mundo, falsificada, perigosa, envenenada.

Sobre os fundamentos da Sua misericórdia, tenhamos a paz. Não porque nos creiamos justos e confirmados em graça, mas porque cremos com fé imensa em seu amor, remédio e reparação para nossas misérias.

Que faríamos sem esta energia sobrenatural, divina, da confiança em Nosso Senhor? ao cimo da santidade, chega-se pela vereda da confiança; não há outro caminho.

Porque sendo o que somos todos nós, um abismo de baixezas e pecados, pedir-nos que assim mesmo subamos sem nos dar antes de tudo as asas da confiança, seria arrojar-nos num outro abismo: o do desânimo definitivo e sem remédio.

Mas, por essa escada santa, mas, com tais asas divinas, quero, sim, e posso, ser santo. Quero e posso subir muito alto, de profundis, das profundezas da minha maldade, do abismo da minha miséria.

Não me venham dizer que isso é pretensão, que é ilusão ... Se pensasse em chegar ao cume com meus pés de argila, então, mil vezes seria loucura e soberba. Mas, nos braços de Jesus, sobre seu Coração, estou certo de que chegarei com êxito, porque sou menos que uma formiga.

Ele transforma sempre as formigas confiantes  em águias reais.

Se Ele, o Deus de perdão e de graças, se Ele, Jesus, o Deus de misericórdia e ternura; se Ele, Jesus, o Deus Crucificado e Sacramentado por amor e Encarnado para salvar, não me inspira confiança cega, imensa, ilimitada, quem poderá inspirar-me?

Veio, acaso, à terra para trazer-nos...  o quê? Os arremessos de tremenda justiça? As chamas de uma cólera divina? A sentença de morte eterna, mil vezes merecida? Não! Absolutamente não! Abri o Evangelho em qualquer página, ao acaso, e ainda em suas iras e anátemas encontrareis inebriante, irresistível, o Coração do Salvador.

Veio perdoar, salvar, semear paz, dar o céu, ainda àqueles, e sobretudo a eles, que Lhe prepararam a cruz: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Com este fim redentor "aniquilou-se, tomando a natureza de servo" (Fp 2, 7). Revestiu-Se da nossa roupagem leprosa, e por isso o fulminou o Pai.

Tomou consigo nossas misérias, segundo está escrito: "Tomou sobre si nossas fraquezas, e ele mesmo carregou com as nossas dores" (Is 53, 4). "Homem de dores e experimentado nos sofrimentos" (Is 3, 3).

Não, por certo, em sentido literal, mas figurado, poderíamos pois aplicar-Lhe aquela expressão dos Livros Santos: "Um abismo chama outro abismo" (Sl 41, 8). Isto é, o abismo da nossa miséria e corrupção, dir-se-ia, atraiu o abismo de Sua misericórdia e bondade.

Belém é apenas, com toda a sua pobreza, um reflexo, um quadro poético, se comparado com outro berço consciente de sua pobreza e indignidade: o coração de quem comunga.

Jesus, que sabe disso, manda que o recebamos, que comunguemos.

Sobre a base do arrependimento e da humildade, parece Jesus correr um véu de paraíso sobre este presépio menos que palha, e comprazer-Se nele. E tem ânsias supremas de descansar nesse altar desmantelado. Negar-Lhe o direito à sua condescendência seria feri-Lhe o Coração!

Sabeis qual  é, para mim, a transfiguração que me enlouquece? não a do Tabor, onde, por um instante, parece recobrar o que havia deixado por meu bem, o manto da sua majestade esplendorosa. A transfiguração que me comove e arrebata é outra: a de Belém, quando vejo o Criador revestido das roupinhas da nossa natureza. A de Nazaré, quando contemplo meu Juiz, coberto com o véu do anônimo, de qualquer um. E aquela do Calvário, quando adoro, debaixo da púrpura sangrenta e da mortalha da morte, Aquele que é a Vida. Oh! Jesus, à força de quereres assemelhar-Te a nós, já não Te pareces contigo mesmo!

Esta transfiguração tríplice que o faz tão meu, tão Irmão, tão condescendente, tão parecido comigo, ensina-me, melhor que o Tabor, quanto devo amá-Lo e com quanta confiança, se possível infinita, devo aproximar-me de Seu Coração.

O contraste prodigioso entre o que o Tabor mostra num instante e o que é e permanece em Belém, Nazaré e no Calvário, prega-me, patentemente, e com eloquência esmagadora, a loucura do Seu amor e a realidade daquela palavra da Escritura: "Não quero a morte do ímpio, mas que se converta a viva (Ez 33, 11). E ainda: "Veio buscar e salvar o que tinha perecido" (Lc 19, 10).

(Continua no próximo artigo).


A BONDADE DE DEUS E AS DOENÇAS

 

SENTENÇA: "Porque eras aceito a Deus, por isso foi necessário  passares por provações" (Tob XII, 13).

REFLEXÕES: Tobias amava a Deus e ao próximo. Era um homem de oração, penitente e caridoso. Era aprovado e querido do Pai do Céu. E por isso mesmo Deus o provou com doenças e dificuldades financeiras. "Bendizei o Deus do Céu (disse-lhe o Anjo Rafael) e dai-lhe glória diante de todos os viventes, por ter usado convosco da sua misericórdia" (Tob XII, 6).

 Deus nos ama. E nunca podemos esquecer que a nossa verdadeira felicidade está no Céu. E tudo aqui na terra deve nos levar para lá. Deus, Pai de misericórdia e bondade infinita, manda ou permite tudo o que nos faz  converter e/ou aumentar os merecimentos desapegando-nos sempre mais da terra. Em uma palavra: Tudo é para o nosso verdadeiro bem, que é a Vida Eterna.

Feliz de quem sabe assim aceitar as provações da vida: "Para aqueles que amam a Deus, tudo coopera para o bem" (Rm VIII, 28). Feliz de quem aproveita a doença para se converter, ou, caso já sirva a Deus, para crescer em merecimentos para o Céu! Na verdade, há duas situações cuja diferença vai do Céu ao Inferno. Exatamente! Quem, pelas doenças e/ou perda dos bens materiais, se converte verdadeiramente, i. é, deixa o pecado, faz uma santa confissão e aceita os sofrimentos como penitências para reparar suas ofensas a Deus, este, digo, está se garantindo para o Céu. Quem, porém, se arrepende, não por ter ofendido a Deus e ter merecido o inferno, mas unicamente por ter ficado doente em consequência de certos pecados cometidos, este, digo está à caminho do inferno, enquanto não se arrepender ou por ter ofendido a Deus sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas (=arrependimento perfeito) ou, pelo menos, por ter perdido o céu e merecido o inferno (= arrependimento imperfeito suficiente junto com o sacramento da Penitência).

EXEMPLOS: 1 - S. Félix era frade capuchinho. Ficou doente e sofria muito. Seu médico, compadecido em ver o frade sofrendo tanto e sem esperança de cura,  exortou-o a que pedisse a Deus a sua cura. O santo respondeu: "Na verdade o burrinho (o corpo) quisera escapar do chicote; mas, mau grado seu, terá que estar sob as chicotadas. Doutor, agradeço o seu conselho, mas é Deus mesmo que me visita e não posso fazer a Ele tal pedido. Na verdade, estas dores são flores celestes, que o paraíso produz e Deus manda a seus filhos". E pôs-se a dar graças e a bendizer a Divina bondade que o tratava daquele modo.

2 - O barão Geramb em 1805 mandou um corpo de exército contra Napoleão. Mas fora vencido e preso. Oito anos depois, Napoleão fora derrotado em Leipzig. Geramb recuperou a liberdade do corpo e da alma. Da alma porque deixou a vida de pecados pelos quais estava preso nas garras do demônio. Abandonou o mundo, fez-se religioso na Trapa, que era a Abadia mais penitente. Deixou escrito: "Em meus longos anos de prisão vi que, no tempo da desgraça, todos os amigos nos abandonam, menos o nosso maior amigo, Jesus, que deu a vida por nós. Para expiar as ofensas que fiz a Ele no mundo, fiz-me trapista. Não quero que digam de mim senão que sou um pecador penitente". Morreu em odor de santidade. Que seria dele se não fossem os sofrimentos!...

3 - Uma senhora muito religiosa lamentava-se comigo por ver que seu filho não se convertia, apesar de ela rezar sempre por ele. Respondi-lhe: "Continue rezando e faça também alguma penitência. A palavra de Nosso Senhor é infalível e para Ele nada é impossível. Não sabemos qual o meio que Ele vai usar". Foi uma doença. Hoje, aquela piedosa mãe está triste por ver seu ente querido doente no corpo; mas se acha grandemente feliz em vê-lo são na alma. Afinal, estamos aqui de passagem em demanda da Jerusalém Celeste. Amém!

"AQUELES QUE QUEREM VIVER PIEDOSAMENTE COM JESUS CRISTO, HÃO DE SOFRER PERSEGUIÇÕES" (II Tm III, 12).

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

ALEGRIA NO SOFRER


 Jesus alegrou-se em sofrer porque sabia que seus sofrimentos e morte seria a vitória que Lhe havia de garantir a conquista do mundo: "Quando eu for elevado da terra, (= quando for crucificado) atrairei tudo a mim" (Jo XIII, 32). Jesus desejou ardentemente o momento de sua Paixão e Morte: "Eu tenho que ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua!" (Lc XII, 50). E este batismo de sangue Jesus anunciou-o  por diversas vezes aos seus apóstolos como o coroamento de toda a sua missão: "Ponde bem estas palavras em vossos corações: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens que o matarão" (Lc IX, 44); "O Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e esses mesmos o entregarão aos gentios; ele será exposto à zombarias e às injúrias, coberto de escarros, flagelado, depois morto, e ao terceiro dia ressuscitará" (Mt  XX, 18 e 19). E ao começar a Paixão disse: "Eis que agora o Filho do homem é glorificado e que Deus é por ele glorificado" (Jo XIII, 31).

E Nosso Senhor Jesus Cristo queria que seus discípulos tivessem também estes mesmos sentimentos: "Bem-aventurados (=felizes) os pobres"; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos... Sereis felizes quando vos insultarem e disserem injustamente toda sorte de mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (Mt V, 10). Jesus queria que seus discípulos tivessem o amor da cruz, levado até ao amor dos sofrimentos. É claro que estranho seria alguém sofrer como um estóico, mas o normal para um cristão é imitar o seu Divino Mestre, amando como Ele e por amor a Ele, os sofrimentos.

O mundo não compreende esta verdade; aliás, nem os Apóstolos, antes do Pentecostes, a entendiam. Vede: Jesus Cristo, sempre tão bondoso e manso, empregou palavras muito severas ao censurar Pedro porque o chefe dos apóstolos não queria admitir que Jesus precisasse padecer e morrer: "Afasta-te, Satanás (=tentador) - disse-lhe Jesus - porque tu me escandalizas, nada compreendes das coisas de Deus, não tens senão pensamentos humanos" (Mt  XVI, 23). Também tratou de estultos os discípulos de Emaus, porque não compreendiam que Lhe fosse preciso sofrer para entrar na glória: "Ó estultos e tardos de coração para crer!" (Lc  XXIV, 26).

Mais tarde, porém, já santificados e esclarecidos, alegraram-se por terem sido flagelados pelo nome de Jesus (At V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e de S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (At XIV, 21). Também, a exemplo de seu Mestre, S. Paulo recomenda aos fiéis que suportem tudo, não só com paciência, mas também com alegria: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu [de Deus] poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria"... (Col. I, 11). E S. Tiago escreve: "Meus irmãos, tende por um motivo da maior alegria para vós as várias tribulações que vos afligem..." (Tg I, 2).

O sofrimento é tão salutar, que toda alma de fé deveria sentir-se feliz em sofrer. Pois o sofrimento triunfa do pecado e do demônio, que reina pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Na verdade, o pecado não é outra coisa senão o desprezo de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Daí o remédio do pecado está nas privações e nos sofrimentos. Jesus disse: "O reino dos céus padece violência, e só os violentos (i. é, os fortes no sofrimento e nas renúncias) arrebatam-no". 

As cruzes, as renúncias, os sofrimentos e as privações tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, o repouso e as doçuras da vida amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz quando a vê acrisolada pela dor. O sofrimento, outrossim, alimenta e mantém o amor de Deus e do próximo. É mais fácil padecer bem do que agir bem porque há menos perigo de amor próprio, menos de espírito puramente humano. "Sofrer - dizia S. Francisco de Sales, é quase que o único bem que possamos fazer na terra... uma onça de paciência vale mais que uma libra de ação".

Ademais, os sofrimentos preparam delícias imensas e eternas na Pátria Celestial. As dores suportadas por amor de Deus produzem suaves alegrias: "Vossa tristeza  -  disse Jesus aos seus apóstolos  -  se converterá em alegria" (Jo XVI, 20).

Caríssimos, se uma chuva torrencial, uma tempestade devastar todas as nossas plantações, teríamos imensa alegria, caso os granizos fossem grãos, uns de ouro e outros de diamantes. Pois bem, assim são os sofrimentos desta vida quando aceitos e suportados por amor a Jesus e em união com Ele, são tesouros que ajuntamos para a Vida Eterna. Amém! 

sábado, 5 de setembro de 2020

A LOUCURA DO PECADOR


"A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus" (I Cor. III, 19)

Segundo Santo Afonso Maria de Ligório

Há quem enlouqueça pelas honras; outros, pelos prazeres; não poucos, pelas futilidades da terra. E se atrevem a considerar loucos os santos, que desprezam os bens mesquinhos do mundo para conquistar a salvação eterna e o Sumo Bem, que é Deus. A seus olhos é loucura sofrer desprezos e perdoar ofensas; loucura, privar-se dos prazeres sensuais e preferir a mortificação; loucura, renunciar às honras e às riquezas, e amar a solidão, a vida humilde e oculta. Não consideram, no entanto, que a essa sua sabedoria mundana Deus chama loucura: "A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus" (I Cor. III, 19). Ah! ... Virá o dia em que confessarão e reconhecerão a sua demência, mas será tarde: "Desgraçados de nós, que reputávamos loucura a vida dos santos! agora compreendemos que os loucos fomos nós. Eles já se contam no número feliz dos filhos de Deus e compartilham a sorte dos bem-aventurados, que durará eternamente e os fará felizes para sempre... ao passo que nós ficamos escravos do demônio, condenados a arder neste cárcere de tormentos por toda a eternidade!... Enganamo-nos, pois querendo cerrar os olhos à luz divina (cf. Sabedoria, V, 6) e nossa maior desventura é sabermos que o nosso erro não tem nem terá remédio enquanto Deus for Deus.

"Oxalá que eles tivessem sabedoria e compreendessem e previssem o fim" (Dt  XXXII, 29). O homem que se guia razoavelmente em suas obras, prevê o futuro, isto é, considera o que lhe há de acontecer no fim da vida: a morte, o juízo, e depois dele o inferno ou a glória. Quanto mais sábio é um simples aldeão que se salva, do que um monarca que se condena! "Vale mais um moço pobre, mas sábio, do que um rei velho e néscio, que não sabe prever nada para o futuro" (Ec IV, 13). Ó Deus! Não teríamos por louco aquele que, para ganhar um real, se arriscasse a perder todos os bens? E não deve passar por louco aquele que, a troco de um breve prazer, perde a sua alma e se expõe ao perigo de perdê-la para sempre?

Deus não nos colocou neste mundo para alcançarmos riquezas, nem adquirirmos honras ou contentarmos os sentidos, senão para procurarmos a vida eterna: "Mas agora que estais livres do pecado  e feitos servos de Deus, tendes por vosso fruto a santificação e por fim a vida eterna" (Rm. VI, 22). E a consecução desta finalidade deve ser o nosso único interesse. "Uma só coisa é necessária" (Lc X, 42). Ora, os pecadores desprezam este fim. Só pensam no presente. Caminham até ao término da vida e se acercam da eternidade, sem saberem para onde se dirigem. Sábio do mundo foi o rico avarento que soube enriquecer; e, todavia, morreu e foi sepultado no inferno (Cf. Lc  XVI, 22).

"Ante o homem, a vida e a morte: aquilo que ele escolher, ser-lhe-á dado" (Eclo XV, 18). Cristão! diante de ti se apresentam a vida e a morte, isto é, a voluntária privação das coisas ilícitas para ganhar a vida eterna, ou o entregar-te a elas e à morte eterna ...Que dizes? Que escolhes?  "Que aproveita ao homem ganhar o mundo todo e perder sua alma?" (Mt  XVI, 26).

Compenetremo-nos bem de que o verdadeiro sábio é aquele que sabe adquirir a graça divina e a glória do Céu. Seremos eternamente venturosos, se soubermos amar a Deus, ainda que ignoremos todas as demais coisas. Quantos ignorantes há, diz S. Agostinho, que nunca aprenderam a ler, mas que sabem amar a Deus, e se salvam, quantos doutros do mundo que se condenam! ... Quão sábios, tantos mártires e tantas virgens que renunciaram a honras, prazeres e riquezas para morrer por Cristo! Aqueles que renunciam os bens da terra para se consagrar a Deus são chamados homens desenganados. Como deveremos chamar os que preferem os bens do mundo? ... Homens enganados.

Os sepulcros são escola excelente para reconhecer a vaidade dos bens deste mundo e para aprender a ciência dos Santos, adverte S. João Crisóstomo, saberíeis distinguir ali o príncipe do plebeu, o analfabeto do letrado?" "Eu, por mim, nada vejo, senão podridão e vermes". Todas as coisas do mundo passarão em breve.

É preciso evitar as ocasiões de pecar, frequentar os sacramentos, fazer oração e meditar as máximas do Evangelho, como, p. ex.: "Que aproveita ao homem se ganhar o mundo todo e perder a alma?" "Quem ama desordenadamente a sua vida, perderá a vida eterna". " Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo". Nossa salvação consiste no cumprimento da vontade divina (Sl 29, 61).

CONCEDEI-ME, PAI ETERNO, PELOS MERECIMENTOS DE JESUS CRISTO, FORÇA PARA FAZER EM TUDO A VOSSA VONTADE! Amém!

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

PERIGO DAS RIQUEZAS


SENTENÇA: "Ai de vós, ó ricos! porque tendes já agora neste mundo a vossa consolação" (Lc VI, 24).

REFLEXÕES: Jesus Cristo deixou bem claro que a riqueza constitui um grande perigo de condenação. Ele é o Caminho que nos leva ao Céu. Ora, sendo rico, escolheu uma vida pobre. Já quis nascer em extrema pobreza. Passou mais de vinte anos na pobre casinha de Nazaré. Durante sua vida pública, simplesmente não tinha morada certa: "As raposas têm suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; porém, o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça" (Mt VIII, 20).

O Espírito Santo declara feliz o homem que não se deixou atrair pelo ouro e pelas riquezas, porque com elas tinha facilidade de praticar o mal, e no entanto não o fez (Cf. Eclo   ). E Jesus disse: "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do Céu" (      ). Há sim santos que foram ricos, mas quase por um milagre porque para Deus nada é impossível. As riquezas em si não são más. Só o são, as adquiridas com iniquidades ou usadas para tal. Mas, oferecendo uma vida mais cômoda, mais exposta às seduções, torna-se um grande perigo de apego, de soberba, de vaidades  e de luxúrias.

São Paulo dizia: "Castigo o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que não suceda que, tendo pregado aos outros, eu mesmo venha a ser condenado" (I Cor XIX, 27). A pobreza ajuda a pessoa castigar o corpo, porque a própria vida do pobre já é cheia de mortificações. A vida do rico, pelo contrário.

As riquezas com opressão dos pobres, são pecados monstruosos que bradam aos céus exigindo vingança: "Eia, pois, ó ricos, chorai, soltai gritos por causa das misérias que virão sobre vós. As vossas riquezas apodreceram e os vossos vestidos foram comidos da traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará as vossas carnes como um fogo. Juntastes para vós um tesouro de ira para os últimos dias. Eis  que  o salário dos trabalhadores, que ceifaram os vossos campos, o qual foi defraudado por vós, clama, e o clamor deles subiu até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vivestes em delícias sobre a terra, e em luxúrias cevastes os vossos corações, como para o dia da imolação" (Tg V, 1-5).

EXEMPLO: "Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho fino, e todos os dias se banqueteava esplendidamente. Havia também um mendigo, chamado Lázaro, o qual, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; porém até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Sucedeu morrer o mendigo, que foi levado pelos anjos ao seio de Abrão. Morreu também o rico e foi sepultado. E, quando estava nos tormentos do inferno, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. Gritando disse: Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama. Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebestes os bens em tua vida, e Lázaro, ao contrário, males; por isso ele é agora consolado e tu és atormentado..." (Lc XVI, 19-25).

PAI ETERNO, FAZEI QUE PROCUREMOS O VOSSO REINO! Amém!

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