quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

PANDEMIA

 PANDEMIA: REFLEXÕES

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

                                                                                                                                          

 

Na Ladainha de Todos os Santos, pedimos a Deus que nos livre dos flagelos, da peste (pandemias), da fome e da guerra. Pode ser que, permitindo o flagelo, Deus espere a nossa conversão e reflexão sobre os desregramentos da humanidade.

Deus às vezes pode usar das doenças e calamidades, mesmo sem as querer, mas só permitir, para que delas possamos tirar algum bem. Não foi a doença que fez o centurião romano, pagão, se aproximar de Jesus para pedir a cura para alguém da sua casa? Na parábola do filho pródigo, não foi a desgraça que o fez voltar para o seu pai? Não foi o assalto e o roubo do judeu na parábola que suscitaram a caridade e a boa ação do samaritano?

Assim também, nessa pandemia atual, permitida por Deus, procuremos tirar todo o bem possível, pois é isso que Deus quer de nós. Ocasião para rezarmos mais, para amarmos mais nossa família e os irmãos, para exercermos a paciência especialmente em nossa vida familiar, praticando a caridade com o próximo. Muitas pessoas, com essa quarentena, aprenderam a rezar mais e melhor, especialmente com a família! Apreciamos todo o esforço dos poderes públicos mesmo insuficiente, a abnegação e o trabalho dedicado dos médicos, e profissionais da saúde em geral, dos policiais, bombeiros e sacerdotes.  Que Deus os abençoe e conforte a eles e suas famílias!

Átila, rei nos Hunos, pioneiro das incursões bárbaras que assolaram o Império Romano, invadiu a Europa com tanta mortandade que não era possível contar o número dos mortos, pilhando e devastando cidades, igrejas e mosteiros, e foi intitulado “o flagelo de Deus”, ou seja, o instrumento de Deus para punir os pecados dos homens.  Só parou às portas de Roma, quando foi ao seu encontro o Papa São Leão I, que o persuadiu a desistir de sua invasão da Itália.

As causas dessa pandemia são ainda obscuras. Mas a falta de cuidado, os desvios de verbas públicas e os pecados acontecidos nesse tempo nos questionam. Mas não é hora de atribuirmos culpa a esse ou àquele. Devemos sim rezar por nós e por todos, como nos ensina a Igreja: “O Apóstolo exorta-nos a fazer súplicas e ações de graças pelos reis e por todos aqueles que exercem a autoridade, ‘a fim de que possamos ter uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e dignidade’ (1Tm 2,2)” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2240).

 “Peçamos a graça de saber rezar uns pelos outros. São Paulo exortava os cristãos a rezar por todos, mas em primeiro lugar por quem governa (cf. 1Tm 2,1-3). ‘Mas este governante é…’, e os adjetivos são muitos. Não os digo, porque este não é o momento nem o lugar para repetir os adjetivos que se ouvem contra os governantes. Deixemos que Deus os julgue! Nós, rezemos pelos governantes. Rezemos… Precisam da nossa oração. É uma tarefa que o Senhor nos confia. Temo-la cumprido? Ou limitamo-nos a falar, a insultar? Quando rezamos, Deus espera que nos lembremos também de quem não pensa como nós...” (Papa Francisco, homilia da Solenidade de São Pedro e São Paulo, 29 de junho de 2020).

                                                                 

          *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                                                                                                                                                                                                                                                              São João Maria Vianney

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       http://domfernandorifan.blogspot.com.br/


sábado, 30 de janeiro de 2021

A RECONQUISTA DO POVO

  A RECONQUISTA DO POVO

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

                                                                                                                                           

Já disseram que a Igreja do século XIX teria perdido os operários. Perdido para as teorias marxistas. Sobretudo a juventude operária. Triste! Mas costuma-se dizer que a Igreja não perde seus fiéis: perde os infiéis, os que não eram suficientemente fiéis. Daí o exame de consciência necessário para ver de quem é a culpa da perda de tantos membros. Em períodos de graves crises, sempre se perdem alguns: é o efeito purificador das crises. Assim aconteceram nas guerras, nas pestes, nas crises na Igreja, nas heresias, etc.

Deus é quem julga de quem seria a culpa da apostasia ou esfriamento. Que nos incumbe é lutar para que não aconteçam defecções, mas que a fé seja robustecida nas crises, especialmente nessa pandemia pela qual estamos passando.

Essa crise serviu para purificar muitas pessoas, para fortalece-las na oração, na convivência familiar, nas reuniões de família em torno do seu altar doméstico. Mas também pode ter servido para esfriar a fé. Resta-nos a reconquista dos valores da fé. Creio que as três bases para a reconquista serão: a Santíssima Eucaristia, sobretudo a Santa Missa, a devoção a Nossa Senhora, vencedora das grandes batalhas de Deus e a instrução catequética.

No século XIX, período de grande crise, Deus suscitou um santo que se tornou o maior educador daquele tempo e modelo de todos os educadores. Estamos falando do grande São João Bosco, cuja festa celebraremos dia 31, com os seus filhos salesianos.

            Estamos em Turim, Itália, na época do começo da industrialização, com o problema decorrente da imigração juvenil. Inundada de jovens procurando emprego, que nem sempre conseguiam, essa cidade oferecia ocasião para muitas desordens e perigos para essa juventude. É nesse contexto que entra em ação o Padre João Bosco, Dom Bosco, como se chamam os padres na Itália, como hábil organizador de iniciativas, implantando um fantástico sistema educacional que mais tarde se chamaria “sistema preventivo”, fundado na razão, na religião e na amabilidade. E assim ele reconquistou a juventude.

            Enfrentando ataques violentos dos anticlericais, ele implantou o oratório festivo de Valdocco, enriqueceu-o de laboratórios artesanais e profissionais, com escolas de artes e ofícios para jovens trabalhadores e com escolas humanísticas para os jovens encaminhados ao sacerdócio. Para assegurar o futuro de sua obra, fundou a Pia Sociedade de São Francisco de Sales, os Salesianos, e, com a ajuda da Irmã Maria Mazzarello, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, das quais temos ilustres representantes em nossa cidade, dedicados à educação dos jovens. A eles e a elas a nossa homenagem e imensa gratidão.

            Esse grande apóstolo da juventude, fecundo escritor de livros populares, sobretudo para os jovens, exemplo para todos os educadores, faleceu santamente em 31 de janeiro de 1888. Foi proclamado pelo Papa João Paulo II “pai e mestre dos jovens”. Que São João Bosco proteja a nossa juventude!

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

                                                                       http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

S. SEBASTIÃO

 SÃO SEBASTIÃO

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

                                                                                                                                           

Hoje, dia 20, festejamos São Sebastião, padroeiro da Cidade maravilhosa e, por ser o patrono da capital, é também protetor do nosso Estado do Rio de Janeiro.

Foi soldado do exército imperial, chegando a ocupar o posto de Comandante do Primeiro Tribunal da Guarda Pretoriana durante o reinado de Diocleciano, um dos mais severos imperadores romanos, perseguidor dos cristãos.

Mesmo sendo bom soldado romano, suas atitudes demonstravam sua fé cristã, e, sendo interrogado, confessou bravamente sua convicção. Por não aceitar renunciar a Cristo, São Sebastião foi condenado à morte, sendo amarrado a um tronco de árvore e flechado. Porém, não morreu ali. Foi encontrado vivo por uma mulher cristã piedosa que tinha vindo buscar o seu corpo. Recuperada a saúde, apresentou-se diante do Imperador e reafirmou sua convicção cristã. E nova sentença de morte veio sobre ele: foi condenado ao martírio no Circo. Sebastião foi executado, então, com pauladas e boladas de chumbo, sendo açoitado até a morte e jogado nos esgotos perto do Arco de Constantino. Era 20 de janeiro.

Seu corpo foi resgatado e levado para as catacumbas romanas com grande honra e piedade. Sua fama se espalhou rapidamente. Suas relíquias repousam sobre a Basílica de São Sebastião, na via Apia, em Roma. O Papa Caio escolheu-o como defensor da Igreja e da fé.

Nesses tempos de grande negação da fé e de valores espirituais e religiosos, humanos e sociais, São Sebastião torna-se um grande modelo de ajuda para nós hoje, principalmente aos jovens, envoltos em grande confusão moral e espiritual. Ele é um sinal de fidelidade a Cristo mesmo com as pressões contrárias. Dessa forma, ele continua anunciando Jesus Cristo, por quem viveu, até os dias de hoje. Ele nos ensina a não desanimarmos com as flechadas que recebemos e a continuarmos firmes na fé.

Um mártir não deve ser um estranho para nós. Ainda em pleno século XXI encontramos irmãos e irmãs nossas que são mortos em tantos países, outros têm ainda seus direitos civis cassados por serem cristãos, outros são condenados à prisão ou à morte por aderirem ao Cristianismo, e ainda são expulsos de suas cidades e suas igrejas queimadas. Além disso, muitos são martirizados em sua fama, em sua honra e tantas outras maneiras modernas de “matar” pessoas por causa da fé ou de suas convicções cristãs.

Estamos em tempos de cristofobia, ódio a Cristo e aos cristãos, como nos primeiros séculos de perseguição. Perseguição sangrenta em alguns lugares e perseguição ideológica implacável através dos meios de comunicação, de leis e atitudes políticas.

Cabe bem aqui a advertência de Jesus: “Todo aquele, pois, que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante do meu Pai que está nos céus. Quem, porém, me renegar diante dos homens, também eu o renegarei diante de meu Pai que está nos céus” (Mt 10, 32-33).

 

                                                                  *Bispo da Administração Apostólica Pessoal

                                                                         São João Maria Vianney

                                                                       http://domfernandorifan.blogspot.com.br/ 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

ÚLTIMO DIA DO ANO

   Hoje, a Santa Madre Igreja concede Indulgência Plenária a todos aqueles que receberem a bênção do Santíssimo Sacramento e cantarem ou rezarem o "Te Deum Laudamus". As outras condições são: Não ter afeto ao pecado, rezar um Pai-Nosso e uma Ave Maria nas intenções do Santo Padre, o Papa, ter se confessado, e comungar. 
   É o dia de ação de graças a Deus pelos benefícios d'Ele recebidos durante o ano que vai findar. A gratidão é chave para recebermos mais dadivosos benefícios. Seja sincera e cordial a nossa ação de graças ao bom Deus!
   O último dia do ano obriga-nos também a um sério exame de consciência sobre o nosso passado próximo e remoto: atravessam a nossa memória as lembranças do tempo que passou, revemos os dias que já não nos pertencem a fim de sobre eles examinarmos a nossa consciência. O bem que fizemos no ano prestes a acabar alegra-nos e enche-nos de coragem; as infidelidades, pelo contrário, de que nos sentimos culpados, provoca-nos em nós o remorso e arrependemo-nos delas.
   O fim do ano proporciona-nos a ocasião de meditarmos sobre a fugacidade do tempo e sobre a vaidade das coisas. Verificamos que não é sempre agradável viver neste mundo e que, pelo contrário, a vida é muitas vezes bem desagradável a ponto de por vezes considerarmos uma sorte que o tempo passe em ritmo tão acelerado.
   O tempo se circunscreve apenas a um período da nossa vida, o mais breve, o da prova, durante o qual temos a liberdade de escolher e de determinar a nossa sorte futura, capitalizando ou não tesouros para a vida sem fim.
  Que arrependimento sentimos ao meditar: "Jamais se pode encher o vazio de um dia que se perdeu". Mas prefiro ficar com Santa Tereza d'Ávila que diz: "Porventura, Senhor, desamparastes o miserável ou afastastes o pobre mendigo quando se queria chegar a Vós? Porventura, Senhor, têm termos as Vossas grandezas ou as Vossas magnificas obras? Ó Deus meu e misericórdia minha! Como as podereis agora mostrar em vossa serva! Poderoso sois, ó meu Deus. Agora poder-se-á entender se minha alma se engana a si mesma, vendo o tempo que perdeu e como num instante Vós podeis, Senhor, fazer com que o torne a ganhar. Parece grande desatino, pois o tempo perdido, costumam dizer, não se pode tornar a recuperar. Bendito seja o meu Deus! Ó Senhor! Confesso o Vosso grande poder. Se sois poderoso, como sois, que há de impossível ao que tudo pode? Vós bem sabeis, meu Deus que no meio de todas as minhas misérias nunca deixei de conhecer o Vosso grande poder e misericórdia. Valha-me, Senhor, isto que não vos ofendi. Tende-o em conta. Recuperai, Deus meu, o tempo perdido, dando-me graça para o presente e para o porvir, para que apareça diante de Vós com vestes de boda. Se o quiserdes, podê-lo-eis". (Ex. 4).
   "Da minha parte, Senhor, não vejo melhor modo de recuperar o tempo perdido do que aplicar-me com todas as forças ao exercício do amor. Sim, o meu amor aumentará se eu souber cumprir por Vós todos os meus deveres e todas as minhas boas obras "com todo o coração ou seja, com toda a boa vontade".
   Caríssimos e amados leitores, vamos dizer a Jesus de todo coração: Já que é tão pouco o que posso fazer por Vós, ao menos que o faça com todo o amor de que me tornastes capaz.
   E terminemos com a ORAÇÃO DO ÚLTIMO DIA DO ANO:
   "Eis-nos chegados ao fim deste ano! Quantos benefícios não nos fizestes, ó Senhor, tanto à alma como ao corpo! Quem poderá jamais enumerá-los? Que ação de graças, pois não vos devemos dar hoje! Felizes de nós, se tivéssemos correspondido aos vossos benefícios. Mas ai! Sentimos que a consciência nos exproba a nossa ingratidão. Quantos pecados cometemos em todo este ano! Quantas virtudes deixamos de praticar! Que será de nós, ó Senhor, no dia em que nos chamardes a dar-vos contas? Com um coração cheio de reconhecimento e ao mesmo tempo traspassado de dor, nós vos damos as mais vivas e ardentes ações de graças e Vos pedimos humildemente perdão.
   Aceitai, Deus de bondade, este nosso ato: perdoai nossos pecados e dai-nos Vossa divina graça, para que comecemos e santamente acabemos o novo ano.
   Assim o propomos e assim o esperamos, confiados em vossa graça. Assim seja.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

UM NATAL E UM ANO NOVO DE 2021 SANTOS E FELIZES

 

FELIZ E SANTO NATAL

 "Jesus Cristo, sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de que vós fôsseis ricos pela sua pobreza" (II Cor VIII, 9).

 Jesus Cristo é o Filho Eterno do Pai Eterno. É o Verbo de Deus. "Todas as coisas foram feitas por Ele" (Jo I, 2). Quem mais rico do que o Criador do Céu e da Terra? Não ganhou, mas CRIOU todas as riquezas, todo ouro e toda pedra preciosa. No entanto, quem mais pobre do que Jesus? Pobre por escolha: sendo o mais rico, QUIS ser o mais pobre: nasceu pobre, viveu mais pobre, morreu paupérrimo, e foi sepultado num túmulo emprestado. Mas, por que assim quis? Para nos dar a verdadeira riqueza que está no Céu, que é Deus, o Sumo Bem. Não procuremos os bens, mas o Bem, a fonte de todos os bens.

Hoje muitos pregam a Jesus, mas não o Jesus pobre, não o Jesus que disse: "Não podeis seguir a Deus e as riquezas", não o Jesus que é sempre o mesmo, mas um Jesus que deve ser adaptado aos tempos modernos onde o dinheiro seria a única solução, inclusive para a Igreja.

O Jesus verdadeiro não tinha dinheiro: teve que fazer um milagre para que Pedro recebesse da boca de um peixinho a moeda para pagar o tributo do seu Templo, da Casa de Seu Pai Eterno. O Jesus dos Evangelhos não espoliou suas ovelhas; deu sim sua vida por elas. Foi tratado por aqueles que veio resgatar, como um homem que não tinha direitos. Veio para servir e não para ser servido. Desceu do Seio do Pai Eterno, dos esplendores do Céu para buscar a ovelhinha tresmalhada da Humanidade pecadora. Atraiu-nos, não pela pompa, mas pela doçura, mansidão e humildade. "Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas" (Mt XI, 29).

 Depois do século X, "século de ferro", a humanidade estava em disputas pelo dinheiro e pelas honras. Muitas pessoas da Igreja também envolvidas pelas paixões da cobiça e da avareza. O crucifixo da capela de S. Damião em Assis, na Itália, milagrosamente falou a um jovem rico que abandonara tudo para seguir a Jesus pobre: "Vai, Francisco, ressoou a voz, restaura a minha Igreja que ameaça ruína!". E Francisco de Assis fê-lo fundando a Ordem dos Frades Menores e, com Santa Clara de Assis,  a Ordem feminina. E o fundamento da Regra de sua Ordem era a POBREZA EVANGÉLICA. 


Quem, por primeiro, teve a ideia de armar um presépio representando o mais fielmente possível o nascimento de Jesus, foi S. Francisco de Assis.

Menino Jesus, que quisestes nascer pobre, humilde e penitente, fazei o nosso coração semelhante ao vosso. SANTO ANO DE 202I, com toda riqueza espiritual que Jesus nos trouxe. Amém!

 

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

POR QUE MARIA

 POR QUE MARIA?

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

 

Ontem, dia 8, celebramos a solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Dia 27 de novembro, tivemos a festa de Nossa Senhora das Graças e no próximo dia 12 festejaremos Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina. Honramos assim aquela mulher predestinada, escolhida por Deus para dela nascer o seu Filho feito homem. Por isso, ela foi preservada do pecado original e cheia de graça, aquela graça perdida por Adão, para si e seus descendentes, recuperada pelo segundo Adão, Jesus Cristo, pela sua Redenção.

Deus havia prometido, no momento do pecado de Adão, que uma mulher com o seu filho, o futuro Salvador, venceria completamente o demônio. Não teria, pois, nenhum pecado. Não teria, em nenhum instante, a menor privação da graça divina. Por isso, essa mulher especial, Maria, escolhida para a Mãe do Redentor, foi saudada pelo Anjo mensageiro de Deus com as palavras: “Ave, ó cheia de graça (agraciada de modo especial) ..., bendita entre as mulheres”, ou seja, sem pecado (privação da graça). A Redenção de Cristo a atingiu, de modo preventivo, preservando-a, por privilégio único, do pecado que atinge a todos os homens.

A Imaculada Conceição de Maria tem muito a ver com o Brasil. Em 1646, o Rei Dom João IV consagrou a Nossa Senhora da Conceição Portugal e todos os seus domínios, nos quais estava incluído o Brasil. E a padroeira oficial do Brasil é Nossa Senhora da Conceição, vulgarmente chamada de Aparecida.

E Nossa Senhora de Guadalupe é honrada por nós de modo especial, por ter sido a primeira aparição dela aqui no Novo Mundo, ao índio São Juan Diego, no México.

Mas, por que honramos Maria, de modo tão especial?

“O nosso mediador é só um, segundo a palavra do Apóstolo: ‘não há senão um Deus e um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos’ (1 Tim. 2, 5-6). Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece” (Lumen Gentium 60).

“A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade simultaneamente com a encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência foi na terra a nobre Mãe do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça” (Lumen Gentium 61).

 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

NÃO AO RACISMO

RACISMO, NÃO!

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

 

O famoso ator Morgan Freeman, negro, entrevistado pelo âncora da CNN sobre o racismo, disse: “Se você fala sobre isso, isso existe. Não é que isto exista e nós nos recusamos a falar sobre isso. O problema aqui é fazer disso um problema maior do que ele precisa ser”. Há, de fato, exageros. Mas o problema do racismo, infelizmente, ainda persiste e o dia nacional da consciência negra, comemorado no próximo dia 20, é ocasião para falarmos do preconceito racial. É um erro antropológico, anticristão e anti-humanitário, fruto do orgulho e da injustiça.

Talvez o racismo procure se justificar com as ideologias dos séculos XVIII e XIX (Nietzsche), nas quais também se baseou o partido totalitário nacional-socialista (Nazi), com a doutrina da superioridade da raça ariana sobre as demais. Por isso, o Papa Pio XI escreveu a encíclica Mit Brennender Sorge (1937), condenando o nacional-socialismo e sua ideologia racista e racialista.

A Igreja já se pronunciara diversas vezes contra o preconceito baseado na cor da pele ou na etnia, proclamando, firmada na divina Revelação, a dignidade de toda a pessoa criada à imagem de Deus, a unidade do gênero humano no plano do Criador e a reconciliação com Deus de toda a humanidade pela Redenção de Cristo, que destruiu o muro de ódio que separava os mundos contrapostos. A Igreja prega o respeito recíproco dos grupos étnicos e das chamadas “raças” e a sua convivência fraterna. A mensagem de Cristo foi para todos os povos e nações, sem distinção nem preferências. “Não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor...” (Rm 10,12); “já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre..., pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gal 3, 28).

Infelizmente, com a descoberta e colonização do Novo Mundo, no século XVI, começaram a surgir abusos e ideologias racistas. Os Papas não tardaram a reagir. Assim, em 1537, na Bula Sublimis Deus, o Papa Paulo II denunciava os que consideravam os indígenas como seres inferiores e solenemente afirmava: “No desejo de remediar o mal que foi causado, nós decidimos e declaramos que os chamados Indígenas, bem como todas as populações com que no futuro a cristandade entrará em relação, não deverão ser privados da sua liberdade e dos seus bens – não obstante as alegações contrárias – ainda que eles não sejam cristãos, e que, ao contrário, deverão ser deixados em pleno gozo da sua liberdade e dos seus bens”. Infelizmente, nem sempre essas normas da Igreja foram obedecidas, mesmo pelos cristãos.

Quando começou o tráfico de negros, vendidos também pelos africanos como escravos e trazidos para as novas terras, os Papas e os teólogos pronunciaram-se contra essa prática abominável. O Papa Leão XIII condenou-a com vigor na sua encíclica In Plurimis, de maio de 1888, ao felicitar o Brasil por ter abolido a escravidão. E o Papa São João Paulo II não hesitou, no seu discurso aos intelectuais africanos, em Yaoundé, em 13 de agosto de 1985, em deplorar que pessoas pertencentes a nações cristãs tenham contribuído para esse tráfico de negros.

 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

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CARACTERES DA REDENÇÃO


TEXTOS BÍBLICOS: 1 -(Jesus Cristo)"nos amou e nos lavou dos nossos pecados no seu sangue" (Ap I, 5).

                                    2 - "Salvador nosso, Jesus Cristo, que se deu a si mesmo por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade" (Tt II, 14).

                                    3 -  "Cristo se ofereceu uma só vez para apagar os pecados de muitos (de uma multidão inumerável)" (Hb IX, 28).

 

REFLEXÕES:  1º - A Redenção é UNIVERSAL: Jesus Cristo entregou-se para resgate de todos os homens e de todos os pecados: "Cristo Jesus, que se entregou Ele próprio como resgate por todos (I Tm II, 5 e 6). Cf. Tt II, 14..

2º - A Redenção foi LIVRE: Jesus sofreu e morreu por nós voluntariamente, porque quis. "Foi oferecido em sacrifício porque ele mesmo quis" (Is LIII, 7). O próprio Jesus dissera: "Por isso meu Pai me ama,porque dou minha vida para outra vez a assumir. Ninguém ma tira, mas eu por mim mesmo a dou" (Jo X, 17 e 18).

3º - A redenção foi a SATISFAÇÃO pelo pecado: Esta satisfação foi substitutiva, isto é, efetuada por um MEDIANEIRO, que pagou o débito que a humanidade culpada devia pagar. Foi também UNIVERSAL e PLENA, ou seja, abrangeu toda a humanidade, e foi adequada à ofensa. E não só foi plena, mas, outrossim, SUPERABUNDANTE, pois, sendo Jesus Cristo uma Pessoa divina, seus atos, mesmo os praticados só pela natureza humana, tinham valor infinito. E se as ações mais ínfimas (como alimentar-se, dormir, chorar etc.) já tiveram valor infinito, o sacrifício da cruz atinge alturas incomensuráveis: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm V, 20). Ó feliz culpa que nos mereceu um tal Redentor!!!

4º - A redenção foi a RECONCILIAÇÃO do homem pecador com Deus: Diz S. Pedro: "Levou nossos pecados no próprio corpo, sobre o madeiro, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça" (I Pe II, 24). Reconciliando o homem com Deus, a redenção foi assim a libertação da escravidão do demônio: "A fim de destruir pela morte (sofrendo na sua carne e derramando Seu Sangue) aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e para livrar aqueles que, pelo temor da morte, estavam em escravidão toda a vida" (Hb II, 15). 

5º -  A redenção foi RESTAURAÇÃO: Pelo pecado original o homem perdeu a graça santificante e a glória do Céu. A redenção restitui ao homem estes dons sobrenaturais: "A todos os que O receberam, deu poder de se tornarem filhos de Deus, aos que crêem em seu nome" (Jo I, 12).

"E, se somos filhos, também somos herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; mas isto, se sofremos com Ele, para ser com Ele glorificados" (Rm VIII, 17). Estas palavras de S. Paulo mostram que Deus quer a nossa cooperação. Em outras palavras: Para lucrarem os benefícios da Redenção, os homens têm que expiar seus pecados, em união com Jesus Cristo e segui-Lo levando a cruz de cada dia. Diz S. Agostinho: "Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti".

 

PARÁBOLA: Um rei muito bondoso adotara como filho um rapaz mendigo. Também o rei deu-lhe como esposa uma linda moça e, após o casamento, colocou-os numa quinta muito rica e bonita. Como filhos adotivos, eles e seus descendentes seriam, um dia, herdeiros, mas com a condição de se lhe conservarem fiéis. Mas o jovem casal não manteve o pacto. O rei, então, mandou-os para o exílio. Ali aquele casal teve muitos filhos que nasceram naquela extrema miséria. Não puderam herdar nem o título de filhos do rei nem suas riquezas, porque seus pais tinham perdido tudo isto. Exilados que estavam, não podiam também entrar no palácio do rei.

O rei era tão bom que mandou o seu único filho  por natureza ir até aquele exílio. O príncipe  cumpre exatamente a vontade de seu pai e, à custa de fadigas, de suores, de feridas, adquire grandes benemerências junto do pai, e lhe diz: Por estes merecimentos te peço que os filhos adotivos desterrados e tornados pobres por culpa própria, possam todos regressar à vida feliz na corte real. O rei consente; mas estabelece um tempo de prova, para que cada um, com a fidelidade ao Soberano e com a observância das leis do Estado, se tornem dignos do favor.

Esta é uma imagem do que Jesus Cristo fez para nos salvar, e da condição que nos estabeleceu nesta terra, antes de nos admitir à glória do Céu.

É sumamente urgente fazermos o que o primeiro chefe visível da Igreja, Simão Pedro, indicou: "Portanto, irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais. Desde modo vos será dada largamente a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (II Pe I, 10 e 11). Amém!

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

JESUS CRISTO É O ÚNICO SALVADOR


TEXTOS BÍBLICOS: 1 -"Não há salvação em nenhum outro; porque, sob o céu, nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos" (S. Pedro em At IV, 12).

                                    2 - "Todos pecaram e estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente pela sua graça, por meio da redenção, que está em Jesus Cristo".

 

REFLEXÕES: Deus criara o homem seu filho e herdeiro do Céu. Criou-o em estado de graça e santidade. Mas, Adão, Cabeça do gênero humano, prevaricou e assim perdeu tudo para si e para seus descendentes. Se não houvesse um Salvador, os homens não poderiam entrar no Céu. Deus, Pai de sabedoria e bondade infinitas, vendo a fraqueza do homem, quis usar de misericórdia e dar-lhe um Salvador.

Deus quis exigir uma reparação perfeita, isto é, equivalente à injúria. Neste plano, só o próprio Deus poderia ser o Salvador, reparando a honra divina ultrajada pelo pecado, dando novamente ao homem a graça santificante para assim poder merecer para o Céu. Na verdade, a gravidade de uma ofensa se mede pela dignidade da pessoa ofendida. Ora, o pecado ofendeu a Deus que é infinito, perfeitíssimo, a própria Santidade. Logo o pecado, sob este aspecto, é de uma gravidade infinita. E só Deus é infinito e, portanto, só Ele é que poderia dar uma reparação plena.

Por outro lado, sendo o homem que pecou, o salvador da humanidade teria que ser UM REPRESENTANTE dos homens, isto é, um homem. Concluindo, devemos dizer que o Salvador deveria ser um DEUS-HOMEM.

Deus, conciliando a Bondade com a Justiça, decretou a ENCARNAÇÃO: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo I, 14). "Assim como pelo pecado de um só [Adão], incorreram todos os homens na condenação, assim, pela justiça de um só[Cristo],recebem todos os homens a justificação que dá a vida" (Rm V, 18).

Como veremos no capítulo seguinte, Jesus Cristo é uma Pessoa divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo, o Filho. E, como ensina a Filosofia, "as ações pertencem à pessoa". Assim, mesmo as ações  operadas só pela natureza humana de Jesus (e até as menores e mais simples) têm um valor infinito. Donde, mesmo dentro do plano divino duma redenção proporcionada à falta, uma prece, uma lágrima de Jesus seria suficiente. Jesus Cristo não tinha absolutamente nenhuma obrigação de sujeitar-se aos extremos de suplício infame, vergonhoso e sangrento.

A Encarnação e a Redenção são mistérios e mistérios de amor. É um amor infinito, e assim não temos condição de avaliá-lo devidamente. Deus, após o pecado de Adão e Eva, não quis reluzi-los ao nada do qual os tirou. Nem quis reduzir Adão e Eva ao estado simplesmente natural e assim toda a subseqüente humanidade. E amou-nos de tal modo que nos deu o seu Filho Unigênito: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós". S. Paulo diz: "Aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido por condição como homem. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz! (Ef II, 7 e 8).   

São sete abismos de humilhação por nosso amor: Fazer-se homem; tomar a forma de servo; assumir as fraquezas da carne (exceto o pecado); tomar a semelhança da carne do pecado (como se Ele fosse o próprio pecado); esvaziar-se de Si mesmo (aniquilar-se); fazer-se obediente até à morte; derramar o seu Sangue até a última gota numa cruz. Razão tinha S. Paulo em dizer: "Quem não amar a Jesus Cristo, seja anátema" (I Cr XVI, 22).

EXEMPLO:  À entrada do Templo  o Apóstolo Pedro disse a um homem paralítico de nascimento: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: Em nome de Jesus Cristo de Nazaré, levanta-te e anda. E tomando-o pela mão direita o levantou, e imediatamente, se lhe consolidaram os pés e os tornozelos. E, andando, soltando e louvando a Deus, entrou no Templo juntamente com os apóstolos Pedro e João.

Jesus deu-nos a vida e, em abundância: onde abundou o pecado do homem, superabundou a graça de Jesus Cristo. Amém!

 

 

                          

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A VIDA CRISTÃ

 

TEXTO BÍBLICO: "Eu sou a verdadeira videira... Permanecei em mim e Eu em vós. Como a vara não pode de si mesma dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. O que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer" (Jo XV, 1-5).

REFLEXÕES: A SS. Trindade, fonte de todo bem, deu-nos  todo um organismo sobrenatural: a graça habitual (santificante), as virtudes infusas e os sete dons. Mas o homem, por si mesmo, não tem condição de fazer movimentar esta vida sobrenatural. Deus, então, nos dá as graças atuais. Tudo isto, porém, é operado pelos méritos e satisfações do nosso divino Salvador. Por esta razão, esta vida sobrenatural é chamada CRISTÃ. Podemos e devemos dizer mesmo que Cristo é toda a vida espiritual. Na verdade, tudo na vida cristã, converge para Cristo, fonte de toda santidade.

Jesus Cristo é a causa MERITÓRIA, a causa EXEMPLAR e a causa VITAL da nossa santificação. (Explanaremos tudo isto em artigos distintos). Cristo é a causa meritória, porque Ele reconquistou os nossos direitos à graça e à glória no Céu. É a causa exemplar porque mostra com seus exemplos como devemos viver para nos santificarmos.  É a causa vital da nossa santificação porque é a Cabeça deste Corpo Místico (Igreja) de que somos membros.

No Santo Sacrifício da Missa, pouco depois da Consagração, o celebrante, tendo na mão direita a Hóstia divina, traça com ela cinco cruzes, dizendo: "Por Ele, com Ele e n'Ele, a Vós Deus Pai Onipotente, na unidade do Espírito Santo, demos toda honra e glória". Sim, por Cristo, com Cristo e em Cristo, é que a SS. Trindade nos santifica. Como a Santíssima Eucaristia é o próprio Jesus, ela é a fonte e o ápice da vida cristã. Contém todo o bem espiritual da Igreja. A nossa santificação está na união íntima com Jesus Cristo. E justamente a Comunhão aumenta esta união com Ele: "Quem come a minha carne e bebe meu sangue, permanece em Mim e Eu nele" (Jo VI, 57).

Como todos os SACRAMENTOS foram instituídos por Jesus Cristo e d'Ele recebem toda eficácia, também dão a vida de fé do cristão: origem (Batismo) e o crescimento (Confirmação e Eucaristia), cura (Penitência e Unção dos Enfermos) e missão (Ordem e Matrimônio).

A ORAÇÃO  é, outrossim, elemento indispensável da vida cristã: é feita em NOME de Nosso Senhor Jesus Cristo. E Ele afirmou que o Pai nos concederá tudo o que pedirmos em seu nome (Cf. Jo XV, 16).

EXEMPLO:  Atalarico, rei dos Godos, sendo pagão, perseguiu a ferro e fogo os cristãos. Fazia passar pelas regiões um carro tendo em cima a estátua de um ídolo: todos aqueles que não saíssem para adorá-lo, eram mortos.

Na região onde morava S. Saba, havia pagãos tão afeiçoados a este servo de Deus por causa de sua caridade, que a todo transe queriam conservá-lo em vida. Mas, bem sabendo que de modo algum ele se deixaria persuadir a apostatar, pensaram em ir ter com os oficiais imperiais para atestarem que no seu distrito não havia sequer um só cristão e portanto não deviam perder o tempo em ir lá com o carro e com o ídolo. Mas S. Saba soube deste pensamento e começou a gritar: "Desventurados, que é que estais maquinando? Quereis dizer uma mentira para me salvar? Quereis ofender a Deus para me conservardes a vida? Que é a minha vida e o mundo todo para que se deva antepô-lo à glória de Jesus?

E quando chegou o carro do ídolo, logo ele saiu fora de sua tenda gritando: "Não adorarei o demônio! Pela graça de Deus, nunca renunciarei ao meu divino Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo! Sou cristão e podem matar-me. E assim o fizeram. (Vida dos Santos, por Vogel).

Ó Jesus, dai-me a vossa graça, o vosso amor e a perseverança neles até ao fim! Amém!

 

sábado, 7 de novembro de 2020

A GRAÇA ATUAL

GRAÇA ATUAL

TEXTOS BÍBLICOS:  1 -"É Deus que opera em nós o querer e o fazer" (Fl II, 13).

                                     2 - "Ora, sendo nós cooperadores (de Cristo) vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus" (II Cr VI, 1).

REFLEXÕES: Deve-se distinguir a graça habitual, que é uma disposição permanente para viver e agir conforme o chamado divino, e as GRAÇAS ATUAIS, que são as intervenções divinas, quer na ordem da conversão, quer no decorrer da obra de santificação. Na verdade, Deus acaba em nós aquilo que Ele mesmo começou: começa com sua intervenção, fazendo com que nós queiramos e acaba cooperando com as moções de nossa vontade já convertida. Como mostrou S. Agostinho, Deus termina premiando os seus próprios dons, porque todo bem vem d'Ele, o Sumo Bem. Daí a oração deste doutor da graça: "Dai-me o que ordenais, e ordenai-me o que quiserdes".

Se na ordem da natureza já temos necessidade do concurso de Deus para agir, com maior razão, na ordem sobrenatural. Para exercitar as nossas faculdades (inteligência e vontade) precisamos de moções divinas: são as graças atuais. São luzes para a inteligência e força para a vontade. Daí a definição dada pelos teólogos: Graça atual é um auxílio sobrenatural e transitório que Deus nos dá para nos iluminar a inteligência e fortalecer a vontade na produção dos atos sobrenaturais. A graça atual eleva e move nossas faculdades espirituais.

Exemplo de graça interior: antes da conversão (justificação) ela ilumina o pecador acerca da malícia e dos temerosos efeitos do pecado, para o levar a detestar tão grande mal. Depois da justificação (conversão), mostra-lhe, à luz da fé, a infinita beleza de Deus e a sua misericordiosa bondade, a fim de levar o convertido a amá-Lo de todo coração.

Exemplo de graças exteriores: Estas graças atingem INDIRETAMENTE  as nossas faculdades espirituais (e quase sempre são acompanhadas de graças interiores). São: leituras espirituais (máxime das Sagradas Escrituras), vida dos Santos, sermões, o bom exemplo de pessoas piedosas, boas conversas, músicas religiosas (como o Gregoriano e as parecidas a este) etc. São coisas que causam impressões favoráveis à conversão e/ou à santificação.

S. Paulo exorta-nos a não recebermos em vão as graças de Deus, porque, na verdade, Deus respeita a nossa liberdade: criou-nos sem nós, mas não nos santifica sem nós; Deus exige a nossa LIVRE COOPERAÇÃO. Cabe-nos acolher com alegria as primeiras iluminações da graça, seguir docilmente as suas inspirações, mau grado os obstáculos, e pô-las em prática, mesmo se exigir grandes sacrifícios. Mas Deus não se deixa vencer em generosidade: quando correspondemos com generosidade, Ele já tem novas graças para nos dar.

"Se aprouve à bondade divina, diz Tanquerey, derramar nas nossas almas uma vida nova, uma participação da sua vida divina, se nos deu virtudes e dons para praticarmos atos sobrenaturais e deiformes; se, pela graça atual, nos convida ao esforço, ao progresso espiritual, ficar-nos-ia mal rejeitar estas amabilidades divinas, levar uma vida medíocre e só produzir frutos imperfeitos".

PARÁBOLA: Uma princesa, órfã de pais, morava num dos castelos dos seus domínios recebidos em herança.. Um dia, a filha de um pobre pedreiro foi procurá-la apressadamente e disse-lhe: Alteza, meu pai está à morte; venha imediatamente vê-lo porque tem algo a dizer-lhe. A orgulhosa princesa não fez caso  do recado dizendo: "que pode ter um pedreiro a dizer-me na hora da morte?" Uma hora mais tarde, chegava de novo a filha do pedreiro ofegante de tanto correr: _ "Alteza _ disse _ venha depressa! Meu pai diz que a mãe da senhora, durante a última guerra mundial, mandara embutir numa parede de um dos castelos, uma grande quantidade de ouro, prata e diamantes. Meu pai tinha ordem de não lhe dizer nada antes que a senhora completasse vinte anos. Mas, como está certo de que vai morrer, quer antes revelar-lhe o secreto local do imenso tesouro".

No mesmo instante a jovem princesa saiu a correr para a casa do agonizante. Aconteceu, porém, que, ao entrar ela no quarto, o pedreiro acabava de expirar.

A princesa empregou grandes esforços para descobrir o tesouro escondido, mas tudo foi em vão. A herdeira do tesouro materno jamais o encontrou.

Lição: Muitos procedem a respeito da graça de Deus como aquela jovem princesa. Fazem deste tesouro divino muito pouco caso. Virá, porém, uma hora em que não mais o encontrarão.  Daí dizer S. Agostinho: "Temo a Jesus que passa em não volta mais".

Ó dulcíssimo Jesus, que a vossa graça nunca seja vã em mim! Amém!

  

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A VIDA ETERNA

 A VIDA ETERNA

 

                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

                                                          

“Fazes o impossível para morrer um pouco mais tarde, e nada fazes para não morrer para sempre?” pergunta Santo Agostinho. Todos queremos viver, viver muito tempo e mesmo para sempre. Por isso, após o mês do Rosário, a Igreja nos convida a pensar na coisa mais importante da nossa existência: a vida eterna. “Deus não criou a morte e a destruição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou todas as coisas para existirem... e a morte não reina sobre a terra, porque a justiça é imortal” (Sb 1, 13-15). O pecado é que fez entrar a morte no mundo. Mas a esperança da ressurreição e da vida eterna nos consola.

Domingo próximo, dia 1º de novembro, celebraremos a solenidade de Todos os Santos, a festa daqueles que se salvaram, chegaram à vida eterna feliz para sempre. E, na segunda-feira próxima, a Comemoração de todos os Fiéis Defuntos, os “finados”, aqueles que já partiram dessa vida temporal e começaram a vida eterna, que, esperamos e rezamos para isso, seja no Céu. Dom Boaventura Kloppenburg fez questão de resumir o seu testamento nessa palavra: “Creio na Vida Eterna”. Creio na vida que não terá fim. É a nossa profissão de fé no Credo.

É tempo de reflexão sobre a humildade que devemos ter, sabendo que a morte nos igualará a todos. Todos compareceremos diante de Deus, para dar contas da nossa vida. Ali não haverá distinção entre ricos e pobres, entre reis e súditos, entre presidentes, parlamentares e magistrados e os cidadãos comuns, entre Papa, Bispo, Padres e simples fiéis. A distinção só será entre bons e maus, e isso não na fama, mas diante de Deus, que tudo sabe.

Olhemos a morte com os olhos da fé e da esperança cristã, não com desespero. Confiemos na misericórdia de Deus, que é nosso Pai, que nos enviou seu Filho, Jesus, que morreu por nós, para que não nos condenássemos, mas que tivéssemos a vida eterna.    

Os santos encaravam a morte com esse espírito de fé e esperança. Assim São Francisco de Assis, no Cântico do Sol: “Louvado sejais, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum homem pode fugir. Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Felizes dos que a morte encontra conformes à vossa santíssima vontade! A estes não fará mal a segunda morte”. “É morrendo que se vive para a vida eterna!”. E São Paulo, o Apóstolo: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é um lucro... Tenho o desejo de ser desatado e estar com Cristo” (Fl 1, 21.23).

“Eis, pois, o que vos digo, irmãos: o tempo é breve; resta que os que têm mulheres, sejam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem, porque a figura deste mundo passa” (1 Cor 7, 29-31). “Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos” (Gl 6, 10). “Que prudente e ditoso é aquele que se esforça por ser tal na vida qual deseja que a morte o encontre!... Melhor é fazeres oportunamente provisão de boas obras e enviá-las adiante de ti, do que esperar pelo socorro dos outros” (Imitação de Cristo, I, XXIII).

 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A AÇÃO DAS VIRTUDES INFUSAS COM A AJUDA DOS SETE DONS DO ESPÍRITO SANTO


SENTENÇA: "Ensinai-me a fazer a vossa vontade, porque vós sois o meu Deus. O vosso Bom Espírito me conduzirá por uma terra aplanada" (Sl 142, 10).

REFLEXÕES: As virtudes teologais são: fé, esperança e caridade. As virtudes cardeais são: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus.

O Espírito Santo com seus dons, completa e leva à perfeição as virtudes.

A  une-nos a Deus (Verdade) levando-nos a aderir às verdades que nos revelou. O exercício desta virtude é aperfeiçoado pelos dons da INTELIGÊNCIA e da CIÊNCIA. O dom da inteligência leva-nos a penetrar mais profundamente nas verdades da fé para nelas descobrirmos os seus tesouros escondidos. O dom da ciência eleva-nos das criaturas até Deus, mostrando-nos que Ele é o seu princípio, a sua causa exemplar e também o seu fim.

A ESPERANÇA une-nos a Deus (Suma Bondade e nossa Felicidade) levando-nos a fazer atos de confiança absoluta e de filial entrega em suas mãos. Faz-nos esperar com serenidade a Céu e os meios de lá chegarmos. Esta virtude é fortificada pelo dom do TEMOR DE DEUS, enquanto nos desapega dos falsos bens da terra que nos poderiam arrastar ao pecado. Assim, ajuda-nos a desejar o Céu.

A CARIDADE leva-nos a amar a Deus como infinitamente bom em si mesmo e, assim, nos comprazemos nas suas infinitas perfeições mais que se fossem nossas. Leva-nos a uma santa amizade e a uma doce familiaridade. É pela caridade que nos tornamos mais semelhantes ao nosso Pai Celeste. É o dom da SABEDORIA, que nos faz gostar das coisas de Deus e assim, aumenta em nós a virtude da caridade, isto é, o Amor de Deus.

A virtude da PRUDÊNCIA leva-nos a escolher devidamente os meios para alcançarmos o nosso fim sobrenatural. É muito aperfeiçoada pelo dom de CONSELHO que nos faz participar da sabedoria divina  mostrando-nos logo claramente, nos casos particulares e dificultosos, o que é conveniente fazer ou omitir.

A virtude da JUSTIÇA (à qual está relacionada a virtude da RELIGIÃO) mandando-nos dar a outrem o que lhe é devido, santifica as nossas relações com os nossos irmãos. A virtude da RELIGIÃO inclina-nos a prestar a Deus o culto que Lhe é devido. Esta virtude da religião é facilitada singularmente pelo dom de PIEDADE fazendo-nos ver em Deus um pai amorosíssimo que somos venturosos de glorificar e louvar. O dom de piedade ajuda-nos a tratar o próximo como irmãos em Jesus Cristo.

A virtude da FORTALEZA arma-nos contra as provações e a luta. Leva-nos, outrossim, a suportar com paciência os sofrimentos; a empreender com coragem os mais árduos trabalhos para glória de Deus. O dom de FORTALEZA ajuda a virtude do mesmo nome, levando esta coragem até ao heroísmo.

A virtude da TEMPERANÇA modera em nós a ânsia do prazer, e subordina-o à lei do dever. O dom do TEMOR DE DEUS, além de facilitar a virtude teologal da esperança, também aperfeiçoa em nós a temperança, fazendo temer os castigos e os males que resultam do amor ilegítimo dos prazeres.

EXEMPLO: A princesa Luísa (de que falamos em exemplo anterior) filha de Luis XV, rei de França, recebeu o véu no Carmelo de Paris, em presença do núncio apostólico do papa Clemente XIV. A capela foi engalanada com esplendor nunca visto. A princesa apareceu vestida com maravilhoso traje que reluzia de ouro e pedras preciosas, e em sua cabeça levava coroa de puríssimos diamantes. A princesa, em dado momento, despojada de todas aquelas jóias, recebeu em troca o hábito grosseiro e o véu e prostrou-se por terra. Muitas lágrimas correram dos olhos das pessoas da corte presentes na cerimônia. Viveu no claustro dezessete anos com o nome de Sóror Teresa de Santo Agostinho, em grande pobreza. Faleceu aos cinqüenta anos de idade em odor de santidade.

Eis a verdadeira grandeza!... De filha de rei mortal, tornou-se para sempre filha do Rei Imortal, o verdadeiro Rei. o Rei dos reis. Amém!