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terça-feira, 24 de setembro de 2019

RESPONDENDO OBJEÇÃO CONTRA A HUMILDADE

LEITURA ESPIRITUAL

OBJEÇÃO: Esta humildade excessiva, diz a maior parte das pessoas do mundo, enerva a alma e tira-lhe toda a confiança em suas forças. Acham que uma pessoa humilde seja sinônimo de uma pessoa deprimida, sem coragem e energia.

RESPOSTA: Vamos provar que é precisamente o contrário que é a verdade. Mas, antes permitam-me explicar melhor o principal móvel da humildade em sumo grau. Além do amor à verdade e à justiça como motivadores da suma humildade, quero, antes de refutar a objeção, explanar um pouco mais um outro motivo poderoso, um atrativo irresistível que incita as almas grandes às humilhações e desprezo: É O EXEMPLO DO DIVINO MESTRE.

Caríssimos, no Céu não podia o Verbo eterno humilhar-se; é Filho de Deus, em tudo igual a seu Pai. Desce à terra, faz-se homem. Como homem, é inferior, pode abater-se. Vede agora como abraça as humilhações e os desprezos, como percorre todos os graus da abjeção e aniquilamento. Diz S. Paulo: "Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses II, 7 e 8). Nasce num estábulo, passa sua vida na oficina dum pobre carpinteiro; morre numa cruz, saturado de opróbrios e afrontas... Que lição, que exemplo, que estímulo! No mundo afinal, não chega a fascinar os mundanos a paixão por uma vil criatura, de quem o coração se enamorou, até fazer-lhes amar seus defeitos, seus caprichos, até imitá-los?! Não se impõem cada dia os sensuais peníveis sacrifícios para agradar a um ídolo de barro?!

E não pode o amor divino arrebatar uma alma, e inspirar-lhe transportes tão vivos, tão veementes como o amor profano? Não pode um cristão inebriar-se tanto no amor do seu Salvador, que ache sua glória e sua dita em se lhe assemelhar, em ser como Ele escarnecido e pisado?

"Fanatismo", dirá o mundo. Mas é que para ele a santa loucura da cruz é um mistério; ignora qual é o preço das humilhações, desde que o Homem-Deus as tomou por divisa.

"Devaneio!" insistirá o mundo.

Caríssimos, interrogai a maior parte das pessoas do mundo, mesmo essas que se prezam de sábias e instruídas, e perguntai-lhes: O que é um cristão humilde? Responder-vos-ão: É um homem que só tem aspirações rasteiras. Dizem ainda: é um homem a quem a devoção destituiu de todo o sentimento da sua dignidade, de toda coragem, de toda magnanimidade, isto é, de todas as energias para  grandes ações.

Eis aí como julga das coisas o mundo insensato! Pois, é justamente o contrário que é a verdade. Conheceis um orgulhoso? Toda a sua aspiração é distinguir-se, dar que falar de si [se desculpam dizendo que é para vencer o respeito humano]. Para atingir seus fins, irá agora arrojar-se ante os grandes da terra e adorar seus devaneios, logo adular ignobilmente a alguém que arvoram em ídolo. O orgulhoso descerá às mais vis, às mais vergonhosas intrigas para suplantar um êmulo e elevar-se em sua queda. Adorador de si mesmo, tendo estima só por si, comprimiu-lhe o egoísmo seu coração, paralisou-lhe todas as potências de sua alma. Debalde esperareis dele sacrifícios generosos em prol do bem público. Joguete de suas paixões, adulador, escravo dos que dispõem das honras e das riquezas, ou se desvanece nas fumaças do orgulho, ou se estira na lama.  

Na verdade, só os humildes mantêm a dignidade da natureza humana. Pois, na pessoa humilde nunca o conhecimento do seu nada e de sua miséria está isolado do conhecimento das grandezas e bondades de Deus. É nada, e de si mesmo nada tem; e assim todo bem que vê em si, reconhece ter recebido de Deus. E sabe que Deus o criou para glória d'Ele, que lhe deu um nobre destino, que por graça de sua misericórdia o admitiu à adoção de seus filhos. Não andará à busca da aprovação duma vil criatura. Sabe que é nobre vassalagem depender senão de Deus! Mas sabe que criado por Deus, deve reverter a Deus; que, redimido pelo sangue de Jesus Cristo, tem o Céu como herança. Os humildes deixam que os amadores da vaidade e da ilusão se fatiguem em demanda das honras, das riquezas e prazeres. Eles puseram suas esperanças bem mais alto e assim as comodidades sensuais mas efêmeras deste mundo, as pessoas humildes as calcam aos pés; livram-se de todos os empecilhos  que tolhem os vôos de seus corações nobres e generosos. A alma dos humildes deixa a terra e voa em busca dos bens celestes e imortais.

Caríssimos, basta compulsarmos a vida dos santos para constatarmos a verdade do que acabamos de escrever. E só para indicar alguns exemplos: Santo Agostinho, S. João Batista M. Vianney, S. Bernardo, S. Francisco de Sales, S. Francisco de Assis, S. Vicente Ferrer, S. Francisco Xavier, S. Vicente de Paulo, Santa Catarina de Sena etc. Não eram todos humildes? Claro que sim, em sumo grau, do contrário não seriam os grandes santos que foram. E, no entanto, que sublimidade em seus pensamentos, que maravilhas no predomínio que exerceram em seus contemporâneos, quando se chega ao conhecimento de seus imortais escritos, sermões, cartas e feitos caritativos e apostólicos. Caríssimos, podemos estar certos que os santos acharam o princípio de sua força e grandeza exatamente na virtude da mais alta humildade.

Enquanto o orgulho, enfatuando as almas de presunção e vaidade, obceca o homem a tal ponto que coloca alguém ou a si mesmo como ídolo, a humildade, fazendo-o curvar aos pés do Soberano Senhor, põe-no em via de receber os mais preciosos dons do céu, a luz para conhecer, e a força para operar. Somos nada, mas tudo podemos em Deus quando oramos com humildade. Tudo podemos em Deus que dá sua graça aos humildes. Assim, nos erguemos do nosso pó, tornando-nos de alguma sorte semelhantes a Deus, fortes de sua força, sábios de sua sabedoria, onipotentes de sua onipotência.  Ao contrário, Deus resiste ao soberbo e abandona-o aos seus próprios recursos, isto é, ao seu nada, e todas as suas obras são infecundas. Agora veio-me a mente um fato: quando se tratou de escolher um candidato ao episcopado para conservação da Tradição em Campos, dois dos nossos padres, foram perguntar a D. Antônio de Castro Mayer qual a sua indicação e ele respondeu: "escolham a Monsenhor Licínio porque ele é humilde".

Quando Jesus Cristo apareceu na terra, havia pelo mundo reis e imperadores, não faltavam oradores afamados e profundos filósofos. Jesus escolheu a estes? Não... bem outro foi o plano concebido pela Sabedoria eterna. Escolheu pobres pescadores, rudes e alguns ignorantes. Ninguém os tinha em consideração. Mas, eis aí, os instrumentos que se há mister nas mãos de Deus para fazer coisas maravilhosas. Sua missão era nada menos que conquistar e mais ainda reformar o mundo inteiro. E como o farão: sofrendo a fome, a sede, as calúnias, as perseguições, as zombarias, os suplícios e a morte. E por que? Para que os mais cegos não possam deixar de ver que não são os homens mas a mão do Onipotente, que tudo fez. Ó sabedoria humana, que confia em seu pretensos dotes e em seu dinheiro e renome, confunde-te! Quão diversos são os juízos de Deus! Deus escolhe as coisas fracas para confundir os fortes!

Olhemos agora o outro lado da moeda considerando apenas um exemplo: Martinho Lutero. Tal homem havia recebido do céu talentos raros, um engenho muito grande; era dever seu fazer disto homenagem ao autor de todo dom perfeito, pô-los ao serviço de Sua glória. Mas ele se maravilha de si mesmo, atém-se às suas próprias forças e ideias. Mas, logo Deus se afastou dele; e eis a razão  que se abala das mais altas regiões, cai e desmorona-se, de queda em queda, aos mais vergonhosos desvios, aos mais incríveis delírios diabólicos. Deus rejeitou o orgulhoso!

Donde devemos concluir sem a menor sombra de dúvida: só os humildes podem esperar de Deus ajuda, amparo e proteção. Só eles, portanto, são capazes de efetuar coisas grandes na ordem sobrenatural e levantar monumentos que sobrevivam às catástrofes dos impérios. Eles, na verdade, nada empreendem, cônscios que estão de sua própria impotência, mas oram com humildade, pedem luzes, pedem forças, e Deus sempre os atende. Deus inspira-lhes algum pensamento para a glória Sua, e ei-los à obra com denodo; não há dificuldade que os amedronte; é seu sentir que, a despeito do seu nada pecador, alentados da força do alto, chegariam a revolver o universo. Não têm em vista nem estima nem respeito. Estão conscientes de que toda a glória do bom êxito  deve ser atribuída a Deus que é quem lhes dá a luz e a força. E Deus reconhece aí a sua obra e por vezes se compraz de sinalá-la com o selo da sua imortalidade. Assim entendemos o porquê de tantas maravilhas operadas no Cristianismo por homens simples e desprezíveis no pensar do mundo.

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O NOSSO CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

GRAUS DA HUMILDADE



A santidade depende estreitamente da humildade. E, quanto mais um homem é humilde, tanto mais é justo, tanto mais é santo, tanto mais é perfeito. Assim como há três etapas no caminho da perfeição, na humildade há três graus.

Caríssimos, sabemos pelas Sagradas Escrituras que o pecado origina-se do orgulho que não aceita nenhuma submissão. No Céu, no tempo de prova, Lúcifer se rebelou dizendo: "Não servirei!" e muitos anjos seguiram este mau exemplo. Na terra, Eva e Adão caíram também levados pelo orgulho: pensar em ser "iguais a Deus". E este espírito de rebelião passou a todos os homens: é o triste apanágio de nossa natureza decaída. Por efeito do pecado original, somos todos, uns mais outros menos, inimigos da obediência, e da dependência. Como o filho pródigo almejamos liberdade longe de Deus para fazermos o que nos agrada. Ah! que tendência terrível!!! Ai de nós se não adquirirmos a humildade e nela sempre nos esforçarmos por crescer!

PRIMEIRO GRAU DE HUMILDADE: O orgulho está como que entranhado na medula de nossos ossos e infecciona todas as potências de nossa alma. Somos tentados a erigir-nos em pequenos deuses, referindo tudo a nós, como se fôramos o centro e último fim de todas as criaturas.

Mas, quando a luz divina chega a iluminar o nosso espírito e a graça a tocar nosso coração, logo se apressa a despedaçar esse ídolo, isto é, o "Eu". Desvanece-nos o nosso nada e ei-nos convictos de que o primeiro e mais essencial dever da criatura é submeter-se ao Criador, e obedecer a seus mandamentos, dispostos a perder tudo, a sofrer tudo, do que transgredir um só em matéria grave, e ultrajar um Senhor  que é a própria Santidade, onipotente e de suprema Majestade.

Esta disposição é o primeiro grau da humildade. Ele é necessário para a salvação. Portanto, no assalto da tentação, em perigo de ofender a Deus mortalmente, todo o cristão deve prorromper com São Paulo: "Quem me separará do amor de Cristo? Nada, nem o infortúnio, nem a fome, nem a sede, nem a perseguição, nem a espada, nem a morte!" (Rom. VIII, 35). Portanto, quem tiver perseverado até ao fim, resoluto antes a sacrificar seus bens, sua honra, sua vida, do que cometer um pecado mortal, este será salvo; afinal, humilhou-se sob a autoridade do Soberano Senhor, deu a Deus o que essencial e rigorosamente lhe é devido; deve por isso ser contado no número de justos. Mas, se não vai mais longe, não é senão um justo muito imperfeito. E devemos observar, embora de passagem, que as pessoas consagradas a Deus (os clérigos e os religiosos) não podem se contentar só com este grau de humildade.

SEGUNDO GRAU DE HUMILDADE: Consiste em nos submetermos ao nosso Criador com tão profunda entrega, que estejamos devotados a morrer, mas nunca contristá-lo nem na mínima coisa voluntariamente, isto é, de caso pensado. Este estado não aceita afeto nem apego ao pecado venial. As leves faltas em que se cai não são mais que o efeito da fragilidade humana; o coração e a vontade abominam-nas. Fica evidente que esta disposição é bem mais perfeita que a primeira que é o primeiro grau. E assim, quanto mais diante de Deus nos humilhamos, mais nos aproximamos da verdade e da ordem, da justiça e da santidade. E, caríssimos, não será sobremaneira consentâneo à ordem e à justiça que um bom filho jamais dê o mínimo desgosto ao melhor dos pais?

O ínfimo grau de glória vale incomparavelmente mais que nossa vida,e todos os bens deste mundo; porque é Deus o derradeiro fim de todas as coisas, e o fim é sempre de preferência aos meios. Ora a glória de Deus, (refiro-me à sua glória acidental) é que todas as criaturas Lhe sejam totalmente reverentes, que atendam ao mínimo sinal da Sua vontade. Quanto não devemos, logo, abominar o pecado venial, que é uma revolta contra esse Deus; é querer roubar a Sua glória!

Quanto aos eclesiásticos, todos os que possuírem este segundo grau de humildade, serão bispos e padres piedosos, fervorosos, que tratam a miúdo com Deus na oração, e dessas comunicações íntimas haurem as luzes e as graças que tornam seu ministério profícuo entre os povos. Padres assim, até com talentos medíocres farão o que outros não são capazes de fazer com todos os recursos da ciência e do gênio. Exemplo clássico é o do Santo Cura d'Ars!

Quem possui este segundo grau de humildade já é indubitavelmente justo e santo, quando com denodo se sacrifica tudo o que poderia diretamente opor-se à glória de Deus. No entanto, nem por isso se tem chegado a tal desapego das coisas criadas, que não se preze já sua própria reputação, a estima das pessoas virtuosas, certos prazeres inocentes que Deus não reprova. Mas, prestemos bem atenção nisto, sobretudo, nós caríssimos colegas no sacerdócio, que os que estacionam neste segundo grau, sem mirar mais alto, caem a breves passos em faltas impensadas, em muitas imperfeições inevitáveis em tal estado.  É ainda por isso que deixam escapar frequentes ensejos de praticar grandes virtudes. É claro que Deus os ama, e sobre eles derrama copiosas graças. Mas não vê neles a digna generosidade e correspondência, para lhes comunicar os dons extraordinários, os grandes privilégios, de que Lhe apraz cumular os Seus eleitos. É que ainda falta um grau mais excelente da humildade, grau este sim, que constitui o ápice da perfeição evangélica.

TERCEIRO GRAU DE HUMILDADE: De início, devemos observar que o heroísmo da santidade é um dom à parte. Mesmo na perfeição há diferentes graus. É bom, porém, que o conheçamos, mesmo que seja só no intuito de nos humilharmos vendo a imensa distância nossa destes heróis de santidade. Aqui é o lugar de meditarmos nestas palavras do divino Mestre: "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito"; e também nesta exortação do Divino Espírito Santo: "Aquele que é justo justifique-se mais, aquele que é santo, santifique-se mais" (Apocalipse XXII, 11).

O terceiro grau de humildade inspira à alma fiel tal desprezo do mundo, e tão grande amor ao desprezo, que, se dependesse de sua escolha ser honrada ou desprezada dos homens, e por qualquer destas vias viesse a redundar para Deus a mesma glória, essa alma, calcando aos pés a estima própria e das criaturas, abraçaria as ignomínias e os opróbrios com tanto afã como os mundanos empregam na procura de honrarias, renome e glória humana. E a alma faz esta escolha com toda alegria do coração por assim estar imitando o divino Salvador, e também porque assim se faz mais justiça a si mesma.

Mas, com certeza, muitos hão de perguntar: é possível chegar até lá. Digo que sim, desde que compreendamos bem o que é a humildade, se nos conhecemos perfeitamente a nós mesmos, e se amamos deveras a Nosso Senhor Jesus Cristo. Façamos algumas considerações: Haveis cometido em vossa vida um pecado mortal? Merecestes o inferno; por isto já estás ao nível do demônio. Haveis cometido dois? Com isto estás sob seus pés; pois que ele cometeu um só. Calculai agora a estima que vos é devida, pela que tendes para com os demônios, e para com os réprobos. Pois se ainda vos não achais na sua companhia a quem o deveis? Será à vossa virtude? Não é antes à bondade meramente gratuita do Divino Redentor?

Mas felizmente há almas que nunca cometeram um pecado mortal! Mesmo assim, se tivemos a dita de haver passado através dos perigos sem perdermos a graça batismal, só a vista de nossa baixeza e de tantas faltas em que cada dia caímos, não é para inspirar-nos o desprezo de nós mesmos? Pois, que somos nós por natureza? Nada. E que é o que se deve ao nada? O esquecimento; não se pensa no que não existe. Que somos nós por vontade? Pecadores, rebeldes mais ou menos, mas sempre rebeldes a Deus. E que merece o pecado, a rebelião? O desprezo, o castigo.

Quando nas epístolas de S. Paulo e na vida dos Santos, lemos que eles se consideravam como o lodo e a imundície do mundo, que se reputavam indignos de ver o dia, que se maravilhavam que Deus os pudesse suportar e que os homens não viessem todos a um tempo cobri-los de injúrias e de maus tratos, talvez pareça exagero. Mas não. Os Santos humilhando-se assim faziam-se justiça, e tanto mais eram agradáveis a Deus, quanto mais exata, e mais rigorosa justiça se faziam.

O homem humilde não gosta de receber louvores porque sabe que os não merece. Gostam que o tenham pelo que são em verdade: um nada pecador, e, portanto, um ser vil e desprezível. Eis o conceito que a pessoa humilde faz de si mesma, e folga que os outros pensem como ela. E mais, se alegram se a tratam segundo este julgamento que corresponde a realidade. Já o orgulhoso é um mentiroso, um usurpador, e por isso é que Deus o abomina, e repele com indignação.

A tal ponto nos perverteu a culpa original, que este terceiro grau de humildade constitui um heroísmo. Mas como chegar a termo-nos por pequenos, vis e desprezíveis, quando não podemos deixar de ver que temos feito coisas grandes? Respondo que é só ver isto que diz o Espírito Santo: "E que tens tu, que não recebesses? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tiveras recebido? ((1 Cor. IV, 7). Portanto devemos dizer: Como Deus tem feito por nós coisas grandes! Então é o caso de só admirar o poder e a sabedoria desse Deus grande, que, com instrumentos tão vis, quando Lhe apraz, opera prodígios! Na verdade, humildade não é desconhecer os dons de Deus e o poder de suas obras; é sim, não se arrogar a sua glória. Que perfeito modelo não é o proceder da Santíssima Virgem Maria: "Minha alma engrandece o Senhor... Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso!"...

Quando alguém nos rende louvores, ilude-se; é uma injustiça que faz a Deus; e nós deveríamos ficar envergonhados, confundidos.

No próximo artigo, se Deus quiser, responderei esta objeção, infelizmente não tão rara: Esta humildade excessiva enerva a alma, e tira-lhe toda a confiança em suas forças, deprime e impede a coragem e a fortaleza.

JESUS, MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

domingo, 22 de setembro de 2019

A VIRTUDE DA HUMILDADE


LEITURA ESPIRITUAL

"Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes! (S. Tiago IV, 6; 1 S. Pedro V, 5).

Por estas palavras do divino Espírito Santo, podemos concluir que, sem humildade não se chega ao céu, pois para se salvar é necessária a graça de Deus. E prestemos bem atenção nestas palavras: "Deus resiste aos soberbos", porque se, de um lado Deus dá a graça aos humildes, por outro, RESISTE aos soberbos. Ora, ser resistido por Deus é coisa muito séria. Donde se, fazendo um exame de consciência, alguém chegar à conclusão que é orgulhoso deve empregar todo empenho, todos os meios para combater a soberba e, conseguintemente, adquirir a virtude da humildade. São Gregório escreveu uma palavra que deveria fazer tremer a todos aqueles que não são humildes: "O sinal mais evidente da reprovação é o orgulho". Na verdade, quando este pecado não condena diretamente por si mesmo os homens que o cometem, condena-os por uma multidão de obras más que nascem dele como de uma fonte envenenada. Aliás, a característica deste vício capital é a estreita conexão que tem com os outros vícios. E podemos dizer que assim como a virtude da humildade está presente em todas as outras virtudes, assim também o orgulho está de uma maneira ou outra, ligado intrinsecamente a todos os pecados. E lamentamos como poucas pessoas julgam o orgulho tão nocivo, como efetivamente é. E assim muitos não o combatem e o acolhem sem desconfiança e pior, há pessoas que, dentro de certas entidades, confundem-no à fortaleza de alma no escopo de pretensamente combater o respeito humano. E o demônio empurra tais pessoas para o fanatismo. E não há quem os possa convencer mesmo citando as Sagradas Escrituras e os Santos Padres! E esta disposição, que por certo não é rara, é nimiamente perigosa. Por exemplo: separe-se um homem da Igreja pela heresia, e todos dizem: "o infeliz perdeu a fé". É verdade, mas antes de perder a fé, tinha perdido a humildade; e foi por não querer submeter humildemente seu juízo ao da Igreja, que arvorou o estandarte da rebelião.  Que horror, caríssimos, se, esquecendo do nada que é, o homem se deixar dominar pelo orgulho, odioso vício que o Divino Salvador tem em especial abominação: "O que é excelente segundo os homens, é abominação diante de Deus" (S. Lucas XVI, 15).

Todo o edifício de nossa santificação deve estar construído sobre um alicerce sólido, sobre a rocha. Esta rocha é o conhecimento de si mesmo, que leva o homem a fazer-se justiça, a colocar-se no seu lugar, a ser humilde. A humildade é verdade e é justiça. Vamos explicá-lo: A humildade é o justo juízo que de nós mesmos fazemos, e segundo o qual pautamos a estima de nossa própria excelência. Esta virtude faz que, reconhecendo-nos tais como somos, não nos arroguemos a nós mesmos, nem queiramos que os outros nos arroguem senão o que nos é legitimamente devido. Se, pois, descobrimos que em nós não há, como procedente de nós, bem algum, perfeição nenhuma, seja natural ou sobrenatural, requer a humildade que, restringindo-nos ao nada que é nosso apanágio, nos remontemos até Deus, a quem é devida toda a honra e glória.

Devemos observar, porém, que ninguém é humilde por haver compreendido que é nada, que de si próprio nada se tem. Os filósofos da antiguidade haviam  reconhecido esta verdade, e eram soberbos; a vista da sua baixeza e do seu nada irritava-os e revoltava-os. O primeiro elemento da humildade é este: reconhecer o nosso nada. Esta é a verdade. Mas a humildade não é só isto que está na inteligência. Ela tem sua base na vontade: ela é justiça e assim faz-nos aceitar o que nós merecemos; leva-nos a comprazer-nos nisso, como no que por justiça nos toca. Infere-se daqui que a humildade é uma virtude baseada na verdade conhecida, amada, abraçada com todas as suas consequências, por amor à ordem e à justiça.

Em cima: Fé e humildade do Centurião
A humildade é o fundamento de todas as virtudes, como o orgulho a fonte de todos os vícios. Assim, o maior perigo do orgulho não consiste tanto na falta, que faz cometer contra a humildade, como nas graças, de que priva, e nos numerosos vícios a que conduz infalivelmente suas vítimas. Infelizmente a terra está cheia desses mundanos soberbos, que são verdadeiramente idólatras, e idólatras de si mesmos. Quando estão sós, concentrados em seu espírito, como em santuário profano, colocam-se em face de sua própria excelência e, de turíbulo na mão, admiram-se, extasiam-se  e gabam-se de seu pretendido mérito, preferem-se àqueles com quem se comparam, estão ali diante de seu ídolo, como o selvagem do deserto diante do sol, a quem adora. Pensam só em si mesmos! Deus é como se não existisse!

Devemos concluir que quanto mais uma pessoa é humilde, tanto mais é justa, tanto mais é santa, tanto mais é perfeita. Há, portanto, na humildade tantos graus, como na mesma santidade. No próximo artigo, se Deus quiser, falaremos dos graus da humildade.

Caríssimos, sejamos humildes, sejamo-lo profundamente. Expulsemos do nosso espírito todo o pensamento, todo o sentimento que tiver por origem o orgulho. Esqueçamo-nos de nós mesmos para não pensar senão em Deus. Oponhamos incessantemente às vãs concepções de nosso orgulho o pensamento de nossa miséria e de nossa indignidade.

Nosso Senhor Jesus Cristo é o modelo perfeito de todas as virtudes, mas quis dar toda ênfase sobre a humildade e a mansidão (aliás gêmeas): " Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!" (S. Mat. XI, 29).

JESUS MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO! Amém!

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O CORAÇÃO DE JESUS E A HUMILDADE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA, dia 26º

"Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". Nosso Senhor Jesus Cristo, na verdade, é o modelo perfeito de todas as virtudes. No entanto quis fazer menção especial da humildade e da mansidão, virtudes estas que podemos chamar de irmãs. Os teólogos dizem que a humildade  com sua forma própria não se encontra em Deus, porque ela supõe pequenez e inferioridade. Como a humildade é a verdade, ela só se aplica a nós homens porque a verdade é que somos nada e um nada pecador. Reconhecer isto é humildade de inteligência mas ainda não é virtude. Aceitar ser tratado assim como pecadores e nada merecedores de elogios é a virtude da humildade. A virtude está na vontade. Reconhecer que o que temos de bom não é nosso mas vem de Deus é também humildade, porque esta é a verdade: por nós mesmos não podemos ter nem sequer um bom pensamento. Toda nossa capacidade para o bem vem de Deus. São Paulo diz: "Que tens tu, que não recebesses? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tiveras recebido? (1 Cor., IV, 7).

A criatura, com efeito, se quiser ser justa e veraz, deve reconhecer que Deus é tudo e que ela é nada; que toda força, toda a virtude, toda a beleza, toda a bondade provêm de Deus, e que, por si mesma, não é senão fraqueza e miséria, ou antes é o próprio nada. A criatura, se quiser ser justa e sincera, não pode desconhecer as grandezas de Deus; e diante d'Ele deve se aniquilar. Deus é santo, a criatura é pecadora; Deus é a Justiça e a Bondade, e ela, injustiça e egoísmo; que Deus é paz e misericórdia, e ela, ira e maldade.

Até aqui falamos de uma humildade comum. Há uma humildade muito mais perfeita, mais difícil e consequentemente mais meritória. Consiste em nos rebaixarmos além do que merecemos. Jesus Cristo é o modelo acabado dessa humildade. O Homem-Deus, o Verbo Encarnado, como escreveu S. Paulo, humilhou-se até ao aniquilamento: "Tende entre vós os mesmos sentimentos que houve em Jesus Cristo, o qual, existindo no forma (=natureza) de Deus, não julgou que fosse uma rapina o seu ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz!" (Filipenses, II, 5-8).

Na verdade, já desde o início de sua vida terrestre, o Verbo, fazendo-se carne praticou um ato sublime de humildade. E toda Sua vida foi uma série de atos de humildade. Entregou o seu espírito como fez ao recebê-lo no início (Eis que venho, ó Pai, para fazer a Vossa vontade", e fez-se obediente até a morte, e morte de cruz, que é a mais humilhante.

Em Jesus a natureza humana deixou livre campo à graça para realizar suas obras enquanto a vontade humana de Jesus foi plenamente submissa à vontade divina: "Seja feita a vossa vontade e não a minha", esta oração do Horto das Oliveiras é o resumo de toda a vida do Divino Mestre.

Nas leituras anteriores meditamos como o Coração de Jesus sempre renunciou à estima, à consideração, à reputação, coisas estas de que os homens se mostram tão ciosos.  Os Santos contemplando sempre este Divino Modelo de infinita humildade, se tornaram tão humildes, que às vezes, os mundanos são tentados a tachá-los até de loucos, quando eles mesmos, ou seja, os santos consideravam uma verdadeira loucura,  pretender elogios e estima sendo como eram um nada criminoso, enquanto que Jesus, a própria inocência e santidade, fez-se obediente até à morte e morte de cruz.


Caríssimos, já que Deus só dá sua graça e sua luz aos humildes, peçamos sempre a humildade. Pedindo, pois, a humildade, pedimos uma riqueza espiritual que vale bem longos anos de súplica. Deus nos dará a graça das ocasiões de praticarmos a humildade através das humilhações que sofrermos. Não deixemos passar estas graças, que elas não sejam vãs em nós. Rezemos sempre com grande desejo e sinceridade: "Jesus, manso e humilde de coração! Fazei o meu coração semelhante ao Vosso!" Amém!

segunda-feira, 22 de abril de 2019

HUMILDADE E BONDADE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
(inspirada no Livro da IMITAÇÃO DE CRISTO)

  Quando alguém se humilha por seus defeitos, abranda facilmente os outros, e sem dificuldade satisfaz aos que estão irados contra ele.
  Deus defende e livra o humilde; ama-o e dá-lhe consolação, inclina-se para ele, concede-lhe graça, e, depois de seu abatimento, o eleva a grande honra.   
  O humilde, recebida a afronta , fica em paz, porque tem sua confiança em Deus e não no mundo.
  Não cuides que tens progredido na vida espiritual, se te não avalias por inferior a todos.
  Não te preocupes com o que os outros dizem ou pensam de ti. Não são eles que te hão de julgar. Se te acusam sem razão, Aquele que vê o fundo das consciências já te justificou. Se te lançam em rosto faltas reais, não és porventura feliz de sofrer uma mortificação saudável? A humildade nos deixa sempre tranquilos; o que nos pode perturbar é o orgulho. 
   Quem é humilde, também é bondoso, porque não se irrita, não se comove, ainda quando a paixão do próximo o condenar injustamente. Penetrado do sentimento de sua miséria, nunca o humilham tanto quanto ele mesmo se humilha em seu coração.
  Queres que nada altere o sossego de tua alma? Abandona-te a Deus em todas as coisas, e nos trabalhos, nas adversidades e nos contratempos da vida, dize com Jesus Cristo: "Sim, meu Pai, porque essa é vossa vontade" (S. Luc. X, 21). "Bom me foi o ter sido humilhado; possa assim aprender vossos preceitos" (Sl. 118, 71).
  Procura a paz primeiro para ti e depois poderás procurá-la para os outros.
  O homem pacífico é mais útil que o muito douto. Quem, porém, se deixa dominar pelo orgulho, quanto mais douto, mais sem caridade para com o próximo. Começa achando que os outros são ignorantes. Até o bem ele converte em mal, e crê o mal com facilidade. 
  Pelo contrário, o homem humilde e pacífico julga tudo pela melhor parte. Se tem muitas razões para julgar mal e uma apenas para julgar bem, ele escolhe esta última hipótese. 
  Quem está em boa paz, de ninguém suspeita mal; mas quem vive descontente e inquieto, com diversas suspeitas se atormenta; nem vive em sossego, nem deixa sossegar os outros.
  Tem pois principalmente zelo de ti e depois o terás justamente de teu próximo. Mais justo fora que te acusasses a ti e desculpasses a teu irmão. Suporta com paciência os defeitos do próximo, se queres que eles  suportem os teus. Olha quão longe estás ainda da verdadeira caridade e da humildade, que não sabe irar-se senão contra si.
  Não é ação de avultado merecimento viver em paz com os bons e mansos. Isto a todos naturalmente agrada, e cada um de boa vontade tem paz e ama os que concordam com ele. 
   Porém, viver em paz com os ásperos, perversos e de má índole, ou com aqueles que nos contrariam e combatem, é grande graça e ação varonil e louvável.
   Alguns há que têm paz consigo e com os outros. Outros há que nem a tem consigo, nem a deixam ter aos demais: molestos para os outros, ainda o são mais para si mesmos. E há outros que têm paz consigo, e trabalham por dá-la aos outros. Pois toda a nossa paz nesta miserável vida consiste mais no sofrimento humilde, que em deixar de sentir contrariedades. Por isso, quem melhor souber padecer, maior paz terá. Este tal é vencedor de si mesmo, senhor do mundo, amigo de Jesus Cristo e herdeiro do Céu. 
   Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus" (S. Mat. V, 9). Entende bem a grandeza deste nome e a instrução profunda que ele encerra. A paz é a ordem perfeita; e a perturbação, as dissenções, as discórdias, a guerra, não entram no mundo senão pela violação da ordem ou pelo pecado. Assim não há paz onde reina o pecado; não tem paz um homem cujos pensamentos, afeições, vontades, não são em tudo conformes à ordem ou à verdade e vontade de Deus; e todo aquele que quebranta esta lei, recebe logo o castigo de seu crime. Um mal desconhecido se apodera dele; não sei que força desordenada o arrasta para um e outro lado, e em parte nenhuma acha descanso; como Caim, depois do seu crime de tudo tem medo. 
   A paz pertence aos filhos de Deus: gozam dela em si mesmos e a difundem entre os outros; corre ela, por assim dizer, de seu coração, como esses rios que regavam a venturosa morada dos nossos primeiros pais, no tempo de sua inocência. Acompanha o homem na vida, sustenta-o na enfermidade, e até na última hora será sua herança; porque "o reino de Deus é justiça e paz" (Rom. XIV, 17). Filhos de Deus, "entrai no reino que vos está preparado desde o princípio do mundo" (S Mat. XXV, 34).
   Dai-me, Deus meu, aquela paz que o mundo não pode dar, paz de espírito e de coração, para que, praticando com sossego a vossa Lei, possa ir gozar um dia do eterno descanso.
   O ramalhete espiritual de hoje será a bem-aventurança pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo: "Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus" (S. Mat. V, 9)