segunda-feira, 14 de setembro de 2020

AMOR CONFIANTE VI

AMOR CONFIANTE  ( V )

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

(Continuação da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey)

 

"Precisamente porque justo, o Senhor deve ser muito mais Pai e Mãe e não Juiz tremendo. Justamente porque sabe quem sou, porque sabe onde termina minha malícia e onde começa minha debilidade e ignorância.

Por isso dizia Teresinha: "Eu me confio tanto à justiça de Deus, e espero tanto dela quanto de sua Misericórdia". E é eminentemente teológico. Creio tanto mais na misericórdia que prego, quanto mais firmemente creio na Justiça e equidade do Rei da Glória.

Justiça não quer dizer sempre e ainda menos exclusivamente "rigor e castigo", e sim equidade.  Deus, porque é justo, deve dar-me às vezes ternura e compaixão, e outras vezes, castigo. Mas de fato, em virtude da ordem estabelecida por um Deus Crucificado, Ele é neste desterro muito mais paternal e compassivo que Juiz inclemente.

Quereis disto um prova simples e eloquente?

Se o leitor destas linhas cometeu, por suposição, um só pecado mortal em sua vida, - e se cá embaixo, Deus fosse inexoravelmente severo e rigoroso - por que sua alma não está já no inferno, tão justamente merecido?

Por que saboreia agora o pão de mel, o pão de fortaleza desta doutrina salvadora, por que? Ah! Será diferente quando, cerrando os olhos, cairmos na outra margem da eternidade, diante do Tribunal Supremo...

Lá em cima, consumada a obra de misericórdia, ser-nos-á feita a justiça a frio. Mas por enquanto, aqui embaixo, "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5, 20) e a misericórdia.

Eis aqui uma lindíssima história ou lenda, sobre um Crucifixo milagroso. Aos seus pés, chora, confessando-se, um pecador sinceramente arrependido. Eram tantos os seus pecados, que o confessor vacila por um momento, em dar-lhe a absolvição. Mas, vencido pelas lágrimas, "Absolvo-te, lhe diz, mas cuidado em não recair!"

Passado bastante tempo, volta o penitente.

- Lutei com vontade, mas tive um momento de vertigem, de fraqueza, recaí..." Confundido, volta imediatamente a reconciliar com Deus.

- Não, lhe diz o confessor, desta vez não posso absolver-te!"

- Mas, Padre, tenha pena de mim! Pensa que sou apenas um convalescente de grave e demorada enfermidade... Por piedade, sou sincero!"

A muito custo, e depois de severas recriminações, tornou a dar-lhe a absolvição.

O penitente estava deveras arrependido, mas o hábito de tantos anos de pecado, a natureza toda comprometida, envenenada pelo vício, dá por terra uma terceira vez com os seus propósitos, depois de longo tempo de perseverança. Procura com simplicidade e confiança o confessor, quer reabilitar-se.

- "Não posso", diz o sacerdote, e levanta-se para sair, procurando desvencilhar-se do penitente que o segura com ambas as mãos.

Neste momento, ouve-se um gemido de imenso amor e compaixão imensa... Levantaram, os dois, os olhos ao mesmo tempo e, que vêem? O peito do Crucificado erguido por um soluço de emoção, os olhos cheios de lágrimas e ainda, - ó prodígio! - a mão direita solta. E ouvem Sua voz suavíssima, que diz em soluços trançando a cruz: "Eu, sim, perdoo-te, que me custaste meu sangue!"

Não me detenho em averiguar se o fato é histórico em lendário, que pouco me importa. O que me encanta é a lição, a doutrina. O Senhor é suave e bom, compassivo e terno, é misericordioso num grau que não imaginamos, "porque a esse Jesus, custamos os Seu Sangue!"

Fora, portanto, fora com as aberrações do jansenismo, gás asfixiante, deletério, que, apesar dos anátemas, continua fazendo estragos em casas religiosas e nas almas  mais puras e delicadas!

Lembrai-vos sempre de que o grande respeito é o grande amor. E o amor, quando é profundo e grande, traz infalivelmente consigo imensa confiança.

Vivemos sob o império da graça, por felicidade imerecida. Por favor do céu, não somos judeus de espírito. Nascemos do lado de cá do Calvário.

A falta de confiança é uma grande ingratidão, e falta de simplicidade e abandono. Sede mais crianças com vosso Pai que está nos céus. Reconhecei vossos defeitos, mas não vos deixeis sufocar ou desanimar por eles. Ao contrário, fazei como o Senhor, tirai partido da doença e da miséria, para Sua glória e vosso bem. Que santo, com exceção da Imaculada, não teve defeitos? Arrojai-os ao braseiro do Coração de Jesus... e queimai-vos, vós também, depois deles. 

Conheceis aquela conversa de Jesus com S. Jerônimo?

- Jerônimo, diz o Senhor, queres me dar um presente?

- Mas, Senhor, responde o Santo, já não vos dei tudo? Minha vida, meus bens, minhas energias, meus sofrimentos, minha felicidade, minha alma, tudo é vosso, e só vosso.

- Jerônimo, dá-me mais uma coisa.

- O que, Senhor, o quê? Haverá sequer uma fibra do meu coração que não vos pertença?

- Jerônimo, Jerônimo, dá-me uma coisa que ainda não é minha. Guardas ainda, para ti, algo que devia ser meu...

- Falai, Senhor, pedi. De que se trata?

- Jerônimo, dá-me os teus pecados!

Dai-os, confiai-os a Ele, como pó, como lepra, que Ele parece procurar com afã de Médico e de Salvador. "Levai-os, dizei-Lhe, levai-os todos, com as raízes, e para sempre! Creio em vosso Amor, abandono-me ao Vosso Coração. Venha a nós o Vosso Reino!"

E ficai sabendo que falando desta forma, não pretendo camuflar ridiculamente vossos defeitos, dissimular a fealdade e o número deles, não! A humildade deve ser a verdade.

(A conferência continua e terminará no próximo artigo). 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

AMOR CONFIANTE IV

 

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

(Continuação da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey)

 

Já vos disse antes: para conhecer-vos deveras, mirai-vos no espelho divino dos olhos de Jesus. O sol do Seu Coração (Guarda-te de mirar-te, ainda que por uma vez, fora de meu Coração (Vida y Obras, t. I, p. 93) mostrar-vos-á o que sois e ao mesmo tempo vos animará com a visão das suas misericórdias.

Lendo com atenção o Evangelho, acaba-se por compreender que Nosso Senhor vivia sedento das misérias humanas.

Leiamos refletindo as passagens do Bom Pastor, do Samaritano, as cenas da Madalena e da mulher adúltera, as refeições com os publicanos e onde quer que encontremos as palpitações violentas da Coração misericordioso de Jesus.

Os publicanos não só existiram, mas continuam a existir, somos nós mesmos. E Jesus se apressa a buscar-nos, justamente porque somos publicanos.

Compreendamos portanto, uma vez por todas, que a única maneira de ficarmos quites com o Médico divino é dar-Lhe o coração, cheio de confiança.

Jamais conseguiremos que ela seja bastante grande, dizia Teresinha, jamais!

Quantos não fizeram do Coração de Jesus uma novidade e uma devoçãozinha poética, nascida em Paray-le-Monial!

Mas não é verdade.

O Coração de Jesus autêntico, inteiro, maravilhoso, doutrina substanciosa, vida e misericórdia, centro dos corações, eu o encontro no Evangelho.

Creio - pois claro! - nas grandes revelações feitas a Santa Margarida Maria, justamente porém, o que mais comove nelas e o que mais me convence - depois da autoridade da Igreja - é a concordância perfeita entre o Evangelho e os manuscritos de Margarida Maria.

Nem ela, nem coisa nenhuma me são indispensáveis ao conhecimento daquele Coração que se revelou a nós de maneira maravilhosa em Belém, Nazaré, no Calvário e que prossegue revelando-se no Tabernáculo. Paray lançou forte luz e é deveras uma revelação, seus pedidos e promessas são marcos divinos que dão relevo à doutrina. Esta, porém, encontra-se a cada linha do Evangelho, suprema e definitiva revelação do Coração de Jesus.

O acontecimento de Paray reveste-se, antes, de uma outra importância, certamente capital.

O Salvador regressa a essa terra-santa, para condenar, reafirmando o que há havia dito na Palestina, a heresia horrenda e fatídica do jansenismo.

Resumindo: o que Nosso Senhor disse em Paray condensamos nesta frase: "Crede em Meu amor, não temais, sou Jesus; amai-Me, dando-Me o vosso coração, e fazei-Me amado, porque sou Jesus".

Não era isso nenhuma novidade. Nos lábios, porém, de Jesus, e depois, firmado pela Igreja, constituía o anátema de morte contra o jansenismo hipócrita, heresia daquela época.

Como os fariseus de Jerusalém, estes mais modernos, não menos repugnantes e venenosos, não acertaram que um Mestre de Israel, um enviado do Altíssimo, novo Profeta de uma lei bondosa, manifestasse, como o fazia Jesus, tais preferências, fraquezas de ternura, para com aqueles por eles desdenhados como escória moral.

E precisamente para recolher, com mãos divinas, "essa escória" e convertê-la em tesouros de glória eterna, vinha Jesus, enviado do Pai, para salvar.

Magnífico e eloquente escândalo! As criaturas chamadas justas, os condutores das almas e conhecedores das Escrituras não concebiam um Deus, um Jesus que, sendo quem é, coma e converse com pecadores e que por eles tenha deixado os anjos do céu.

Jansenistas já eram essa turba de fariseus soberbos e hipócritas ... E fariseus são também os idênticos orgulhosos, os idênticos sepulcros caiados que não aceitam como autêntica e divina a doutrina do Coração de Jesus: "Quero Misericórdia", Misericordiam volo  (Mt 9, 13).

Com que veemência maldigo esse jansenismo, que parece haver fomentado, especialmente nas almas mais ricas e generosas, a heresia que, como um vampiro, sorveu-lhes o sangue da nobreza e da generosidade, dissecou-lhes o coração, paralisou-as. Converteu em múmias de terror e aparente austeridade, almas gigantes que, se tivessem amado, se houvessem levantado vôo, se tivessem fixado por horizonte, não suas misérias, mas a Jesus, e muito mais que a obsessão do inferno, o Amor, teriam chagado a maravilhas de santidade.

Jansenismo nocivo, infecto, que se atreveu a converter o Senhor de suma caridade e misericórdia em um Moloch feroz, num Júpiter tonante, cruel e assustador. Quantas e quantas vítimas desse sistema sem luz, sem esperança, sem amor, encontrei em meu caminho!

Mas, demos graças a Deus, esses miasmas parecem ceder, depois de combate rude; e à escola jansenista, falta de entranhas, de piedade e de Eucaristia, sucede hoje no governo das almas a escola do Coração de Jesus, radiante de beleza, rica de doutrina, entusiasta pela Eucaristia, saturada de confiança evangélica.

Fazemos agora tremer, sim, mas de amor imenso.

Nunca poderei esquecer o que me dizia um jansenista, ilustre advogado, que se julgava católico perfeito: "Não me fale, Padre, de misericórdia; o que eu peço e quero é que me seja feita justiça seca". Infeliz dele. Se o Sagrado Coração não houvesse sido mil vezes mais compassivo que rigoroso, já saberia o pobre a estas horas o que é justiça inexorável, eterna.

Mas Nosso Senhor vinga-se, sim, à sua maneira porém. E o tal jansenista morreu abraçando com amor apaixonado uma imagem do Sagrado Coração, e pedindo misericórdia.

Não foram de estilo semelhante os Apóstolos, antes de receberem instrução e educação, quando diziam: "Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?" (Lc 9, 54).

Não tinham ainda penetrado no espírito e no Coração do Mestre. Quando o Espírito Santo abriu-lhes os olhos e suas almas dilataram-se, fizeram reparação, mandando baixar fogo de Caridade que incendiasse almas e povos no amor de Jesus Cristo. Foi esse o seu apostolado.

Há daqueles para os quais, dir-se-ia, não há senão um atributo em Deus: justiça tremenda.

É claro que Deus, porque é Deus, há de ser infinitamente justo. Mas precisamente por isso, aqui embaixo, enquanto percorremos esse caminho escabroso de viajores, conhecendo Ele o barro com que nos formou, deve ser muito mais bondoso que rigoroso, muito mais Salvador e Pai que Juiz inexorável.

Ele veio e ficou na Eucaristia e na Igreja, para salvar ... Nós o forçamos, desgraçadamente, a condenar, obrigamo-Lo a ser Juiz severíssimo.

Se não houvesse senão justiça, ou se houvesse mais justiça que misericórdia, ou se fosse tanta a justiça quanta a misericórdia, cá embaixo, no governo providencial das almas, para que então o confessionário, o sacerdócio, a Eucaristia, e todo o plano mil e uma vezes prodigioso de redenção misericordiosa?

Para quem tenha um poucochinho de experiência das almas, a aplicação prática e diária desse plano redentor constitui o milagre dos milagres, e milagre permanente.

(A Conferência continua no próximo artigo).

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

AMOR CONFIANTE III

 


"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

 P. Mateo Crawley-Boevey SS. CC.

"Para que encarnou-se o Verbo?

Para estabelecer uma nova lei, portentosa, poderosa, lei positiva e fundamental do cristianismo, lei imperecível e salvadora, a lei da Misericórdia.

E por isso a desconfiança Lhe fere o Coração.

Sabeis qual foi, na realidade, o maior delito de Judas, ainda maior que a traição e os suicídio? Ter recusado a crer naquela misericórdia que Jesus ofereceu-Lhe, de joelhos, quando lavou-lhe os pés, na última Ceia!

Não alteremos o Evangelho, que não temos esse direito.

O Senhor veio não para os justos e sadios, mas para os pecadores e enfermos (Mc 2, 17).

E a retribuição que Ele pede em troca de uma tão grande condescendência é o amor de confiança, que é sempre o mais sincero e o mais humilde dos arrependimentos. Quem não compreende isso, não compreendeu ainda o que há de mais delicado e belo no Coração de Jesus!

Nada, nem ninguém, pode impedir-nos a aproximação do seu Peito ferido.

Vossos pecados, dizeis?

Lavou-os com Seu Sangue. Vossa indignidade? Ele a conhece mil vezes melhor que vós mesmos. E quanto a qualidades, não pede senão uma: crerdes com humildade e confiança em seu Amor.

Sabei que se alguma coisa há que O distancie de vós é justamente esse olhar para trás, para vossa vida passada. E esse duvidar do seu Coração, e revolver-vos em vossas próprias misérias, o que aliás, frequentemente, mais que arrependimento, é refinado amor-próprio.

Se não quereis envenenar vossas feridas, não as toqueis excessivamente. Vossas mãos as irritam... Só as de Nosso Senhor curam e as cicatrizam.

Pela última vez, não abuseis da palavra "respeito". sob cuja sombra tem-se inculcado sempre o mais repugnante e odioso jansenismo.

Confiai-vos a Ele, que é Pai e Mãe e Salvador. Confiar não é nem será jamais falta de respeito, como nunca será igualmente obedecê-Lo, acercar-se d'Ele quando Ele, conhecedor de vossas fraquezas, chama e insiste oferecendo-vos o Coração.

Resistir a esse chamado, sob pretexto de não estar ainda suficientemente purificados e dignos, é soberba disfarçada. E nesse caso, sede ao menos sinceros e confessai que sobre amor-próprio e que falta o amor de Nosso Senhor.

Se amásseis, como seria diferente o vosso modo de raciocinar, pois que tão diversa é a atitude da humildade, irmã gêmea da confiança!

Motivo tinha Santo Agostinho para dizer: "Ama, e faze o que quiseres".

O que quiseres, porque tendo na alma a conselheira de uma verdadeira caridade, não há perigo que, amando e confiando, chegues a ofender a quem ames.

Como é belo pensar que antes de Pentecostes São Pedro disse: "Retira-te de mim, Senhor, que sou um pecador" (Lc , 8).

E Pedro caiu!

Depois que a luz de Pentecostes lhe mostrou junto ao abismo da sua fraqueza um outro da infinita misericórdia, deve ter pensado e exclamado com freqüência: "Senhor, não Te afastes ... aproxima-Te mais, muito mais, inteiramente, porque sou um grande pecador".

Perguntai a um São Francisco de Assis, a um S. João da Cruz, a um Francisco de Sales, a um S. Paulo, onde encontraram o segredo da vida, da santidade, do amor: à distância de Nosso Senhor, ou no afã de chegar à intimidade, no caminho da fraqueza e da confiança?

Onde, senão no Evangelho, aprendeu Teresinha a teologia prodigiosa com a qual está provocando, segundo afirmam graves doutores, um renascimento espiritual. Quero dizer a teologia que chamaríamos dos garotos, daqueles atrevidozinhos que, encarapitados nos joelhos do Mestre (Mt 19, 13-15) e sedentos de carinhos, aprenderam muito antes de Teresinha que o amor tende à união e que esta supõe confiança ilimitada.

Não é este o perfume mais puro e celestial do Evangelho? Quem se excedeu na medida, os meninos ou Jesus? Se houve excesso, foi de ternura e condescendência de Nosso Senhor.

As almas pequeninas e simples tiveram sempre o privilégio de compreender essas exigências e sublimidades do amor. Entre as crianças que disputam o posto de honra, para ouvir as batidas do Coração do Amigo, e os apóstolos e S. Pedro, que se surpreendem com tanta familiaridade, que não a compreendem e se afastam: Deixai-Me os garotos, prefiro-os incomparavelmente, nesse momento do céu ... Na vida e no morte, quero para mim a sua simplicidade, sua confiança e ... o seu posto!

Não percebeis quão capcioso é o ardil do inimigo distanciando-vos do Senhor, com a obsessão dos vossos pecados. Daí a desanimar-vos, a abater-vos, e fazer-vos logo rolar mais para baixo, basta um passo.

Estudai um instante diante do Sacrário a atitude de Jesus com a Samaritana ... (Jo 4). Evita Nosso Senhor dirigir a palavra a essa grande culpada? Fala-lhe em tom ou de forma a fazê-la retirar-se envergonhada de sentir-se tão próxima d'Ele que é a mesma Santidade? Qual o fruto imediato dessa proximidade? Confusão e fuga da Samaritana, ou expansão de confiança simples, de arrependimento e conversão?

Aprendamos a lição, para proveito nosso e das almas. Todo o mal grave começa e se consuma no afastamento de Jesus. E toda virtude e principalmente a do arrependimento e a da humildade, levam-nos como por instinto ao Coração do Salvador.

Porque, se às vezes, procurando embora essa intimidade, não vedes nem sentis, não apalpais os frutos de aproveitamento e correção dos defeitos, não atribuais a esterilidade à vizinhança de Jesus.

Sabei discernir. Nem todo progresso espiritual é sensível. Além disso, com freqüência, passados longos anos nesta via de amor e confiança, vêem-se mais claramente as maldades da natureza. Não se trata, portanto, de haver piorado junto de Nosso Senhor. Mas cresce a luz, o sol, que é seu Coração, penetra em vós, e mostra hoje na alma  "bactérias" cuja existência, um ou dez anos atrás, não havíeis percebido a pouca luz.

Ademais, Ele continua a permitir que sintais, ainda depois de convalescidos, o mal-estar do vosso pecado, para que seja expiado e se complete, com a humilhação, a cura da alma.

Continuais trabalhando por aproximar-vos de Jesus, com menos preocupações e com mais confiança em Sua misericórdia. Pensai mais no Médico e no Seu tratamento que na doença e no doente.  

 

 

AMOR CONFIANTE II


"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36).

(Continuação da Conferência do P. Mateo Crawlei-Boevey SS. CC.)

 

"Para consolo vosso, observai que o amor com que Jesus vos ama não é perfeitamente o mesmo amor com que ama a sua Mãe, toda pura, santa, perfeita, imaculada, única. Ele é, poderíamos dizer, um amor à parte.

Nem tão pouco se trata do mesmo amor com que ama aos seus anjos, espíritos perfeitos, sempre fiéis, puríssimos. Lembrai-vos de que o Verbo deixou-os, os noventa e nove fidelíssimos, pela... ovelhinha desgarrada que és tu que estás lendo isto.

E há mais: o amor de que te falo não é, em certo sentido, aquele com que amou ao grupinho de almas de neve e fogo, almas-lírios, criaturas privilegiadas, que foram e serão sempre na Igreja o oásis do Coração de Jesus, o "rebanhozinho pequenino" que O segue, cantando um cântico que mais ninguém poderá cantar... (Ap 14, 3). Estas almas, preciosas por sua fidelidade heróica e constante, por sua pureza sem mácula, mereceram as carícias do Rei de Amor.

O amor, no entanto, com que ama  cumula a imensa maioria de pecadores, miseráveis e ingratos, é o Amor Misericordioso, quer dizer, uma condescendência infinita. É o Verbo, Deus-Salvador, que baixou ao pântano para converter o lodo em estrelas contanto que a lama se humilhe e creia na misericórdia do Senhor.

Já compreendeis por que estabelecemos as diferenças acima, pois era preciso pôr em relevo aquilo que Teresinha chama o Amor Misericordioso de Jesus, e fazê-lo apreciado, quanto possível, no seu valor exato.

São de fato duas coisas diferentes, uma o amor que doura e diviniza a neve com dardo de fogo, e outra, o amor que em torrentes de sangue purifica e embeleza a baixeza do lodo.

Com que e quando merecemos nós essa condescendência do Amor Misericordioso?

Nunca! Pecamos, agimos iniquamente, crucificamos e matamos, com maior culpa que os próprios verdugos, o Senhor da vida... Todos nós Lhe deitamos as nossas mãos tintas com Seu Sangue. Todos nós! E Ele estende-nos os braços, oferece-nos Seu perdão, Sua amizade, Seu Coração!

Não é o cúmulo dos cúmulos, a loucura das loucuras do amor de um Deus?

Por essa razão é inconcebível o pecado do temor, da desconfiança. Quase diria que é imperdoável.

É possível que seu Coração busque o nosso com afã  - atração dos abismos - e que nós, afogados em nossa miséria moral, nos neguemos, por falta de confiança, a dar entrada Àquele que quer, pede e suplica que o deixemos preencher o nosso abismo de morte com o seu Coração, abismo de perdão e vida?

Às Suas insistências, respondemos com o argumento tocado de indignidade e respeito, como se Ele ignorasse a verdade ao presentear com o tesouro de Suas ternuras, como se Ele fosse monopólio dos justos, ou dos que se crêem merecedores de Suas graças. Dir-se-ia que estes tais pretendem chamar à razão a um Deus que parece exagerar ( ! ) querendo confundir Sua vida imortal com a nossa.

E então, quando Ele se achega, estas almas retrocedem. Quando diz: "Vinde todos", elas parecem repetir com o endemoniado do Evangelho, "Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos?" (Mt 8, 29). Infelizes, fogem!

Esquecem-se os pobres que entre o Pai Justiceiro e nós rebeldes, interpõe-se o Filho Misericordioso, como ponte de esperança pela qual culpados e perdoados teremos acesso ao Pai de Clemência.

"Passai, meus filhinhos, diz, passai por esta ponte que Sou o Crucificado. Não temais, passai, porque Eu sou o Caminho. Por que tremeis? Passai meditando em minha Cruz, em meu Calvário, em minha Eucaristia. Avançai em paz e com plena confiança, Eu quero replenar o abismo do vosso pânico com o da minha ternura. Mas, por favor, meus filhinhos, não caveis o abismo de distâncias e receios que Eu mesmo suprimi com minha Encarnação e minha Eucaristia".

Almas pusilânimes e de pouca fé, não percebeis que a maior de vossas faltas, que a fonte de muitas delas e que a que mais ofende ao Senhor é vossa falta de confiança!

A quantas de vós, almas assustadiças, que jamais ficais satisfeitas com vossas confissões, que estais sempre duvidando do perdão de pecados cem vezes acusados, poder-se-ia aplicar a história que segue:

Uma dessas tantas almas que parecem considerar a Jesus um tirano, prepara-se para fazer uma confissão geral pela centésima vez. Inquieta, perturbadíssima, passa o seu retiro escrevendo os pecados de toda a sua vida. Não medita, não reza, está inteiramente engolfada num exame que a sufoca.

Chega, por fim, ao confessionário. Lê, acusa, repete dez vezes, explica sempre a tremer transtornada...

Quando imagina que tenha terminado, ouve o confessor dizer-lhe em voz suave e bem triste:

- Esqueceste uma coisa muito importante.

- Bem que desconfiava, replica ela em sobressalto, dispondo-se a voltar atrás para recomeçar a leitura das suas laudas...

- Não, diz então o confessor, não está nos teus papéis, e me entristece muito mais do que os que acusaste. Acusa sobretudo tua falta de confiança!

Levanta-se; a voz comoveu-a. Quer certificar-se se realmente é a de seu confessor. Mas o confessionário está vazio, Jesus viera dar-lhe uma lição SUPREMA.

Não censuramos, é claro, as confissões gerais, muito proveitosas em determinadas ocasiões, e sim a falta de confiança, o sobressalto sistemático, o temor exagerado que é um ultraje à bondade do Salvador.

Semelhante mentalidade desfigura a Nosso Senhor, diminuindo-O.

Se os cegos, os leprosos e paralíticos curados por Jesus tivessem raciocinado dessa forma, e houvessem duvidado de sua cura por acharem-se indignos, teriam merecido, certamente, recair em suas enfermidades, e com maior gravidade, como castigo de sua ingratidão e orgulho a que se reduz sempre no fundo o pecado de desconfiança.

 

(A conferência continua no próximo artigo).

  

AMOR CONFIANTE


"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36)

Pelo Padre Mateo Crawley-Boevey  SS. CC.

É uma conferência extraída do seu Livro "JESUS, REI DE AMOR"

 

Caríssimos, não acrescentarei uma só palavra minha, não venha ela empanar o brilho daquela eloquência mais do céu que da terra; nem arrefecer o calor daquele fogo divino que abrasava o peito deste grande apóstolo da devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Assim, demos a palavra ao Bem-aventurado Missionário:

"Palavra inefável, eloquente como poucas, talvez como nenhuma. Tende confiança, "sou Eu".

- Eu, vosso Pai, vosso Amigo, vosso Salvador. Nolite timere! "Não temais!".

- Mas, como?... E minhas ruindades?

- Ego sum! "Porque sou Eu" ...

Se fosse um Anjo, um profeta, um Santo, poderíeis temer, pois as criaturas, as melhores, não podem amar-vos como Eu ... Não temais, porque sou Jesus.

E por isso Ele disse: "Eu vos dou a minha paz" (Jo 14, 27). A Sua, não a nossa, tão desprezível. A Sua e não a do mundo, falsificada, perigosa, envenenada.

Sobre os fundamentos da Sua misericórdia, tenhamos a paz. Não porque nos creiamos justos e confirmados em graça, mas porque cremos com fé imensa em seu amor, remédio e reparação para nossas misérias.

Que faríamos sem esta energia sobrenatural, divina, da confiança em Nosso Senhor? ao cimo da santidade, chega-se pela vereda da confiança; não há outro caminho.

Porque sendo o que somos todos nós, um abismo de baixezas e pecados, pedir-nos que assim mesmo subamos sem nos dar antes de tudo as asas da confiança, seria arrojar-nos num outro abismo: o do desânimo definitivo e sem remédio.

Mas, por essa escada santa, mas, com tais asas divinas, quero, sim, e posso, ser santo. Quero e posso subir muito alto, de profundis, das profundezas da minha maldade, do abismo da minha miséria.

Não me venham dizer que isso é pretensão, que é ilusão ... Se pensasse em chegar ao cume com meus pés de argila, então, mil vezes seria loucura e soberba. Mas, nos braços de Jesus, sobre seu Coração, estou certo de que chegarei com êxito, porque sou menos que uma formiga.

Ele transforma sempre as formigas confiantes  em águias reais.

Se Ele, o Deus de perdão e de graças, se Ele, Jesus, o Deus de misericórdia e ternura; se Ele, Jesus, o Deus Crucificado e Sacramentado por amor e Encarnado para salvar, não me inspira confiança cega, imensa, ilimitada, quem poderá inspirar-me?

Veio, acaso, à terra para trazer-nos...  o quê? Os arremessos de tremenda justiça? As chamas de uma cólera divina? A sentença de morte eterna, mil vezes merecida? Não! Absolutamente não! Abri o Evangelho em qualquer página, ao acaso, e ainda em suas iras e anátemas encontrareis inebriante, irresistível, o Coração do Salvador.

Veio perdoar, salvar, semear paz, dar o céu, ainda àqueles, e sobretudo a eles, que Lhe prepararam a cruz: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Com este fim redentor "aniquilou-se, tomando a natureza de servo" (Fp 2, 7). Revestiu-Se da nossa roupagem leprosa, e por isso o fulminou o Pai.

Tomou consigo nossas misérias, segundo está escrito: "Tomou sobre si nossas fraquezas, e ele mesmo carregou com as nossas dores" (Is 53, 4). "Homem de dores e experimentado nos sofrimentos" (Is 3, 3).

Não, por certo, em sentido literal, mas figurado, poderíamos pois aplicar-Lhe aquela expressão dos Livros Santos: "Um abismo chama outro abismo" (Sl 41, 8). Isto é, o abismo da nossa miséria e corrupção, dir-se-ia, atraiu o abismo de Sua misericórdia e bondade.

Belém é apenas, com toda a sua pobreza, um reflexo, um quadro poético, se comparado com outro berço consciente de sua pobreza e indignidade: o coração de quem comunga.

Jesus, que sabe disso, manda que o recebamos, que comunguemos.

Sobre a base do arrependimento e da humildade, parece Jesus correr um véu de paraíso sobre este presépio menos que palha, e comprazer-Se nele. E tem ânsias supremas de descansar nesse altar desmantelado. Negar-Lhe o direito à sua condescendência seria feri-Lhe o Coração!

Sabeis qual  é, para mim, a transfiguração que me enlouquece? não a do Tabor, onde, por um instante, parece recobrar o que havia deixado por meu bem, o manto da sua majestade esplendorosa. A transfiguração que me comove e arrebata é outra: a de Belém, quando vejo o Criador revestido das roupinhas da nossa natureza. A de Nazaré, quando contemplo meu Juiz, coberto com o véu do anônimo, de qualquer um. E aquela do Calvário, quando adoro, debaixo da púrpura sangrenta e da mortalha da morte, Aquele que é a Vida. Oh! Jesus, à força de quereres assemelhar-Te a nós, já não Te pareces contigo mesmo!

Esta transfiguração tríplice que o faz tão meu, tão Irmão, tão condescendente, tão parecido comigo, ensina-me, melhor que o Tabor, quanto devo amá-Lo e com quanta confiança, se possível infinita, devo aproximar-me de Seu Coração.

O contraste prodigioso entre o que o Tabor mostra num instante e o que é e permanece em Belém, Nazaré e no Calvário, prega-me, patentemente, e com eloquência esmagadora, a loucura do Seu amor e a realidade daquela palavra da Escritura: "Não quero a morte do ímpio, mas que se converta a viva (Ez 33, 11). E ainda: "Veio buscar e salvar o que tinha perecido" (Lc 19, 10).

(Continua no próximo artigo).


A BONDADE DE DEUS E AS DOENÇAS

 

SENTENÇA: "Porque eras aceito a Deus, por isso foi necessário  passares por provações" (Tob XII, 13).

REFLEXÕES: Tobias amava a Deus e ao próximo. Era um homem de oração, penitente e caridoso. Era aprovado e querido do Pai do Céu. E por isso mesmo Deus o provou com doenças e dificuldades financeiras. "Bendizei o Deus do Céu (disse-lhe o Anjo Rafael) e dai-lhe glória diante de todos os viventes, por ter usado convosco da sua misericórdia" (Tob XII, 6).

 Deus nos ama. E nunca podemos esquecer que a nossa verdadeira felicidade está no Céu. E tudo aqui na terra deve nos levar para lá. Deus, Pai de misericórdia e bondade infinita, manda ou permite tudo o que nos faz  converter e/ou aumentar os merecimentos desapegando-nos sempre mais da terra. Em uma palavra: Tudo é para o nosso verdadeiro bem, que é a Vida Eterna.

Feliz de quem sabe assim aceitar as provações da vida: "Para aqueles que amam a Deus, tudo coopera para o bem" (Rm VIII, 28). Feliz de quem aproveita a doença para se converter, ou, caso já sirva a Deus, para crescer em merecimentos para o Céu! Na verdade, há duas situações cuja diferença vai do Céu ao Inferno. Exatamente! Quem, pelas doenças e/ou perda dos bens materiais, se converte verdadeiramente, i. é, deixa o pecado, faz uma santa confissão e aceita os sofrimentos como penitências para reparar suas ofensas a Deus, este, digo, está se garantindo para o Céu. Quem, porém, se arrepende, não por ter ofendido a Deus e ter merecido o inferno, mas unicamente por ter ficado doente em consequência de certos pecados cometidos, este, digo está à caminho do inferno, enquanto não se arrepender ou por ter ofendido a Deus sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas (=arrependimento perfeito) ou, pelo menos, por ter perdido o céu e merecido o inferno (= arrependimento imperfeito suficiente junto com o sacramento da Penitência).

EXEMPLOS: 1 - S. Félix era frade capuchinho. Ficou doente e sofria muito. Seu médico, compadecido em ver o frade sofrendo tanto e sem esperança de cura,  exortou-o a que pedisse a Deus a sua cura. O santo respondeu: "Na verdade o burrinho (o corpo) quisera escapar do chicote; mas, mau grado seu, terá que estar sob as chicotadas. Doutor, agradeço o seu conselho, mas é Deus mesmo que me visita e não posso fazer a Ele tal pedido. Na verdade, estas dores são flores celestes, que o paraíso produz e Deus manda a seus filhos". E pôs-se a dar graças e a bendizer a Divina bondade que o tratava daquele modo.

2 - O barão Geramb em 1805 mandou um corpo de exército contra Napoleão. Mas fora vencido e preso. Oito anos depois, Napoleão fora derrotado em Leipzig. Geramb recuperou a liberdade do corpo e da alma. Da alma porque deixou a vida de pecados pelos quais estava preso nas garras do demônio. Abandonou o mundo, fez-se religioso na Trapa, que era a Abadia mais penitente. Deixou escrito: "Em meus longos anos de prisão vi que, no tempo da desgraça, todos os amigos nos abandonam, menos o nosso maior amigo, Jesus, que deu a vida por nós. Para expiar as ofensas que fiz a Ele no mundo, fiz-me trapista. Não quero que digam de mim senão que sou um pecador penitente". Morreu em odor de santidade. Que seria dele se não fossem os sofrimentos!...

3 - Uma senhora muito religiosa lamentava-se comigo por ver que seu filho não se convertia, apesar de ela rezar sempre por ele. Respondi-lhe: "Continue rezando e faça também alguma penitência. A palavra de Nosso Senhor é infalível e para Ele nada é impossível. Não sabemos qual o meio que Ele vai usar". Foi uma doença. Hoje, aquela piedosa mãe está triste por ver seu ente querido doente no corpo; mas se acha grandemente feliz em vê-lo são na alma. Afinal, estamos aqui de passagem em demanda da Jerusalém Celeste. Amém!

"AQUELES QUE QUEREM VIVER PIEDOSAMENTE COM JESUS CRISTO, HÃO DE SOFRER PERSEGUIÇÕES" (II Tm III, 12).

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

ALEGRIA NO SOFRER


 Jesus alegrou-se em sofrer porque sabia que seus sofrimentos e morte seria a vitória que Lhe havia de garantir a conquista do mundo: "Quando eu for elevado da terra, (= quando for crucificado) atrairei tudo a mim" (Jo XIII, 32). Jesus desejou ardentemente o momento de sua Paixão e Morte: "Eu tenho que ser batizado num batismo de sangue; e quão grande é a minha ansiedade, até que ele se conclua!" (Lc XII, 50). E este batismo de sangue Jesus anunciou-o  por diversas vezes aos seus apóstolos como o coroamento de toda a sua missão: "Ponde bem estas palavras em vossos corações: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens que o matarão" (Lc IX, 44); "O Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e esses mesmos o entregarão aos gentios; ele será exposto à zombarias e às injúrias, coberto de escarros, flagelado, depois morto, e ao terceiro dia ressuscitará" (Mt  XX, 18 e 19). E ao começar a Paixão disse: "Eis que agora o Filho do homem é glorificado e que Deus é por ele glorificado" (Jo XIII, 31).

E Nosso Senhor Jesus Cristo queria que seus discípulos tivessem também estes mesmos sentimentos: "Bem-aventurados (=felizes) os pobres"; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que são perseguidos... Sereis felizes quando vos insultarem e disserem injustamente toda sorte de mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos então e alegrai-vos" (Mt V, 10). Jesus queria que seus discípulos tivessem o amor da cruz, levado até ao amor dos sofrimentos. É claro que estranho seria alguém sofrer como um estóico, mas o normal para um cristão é imitar o seu Divino Mestre, amando como Ele e por amor a Ele, os sofrimentos.

O mundo não compreende esta verdade; aliás, nem os Apóstolos, antes do Pentecostes, a entendiam. Vede: Jesus Cristo, sempre tão bondoso e manso, empregou palavras muito severas ao censurar Pedro porque o chefe dos apóstolos não queria admitir que Jesus precisasse padecer e morrer: "Afasta-te, Satanás (=tentador) - disse-lhe Jesus - porque tu me escandalizas, nada compreendes das coisas de Deus, não tens senão pensamentos humanos" (Mt  XVI, 23). Também tratou de estultos os discípulos de Emaus, porque não compreendiam que Lhe fosse preciso sofrer para entrar na glória: "Ó estultos e tardos de coração para crer!" (Lc  XXIV, 26).

Mais tarde, porém, já santificados e esclarecidos, alegraram-se por terem sido flagelados pelo nome de Jesus (At V, 41). São Lucas, resumindo toda a pregação de S. Paulo e de S. Barnabé, disse: "Fortaleciam seus discípulos e mostravam-lhes que é por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus" (At XIV, 21). Também, a exemplo de seu Mestre, S. Paulo recomenda aos fiéis que suportem tudo, não só com paciência, mas também com alegria: "Que sejais confortados com toda fortaleza pelo seu [de Deus] poder glorioso, para suportar tudo com paciência e longanimidade e alegria"... (Col. I, 11). E S. Tiago escreve: "Meus irmãos, tende por um motivo da maior alegria para vós as várias tribulações que vos afligem..." (Tg I, 2).

O sofrimento é tão salutar, que toda alma de fé deveria sentir-se feliz em sofrer. Pois o sofrimento triunfa do pecado e do demônio, que reina pelo encanto do prazer, mas é vencido pela cruz. Na verdade, o pecado não é outra coisa senão o desprezo de um dever a cumprir ou a procura de uma satisfação ilícita. Daí o remédio do pecado está nas privações e nos sofrimentos. Jesus disse: "O reino dos céus padece violência, e só os violentos (i. é, os fortes no sofrimento e nas renúncias) arrebatam-no". 

As cruzes, as renúncias, os sofrimentos e as privações tornam a alma forte e viril, enquanto o bem-estar, o repouso e as doçuras da vida amolecem. A dor purifica a alma e Deus nela se compraz quando a vê acrisolada pela dor. O sofrimento, outrossim, alimenta e mantém o amor de Deus e do próximo. É mais fácil padecer bem do que agir bem porque há menos perigo de amor próprio, menos de espírito puramente humano. "Sofrer - dizia S. Francisco de Sales, é quase que o único bem que possamos fazer na terra... uma onça de paciência vale mais que uma libra de ação".

Ademais, os sofrimentos preparam delícias imensas e eternas na Pátria Celestial. As dores suportadas por amor de Deus produzem suaves alegrias: "Vossa tristeza  -  disse Jesus aos seus apóstolos  -  se converterá em alegria" (Jo XVI, 20).

Caríssimos, se uma chuva torrencial, uma tempestade devastar todas as nossas plantações, teríamos imensa alegria, caso os granizos fossem grãos, uns de ouro e outros de diamantes. Pois bem, assim são os sofrimentos desta vida quando aceitos e suportados por amor a Jesus e em união com Ele, são tesouros que ajuntamos para a Vida Eterna. Amém! 

sábado, 5 de setembro de 2020

A LOUCURA DO PECADOR


"A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus" (I Cor. III, 19)

Segundo Santo Afonso Maria de Ligório

Há quem enlouqueça pelas honras; outros, pelos prazeres; não poucos, pelas futilidades da terra. E se atrevem a considerar loucos os santos, que desprezam os bens mesquinhos do mundo para conquistar a salvação eterna e o Sumo Bem, que é Deus. A seus olhos é loucura sofrer desprezos e perdoar ofensas; loucura, privar-se dos prazeres sensuais e preferir a mortificação; loucura, renunciar às honras e às riquezas, e amar a solidão, a vida humilde e oculta. Não consideram, no entanto, que a essa sua sabedoria mundana Deus chama loucura: "A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus" (I Cor. III, 19). Ah! ... Virá o dia em que confessarão e reconhecerão a sua demência, mas será tarde: "Desgraçados de nós, que reputávamos loucura a vida dos santos! agora compreendemos que os loucos fomos nós. Eles já se contam no número feliz dos filhos de Deus e compartilham a sorte dos bem-aventurados, que durará eternamente e os fará felizes para sempre... ao passo que nós ficamos escravos do demônio, condenados a arder neste cárcere de tormentos por toda a eternidade!... Enganamo-nos, pois querendo cerrar os olhos à luz divina (cf. Sabedoria, V, 6) e nossa maior desventura é sabermos que o nosso erro não tem nem terá remédio enquanto Deus for Deus.

"Oxalá que eles tivessem sabedoria e compreendessem e previssem o fim" (Dt  XXXII, 29). O homem que se guia razoavelmente em suas obras, prevê o futuro, isto é, considera o que lhe há de acontecer no fim da vida: a morte, o juízo, e depois dele o inferno ou a glória. Quanto mais sábio é um simples aldeão que se salva, do que um monarca que se condena! "Vale mais um moço pobre, mas sábio, do que um rei velho e néscio, que não sabe prever nada para o futuro" (Ec IV, 13). Ó Deus! Não teríamos por louco aquele que, para ganhar um real, se arriscasse a perder todos os bens? E não deve passar por louco aquele que, a troco de um breve prazer, perde a sua alma e se expõe ao perigo de perdê-la para sempre?

Deus não nos colocou neste mundo para alcançarmos riquezas, nem adquirirmos honras ou contentarmos os sentidos, senão para procurarmos a vida eterna: "Mas agora que estais livres do pecado  e feitos servos de Deus, tendes por vosso fruto a santificação e por fim a vida eterna" (Rm. VI, 22). E a consecução desta finalidade deve ser o nosso único interesse. "Uma só coisa é necessária" (Lc X, 42). Ora, os pecadores desprezam este fim. Só pensam no presente. Caminham até ao término da vida e se acercam da eternidade, sem saberem para onde se dirigem. Sábio do mundo foi o rico avarento que soube enriquecer; e, todavia, morreu e foi sepultado no inferno (Cf. Lc  XVI, 22).

"Ante o homem, a vida e a morte: aquilo que ele escolher, ser-lhe-á dado" (Eclo XV, 18). Cristão! diante de ti se apresentam a vida e a morte, isto é, a voluntária privação das coisas ilícitas para ganhar a vida eterna, ou o entregar-te a elas e à morte eterna ...Que dizes? Que escolhes?  "Que aproveita ao homem ganhar o mundo todo e perder sua alma?" (Mt  XVI, 26).

Compenetremo-nos bem de que o verdadeiro sábio é aquele que sabe adquirir a graça divina e a glória do Céu. Seremos eternamente venturosos, se soubermos amar a Deus, ainda que ignoremos todas as demais coisas. Quantos ignorantes há, diz S. Agostinho, que nunca aprenderam a ler, mas que sabem amar a Deus, e se salvam, quantos doutros do mundo que se condenam! ... Quão sábios, tantos mártires e tantas virgens que renunciaram a honras, prazeres e riquezas para morrer por Cristo! Aqueles que renunciam os bens da terra para se consagrar a Deus são chamados homens desenganados. Como deveremos chamar os que preferem os bens do mundo? ... Homens enganados.

Os sepulcros são escola excelente para reconhecer a vaidade dos bens deste mundo e para aprender a ciência dos Santos, adverte S. João Crisóstomo, saberíeis distinguir ali o príncipe do plebeu, o analfabeto do letrado?" "Eu, por mim, nada vejo, senão podridão e vermes". Todas as coisas do mundo passarão em breve.

É preciso evitar as ocasiões de pecar, frequentar os sacramentos, fazer oração e meditar as máximas do Evangelho, como, p. ex.: "Que aproveita ao homem se ganhar o mundo todo e perder a alma?" "Quem ama desordenadamente a sua vida, perderá a vida eterna". " Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo". Nossa salvação consiste no cumprimento da vontade divina (Sl 29, 61).

CONCEDEI-ME, PAI ETERNO, PELOS MERECIMENTOS DE JESUS CRISTO, FORÇA PARA FAZER EM TUDO A VOSSA VONTADE! Amém!

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

PERIGO DAS RIQUEZAS


SENTENÇA: "Ai de vós, ó ricos! porque tendes já agora neste mundo a vossa consolação" (Lc VI, 24).

REFLEXÕES: Jesus Cristo deixou bem claro que a riqueza constitui um grande perigo de condenação. Ele é o Caminho que nos leva ao Céu. Ora, sendo rico, escolheu uma vida pobre. Já quis nascer em extrema pobreza. Passou mais de vinte anos na pobre casinha de Nazaré. Durante sua vida pública, simplesmente não tinha morada certa: "As raposas têm suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; porém, o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça" (Mt VIII, 20).

O Espírito Santo declara feliz o homem que não se deixou atrair pelo ouro e pelas riquezas, porque com elas tinha facilidade de praticar o mal, e no entanto não o fez (Cf. Eclo   ). E Jesus disse: "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do Céu" (      ). Há sim santos que foram ricos, mas quase por um milagre porque para Deus nada é impossível. As riquezas em si não são más. Só o são, as adquiridas com iniquidades ou usadas para tal. Mas, oferecendo uma vida mais cômoda, mais exposta às seduções, torna-se um grande perigo de apego, de soberba, de vaidades  e de luxúrias.

São Paulo dizia: "Castigo o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que não suceda que, tendo pregado aos outros, eu mesmo venha a ser condenado" (I Cor XIX, 27). A pobreza ajuda a pessoa castigar o corpo, porque a própria vida do pobre já é cheia de mortificações. A vida do rico, pelo contrário.

As riquezas com opressão dos pobres, são pecados monstruosos que bradam aos céus exigindo vingança: "Eia, pois, ó ricos, chorai, soltai gritos por causa das misérias que virão sobre vós. As vossas riquezas apodreceram e os vossos vestidos foram comidos da traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará as vossas carnes como um fogo. Juntastes para vós um tesouro de ira para os últimos dias. Eis  que  o salário dos trabalhadores, que ceifaram os vossos campos, o qual foi defraudado por vós, clama, e o clamor deles subiu até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vivestes em delícias sobre a terra, e em luxúrias cevastes os vossos corações, como para o dia da imolação" (Tg V, 1-5).

EXEMPLO: "Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho fino, e todos os dias se banqueteava esplendidamente. Havia também um mendigo, chamado Lázaro, o qual, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; porém até os cães vinham lamber-lhe as chagas. Sucedeu morrer o mendigo, que foi levado pelos anjos ao seio de Abrão. Morreu também o rico e foi sepultado. E, quando estava nos tormentos do inferno, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. Gritando disse: Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama. Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebestes os bens em tua vida, e Lázaro, ao contrário, males; por isso ele é agora consolado e tu és atormentado..." (Lc XVI, 19-25).

PAI ETERNO, FAZEI QUE PROCUREMOS O VOSSO REINO! Amém!

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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

AS PAIXÕES

Sendo o pecado o mal absoluto e extremo, devemos empregar todos os meios, todos os esforços, para evitá-lo. E nunca alcançaremos a  pureza de coração que nos dá aquela liberdade e facilidade em compreender as coisas de Deus, senão levarmos o combate ao pecado até às suas fontes. Quais são estas fontes dos rios e regatos de lamas contaminadas do pecado? São as nossas paixões.

I - Devemos temer todas as paixões, porque todas nos conduzem ao pecado: Enganam-nos, lisonjeiam-nos e tiranizam-nos. Três efeitos terríveis.

1 - ENGANAM-NOS: As inclinações desregradas obscurecem a luz da fé, e até a da razão. O pecador fica cego quando se deixa dominar por alguma paixão. Por exemplo: Que dizia a Caim a inocência de Abel, a voz do sangue? Era seu irmão! Que diziam os cabelos brancos e o seu cargo de magistrados, aos infames anciãos, que tentaram manchar a virtude de Suzana, e não o conseguindo condenando à morte através de calúnia uma mulher santa, quando era obrigação deles defendê-la? Que diziam a Judas Iscariotes a bondade e as ternas palavras de Jesus?

Logo que a paixão entra em uma alma, amontoa nela tão densas trevas, que já não vê o que para outros é tão visível como o sol. É o que diz a Bíblia: "Serão destruídos como a cera que se derrete; caiu fogo de cima sobre eles, e não viram mais o sol" (Salmo 57, 9). É que toda paixão nasce do amor desordenado de si mesmo; ora, naquilo que nos lisonjeia, queremos crer sempre que não há mal, como diz Santo Agostinho: "Tudo o que nós queremos, nos parece santo". Na verdade, como diz o mesmo Santo Doutor: Somente amando a Deus de todo coração é que poderemos fazer tudo o que queremos, porque aí sim, tudo será santo.

Logo que alguma paixão entra em uma alma, encontra-se sempre alguma desculpa; ou melhor, inventa-se uma, fundada na mesma paixão, na sua violência. A Bíblia diz que o temor de Deus é o início da sabedoria, mas a pessoa abafa a voz da consciência.

2 - LISONJEIAM-NOS: com os deleites que prometem, seduzem o coração, e arrastam a vontade. Em vão reclama a razão, brada a consciência, avisa a graça de Deus; a nada se atende. A imaginação inflama-se; ela EXAGERA o prazer, faz esquecer as consequências, e o homem cai. Oh! quanto importa que nos arranquemos, desde o princípio, aos atrativos da paixão! Caso contrário, a queda será fatal.

3 - TIRANIZAM-NOS: Concedendo-lhes alguma coisa, aumento o seu poder, torno-as exigentes, imperiosas. Tiro a mim mesmo a força que lhes dou. Cedi primeiramente às suas solicitações importunas, dentro em pouco tempo, já nada sei recusar-lhes, e as minhas condescendências tornam-se um hábito. Ora, o hábito, diz S. Agostinho, é como um corrente de ferro, que prende a vontade; e aonde não pode ela arrastar?

II - De todas as paixões, as mais temíveis são as que se disfarçam, porque arrastam aos últimos excessos do pecado:  As paixões disfarçam-se para: a) ou esconder o crime; b) ou o multiplicar; c) ou tranquilizar a quem o comete.

a) Na verdade, o crime descoberto será sempre odioso, até àquele que o comete, porque a consciência lho representará sempre como oposto à ordem, à razão, e à lei da justiça, escrita no coração de todos os homens; e se ele é odioso até ao culpado, como o não será aos que o presenciam? Para escapar à vergonha e ao ódio que merece, é que a paixão se encobre. Por exemplo, quem acreditaria que o Iscariotes, ladrão, quisesse passar por advogado dos pobres? Contudo, a sua avareza é que lhe inspira esta queixa no episódio da Madalena: "Porque se não vendeu este bálsamo, para se dar aos pobres? Este disfarce é um crime a mais, isto é, a hipocrisia.

b) Raras vezes sucede que uma paixão, que se mostra descaradamente, não seja reprimida, ou ao menos perturbada nas suas desordens. Mas, se ela consegue ocultar-se, nada a detém; entrega-se a todos os excessos. A mina explosiva, se é descoberta, é pouco perigosa; pelo contrário, tudo é para temer, quando o inimigo esconde o sua bomba aos olhos que o observam.  Exemplo: Cobrindo a sua inveja contra Jesus com a capa de zelo do bem público e da religião, é que os fariseus, com uma série de iniquidades, chegam ao crime mais monstruoso, ao deicídio.

c) Que artifícios, que subterfúgios, para ocultar aos olhos dos homens a desordem de certas paixões! Como se fosse possível, ocultar também aos olhos de Deus e enganar a Justiça divina, que vai pedir contas até de uma palavra ociosa. Muitas vezes até, quando a astúcia hipócrita não pode impedir que o mal transpire, procuram-se abafar as suspeitas à força de frieza e insensibilidade. Judas Iscariotes: A triste declaração que Jesus fez aos seus discípulos que um deles o atraiçoará, consterna-os. Cada um se consulta a si mesmo, nenhum ousa fiar-se na sua própria consciência; só o pérfido Apóstolo pergunta friamente, com a maior cara de pau: "Por acaso sou eu, Mestre?"

Santo Ambrósio compara as paixões àquela febre ardente que padecia a sogra de S. Pedro. Mas Jesus entrou na casa desta enferma, e a sarou. Na comunhão, peçamos a Jesus esta cura. Amém. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

TRÊS DEMÔNIOS DE MÃOS DADAS


SENTENÇAS; "Deus rejeita os soberbos" (Tg IV, 6 );  "Quem ama o perigo, morre nele" (Eclo III, 27).

REFLEXÕES: Os vícios capitais são sete: orgulho, inveja ira, gula, luxúria, preguiça e avareza. A palavra "capital" vem de "caput" (latim) que quer dizer: cabeça, chefe, fonte, parte principal. A origem do mal em nós são os vícios capitais. E estes derivam da tríplice concupiscência: soberba, carne, avareza. Da SOBERBA nascem o orgulho, a inveja e a ira; da CONCUPISCÊNCIA DA CARNE nascem a gula, a luxúria e a preguiça; e a CONCUPISCÊNCIA DOS OLHOS é a avareza  (amor desordenado das riquezas), e desta o demônio se serve para ajudar os outros dois. 

 Orgulho, avareza e luxúria são os três demônios que andam juntos para perder as almas. Constituem a tríplice concupiscência que domina o mundo, do qual o demônio é o príncipe: "Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo; porque tudo que há no mundo é concupiscência da carne (=luxúria); concupiscência dos olhos (= avareza); e soberba da vida (= orgulho), e isto não vem do Pai" (I Jo II, 15 e 16).

O demônio por inveja procura perder as almas, e ataca pelo lado mais fraco. Geralmente, este é a carne. Mas não sempre. Nestes casos, o demônio ataca pelo amor do dinheiro, por ser, primeiro, um vício que não é diante dos homens tão odioso como os outros dois; e segundo, por ser contagioso. Através dele o demônio facilmente leva a pobre alma a se encher de orgulho e finalmente a cair na luxúria. Na verdade, as riquezas oferecem alimento à soberba porque traz grandezas e renome no mundo. Daí seguem-se a vaidade, a vanglória e a presunção. Com a presunção a alma se expõe aos perigos e, como diz o Espírito Santo Eterno "quem ama o perigo, perece nele". E os perigos mais próximos são justamente as ocasiões para os pecados da carne. Por outro lado, as riquezas afagam a carne e lançam-na no comodismo e, deste na sensualidade. O coração se apega aos bens da terra, e o que a alma perde no amor de Deus, o demônio leva para o amor do mundo.  Então assim: mesmo que o amor ao dinheiro não consiga riquezas, leva a pessoa a se afastar da oração, do culto a Deus e dos sacramentos. Que pode um soldado sem armas?!

Se o grande S. Paulo, convertido diretamente por Jesus,  elevado vivo ao Paraíso, afirmou que castigava o seu corpo e o reduzia à escravidão, para não acontecer que, depois de ter pregado aos outros, ele mesmo viesse a ser condenado, quem vai ter a presunção de achar que não cairá, mesmo não vigiando, rezando e fazendo penitência? E o demônio, como diz S. Pedro, está em torno de nós como um leão rugidor procurando nos devorar.  

 Os votos religiosos são o caminho mais curto e mais seguro para o Céu. Quem pertence verdadeiramente a Deus e só a Ele ama de todo coração, liberta-se de tudo o que o prende à Terra. Pelo voto de pobreza liberta-se das riquezas; pelo voto de castidade renuncia aos prazeres; pelo voto de obediência renuncia-se a si mesmo. Os que não são chamados à vida consagrada, devem ter o espírito de humildade, de penitência e de castidade.

EXEMPLO: Nos meados do século passado, vivia no Japão um homem muito rico, chamado Asano e tinha uma filha de nome Aiko. Ela amava ternamente a seu pai. Tocada pela graça de Deus, ao ouvir um santo missionário, converteu-se. Sendo seu pai pagão, a moça não quis contristá-lo revelando-lhe sua conversão ao Catolicismo. Mas ele notava uma grande transformação em sua extremosa filha: ela passou a não ter nenhum interesse nos prazeres e bens da terra.

A ideia de entrar num convento para se consagrar inteiramente a Jesus, fortificava-se cada dia em sua alma. Entrementes o pai sonhava grandes projetos para o casamento de sua linda Aiko. Logo após a 2ª guerra mundial, Asano ficou tuberculoso. Sua filha consultou o seu pároco se devia entrar para o convento. Ele aconselhou-a a ficar com seu pai doente. Ela obedeceu e cuidou com todo carinho de seu pai, que se restabeleceu da doença. O pai sentia-se comovido em ver a caridade e a fortaleza de sua filhinha naquele período de graves crises pós-guerra. Aquele homem sentia que algo de extraordinário tocava o coração de sua filhinha querida. Um dia viu-a em oração e começou a pensar em ser católico. E um dia, disse a sua filha: "Aiko, percebo que você quer ser religiosa. Pois bem, fico muito contente com isso, e quero dizer-te, que já sou católico". Após poucos meses de instrução, foi batizado. E no final de 1945, Aiko entrou para o Convento. Amém!

  

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A IGREJA PERFEITA

 A IGREJA PERFEITA

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

 

Todos gostaríamos que a Igreja fosse perfeita. Ela o é, enquanto divina, na sua graça e na sua doutrina. Mas, enquanto humana, não, por causa de seus membros, nós, fracos e pecadores. “Enquanto Cristo ‘santo, inocente, imaculado’, não conheceu o pecado, e veio expiar unicamente os pecados do povo, a Igreja, que reúne em seu seio os pecadores, é ao mesmo tempo santa, e sempre necessitada de purificação.... A Igreja continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a paixão e a morte do Senhor, até que ele venha. No poder do Senhor ressuscitado encontra a força para vencer, na paciência e na caridade, as próprias aflições e dificuldades, internas e exteriores, e para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que no fim dos tempos ele se manifeste na plenitude de sua luz” (Lumen Gentium, 8).

É conhecida a história fictícia de um cristão do primeiro século, que teria reclamado com São Paulo, Apóstolo, sobre a Igreja em que vivia, dizendo que preferia se mudar para outra comunidade cristã, uma fundada por ele, que não tivesse problemas, Corinto, por exemplo. São Paulo lhe responderia: Na Igreja de Corinto há discórdias e grupos que se dividem (1Cor 1, 12), partidos e contendas (1Cor 3), brigas (1Cor 6, 6) e mesmo imoralidades (1Cor 5, 1). E a Igreja de Éfeso? São Paulo responde que lá também há decadência e tibieza (Ap 2,4-5). E a Igreja de Tessalônica? Lá também há desordens, vadiagem e gente intrometida (2Ts 3, 11). E a Igreja de Filipos? Lá há duas irmãs da Igreja que vivem em discórdia (Fl 4, 2). E a Igreja de Colossos? Lá há cristãos orgulhosos e que se baseiam em pretensas visões (Cl 2, 18). E a Igreja da Galácia? Lá há cristãos se mordendo e se devorando uns aos outros (Gl 5, 15). E a primeira Igreja, a de Jerusalém? Lá há preconceituosos (Gl 2, 12 ss), murmuradores (At 6,1), e mentirosos, querendo aparecer (At 5, 1-11). Igreja sem problemas só no Céu, a Igreja triunfante. Aqui na terra a Igreja é militante, sempre em luta contra o mal e inimigos, externos e internos.

Como toda família, a Igreja, divino-humana, tem problemas, devidos à sua parte humana. Jesus disse que o “Reino de Deus” aqui na terra, a Igreja, é semelhante a uma rede, com peixes bons e maus, e a um campo com trigo e joio. A depuração será só no fim do mundo.

Essa noção de família é muito importante na eclesiologia. A Igreja é algo objetivo, fundada por Nosso Senhor sobre os Bispos, segundo a sucessão apostólica. A Igreja não é um grupo de amigos. “Na Igreja, eu não procuro meus amigos, eu encontro meus irmãos e minhas irmãs; e os irmãos e as irmãs não se procuram, se encontram. Esta situação de não arbitrariedade da Igreja na qual eu me encontro, que não é uma igreja da minha escolha, mas a Igreja que se me apresenta, é um princípio muito importante. Isto não é minha escolha, como se eu fosse com tal grupo de amigos ou com outro; eu estou na Igreja comum, com os pobres, com os ricos, com as pessoas simpáticas e não simpáticas, com os intelectuais e os analfabetos; eu estou na Igreja que me precede” (Ratzinger, Autour de la Question Liturgique, Fontgombault, 24/7/2001).

 

        *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

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PEIRGO DA AVAREZA

Acautelemo-nos contra uma paixão, que pôde perverter um Apóstolo, na escola, e à vista de Jesus Cristo, e lança na alma tão densas trevas a ponto de poder levá-la ao desespero mesmo diante da própria Misericórdia.

Toda paixão cega;mas, a avareza ainda mais. Olhemos o triste exemplo de Judas Iscariotes! Quem, melhor do que Judas, devia conhecer o nada das riquezas e a excelência da pobreza voluntária? Tinha mais oportunidade de ver que o dinheiro  nos pode ajudar a ganhar o céu, quando o damos aos pobres. Ele era encarregado exatamente desta missão de caridade. Mas, pelo contrário, só pelo fato de estar lidando com o dinheiro, a ele se apegou. O dinheiro que ele recolhia era justamente para a Igreja poder ajudar aos pobres. Mas ele começou a se apegar, não combateu desde o início o vício da avareza; e ela cresceu tanto que os remédios foram frustrados, embora concedidos por Jesus, Médico das almas.

 Os corações dos avarentos são um terreno coberto de espinhos. Se não riem do pregador abertamente, por dentro não deixam de zombar. Estão sufocados pelos espinhos da avareza.

Judas Iscariotes tinha ouvido os divinos ensinamentos de Jesus Cristo, a respeito do desapego dos bens da terra: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mt V, 3); tinha ouvido  os anátemas que fulminou contra os ricos: "Ai de vós, ó ricos! porque tendes a vossa consolação [neste mundo]; e também: "Jesus vendo esta tristeza [do moço rico a quem Jesus exigiu que deixasse tudo para O seguir] disse: Quanto é difícil que aqueles que têm riquezas entrem no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo  pelo orifício de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus" (Lc XVIII, 24 e 25). Judas, outrossim, ouviu muitas vezes, as instantes recomendações que Jesus fizera aos seus Apóstolos e a ele mesmo, mandando-os anunciar o seu Evangelho (Cf. Mc VI, 8). Tinha experimentado, assim como os demais Apóstolos, como o Céu abençoa o ministério dos pobres. Quando a sua paixão desatou em murmurações contra Madalena: "Por que se não vendeu este bálsamo  por trezentos dinheiros e se não deu aos pobres? Disse isto, não porque se importasse com os pobres, mas porque era ladrão, e, tendo a bolsa, roubava o que se lançava nela"(Jo XII, 4-6); então Jesus louva a piedosa prodigalidade desta mulher, e profetiza que esta ação a honrará aos olhos de todo o mundo. Jesus ensinava assim que o dinheiro também ajuda a levar para o céu aqueles que o dão à Igreja para o culto de Deus. Mas Judas estava cego.

 O exemplo do Salvador devia convencer o Iscariotes melhor que tudo o mais. Judas acreditava na divindade de Jesus: tantas eram as provas que disso Ele tinha dado! Judas não ignorava que tudo o que Deus despreza, é desprezível, e o que Ele estima, estimável.  Ora, ele tinha diante dos olhos o Senhor dos universo, que não possuía nada, e nada queria possuir. E Judas com todas estas luzes não vê!

Bossuet observa que Jesus Cristo não diz: Cuidado com a avareza; mas sim: "Guardai-vos e acautelai-vos de TODA a avareza, porque a vida de cada um, ainda que esteja na abundância, não depende dos bens que possui" (Lc XII, 15).

O amor do dinheiro endurece o coração e torna-o capaz dos maiores crimes. Apenas Judas se deixou dominar pelo espírito de interesse, tornou-se insensível a tudo: já não tem amor senão ao dinheiro. Os esforços do Salvador para o atemorizar e comover, são inúteis. Se fala da sua morte próxima, e da traição de um dos seus discípulos, todos os outros se entristecem, só Judas fica impassível. Se Judas pensava que Jesus poderia mais uma vez se escapar da morte, e assim ganharia as trinta moedas e continuaria junto do seu Mestre, Jesus desfaz este sofisma satânico, predizendo que era chegada a hora de ser entregue  aos inimigos e vai ser morto,; mas só acorda quando vê que Jesus realmente ficou preso e era conduzido pelos inimigos. Em lugar de pedir perdão a Jesus, que o chamara de amigo no momento mesmo do beijo traidor, não! se desespera e se suicida.

Jesus havia se abatido para lavar os pés dos Apóstolos. Pedro não pode consenti-lo, e exclama: "Senhor tu, lavares-me os pés? ( Jo XIII, 6). Mas, Judas mostra-se indiferente e apresenta-lhe os pés. No Jardim das Oliveiras vê milagres: homens armados caindo ao som de uma palavra, e uma ferida curada repentinamente; vê a inefável bondade de seu Mestre que se inclina para receber o seu pérfido ósculo, e que ainda o trata de amigo! Nada o comove. Advertências, repreensões, ameaças, lágrimas, carícias, insinuações ternas e delicadas, Jesus emprega todos os meios para o ganhar; mas em vão; a sua alma materializada resiste a tudo; a sua avareza impele-o ao mais feio, ao mais sacrílego de todos os atentados. "Quanto quereis me dar, e eu vo-lo entregarei? "Deus vítima da avareza! O Criador do mundo posto à venda, pois, há aqui um verdadeiro contrato: Jesus de um lado: eis, se é lícito dizê-lo, a mercadoria proposta; trinta dinheiros, eis o preço; Judas negociante, compradores os príncipes dos sacerdotes; Deus o vendido! A comunhão sacrílega e a desesperação virão completar estes horrores!" (P. Chaignon). Judas se suicida enforcando-se, e, como castigo visível de Deus, parte-se ao meio e suas vísceras se derramam pelo chão. Como não temer esta paixão, como não procurar dar esmolas aos pobres, como não pedir todos os dias a graça do desprendimento dos bens desta terra?!

E há ainda algo a mais neste vício que o torna ainda mais temível. É que a idade enfraquece as outras paixões, mas esta a idade fortalece. O avarento quer viver muito para continuar procurando ter sempre mais. Quanto mais vive, mas quer juntar dinheiro. E quanto mais junta dinheiro, mais quer viver. No fundo sabe, que o ladrão da morte, roubar-lhe-á tudo. Procura não pensar nisso. Mas a graça de Deus por vezes o acorda. Mas ele abafa esta voz, abafa a consciência e procura abafar até a própria realidade.

Terminemos com a oração inspirada pelo Espírito Santo: "Inclina, Senhor, o meu coração para os teus preceitos, e não para a avareza" (Salmo 118, 36). Amém!