segunda-feira, 14 de setembro de 2020

AMOR CONFIANTE

 

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).

"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 38)

(Continuação e término da conferência do Servo de Deus Padre Mateo Crawley-Boevey, SS. CC.)

 

"Digo-vos mais: confiai, porque esse Jesus, que vos convida ao abandono, à Sua intimidade, vê mais claro que vós mesmos. Se vedes cem defeitos, Ele encontra mil e, não obstante, voa ama e vos chama. Seu amor não é, nem pode ser, com o de um amigo ou o de um noivo, um amor-ilusão, e sim fundamentado na verdade. Ele não vos quer porque imagine coisas diferentes da realidade, pois para Ele, na ordem moral, não há camuflagens. Ama-vos tais como sois.

Daí a frase, tão feliz quanto ousada, de Santa Teresinha: "Que mau gosto tiveste, Jesus, querendo-me feia como sou... Não modifiques em nada esse mau gosto, para que não me exponha a ser substituída por um anjo".

Na amizade terrena, o excesso de familiaridade revela misérias anteriormente desconhecidas. Por isso, desmoronam-se tantos carinhos, fundados em ilusões...

Mas com Nosso Senhor a coisa é outra. "Jesus vos ama como ninguém e vos perdoa como ninguém - diz o famoso convertido inglês Pe. Faber - justamente porque vos conhece como ninguém".

A Ele, jamais se surpreende, porque mesmo no santo, que faz milagres, pode-se ver o abismo de fragilidade que traz, no interior, o taumaturgo.

Por isso mesmo também vos disse, há pouco, que se contenta,  Ele, que tudo vê, com grandes e santos desejos, pois melhor do que nós sabe que muitos deles, por sinceros que sejam, não são realizáveis.

Mas vosso desejo já é a Seus olhos um ato de amor, quando sois sinceros e não vaidosos. Quanto são de fato desejos, e não caprichos ou devaneios.

"Paz, portanto, aos de boa vontade" (Lc  2, 30). Paz àqueles que compreenderam e saborearam quão bondoso é o Senhor! Paz aos que sabem, por experiência, que seu jugo é suave e leve a sua carga (Mt 11, 30).

Muito mais que a preocupação exagerada, ainda que legítima de curar vossos males, tende a santa preocupação da Sua glória. "Preocupa-te de Mim, só de Mim, dizia Jesus a Santa Margarida Maria - e Eu me preocuparei de ti e de tudo que é teu".

Há apóstolos que não compreendem ainda este grande espírito e gastam suspiros e tempo em pedir isto ou aquilo. Depois, quando já estão cansados, ajuntam: "Venha a nós o Vosso Reino".

Não façais assim. Começai o trabalho da vossa santificação e do apostolado com este grito, vindo da alma: "Venha a nós o Vosso Reino, o reino do Vosso Coração, do vosso Amor", e Ele dirá: "E Eu me encarrego de todos os teus outros interesses".

Por aí vedes quanto é ampla, segura, sólida e bela a doutrina do Coração de Jesus!

Como se vive bem, luta-se, trabalha-se nesse santuário em que tudo é verdade, paz e força e gozo no Espírito Santo! Bebei à saciedade desse Coração "Fonte inesgotável de vida" e de amor misericordioso.

Nele quero ter minha morada, minha escola, meu céu. Esse Coração me basta. Sou pobre, paupérrimo, mas nesse Coração não temo. São muitos aqueles que julgam ser árduo e dificílimo salvar-se. Eu, ao contrário, creio, raciocinando junto desta cátedra divina, luminosa, que não é tão fácil perder-se, pois que para isso é preciso romper as amarras que são os braços do Senhor, forçar a cidadela redentora que é Seu Coração.

Compenetrai-vos, zelosos apóstolos, desta grande doutrina, visto que não há novidades depois do Evangelho, mas que, por vontade explícita do céu, é todo um sistema doutrinário, toda uma espiritualidade, que envolve hoje a terra sob o título de "Reinado do Coração de Jesus".

Vivei deste pão do amor e da confiança ilimitada, para depois dar essa mesma substância, verdadeiro maná, a muitas almas que têm um conceito mesquinho, desfigurado de Cristo Nosso Senhor.

Ardei na chamas do Coração Divino para, em seguida, queimar a outros. Confiai, vivei no abandono, para infiltrar em outros a confiança, alicerçada no Evangelho, na lei de Cristo, no espírito da Igreja.

Aos débeis, aos maus e pecadores, falai no mesmo tom de Jesus, como Jesus, como o Coração de Jesus. Ouvi como sentencia a pecadora que jaz aos Seus pés divinos: Mulher, "nem eu te condenarei. Vai e não peques mais" (Jo 8, 11).

Discípulos, aprendei as ideias, a linguagem, o estilo do Mestre!

Para terminar, um dos parágrafos mais admiráveis, em doutrina e eloquência, de Santa Teresinha: "Não vou a Deus pelo caminho da confiança e do amor por me julgar preservada do pecado mortal. Ah! Sinto-o perfeitamente, ainda que tivesse por sobre a consciência todos os crimes possíveis, não perderia nada da minha confiança; iria, com o coração destroçado pelo arrependimento, refugiar-me nos braços do meu Salvador. Bem sei quanto ama ao filho pródigo e já ouvi as Suas palavras a Santa Madalena, à mulher adúltera e à Samaritana. Não, ninguém poderá jamais amedrontar-me, porque sei a que ater-me, acerca do seu amor e sua misericórdia. Sei que toda essa multidão de ofensas desapareceriam num abrir e fechar de olhos, como uma gota d'água lançada sobre brasas ardentes" (História de uma alma).

Término.

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