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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

HUMILDADE

PARA LER E MEDITAR
Como deve cada um sentir humildemente de si mesmo


   Que aproveita a ciência sem o temor de Deus? Aquele que bem se conhece tem-se por vil e não se deleita nos louvores humanos.
   "Não presumas de alta sabedoria, mas confessa a tua ignorância" (Rom. XI, 20).
   Se queres saber e aprender alguma coisa proveitosamente, deseja que não te conheçam, nem te estimem. O verdadeiro conhecimento e desprezo de si mesmo é altíssima e utilíssima lição.
   Grande sabedoria e perfeição é pensar cada um sempre bem e favoravelmente dos outros, e ter-se e reputar-se em nada.
    Se vires alguém pecar publicamente ou cometer culpa grave, não te deves julgar melhor; porque não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem.
    Todos somos fracos; mas a ninguém tenhas por mais fraco do que a ti. 
    A soberba derrotou o homem e só a humildade pode levantá-lo e restabelecê-lo em graça com Deus. Seu mérito não está no que ele sabe, senão no que ele faz. A ciência sem as obras não o justifica no tribunal supremo, antes agravará sua sentença. 
    Não deixa a ciência de ter suas vantagens, pois que vem de Deus; mas esconde um grande laço e uma grande tentação: "A ciência incha, diz São Paulo; ela alimenta a soberba, inspira uma secreta preferência de si próprio, preferência criminosa e, ao mesmo tempo, louca, porque a mais vasta ciência não é mais que um outro gênero de ignorância, e a verdadeira perfeição consiste unicamente nas disposições do coração.
    Não esqueçamos nunca que somos nada e nada possuímos de próprio senão o pecado, que a justiça quer que nos abaixemos entre todas as criaturas, e que no reino de Jesus Cristo, "os primeiros são os últimos e os últimos serão os primeiros" (S. Mat. XIX, 30). 
     Meditemos nesta terrível afirmação de São Gregório Magno: "O sinal mais certo da condenação de uma alma é o orgulho". Procuremos aprender de Jesus a ser mansos e humildes. Só assim também, mesmo nesta terra, encontraremos a paz e o descanso. 
    Ó meu Deus, quantas vezes amigo de mim e esquecido de Vós, me esvaeço como os fumos do mundo! Dai-me, Senhor, o verdadeiro espírito de humildade, a fim de que, sendo no mundo o último dos homens, possa entrar com os primeiros no reino de vosso divino Filho no Céu.
     Deste pequeno jardim onde sobressaem as violetas, colherei e levarei comigo durante o dia um ramalhete  cuja simplicidade e perfume ajudem-me a dar muitos frutos de humildade: "Senhor, fazei que eu conheça a Vós e conheça a mim; conheça a Vós, para Vos amar; conheça a mim, para me desprezar" (Santo Agostinho). 

terça-feira, 30 de julho de 2019

O AMOR A DEUS

LEITURA ESPIRITUAL, dia 30º

O primeiro e o máximo mandamento é amar a Deus sobre todas as coisas. É sumamente útil e necessário conhecermos bem este assunto.

Em primeiro lugar, devemos  distinguir dois elementos no amor: a complacência e a benevolência. Que é complacência? Vamos dar exemplo do que acontece com o amor entre pessoas aqui na terra e depois aplicaremos subindo até Deus. Assim, as qualidades dos entes queridos nos enlevam: eis aí a complacência. Agora, queremos bem àquelas pessoas cujos dotes nos cativam: eis aí a benevolência. E nosso amor de complacência e de benevolência deve ser afetivo e efetivo. Há amor afetivo quando suscitamos no nosso coração, tais sentimentos tanto de complacência como de benevolência. E, desde já devemos saber que este amor afetivo para com Deus se exerce e se dilata na oração.

Mas, caríssimos, este amor afetivo só será sincero se for acompanhado do amor efetivo, ou seja, é mister que opere e que realmente sirvamos a Deus. Em outras palavras, o nosso amor deve ser provado pela prática das virtudes. Portanto o amor interno deve ser manifestado externamente e é assim que conhecemos  inclusive o seu valor exato. Como disse o Divino Mestre: "Não é aquele que diz Senhor, Senhor, que vai entrar no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu". Diz também: "Quem me ama, guarda os meus mandamentos, faz o que eu mando". Portanto, querer julgar a intensidade do amor apenas pelo surtos do coração é expor-se a ilusões. É na renúncia da própria vontade e na aceitação amorosa e inteira da vontade divina, que encontramos a prova inconfundível do verdadeiro amor de Deus. Se o amor perfeito não pode nascer nem crescer sem o exercício da oração e a prática constante do amor afetivo, tão pouco se pode desenvolver sem as obras, sem a luta generosa contra os nossos defeitos e a fidelidade às virtudes cristãs.

E que vem a ser AMOR PERFEITO a Deus? Caríssimos, devemos evitar dois extremos: Não se trata apenas de um ato PASSAGEIRO de caridade perfeita; isto seria uma resolução sincera de evitar todo pecado mortal, a fim de não ofender o Deus infinitamente bom, infinitamente digno de amor. Na verdade, esta disposição basta à alma para alcançar o perdão das faltas graves e recuperar a graça santificante que perdera, desde que acompanhada do desejo de receber o sacramento da Penitência. Não é permitido, porém comungar, sem antes se confessar. Se Jesus chamar esta pessoa repentinamente sem ter condição de se confessar, ela se salva. Mas este ato passageiro de caridade perfeita não é ainda o AMOR PERFEITO  a Deus, de que falamos aqui. Por outro lado, devemos excluir o outro excesso, isto é, não deva haver nenhuma interrupção nem desfalecimento para que o amor fosse perfeito. Na realidade seria exigir um amor que só será possível no céu. Assim sendo, devemos dizer que uma alma atinge o amor perfeito a Deus aqui na terra, quando se encontra na disposição habitual de renunciar a tudo quanto lhe possa arrefecer o ardor da caridade. Portanto, significa não ter nenhum apego voluntário, nem às faltas ligeiras, nem às imperfeições; quando se propõe a fazer, em tudo, o que Deus quer, e como Deus quer. E prestemos bastante atenção neste particular: esta resolução não pode ser fruto de um ímpeto de entusiasmo, em que a sensibilidade tem grande parte, mas deve ser uma determinação calma, firme e constante da vontade. Conhece as dificuldades, mas sabe vencê-las, porque não há nada mais forte do que o amor perfeito.

Então, resumindo: O amor perfeito a Deus supõe que a alma esteja sempre na presença de Deus. Pelo menos, o pensamento da pessoa se volta frequentemente para Deus. O amor perfeito supõe, portanto, um amor afetivo intenso e freqüente; supõe também um amor efetivo, generoso, habitual, e devemos dizer que também supõe um amor delicado. Porque daria provas de amor vulgar  e um tanto interesseiro, quem não soubesse prestar serviços a um amigo sem deixar perceber o que isso lhe custa. Na realidade, o verdadeiro amor nunca pensa fazer bastante para o ente amado, desprezando suas fatigas e seus trabalhos; raramente fala de seus sacrifícios, e, se falar, é para dizer que é pouca coisa e que está pronto a fazer outros, maiores ainda.

Não há meio melhor para compreendermos bem o que vem a ser o amor perfeito a Deus do que lendo a vida dos santos, porque, na verdade, é neste amor perfeito, onde se procura fazer sempre a vontade de Deus, que encontramos a verdadeira santidade. Amém!

sexta-feira, 19 de julho de 2019

INSTITUIÇÃO DIVINA DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA


LEITURA ESPIRITUAL  MEDITADA, dia 19º

Como rezamos no ato de Contrição: "Senhor meu, Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro...", sabemos que o Messias, o Salvador é o Filho de Deus feito Homem. Foi sempre Deus porque Deus não teve princípio, existiu desde todo sempre, e nunca deixará de existir. Fez-Se Homem, sem deixar, portanto, de ser Deus. E assim, Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Pois bem, todos os sacramentos foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito Homem. Entre os sete Sacramentos está o da Penitência ou Confissão. O Sacramento da Penitência é, portanto de instituição divina, e não uma coisa criada por um simples homem. Daí devemos dizer que a Confissão é divina. E para demonstrar esta verdade basta-nos consultar o Santo Evangelho, a Tradição e podemos também dar argumentos de razão a favor de sua conveniência.

1. O EVANGELHO:

 O Evangelho atesta em primeiro lugar que Jesus Cristo tem o poder de perdoar os pecados. S. João Batista mostra Jesus ao povo e diz: "Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo" (S. João, I, 29). Lemos também no Evangelho que um dia apresentaram a Jesus um paralítico. O Salvador, querendo provar a sua divindade, disse: Teus pecados são-te perdoados. Então os escribas e os fariseus murmuraram entre si dizendo: "quem pode perdoar os pecados senão Deus?" Mas Jesus Cristo, conhecendo seus pensamentos lhes disse: "Que estais vós a pensar nos vossos corações? Que coisa é menos difícil dizer: São-te perdoados os pecados, ou dizer: Levanta-te e caminha? Pois, para que saibais que o Filho do homem tem poder sobre a terra de perdoar pecados, (disse ao paralítico): Eu te digo: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. Levantando-se logo em presença deles, tomou o leito em que jazia e foi para sua casa, glorificando a Deus" (S. Lucas, V, 20 a 25).


 Realmente, trata-se de um poder divino, ou seja, só Deus pode perdoar pecados. Mas Deus em sua infinita misericórdia, delegou este poder aos homens, não a todos mas àqueles que Ele escolheu e escolherá até o fim do mundo para fazer as suas vezes, isto é, para serem seus instrumentos, dispensadores deste poder: são primeiramente os Apóstolos e depois seus sucessores. Este grande poder de perdoar os pecados Jesus Cristo prometera primeiramente a São Pedro quando disse-lhe: Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo que ligares na terra será ligado no Céu e tudo que desligares na terra será desligado no Céu" (S. Mateus, XVI, 19). Depois Jesus Cristo fez a mesma promessa a todos os Apóstolos reunidos: "Tudo  que ligares na terra, será ligado no Céu, e tudo que desligardes na terra será desligado no Céu" (S. Mateus, XVII, 18). Por estas memoráveis palavras o Divino Redentor prometeu a seus Apóstolos comunicar-lhes o poder de abrir e fechar o Céu. Ora, a porta do Céu não se fecha senão pelo pecado e não se abre senão pelo perdão dos pecados.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

A INSTITUIÇÃO DIVINA DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA PROVADA PELA TRADIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 18º

Antes de expor os argumentos da Tradição é sempre útil ver quais são os adversários da tese e refutá-los. Pois bem, como todos sabem, os grandes adversários do Sacramento da Penitência são os protestantes. Estes, seguindo Calvino, e também os ímpios modernos ousam dizer que a confissão era desconhecida nos primeiros séculos do Cristianismo. Sustentam que a confissão data dos 4º Concílio de Latrão em 1215, época em que o Papa Inocêncio III tê-la-ia inventado. Caríssimos, isto constitui um grave erro que denota a mais grosseira ignorância, ou, pior ainda, é uma demonstração da mais insolente má fé. Vamos ouvir Santo Afonso: este grande Doutor da Santa Igreja diz que o Papa Inocêncio III, não fez senão determinar o tempo em que a confissão deve ser feita pelos fiéis, isto é, ao menos uma vez por ano, como já haviam prescrevido os papas Inocêncio I (+ 417), Leão I (+ 474), Zeferino (+218). Além disso, sabemos que a Tradição e a História da Igreja se apoiam no Santo Evangelho de S. João para provar que a confissão foi instituída por Jesus Cristo. Suponhamos os Sacramento da Penitência como a Igreja o administra, realmente estabelecido por Nosso Senhor Jesus Cristo: Eis aqui os fatos que se devem produzir e dos quais a História Eclesiástica dá, sem dúvida, testemunho; os Padres da Igreja falarão da Confissão em seus escritos, e dirão que ela vem de Jesus Cristo; hão de afirmar que é necessária à salvação, que deve ser feita com sinceridade e com contrição; que só os sacerdotes podem absolver, etc. Os Concílios traçarão as regras aos confessores, para remediar os abusos que nascerão em diversas épocas da história. Conservar-se-ão muitos nomes de confessores que prestaram o socorro de seu ministério a personagens históricos. Talvez se encontre nas mais antigas igrejas o lugar dos tribunais da penitência; enfim, as seitas separadas da Igreja de Jesus Cristo, desde os primeiros séculos, terão provavelmente conservado alguns vestígios dessa salutar instituição.

Consultando as antiguidades eclesiásticas obteremos precisamente estes resultados que acabamos de enumerar. Até historiadores protestantes, devendo ser sinceros diante da evidência, declararam que a Confissão entre os Católicos já era exercida nos quatro primeiros séculos. Por exemplo, o historiador protestante Gibbon diz: "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que estabeleceu a Confissão como um dos principais pontos da doutrina católica em todo o período dos quatro primeiros séculos".


Entre outras seitas heréticas encontramos também quem dá testemunho histórico da existência da Confissão já nos primeiros séculos da Igreja Católica. Por exemplo: os eutiquianos, os jacobitas, os armênios, os nestorianos, em um palavra, as Seitas do Oriente, separadas da Igreja Romana desde o 4º e o 5º séculos, praticavam a confissão como necessária. Muitos sábios autores atestam que se vêem nas catacumbas de Roma os confessionários próximos aos altares, cujas pinturas, semelhantes às de Pompéia, remontam aos primeiros séculos do Cristianismo. 

quarta-feira, 24 de abril de 2019

AMOR DA SOLIDÃO E DO SILÊNCIO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

   Jesus Cristo, nosso Divino Mestre, passou trinta anos em casa, e os três dias que passou fora de casa, estava no Templo, casa de Seu Pai.  Nos três anos  de vida pública, fora de casa, retirava-se muitas vezes para as montanhas, e, às vezes sozinho, sem a companhia de seus próprios discípulos. A estes, certo dia, Nosso Senhor deu este conselho: "Vinde para um lugar retirado dos homens, um lugar deserto, e descansai um pouco". Ali, no retiro, Jesus falou-lhes dos Reino dos Céus. Diz Deus pelo profeta Oseias: "Conduzirei a alma à solidão e ali lhe falarei ao coração".Diz a Bíblia que Deus não está na agitação. E o profeta Jeremias pergunta: "Por que a terra está desolada?" e responde: "Porque não há quem pare para pensar em seu interior". Caríssimos, não sou profeta, por isso não sei se haverá  para o futuro tempo mais tumultuoso, barulhento, dissipado e inimigo da meditação do que o de hoje; mas, com toda certeza, os tempos atuais são mais dissipados e avessos à vida interior do que os tempos do profeta Jeremias. Como profeta e inspirado pelo Espírito Santo, suas palavras abrangiam, com certeza, se não unicamente, também os nossos tempos. 
  São Bernardo dizia em latim (e só em latim a expressão tem encanto): "O Beata solitudo, o sola beatitudo!" 
   Deixa as coisas curiosas e lê, ao menos uns 15 minutos por dia, livros, artigos, posts que te levem a pensar em Deus, no Céu, em tua alma, nos benefícios de Deus, na tua ingratidão e nos teus pecados para teres no coração a compunção. 
   Quando foi que o filho pródigo se converteu, saiu da miséria espiritual e material? Quando, levado pela desilusão do mundo e pelas provações, parou para pensar. Enquanto estava nas orgias com seus amigos e amigas do mundo, não tinha como se converter, porque não ouvia a voz de Deus. Eis o que é o mundo! Quando o filho pródigo tinha dinheiro, seus amigos e amigas estavam ao seu lado; quando o dinheiro acabou e os "amigos e amigas" não puderam mais filá-lo, todos o abandonaram. Convertido, no interior de sua casa em companhia de seu bondoso pai, o filho mais novo era agora feliz, verdadeiramente feliz. Adeus barulho do mundo!
   Se te apartares da televisão, das conversações supérfluas e passeios ociosos, como também de ouvir novidades e murmurações, acharás tempo bastante e oportuno para te entregares a santas meditações. Estamos na terra de passagem; nossa conversação deve estar no céu.
  Disse Sêneca, filósofo antigo: "Quantas vezes estive entre os homens, voltei menos homem". Experimentamos isto quando falamos muito e com muitos; porque é mais fácil calar de todo, que falar sempre acertadamente. Na verdade, a boca fala o que temos no coração. Se vivermos com Jesus e sempre na presença de Deus, quando falarmos  sempre deixaremos boa impressão nos ouvintes e faremos bem à sua alma. 
    Ninguém seguramente se alegra senão o que possui em si mesmo o testemunho de boa consciência. 
   Muitas vezes os mais estimados no conceito dos homens têm caído em grandes perigos e enganos, por causa de seu orgulho, muita confiança em si mesmos e presunção. Se contradizem: durante anos a fio, a tempo e fora de tempo, querem impor suas ideias com a presunção de achá-las infalíveis como as palavras de São Paulo, e depois, a tempo e fora de tempo, querem que o próximo rejeite estas mesmas ideias. Pouquíssimas vezes nos vamos arrepender de ter calado, mas muitíssimas por ter falado.
   Outro grande proveito da vida mais retirada e silenciosa é o que se tira da leitura e medição das Sagradas Escrituras. Com a tradução e explicações tradicionais dos Santos Padres, a leitura meditada das Sagradas Escrituras é mel para os nossos lábios, melodia para os ouvidos, compunção e consolação para as nossas almas. 
   O mundo não entende estas coisas e critica e zomba do que não entende. O mundo está entregue ao espírito das trevas, a todas as concupiscências que ele inspira, a todos os crimes que ele provoca, a todos esses males de que é o princípio; por isso exclamava o profeta David: "Apartei-me, fugi (do mundo) e moro na solidão" (Salmo 54,8).
   Deixa aos vãos as coisas vãs, deixe que os mortos enterrem os mortos, e tu tem cuidado do que Deus te manda. Se não podes corporalmente fugir do mundo, ao menos deves fazer uma espécie de retiro no teu coração. Deste estratagema usaram alguns santos como, por exemplo, Santa Catarina de Sena. No meio das ocupações, da sociedade e do bulício do mundo, todos devem criar, no fundo de seu coração, um  lugar à parte,  onde possam retirar-se para conversar com Jesus Cristo e recolher-se em sua presença. 
   Ó Jesus! quando Vos verei como sou de Vós visto! Dai, Deus meu, o que quereis; dai, Salvador divino, o que minha alma precisa, e acharei nela o que vosso amor deseja!
   O ramalhete espiritual colhido no jardim desta leitura meditada serão as palavras de São Paulo: "Nossa vida está escondida em Deus com Cristo" (Coloss. III, 3). 
    
   
   

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O ZELO PELAS ALMAS


LEITURA ESPIRITUAL 


  "À medida que o amor de Deus vai tomando posse dos nossos corações, faz nascer e alimenta neles um amor cada vez maior para com o próximo, amor que, sendo sobrenatural, tende acima de tudo ao bem sobrenatural dos nossos semelhantes e converte-se em zelo pela salvação das almas.
   Se amamos pouco a Deus, também amaremos pouco as almas e, vice-versa, se o nosso zelo pelas almas é fraco, também o é o nosso amor a Deus. Efetivamente, como seria possível amar muito a Deus sem amar muito os que são Seus filhos, os que são objeto do Seu amor, dos Seus cuidados, do Seu zelo? As almas são, por assim dizer, o tesouro de Deus. Ele criou-as à Sua imagem e semelhança por um ato de amor, remiu-as com o Sangue do Seu Unigênito por um ato de amor ainda maior. "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna" ( Jo. III, 16 ). Quem penetrou o mistério do amor de Deus aos homens, não pode permanecer indiferente pela sua sorte: à luz da fé compreendeu que tudo quanto Deus opera no mundo é para seu bem, para sua felicidade eterna e quer de algum modo participar nesta ação, sabendo que não pode fazer coisa mais agradável a Deus do que prestar a sua humilde colaboração na salvação dos que Lhe são caros. Foi sempre este o desejo ardente dos santos, desejo que os impeliu a realizar heroísmos de generosidade, ainda que fosse para o bem de uma só alma. "Esta - escreve Santa Teresa d'Ávila- é a inclinação que o Senhor me deu. Parece-me que Ele aprecia mais uma só alma que Lhe ganhemos com as nossas indústrias e orações mediante a Sua misericórdia, do que todos os serviços que Lhe possamos fazer" ( Fd. 1, 7 ).
   É verdade que o fim primordial da ação de Deus é a Sua glória, mas Ele, infinitamente bom, gosta de a procurar particularmente através da salvação  e felicidade das Suas criaturas. De fato nada exalta tanto a Sua bondade, o Seu amor, a Sua misericórdia, como a obra salvífica em favor dos homens. Por isso, amar a Deus e a Sua glória significa amar as almas, significa trabalhar e sacrificar-se pela sua salvação.
   O zelo pelas almas nasce da caridade, da contemplação de Jesus crucificado: as Suas chagas, o Seu Sangue, os sofrimentos dilacerantes da Sua agonia, dizem-nos como valem as almas na presença de Deus e como Ele as ama. Este amor, porém, não é correspondido e parece que os homens ingratos querem fugir cada vez mais à Sua ação. É  o triste espetáculo de todos os tempos que ainda hoje se repete, como se quisessem insultar Jesus e renovar a Sua Paixão. "Todo mundo está em chamas: os ímpios querem, por assim dizer, voltar a sentenciar a Cristo, pois levantam contra Ele mil falsos testemunhos e querem deitar por terra a Sua Igreja". Se Teresa d'Ávila ( Caminho 1, 5 ) podia afirmar isto do seu século atormentado pelo protestantismo, com muito maior razão podemos afirmá-lo nós do nosso, em que a luta contra Deus e contra a Igreja aumentou desmedidamente e alastra por todo o mundo. Felizes de nós se pudéssemos também repetir com a Santa: "Despedaça-me o coração a perda de tantas almas. Quisera não ver perder-se mais nenhuma... Mil vidas sacrificaria eu para salvar uma só alma das muitas que se perdem" ( ib. 4 e 2 ). Mas não se trata só de formular desejos; é preciso agir, é preciso trabalhar e sofrer pela salvação dos irmãos.
   São João Crisóstomo afirma que "nada há de mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos  outros". Esta frieza  é consequência de uma caridade muito frouxa; acendamos, reavivemos a caridade e acender-se-á em nós o zelo pela salvação das almas. Então o nosso apostolado deixará de ser um dever imposto do exterior  que devamos  cumprir    necessariamente por obrigação do nosso estado, para se tornar uma exigência do amor, uma chama que se inflama espontaneamente no fogo interior da caridade.
   Dar-se à vida interior não significa fechar-se numa torre de marfim para gozar tranquilamente as consolações divinas, desinteressando-se do bem alheio, mas significa concentrar todas as energias na busca de Deus, no trabalho da santificação pessoal para agradar a Deus e adquirir um poder de ação e intercessão capaz de obter a salvação de muitas almas". ( Extraído do Livro "Intimidade Divina" de autoria do P. Gabriel de Sta. M. Madalena, O.C.D. ).
      Vamos completar este artigo com alguns excertos do livro "Tratado do Amor de Deus" de autoria de São Francisco de Salles.
   "Não há dúvida, meu caro Teótimo, de que Moisés, Fineas, Elias, Matatias, e muitos servos de Deus se serviram da cólera, para exercerem o zelo em muitas ocasiões assinaladas.
   Convém, porém, notar que eram pessoas com a capacidade suficiente para bem manejarem as paixões e dominarem a cólera.
   São Dionísio, falando a Demófilo que pretendia chamar zelo à fúria e raiva que o dominavam, disse-lhe: "Quem quiser corrigir os outros deve, em primeiro lugar, empregar o máximo cuidado,  de impedir que a cólera exceda a razão do império e domínio que Deus deu à alma, e provoque revolta, sedição ou confusão em nós mesmos. E por isso nunca podemos aprovar vossos ímpetos de zelo indiscreto, ainda que mil vezes aponteis o exemplo de Fineas e Elias, porque tais palavras não agradaram a Jesus Cristo, quando lhe foram dirigidas pelos Discípulos, que não tinham ainda participado do seu doce e benigno espírito".
   Quando Fineas, continua São Francisco de Salles, viu aquele desgraçado Israelita ofender a Deus com uma Moabita, matou-os ambos; Elias predissera a morte de Ocozias, que, indignado com a profecia, enviou dois capitães, um depois do outro, com cinquenta soldados para o prender; o homem de Deus fez descer o fogo do céu, que os fulminou.
   Ora um dia Nosso Senhor, passando na Samaria, mandou a uma cidade pedir hospedagem, mas os habitantes, ao saberem que Nosso Senhor era Judeu de nação e ia para Jerusalém, recusaram-lha.
   À vista desta recusa, São João e São Tiago, disseram a Jesus: Quereis, Senhor, que façamos descer sobre eles fogo que os devore? Mas Nosso Senhor, voltando-se para eles, repreendeu-os com estas palavras: Vós não compreendeis de que espírito sois; o Filho do Homem não veio para perder as almas, veio para as salvar ( Luc. IX, 52-56. ).
   Ora, é isto que quer dizer São Dionísio a Demófilo quando este alegava em sua defesa o exemplo de Fineas e de Elias. São João e São Tiago queriam imitar a Elias, fazendo descer o fogo do céu  sobre os homens, mas Nosso Senhor repreendeu-os e fez-lhes perceber que o Seu zelo, era doce, bondoso e afável e que empregava a cólera rarissimamente só quando não houvesse esperança alguma de tirar resultado doutra sorte.
   Aqueles grandes santos eram inspirados imediatamente por Deus e conseguiam por isso empregar a cólera sem perigo. O mesmo Espírito que os incitava, segurava também as rédeas da sua justa cólera, para que esta não excedesse os limites que lhe fixava.
   Porque São Paulo uma vez chamou aos Gálatas de insensatos; porque descobriu aos de Cândia as suas depravadas inclinações; porque resistiu de frente ao glorioso São Pedro, seu superior, segue-se daí que nos seja lícito injuriar os pecadores, difamar as nações, desautorizar e censurar os nossos superiores e prelados? Não, porque nós não somos S. Paulos, para sabermos fazer essas coisas com cabimento.
   Porém os espíritos avinagrados, descontentes, presumidos e maldizentes, servindo apenas as inclinações, humores, aversões e temeridades próprias, querem encobrir a sua injustiça com a capa de zelo e deixam-se, sob o nome deste fogo sagrado, devorar pelas próprias paixões.
   O verdadeiro zelo é filho da caridade, porque reside no ardor; como ela é paciente, benigno, imperturbável; não quer debates, não tem ódios, nem invejas, e compraz-se na verdade.
( Confira: Tratado do Amor de Deus, de S. Francisco de Salles, livro X, capítulo XVI ).

sexta-feira, 10 de junho de 2016

VÍNCULO INDISSOLÚVEL DO MATRIMÔNIO


LEITURA ESPIRITUAL

REFLEXÕES SOBRE TEMA DA SAGRADA ESCRITURA

"Foram ter com ele os fariseus para o tentar e disseram-lhe: É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, respondendo, disse-lhes: Não lestes que quem criou o homem no princípio, criou-os homem e mulher, e disse: Por isso deixará o homem pai  e mãe, e unir-se-á com sua mulher, e os dois serão uma só carne? Por isso, não mais são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu" (S. Mateus XIX, 3 e sgs).

No último dia do ano de 1930, no início de sua Encíclica "CASTI CONNUBII", Pio XI já constatava com tristeza "a ignorância total da altíssima santidade do matrimônio cristão"... Lamentava como a maior parte dos homens desconhecia essa santidade. Ou negavam-na impudentemente, ou ainda, apoiando-se sobre os princípios falsos de uma moralidade nova e absolutamente perversa, calcavam-na aos pés. Aliás, 50 anos já antes de Pio XI, o Papa Leão XIII, na Encíclica "ARCANUM", denunciava que os detratores da fé cristã recusavam admitir sobre a origem do matrimônio a doutrina constante da Igreja e se esforçavam já há muito tempo por destruir a Tradição de todos os povos e de todos os séculos.

"... Tendo Deus no sexto dia da criação formado o homem do limo da terra e insuflado na sua face o sopro da vida, quis dar-lhe uma companheira, que maravilhosamente tirou do lado do mesmo homem, enquanto ele dormia; quis Deus com isto, na Sua alta providência, que estes dois esposos fossem o princípio natural de todos os homens e a fonte de onde o gênero humano deveria sair e conservar-se através dos tempos por uma série ininterrupta de gerações. E para que esta união entre o homem e a mulher melhor se harmonizasse com os Seus sapientíssimos desígnios, lhe imprimiu desde esse dia, à maneira de um selo e de um sinal, duas qualidades principais, nobres entre todas as outras, a saber: 'a unidade e a perpetuidade'. - É isto que vemos declarado e abertamente confirmado no Evangelho pela divina autoridade de Jesus Cristo, quando afirmou aos judeus e aos Apóstolos que o casamento, segundo a sua própria instituição, não deve ter lugar senão entre duas pessoas, um homem e uma mulher; que os dois devem constituir como que uma só carne e que o laço nupcial está pela vontade de Deus tão íntima e tão fortemente ligado, que nenhum homem tem o poder de o desligar ou quebrar. 'O homem unir-se-á à sua companheira e serão dois numa só carne'. Por isso já não são dois, mas uma só carne. 'O que Deus uniu não o separe o homem' (Mt 19, 5 e 6).

"Mas esta forma de matrimônio, tão excelente e tão elevada, começou pouco a pouco a corromper-se entre as nações pagãs, e até entre os hebreus pareceu eclipsar-se e obscurecer-se. Tinha-se na verdade introduzido entre eles o costume geral de permitir a um homem possuir mais de uma mulher, e quando, mais tarde, Moisés, 'em virtude da dureza do coração deles', teve a tolerância de autorizar a repúdio das mulheres, abriu-se a porta ao divórcio.  Com relação à sociedade pagã, custa crer a que grau de corrupção e de fealdade desceu o casamento, entregue à ondas dos erros de cada povo e das mais ignóbeis e vergonhosas paixões. (...).

"Mas todos estes vícios e todas estas ignomínias, que maculavam os casamentos, encontraram em Deus a reforma e o remédio. Porquanto, Jesus Senhor Nosso, restabelecendo a dignidade humana e aperfeiçoando as leis mosaicas, fez do casamento um dos objetos importantes da Sua solicitude. Com efeito honrou com a Sua presença as bodas de Caná, na Galileia, e tornou-as memoráveis pelo primeiro dos Seus milagres. Em virtude deste fato, parece que desde esse dia o matrimônio começou a receber um novo caráter de santidade. Em seguida o Salvador restabeleceu o matrimônio na nobreza da sua origem primitiva, já reprovando os costumes dos judeus com relação à pluralidade de mulheres e ao uso que faziam do repúdio, já proclamando sobretudo o preceito de que ninguém ousasse reparar o que o próprio Deus uniu por um laço perpétuo. Por isso, depois de ter resolvido as dificuldades provenientes da legislação das instituições mosaicas, formulou, na qualidade de Legislador Supremo, esta Lei sobre o matrimônio: 'Em verdade vos digo que todo aquele que separar de si sua mulher, exceto o caso de adultério, e tomar outra, é adúltero; e todo aquele que tomar a que foi repudiada é adúltero' (Mt 19, 9).

 (Salvo o primeiro parágrafo, este artigo compõe-se de excertos da Encíclica "ARCANUM" do papa Leão XIII).  

sexta-feira, 3 de junho de 2016

AMOR CONFIANTE ( I )

LEITURA ESPIRITUAL

"O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido" (Mt 18, 11).
"Sou Eu, não temais" (Lc 24, 36)
Pelo Padre Mateo Crawley-Boevey  SS. CC.
É uma conferência extraída do seu Livro "JESUS, REI DE AMOR"
Vou distribuí-la em vários artigos a serem publicados no mês de Junho.

Caríssimos, não acrescentarei uma só palavra minha, não venha ela empanar o brilho daquela eloquência mais do céu que da terra; nem arrefecer o calor daquele fogo divino que abrasava o peito deste grande apóstolo da devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Assim, demos a palavra ao Servo de Deus:

"Palavra inefável, eloquente como poucas, talvez como nenhuma. Tende confiança, "sou Eu".

- Eu, vosso Pai, vosso Amigo, vosso Salvador. Nolite timere! "Não temais!".

- Mas, como?... E minhas ruindades?

- Ego sum! "Porque sou Eu" ...

Se fosse um Anjo, um profeta, um Santo, poderíeis temer, pois as criaturas, as melhores, não podem amar-vos como Eu ... Não temais, porque sou Jesus.

E por isso Ele disse: "Eu vos dou a minha paz" (Jo 14, 27). A Sua, não a nossa, tão desprezível. A Sua e não a do mundo, falsificada, perigosa, envenenada.

Sobre os fundamentos da Sua misericórdia, tenhamos a paz. Não porque nos creiamos justos e confirmados em graça, mas porque cremos com fé imensa em seu amor, remédio e reparação para nossas misérias.

Que faríamos sem esta energia sobrenatural, divina, da confiança em Nosso Senhor? ao cimo da santidade, chega-se pela vereda da confiança; não há outro caminho.

Porque sendo o que somos todos nós, um abismo de baixezas e pecados, pedir-nos que assim mesmo subamos sem nos dar antes de tudo as asas da confiança, seria arrojar-nos num outro abismo: o do desânimo definitivo e sem remédio.

Mas, por essa escada santa, mas, com tais asas divinas, quero, sim, e posso, ser santo. Quero e posso subir muito alto, de profundis, das profundezas da minha maldade, do abismo da minha miséria.

Não me venham dizer que isso é pretensão, que é ilusão ... Se pensasse em chegar ao cume com meus pés de argila, então, mil vezes seria loucura e soberba. Mas, nos braços de Jesus, sobre seu Coração, estou certo de que chegarei com êxito, porque sou menos que uma formiga.

Ele transforma sempre as formigas confiantes  em águias reais.

Se Ele, o Deus de perdão e de graças, se Ele, Jesus, o Deus de misericórdia e ternura; se Ele, Jesus, o Deus Crucificado e Sacramentado por amor e Encarnado para salvar, não me inspira confiança cega, imensa, ilimitada, quem poderá inspirar-me?

Veio, acaso, à terra para trazer-nos...  o quê? Os arremessos de tremenda justiça? As chamas de uma cólera divina? A sentença de morte eterna, mil vezes merecida? Não! Absolutamente não! Abri o Evangelho em qualquer página, ao acaso, e ainda em suas iras e anátemas encontrareis inebriante, irresistível, o Coração do Salvador.

Veio perdoar, salvar, semear paz, dar o céu, ainda àqueles, e sobretudo a eles, que Lhe prepararam a cruz: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Com este fim redentor "aniquilou-se, tomando a natureza de servo" (Filip 2, 7). Revestiu-Se da nossa roupagem leprosa, e por isso o fulminou o Pai.

Tomou consigo nossas misérias, segundo está escrito: "Tomou sobre si nossas fraquezas, e ele mesmo carregou com as nossas dores" (Is 53, 4). "Homem de dores e experimentado nos sofrimentos" (Is 3, 3).

Não, por certo, em sentido literal, mas figurado, poderíamos pois aplicar-Lhe aquela expressão dos Livros Santos: "Um abismo chama outro abismo" (Sl 41, 8). Isto é, o abismo da nossa miséria e corrupção, dir-se-ia, atraiu o abismo de Sua misericórdia e bondade.

Belém é apenas, com toda a sua pobreza, um reflexo, um quadro poético, se comparado com outro berço consciente de sua pobreza e indignidade: o coração de quem comunga.

Jesus, que sabe disso, manda que o recebamos, que comunguemos.

Sobre a base do arrependimento e da humildade, parece Jesus correr um véu de paraíso sobre este presépio menos que palha, e comprazer-Se nele. E tem ânsias supremas de descansar nesse altar desmantelado. Negar-Lhe o direito à sua condescendência seria feri-Lhe o Coração!

Sabeis qual  é, para mim, a transfiguração que me enlouquece? não a do Tabor, onde, por um instante, parece recobrar o que havia deixado por meu bem, o manto da sua majestade esplendorosa. A transfiguração que me comove e arrebata é outra: a de Belém, quando vejo o Criador revestido das roupinhas da nossa natureza. A de Nazaré, quando contemplo meu Juiz, coberto com o véu do anônimo, de qualquer um. E aquela do Calvário, quando adoro, debaixo da púrpura sangrenta e da mortalha da morte, Aquele que é a Vida. Oh! Jesus, à força de quereres assemelhar-Te a nós, já não Te pareces contigo mesmo!

Esta transfiguração tríplice que o faz tão meu, tão Irmão, tão condescendente, tão parecido comigo, ensina-me, melhor que o Tabor, quanto devo amá-Lo e com quanta confiança, se possível infinita, devo aproximar-me de Seu Coração.

O contraste prodigioso entre o que o Tabor mostra num instante e o que é e permanece em Belém, Nazaré e no Calvário, prega-me, patentemente, e com eloquência esmagadora, a loucura do Seu amor e a realidade daquela palavra da Escritura: "Não quero a morte do ímpio, mas que se converta a viva (Ez 33, 11). E ainda: "Veio buscar e salvar o que tinha perecido" (Lc 19, 10).


(Continua no próximo artigo).

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A BONDADE DE DEUS

LEITURA ESPIRITUAL Dia 

"Deus charitas est"
"Deus é Amor" (1 João IV, 16)

Nosso Senhor Jesus ensinou-nos a dirigirmo-nos a Deus chamando-O Pai: "Pai Nosso que estais no Céu"... embora saibamos que Deus é também o Supremo Senhor. Deus é um Pai que é a própria bondade, é onipotente e é a própria Sabedoria. O bem quer difundir-se. Deus é amor; e é da essência do amor querer e fazer o bem.  MÃE! este nome evoca a ideia mais acabada e real do amor.  Assim diz o Espírito Santo: "Pode porventura uma mãe esquecer o seu filho... mas mesmo que uma mãe esquecesse o seu filho, Eu, diz Deus, nunca me esquecerei de vós". Os pais amam os filhos, gostariam de dar o melhor para eles, mas nenhum pai tem condições de o fazer como desejaria. O Pai do Céu, no entanto, é todo poderoso e sabe o que é melhor para seus filhos.  Devemos a Deus um afeto filial. Este sentimento, o mais doce e o melhor dos sentimentos de família, reclama a Deus como Pai. Para Ele nós somos realmente seus filhos. Diz São Paulo: "É pela graça da regeneração e do batismo que nos tornamos filhos de Deus e que recebemos a graça da adoção divina". O Apóstolo do amor, S. João, também diz:   "Considerai que amor nos mostrou o Pai para que sejamos filhos de Deus e os sejamos (na realidade)" (1ª João III, 1). "Não recebemos, diz S. Paulo, o espírito de temor e escravidão, mas o de adoção dos filhos de Deus, pelo qual o chamamos Nosso Pai" (Romanos, VIII, 15 ). Deus é onipotente mas Pai que se inclina sobre nós e nos dedica, cheio de bondade e ternura, um amor inefável, porque somos obra de suas mãos: " Senhor, a tua misericórdia é eterna, não desprezeis  as obras das vossas mãos" (Salmo CXXXVII, 8). Deus é montanha inacessível de perfeições; e nós, seus filhos, abismo insondável de misérias. Um abismo chama o outro. Montanha e abismo atraem-se. O abismo de miséria pode ser cumulado e a montanha de perfeições clama por abater-se e encher tudo que é indigência e pobreza. Caríssimos, que dita a nossa, que nada temos, possuir um Pai que tudo tem e quer enriquecer-nos! Se nos fez infinitamente indigentes é porque se reserva a alegria de suprir, Ele próprio, a nossa miséria. Além de eu ser um nada em relação ao bem, sou um nada pecador.

Caríssimos, não há verdade mais certa do que esta: Deus é nosso Pai, e o que há de mais terno e de mais suave em toda a paternidade da terra, não é senão uma ínfima sombra da doçura sem limites e da afeição de sua paternidade no céu. "A beleza e consolação de tal ideia, diz o Padre Faber, excedem quaisquer palavras. Ela destrói a impressão de isolamento neste mundo e dá uma nova cor ao castigo e à aflição. Da própria sensação de fraqueza, tira consolação;  habilita-nos a confiar a Deus problemas que não fomos capazes de resolver, e nos une por um sentimento do mais caro parentesco a todos os nossos co-irmãos. Penetra em todas as nossas ações espirituais e delas torna-se o pensamento principal. Na penitência, recordamo-la; nos sacramentos, provamo-la; na conquista da perfeição, nela nos apoiamos; nas tentações, nos alimentamos dela; nos sofrimentos, gozamo-la. Deus é nosso Pai nos acontecimentos diários da vida, protegendo-nos contra mil males que poderemos sentir, respondendo à orações, abençoando os que amamos, e sobretudo na paciência para conosco, paciência premeditada e incansável até um grau que a nós mesmos parece quase incrível".

Deus não se contenta com cumular-nos de benefícios. Como o melhor dos pais, dá-nos sobretudo, o seu santo amor. Cada benefício de Deus vem saturado de ternura e dedicação a nós. Este amor ensina-nos a sermos gratos a Deus e a entregarmo-nos a Ele sem reserva. Tal é a bondade a bondade de Nosso Pai do Céu,  que, dando-nos os seus benefícios e o seu amor, ainda nos recompensa, se nós aceitarmos reconhecidos, as suas larguezas. Deus abençoa-nos por não termos recusado a ajuda da sua divina mão e, na eternidade, encher-nos-á de felicidade e de glória por nos termos resolvido a aproveitar-nos da sua generosidade.

Caríssimos, agora vamos meditar um pouco no clímax do amor do Nosso Pai do Céu. Sabemos que os homens abusaram de sua liberdade, um dos mais belos dons que Deus lhes concedeu; transgrediram a lei divina que Deus lhes ditara com tanto cuidado. Mas, essas prevaricações só serviram para salientar a santidade e o amor de Nosso Pai do Céu. O mundo não conhece mais a virtude, o mundo se corrompeu; Deus mandará então o seu muito amado Filho para tirá-lo do pecado e dar-lhe os exemplos de santidade de que tanto carece. Eis o duplo fim da Encarnação, e nada nos revela melhor a infinita santidade de Deus e o seu amor aos seus filhos. Deus deu o seu Filho ao mundo e deu-O para ser imolado. Caríssimos, lembremo-nos da vida de sofrimentos do Homem-Deus, das privações que padeceu, de suas pregações, de suas instruções, de suas exortações, em uma palavra, de todas as obras de sua vida e, acima de tudo, das dores tremendas, indescritíveis de sua Paixão. E amor do Pai do Céu, foi mais longe: quis que seu Filho fundasse a sua Igreja, para continuar a obra de santificação que havia realizado. Quis vê-la continuada. Assim a Santa Madre Igreja a conservará até ao fim dos séculos apesar de todos os esforços em contrário do inferno; por ela, continuará o pregar o afastamento do mal, a inspirar o horror ao pecado, e levar as almas à prática da virtude.  A Santa Igreja dispõe de mil meios para preservação e santificação das almas. Entre eles temos sobretudo os sacramentos. Tudo foi para que seus filhos fossem santos. Para tanto, tornou-se realmente o Emanuel, o Deus conosco, o Pai junto aos filhos até a consumação dos séculos: instituiu o adorável Sacramento da Eucaristia, que é também Sacrifício, a Santa Missa.  O próprio Filho de Deus feito Homem quis ser alimento de seus débeis filhos!

A justiça divina pune o mal e recompensa o bem, porque está dentro da lei que o mal seja castigado e o bem recompensado, e também porque o castigo afasta do pecado, enquanto a recompensa anima a virtude. Com Jesus, n'Ele e por Ele, tornou-se fácil satisfazermos à dívida que contraímos com os nossos pecados. A mais trivial e insignificante obra, por ex. um copo d'água, mas dado por amor a Jesus, terá um grande galardão no Céu. Tudo que for feito na graça de Deus com espírito sobrenatural, com reta intenção de agradar a Jesus, é contado por Nosso Pai do Céu, e aumenta a graça aqui, e depois a glória no Paraíso, por toda eternidade.


Caríssimos, com razão dizia o grande Apóstolo São Paulo: "A caridade de Cristo me obriga". Obriga-me a amá-Lo e por amor a Ele a amar as almas pelas quais Ele morreu na Cruz. Amém!.