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terça-feira, 6 de março de 2018

Aberrações ensinadas pelo ISPAC em Belo Horizonte

OBSERVAÇÃO: Trata-se, mais uma vez, de um artigo do saudoso erudito Gustavo Corção, artigo este extraído do livro A TEMPO E CONTRA TEMPO, escrito em 8-6-1968.
   Talvez alguém ou até muitos perguntem o porquê da transcrição de assuntos tão antigos! É porque a História é mestra da vida. 
   Li em 23-06-2015 um artigo no conceituado site "FRATRES IN UNUM": A CNBB decrépita e a Juventude da Fé Católica" e li também em (05/03/2016) "CNBB PROFÉTICA.   Fiz do primeiro artigo  um comentário onde afirmo que, com poucas exceções, são os bispos no mundo todo que estão tirando o fé do povo. Pois bem, disse que no decurso de uns longos 50 anos, venho acompanhando a derrocada da fé, crise esta perpetrada por aqueles mesmos que deveriam ser os guardas da mesma fé. . É a autodemolição. Mas ainda em 1968, pelo menos no Brasil, bispos esquerdistas e progressistas eram minoria. Se Corção fosse vivo hoje teria a nímia facilidade em provar o contrário: os bons bispos constituem minoria inexpressiva (não só numérica como ativamente). 
   Pelo artigo de Gustavo Corção podemos averiguar que o mau fermento do esquerdismo e progressismo, logo após o Concílio Vaticano II, já levedava a massa da crise atual. Eis o artigo:


"O EPISCOPADO brasileiro conta com muitos bispos sábios e veneráveis. Posso até afiançar, e poderia provar, que é uma pequena minoria a famosa ala de bispos esquerdistas ou progressistas, que se inculcam como interessados pela melhoria de condições sociais, e que insinuam que todos os que deles descordam só o fazem para defender o status quo e para impedir as ditas melhorias sociais do Brasil. Torno a dizer: graças a Deus constitui minoria (e só não digo inexpressiva minoria porque esses poucos são excessivamente expressivos) a parte do episcopado que mais se interessa pela promoção de suas ideias do que pelo zelo da boa doutrina.
A grande parte do episcopado continua, digo melhor, permanece onde o Cristo Jesus recomendou que permanecesse (Jo. XV). Mas depois desta sincera e consoladora declaração, não vejo como explicar e como ocultar a inquietação diante do que se faz atualmente no Brasil sob o olhar aprovador da Conferência Nacional dos Bispos e, portanto, sob a mesma aprovação dos bispos que não são modernistas e transviados.
Como exemplo dou abaixo duas transcrições do que se ensina no ISPAC  de Belo Horizonte. em cursos para formação de catequistas, começando em 2 de março, foram abordados vários assuntos, e distribuídas as apostilas respectivas. A que tenho diante dos olhos refere-se ao tema "secularização" e constitui uma das novidades da onda de apostasia que corre o mundo.

Eis as duas passagens que colhemos entre outras equivalentes, e que transcrevemos, pedindo ao leitor desculpas pelo mau português que não é nosso:

   "DESPEDIDA DO CRISTIANISMO TRADICIONAL - Notamos, em nossos dias, uma deseclesialização;  cada vez mais a gente fica por fora da Igreja com suas práticas tradicionais. Uns porque não concordam com o cristianismo em sua forma tradicional. Esta é por demais estranha ao mundo de hoje. Outros são mais indiferentes: não apenas o cristianismo tradicional está ultrapassado mas também a religião como tal (pois pertence a uma forma de cultura anterior). Mais outros dizem: sei que creio, mas sei também que a fé se torna discutível. Vamos procurar! Parece que a última posição é a mais comum: procurar uma resposta, uma nova forma de cristianismo. Isto é um sinal feliz. Pois enquanto há procura há também esperança. Os melhores livros atuais não são aqueles que já têm a resposta pronta, mas os que partem da realidade e sua problemática e tentam descobrir de que é que se trata afinal. As respostas antigas não satisfazem, pelo menos não na forma tradicional. Novas respostas ainda não há. Estamos numa fase de transição. Em tudo isto trata-se, em primeiro lugar, de cristianismo tradicional. Acabou. Existem várias opiniões a respeito deste fenômeno... A expressão "Deus morreu, nós o matamos", não é nova. Já a encontramos na obra de Nietzsche... A expressão "Deus morreu" pode significar: rejeitar a imagem tradicional de Deus, feita à imagem do homem, projetada a partir da incapacidade de dominar o mundo e a natureza; pode ser rejeitar o cristianismo tradicional, de um cristianismo estranho à vivência atual do mundo; pode ser também aceitar uma atitude ateísta na qual o homem se responsabiliza pelo mundo... e este modo de pensar é a tentativa de refletir sobre a fé, não na maneira de adaptação, mas na base da ruptura total com a tradição, para fundar a vida cristã, mas salvando a plena responsabilidade intramundana pelo mundo, pela história. Nestas tentativas nem tudo mostra madureza de pensamento. Há também disparates. Aliás, nem todos esses teólogos concordam entre si. Combatem-se mutuamente. Mas em todo o caso trata-se de uma séria tentativa, geralmente de jovens (está dito tudo!!) para situar o cristianismo no futuro próximo". 

   Agora eu. Torno a pedir desculpas ao leitor pelo mau português e pelo bestialógico. Feitos esses descontos, o que sobra é simplesmente o seguinte: o ISPAC, Instituto Superior de Pastoral Catequética, em Belo Horizonte, como aliás no Rio e em outros pontos do país, está ensinando os caminhos da apostasia, da blasfêmia, da negação de Deus, da recusa do cristianismo, a umas pobres freiras apatetadas, ou a uns jovens inebriados pelo incenso com que são adorados. Bem sei que esses professores são, antes de tudo, uns pobres idiotas que talvez não saibam o que fazem.

   O movimento modernista que aflige a Igreja e perde as almas se compõe, como é regra nestes casos, de uma pequena parte de perversos e uma multidão de idiotas. Seja como for, o resultado bruto é uma monstruosidade que me leva a clamar, a gritar, aos ouvidos dos bispo do Brasil.

   Onde estais? Como podeis admitir que tais coisas se ensinem com o apoio, as bênçãos e as verbas da Conferência Nacional dos Bispos? Como entender que os descendentes dos apóstolos se tenham tornado tão insensíveis à Sagrada Doutrina que tem por assinatura o preciosíssimo sangue de nosso Salvador? Onde está a Fé de nossos Bispos? Onde a autoridade? Onde o amor pela Igreja? Onde a devoção pelas palavras de vida?

   O pobre imbecil que ditou as palavras acima transcritas acaba de descobrir que a tradição católica é a da partida para novas procuras, porque onde há procura há esperança. De onde eu concluo que, na doutrina desse frade franciscano de Divinópolis, só há esperança onde faltar a fé.

   Veja bem o leitor: nenhum de nós ignora que a vida seja uma procura perpétua, um esforço contínuo. Todos nós procuramos os caminhos para melhor servir à vontade de Deus. Às vezes entendemos mal a irrepreensível Providência. Nenhum de nós se gaba de ter chegado a uma forma, a um padrão de vida satisfatório. Mas o que esse frade apóstata nos diz é que o própria palavra de Deus não é de Deus. Estivemos iludidos até aqui. Foi falso o ensinamento da Igreja durante vinte séculos. Sim, durante vinte séculos a Igreja ensinou a um povo boboca uma história parecida com a do Papai Noel, que traz brinquedos no noite de 24 de dezembro. Agora, depois do Concílio, abrimos os olhos, descobrimos os pêlos do corpo, somos adultos, e podemos tranquilamente deitar pela janela os algodões e os cetins da fantasia do pobre Papai Noel.

   Há ainda uns bobos que creem, mas o ISPAC está atento e pronto para soerguer do chão da crença elementar esses pobres retardatários...

   Detenho-me aqui exausto, sem saber continuar este artigo. Provavelmente hão de achar que sou eu quem está fazendo o escândalo dentro da Igreja. 

                                                                                            8-6-68 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Para a II Conferência Geral do CELAM

Artigo extraído do livro "A TEMPO E CONTRATEMPO" de autoria de Gustavo Corção.
Artigo escrito em 13 - 06 - 1968


   UM padre estrangeiro que vem pregar no inflamável Nordeste a "revolução social indispensável", ou a arrancada para a socialização, merece a nossa atenção; e até merece nossa obsessão. Por isso volto ao Padre Comblin, e às suas notas distribuídas como documento básico para a II Conferência Geral do CELAM a realizar-se em Bogotá em 16 de julho próximo. Será preciso tornar a dizer que esse "padre" belga é hóspede do Arcebispo de Olinda e Recife? 

   Continuando a leitura do documento, encontramos à página 6 uma amena descrição da CONQUISTA DO PODER. O papel que tenho na mão não apresenta chamuscos de fogo e manchas de sangue, é uma pacatíssima cópia termofax onde se lê uma ainda mais pacatíssima, se me permitem, propaganda comunista. 

   Em certa altura, o autor se queixa das circunstâncias históricas em que a Igreja - sempre esta estouvada! - foi "um dos fatores de eliminação do comunismo". E logo a seguir: "Acham que isso foi uma grande vitória".

   Em outro lugar, diz o autor das lições endereçadas aos bispos do Brasil: "Será preciso fazer alianças, entrar em compromissos, sujar as mãos pelas alianças sujas". Observe o leitor que excelente programa nos traz este padre belga. Devemos sujar as mãos. Com quê?

   Lembro-me aqui da definição que Bernanos dava da História: "un peu plus de sang, un peu moins de m.; un peu plus de m.; un peu moins de sang". Em qual das duas substâncias deveremos, nós católicos (vós bispos!), sujar as mãos?

   Em outro tópico, intitulado SITUAÇÃO INTERNACIONAL o "padre" Comblin, hóspede do Arcebispo de Olinda e Recife, parte da seguinte constatação que se tornou para ele bem clara na conferência da Nova Déli: "as nações desenvolvidas estão bem decididas a nada fazer para acelerar o desenvolvimento das demais".

   Mas em outro tópico, na última página das diretrizes que os bispos devem seguir em Bogotá, o "padre" belga diz: "A importação de sacerdotes, religiosos e leigos, assim como a aceitação de capitais estrangeiros criou uma série de instituições dependentes de outras igrejas (...). A Igreja tornou-se colonial (...). Seria oportuno interromper a invasão de sacerdotes estrangeiros, cujo número já é excessivo".

   Peço ao leitor que detenha a leitura e dedique uns minutos de meditação a esse abismo de impostura e a esse enredo de contradições com que os falsos profetas querem incendiar nosso pobre Brasil. Como se queixa ele da falta de ajuda estrangeira, e logo depois nos diz que ela já é excessiva?

   Salta aos olhos que a única coisa objetiva que esse tipo de pregador deseja é a confusão, a anarquia, e finalmente a abundância daquelas duas substâncias a que acima nos referimos. Para mim esse tópico tresanda a uma insuportável torpeza porque sempre, desde que entrei na Igreja, tive pensamentos de ação de graças pelos padres estrangeiros que encontrei no caminho da vida.

   Lembro-me logo do bom Frei Pedro Sinzig, que foi o primeiro a trazer em minha pobre casa o Corpo de Deus; lembro-me depois de muitos outros que amei e admirei e a quem devo tanto. E ainda hoje agradeço a Deus o bom vigário de minha paróquia.

   Como quer esse belga expulsar do Brasil os portadores da palavra de Deus, que prolongam a travessia de Cristóvão Colombo, o cristóforo que atravessou as águas para trazer a cruz ao Novo Mundo? Como ousa deitar no papel e entregar aos senhores Bispos do Brasil tamanha enormidade?

   Mas agora vejo o "lado positivo" ou a "mensagem" destas notas do "padre" Comblin: apliquemos a ele mesmo, belga, estrangeiro, o princípio do anticolonialismo eclesiástico.

   Sim, na verdade há padres estrangeiros que se tornaram excessivos e indesejáveis em nosso território. O Padre Comblin é um deles. E aqui lhes digo, meus caros leitores, o que eu faria hoje, agora, se fosse Presidente da República.

   Não saberia responder o que faria amanhã para o desenvolvimento, para a educação, a agricultura e para a fazenda ou o planejamento. Declaro, com a maior sinceridade, minha generalizada inépcia em todas essas matérias; mas uma coisa pequenina eu faria, se me dessem, como no romance de Mark Twain, o poder do Presidente por quinze minutos apenas: mandaria de volta para seu torrão natal esse padre verdadeiro ou falso que quer incendiar o Brasil, e aproveitaria a tinta para assinar uns dois ou três processos de expulsão do país relativos a padres que declaram desejar para o Brasil uma "revolução etária" como o chienlit de Paris.

   Mas a chave de ouro das instruções que o padre belga hospedado pelo Arcebispo de Olinda e Recife dirige ao episcopado brasileiro é esta: "A independência das dioceses, das paróquias e das províncias religiosas devem ser combatidas".

   Estamos num platô da ascensão progressista. Ficaram para trás todas as instituições de direito divino derrubadas pelos inovadores; a própria Igreja de Cristo, como velha prostituta desprezada, ficou também para trás ("é preciso romper com o passado!"), e diante do olhar extasiado do "novo padre" progressista, a perder de vista, se desenrola a paisagem humana, os campos e as cidades... e então,, a voz do inimigo do gênero humano lhe sussurra aos ouvidos: "Eu te darei tudo isto se, prostrado aos meus pés, tu me adorares"

                                                                                  15-6-68

Observação: O antigo e extinto "Advogado do Diabo" nos processos de beatificação e canonização teria se baseado neste artigo do  escritor católico - Gustavo Corção - para obstar a beatificação do "caridoso" D. Hélder Câmara que gentilmente hospedava o "padre" Comblin. 
  Agora, não o "Advogado do Diabo" mas o Próprio,  o Inimigo do gênero humano terá dito: D. Hélder deve ser canonizado porque acolheu meu grande colaborador Comblin!!! e D. Vital deveria ter sido excomungado como foram Dom Antônio de Castro Mayer e Dom Lefebvre. 
   É obvio que "canonização" no intento do Pai da mentira significa que o agraciado deve ser proclamado como lutador heroico em prol do comunismo, da maçonaria e do progressismo. 

Estranhas declarações

Artigo extraído do livro "a TEMPO E CONTRATEMPO" escrito por Gustavo Corção.

   A EXPERIÊNCIA secular ensina que, depois de certo tipo de erro, as explicações só servem para agravá-lo. Diz-se, então, que a emenda saiu pior do que o soneto. E foi precisamente isto que se verificou no caso dos sonetos improvisados pelo Padre Comblin: seus companheiros de convicções ou de lutas produziram emendas visivelmente desalinhavadas e ainda mais comprometedoras do que a peça inicial.

   Consideremos, por exemplo, o que disse à imprensa em Recife, Monsenhor Marcelo Carvalhera, Diretor do Instituto de Teologia do Recife e Vigário Episcopal da diocese. Entre outras coisas, elucidou que o documento divulgado, em que o Padre Comblin pregava uma arrancada revolucionária para a conquista do poder, destinava-se somente aos teólogos. E aí está o que vem agravar a situação.

   Até ontem imaginávamos todos que o palavrório do Padre Comblin pertencesse ao revolucionarismo barato e inofensivo que se ensina escancaradamente no Colégio do Brasil, nas missas dominicais e nas colunas ocupadas pela intelligentzia que se julga obrigada a um socialismo em falsete para compensar a macia futilidade da vida de seus membros. 

   Seria mais um papel das esquerdas, mais um xerox ou termofax, mais um fazer-de-contas que estamos tramando uma revolução perto da qual a russa empalidecerá. A facilidade com que me veio às mãos o programa do Padre Comblin parecia-me a sólida garantia de sua ineficácia, trazia-me tranquila certeza de seu caráter estratosférico e bocó. 

   Agora vejo, aterrado, que tenho agentes habilíssimos, e que só por uma requintada trama de operações consegui obter, quase no dia seguinte, o papel revolucionário que se destinava exclusivamente aos teólogos. E agora sabemos que existe, em Recife e pelos arredores, uma sociedade secreta de teólogos organizada para a conquista do poder, para implantação de novas estruturas neste atrasado país sul-americano.

   Na página 6 do documento secreto destinado exclusivamente aos teólogos de tal sociedade secreta, lemos com terror: "A CONQUISTA DO PODER - Esta supõe a formação de um grupo coerente, unido, capaz de uma ação de conjunto. Provavelmente com lideranças carismáticas". O grupo coerente já se revelou: são os teólogos a que se destinavam as cópias do manifesto; quem será agora o "líder carismático?"

   (...)

   Há ainda uma declaração do mesmo Monsenhor que me deixa pensativo. Diz ele que o documento foi escrito em oito horas, e por isso não pôde sair mais polido. Não imagino bem a natureza que teria tal polimento, nem me deterei neste problema porque todas as potências da alma me levam em outra direção mais fascinante: além de secreto, o documento era urgente.

   Estamos em pleno ambiente revolucionário. Sinto cheiro de pólvora e já ouço o gemido dos feridos trazidos nas padiolas. E por toda a parte só vejo teólogos. Teólogos compondo artigos revolucionários, teólogos estudando planos de batalha, teólogos distribuindo granadas, teólogos empunhando metralhadoras. teólogos nos paióis e nas cantinas.

   O leitor antiquado imaginava, como eu, que o teólogo, habituado a cuidar de problemas transcendentes, sub specie aeternitatis, fosse um homem pausado, sem pressas e sem ardores de combates sanguinários. Agora vemos que, nos arredores de Recife, a teologia desinteressou-se dos mistérios da Trindade e da Encarnação, para cuidar da nova estruturação da América Latina. Creio ter entendido que se trata de Teologia Pastoral. Estranha, estranhíssima pastoral essa que consiste em dispersar o rebanho, e até em entregar as ovelhas aos lobos.

   Um dos mais belos quadros evangélicos - "Eu sou o Bom Pastor..." - se transforma em painel de carnificina. Mas o que mais me intriga em todo esse amontoado de prodígios da humana imbecilidade é a completa falta de motivação para a campanha encorajada pelo teólogo Comblin. Ele e seus adeptos sonham uma espécie de socialização furiosa e total que, além de ser categoricamente desaconselhada por três ou quatro papas, é ainda mais categoricamente desaconselhada pela experiência.

   O mundo inteiro sabe hoje que não é a socialização total o melhor remédio para as paralisias sociais. O mundo inteiro sabe que os países subdesenvolvidos como o nosso são mais vítimas dos maus governos que tiveram do que das espoliações imperialistas. Mas os teólogos das cercanias de Recife não sabem nada, não leram nada, não se lembram de nada. Obnubilados por uma paixão revolucionária que traduz um ressentimento profundo, só pensam em motins, em guerrilhas, em lideranças carismáticas e em metralhadoras. 

   Volto ao espanto anterior. Disse o Padre Comblin que o seu trabalho foi escrito em oito horas, sem tempo para melhor polimento. São doze páginas de espaço um. Imagino facilmente o afã febricitante com que foi escrito, se realmente como dizem, foi escrito em oito horas. E agora torno a perguntar com uma obsessiva e obtusa perplexidade: por que oito horas? Por que essa pressa? Como se explica tamanho nervosismo teológico? De onde vinha a urgência?

   E volto à anterior convicção: o documento, sem as explicações, explicava-se pela onda de tolice que corre mundo; com as explicações torna-se tenebrosamente inexplicável. Sim, ao menos para mim, porque não consigo acreditar que padres de Jesus Cristo tenham tamanha cegueira para não ver o que seria um comunismo sul-americano, ou tamanha perversidade para desejá-lo.

                                                                                                                                     20-6-68
N.B. É bom lembrar que o Padre Comblin era hóspede de D. Helder Câmara. 
Há um provérbio latino que diz: "Asinus asinum fricat". Não traduzo porque o latim é uma língua respeitosa. 



   

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Amarrados aos próprios cadáveres

Extraído do livro "A TEMPO E CONTRATEMPO" de autoria do saudoso Gustavo Corção.
Artigo escrito em 27 - 7 - 1968.

   Peço ao leitor o grande obséquio de aguentar o meu obsessivo interesse por um documento que em si mesmo é pouco interessante, mas muito significativo do estado em que se acha uma parte de nosso clero. Refiro-me ao documento assinado por trezentos e cinquenta padres e entregue aos bispos reunidos na IX Conferência. Transcrevo outra passagem elucidativa da mentalidade desses sacerdotes: "A Igreja de Cristo se apresenta sob a roupagem de um Instituto, com funções e doutrinas sacralizantes (?). O homem secularizado (?) não vê como um valor esta Igreja, mas sim a pessoa de Cristo e sua mensagem".

   Agora nós: entre as várias mensagens de Cristo está a fundação da Igreja sobre a pedra de Pedro, e a instituição da Sagrada Eucaristia que representa, se não houve um delírio de dois mil anos e não sabemos quantos mil estudiosos e santos, o máximo de condensação de sacralidade, isto é, de algo que se segrega do mundo e do século como uma presença de eternidade. 

   Agora, eles: "Assim interpretamos o afastamento tranquilo de tantos cristãos, leigos e padres, não poucas vezes em nome da própria fé. Consequência disto é o número decrescente de candidatos ao ministério pastoral"... Aqui os padres se mentem a si mesmos para depois mentirem aos outros com tranquilidade e pedantismo.

   Não é verdade o que dizem. Ao contrário, exatamente ao contrário do que dizem esses meta-protestantes, não faltavam vocações nas eras em que os valores sacrais e institucionais da Igreja não eram alegremente desmoralizados por padres "progressistas". Eu mesmo tive ocasião de ver, nos primeiros dias de minha vida católica, nos dias benditos em que descobria em cada hora uma beleza maior na Casa Luminosa, um movimento admirável que levou dúzias de moços inteligentes e bons a procurar no Mosteiro de São Bento e na Ordem dos Pregadores a vida de perfeição e de mais densa sacralidade. 

   E foi justamente agora, quando surgiram essas novidades com que tentam desfigurar a Igreja, que se esvaziaram os seminários e as casas religiosas. Com esse eufemismo, SECULARIZAÇÃO,  os padres da ala protestante avançada trabalham para esvaziar a Igreja e para desvalorizar as coisas sagradas. 

   Mais adiante continuam: Ser homem de Deus está-se tornando algo a-histórico. Não por causa da função, mas por causa do sistema eclesiástico que impede a inserção na vida real"... "Numa palavra, trata-se de optar entre uma Igreja de cristandade e uma Igreja secularizada, presente no meio dos homens, vivendo suas alegrias e angústias".

   Realmente, trata-se de optar, e todos nós gostaríamos que a opção desses signatários de tal manifesto se tornasse mais nítida, de um lado ou de outro, para enriquecer a Igreja de Cristo ou para aliviá-la da presença, da adesão puramente material, guiada não sei por qual interesse, de seus cruéis inimigos. 

   Quanto ao simpático programa de viver "entre as alegrias e angústias dos homens", quero dizer que poucas vezes vi estampada mais brutal e estúpida injustiça contra a Igreja de Cristo, sim, contra a Igreja institucionalizada, contra a Igreja fundada em cima da Pedra e em torno do Pão, mas pedra e pão elevados a outra ordem. Na opinião desses padres revoltados, a Igreja tem de se dissolver no mundo para poder viver as alegrias e angústias dos homens.

   É claro que isso seria verdade se admitíssemos o princípio do imanentismo, pelo qual só pode simpatizar e viver as angústias dos doentes quem é doente como eles. Essa doutrina que nega a possibilidade do verdadeiro amor é um dos mais degradados efeitos do empirismo de nossa cultura, e leva diretamente ao materialismo, como, aliás, todo o democratismo de que se inspira o documento que examinamos.

   Torno a dizer: nunca se disse tamanha injustiça contra a Igreja, contra os santos, contra vinte séculos de cristianismo. Estou pensando num São Vicente, que, na opinião dos padres signatários do manifesto, não soube viver entre as alegrias e angústias dos homens. Ele é que sabem. Como? Casando-se? Brincando com os jovens? Tomando parte em passeatas que reivindicam coisas sabidamente ditadas pelos inimigos da Igreja?

   Estou pensando também numa Catarina de Sena que andou sempre pelas ruas da Itália. Estou pensando em São João Bosco, em São Paulo Apóstolo, em Santa Teresinha do Menino Jesus. Misturo as épocas, sobrepondo os séculos, e vejo sempre o grande sopro ardente de caridade. Incluí uma contemplativa na minha lista apressada, porque acredito na Comunhão dos Santos, a única forma perfeita de socialização.

   Sim, creio na comunhão dos santos e na reversibilidade de méritos e deméritos que decorre do seu dinamismo. Assim como nos laboratórios fechados, defendidos do mundo por paredes e guardados, se preparam medicamentos que depois serão espalhados e transformados em alívio de dores, também na Igreja fechada se prepara, se destila, se transubstancia o pão, se sacraliza a pedra para ulterior distribuição visível ou invisível.

   A mim me parece claro como água que atrás dessa  "secularização" desejada pelos "novos padres" o que há é simplesmente uma falta de Fé e um jogo de orgulho, muito conhecido, para disfarçar a miséria infinita dessa falta de Fé. Digo isto pelos sinais exteriores, sem poder julgar os corações. Também pode ser que o fenômeno se explique cabalmente pelo assanhamento em que se acha mundialmente a tolice humana.

   Mas agora vejo que não expliquei o título! Estou pensando no presbítero de Alexandre Herculano que também, por não poder casar-se, disse esta frase monumental: "Sabes tu, Hermengarda, o que é viver dez anos amarrado ao próprio cadáver?"

   Parece-me que os novos presbíteros [=padres] também estão pouco satisfeitos como os próprios cadáveres.

                                                                                                                                            27 - 7 - 1968

P.S.: Leiam, caríssimos leitores, o artigo de Leonardo Boff: "PAPA FRANCISCO: IGREJA EM SAÍDA DE ONDE PARA ONDE?' (25 / 06 / 2015). Vejam até onde os padres esquerdistas e progressistas conseguiram chegar!!!  Nós que, pela graça de Deus conservamos a Sagrada Tradição, não podemos ficar calados. 
   Estes "eclesiásticos" só esperam ainda que o Papa Francisco os liberte oficialmente, de seus próprios cadáveres.