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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

NO PURGATÓRIO

LEITURA ESPIRITUAL, dia 1



Por Mons. Ascânio Brandão


Quando levamos nossos mortos queridos à sepultura, costumamos dizer: descansaram!... Sim, descansaram das fadigas e lutas desta vida que é um combate no dizer expressivo de Jó: "militia est vita hominis super terram - a vida do homem neste mundo é um combate. Porém, descansaram já no seio de Deus? Estão já no eterno repouso no céu? Ai! é tão grande a fragilidade humana, que bem poucos, raríssimos, são os que deixam esta vida e entram logo no céu. Os mortos entram, sim, na paz do Senhor, mas na paz da justiça, geralmente na paz da expiação do purgatório. O purgatório é o lugar da paz. Lá habita a doce paz dos eleitos, dos que resignados e cheios de amor e de dor cumprem a sentença e se purificam à espera do céu. Já se chamou ao purgatório, e com razão, o vestíbulo do paraíso. É o pórtico da eternidade bem-aventurada
   Sim, nossos mortos descansaram, mas sofrem, e sofrem muito mais do que tudo quanto padeceram nesta vida.... Não digamos comodamente: estão no céu! estão no céu!. Com isto padecem as almas do purgatório. A Igreja, pelas lições impressionantes da sua liturgia quer que associemos ao pensamento da morte o da eternidade. E diz o prefácio da Missa dos defuntos: se a condição da nossa morte nos entristece, console-nos a promessa da imortalidade futura.
   E depois, quantas vezes gemendo sobre nós, clama: Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno! Dai-lhes o descanso eterno! Implora misericórdia para nossa pobre alma, lembra o juízo tremendo de Deus, e quer nos aliviar nas chamas expiadoras do purgatório. Nunca meditemos na morte sem meditarmos no purgatório. É este o sentido da liturgia nos funerais.
   Estas preces tocantes e belas, estes ritos impressionantes e cheios de majestade, lembram-nos a nossa dignidade de cristãos, a dignidade de nosso corpo, sacrário de uma alma imortal e templo do Espírito Santo, destinado a ressuscitar um dia e comparecer no tribunal do juízo. Lembram-nos a triste condição de uma pobre alma ao comparecer diante de Deus, e implora misericórdia ao Juiz dos vivos e dos mortos. Sim, não podemos, como cristãos e filhos da Igreja, separar o pensamento da morte do da eternidade. E como sabemos qual é a justiça de Deus, não deixaremos de considerar que após a morte, aí vem o purgatório para quase todos nós, e que lá na expiação, há muitas almas queridas pelas quais somos obrigados a orar por dever de justiça e de caridade. Eis, pois, repito, o sentido da meditação da morte e da liturgia dos mortos. Não é um pensamento de morte, não estão vendo? É ao invés um pensamento de vida. Vita mutatur non tollitur, diz o prefácio dos defuntos. A vida não foi tirada, nem desapareceu, mudou-se apenas. De terrena passou a ser eterna. Eis como o cristão pensa na morte.
   É certo, diz um autor, a ingratidão não pode existir no purgatório. Aquelas benditas almas hão de proteger e socorrer os que as aliviam nesta vida com seus sufrágios...
   São Filipe Neri era devotíssimo das almas e cheio de caridade, nunca deixou de socorrê-las em toda sua vida. Muitas vezes lhe apareceram para lhe testemunhar uma gratidão profunda. Depois da morte do santo, um dos seus confrades o viu na glória do céu, cercado de uma multidão de bem-aventurados no esplendor da glória eterna. - Que corte é esta que vos cerca? pergunta o padre. - São as almas que livrei do purgatório e que salvei. Vieram me acompanhar na glória. (...) Na morte e depois da morte, seremos recompensados pelo que tivermos feito em sufrágio da benditas almas do purgatório. (...) A pobre criatura humana tão miserável nem sempre ao deixar a terra, é bastante pura e santa e merece a presença do Senhor, a visão beatífica. E também como há de ser condenada às chamas eternas a alma que, embora não tivesse pago a dívida dos seus enormes pecados na penitência desta vida, não é, todavia, merecedora do castigo eterno? Há de entrar no Céu? Não. Lá só se encontram os santos e os puros de coração. E que pureza angélica requer a divina justiça para o céu! Há, então, de ser condenada ao inferno? Oh!, também, não. A misericórdia divina jamais o permitiria. Faltas veniais, imperfeições, falta de penitência dos pecados graves, tudo isto, é bem verdade, exige castigo e sem a penitência não se há de entrar no céu. Porém, a justiça e a misericórdia divina se uniram - Justitia et pax osculatae sunt. - O pecado será castigado, a dívida exigida pela justiça será paga até o último ceitil, mas a infinita misericórdia há de salvar a pobre alma culpada, há de lhe abrir um dia as portas do céu.
   Existe um purgatório! Não é consoladora e racional a doutrina da Igreja neste dogma?
   Sobre o Purgatório, há só dois pontos, perfeita e claramente definidos pela Igreja, e que, portanto, constituem objeto de nossa Fé: 1) - Existe um lugar de purificação temporária para as almas justificadas que saem desta vida sem completa penitência dos seus pecados. 2) Os sufrágios dos fiéis e especialmente o santo Sacrifício da Missa são úteis às almas.
   Já nos primeiros séculos, segundo o testemunho de Tertuliano e dos Santos Padres e os monumentos, os cristãos, sufragavam os mortos com orações, e pelo santo Sacrifício da Missa celebrado sobre as sepulturas. Nas inscrições, nos epitáfios se encontram nas catacumbas belas preces pelos mortos. No Século IV em 302, Santa Perpétua nos conta uma visão do Purgatório. Diz ela:
   "Estávamos em oração na prisão, depois da sentença que nos condenava a sermos expostas às feras, e de repente chamei por Demócrito. Era um meu irmão segundo a carne. Morrera com um câncer na face. A lembrança da sua triste sorte me afligia. Fiquei admirada de me ter vindo à lembrança este irmão e me pus a rezar por ele com todo fervor, gemendo diante de Deus. Na noite seguinte, tive uma visão na qual vi Demócrito sair de um lugar tenebroso no qual se acham muitas pessoas. Estava abatido e pálido, com a úlcera que o levou à sepultura. Tinha uma grande sede. Junto de mim estava uma bacia com água, mas ele em vão tentava beber e não conseguia. Conheci que meu irmão estava sofrendo e era preciso rezar por ele. Pedi por ele a noite com muitas lágrimas, para que fosse libertado. Alguns dias depois tive outra visão, na qual Demócrito me apareceu todo brando, brilhante e belo, e se inclinou e bebeu à vontade a água que antes não pôde tirar. Conheci por isto que estava livre do suplício".
   Eis um belo trecho que vem provar a antiguidade da crença do purgatório.
   Santo Agostinho reconhece a autenticidade das Atas de Santa Perpétua e nota que o irmãozinho da Santa deveria ter cometido alguma falta depois do batismo. (...).
   Vemos tantos entes queridos que deixaram esta vida, é verdade, em boas disposições, mas como eram culpados de certas faltas e não haviam feito uma penitência devida, receamos às vezes pela sua salvação. Todavia nos diz o coração que não podiam se perder. Eram bons, tinham qualidades apreciáveis, foram talvez caridosos e fizeram algum bem nesta vida. Admitir que esteja no céu depois de tantas faltas e defeitos e ausência de penitência, não o podemos. Dizer que estejam condenados, é muito duro, e, apesar de tudo, como poderiam ter se perdido almas tão caridosas e boas e que fizeram algum bem neste mundo? A ideia do purgatório se impõe necessariamente à nossa razão ou, antes, se impõe à nossa fé. (...).
   Havemos de chorar nossos mortos e a religião não nos pode proibir as lágrimas tão justas, quando sentimos nosso coração ferido pelo golpe duro da saudade. Todavia, havemos de chorar cristãmente nossos defuntos queridos. É mister lembrar-nos deles mais com orações e sufrágios do que com lágrimas estéreis. O pensamento do purgatório é um consolo. Sabemos que podemos ainda auxiliar, valer e socorrer nossos entes queridos. É bem possível que padeçam no purgatório.
   A Religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não proíbe que choremos os nossos mortos queridos. Podemos, pois, render a estes o tributo de nossas lágrimas e de nossa saudades. Com esta pobre natureza, como ficarmos insensíveis ante a morte de um ente estremecido? Como nos custa ver arrebatados pela morte os entes com quem convivemos, nosso pai, nossa mãe, nosso filho, nosso irmão, nosso amigo"... A religião, se bem que nos ensine a ser fortes na dor e a meditar  na Paixão de Jesus Cristo, não nos veda aquelas lágrimas e saudades. Ela não tem o estoicismo pagão, estúpido e anti-natural. Pois, Jesus não chorou na sepultura de Lázaro? Não choraram, na Paixão, Maria Madalena e as Santas mulheres? A religião nos permite chorar do mesmo modo os nossos mortos. Quer apenas que o façamos, não como os pagãos, desesperados e desiludidos, mas como quem tem esperança na vida eterna e crê na imortalidade. Choremos a separação dolorosa, mas com a doce esperança de que, um dia, numa pátria melhor, onde não haverá nem luto, nem dor, ou sofrimento de qualquer espécie, nem separação, tornaremos a ver todos aqueles que amamos aqui na terra. Como esta esperança consola! O cristão não deve dizer com desespero, ante o cadáver gelado de um ente querido: - "Nunca mais te verei" Adeus para sempre!" Não! Embora em pranto, suas palavras devem ser estas: - "Até ao céu! Lá nos tornaremos a ver e seremos para sempre felizes".
   O dogma do purgatório, tão em harmonia com nosso coração, nos diz que podemos ainda ajudar nossos mortos queridos para podermos dizer-lhes: até o céu!.
   Deus revelou muitas vezes à Bem-avemturada Ana Taigi a sorte das almas do purgatório. Ela pedia continuamente pelas pobres almas, num misterioso sol que sempre lhe aparecia. Foi Ana Taigi uma grande mística do século XIX. Em 30 de maio de 1920, S. S. Bento XV declarava bem-aventurada a humilde e pobre mãe de família, que durante tanto tempo chamou a admiração de Roma e do mundo com tantos prodígios sobrenaturais. A beata Ana Taigi, romana de nascimento, via os acontecimentos futuros e a sorte dos mortos.
   Um homem, conhecido de Ana, morreu, e ela o viu nas chamas do purgatório, salvo do inferno pela divina Misericórdia, porque socorreu um pobre que o importunava muito pedindo esmola. Viu um conde cuja vida se passou em delícias e divertimentos, mas que na hora da morte teve um grande arrependimento e se salvou, mas deveria sofrer no purgatório tormentos incríveis tanto tempo quanto passou neste mundo sem se preocupar com a penitência e com a salvação eterna.
  Viu homens de grande virtude sofrendo porque se deixaram levar pela vaidade e amor próprio, muito apegados aos elogios e à amizade dos grandes da terra.
   Um dia Nosso Senhor lhe disse: levanta-te e reza, meu Vigário na terra está na hora de vir me prestar contas. Ana Taigi sufragou a alma do Papa e depois o viu como um rubi ainda não de todo brilhante, pois, lhe faltava se purificar mais.
   Faleceu em Roma o cardeal Dória, que deixou grande fortuna, e naturalmente celebraram-se por sua alma centenas de Missas. Foi revelado à beata Ana Taigi que as missas celebradas por alma do cardeal eram aproveitadas para as almas dos pobrezinhos abandonados e que não tinham quem mandasse celebrar por eles.
   Via-se assim a divina Justiça que não olha a riqueza nem as possibilidades dos ricos em arranjar sufrágios, com descuido às vezes neste mundo da verdadeira penitência.
   Viu Ana no purgatório um sacerdote muito estimado por suas virtudes e sobretudo pelas brilhantes pregações que fazia e o tornavam admirado de todos. Sofria muito este pobre padre. Foi revelado à beata Ana que ele expiava a falta de procurar com muito empenho a fama de bom pregador e um pouco de vaidade ao pregar a palavra de Deus, sobretudo nas complacências com os elogios.
   Viu dois religiosos muito santos no purgatório, em sofrimentos duros. Um deles expiava o seu apego ao próprio juízo e pouca submissão ao modo de ver de outros, e outro a dissipação, a falta de recolhimento e piedade no exercício do ministério sacerdotal.
   Enfim, a beata Ana trouxe com a sua bela e impressionante mensagem do sobrenatural no século XIX, muitas luzes sobre o purgatório e impressionantes lições da Justiça de Deus, e também não há dúvida, da Misericórdia que salva tantas almas pelas chamas expiadoras do purgatório.
  

sábado, 28 de setembro de 2019

MÉTODO PARA ASSISTIR COM FRUTO À SANTA MISSA (Extraído de S. Leonardo de P. Maurício)

LEITURA ESPIRITUAL


INTRODUÇÃO

  Era opinião de S. João Crisóstomo( e também de S.Gregório) que, no momento em que o padre celebra a Missa, os céus se abrem, e multidões de anjos  descem do Paraíso para assistir ao Santo Sacrifício. S. Nilo, abade, discípulo do mesmo S. João Crisóstomo , afirmava que via, quando este santo doutor celebrava, uma grande multidão daqueles espíritos celestes assistindo os ministros sagrados em suas augustas funções...
   Entre os hebreus, enquanto se celebravam os sacrifícios da antiga Lei, nos quais se ofereciam apenas touros, cordeiros e outros animais, era coisa digna de admiração ver com quanto recolhimento, modéstia e silêncio o povo todo acompanhava. E, se bem que o número de assistentes fosse incalculável, além de setecentos ministros que sacrificavam, parecia, no entanto, que o templo estava vazio, pois não se ouvia o menor ruído. Ora, se havia tanto respeito e veneração por estes sacrifícios que, afinal, não eram mais que uma sombra e figura do nosso, que silêncio, que atenção, que devoção não merece a Santa Missa, na qual o próprio Cordeiro Imaculado, o Verbo de Deus feito homem, se imola por nós.
   Bem o compreendia Santo Ambrósio. Após o Evangelho ele virava-se para o povo e o exortava a um piedoso recolhimento e impunha a todos guardar o mais rigoroso silêncio, não só proibindo a menor palavra, mas ainda abstendo-se de ficar raspando goela ou fazer qualquer ruído.E era obedecido. Dizia Santo Agostinho que um santo fervor como que contagiava a todos. Quem quer que assistisse à missa do Santo Bispo, sentia-se tomado de profundo respeito e comovido até ao fundo da alma, tirando assim grande proveito e acréscimo de graças.
  Hoje, infelizmente, até os fiéis não compreendem o valor do silêncio!!! Creio que também é falta de fé.
   Primeiro método: É o das pessoas que, de livro à mão, seguem atentamente todas as ações do sacerdote, a cada uma recitam outra prece vocal que lêem no livro, e  assim passam todo o tempo da Missa a ler. Não há dúvida que, se a essa leitura se junta a meditação dos grandes mistérios, é uma excelente maneira de assistir ao santo Sacrifício, e produz também grandes frutos. 
   São Leonardo considera este método fatigante.

   Segundo método: É o das pessoas que não se servem de livros e não lêem absolutamente nada durante todo o tempo do santo Sacrifício , mas que, com viva fé, fixam os olhos da alma em Jesus crucificado, e, apoiados na árvore da cruz, dela recolhem os frutos por meio de doce contemplação. Passam todo o tempo em piedoso recolhimento interior e na consideração dos sagrados mistérios da Paixão de Jesus Cristo, que são não somente representados, mas misticamente reproduzidos no santo Sacrifício. É certo que estas pessoas, mantendo suas almas assim recolhidas em Deus, exercem atos heróicos de fé, de esperança e de caridade e de outras virtudes, e não há dúvida que esta maneira de assistir à Santa Missa é muito mais perfeita que a primeira, e também mais doce e mais suave, como atesta a experiência de um bom irmão converso. Costumava ele dizer que, ao ouvir a Missa, não lia mais que três letras: a primeira, negra, era a consideração de seus pecados que lhe produziam confusão e arrependimento, e ocupava-o desde o começo ao ofertório. A segunda letra era vermelha: a meditação da Paixão de Cristo, na qual considerava o precioso Sangue que Jesus derramou por nós no Calvário, sofrendo morte tão cruel; nisto se entretinha até à comunhão. A terceira letra era branca:. Enquanto o sacerdote,scomungava, ele se unia a Jesus pela comunhão espiritual, ficando em seguida todo absorto em Deus, contemplando a glória eterna que esperava como fruto do divino Sacrifício. (Ele fazia só a comunhão espiritual, porque naquela época não era permitida a comunhão quotidiana).Esse homem simples, continua S. Leonardo, ouvia a Missa com grande perfeição e quisera eu que todos aprendessem dele tão alta sabedoria.

MÉTODO DE SÃO LEONARDO (Resumo)
   Logo que a Missa começa, enquanto o padre se humilha ao pé do altar, dizendo o Confiteor, fazei também um pequeno exame, excitai em vosso coração um ato de contrição sincera, pedindo a Deus perdão de vossos pecados, e implorando o auxílio do Espírito Santo e da Santíssima Virgem Maria, a fim de ouvir essa Missa com todo o respeito e devoção possíveis. Em seguida, dividi em quatro partes o tempo da Missa, para, nestas quatro partes, vos desobrigardes dos quatro grandes deveres, que são os fins para os quais é celebrado o Santo Sacrifício da Missa.
   PRIMEIRA PARTE: Desde o começo até o Evangelho. Cumpris o primeiro dever de honrar e louvar a majestade de Deus, digno de receber honras e louvores infinitos.É o primeiro fim da Missa, chamado fim latrêutico: ADORAR.  Para isso humilhai-vos com Jesus, abaixando-vos na consideração de vosso nada,e confessai sinceramente que nada sois absolutamente diante da imensa Majestade Divina. Dizei-lho, humilhando-vos não só em vosso coração, como também exteriormente, pois importa assistir à Santa Missa com uma atitude recolhida e modesta. Continuai a fazer muitos atos interiores, comprazendo-vos de que Deus seja infinitamente honrado, e repeti muitas vezes: "Sim, meu Deus, regozijo-me da honra infinita que resulta deste santo Sacrifício, para vossa Majestade; felicito-me e regozijo-me quanto posso".
   Não vos preocupeis em observar à risca as palavras que vos indico, mas usai aquelas que vos inspirar vossa piedade, mantendo-vos recolhido e unido a Deus, Desde modo cumpris o primeiro dever para com Deus: ADORÁ-LO.

   SEGUNDA PARTE: Deste o Evangelho até á Elevação: Cumpris o segundo dever de pedir perdão dos pecados. Este é um outro fim da Missa, chamado propiciatório: PEDIR PERDÃO. Lançando um rápido olhar aos vossos pecados; e vendo a dívida imensa que por eles contraístes com a Justiça divina, dizei com o coração humilhado: "Meu Jesus Bem-Amado, dai-me as lágrimas de Pedro, a contrição de Madalena, e a dor daqueles pecadores que, depois de terem sido grandes pecadores, se tornaram verdadeiros penitentes, a fim de que, por esta Missa, eu obtenha o mais completo perdão de meus pecados. Repeti muito destes atos de profunda e sincera contrição. Dai livre curso a vossos sentimentos e, sem confusão de palavras, mas do fundo do coração. Fazendo estes muitos atos de contrição, todo recolhido em Deus,  ficai certo de que assim pagareis completamente todas as dívidas que, por vossos pecados, contraístes com Deus.

   TERCEIRA PARTE: Depois da elevação até à Comunhão: Cumpris o terceiro dever de agradecer a Deus as graças recebidas. É outro fim da Missa chamado eucarístico: AGRADECER. Considerai os imensos benefícios de que foste cumulado e, em troca, oferecei a Deus um presente de valor infinito: o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. Convidai mesmo todos os anjos e santos a render graças a Deus, por vós, da maneira seguinte: "Eis-me aqui, meu amado Senhor, cumulado de benefícios tanto gerais como particulares, que concedestes e quereis conceder-me no tempo e na eternidade. Reconheço que vossas misericórdias para comigo foram e são infinitas. Eis aqui, portanto, em reconhecimento e em paga, este sangue divino, este corpo sacratíssimo , que vos apresento pela mão do sacerdote. Ó queridos santos, meus advogados, agradecei por mim a Deus a sua bondade, não viva eu e morra como ingrato, Peço-vos, suplicai-lhe aceitar minha boa vontade e levar em conta o agradecimento cheio de amor, que, por esta missa, lhe oferece, por mim, o meu Jesus". Devemos repetir muitas vezes estes atos de ações de graça pelos benefícios recebidos da Bondade divina.

   QUATA PARTE: Depois da Comunhão até o fim da Missa: Cumpris o quarto dever que é o de pedir novas graças. É o fim da Santa Missa chamado impetratório: PEDIR GRAÇAS. Depois da comunhão sacramental do sacerdote e depois que comungardes também sacramentalmente, ou, senão for o caso, depois que fizerdes a comunhão espiritual, podeis e deveis pedir a Jesus novas graças. Contemplando a Deus nos íntimo de vosso coração, não receeis pedir-Lhe muitas graças, pois neste momento Jesus une-se todo a vós e Ele mesmo ora por vós. Expandi, portanto, vosso coração, pedindo, não coisas de somenos importância, mas grandes graças, já que tão grande é a oferenda que Lhe fazeis, o seu divino Filho. Dizei-Lhe então com o coração repleto de humildade:"Ó meu Deus, reconheço-me por demais indigno de vossos favores; Não mereço ser atendido. Como poderíeis, porém, deixar de escutar vosso divino Filho, que, sobre este altar, pede por mim, oferendo-Vos a sua vida e o seu sangue?"
   Pedi graças para vós, para as crianças, para vossos amigos, parentes e conhecidos; implorai socorro para todas as vossa necessidades espirituais e temporais, rogai para a santa Igreja a plenitude de todos os bens e o fim de todos os males. E não o façais com negligência, mas com grande confiança, seguros de que vossas orações, unidas às de Jesus, serão atendidas. Saí da Igreja com o coração compungido, como se descêsseis do Calvário.
   Dizei-me agora: se tivésseis ouvido deste modo todas as missas às quais assististes até ao presente, de quantos tesouros não teríeis enriquecido vossa alma!?
   No fim de seu livro sobre "As excelências da Santa Missa" São Leonardo traz alguns exemplos para excitar os padres e os fiéis, a uma grande devoção à Santa Missa. Vou transcrever apenas três.

EXEMPLOS
   1º - A piedosa rainha Maria Clemtina, que morreu em Roma com 33 anos de idade e foi assistida no hora da morte pelo mesmo São Leonardo de Porto Maurício. Diz este santo Missionário: "Como a própria Maria Clementina se dignou dizer-me muitas vezes, punha todas as suas delícias em assistir ao divino Sacrifício e cada dia ouvia quantas Missas podia, Mantinha-se imóvel, diz S. Leonardo que o presenciou muitas vezes, sem almofadas, sem apoio , imóvel como uma estátua. Sua carruagem, continua S. Leonardo, percorria a toda velocidade as ruas de Roma, a fim de permitir-lhe chegar a tempo nas diversas igrejas." Esta santa rainha era dirigida espiritualmente por S. Leonardo. Ele afirma que Maria Clementina lhe escreveu um carta jé no leito de morte onde ela afirma que morria porque seu coração não aguentava mais o ardente desejo de receber Jesus todos os dias. E isto naquela época não era permitido.  

  2º - Fora de Roma, diz São Leonardo, conheço uma grande princesa, ilustre tanto por sua piedade como pelo seu nascimento, que ouve cada manhã várias missas, e ocupa suas damas nos trabalhos destinados ao altar, a ponto de enviar caixas cheias de corporais, manustérgios e outras peças semelhantes aos missionários e pregadores, para que as distribuam às igrejas pobres e a fim de que o divino Sacrifício seja oferecido a Deus com toda pompa, decência e solenidade adequadas.

   3º- Para ouvir a Missa Santa Isabel da Hungria se dirigia com grande pompa à igreja. Mas para assistir o Santo Sacrifício da Missa, retirava da cabeça a coroa, os anéis dos dedos, depunha seus ornamentos de rainha, e cobria-se com um véu, ficando em atitude tão modesta que jamais foi vista desviar sequer os olhos. Tudo isso agradou de tal modo a Deus, que Ele quis manifestá-lo a todos: durante a Missa, a Santa aparecia envolta de tal claridade que se velavam de deslumbramento os olhos dos assistentes; parecia-lhes contemplar um anjo do Paraíso.
São Leonardo apresenta inúmeros exemplos e de todas as classes de pessoas. 
Não posso, porém, deixar de fazer-vos uma pergunta: Diante do que vemos hoje, há ou não motivo de chorar?

terça-feira, 24 de setembro de 2019

RESPONDENDO OBJEÇÃO CONTRA A HUMILDADE

LEITURA ESPIRITUAL

OBJEÇÃO: Esta humildade excessiva, diz a maior parte das pessoas do mundo, enerva a alma e tira-lhe toda a confiança em suas forças. Acham que uma pessoa humilde seja sinônimo de uma pessoa deprimida, sem coragem e energia.

RESPOSTA: Vamos provar que é precisamente o contrário que é a verdade. Mas, antes permitam-me explicar melhor o principal móvel da humildade em sumo grau. Além do amor à verdade e à justiça como motivadores da suma humildade, quero, antes de refutar a objeção, explanar um pouco mais um outro motivo poderoso, um atrativo irresistível que incita as almas grandes às humilhações e desprezo: É O EXEMPLO DO DIVINO MESTRE.

Caríssimos, no Céu não podia o Verbo eterno humilhar-se; é Filho de Deus, em tudo igual a seu Pai. Desce à terra, faz-se homem. Como homem, é inferior, pode abater-se. Vede agora como abraça as humilhações e os desprezos, como percorre todos os graus da abjeção e aniquilamento. Diz S. Paulo: "Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses II, 7 e 8). Nasce num estábulo, passa sua vida na oficina dum pobre carpinteiro; morre numa cruz, saturado de opróbrios e afrontas... Que lição, que exemplo, que estímulo! No mundo afinal, não chega a fascinar os mundanos a paixão por uma vil criatura, de quem o coração se enamorou, até fazer-lhes amar seus defeitos, seus caprichos, até imitá-los?! Não se impõem cada dia os sensuais peníveis sacrifícios para agradar a um ídolo de barro?!

E não pode o amor divino arrebatar uma alma, e inspirar-lhe transportes tão vivos, tão veementes como o amor profano? Não pode um cristão inebriar-se tanto no amor do seu Salvador, que ache sua glória e sua dita em se lhe assemelhar, em ser como Ele escarnecido e pisado?

"Fanatismo", dirá o mundo. Mas é que para ele a santa loucura da cruz é um mistério; ignora qual é o preço das humilhações, desde que o Homem-Deus as tomou por divisa.

"Devaneio!" insistirá o mundo.

Caríssimos, interrogai a maior parte das pessoas do mundo, mesmo essas que se prezam de sábias e instruídas, e perguntai-lhes: O que é um cristão humilde? Responder-vos-ão: É um homem que só tem aspirações rasteiras. Dizem ainda: é um homem a quem a devoção destituiu de todo o sentimento da sua dignidade, de toda coragem, de toda magnanimidade, isto é, de todas as energias para  grandes ações.

Eis aí como julga das coisas o mundo insensato! Pois, é justamente o contrário que é a verdade. Conheceis um orgulhoso? Toda a sua aspiração é distinguir-se, dar que falar de si [se desculpam dizendo que é para vencer o respeito humano]. Para atingir seus fins, irá agora arrojar-se ante os grandes da terra e adorar seus devaneios, logo adular ignobilmente a alguém que arvoram em ídolo. O orgulhoso descerá às mais vis, às mais vergonhosas intrigas para suplantar um êmulo e elevar-se em sua queda. Adorador de si mesmo, tendo estima só por si, comprimiu-lhe o egoísmo seu coração, paralisou-lhe todas as potências de sua alma. Debalde esperareis dele sacrifícios generosos em prol do bem público. Joguete de suas paixões, adulador, escravo dos que dispõem das honras e das riquezas, ou se desvanece nas fumaças do orgulho, ou se estira na lama.  

Na verdade, só os humildes mantêm a dignidade da natureza humana. Pois, na pessoa humilde nunca o conhecimento do seu nada e de sua miséria está isolado do conhecimento das grandezas e bondades de Deus. É nada, e de si mesmo nada tem; e assim todo bem que vê em si, reconhece ter recebido de Deus. E sabe que Deus o criou para glória d'Ele, que lhe deu um nobre destino, que por graça de sua misericórdia o admitiu à adoção de seus filhos. Não andará à busca da aprovação duma vil criatura. Sabe que é nobre vassalagem depender senão de Deus! Mas sabe que criado por Deus, deve reverter a Deus; que, redimido pelo sangue de Jesus Cristo, tem o Céu como herança. Os humildes deixam que os amadores da vaidade e da ilusão se fatiguem em demanda das honras, das riquezas e prazeres. Eles puseram suas esperanças bem mais alto e assim as comodidades sensuais mas efêmeras deste mundo, as pessoas humildes as calcam aos pés; livram-se de todos os empecilhos  que tolhem os vôos de seus corações nobres e generosos. A alma dos humildes deixa a terra e voa em busca dos bens celestes e imortais.

Caríssimos, basta compulsarmos a vida dos santos para constatarmos a verdade do que acabamos de escrever. E só para indicar alguns exemplos: Santo Agostinho, S. João Batista M. Vianney, S. Bernardo, S. Francisco de Sales, S. Francisco de Assis, S. Vicente Ferrer, S. Francisco Xavier, S. Vicente de Paulo, Santa Catarina de Sena etc. Não eram todos humildes? Claro que sim, em sumo grau, do contrário não seriam os grandes santos que foram. E, no entanto, que sublimidade em seus pensamentos, que maravilhas no predomínio que exerceram em seus contemporâneos, quando se chega ao conhecimento de seus imortais escritos, sermões, cartas e feitos caritativos e apostólicos. Caríssimos, podemos estar certos que os santos acharam o princípio de sua força e grandeza exatamente na virtude da mais alta humildade.

Enquanto o orgulho, enfatuando as almas de presunção e vaidade, obceca o homem a tal ponto que coloca alguém ou a si mesmo como ídolo, a humildade, fazendo-o curvar aos pés do Soberano Senhor, põe-no em via de receber os mais preciosos dons do céu, a luz para conhecer, e a força para operar. Somos nada, mas tudo podemos em Deus quando oramos com humildade. Tudo podemos em Deus que dá sua graça aos humildes. Assim, nos erguemos do nosso pó, tornando-nos de alguma sorte semelhantes a Deus, fortes de sua força, sábios de sua sabedoria, onipotentes de sua onipotência.  Ao contrário, Deus resiste ao soberbo e abandona-o aos seus próprios recursos, isto é, ao seu nada, e todas as suas obras são infecundas. Agora veio-me a mente um fato: quando se tratou de escolher um candidato ao episcopado para conservação da Tradição em Campos, dois dos nossos padres, foram perguntar a D. Antônio de Castro Mayer qual a sua indicação e ele respondeu: "escolham a Monsenhor Licínio porque ele é humilde".

Quando Jesus Cristo apareceu na terra, havia pelo mundo reis e imperadores, não faltavam oradores afamados e profundos filósofos. Jesus escolheu a estes? Não... bem outro foi o plano concebido pela Sabedoria eterna. Escolheu pobres pescadores, rudes e alguns ignorantes. Ninguém os tinha em consideração. Mas, eis aí, os instrumentos que se há mister nas mãos de Deus para fazer coisas maravilhosas. Sua missão era nada menos que conquistar e mais ainda reformar o mundo inteiro. E como o farão: sofrendo a fome, a sede, as calúnias, as perseguições, as zombarias, os suplícios e a morte. E por que? Para que os mais cegos não possam deixar de ver que não são os homens mas a mão do Onipotente, que tudo fez. Ó sabedoria humana, que confia em seu pretensos dotes e em seu dinheiro e renome, confunde-te! Quão diversos são os juízos de Deus! Deus escolhe as coisas fracas para confundir os fortes!

Olhemos agora o outro lado da moeda considerando apenas um exemplo: Martinho Lutero. Tal homem havia recebido do céu talentos raros, um engenho muito grande; era dever seu fazer disto homenagem ao autor de todo dom perfeito, pô-los ao serviço de Sua glória. Mas ele se maravilha de si mesmo, atém-se às suas próprias forças e ideias. Mas, logo Deus se afastou dele; e eis a razão  que se abala das mais altas regiões, cai e desmorona-se, de queda em queda, aos mais vergonhosos desvios, aos mais incríveis delírios diabólicos. Deus rejeitou o orgulhoso!

Donde devemos concluir sem a menor sombra de dúvida: só os humildes podem esperar de Deus ajuda, amparo e proteção. Só eles, portanto, são capazes de efetuar coisas grandes na ordem sobrenatural e levantar monumentos que sobrevivam às catástrofes dos impérios. Eles, na verdade, nada empreendem, cônscios que estão de sua própria impotência, mas oram com humildade, pedem luzes, pedem forças, e Deus sempre os atende. Deus inspira-lhes algum pensamento para a glória Sua, e ei-los à obra com denodo; não há dificuldade que os amedronte; é seu sentir que, a despeito do seu nada pecador, alentados da força do alto, chegariam a revolver o universo. Não têm em vista nem estima nem respeito. Estão conscientes de que toda a glória do bom êxito  deve ser atribuída a Deus que é quem lhes dá a luz e a força. E Deus reconhece aí a sua obra e por vezes se compraz de sinalá-la com o selo da sua imortalidade. Assim entendemos o porquê de tantas maravilhas operadas no Cristianismo por homens simples e desprezíveis no pensar do mundo.

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O NOSSO CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

GRAUS DA HUMILDADE



A santidade depende estreitamente da humildade. E, quanto mais um homem é humilde, tanto mais é justo, tanto mais é santo, tanto mais é perfeito. Assim como há três etapas no caminho da perfeição, na humildade há três graus.

Caríssimos, sabemos pelas Sagradas Escrituras que o pecado origina-se do orgulho que não aceita nenhuma submissão. No Céu, no tempo de prova, Lúcifer se rebelou dizendo: "Não servirei!" e muitos anjos seguiram este mau exemplo. Na terra, Eva e Adão caíram também levados pelo orgulho: pensar em ser "iguais a Deus". E este espírito de rebelião passou a todos os homens: é o triste apanágio de nossa natureza decaída. Por efeito do pecado original, somos todos, uns mais outros menos, inimigos da obediência, e da dependência. Como o filho pródigo almejamos liberdade longe de Deus para fazermos o que nos agrada. Ah! que tendência terrível!!! Ai de nós se não adquirirmos a humildade e nela sempre nos esforçarmos por crescer!

PRIMEIRO GRAU DE HUMILDADE: O orgulho está como que entranhado na medula de nossos ossos e infecciona todas as potências de nossa alma. Somos tentados a erigir-nos em pequenos deuses, referindo tudo a nós, como se fôramos o centro e último fim de todas as criaturas.

Mas, quando a luz divina chega a iluminar o nosso espírito e a graça a tocar nosso coração, logo se apressa a despedaçar esse ídolo, isto é, o "Eu". Desvanece-nos o nosso nada e ei-nos convictos de que o primeiro e mais essencial dever da criatura é submeter-se ao Criador, e obedecer a seus mandamentos, dispostos a perder tudo, a sofrer tudo, do que transgredir um só em matéria grave, e ultrajar um Senhor  que é a própria Santidade, onipotente e de suprema Majestade.

Esta disposição é o primeiro grau da humildade. Ele é necessário para a salvação. Portanto, no assalto da tentação, em perigo de ofender a Deus mortalmente, todo o cristão deve prorromper com São Paulo: "Quem me separará do amor de Cristo? Nada, nem o infortúnio, nem a fome, nem a sede, nem a perseguição, nem a espada, nem a morte!" (Rom. VIII, 35). Portanto, quem tiver perseverado até ao fim, resoluto antes a sacrificar seus bens, sua honra, sua vida, do que cometer um pecado mortal, este será salvo; afinal, humilhou-se sob a autoridade do Soberano Senhor, deu a Deus o que essencial e rigorosamente lhe é devido; deve por isso ser contado no número de justos. Mas, se não vai mais longe, não é senão um justo muito imperfeito. E devemos observar, embora de passagem, que as pessoas consagradas a Deus (os clérigos e os religiosos) não podem se contentar só com este grau de humildade.

SEGUNDO GRAU DE HUMILDADE: Consiste em nos submetermos ao nosso Criador com tão profunda entrega, que estejamos devotados a morrer, mas nunca contristá-lo nem na mínima coisa voluntariamente, isto é, de caso pensado. Este estado não aceita afeto nem apego ao pecado venial. As leves faltas em que se cai não são mais que o efeito da fragilidade humana; o coração e a vontade abominam-nas. Fica evidente que esta disposição é bem mais perfeita que a primeira que é o primeiro grau. E assim, quanto mais diante de Deus nos humilhamos, mais nos aproximamos da verdade e da ordem, da justiça e da santidade. E, caríssimos, não será sobremaneira consentâneo à ordem e à justiça que um bom filho jamais dê o mínimo desgosto ao melhor dos pais?

O ínfimo grau de glória vale incomparavelmente mais que nossa vida,e todos os bens deste mundo; porque é Deus o derradeiro fim de todas as coisas, e o fim é sempre de preferência aos meios. Ora a glória de Deus, (refiro-me à sua glória acidental) é que todas as criaturas Lhe sejam totalmente reverentes, que atendam ao mínimo sinal da Sua vontade. Quanto não devemos, logo, abominar o pecado venial, que é uma revolta contra esse Deus; é querer roubar a Sua glória!

Quanto aos eclesiásticos, todos os que possuírem este segundo grau de humildade, serão bispos e padres piedosos, fervorosos, que tratam a miúdo com Deus na oração, e dessas comunicações íntimas haurem as luzes e as graças que tornam seu ministério profícuo entre os povos. Padres assim, até com talentos medíocres farão o que outros não são capazes de fazer com todos os recursos da ciência e do gênio. Exemplo clássico é o do Santo Cura d'Ars!

Quem possui este segundo grau de humildade já é indubitavelmente justo e santo, quando com denodo se sacrifica tudo o que poderia diretamente opor-se à glória de Deus. No entanto, nem por isso se tem chegado a tal desapego das coisas criadas, que não se preze já sua própria reputação, a estima das pessoas virtuosas, certos prazeres inocentes que Deus não reprova. Mas, prestemos bem atenção nisto, sobretudo, nós caríssimos colegas no sacerdócio, que os que estacionam neste segundo grau, sem mirar mais alto, caem a breves passos em faltas impensadas, em muitas imperfeições inevitáveis em tal estado.  É ainda por isso que deixam escapar frequentes ensejos de praticar grandes virtudes. É claro que Deus os ama, e sobre eles derrama copiosas graças. Mas não vê neles a digna generosidade e correspondência, para lhes comunicar os dons extraordinários, os grandes privilégios, de que Lhe apraz cumular os Seus eleitos. É que ainda falta um grau mais excelente da humildade, grau este sim, que constitui o ápice da perfeição evangélica.

TERCEIRO GRAU DE HUMILDADE: De início, devemos observar que o heroísmo da santidade é um dom à parte. Mesmo na perfeição há diferentes graus. É bom, porém, que o conheçamos, mesmo que seja só no intuito de nos humilharmos vendo a imensa distância nossa destes heróis de santidade. Aqui é o lugar de meditarmos nestas palavras do divino Mestre: "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito"; e também nesta exortação do Divino Espírito Santo: "Aquele que é justo justifique-se mais, aquele que é santo, santifique-se mais" (Apocalipse XXII, 11).

O terceiro grau de humildade inspira à alma fiel tal desprezo do mundo, e tão grande amor ao desprezo, que, se dependesse de sua escolha ser honrada ou desprezada dos homens, e por qualquer destas vias viesse a redundar para Deus a mesma glória, essa alma, calcando aos pés a estima própria e das criaturas, abraçaria as ignomínias e os opróbrios com tanto afã como os mundanos empregam na procura de honrarias, renome e glória humana. E a alma faz esta escolha com toda alegria do coração por assim estar imitando o divino Salvador, e também porque assim se faz mais justiça a si mesma.

Mas, com certeza, muitos hão de perguntar: é possível chegar até lá. Digo que sim, desde que compreendamos bem o que é a humildade, se nos conhecemos perfeitamente a nós mesmos, e se amamos deveras a Nosso Senhor Jesus Cristo. Façamos algumas considerações: Haveis cometido em vossa vida um pecado mortal? Merecestes o inferno; por isto já estás ao nível do demônio. Haveis cometido dois? Com isto estás sob seus pés; pois que ele cometeu um só. Calculai agora a estima que vos é devida, pela que tendes para com os demônios, e para com os réprobos. Pois se ainda vos não achais na sua companhia a quem o deveis? Será à vossa virtude? Não é antes à bondade meramente gratuita do Divino Redentor?

Mas felizmente há almas que nunca cometeram um pecado mortal! Mesmo assim, se tivemos a dita de haver passado através dos perigos sem perdermos a graça batismal, só a vista de nossa baixeza e de tantas faltas em que cada dia caímos, não é para inspirar-nos o desprezo de nós mesmos? Pois, que somos nós por natureza? Nada. E que é o que se deve ao nada? O esquecimento; não se pensa no que não existe. Que somos nós por vontade? Pecadores, rebeldes mais ou menos, mas sempre rebeldes a Deus. E que merece o pecado, a rebelião? O desprezo, o castigo.

Quando nas epístolas de S. Paulo e na vida dos Santos, lemos que eles se consideravam como o lodo e a imundície do mundo, que se reputavam indignos de ver o dia, que se maravilhavam que Deus os pudesse suportar e que os homens não viessem todos a um tempo cobri-los de injúrias e de maus tratos, talvez pareça exagero. Mas não. Os Santos humilhando-se assim faziam-se justiça, e tanto mais eram agradáveis a Deus, quanto mais exata, e mais rigorosa justiça se faziam.

O homem humilde não gosta de receber louvores porque sabe que os não merece. Gostam que o tenham pelo que são em verdade: um nada pecador, e, portanto, um ser vil e desprezível. Eis o conceito que a pessoa humilde faz de si mesma, e folga que os outros pensem como ela. E mais, se alegram se a tratam segundo este julgamento que corresponde a realidade. Já o orgulhoso é um mentiroso, um usurpador, e por isso é que Deus o abomina, e repele com indignação.

A tal ponto nos perverteu a culpa original, que este terceiro grau de humildade constitui um heroísmo. Mas como chegar a termo-nos por pequenos, vis e desprezíveis, quando não podemos deixar de ver que temos feito coisas grandes? Respondo que é só ver isto que diz o Espírito Santo: "E que tens tu, que não recebesses? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tiveras recebido? ((1 Cor. IV, 7). Portanto devemos dizer: Como Deus tem feito por nós coisas grandes! Então é o caso de só admirar o poder e a sabedoria desse Deus grande, que, com instrumentos tão vis, quando Lhe apraz, opera prodígios! Na verdade, humildade não é desconhecer os dons de Deus e o poder de suas obras; é sim, não se arrogar a sua glória. Que perfeito modelo não é o proceder da Santíssima Virgem Maria: "Minha alma engrandece o Senhor... Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso!"...

Quando alguém nos rende louvores, ilude-se; é uma injustiça que faz a Deus; e nós deveríamos ficar envergonhados, confundidos.

No próximo artigo, se Deus quiser, responderei esta objeção, infelizmente não tão rara: Esta humildade excessiva enerva a alma, e tira-lhe toda a confiança em suas forças, deprime e impede a coragem e a fortaleza.

JESUS, MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

domingo, 22 de setembro de 2019

A VIRTUDE DA HUMILDADE


LEITURA ESPIRITUAL

"Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes! (S. Tiago IV, 6; 1 S. Pedro V, 5).

Por estas palavras do divino Espírito Santo, podemos concluir que, sem humildade não se chega ao céu, pois para se salvar é necessária a graça de Deus. E prestemos bem atenção nestas palavras: "Deus resiste aos soberbos", porque se, de um lado Deus dá a graça aos humildes, por outro, RESISTE aos soberbos. Ora, ser resistido por Deus é coisa muito séria. Donde se, fazendo um exame de consciência, alguém chegar à conclusão que é orgulhoso deve empregar todo empenho, todos os meios para combater a soberba e, conseguintemente, adquirir a virtude da humildade. São Gregório escreveu uma palavra que deveria fazer tremer a todos aqueles que não são humildes: "O sinal mais evidente da reprovação é o orgulho". Na verdade, quando este pecado não condena diretamente por si mesmo os homens que o cometem, condena-os por uma multidão de obras más que nascem dele como de uma fonte envenenada. Aliás, a característica deste vício capital é a estreita conexão que tem com os outros vícios. E podemos dizer que assim como a virtude da humildade está presente em todas as outras virtudes, assim também o orgulho está de uma maneira ou outra, ligado intrinsecamente a todos os pecados. E lamentamos como poucas pessoas julgam o orgulho tão nocivo, como efetivamente é. E assim muitos não o combatem e o acolhem sem desconfiança e pior, há pessoas que, dentro de certas entidades, confundem-no à fortaleza de alma no escopo de pretensamente combater o respeito humano. E o demônio empurra tais pessoas para o fanatismo. E não há quem os possa convencer mesmo citando as Sagradas Escrituras e os Santos Padres! E esta disposição, que por certo não é rara, é nimiamente perigosa. Por exemplo: separe-se um homem da Igreja pela heresia, e todos dizem: "o infeliz perdeu a fé". É verdade, mas antes de perder a fé, tinha perdido a humildade; e foi por não querer submeter humildemente seu juízo ao da Igreja, que arvorou o estandarte da rebelião.  Que horror, caríssimos, se, esquecendo do nada que é, o homem se deixar dominar pelo orgulho, odioso vício que o Divino Salvador tem em especial abominação: "O que é excelente segundo os homens, é abominação diante de Deus" (S. Lucas XVI, 15).

Todo o edifício de nossa santificação deve estar construído sobre um alicerce sólido, sobre a rocha. Esta rocha é o conhecimento de si mesmo, que leva o homem a fazer-se justiça, a colocar-se no seu lugar, a ser humilde. A humildade é verdade e é justiça. Vamos explicá-lo: A humildade é o justo juízo que de nós mesmos fazemos, e segundo o qual pautamos a estima de nossa própria excelência. Esta virtude faz que, reconhecendo-nos tais como somos, não nos arroguemos a nós mesmos, nem queiramos que os outros nos arroguem senão o que nos é legitimamente devido. Se, pois, descobrimos que em nós não há, como procedente de nós, bem algum, perfeição nenhuma, seja natural ou sobrenatural, requer a humildade que, restringindo-nos ao nada que é nosso apanágio, nos remontemos até Deus, a quem é devida toda a honra e glória.

Devemos observar, porém, que ninguém é humilde por haver compreendido que é nada, que de si próprio nada se tem. Os filósofos da antiguidade haviam  reconhecido esta verdade, e eram soberbos; a vista da sua baixeza e do seu nada irritava-os e revoltava-os. O primeiro elemento da humildade é este: reconhecer o nosso nada. Esta é a verdade. Mas a humildade não é só isto que está na inteligência. Ela tem sua base na vontade: ela é justiça e assim faz-nos aceitar o que nós merecemos; leva-nos a comprazer-nos nisso, como no que por justiça nos toca. Infere-se daqui que a humildade é uma virtude baseada na verdade conhecida, amada, abraçada com todas as suas consequências, por amor à ordem e à justiça.

Em cima: Fé e humildade do Centurião
A humildade é o fundamento de todas as virtudes, como o orgulho a fonte de todos os vícios. Assim, o maior perigo do orgulho não consiste tanto na falta, que faz cometer contra a humildade, como nas graças, de que priva, e nos numerosos vícios a que conduz infalivelmente suas vítimas. Infelizmente a terra está cheia desses mundanos soberbos, que são verdadeiramente idólatras, e idólatras de si mesmos. Quando estão sós, concentrados em seu espírito, como em santuário profano, colocam-se em face de sua própria excelência e, de turíbulo na mão, admiram-se, extasiam-se  e gabam-se de seu pretendido mérito, preferem-se àqueles com quem se comparam, estão ali diante de seu ídolo, como o selvagem do deserto diante do sol, a quem adora. Pensam só em si mesmos! Deus é como se não existisse!

Devemos concluir que quanto mais uma pessoa é humilde, tanto mais é justa, tanto mais é santa, tanto mais é perfeita. Há, portanto, na humildade tantos graus, como na mesma santidade. No próximo artigo, se Deus quiser, falaremos dos graus da humildade.

Caríssimos, sejamos humildes, sejamo-lo profundamente. Expulsemos do nosso espírito todo o pensamento, todo o sentimento que tiver por origem o orgulho. Esqueçamo-nos de nós mesmos para não pensar senão em Deus. Oponhamos incessantemente às vãs concepções de nosso orgulho o pensamento de nossa miséria e de nossa indignidade.

Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo perfeito de todas as virtudes, mas quis dar toda ênfase sobre a humildade e a mansidão (aliás gêmeas): " Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!" (S. Mat. XI, 29).

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

DOM BOSCO PREGA SOBRE A MORTE AOS JOVENS DO ORATÓRIO

 LEITURA ESPIRITUAL, dia 5º


  "A morte é a separação da alma do corpo e o total abandono das coisas deste mundo.
   Todos sabem que um dia devem morrer, mas ninguém sabe onde e como morrerá.
   Você não sabe se a morte o surpreenderá na sua cama ou no seu trabalho, na estrada ou em outro lugar. A ruptura de uma veia, um infarto, um tumor que talvez já esteja crescendo em seu organismo, uma queda, um acidente, um terremoto, um raio e outras mil causas de que você nem suspeita agora, podem privá-lo da vida. E isto pode acontecer daqui a um ano, um um mês, a uma semana, a uma hora e, talvez, apenas terminada a leitura desta meditação.
   Quantos se deitaram à noite com boa saúde e de manhã foram encontrados mortos! Quantos ainda hoje morrem de improviso! E onde se encontram agora? Se estavam na graça de Deus, felizes deles! São para sempre bem-aventurados. Mas se estavam em pecado mortal, agora estão eternamente perdidos!
   Diga-me, meu caro jovem, se você devesse morrer neste instante, que seria de sua alma?
Morte do justo; morte do pecador
   Embora o lugar e a hora de sua morte lhe sejam desconhecidos; você sabe com certeza que vai morrer.
   Esperemos que a sua última hora não venha de repente, mas aos poucos, por uma doença comum. De qualquer modo virá um dia em que, estendido em sua cama, você estará prestes a passar à eternidade assistido por um sacerdote e cercado por parentes que choram. Você terá a cabeça dolorida, os olhos embaçados, a língua ressequida, um suor gélido e o coração fraquíssimo. Assim que a alma expirar, seu corpo será vestido e colocado num caixão. Aí os vermes começarão a roer suas carnes, e bem depressa de você não restarão a não ser poucos ossos descarnados e um pouco de pó. Experimente abrir um sepulcro e verá a que ficou reduzido aquele jovem antes cheio de saúde, aquele rico, aquele ambicioso, aquele orgulhoso!
   Meu caro filho, ao ler estas linhas, lembre-se de que elas falam de você, como de todos os outros homens! Agora, o demônio, para induzi-lo a pecar, procura desviar sua atenção destes pensamentos e escusá-lo de suas culpas, dizendo-lhe não ser um grande mal aquele prazer, aquela desobediência, aquela omissão da Missa no domingo ou em dia santo, e assim por diante; mas quando chegar o momento da sua morte, será ele mesmo que vai lhe revelar a gravidade destes e dos outros pecados, e vai lançá-los diante de sua consciência. Que fará você então? Ai de você se, naquele momento, se achar em desgraça de Deus!
   Não se esqueça, meu jovem amigo, de que daquele momento depende a sua eterna salvação ou a sua eterna condenação.
   Duas vezes temos diante de nós uma vela acesa: no Batismo e na hora da morte. A primeira vez para fazer-nos ver os preceitos da Lei divina que devemos cumprir, e a segunda para fazer-nos ver se os cumprimos. À luz daquela vela, você verá se amou a Deus ou se O desprezou; se honrou seu santo Nome ou se O blasfemou; você verá as festas profanas, as Misas perdidas, as impurezas cometidas, os escândalos dados, os furtos, os ódios, as soberbas... Oh! meu Deus, verei tudo naquele momento em que se abrirá diante de mim a porta da eternidade!
   Grande e terrível momento do qual depende uma eternidade de glória ou de sofrimentos! Você está compreendendo o que lhe digo? Eu lhe digo que daquele momento depende o ir para o céu ou para o inferno; ser para sempre feliz ou desesperado; para sempre filho de Deus ou escravo de Satanás; para sempre gozar com os anjos e os santos no céu ou gemer e queimar para sempre com os condenados no inferno!
   Por isso, prepare-se para aquele grande momento fazendo logo um ato de contrição e, o mais depressa que você puder, uma boa e santa confissão. Decida-se, depois, a viver sempre na graça de Deus, porque COMO SE VIVE ASSIM SE MORRE."

   "LEMBRA-TE DE TEUS NOVÍSSIMOS, E JAMAIS PECARÁS" (Eclo. 7, 40).
Ó grande São João Bosco! Agradecemos-lhe este zelo pela salvação das almas, pregando o que o próprio Divino Espírito Santo manda.
           SÃO JOÃO BOSCO! ROGAI POR NÓS!

terça-feira, 3 de setembro de 2019

COMO DEVEMOS SERVIR-NOS DAS CRIATURAS, PARA QUE ELAS NOS CONDUZAM AO NOSSO FIM


LEITURA MEDITADA - dia 3º

Devemos usar das criaturas tanto quanto elas nos conduzam ao nosso fim último. "Foram-nos dadas todas as coisas, diz S. Bernardo, para nosso bem; mas contribuem, para isso, de diverso modo. Umas são destinadas a conservar-nos a vida e as forças; outras, a instruir-nos; outras, a dar-nos descanso; outras, finalmente, a corrigir-nos e a provar-nos". A sabedoria consiste em usar de cada uma, segundo o desígnio de Deus, e conforme a nossa necessidade presente. Apresentam-se, aqui, duas regras:

   1ª - Tratando-se das criaturas de que não poderemos prescindir para comida, habitação, vestuário, descanso: limitemo-nos ao necessário, e recebamo-lo com agradecimento, sacrificando, generosamente, tudo o que é supérfluo. Estas mesmas espécies de criaturas dão-nos este conselho: "Recebei, restituí, temei. -  Recebei o benefício, que vos faço; agradecei-o àquele Senhor, por quem e para quem vo-lo faço, o que vale tanto como restituir-lho; temei a conta que haveis de dar do uso, que dele tiverdes feito" (Ricardo de São Vítor). Não podemos deixar de ver o céu e a terra, os homens, que nos rodeiam; de ouvir milhares de coisas, tristes ou agradáveis; mas há, em todas, algum lado por onde as poderemos encarar, para nos elevarmos por elas a Deus. É o que os Santos chamam: ver a Deus nas criaturas.

   2ª - Quanto àquelas, cujo uso se deixa ao nosso arbítrio, como adotar um gênero de vida, ou abraçar outro, buscar a fortuna, a reputação, ou não fazer nenhum caso disto, etc; a regra que nos dá Santo Inácio de Loiola, é pormo-nos indiferentes para com estas coisas, enquanto não entra a consideração do serviço de Deus e do nosso eterno destino; não buscando, não repelindo por si mesma, coisas alguma criada, mas, unicamente segundo nos aproxima ou afasta do nosso fim. Não há nada mais justo. Não tem Deus, sobre nós, um domínio absoluto e universal? Sem esta indiferença, subtraio-me a esse supremo domínio, dispondo dos meus afetos segundo a minha própria vontade, e não segundo a Sua. Que é o que me leva para Deus? Os exercícios de piedade, o recolhimento de espírito; pois quero aplicar-me a eles. Que é o que me afasta de Deus, ou me impede de ser todo dele? A distração, a imperfeição voluntária, certa paixão, que me domina; é isso o que convém que eu combata intrepidamente. Nosso Senhor Jesus Cristo disse que: "O reino dos céus sofre violência e só os violentos poderão arrebatá-lo".

Devemos louvar a Deus em nome das criaturas: "Quão magníficas são, Senhor, as tuas obras! Quão profundos são os teus pensamentos! O homem insensato não conhece, e o néscio não compreende estas coisas" (Salmo 91, 6 e 7). "Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor; louvai-O e exaltai-O por todos os séculos" (Daniel, III, 57)

Tomemos a resolução de não nos prendermos senão a Deus: só Deus, somente Deus: nos meus temores, nos meus desejos.Amém!

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

VIRTUDES PARA UMA FAMÍLIA CRISTÃ


LEITURA MEDITADA - Dia 2º

"Irmãos: revesti-vos como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, modéstia e paciência, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver queixas contra o outro; assim como o Senhor vos perdoou, perdoai-vos também. Mas sobre tudo isto: tende a caridade que é o vínculo da perfeição; e reine em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. Habite em vós abundantemente a palavra de Cristo, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando em vossos corações, com a ação da  graça, louvores a Deus. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças por Ele a Deus Pai. Mulheres, estai sujeitas a vossos maridos, como convém ao Senhor. Maridos, amai vossas mulheres, e não sejais ásperos para com elas. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. Pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que se não tornem pusilânimes" (Colossenses, III, 12-21).

Nestas exortações de S. Paulo temos os elementos indispensáveis para a felicidade das nossas famílias. Assim, o Apóstolo,  às opiniões do modernismo, destruidor dos mais sagrados vínculos, opõe os preceitos e virtudes criadores de uma felicidade e de uma paz ainda possível neste mundo. Aí está o segredo da paz familiar. Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que os filhos das trevas são mais prudentes nos seus negócios que os filhos da luz nos seus. Só para dar dois exemplos: O comerciante, aos clientes oferece prontamente suas mercadorias, ocultando a sua irritação quando as desprezam e sem ofender-se quando as recusam. Que "misericórdia"; que "paciência"; que "benignidade"; que 'humildade"; que "perdão das ofensas"; que "que sorrisos de amabilidade!". O político, a todos acolhe com amabilidade, tolerante com quem o importuna e prestimoso com quem lhe pede auxílio.  O comerciante faz tudo isto como se fosse um santo, mas não: é só para ganhar dinheiro. (Não quero com isto negar que há comerciante santo também). O político parece praticar virtudes heróicas, mas, na verdade, pensa só em conseguir votos, e consequentemente: honra e sobretudo, dinheiro. (Também aqui não pretendo negar que possa existir político santo: é difícil, mas para Deus nada é impossível).
Mas, caríssimos, qual destes motivos compara-se ao grande bem na paz familiar? Dádiva do céu, ela transforma o lar em um vestíbulo do paraíso, as agruras da vida em oásis de bênçãos. A paciência, a humildade, a benignidade, a misericórdia, ensinam aos cônjuges  a arte de se suportarem uns aos outros. Sigam os cônjuges os conselhos de São Paulo supracitados, e as divergências que pareciam separá-los virão a soldar ainda mais o vínculo matrimonial. Saibam os cônjuges perdoar-se mutuamente. Enquanto um momento de silêncio restituirá a bonança; um revide protrairá a tempestade por longos dias e semanas inteiras. Tal como Jesus generosamente perdoou nossos graves crimes, perdoem-se os esposos, com igual generosidade, as discrepâncias de temperamento e de caráter.

A caridade é o liame destinado a unir os fiéis entre si e com Deus. Nesta união consiste toda a perfeição cristã. O amor da paz deveria inspirar todos os sentimentos dos esposos como convém a membros de um só corpo. O lar verdadeiramente cristão deveria estar sempre agradecido a Deus pelos favores d'Ele recebidos. Os ensinamentos e máximas de Nosso Senhor Jesus deveriam ser a bússola em toda a sua conduta e empreendimentos. De um lar cristão são banidas e execradas as máximas do mundo.  "Exortai-vos uns aos outros por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais", insiste o Apóstolo, assim apontando-nos na oração a maior garantia de paz para o lar. A oração é a fonte de onde haurimos as energias necessárias para os momentos trágicos que não faltam na existência de cada indivíduo, como não faltam na vida de toda família. Repudiando os maus conselhos de um mundo colocado no Maligno, busquem os esposos na Santa Religião e no seu Deus o conforto que anima, e da prece fervorosa de um coração que sofre sairá a arma vitoriosa que tudo suporta. "Onde quer que dois ou três se acharem reunidos em meu nome - diz Jesus Cristo - estarei eu no meio deles" (S. Mateus XVIII, 20). Na verdade, nunca um lar se sente mais unido como quando todos os componentes se voltam para Deus repetindo todos a mesma prece divina: "Pai Nosso que estais no céu". O lar, porém, que ignora a oração encaminha-se para o desmoronamento, enquanto o lar que ora, que reza todos dias o Santo Terço, sela com o nome de Deus e a intercessão de Sua Mãe Santíssima, a sua união e garante a sua felicidade. Seguindo, pois, os conselhos do Apóstolo São Paulo, não será difícil aos nossos lares realizar aquela felicidade que fará das famílias cristãs outros tantos vestíbulos do céu.

Para terminar, lembremos algo sobre a MISERICÓRDIA. O Rei Davi era um homem santo. A própria Bíblia mostra-o para os outros reis, como um modelo de fidelidade a Deus. Mas, num momento de ociosidade e fraqueza cometeu o gravíssimo pecado de adultério e, em consequência o homicídio, outro pecado muito grave. Deus, através do profeta Natan, abriu-lhe os olhos e tocado de sincero arrependimento exclamou: "Pequei".  Davi chorou a vida toda estes seus graves pecados. Não perdia oportunidade de fazer penitência e escreveu o Salmo 50, Miserere. Eis apenas alguns versículos deste belíssimo salmo de penitência: "Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia; segundo a multidão das tuas clemências, apaga a minha iniquidade" (vers. 1-3); "O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito, não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado" (vers. 19).


domingo, 1 de setembro de 2019

FERVOROSA EMENDA DE TODA A NOSSA VIDA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA - Dia 1º do mês

  Um homem que flutuava muitas vezes, cheio de ansiedade, entre o temor e a esperança, estando um dia oprimido de tristeza, entrou numa igreja, e, prostrando-se diante dum altar para fazer sua oração, dizia e repetia consigo mesmo: Oh! se eu soubesse que havia de perseverar! E logo ouviu no íntimo da alma esta divina resposta: Que farias se isso soubesses? Faze agora o que então quiseras fazer, e estarás seguro. E no mesmo instante, consolado e fortalecido, se ofereceu à divina vontade, e cessou sua ansiosa turbação. Nem quis curiosamente esquadrinhar o que lhe havia de suceder; aplicou-se unicamente a conhecer a vontade de Deus, e o que a seus divinos olhos fosse mais agradável e perfeito para começar a perfazer toda a boa obra.

  Duas coisas resfriam em alguns o ardor de se corrigir e progredir na vida espiritual: o receio das dificuldades e o esforço trabalhoso do combate.

  Certamente progridem mais nas virtudes aqueles que com maior empenho trabalham por vencer-se a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contraria mais as suas inclinações. Porque, na verdade, o homem tanto mais aproveita e tanto maior graça alcança, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.
Coragem no combate para conseguir o Céu!
"Quão desprezível é a Terra quando olho para o Céu!"
 Propõe-te por modelo a Cristo Crucificado. Com razão te podes envergonhar, considerando a vida de Jesus Cristo, de não ter feito até aqui bastante esforço para te conformares com ela, estando há tanto tempo no caminho de Deus. Quem devota e cuidadosamente, se exercita a meditar na santíssima vida e dolorosa paixão do Senhor, acha nela com abundância tudo que é útil e necessário para sua santificação: e não precisa buscar coisa nenhuma melhor fora de Jesus Cristo.

  As virtudes não se adquirem senão com muito cuidado, e grande diligência. Se começas a ser tíbio, começarás a ir-te mal. Mas se te exercitares no fervor, acharás grande paz, e sentirás o trabalho mui ligeiro pela graça de Deus, e pelo amor da virtude. O homem fervoroso e diligente para tudo está preparado.

  Uma advertência que nunca será demais lembrar, tanto mais que tem por autor o próprio Espírito Santo: "Quem não evita as faltas pequenas, pouco a pouco cai nas grandes" (Eccl. XXIX, 1).
   Estás sinceramente resolvido a salvar-te? Tens vontade firme de ganhar o céu? Prepara-te, pois, ao trabalho, à peleja. "Só será coroado quem legitimamente combater". Sem dúvida a unção da graça torna suave aos fiéis este trabalho, este combate; no meio dos trabalhos e dos sofrimentos gozam duma paz celestial que os pecadores não conhecem. Porém têm que fazer contínuos esforços para triunfarem de si mesmos, para vencerem seus desejos, suas paixões, o mundo e o príncipe do mundo. Em poucas palavras: a alma tem que ser generosa em corresponder com docilidade e prontidão às inspirações e graças de Deus.

   O que fizeram os santos, senão esta luta valente e porfiada? "Cercados duma tão grande nuvem de testemunhos, diz S. Paulo, desembaracemo-nos de tudo o que nos prende ao mundo, e do pecado que nos seduz e corramos pela paciência ao combate que nos é proposto. Com os olhos fitos em Jesus Cristo, autor e consumador de nossa fé, o qual, em vista da glória que lhe estava preparada, sofreu na cruz, desprezando a ignomínia; e agora está sentado à direita do trono de Deus" (Leiam Hebreus, XI, 35-38 e XII, 1,2).

   Compadecei-vos de mim, Senhor, que sou fraco; tende-me da Vossa mão que nada posso por mim só; dai-me fortaleza para que vença os trabalhos da vida, resista às sugestões do inimigo; afastai de mim todo o mau desejo, todas as ciladas da concupiscência, e nada deseje tanto, com dar-Vos honra e glória, trabalhando em minha salvação.

  O ramalhete espiritual de hoje serão as palavras de Jesus: "O reino do Céus sofre violência, e só os violentos é que poderão arrebatá-lo". 

sábado, 10 de agosto de 2019

PROFECIA QUE CONDENA O MODERNISMO

LEITURA ESPIRITUAL  - Dia 10


"Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino: prega a palavra, insiste, quer agrade quer desagrade, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina, porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas multiplicarão para si mestres ao capricho de suas paixões, (levados) pelo prurido de ouvir novidades. Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas" (II Timóteo IV, 1-4).

Há homens de coração reto que têm sede de uma luz infinita. E esta sede do infinito, só Deus pode saciá-la. E Deus se fez Homem para lhes dar a segurança dizendo: Eu sou a Verdade. E o grande foco da luz divina é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Divino Mestre cingiu a fronte de sua Esposa mística com o diadema visível de Rainha da Verdade. A unidade, a indefectibilidade, a santidade e a infalibilidade refulgem na coroa da Igreja, quais gemas preciosas, prendas que são deste Divino Esposo e que distinguirão a Igreja das rugas das adulterações humanas e das manchas das sociedades heréticas ou cismáticas. Dado o orgulho humano, estas últimas infelizmente sempre existirão. Daí as exortações do Apóstolo  ao seu discípulo e bispo Timóteo, exortações estas sobre as quais vamos ora refletir.

São Paulo, num tom pleno de solene gravidade, conjura o seu discípulo caríssimo, o Bispo Timóteo, a ser fiel à sua missão de pregar a doutrina imutável de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, portanto, deverá insistir, quer agrade quer desagrade, e repreender aqueles que dela se afastarem. O Apóstolo dos Gentios, exorta o seu discípulo a ter sempre firmeza em defender a verdade, a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo que não muda, e, ao mesmo tempo, mostra que é mister fazê-lo sempre com bondade e paciência, isto é, sem discussões e altercações.

Não há a mínima dúvida de que São Paulo faz aqui uma profecia: "virá tempo" afirma ele. Já na primeira carta ao mesmo Bispo Timóteo, o Apóstolo São Paulo já alertava: "O Espírito (Santo) diz claramente que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvido a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios..." (I Tim., IV, 1). E ao terminar esta mesma carta, faz esta exortação: "Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as novidades profanas de palavras e as contradições de uma ciência de falso nome, professando a qual, alguns se desviaram da fé" (I Tim. VI, 20 e 21).

A lídima Palavra de Deus da qual os bons têm sede, causa náuseas aos orgulhos. Não suportam ouvir a sã doutrina. Almejam uma multidão de pregadores que adulem suas paixões. Por isso São Paulo já na primeira epístola, havia dito a Timóteo: "Se alguém ensina, de modo diferente e não abraça as sãs palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo e aquela doutrina que é conforme à piedade, é um soberbo..." (I Tim., VI, 3 e 4). Não suportam ouvir sempre a mesma coisa; desejam ardentemente ouvir novidades. Em lugar do Evangelho, da verdade confirmada com tantos milagres, e assim tornada a mais evidente e incontestável, abraçarão fabulosas, estranhas e inacreditáveis doutrinas. Assim agiram os gnósticos, maniqueus e outros hereges.

Em verdade, esta profecia de São Paulo vem se realizando desde os primeiros séculos; mas, com certeza se realizará plenamente nos últimos tempos, na época do Anti-Cristo. Mas não resta a mínima dúvida de que ela se cumpre ao pé da letra em relação aos modernistas. São Pio X dizia que o Modernismo é a reunião de todas as heresias, e a sua origem está no orgulho humano que procura novidades que agradam. Agravando-se o espírito de contestação contra a Tradição e os dogmas, compreende-se que os modernistas não suportem mais ouvir a verdade. Daí vem a apostasia da fé, e passam a pregar abertamente doutrinas diabólicas. Os modernistas são pessoas ávidas de popularidade, que lançam a divisão na Igreja e nas famílias. Organizam conciliábulos e preparam os cismas dentro da Igreja. Procuram ensinar outras coisas diferentes e rejeitam a linguagem escolástica tradicional. Cabe aqui perfeitamente seguirmos a mesma exortação que S. Paulo fez a Tito: "Foge do homem herege, depois da primeira e da segunda correção, sabendo que tal homem está pervertido e peca, como quem é condenado pelo seu próprio juízo" (Tito, III, 10 e 11).

Caríssimos, um só é o código que liga nossas almas aos destinos eternos: o Evangelho genuíno sem alterações e acomodações humanas. A própria Santa Madre Igreja é infalível enquanto guarda santamente e expõe fielmente o que Jesus ensinou, ensinamento este em parte escrito por inspiração do Espírito Santo (S. Escritura), e em parte (maior) transmitido como de mão em mão através das gerações também sob a assistência do Espírito Santo (Tradição).  Guardemo-lo com toda fidelidade e amor.  A graça de Deus seja com todos vós. Amém. 

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O CORAÇÃO DE JESUS NA SUA PAIXÃO E MORTE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
17º dia de junho

São Paulo resume todo o amor do Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo nesta frase: "Amou-me e entregou-se por mim". Outra palavra do divino Espírito Santo que mostra o amor infinito do Salvador pelos homens é esta profecia de Isaías: "Foi oferecido em sacrifício, porque ele mesmo quis" (Isaías 53, 7). Temos aqui a causa da Paixão e morte do amantíssimo Salvador: o amor de seu adorável Coração  por todos e por cada um de nós. Caríssimos, na verdade, só o amor infinito do divino Coração de Jesus pode explicar a maneira tão dolorosa e humilhante com que Nosso Senhor Jesus Cristo quis realizar a obra da nossa redenção. Segundo a profecia de Isaías, assim foi porque "Ele quis". Se, como afirma S. Paulo, entregou-se por mim e fê-lo voluntariamente, é porque foi movido unicamente pelo amor de seu Coração. Porque, por efeito da união hipostática da natureza divina à humana, todo ato do Homem-Deus tinha valor infinito: uma lágrima, uma gota de sangue, uma oração, mesmo um suspiro seriam suficientes para remir toda a humanidade. Mas como diz muito bem São João Crisóstomo: "o que bastava para a redenção não bastava para nos revelar o seu amor". Jesus quis mostrar de um modo bem patente a imensidade do amor de seu Coração. Sendo Ele a própria inocência quis VOLUNTARIAMENTE, padecer tristezas, quis ser saturado de opróbrios, humilhações, dores e angústias. Foi traído, suas faces foram conspurcadas por escarros, machucadas  por tapas e bofetadas, todo seu corpo despedaçado por açoites, sua sacrossanta cabeça ferida por uma coroa de espinhos penetrantes e que se tornaram verdadeiro martírio porque enterrados mais fundos por golpes da cana. Jesus quis que seu Sacratíssimo Coração fosse alvo de todas as humilhações. Pois, quis ser condenado à morte como malfeitor. E morte na Cruz. E ele mesmo carregou o madeiro no qual seria pregado e suspenso da terra. Quis permanecer três horas suspenso e seguro por três pontiagudos cravos. Quis sofrer uma sede horrível. Quis sofrer assim em todo seu corpo exterior e interiormente. E também no espírito: a amargura e desolação infinitas.

E nesta cátedra de amor e de misericórdia, quais foram os sentimentos do Coração amabilíssimo de Jesus? Pediu perdão para os que o crucificaram, concedeu o Paraíso ao bom ladrão que se arrependeu, deu-nos, na pessoa do discípulo amado, Maria Santíssima como nossa Mãe. Declarou que tinha sede, com certeza sede física, mas para significar a sede mística de almas. Inclinando a cabeça e encomendando o espírito a seu Pai, expirou. "Tudo estava consumado": com o seu sacrifício, a obra da nossa redenção estava realmente consumada. O Coração de Jesus desejou ardentemente esta hora do supremo sacrifício, deste batismo de sangue, para salvar a humanidade. Estava estendida a ponte entre o paraíso que perdemos e o paraíso que agora podemos esperar pelos merecimentos infinitos do Coração do Salvador.

Jesus havia dito que Ele era a PORTA,  a porta por onde suas ovelhas podem entrar no Céu. Como tudo isto foi feito pelo amor infinito de Jesus e deste amor é símbolo o coração, Jesus quis, que já consumada esta obra de supremo amor, fosse patenteada esta porta e este refúgio; quis mostrar a ternura do seu Coração, permitindo que fosse aberto o seu lado com uma lança, para dar-nos com isso a entender que nos ficava aberta a entrada para o seu Coração, aonde podemos sempre acolher-nos como a sagrado e doce refúgio.


Caríssimos, contemplemos agora, o Salvador cravado na cruz por nosso amor, com a coroa de espinhos na cabeça, todo o seu corpo coberto de sangue, com as quatro chagas dos cravos e a da lança.  Estas cinco chagas abertas são como outras cinco bocas que estão pedindo amor como explica Santo Agostinho: "Grava, Senhor, as tuas chagas no meu coração, para que me sirvam de livro, onde eu possa ler a tua dor e o teu amor: a tua dor para suportar por Ti toda a sorte de dores; o teu amor para amar-Te ardentemente e para desprezar pelo teu todos os outros amores." Disse S. Paulo: "O amor de Cristo obriga-nos" (2 Cor. V, 14). E assim comenta São Francisco de Sales: "Verdadeiramente nada move tanto o coração dos homens como o amor... Ora, sabendo nós que Jesus Cristo, nosso verdadeiro Deus, nos amou até sofrer por nós a morte, e morte na cruz, não é isto razão para ter os nossos corações apertados e comprimidos para tirar deles todo o sumo precioso do amor, com uma violência que, quanto mais forte é, mais deleitoso se torna?" Amém!

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A CONFISSÃO DEVE SER INTEIRA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 22º

Se o pecador não se confessar dos pecados mortais de que tem lembrança, não recebe o perdão. Falo dos pecados lembrados, porque, esquecendo involuntariamente um pecado, desde que a pessoa tenha um arrependimento geral de todas as ofensas feitas a Deus, este pecado esquecido será perdoado; mas, se a pessoa se lembrar dele depois, deve então confessá-lo.

No caso, porém, de a pessoa deixar voluntariamente de declarar um pecado mortal, então deve acusar-se desta omissão, e renovar além disso a confissão de todos os outros pecados já declarados; pois, a confissão foi nula e sacrílega.

Santa Teresa d'Ávila, que vira o inferno, não deixava de repetir aos pregadores: "Pregai, pregai contra as más confissões; pois, é pelas más confissões que a maior parte dos cristãos se condena".

Caríssimos, é, na verdade, vergonhoso cometer o pecado, mas não é vergonhoso livrar-se dele pela confissão. Aqui podem-se aplicar as palavras das Sagradas Escrituras: "Há  vergonha que leva ao pecado, e há vergonha que traz consigo glória e graça" (Eclesiástico, IV, 25). Devemos fugir da vergonha que nos torna inimigos de Deus pelo pecado, mas não da que, pela confissão do pecado cometido, alcança a graça de Deus e a glória do céu.

Que vergonha houve para os santos convertidos e penitentes, quando fizeram a confissão de seus grandes e inúmeros pecados? Assim: Santo Agostinho, Santa Maria do Egito, Santa Margarida de Cortona, etc.? Foi pelas suas confissões que adquiriram o céu, onde agora gozam de Deus. Quando Santo Agostinho se converteu, não contente de confessar os seus pecados, ele os consignou em um livro, para os tornar conhecidos de todo o mundo.

Santo Antônio de Lisboa (de Pádua) conta que um bispo viu um dia o demônio ao lado de uma mulher que se dispunha à confissão, e lhe perguntou o que fazia ali. O espírito maligno respondeu: "Estou restituindo o que roubei; quando tentei esta mulher para pecar, tirei-lhe a vergonha; agora, lha restituo, a fim de que não tenha coragem de confessar o pecado". S. João Crisóstomo diz o seguinte: "Deus deu a vergonha para o pecado, e a confiança à confissão. O demônio faz tudo ao contrário: liga ao pecado a confiança, e à confissão a vergonha". 


Cuidado com o demônio mudo, muito cuidado com ele! Faz como o lobo: este toma a ovelha pelo pescoço, para que ela não possa gritar; e, segurando-a assim, a arrasta e a devora. Do mesmo modo age o demônio com certas almas: toma-as pela garganta, impedindo-as de declarar o seu pecado. e, por este meio, leva-as para o inferno.