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domingo, 6 de novembro de 2016

LUTERO E JUSTIFICAÇÃO

   NOVIDADE DE DOUTRINA.


  O pastor protestante se gloriava de que o Protestantismo é a única religião do mundo a admitir a salvação só pela fé. É o que diz também Lutero: afirma que a sua teoria da justificação pela fé é o ponto "único pelo qual nós nos distinguimos, pelo qual nossa religião se distingue de qualquer outra religião" (Exegetica Opera XXXIII, p. 140).

Condenado pelo Papa Leão X pelos constantes ataques
contra a Igreja, Lutero demonstra de público sua
desobediência, queimando perante a
multidão, em Wittenberg  (10-XII-1520),
a bula papal "Exsurge Domine" e alguns livros de Direito
Canônico. Por estes atos, em janeiro de 1521 Lutero foi
excomungado e, logo depois, condenado por heresia
pela Dieta de Worms. 
   Realmente, o Protestantismo só apareceu no século XVI. E até aquele século, ninguém se tinha lembrado ainda de interpretar a Escritura de semelhante modo. Porque é tão clara na Bíblia a existência da lei de Cristo, na qual se inclui a obrigatoriedade dos mandamentos, a Bíblia fala tantas vezes na necessidade do amor de Deus e da caridade para com o próximo para conquistar o Céu, a Bíblia insiste tanto em que Deus há de retribuir a cada um SEGUNDO AS SUAS OBRAS, que, até então, em toda a história do Cristianismo, não se tinha podido conceber semelhante absurdo de que o homem se salva só pela fé. Absurdo, sim, porque é tão lógico e tão razoável que o homem, sendo livre nas suas ações, venha a conquistar o prêmio do Céu, entre outras coisas, pela sua reta maneira de proceder, que era preciso que aparecesse um homem que, embora dizendo-se seguidor de Cristo, negasse o livre arbítrio, a liberdade humana, para que se pudesse pregar semelhante doutrina. Este homem apareceu e se chamou Martinho Lutero.

   Deixando de lado certos aspectos nada edificantes da vida deste célebre heresiarca, achamos utilíssimo, para fazermos uma ideia do que vale realmente a teoria da salvação só pela fé, estudar o modo como Lutero chegou a fazer esta "grande descoberta". Mas esta novidade de doutrina já nos deixa com uma pulga na orelha. Não parece estranho que Jesus Cristo tivesse fundado uma Igreja, feito propagar o seu Evangelho para ensinar aos homens o caminho do Céu, e por 15 séculos tivesse deixado a Humanidade às tontas, Ele que vela sobre os homens e principalmente sobre a Igreja pela sua Divina Providência e só no século XVI fizesse aparecer esse Martinho Lutero para ensinar "a verdadeira doutrina da salvação"?

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


  " Dirão, porém, os protestantes:

   - Não nos revoltamos contra os católicos, quando dizem que o homem não pode salvar-se sem obedecer aos mandamentos de Cristo, que o são também de Deus. Não concordamos é com o dizerem que a salvação DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS. Ora, isto é o mesmo que dizer que nós nos salvamos a nós mesmos, quando nosso Único Salvador é Jesus Cristo.

   - Dizemos [nós católicos] que a salvação depende das nossas obras. E onde está o erro ou a heresia desta afirmação? Não estamos afirmando com isto que ela depende SOMENTE de nossas obras, mas sim que ela depende TAMBÉM de nossas obras. Sabemos muito bem que sem a graça de Cristo não nos podemos salvar, mas a graça de Cristo não nos salva sem a nossa cooperação. A salvação depende de uma coisa e de outra.

   Toda a repugnância de Vocês [protestantes] em aceitar esta ideia baseava-se principalmente naqueles dois textos de São Paulo: O homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28) e no outro da Epístola aos Efésios: Pela graça é que sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós, porque é um dom de Deus, não vem das nossas obras (Efésios II-8 e 9). Já explicamos convenientemente estes textos (capítulo 6º e nº 133). Desde que Vocês agora sabem que o primeiro exprime apenas que para nos salvar, não estamos mais obrigados a obedecer à lei de Moisés, como estavam os judeus antes de Cristo; e o segundo, que a graça da conversão ao Cristianismo, que foi a chave da salvação, não foi concedida por causa da obras que tivessem sido feitas anteriormente a ela, não há mais motivo para tanta repugnância a esta proposição: A SALVAÇÃO DEPENDE TAMBÉM DAS NOSSAS OBRAS. 

   Quando um homem perguntou a Nosso Senhor o que devia fazer para obter a vida eterna, que foi que o Senhor lhe respondeu? Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). Eis aí claramente a salvação DEPENDENDO DAS OBRAS. 

   Quando Nosso Senhor diz: Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo, PORQUE TIVE FOME E DESTES-ME DE COMER etc, etc. Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... PORQUE tive fome e não me destes de comer etc, etc. (Mateus XXV- 34 e 35, 41 e 42) que está dizendo Nosso Senhor, senão que a salvação ou a condenação DEPENDEM da nossa caridade ou falta de caridade?

   Quando Nosso Senhor diz: Pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado (Mateus XII-37), que nos está dizendo, senão que tenhamos cuidado com as nossas palavras, porque do nosso modo de falar DEPENDE a nossa salvação ou a nossa condenação?

   Não nos podemos salvar sem o perdão, a misericórdia, a benignidade de Deus. Quando Nosso Senhor diz: Perdoai e sereis perdoados (Lucas VI-37), bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia (Mateus V-7), não julgueis e não sereis julgados (Lucas VI-37, que nos está ensinando senão que do nosso perdão e benignidade para com o próximo DEPENDE a misericórdia com que o Senhor nos há de julgar?

   É a própria Bíblia, Palavra de Deus Eterna e Infalível, portanto, a nos ensinar que a salvação TAMBÉM DEPENDE DAS NOSSAS OBRAS".
(Do livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro).
 

 (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS


   "Quanto à expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO, pode ser errônea ou pode ser admissível, de acordo com o sentido em que seja ela empregada. Se dizemos que o homem salva a si mesmo, no sentido de que ele o faz sozinho, por seu próprio esforço e boa vontade, independentemente da graça de Deus, que Cristo nos mereceu na cruz, seria um erro já desde o começo condenado pela Igreja: o pelagianismo.

   Mas o próprio Protestantismo reconhece que existe, na nossa salvação, a parte de Deus e a nossa. Temos que cooperar com a graça, sem isto não nos salvamos, pois Cristo não nos salva violentando a nossa liberdade, nós cooperamos livremente. Se cooperamos com a graça, estamos salvando a nós mesmos. Se não cooperamos, é a nós mesmos que estamos condenando, a condenação será por nossa culpa.

   Mas o protestante só se convence , se ler na Bíblia empregada esta expressão: SALVAR-SE O HOMEM A SI MESMO. Neste caso leia o trecho da 1ª Epístola de São Paulo a Timóteo: OLHA POR TI e pela instrução dos outros, PERSEVERA nestas coisas, porque, fazendo isto, TE SALVARÁS tanto A TI MESMO, como aos que ouvem (1ª Timóteo IV-16).

   É inútil querer iludir os mais rudes, apelando para o texto grego, porque aí é o verbo sôzo, o mesmo verbo grego que São Paulo emprega, quando diz que Jesus pode SALVAR perpetuamente aqueles que por Ele mesmo se chegam a Deus (Hebreus VII-25, que se lê nas palavras do Anjo, quando anunciou a Maria, referindo-se a Jesus: Ele SALVARÁ o seu povo dos pecados deles (Mateus I-21) ou, se não quisermos sair desta mesma 1ª Epístola a Timóteo, é o mesmo que o Apóstolo das Gentes empregou no 1º capítulo: Jesus Cristo veio a este mundo para SALVAR os pecadores, dos quais o primeiro sou eu (1º Timóteo I-15). É o verbo empregado frequentemente no Novo Testamento para exprimir a salvação eterna.

   Se quisermos outro exemplo do mesmo Apóstolo São Paulo, vejamos este: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com receio e com tremor (Filipenses II-12). Ferreira de Almeida diz, num português mais moderno: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com temor e tremor (Filipenses II-12).

   Outra vez dizemos: Não adianta querer impressionar os incautos com despropositadas alusões ao texto grego, porque na frase OBRAI a vossa salvação, o verbo OBRAR corresponde no verbo grego: KATERGÁZOMAI.

   Vejamos o dicionário de Bally: KATERGÁZOMAI = executar, cumprir, acabar, procurar para si, obter, elaborar, trabalhar.

   Ainda mesmo que se quisesse escolher a significação ACABAR, não se alteraria o sentido: cabe-nos ACABAR a obra que Deus começou, mas que Ele não quer realizar sem nós. O fato de São Paulo referir-se logo em seguida à ação de Deus na salvação de nossa alma: Deus é o que obra em vós o querer e o perfazer, segundo o seu beneplácito (Filipenses II-13) não exclui a nossa parte no obter a salvação, exprime apenas que nada podemos querer, nada podemos fazer sem o auxílio, a moção de Deus, a nossa ação é entrelaçada com a ação divina."
(Do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

   (Continua no próximo post). 

A SALVAÇÃO DEPENDE DAS OBRAS



   "Nas seguintes frases: eu não aprovo o que FAÇO (Romanos VII-15) o querer o bem eu o acho em mim, mas não acho o meio de o FAZER perfeitamente (Romanos VII-18) a ira do homem não CUMPRE a justiça de Deus (Tiago I-20) o que aqui é para nós duma tribulação momentânea e ligeira, PRODUZ em nós... um peso eterno de glória (Coríntios IV-17), os verbos FAZER, CUMPRIR e PRODUZIR correspondem no grego ao mesmo verbo KATERGÁZOMAI. 

   Os dois textos, em que vemos expressa na Bíblia a ideia de que Jesus é o ÚNICO SALVADOR,  não excluem absolutamente a outra ideia de que, uma vez recebidos de Cristo os meios INDISPENSÁVEIS para a salvação e suposto que sem Cristo a salvação não pode ser realizada, o homem, como criatura livre que é, tenha, por sua vez, que salvar-se a si mesmo.

   Para usarmos uma comparação: o náufrago que só encontrou UM HOMEM capaz de lhe fornecer embarcação e bússola e mantimentos, tem neste homem o seu único Salvador, embora precise salvar-se a si mesmo, guiando a embarcação para chegar em terra.

   Um dos textos é o dos Atos: Não há salvação em nenhum outro, PORQUE do céu abaixo NENHUM OUTRO NOME FOI DADO aos homens PELO QUAL nós devamos ser salvos (Atos IV-12). O homem que foi batizado em nome de Jesus, que recebeu o perdão de seus pecados em nome de Jesus, e que em nome de Jesus vai recebendo a graça, isto é, em virtude dos merecimentos infinitos de Redentor, uma vez que o Batismo, o perdão dos pecados e a graça são necessários para a salvação, é claro que é em nome de Jesus que está sendo salvo. Mas isto não impede que ele, para salvar-se, TENHA QUE CUMPRIR com os mandamentos (e os cumpre livremente, portanto, tem que salvar-se a si mesmo) e só os pode cumprir, ajudado pela graça de Jesus. Até mesmo, portanto, quando está cooperando com a graça, a sua salvação está sendo realizada com Jesus, por meio de Jesus, e, portanto, em nome de Jesus e não em seu próprio nome.

   O segundo texto é o de São Paulo a Timóteo: SÓ HÁ UM MEDIADOR entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem (1ª Timóteo II-5). Dizendo que o homem salva a si mesmo, neste sentido de que tem que cooperar livremente com a graça NAS SUAS AÇÕES, NO SEU MODO DE PROCEDER, não se está negando absolutamente que Jesus Cristo foi o Único Mediador que reconciliou os homens com Deus e que nos alcançou a graça, sem a qual ninguém pode salvar-se." 

(Do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

domingo, 18 de setembro de 2016

AS OBRAS


 A FÉ SEM AS OBRAS É MORTA.

   A necessidade das nossas obras para a salvação é tão lógica e tão evidente, que os próprios protestantes tiveram que retroceder neste ponto. A doutrina de salvação só pela fé, que pregaram os Primeiros Reformadores, era tão perigosa e subversiva, que para cristãos logo se mostrou insustentável. Aquilo já não era Cristianismo, era a confiança cega de que Jesus tudo perdoa conduzindo logicamente o homem ao mais desenfreado materialismo.

   Quando viram os protestantes a devastação tremenda que essas Ideias produziam no seio do povo, com a propaganda do desprezo pelas boas obras como meio para obter a salvação, perceberam claramente que não era possível prosseguir com tais ensinos.

   Mas toda a sua tática tem consistido em recuar até à doutrina católica nesta matéria, mas recuar conservando mais ou menos a mesma linguagem que usavam antigamente, recuar sem querer que se perceba que estão recuando.

   Já vimos que a antiga fórmula: SÓ A FÉ é necessária para a salvação foi substituída pela outra: SÓ A FÉ E O ARREPENDIMENTO são necessários para a salvação. 

   Entrando neste terreno, exigindo agora o arrependimento como indispensável para a conquista da vida eterna, entraram na doutrina católica da necessidade das obras para a salvação. Já tivemos ocasião de demonstrá-lo [anteriormente].

   Quaisquer fórmulas que inventem dentro deste novo sistema, por mais manhosas que elas sejam, mostram desde logo, depois de um pouco de reflexão, que são fórmulas católicas disfarçadas com a máscara de protestantes: Exigir ARREPENDIMENTO é exigir as OBRAS para a salvação: não há para onde correr.

   Vejamos, por exemplo, este modo de argumentar:

   - Os católicos afirmam que o homem se salva pela FÉ COM AS OBRAS, ajudado pela GRAÇA DE DEUS. Nós, protestantes, achamos que esta doutrina está errada. O que salva o homem é só a fé, e não as obras. O que acontece é que a fé é manifestada pelas OBRAS. Aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ. Portanto, é só a fé que salva.

   - Ouçam, caros amigos. Dois indivíduos estavam discutindo: um deles possuía um automóvel e garantia que o seu carro podia andar sem gasolina. O outro apostava que não. Mas acontece que, aproveitando um descuido de seu antagonista, o primeiro colocou a gasolina no seu automóvel e o fez andar. Ganhou a aposta? Provou que tinha razão? Absolutamente não; porque o outro, como é natural, podia muito bem proceder à verificação no automóvel e, certificando-se de que este agora estava COM GASOLINA, podia muito bem desmascarar o seu opositor. 

   É o que se dá entre nós.

   Como começou o Protestantismo? Afirmando que a FÉ salva sem as obras e dizendo que esta fé consiste apenas em ACEITAR A JESUS COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL. É a confiança de que Jesus nos salva, isto independentemente de obras, de arrependimento da nossa parte.

   Já fizemos a refutação desta doutrina. Mostramos com muitos textos da Bíblia, que esta noção de fé não é exata, que fé é ACREDITAR nas verdades eternas, ACREDITAR na palavra de Deus. Fizemos ver que esta fé é o PONTO DE PARTIDA para a salvação, porque a aceitação da doutrina de Jesus inclui necessariamente a aceitação de SUA MORAL, o reconhecimento dos DEVERES impostos por Cristo e que, portanto, a fé que salva é a fé coerente, a fé que não entra em contradição com as obras, a fé que não está morta, mas OPERA PELA CARIDADE (Gálatas V-6), sendo a caridade o amor de Deus sobre todas as coisas e amor ao próximo como a nós mesmos. Mostramos que se trata de uma promessa de vida eterna, e se Deus promete o Céu àquele que tem fé, é esta mesma fé que o leva a aceitar na própria Bíblia AS CONDIÇÕES em que esta promessa será cumprida (nº 80 a 84): sem praticar a virtude, sem observar os mandamentos, sem receber os sacramentos que Cristo instituiu para nossa salvação, esta não pode ser alcançada.

   Em todo este sistema de argumentação, estamos considerando a FÉ como uma virtude especial, distinta das demais virtudes, como distinta das nossas obras, do nosso modo de proceder. Acaso estávamos errados em considerá-la assim? Não é a própria Bíblia que distingue a fé das outras virtudes, quando nos diz: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes; porém a maior delas é a caridade (1ª Coríntios XIII-13)? Não é a própria Bíblia que nos diz que também os demônios CREEM (Tiago II-19)?

   É, portanto, neste sentido, considerando a fé como uma virtude distinta das outras, que nós dizemos que a fé sozinha não pode salvar, ela não salva sem as obras, as quais também são necessárias; e dizemos isto, apoiados no ensino claríssimo da Bíblia: Não vedes como PELAS OBRAS É JUSTIFICADO O HOMEM, E NÃO PELA FÉ SOMENTE? (Tiago II-24). Aqui não há meio de subterfúgio: São Tiago não diz que o homem é salvo pela fé, mas esta fé só se pode conhecer nas obras etc, etc. como Vocês estão dizendo; mas que o homem é salvo PELAS OBRAS, e não somente pela fé. 

   Ora, que acontece com quem quer discutir e argumentar COM CLAREZA E COM LEALDADE, porque quer realmente defender a VERDADE ou chegar ao conhecimento dela? Quem é sincero na argumentação procura, antes de tudo, explicar, de modo que não deixe margem para nenhuma dúvida, em que sentido está tomando as palavras que emprega na sua exposição. A questão é sobre A FÉ, não é assim? A obrigação de quem vai sustentar uma tese sobre a fé, é dizer bem claramente o que é que entende por esta palavra FÉ.

   Ora, quando perguntamos a Vocês o que é que entendem por FÉ, Vocês recorrem àquele velho conceito dos primeiros tempos do Protestantismo: FÉ É ACEITAR A JESUS CRISTO COMO NOSSO ÚNICO E SUFICIENTE SALVADOR, COMO NOSSO SALVADOR PESSOAL.

   Agora perguntamos: a fé tomada neste sentido ESTÁ INCLUINDO A OBEDIÊNCIA À LEI DE DEUS? ESTÁ INCLUINDO AS BOAS OBRAS, OS ATOS DAS DEMAIS VIRTUDES?

   Não, não está. A fé aí está reduzida apenas à confiança que tenho em que Jesus me salva.

   Esta definição não exclui o pecado. A prova é que de acordo com esta noção de fé os Primeiros Reformadores ensinavam que o pecador se salva SEM ARREPENDIMENTO. "Sê pecador e peca fortemente, mas confia e rejubila-te mais fortemente ainda no Cristo vencedor do pecado, da morte e do mundo", dizia Lutero na sua carta a Melanchton, em 1521, este mesmo Lutero que dizia que " a contrição que se prepara pelo exame e recapitulação e detestação dos pecados, pelos quais alguém relembra os seus anos na amargura de sua alma, ponderando a gravidade, multidão e fealdade dos pecados, a perda da eterna felicidade e aquisição da condenação eterna, ESTA CONTRIÇÃO FAZ HIPÓCRITA O HOMEM E ATÉ MAIS PECADOR" (Lutero. Edição Weimar VII-13).

   Esta definição de maneira alguma supõe que a fé se manifesta pelas obras. Pois, em que sentido se toma aí a expressão: Jesus é o nosso Único e Suficiente Salvador? Não no sentido de que o resgate foi feito por Jesus e só Ele o podia fazer, e o fez da maneira mais completa e satisfatória para nos alcançar e merecer a graça. Mas é empregada maliciosamente no sentido de que, tendo Cristo feito tudo por nós, o homem não precisa fazer mais nada; não lhe resta, portanto, salvar-se a si mesmo pela prática da virtude, pois só Cristo é quem nos salva sem a nossa cooperação. Ou, em outros termos, a cooperação do homem consiste apenas em CONFIAR. Confiando, a salvação lhe é dada de graça.

   Seria, por conseguinte, um contra-senso, uma verdadeira contradição, que o homem, afim de DEMONSTRAR que Cristo é o seu Único e Suficiente Salvador, neste mau sentido da expressão, tivesse agora que esforçar-se, obedecendo à lei divina, praticando atos de virtude etc. Assim estaria procurando salvar-se a si mesmo, para demonstrar que não se salva a si mesmo, que Jesus é o seu Único e Suficiente Salvador.

   Agora acontece que, enquanto Vocês protestantes, continuam a sustentar esta mesma definição - Crer é aceitar a Jesus como nosso Único e Suficiente Salvador, como nosso Salvador Pessoal - quando a gente menos espera, surgem Vocês mesmos dizendo que a fé se manifesta pelas OBRAS, que aquele que peca, que não ama a Deus, que não faz o bem que devia fazer está mostrando que NÃO TEM FÉ.

   Isto quer dizer que de repente passaram a tomar a palavra FÉ noutro sentido bem diferente. Fazem como o homem que às escondidas meteu a gasolina no automóvel.

   Bem, fé neste sentido de que todo aquele que peca está mostrando que não tem fé, quer dizer ADESÃO TOTAL A CRISTO, COM A INTEIRA OBEDIÊNCIA A TUDO QUANTO CRISTO ENSINOU. É não só na nossa mente, mas também no nosso modo de agir, a aceitação de Cristo, não só como Salvador, mas também como  nosso Mestre, nosso Legislador e como o Rei que domina toda a nossa vida.

   Se é neste sentido que Vocês querem tomar a palavra FÉ, então nós, católicos, não temos nenhum receio ou dúvida em dizer que BASTA A FÉ para a salvação, porque NÃO BRIGAMOS POR MERAS QUESTÕES DE PALAVRAS; o que nos interessa são as realidades da vida cristã. Mas há uma coisa: aí já não se trata de FÉ SEM AS OBRAS, trata-se de FÉ COM AS OBRAS, porque as obras já estão incluídas neste conceito de fé. Trata-se de fé COM A OBEDIÊNCIA DOS MANDAMENTOS DE CRISTO.

   Fica, sempre, de pé que a fé sem as obras não salva, porque a fé sem as obras é morta (Tiago II-26). 


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

DONDE VEM A FÉ?



   Mas dirão os protestantes:

   - O Sr. está enganado. Há, de fato, divergências entre nós. Mas não negamos que se deve CRER em tudo o que Jesus ensinou e a prova é que vivemos a citar as palavras da Bíblia. Apenas ensinamos que a fé que salva não é mera credulidade. Não é um ato da inteligência, porque, se fosse assim, seriam os sábios, seriam os mais inteligentes que mais poderiam ter fé. A fé que salva é aquela que parte do âmago do nosso coração. É a CONFIANÇA em Nosso Salvador Jesus Cristo e no seu Sacrifício Redentor.

   - Eis aí precisamente o erro de Vocês. Querem salientar, como condição para nos salvarmos, o papel da CONFIANÇA que é apenas uma consequência da nossa FÉ, no sentido de CRENÇA, e procuram obscurecer, relegar para um plano secundário o valor desta mesma CRENÇA. Por isto Vocês se esforçam por desfigurá-la primeiro, para poder desprezá-la.

   Quem lhes disse que a nossa CRENÇA em Jesus Cristo, na Bíblia e nos seus ensinos é MERA CREDULIDADE? Credulidade é acreditar numa coisa sem o mínimo fundamento, é dar alguém crédito a uma afirmativa, por ingenuidade, por ser tolo demais. A nossa CRENÇA em Deus, em Jesus, no seu Evangelho não é desta natureza, e sim baseada nos mais sólidos argumentos capazes de convencer a razão mais exigente. Crer na veracidade dos Evangelhos não é mera credulidade, é crer num fato que nos é provado com todo o rigor de uma demonstração histórica.

   Daí, porém, não se segue que a fé seja um ato puramente da inteligência: tanto pode ter uma FÉ PROFUNDA o mais sábio, o mais erudito dos teólogos, com o mais rude camponês. E são precisamente os simples, os rudes e os pequeninos que se mostram mais esclarecidos na FÉ, do que os sabichões, do que os intelectuais, o que não impede que estes possam ter também a sua crença: Graças te dou, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as REVELASTE AOS PEQUENINOS. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado (Lucas X-21).

   Não é pelo simples fato de se empregar, por vezes, uma palavra mais difícil, de se chamar a FÉ= CRENÇA no conceito dos católicos com o nome de FÉ INTELECTUAL, e a FÉ= CONFIANÇA no conceito dos protestantes com o nome de FÉ FIDUCIAL,  que a CRENÇA se torna um ato só para intelectuais.

   A fé é um ato da inteligência que ACREDITA na palavra de Deus, sendo movida pela VONTADE que se dispõe a crer, e ajudada desde o início pela GRAÇA DIVINA. 

   Se ela também procede da vontade, é porque tem as suas raízes profundas no coração humano.

   Diante de textos como este: O que crê no Filho tem a vida eterna (João III-36) e alguns outros, os protestantes ainda poderão teimar, querendo fazer prevalecer a sua hipótese sem fundamento, de que aí não se trata de CRENÇA e sim de uma cega CONFIANÇA.

   Mas nada melhor para compreender um texto da Escritura do que compará-lo com outro.

   E podemos apresentar-lhes um texto que não só prova que a fé que encaminha o homem para a salvação é a CRENÇA (sendo, portanto, a confiança já uma consequência desta crença, pois da fé nasce a esperança), mas também que esta crença procede do coração humano, onde tem as suas raízes: Se confessares com a tua boca ao Senhor Jesu e CRERES NO TEU CORAÇÃO que Deus O ressuscitou dentre os mortos, SERÁS SALVO. Porque COM O CORAÇÃO SE CRÊ para alcançar a justiça; mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação (Romanos X-9 e 10).

   Primeiro que tudo, ninguém pode daí deduzir que basta crer que Jesus ressuscitou dentre os mortos para só por isto ser salvo. Neste caso cairia também toda a doutrina, tanto católica, como protestante, de que é preciso crer que Jesus é o nosso Salvador. Mas é este o sistema da Bíblia: ensina-nos a verdade parceladamente, pedacinho por pedacinho. São Paulo não vai aí nesta simples frase expor minuciosamente todos os artigos de fé; seria escrever um livro e não uma frase. Apresentar dez ou vinte artigos, mas no final das contas, não apresentá-los todos, seria pior ainda do que apresentar um só. Por isto tomou como exemplo a Ressurreição, que é um ponto básico para a DEMONSTRAÇÃO de todas as outras verdades da fé: Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé (1ª Coríntios XV-17). São Paulo, é claro, não podia fazer uma redução naquilo que devemos crer, quando o mesmo Cristo que disse aos Apóstolos, no dia em que os enviou a pregar: Ide, pois, e ensinai todas as gentes... ensinando-as a observar TODAS AS COISAS  que vos tenho mandado (Mateus XXVIII-19 e 20), disse-lhes também: Pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado (Marcos XVI-15 e 16).

   Esclarecido isto, para que os protestantes não queiram tirar dai conclusões absurdas, como FAZEM MUITOS, o que se deduz claramente da frase é que a fé salvadora é a crença, e a crença nasce no nosso coração.

   Também aos discípulos de Emaús que não ACREDITAVAM que Cristo havia ressuscitado, Nosso Senhor lhes diz: Ó estultos e TARDOS DE CORAÇÃO para CRER tudo o que anunciaram os profetas! (Lucas XXIV-25). Tratava-se de DAR CRÉDITO às profecias e ficar certos da ressurreição do Mestre; mas o coração deles era duro e ronceiro demais para chegarem até a convicção de que Jesus havia de fato ressuscitado.

   E a prova de que a fé se processa na inteligência, mas nasce do coração, nós a temos nos judeus do tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo: mesmo depois de tantos milagres, depois da própria ressurreição do Mestre, NÃO ACREDITARAM. É que o seu coração estava endurecido e cheio de maldade.

   Não faltam hereges nos dias de hoje que, apesar de se dizerem cristãos, ainda mesmo que tivessem presenciado, se fora possível, todos os milagres de Lourdes e Fátima, verificados desde o princípio até os nossos dias, mesmo assim NÃO ACREDITARIAM na Igreja Católica, tal é o ódio, a má vontade, a obstinação, a teimosia que anda lá pelo seu coração. 

   O que é fato, portanto, é que o ponto de partida para a salvação é o ato pelo qual o homem se dispõe, com a graça de Deus a ACREDITAR tudo o que o Divino Mestre ensinou e que Ele depois encarregou a sua Igreja de transmitir a todos os povos. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

JUSTIFICAÇÃO E GRAÇA NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS



    Também à PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O ESTADO DE GRAÇA SANTIFICANTE se refere São Paulo no seguinte trecho: Ao que obra, não se lhe conta o jornal por graça, mas por dívida, mas ao que não obra e crê n'Aquele que JUSTIFICA O ÍMPIO, a sua fé lhe é imputada a justiça, segundo o decreto da graça de Deus. Como também Davi declara a bem-aventurança do homem a quem Deus atribui justiça sem obras: Bem-aventurados aqueles CUJAS INIQUIDADES FORAM PERDOADAS e cujos pecados têm sido cobertos (Romanos IV-4 a 7). São Paulo se refere à justificação do ímpio, ou seja, ao momento em que o homem ímpio passa a tornar-se um justo diante de Deus. Isto não é conquistado pela suas obras, mas por UM DECRETO DA GRAÇA DE DEUS. Exigem-se, apenas, algumas disposições da alma que São Paulo resume na palavra FÉ, porque a fé é a base, é o ponto de partida para aquelas disposições preparatórias. É claro, por exemplo, que Deus não vai perdoar o pecador que não está contrito e arrependido, mas este arrependimento já deve nascer da fé; o arrependimento que não nascesse da fé, que fosse baseado nalgum motivo natural e humano e não sobrenatural (p. ex. o ímpio se arrepende apenas porque perdeu a saúde, o dinheiro ou a liberdade) não seria suficiente para a justificação. 

   - Mas, podem objetar os protestantes, São Paulo aí não fala nem no Batismo que, segundo os católicos, é necessário para receber a graça santificante pela primeira vez, nem na Confissão Sacramental que, conforme o ensino da Igreja, é necessário para recuperar a graça santificante que já se perdeu. Fala somente na fé.

   - É fácil explicar porque São Paulo aí não fala no Batismo, nem na Confissão. São Paulo aí está falando no homem, seja ele qual for e em qualquer época, em que ele viva. A prova é que acabara de falar em Abraão, que foi justificado quando não havia Confissão, nem Batismo; mais ainda, foi justificado antes que Deus ordenasse a circuncisão (Romanos IV-10) e daí tira São Paulo um argumento contra os judaizantes, os quais pensavam que para haver justificação tinha que haver necessariamente a circuncisão, não sabiam separar uma da outra. 

   Já foi abolida a circuncisão outrora prescrita por Deus; agora em seu lugar Cristo prescreve o Batismo. Aquele que conhece a doutrina de Cristo, a fé o impele a receber o Batismo (João III-5) se ainda não o recebeu, ou a receber a absolvição sacramental, porque também assim estabeleceu Cristo (João XX-23). E a própria Igreja ensina que os pagãos que nenhum conhecimento têm da Religião Cristã podem justificar-se sem o Batismo e sem a Confissão Sacramental, pois tudo isto neles pode ser suprido pelo ato de caridade perfeita; e este ato de puro amor a Deus ou de caridade perfeita tem que nascer da fé: Sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus e que é remunerador dos que O buscam (Hebreus XI-6). A fé é sempre o PRIMEIRO PASSO para o homem que cometeu pecados ( e é o assunto de que trata São Paulo: JUSTIFICAÇÃO DO ÍMPIO) se aproximar de Deus e conseguir a regeneração.

   Falando sobre o homem, em geral seja ele qual for, desde Adão até o último homem que existir sobre a terra e não só sobre os homens que existem agora depois de Cristo haver pregado a sua doutrina (e por isto cita o que já no seu tempo dizia o Profeta Davi), ele não podia falar no Batismo, nem na Confissão, Apresenta uma fórmula geral: a fé. A fé ditará a cada um aquilo que é necessário fazer para alcançar a justificação. (Extraído do livro "Legítima Interpretação da Bíblia", autor: Lúcio Navarro). 

   Continua no próximo post.

Justificação e Graça na Epístola aos Romanos

   Dadas estas explicações (no post anterior), vamos agora apresentar o exemplo de um homem a quem Deus atribuiu JUSTIÇA SEM OBRAS, a quem Deus concedeu a justificação, não como quem paga um salário por dívida, mas por um decreto da sua graça em vista da fé n'Aquele que justifica o ímpio, tal qual como descreveu São Paulo.
   Este foi o bom ladrão que morreu juntamente com Cristo no Calvário. Era um criminoso, seu passado tinha sido deplorável. Mas a graça divina toca o seu coração. Ele é iluminado pela fé: apesar de ver Cristo tão humilhado no suplício da cruz, n'Ele enxerga o Rei Divino, cujo reino não é deste mundo. Da fé nasce a esperança de alcançar a sua complacência: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino (Lucas XXIII-42). Da fé nasce a caridade, o amor a Cristo pelo qual defende o Divino Mestre contra as blasfêmias do seu companheiro, não temendo proclamar abertamente, perante os algozes, a inocência do Salvador, quando os próprios Apóstolos não tiveram coragem de vir assim proclamá-la, da fé nasce o reconhecimento de seus erros, o arrependimento sincero de todos os seus crimes: Nem ainda tu temes a Deus, estando no mesmo suplício? E nós outros o estamos na verdade justamente, porque recebemos o castigo que merecem as nossas obras; mas este nenhum mal fez (Lucas XXIII-40 e 41). Diante de tais disposições que havia no coração de um homem que tinha sido um ímpio, Cristo não indagou quais eram as suas boas obras passadas para lhe dar a justificação, Cristo não lhe disse que só se tornaria justo se praticasse tais e tais obras, tornou-o um justo imediatamente, fê-lo de um pecador um santo: Em verdade te digo que hoje serás comigo no paraíso (Lucas XXIII-43). 

   Que se conclui daí? Simplesmente que a graça santificante não nos é dada como prêmio das obras, mas como benefício de Deus, embora se exijam certas disposições para recebê-las: "Nós somos justificados gratuitamente neste sentido de que nada do que precede a justificação, nem a fé nem as obras, podem merecer a graça da justificação" (Concílio de Trento VI-8).

   Uma vez justificado, uma vez tornado um justo, o bom ladrão, se queria ir para o Céu tinha que evitar o pecado mortal, observar a lei divina; aliás o seu arrependimento, para ser sincero, teve que incluir a intenção de nunca mais roubar, de levar outra vida, de proceder como um verdadeiro discípulo de Cristo, se por acaso o livrassem daquele suplício e ele tivesse ainda mais uns dias, ou meses, ou anos de vida. A intenção das obras estava, portanto, incluída no seu arrependimento. 

   Mais ainda: Ele teve, pelo menos, três horas de vida, pois quando o Mestre tão bondosamente lhe perdoou, era, então, quase a hora sexta (Lucas XXIII-44). À hora nona, Cristo ainda estava falando (Marcos XV-34). Ora, Cristo foi dos três crucificados o primeiro a exalar o último suspiro: Vieram, pois, os soldados e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com Ele fora crucificado. Tendo vindo depois a Jesus, como viram que estava já morto, não Lhe quebraram as pernas (João XIX-32 e 33). Pelo menos durante três horas, o bom ladrão, ajudado pela graça, perseverou nas suas boas disposições, aceitando com resignação as suas dores, por ele mesmo consideradas bem merecidas; isto influiu na sua salvação porque, se depois de justificado por Cristo, caísse no desespero, não poderia salvar-se. Foi precisamente prevendo na sua ciência infinita que, uma vez recebido o perdão e tornado um justo, ele passaria a agir como um justo, que Cristo lhe disse: Hoje serás comigo no paraíso (Lucas XXIII-43).

   Nós, católicos, vemos algumas vezes estes casos especialíssimos da misericórdia divina em que um pecador se arrepende e se converte nos últimos momentos. Deus lhe dá a graça santificante e, como não há mais tempo para que este pecador tornado justo Lhe mostre sua submissão pela observância da lei de Cristo e pelas boas obras, Deus se contenta com a intenção, em que está, de praticar os mandamentos e fazer o bem, pois Deus não é como nós que só vemos as obras, Ele conhece perfeitamente os mais profundos segredos dos corações.

   Mas tirar daí a conclusão de que as nossas obras são inúteis para a salvação seria um grande absurdo. Bem como seria a maior das loucuras querer deixar o arrependimento para o instante final, porque muitos morrem repentinamente, sem ter tempo para arrepender-se e mesmo porque sendo o arrependimento uma graça de Deus, arrisca-se quase infalivelmente a não recebê-la, quem por malícia e cobardia, só por livrar-se de servir a Deus durante a sua vida, pretendesse deixar a conversão para os momentos finais da existência. Como diz um piedoso autor, a Escritura só fala de um caso de conversão na hora da morte, o do bom ladrão: fala de um, para jamais cairmos no desespero; fala de um só para não nos iludirmos, caindo na temeridade. Porque a regra geral, com muitos poucas exceções, é esta: Talis vita, finis ita. Assim como é a vida do homem, assim é também o seu fim.

domingo, 11 de setembro de 2016

JUSTIFICAÇÃO E GRAÇA NA EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS



   Sobre a PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O DE GRAÇA SANTIFICANTE fala também um versículo da Epístola aos Efésios, muito citado pelos protestantes. É a ressurreição espiritual dos que estavam mortos pelo pecado.
   Vejamos as palavras de São Paulo, referindo-se a Cristo: Ele é quem vos deu a VIDA, quando vós estáveis MORTOS PELOS VOSSOS DELITOS E PECADOS, em que noutro tempo andastes segundo o costume deste mundo, segundo o príncipe das potestades deste ar, o príncipe daqueles espíritos que agora exercitam o seu poder sobre os filhos da infidelidade, entre os quais vivemos também TODOS NÓS em outro tempo SEGUNDO OS DESEJOS DA NOSSA CARNE, FAZENDO A VONTADE DA CARNE E DOS SEUS PENSAMENTOS, E ÉRAMOS POR NATUREZA FILHOS DA IRA, como também os outros (Efésios II- 1 a 3).

   Tendo descrito o estado deplorável em que se encontravam antes da conversão os Efésios, a quem escreve, São Paulo mostra que DESTA DEPRAVAÇÃO, DESTE HORRENDO E MISERÁVEL ESTADO DE PECADO agora eles ESTÃO SALVOS (pois este é o sentido da palavra SALVOS empregada pelo Apóstolo, conforme já provamos no nº 88) e passa a frisar que esta transformação foi realizada pela graça mediante a fé, pois iluminados pela fé que os arrancou das trevas do paganismo, vieram depois a alcançar a graça santificante. Esta transformação não veio como prêmio ou consequência DAS OBRAS, pois, antes de se converterem, que faziam eles? Obras más, como faziam os outros. Não foi porque tivessem realizado melhores obras do que os não convertidos, que eles se converteram. Não veio deles, pois A VOCAÇÃO PARA A FÉ é um DOM DE DEUS. 

   Assim não podem gloriar-se de sua superioridade moral sobre os gentios, porque sua conversão da gentilidade, para o Cristianismo, sua passagem da vida de pecado para o estado de graça foi uma dádiva, um benefício de Deus.

   Ninguém pode gloriar-se de suas virtudes, pois a virtude não é possível sem a graça, e a graça não é dada em prêmio das obras: a graça é dada "de graça": Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela sua extremada caridade com que nos amou, ainda QUANDO ESTÁVAMOS MORTOS PELOS PECADOS, nos DEU VIDA juntamente EM CRISTO (POR CUJA GRAÇA SOIS SALVOS)  e com Ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos Céus com Jesus Cristo, para mostrar nos séculos futuros as abundantes riquezas da sua graça, pela sua bondade sobre nós outros em Jesus Cristo. Porque PELA GRAÇA é que SOIS SALVOS, MEDIANTE A FÉ, e isto não vem de vós, porque é UM DOM DE DEUS; não vem das nossas obras, para que ninguém se glorie (Efésios II-4 a 9).

   Uma vez recebida a graça santificante, a alma que estava morta pelo pecado torna-se uma NOVA CRIATURA,  uma criação de Deus, criação maravilhosa, superior a toda criação material, agora pode produzir frutos para a vida eterna, pois foi sobrenaturalmente criada, justamente para isto, para caminhar pela estrada das boas obras. E, assim termina São Paulo: Porque somos FEITURA DELE MESMO, CRIADOS em Jesus Cristo, para BOAS OBRAS que Deus preparou, para caminharmos nelas (Efésios II-10).

   Deus prepara as boas obras, pois Ele pela sua Providência é quem encaminha os nossos passos: se nos faz viver em tal época e em tal localidade, conviver com estas e aquelas pessoas, das quais uma necessita de nossa ajuda material, outra nos rouba o sossego, outra nos faz um benefício etc, Deus assim nos vai oferecendo ocasião para a esmola, para a paciência, para a gratidão. Deus prepara as nossas obras também oferecendo-nos sempre o auxílio de sua graça, sem a qual não podemos praticá-las. Mas daí não se segue absolutamente que sejam obras exclusivas de Deus: uma vez que somos livres, e está no nosso poder fazer o mal ou fazer o bem, Deus prepara as boas obras afim de nelas caminharmos LIVREMENTE para o Céu. O Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então dará a cada um a PAGA segundo as suas OBRAS (Mateus XVI-2). Todos os que se acham nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que OBRARAM BEM sairão para a ressurreição da vida; mas os que OBRARAM MAL sairão ressuscitados para a condenação (João V-28 e 29).

sábado, 10 de setembro de 2016

JUSTIFICAÇÃO E GRAÇA NA EPÍSTOLA A TITO



   Outra confusão bem semelhante é a que fazem os protestantes com o trecho da Epístola a tito, capítulo 3º, versículos 3 a 8. São Paulo fala aí evidentemente na PASSAGEM DO ESTADO DE PECADO PARA O DE GRAÇA SANTIFICANTE e diz que esta transição não foi merecida pelas obras, foi efeito da misericórdia de Deus. E daí concluem os protestantes que a salvação, a passagem desta vida para o Céu não depende das nossas obras, o que é muito diferente.
   Vejamos as palavras do Apóstolo.

   Primeiramente ele descreve a corrupção a que estavam sujeitos os cristãos antes de se converterem ao Cristianismo. Estavam num deplorável ESTADO DE PECADO: Também nós algum tempo éramos insensatos, incrédulos, metidos no erro, escravos de várias paixões e deleites, vivendo em malícia e em inveja, dignos de ódio, aborrecendo-nos uns aos outros (Tito III-3).

   Ora, o Evangelho estava sendo pregado havia pouco tempo. Inúmeros daqueles cristãos ouviram a pregação do Evangelho, quando já tinham mais de 7 anos, e foram batizados como adultos. Assim foi o Batismo que neles realizou esta passagem do estado de corrupção em que se encontravam para o estado de graça santificante, pois, como dissemos, o Batismo apaga o pecado original e perdoa todos os pecados cometidos antes de se receber este Sacramento, desde que haja as disposições necessárias. Esta graça do Batismo não foi merecida pelas obras de cada um, pois, se estavam no estado de pecado, não podiam MERECER  a graça de Deus, como já explicamos. É a esta transformação gratuita, por pura bondade de Deus, e não pelas obras, a transformação de pagãos em cristãos, de pecadores em criaturas justificadas pela graça que São Paulo se refere: Mas quando apareceu a bondade do Salvador nosso Deus e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça QUE TIVÉSSEMOS FEITO nós outros, mas segundo a sua misericórdia, NOS SALVOU PELO BATISMO DE REGENERAÇÃO E RENOVAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO, O QUAL Ele difundiu sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, sejamos herdeiros segundo a esperança da vida eterna (Tito III-4 a 7).

   É interessante notar que o Apóstolo não diz - herdeiros com a certeza da vida eterna - mas - herdeiros segundo a ESPERANÇA da vida eterna, para no versículo seguinte exortar às BOAS OBRAS: Esta é uma verdade infalível e quero que isto afirmes, para que procurem avantajar-se, em BOAS OBRAS os que crêem em Deus (Tito III-8).

   Está evidente, portanto, que aquele NÃO POR OBRAS DE JUSTIÇA QUE TIVÉSSEMOS FEITO, se refere a obras de justiça que tivessem feito os cristãos quando se encontravam em estado de pecado, e isto está de acordo com a nossa doutrina católica: estas obras feitas no estado de pecado, não têm MERECIMENTO para os bens da vida eterna, não vogam para a salvação, pois só vogam as obras feitas no estado de graça santificante.

OBSERVAÇÃO: Todos os artigos até agora publicados e os que a seguir ainda serão publicados aqui  sobre a JUSTIFICAÇÃO são "ipsis litteris" extraídos do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

VERDADEIRA ARGUMENTAÇÃO DE SÃO PAULO



   A interpretação protestante que quer ver neste texto - o homem é justificado pela fé sem as obras da lei - uma prova de que as nossas obras, a observância dos mandamentos não contribuem para a justificação do homem, está completamente em desacordo com a argumentação apresentada por São Paulo. São Paulo apresenta a fé em Cristo, a Religião de Cristo, como remédio contra o pecado. Para prová-lo, deplora aqueles crimes cometidos pelos pagãos, principalmente a idolatria que é contra o 1º mandamento, os pecados de impureza que são contra o 6º, os homicídios que são contra o 5º, a desobediência aos pais que é contra o 4º São Paulo, o que mais deplora nos judeus é a falta de obediência ao 7º, ao 6º e ao 1º mandamento: Tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, e cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras (Romanos II-21 e 22). E se destes crimes cometidos pelos gentios e pelos judeus, tira a conclusão de que eles não estão justificados diante de Deus, o que se segue daí é que a observância dos 10 mandamentos é necessária para a justificação do homem. Se ele apresenta, portanto, a fé em Cristo como realizadora da justificação do homem, é claro que não está dispensando o homem de observar estes mandamentos para viver como um justo diante de Deus; está mostrando a fé em Cristo como o caminho para melhor observá-los. O remédio para a depravação não seria de forma alguma Deus desobrigar o homem da prática dos 10 mandamentos; isto seria levá-lo a uma depravação ainda maior, a saber: antigamente se fazia o mal, desobedecendo a Deus; agora se faria o mal, sem medo algum de desagradar-lhe, porque Ele, dando-se por vencido, teria desistido de exigir do homem a prática do bem, exigindo somente a fé, e não mais a observância do Decálogo, como meio para obter-se a salvação. Não seria um remédio para o pecado; seria piorar horrivelmente a situação moral do mundo.

   A fé em Cristo é o remédio para o pecado, porque, embora Cristo exija a observância dos 10 mandamentos com maior perfeição do que antigamente (Sede vós, logo, perfeitos, como também vosso Pai Celestial é perfeito - Mateus V, 48), Ele nos orienta admiravelmente para a verdadeira santificação, ensinando-nos a não confiar nas nossas próprias forças e a implorar continuamente o auxílio da sua graça (Sem mim não podeis fazer nada - João XV-5); Ele, cheio de graça, de cuja plenitude todos nós recebemos, nos veio distribuir esta vida da graça mais abundantemente: Eu vim para elas terem vida, a para a terem em maior abundância (João X-10).

   É neste sentido que o homem é justificado, que a Humanidade toma o caminho da justiça, da santificação, pela fé em Cristo e sem as obras da lei, isto é, sem mais obrigação daquelas cerimônias e prescrições do Antigo Testamento, que serviram apenas de preparação para a justiça cristã que nos foi trazida pelo Evangelho.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

UM PARÊNTESIS PARA ENTENDER ARGUMENTAÇÃO DE S. PAULO



   Para bem entendermos a argumentação de São Paulo, precisamos fazer um confronto entre o pensamento paulino e a mentalidade dos judeus. Estes estavam muito envaidecidos, julgando-se superiores aos gentios por causa da LEI, que lhes fora dada por Deus e também muito confiados em suas próprias forças para a prática da virtude. Mas não sabiam estes judeus de uma coisa muito importante: é que a lei nada adianta como remédio do pecado, se Deus não der a sua graça, sem a qual não é possível observá-la. A lei é na verdade, santa; e o mandamento é santo, e justo, e bom (Romanos VII-12), porque é a expressão da vontade de Deus. Mas a lei, por si só, não resolve o problema do homem, porque o que a lei nos traz é o conhecimento do que é pecado e do que não é: Pela lei é que vem o conhecimento do pecado (Romanos III-20); se a lei que foi dada pudesse VIVIFICAR,  a justiça, na verdade, seria pela lei (Gálatas III-21). O problema do homem não é somente saber o que é pecado e o que não é, o seu maior problema é este: quem o vivificará na luta contra o mal? quem lhe dará  forças para viver santamente, para evitar o pecado? Quem lhe dá forças para isto é a graça de Deus. A lei é espiritual, mas eu sou carnal (Romanos VII-14). Eu me deleito na lei de Deus, segundo o homem interior; mas sinto nos meus membros outra lei que repugna à lei do meu espírito e que me faz cativo na lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz homem eu, quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor (Romanos VII-22 a 25).

   A graça de Deus, tinham-na os judeus e os gentios e tinham suficiente para a salvação, pois Deus quer que todos os homens se salvem (1ª Timóteo II-4). E não sabiam eles que esta graça que Deus lhes concedia era graça de Cristo (veja-se Atos XV-10 e 11), que Deus lhes dava por antecipação, em virtude dos futuros merecimentos do Salvador.

   Mas, apesar de ter sido oferecida a todos esta graça, apesar de terem podido, com o auxílio desta graça, os gentios observar a lei natural, e os judeus, a lei mosaica; na realidade estiveram muitíssimo longe de observá-las como deviam. E a conclusão natural disto é que sejam substituídas a lei natural e a lei mosaica, que pela ingratidão e malícia dos homens vieram a dar num grande fracasso, sejam substituídas pela fé em Cristo, pela Religião de Cristo, que nos vem trazer a graça em muito maior abundância: Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Romanos V-20). De forma que, segundo os desígnios altíssimos de Deus, a lei mosaica serviu para mostrar aos homens a necessidade imensa em que o mundo se achava de receber a Cristo, a sua doutrina e a sua graça. E é neste sentido que diz São Paulo: A lei nos serviu de PEDAGOGO que nos conduziu a Cristo, para sermos justificados pela fé. Mas depois que veio a fé, já não estamos debaixo do pedagogo (Gálatas III-24 e 25). 

REATANDO O FIO DA ARGUMENTAÇÃO



   Fechando o parêntesis, voltamos à argumentação feita nos 3 primeiros capítulos da Epístola aos Romanos. São Paulo quer demonstrar como não é mais suficiente nem a lei natural, nem a lei mosaica, uma vez que tanto sob o regime de uma como de outra, os homens pecaram da maneira mais desastrosa. Já mostrou, no 1º capítulo, como os gentios, que estavam sob a lei natural, caíram nos mais abomináveis pecados. 

   No capítulo 2º chega a vez dos judeus. Estão eles muito orgulhosos de sua lei, falando com bastante desprezo a respeito dos gentios que são pecadores, e no entanto, são eles, judeus, pecadores da mesma forma: Assim diz o 1º versículo: És inescusável tu, ó homem qualquer que julgas; porque no mesmo em julgas a outro, a ti mesmo te condenas, porque fazes essas mesmas coisas que julgas (Romanos II-1).

   São Paulo se baseia neste princípio de que, seja qual for a lei sob a qual o homem se encontre, ou lei natural, ou lei mosaica, ou lei de Cristo, o que é fato é que não são justos diante de Deus aqueles que ouvem a lei, ou que leem as palavras da lei, mas os que cumprem o que a lei manda: Não são justos diante de Deus os que ouvem a lei mas os que fazem o que manda a lei, serão justificados (Romanos II-113), porque Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras (Romanos II-6) e não há para com Deus acepção de pessoas (Romanos II-11). Basta este princípio estabelecido por São Paulo para nos mostrar que erram os protestantes atribuindo ao Apóstolo a doutrina de que o homem se justifica pela fé somente.

   Estabelecido o princípio de que são justos os que cumprem a lei, não os que a ouvem, São Paulo tira a conclusão de que os judeus já não são justos, nem agradáveis a Deus, estão fora do caminho da salvação. Ele fala ao judeu de seu tempo: Se tu que tens o sobrenome de judeu e repousas sobra a lei, e te glorias em Deus, e sabes a sua vontade, e distingues o que é mais proveitoso, instruído pela lei, tu mesmo que presumes ser o guia dos cegos, o farol daqueles que estão em trevas, o doutor dos ignorantes, o mestre das crianças, que tens a regra da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que a outro ensinas, não te ensinas a ti mesmo; tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, o cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras; tu que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei (Romanos II-17 a 224). 


   Depois de mostrar o fracasso de ambos os lados, da parte dos gentios e dos judeus, depois de resolver uma objeção sobre as vantagens da circuncisão até aquele tempo, São Paulo vai enfeixar, no capítulo 3º, o seu argumento: Já que temos provado que judeus e gentios estão todos debaixo do pecado, assim como está escrito: Não há, pois, nenhum justo; não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis, não há quem faça bem, nem sequer um. A garganta deles é um sepulcro aberto; com as suas línguas fabricaram enganos; um veneno de áspides se encobre debaixo dos lábios deles, cuja boca está cheia de maldição e de amargura; os pés deles são velozes para derramar sangue. A dor e a infelicidade se acha nos caminhos deles, e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante dos olhos deles (Romanos III-9 a 18).

   Alguns protestantes de hoje ainda não compreendem este texto, porque se mostram apegados ao erro de Lutero, o qual aí enxergava a prova de que a natureza do homem está depravada completamente pelo pecado, de tal modo que não possa haver nenhum homem justo. Aí não se diz que não pode haver justos na terra, mas sim que o mundo tinha degenerado de tal forma, que os justos praticamente haviam desaparecido, nos tempos que antecederam a vinda de Cristo. Não há nenhum - explica Santo Tomás que é um modo de falar por hipérbole, figura pela qual se procura exagerar para encarecer. Desta figura usamos frequentemente dizendo - não vejo nada - quando o que vemos é muito pouca coisa. Uma hipérbole usou São João quando disse: Muitas outras coisas, porém, há ainda que fez Jesus; as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que NEM NO MUNDO TODO PODERIAM CABER os livros que delas se houvessem de escrever (João XXI-25) e os judeus, quando disseram a respeito de Jesus: eis aí vai após ele todo o mundo (João XII-19); todo o mundo, isto é, muita gente. 

   Que podem existir justos na terra, que havia um ou outro naquele tempo, isto se mostra em outros textos da Escritura: E José, seu esposo, como era JUSTO... (Mateus I-19). Para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre JUSTOS e injustos (Mateus V-45). Eu não vim a chamar os JUSTOS, mas os pecadores (Mateus IX-13). O que recebe um JUSTO na qualidade de justo receberá a recompensa de justo (Mateus X-41). Herodes temia a João, sabendo que ele era varão JUSTO e santo (Marcos VI-20). Haverá maior júbilo no céu sobre um pecador que fizer penitência que sobre noventa e nove JUSTOS que não hão de mister penitência (Lucas XV-7). Havia, então em Jerusalém um homem chamado Simeão; e este home JUSTO e timorato esperava a consolação de Israel (Lucas II-25). O centurião Cornélio, homem JUSTO e temente a Deus... (Atos X-22).

   O caso de Cornélio é típico: era um gentio, não era circuncidado, nem observava a lei de Moisés, ainda não conhecia a Religião de Cristo e já é chamado justo. O que mostra que São Paulo fala de um modo geral. Em regra geral os gentios e os judeus, ou seja, todos os homens, não eram justos diante de Deus, mas esta regra geral tinha exceções. No meio da depravação geral, alguns cooperavam com a graça de Deus e a Ele eram agradáveis. 

REATANDO O FIO DA ARGUMENTAÇÃO



   Falando de maneira geral, a Humanidade toda está, ao tempo em que fala o Apóstolo São Paulo, no caminho do vício e da depravação. Nestas circunstâncias todos pecaram e todos estão necessitando de um socorro, de uma intervenção especial de Deus, que redunde na glória divina: Todos pecaram e necessitam da glória de Deus (Romanos III-23). Se todos pecaram, se todos estavam naquele estado de corrupção e de miséria, a justificação, a reconciliação que Cristo operou na cruz, não foi merecida pelas obras dos homens, foi realizada gratuitamente por mera bondade divina: tendo sido justificados GRATUITAMENTE por sua graça, pela redenção que tem em Jesus Cristo (Romanos III-24). 

   E desde que pecaram demasiadamente, tanto os judeus como os gentios, é preciso que se estabeleça uma nova ordem de coisas; não se exige mais a obediência à lei mosaica, ela está morta, Deus quer que se abrace a Religião de Cristo, Deus impõe a fé em Jesus Cristo, sem distinção alguma entre gentios e judeus: Agora SEM A LEI se tem manifestado a justiça de Deus, testificada pela lei e pelos profetas, e a justiça de Deus é infundida pela fé de Jesus Cristo em todos e sobre todos os que creem n'Ele, porque NÃO HÁ NISTO DISTINÇÃO ALGUMA (Romanos III-21 e 22).

   E chegamos então ao texto apresentado pelos protestantes. Mas nada melhor do que fazê-lo acompanhar das palavras que o seguem, para perfeitamente conhecer-lhe o sentido: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé SEM AS OBRAS DA LEI. Porventura Deus só o É DOS JUDEUS? não no é Ele também dos gentios? Sim, por certo, Ele o é também dos gentios; porque na verdade não há senão um Deus que justifica pela fé os circuncidados e que também pela fé JUSTIFICA OS INCIRCUNCIDADOS (Romanos III-28 a 30).

   São Paulo fala aos Romanos, que podem vir a ser trabalhados pelo judaizantes (se é que já não o estão sendo) no sentido de se julgarem obrigados a cumprir a lei de Moisés para poderem salvar-se. Fala a cristãos novos que podem pela leitura da Bíblia, do Antigo Testamento, ficar com a ideia de que a circuncisão, a proibição de certas comidas, todas aquelas purificações e cerimônias ordenadas por Deus na Lei Antiga, ainda são obrigatórias. Faz-lhes ver então que em vista do estado geral do mundo, chegou agora o momento de Deus estabelecer um novo caminho para o homem se tornar um justo. A Lei Antiga vai desaparecer para dar lugar à fé em Cristo. Mas a fé em Cristo acarreta, é claro, a obrigação de obedecer à nova lei, à lei de Cristo, na qual se preceituam os 10 mandamentos até com maior rigor do que entre os judeus (em compensação estamos livres daquela escravidão de tantos preceitos, de tantas restrições, como estava os judeus na lei mosaica). A fé em Cristo conduz à recepção dos sacramentos que Cristo apontar como necessários à salvação. A fé em Cristo leva à obediência a todos os preceitos que por Cristo nos são impostos na doutrina do Evangelho. 

domingo, 28 de agosto de 2016

A ARGUMENTAÇÃO DE SÃO PAULO



   Mas voltemos ao nosso versículo: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28).

   Por esta palavra - CONCLUÍMOS - estamos logo vendo que São Paulo fez um argumento e chegou a uma conclusão.

  São Paulo, como é natural, quer mostrar a necessidade de se abraçar a Religião de Cristo. O seu argumento para chegar a tal conclusão é o seguinte:

   No tempo em que fala São Paulo, o mundo inteiro está completamente fora do bom caminho, do caminho da salvação. 

   Aqueles que viviam sob a LEI NATURAL caíram lamentavelmente nos erros mais deploráveis e nos mais horrendos pecados. É o que, depois de fazer as costumeiras saudações, demonstra o Apóstolo, do versículo 18º até o fim da capítulo 1º, descrevendo a depravação em que estavam mergulhados os gentios. 

   São Paulo acusa-os por causa da idolatria: mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança de figura de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes (Romanos I-23); adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito por todos os séculos (Romanos I-25). E depois de acusá-los de pecados vergonhosos que são, não só contra a castidade, mas também contra a natureza, os descreve como sujeitos a inúmeras perversões: cheios de toda a iniquidade, de malícia, de fornicação, de avareza, de maldade, cheios de inveja, de homicídios, de contendas, de engano, de malignidade, mexeriqueiros, murmuradores, aborrecidos de Deus, contumeliosos, soberbos, altivos, inventores de males, desobedientes a seus pais, insipientes, imodestos, sem benevolência, sem palavra, sem misericórdia, os quais tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem semelhantes coisas são dignos de morte; e não somente os que estas coisas fazem, senão também os que consentem aos que as fazem (Romanos I-29 a 32). 

   O capítulo 2º é endereçado aos judeus que estavam sob a LEI MOSAICA. Antes de estudá-lo, porém, precisamos abrir um parênteses. [É o que faremos no próximo post, se Deus quiser]. 

(Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).
   

domingo, 7 de agosto de 2016

UMA TRELA DE LUTERO

2º - NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS



   Passamos agora ao versículo da Epístola aos Romanos: 
   
   Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei (Romanos III-28). 

   Antes de fazermos o comentário sobre este versículo, queremos relembrar um pequeno episódio da vida de Lutero. Lutero fez a tradução da Bíblia para o alemão, aliás numa linguagem clássica e elegante, que exerceu profunda influência sobra a língua e literatura alemãs, pois ele era de fato um grande escritor. Mas, na sua tradução, esteve longe de mostrar-se consciencioso. Fez maliciosas alterações na Bíblia, levado pelo seu sectarismo. Os nomes com que o povo designava os sacerdotes católicos e as suas vestes, Lutero na Bíblia os aplicou aos sacerdotes idólatras. Usou no Antigo Testamento a palavra - Igreja - para designar os lugares em que se adoravam os ídolos, e no Novo Testamento substituiu a palavra Igreja, quando designava a Igreja de Cristo, pela palavra - comunidade.

   Onde a Bíblia traz a palavra JUSTO, ele tomou como norma substituí-la pela palavra PIO, explicando que PIO quer dizer que tem fé, isto para favorecer à sua teoria de que ninguém pode ser justo, apenas podemos ter uma justiça exteriormente imputada, atribuída a nós por Deus que nos considera justos, embora realmente não o sejamos. 

   Onde se lê: A lei obra ira (Romanos IV-15), ele acrescentou a palavra SOMENTE: A lei obra somente ira.

   Neste versículo de que ora tratamos, Lutero, para ajustá-lo à sua doutrina, acrescentou também a palavra SOMENTE e assim traduziu: Concluímos, pois, que o homem é justificado sem as obras da lei, SOMENTE pela fé. 

   Um católico reclamou contra o acréscimo desta palavra SOMENTE que não estava no texto. E Lutero assim respondeu numa carta dirigida a Link: "Se o nosso novo papista quiser importunar-nos por causa da palavra SOMENTE, responde-lhe logo: assim o quer o Doutor Martinho Lutero que diz: papista e burro são a mesma coisa. Assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão" (Weimar XXX 2 Abt 635).

   E a frase de Lutero: Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas - assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão - que aliás, já era tomada de um escritor pagão, ficou célebre para indicar que uma pessoa se obstina numa opinião ou numa atitude, mesmo sabendo que está errada, como se diz também em português: É de pau, porque eu quero; é de pau, e bem bonito; é de pau, e tenho dito. (Extraído do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

sábado, 6 de agosto de 2016

O PENSAMENTO PAULINO E A DOUTRINA CATÓLICA


   Finalmente vamos provar a identidade do pensamento de São Paulo com a doutrina da Igreja. Já mostramos, no capítulo 2º, que segundo a doutrina católica, para a nossa salvação, são necessárias três coisas: uma é a FÉ, pois quem não crer será condenado. Outra são as nossas OBRAS, pela GUARDA DOS MANDAMENTOS. Outra, por fim, é a GRAÇA DE DEUS, que tanto é necessária para termos fé, como também é necessária para se fazer qualquer obra boa meritória para a vida eterna, pois sem a graça de Cristo nada podemos fazer.

   Vejamos agora este trecho de São Paulo nesta Epístola aos Gálatas. Em Jesus Cristo nem a circuncisão, vale alguma coisa, nem o prepúcio; mas sim a FÉ que obra por caridade (Gálatas V-6). Sempre a mesma preocupação de mostrar que a circuncisão já não tem valor; o que tem valor é a fé, mas não a fé morta, a fé sem as obras e sim a fé que opera pela caridade.

   Vejamos agora mais este outro versículo desta mesma Epístola aos Gálatas: Em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão valem nada, mas o ser uma NOVA CRIATURA (Gálatas VI-15). São Paulo, que, no versículo há pouco citado, mostrou o valor da FÉ, mas a fé que opera pela caridade, agora mostra o valor da graça. A nova criatura de que ele fala é o homem revestido da graça, o homem elevado a uma grandeza sobrenatural e que assim foi objeto de uma nova criação espiritual feita por Deus. Esta graça nos vem pelos sacramentos, a começar pelo Batismo que produz em nós uma verdadeira renovação espiritual: Todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo (Gálatas III-27).

   Agora confrontemos estes dois versículos em que São Paulo nos diz que o que tem valor diante de Deus é a fé, o que tem valor diante de Deus é a graça, que faz do homem uma nova criatura, com este versículo também de São Paulo, na 1ª Epístola aos Coríntios: A circuncisão nada vale, e o prepúcio nada vale; senão A GUARDA DOS MANDAMENTOS (1ª Coríntios VII-19).

   Assim se completam, segundo o pensamento de São Paulo, os três elementos indispensáveis para a salvação, de acordo com a doutrina católica: a fé, a graça e a guarda dos mandamentos. 

   Isto não impede o próprio São Paulo de resumir o problema da nossa salvação numa só palavra: O homem é justificado pela fé em Cristo. A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GRAÇA que nos vem pelos sacramentos, pois a fé é aceitar toda a doutrina de Cristo e Cristo disse: Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus (João III-5). Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós (João VI-54). Cristo nos mostra como nos vem o perdão dos pecados: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos (João XX-23). 

   A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GUARDA DOS MANDAMENTOS, pois a fé é aceitar a doutrina de Cristo, e Cristo disse: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). (Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A LUTA CONTRA OS JUDAIZANTES NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   Continuando na sua obra dissolvente, os judaizantes procuram induzir os Gálatas à profissão de judaísmo. E como São Paulo se lhes opõe vivamente, eles procuram diminuir a autoridade do Apóstolo, fazendo ver que ele não era como os outros, não tinha convivido com o Mestre, e assim não tinha o mesmo valor que os outros Apóstolos.

   É contra eles que São Paulo escreve sua Epístola aos Gálatas a qual, do princípio ao fim, se refere a esta questão. Logo no primeiro versículo vai São Paulo defendendo a sua autoridade que os adversários procuram diminuir: Paulo Apóstolo, não pelos homens, nem por algum homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que O ressuscitou dentre os mortos (Gálatas I-1). E logo depois da saudação de costume, ele começa: Eu me espanto de que, deixando aquele que vos chamou à graça de Cristo, passáveis assim tão depressa a outro Evangelho; porque não há outro, se não é que há alguns que vos perturbam e querem transformar o Evangelho de Cristo. Mas ainda quando nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja anátema (Gálatas I-6 a 8). 

   Este Evangelho diferente, de que fala São Paulo, é a doutrina daqueles que queriam obrigar os cristãos convertidos dentre os gentios a serem circuncidados; e um dos argumentos de que usa para mostrar como estão errados, é o seguinte: Ele esteve conferindo a sua doutrina com os outros Apóstolos e levou consigo a Tito, mas nem Tito foi impelido a circundar-se: Comuniquei com eles o Evangelho que prego entre os gentios, e particularmente com aqueles que pareciam ser de maior consideração, por temor de não correr em vão, ou de haver corrido. Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi compelido a que SE CIRCUNCIDASSE (Gálatas II-2 e 3).

   Basta ler com atenção a Epístola para se ver como o que São Paulo está condenando aí não é a doutrina católica de que a observância dos mandamentos, ou seja, a caridade para com Deus e com o próximo, seja necessária para a salvação. Esta é também a doutrina de Jesus, como provamos n capítulo 4º, e, consequentemente, a doutrina de São Paulo.

   O que São Paulo condena é a heresia daqueles que, mesmo depois do que foi decidido pelos Apóstolos no Concílio de Jerusalém, ainda ensinam que para o homem ser um justo perante Deus, é necessária a observância daquelas cerimônias e prescrições da lei mosaica, a começar pela circuncisão.

   Vejamos estas passagens da nossa Epístola aos Gálatas: Olhai que eu, Paulo, vos digo que se vos fazeis CIRCUNCIDAR, Cristo vos não aproveitará nada. E de novo protesto a todo homem que se CIRCUNCIDA que está obrigado a guardar TODA A LEI. Vazios estais de Cristo os que vos justificais pela LEI: decaístes da graça (Gálatas V-2 a 4).

   Todos os que querem agradar na carne, estes vos obrigam a que vos CIRCUNCIDEIS, só por não padecerem eles a perseguição da cruz de Cristo. Porque estes mesmos que SE CIRCUNCIDAM não guardam a lei; mas querem que  vos CIRCUNCIDEIS, para se gloriarem na vossa carne (Gálatas VI- 12 e 13). 

   E a conclusão a que chega São Paulo é que agora na religião de Cristo não há mais nenhuma distinção entre os que são circuncidados e os que não são, entre os judeus e os gentios; Não há JUDEU NEM GREGO, não há servo, nem livre, não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Jesus Cristo (Gálatas III-28).

   São Paulo continua a considerar a prática dos 10 mandamentos como necessária à salvação, é o que se vê claramente na sua enumeração das obras da carne (Gálatas V-19 a 21) entre as quais ele inclui a impureza (pecado contra o 6º mandamento), a idolatria (contra o 1º), os homicídios (contra o 5º), as contendas, as invejas, as iras, as brigas que são contra a caridade para com o próximo, e finda dizendo: os que tais coisas cometem não possuirão o reino de Deus (Gálatas V-21). (Extraído do Livro "Legítima Interpretação da Bíblia", autor: Lúcio Navarro).



   

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

INCIDENTE ENTRE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

1º - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   São Pedro em Antioquia estava convivendo com os gentios, comendo de todos os alimentos que eles comiam, mesmo dos que tinham sido proibidos aos judeus, quando chegaram os judeus que tinham ido falar com São Tiago. Depois da chegada deles, São Pedro começou a retrair-se, a afastar-se dos gentios, temendo ofender aos que eram circuncidados (Gálatas II-12). No dilema em que se havia colocado, São Pedro achou que, tendo-se encarregado especialmente da pregação aos judeus, enquanto São Paulo o era da pregação entre os gentios, cabia-lhe em primeiro lugar evitar o desgosto da parte dos judeus. Não previu, porém, as consequências do seu retraimento. Sendo o chefe da Igreja, tendo tanta autoridade que o próprio Barnabé, apesar de companheiro de São Paulo, apesar de ser um dos campeões na luta contra os judaizantes (Atos XV-2), começou a seguir-lhe o exemplo, a sua atitude bem podia ser explorada pelos partidários da circuncisão obrigatória. São Paulo resolveu então adverti-lo do mal que estava fazendo com isto: eu lhe resisti em face, porque era repreensível (Gálatas II-11) e reclamar contra aquela simulação (Gálatas II-13). A verdade é que simulação maior do que esta fez o próprio São Paulo, entrando no templo de Jerusalém para submeter-se a uma purificação e apresentando-se como uma espécie de padrinho para os quatro nazarenos (Atos XXXI-26), o que, aliás, não deu resultado, porque os judeus findaram sempre revoltando-se contra ele; maior, porque a atitude de São Pedro foi apenas negativa; retraiu-se do convívio com os gentios. O que agravava a situação era a exploração que os judaizantes podiam fazer do caso, perigo este que foi previsto por São Paulo, antes que São Pedro o percebesse. 

   São Pedro recebeu humildemente a advertência de São Paulo, achou que ele tinha razão e encerrou-se o incidente. A respeito disto diz São Gregório Magno: "Calou-se Pedro, para que aquele que era o primeiro na culminância do apostolado, fosse também o primeiro na humildade" (Homilia 18 in Ezechielem). E Santo Agostinho assim comenta: "Pedro aceitou com santa e piedosa humildade a observação que utilmente lhe fizera Paulo, inspirado pela liberdade do amor, deixando assim aos pósteros o raro exemplo de não se dedignarem em ser corrigidos pelos inferiores, onde quer que se desviassem do reto caminho; exemplo mais raro e mais santo que o deixado por Paulo aos inferiores que, por defender a verdade evangélica, ousassem resistir confiadamente, salvando-se, porém, a verdade... Em Paulo louvemos a justa liberdade; em Pedro a santa humildade" (Epístola 19 ad Hieronymum).