segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O SACERDOTE É O PORTEIRO DO PARAÍSO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

É São Próspero quem chama o confessor de "Porteiro do Paraíso". Ele pode, pois, livrar os pecadores da prisão eterna do inferno, e abrir-lhes o palácio da Jerusalém Celeste. Que honra para o sacerdote! Qual seria vossa admiração por um homem que tivesse a faculdade de limpar leprosos com poucas palavras!? Pois bem! O sacerdote opera maravilha muito maior quando pronuncia sobre um pecador bem disposto estas palavras: Ego te absolvo a peccatis tuis; pois no mesmo instante, ele torna limpa e branca como neve aquela alma, que, por seus pecados, estava imunda e enegrecida pelo piche do pecado. "A justificação de um pecador, diz Santo Agostinho, é obra mais admirável do que a criação do céu e da terra". "O Senhor, diz o cardeal Hugo, parece dizer ao padre que absolve um pecador: Por mim, criei o céu e a terra; dou-vos porém o poder de efetuar uma criação muito mais excelente. Eis aqui uma alma em estado de pecado; criai nela um coração puro, e fazei que, de escrava do demônio, se torne minha filha. Por mim, fiz a terra produzir frutos, mas vos dou um poder muito mais nobre; fazei que o pecador produza frutos de boas obras. Privado da graça santificante não é ele outra coisa senão uma árvore seca; dai-lhe a seiva da vida divina pela absolvição, e ele produzirá frutos dignos da vida eterna".

O Senhor dizia a Jó: "Tens tu como Deus um braço todo poderoso e tua voz é trovejante como a sua?" (Jó 40, 4). Ora, quem é que possui um braço semelhante ao de Deus, e que como Deus, faz ressoar a sua voz semelhante ao trovão? É o padre. Quando ele dá a absolvição, serve-se do braço e da voz de Deus para quebrar as correntes daqueles que estão na escravidão de Lúcifer, para recalcar no fundo do abismo os poderes infernais e para impor silêncio aos demônios bramando de raiva porque tem de deixar ir em liberdade as almas reconciliadas com Deus, seu legítimo senhor.

O sacerdote opera o milagre da ressurreição não de corpos mas de almas. Na verdade o confessor ressuscita tantos mortos quantas absolvições dá aos pecadores suficientemente dispostos pela atrição, pecadores que pelo pecado grave haviam morrido espiritualmente. Quando, pois, a alma está privada da vida sobrenatural da graça, é escrava do demônio que não espera senão o julgamento de Deus para a encerrar no sepulcro eterno do inferno.

Suponhamos, caríssimos, que um pecador esteja próximo a morrer; de repente, tocado por uma luz do alto, reconhece o seu estado, concentra-se, e, deplorando o mal que cometeu, pede com grandes lamentos que o arranquem das garras do leão infernal. Quem livrará esta pobre alma obsequiada pela graça da atrição? Ainda que se reúnam todos os poderosos da terra com seus exércitos, e ordenem ao demônio que abandone essa alma, o demônio não fará senão escarnecer de uma tal ordem, pois, os poderosos, reis, presidentes e generais, não têm poder senão sobre as coisas temporais. Mas aparece um sacerdote, mesmo o mais pobre e o menos digno de todos do clero; este sacerdote, só por estas palavras: Ego te absolvo a peccatis tuis, forçará o demônio a abandonar sua presa; transformará esse pecador  em justo, fará dele um predestinado.


Em verdade, caríssimos, podemos dizer com S. Próspero, que os sacerdotes são as "Portas da Cidade Eterna", e com o escritor espiritual Salviano: "Toda a nossa esperança e nossa salvação se acham nas mãos dos sacerdotes!" Aí entendemos porque São Clemente chama o padre "Deus da terra"; querendo dizer com isto que ele ocupa neste mundo o lugar de Deus. Amém!

sábado, 28 de janeiro de 2017

O CONFESSOR OCUPA O LUGAR DE JESUS CRISTO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

O poder de perdoar pecados é, na verdade, um poder divino, isto é, só Deus pode perdoar pecados. Jesus Cristo perdoava pecados justamente porque Ele era Deus. Mas quem tem o poder, pode delegá-lo a outrem. Foi o que Nosso Senhor Jesus Cristo fez. Assim como deu aos Apóstolos o poder de batizar, celebrar o Santo Sacrifício da Missa, o poder de pregar, deu-lhes também a eles e aos seus sucessores o poder de perdoar pecados. Por isso é que Jesus disse: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes -ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (S. João XX, 21-23).

É um prodígio de misericórdia em nosso favor!

Todos reconhecem que os reis da terra têm o poder de mandar administrar a justiça em seu nome, quer dizer, de confiar a magistrados o direito de absolver e de condenar os culpados. Por que recusam a Deus o mesmo direito? O Rei do Céu terá menos poderes do que suas criaturas?
Evidentemente Deus pode confiar a homens o poder de perdoar os pecados em seu nome. Ora, é um artigo de fé que Jesus Cristo comunicou este poder aos padres quando lhes disse: os pecados serão perdoados a quem vós os perdoardes. O Salvador não disse: os pecados serão perdoados a quem anunciardes que lhes são perdoados; não; pois, absolvendo, o padre perdoa verdadeiramente os pecados na qualidade de substituto de Jesus Cristo, em virtude do poder que lhe foi dado por Nosso Senhor, que é o principal ministro do Sacramento.

Vamos ouvir agora a Santo Afonso (do seu livro SELVA): "Perdoar pecados só a onipotência de Deus o pode, como a Santa Igreja dá a entender em sua orações do 10º domingo depois de Pentecostes: 'Ó Deus que manifestais, principalmente, vosso poder perdoando'... etc. Ouvindo o Salvador conceder ao paralitico o perdão de seus pecados, os judeus tinham, pois, razão de exclamar: Quem pode perdoar os pecados, senão Deus só? (S. Lucas, V, 21). Pois bem! a graça do perdão, que só Deus pode conceder por seu poder divino, um homem pode também concedê-la por estas palavras: Eu vos absolvo dos vossos pecados; este homem é o sacerdote. Notemos que ele não diz: "Deus vos absolve"; mas diz: "Eu vos absolvo". Dando a absolvição, ele fala como Deus, porque Deus lhe comunicou seu poder imenso e infinito para perdoar.

Se Jesus Cristo descesse a uma igreja e se assentasse em um confessionário para administrar o sacramento da penitência, enquanto um sacerdote estivesse assentado em um outro confessionário, é de fé que, quando o divino Redentor e o padre dissessem: Ego te absolvo a peccatis tuis, os penitentes ficariam absolvidos igualmente, tão bem por um, como pelo outro. Prova evidente de que o confessor ocupa o lugar de Jesus Cristo. Na verdade o sacerdote tem o poder das chaves; isto significa que ele pode livrar do inferno o pecador bem disposto, torná-lo digno do céu, e de escravo do demônio fazê-lo filho de Deus; e Deus mesmo é obrigado a concordar com a sentença do padre, recusando ou concedendo o perdão, conforme o sacerdote recuse ou conceda a absolvição, suposto que o penitente seja digno dela. De modo que "o juízo de Deus está entre as mãos do padre," diz S. Máximo de Turim. A sentença do padre precede, acrescenta S. Pedro Damião, e Deus a subscreve".


Vamos ouvir S. João Crisóstomo: "Criaturas que vivem sobre a terra são chamadas ao exercício de um poder que Deus não deu nem aos anjos, nem aos arcanjos. Não foi a estes que Ele disse: O que vós ligardes sobre a terra será ligado no céu, e o que vós desligardes sobre a terra será desligado no céu. Os príncipes da terra têm o poder de ligar, mas somente os corpos, ao passo que os laços de que dispõem os sacerdotes atingem à alma e vão até os céus; o que os padres fazem aqui na terra, Deus o confirma no céu, e o mesmo Senhor confirma a sentença de seus servos. Ele lhes deu por assim dizer a onipotência no céu. Ele disse: Os pecado serão perdoados àqueles a quem os perdoardes e serão retidos àqueles a quem os retiverdes. Haverá um poder superior a este? O Pai deu a seu Filho o poder de tudo julgar (S. João V, 22). E vejo o Filho confiar este mesmo poder aos seus sacerdotes". Vamos ver no próximo post que isto é uma grande honra. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A CONFISSÃO BEM FEITA PROVOCA TRANSPORTES DE ALEGRIA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Caríssimos, peço que não julguem ser fruto de puro sentimentalismo o que agora vou escrever. A alegria que vem de uma santa confissão, máxime de uma confissão geral bem feita, é algo que sobrepuja todo entendimento humano, é divino, é sobrenatural. Quantos e quantas que antes da confissão choravam de tristeza, após a confissão, choravam de alegria! E digo mais: esta alegria inefável, enche também o coração do confessor. Basta pensarmos no seguinte: uma alma sair das garras do demônio e ser colocada nas mãos de Deus, Nosso Pai e Senhor! Deixar o caminho que conduzia ao inferno e passar a trilhar o que conduz ao céu. Vale a pena estendermos as nossas reflexões sobre tema tão agradável ao coração humano!

Caríssimos, como exprimir os transportes de alegria que experimenta uma alma pecadora, no momento em que o padre, em nome do Rei dos céus, lhe diz:  Eu vos absolvo, que Deus a abençoe, vai em paz! Ela experimenta uma felicidade que as delícias da terra nunca lhe puderam dar. A alma pensa: não estou mais nas cadeias do demônio; sou filha de Deus, o céu tornou-se minha herança!

Demos aqui a palavra a Mons. Giraud: "Admirai, a transformação deste homem, outrora pecador e hoje penitente; era triste e pensativo, e, se algumas vezes parecia sorrir, esse sorriso era forçado e traduzia lágrimas; os mais suaves sentimentos da vida, os prazeres da amizade, os amores da família, estavam corrompidos por uma dor secreta; uma palavra de religião, uma lembrança da morte, da eternidade, o lançava numa profunda melancolia. Vede-o agora ao sair do tribunal da penitência. Que encanto! Que alegria! Chora, e acha suavidade em chorar; seu coração se desfaz em delícias, seu bom gênio voltou-lhe com a graça. Desde que ama seu Deus tornou-se mais amável para com o próximo! Parece ter tornado a uma nova existência e renascer para uma vida mais suave. Sua fronte carregada de desgosto se esclarece e brilha, seu sono agitado torna-se tranquilo, seu coração oprimido abre-se e derrama, como um vaso cheio, a alegria que não pode conter. Ainda há pouco duvidava das verdades da fé, agora crê em tudo, descansa com amor na religião que perdoa. Temia a confissão como um suplício, agora ele a aprecia, a abençoa, a pratica sem esforço. Vinde, pois, ó pecadores, experimentai esse remédio salutar. Provai e vede; que a primeira amargura não vos afaste; a amargura está na superfície, mas a doçura reside no fundo do cálice. "Provai e vede, o quanto é suave!" (Salmo XXX, 8)."

Vou contar-vos um fato: Um protestante entrou um dia em uma igreja católica, na ocasião em que os fiéis se apressavam em volta do confessionário. Ficou tão maravilhado da felicidade que ao sair do tribunal sagrado lhes resplandecia no rosto, que exclamou: é esta a verdadeira Igreja, é aqui que se realiza a palavra do Evangelho: "os pecados serão perdoados aos que vós os perdoardes". Já havia lido João XX, 22-24. Só a Igreja romana, exclamou ele, perdoa os pecados, como está claro na Bíblia; ela é, pois, a única Igreja de Jesus Cristo". Apressou-se a abjurar a heresia afim de poder gozar também as santas alegrias da confissão.

Não sei se é impressão minha, mas os protestantes em geral (É claro que ha exceções) não aparentam aquela alegria franca que brota do íntimo da alma. É talvez, a falta da confissão. Eles dizem que pedem perdão diretamente a Jesus. Aliás, dizem que basta confiar que Jesus é o Salvador! Mas ouviram alguma voz vinda do céu que lhes garantia o perdão? No fundo devem reconhecer que só a Religião católica segue integralmente o que Jesus deixou e disse: "Recebei o Espírito Santo, a quem perdoardes o pecados serão perdoados"... "Quem vos ouve a mim ouve".

Caríssimos, há sempre o receio de se dizer aos doentes que se devem confessar; na confissão não se lhes fala senão o mais tarde possível. quase sempre quando já é tarde. Ah! a confissão não faz morrer; ela é mais salutar do que se pensa. A paz da alma influi muito sobre a saúde. A confissão acalma as agitações tão penosas da consciência, dissipa o temor tão horrível do futuro, suaviza os sofrimentos pela resignação, transforma os pensamentos tristes e acabrunhadores em pensamentos cheios de esperança e de consolação. Já fui Capelão em hospitais, já atendi milhares de doentes, e posso afirmar que, pela graça de Deus, muitos se recuperaram logo após receber os sacramentos. Daí, eu, que no começo encontrava tanta dificuldade em poder atender os doentes que estavam em quartos particulares, depois de alguém tempo, os parentes e até os médicos católicos iam me procurar para eu dar os sacramentos.


Tissot, não o célebre escritor espiritual católico, mas o célebre médico protestante, tratava de uma senhora estrangeira, cuja doença chegou a um ponto assustador. Conhecendo a gravidade de seu estado e atormentada pelo pesar de deixar tão cedo a vida, entregou-se a violentas agitações e aos transportes do desespero. O médico Tissot julgou que este novo abalo lhe abreviasse o termo da vida e, embora protestante, segundo seu costume, preveniu que não tardassem a administrar à doente todos os socorros da religião que só a Católica possui. Então é chamado um padre. A doente o escuta, e recebe como o único bem que lhe resta, as palavras de consolação que saem da sua boca. Ela se acalma, se ocupa de Deus e de seus interesses espirituais, e recebe os sacramentos com grande edificação. No dia seguinte o médico a encontra calma, e admira-se que já não tenha febre e que os sintomas mudassem para melhor; breve a doente ficou curada. O médico Tissot costumava repetir este fato e exclamava com admiração: "Tal é o poder da confissão entre os católicos!" Amém!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A CONFISSÃO BEM FEITA DÁ A PAZ E A FELICIDADE VERDADEIRAS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo" (S. João XIV, 27). O demônio faz o pecador crer que só será feliz se seguir o mundo com suas concupiscências, fazendo o pecado. Mas o diabo é o pai da mentira. Nosso Senhor Jesus Cristo é a verdade, Ele é alegria infinita. Estar com Jesus, diz o Livro da Imitação de Cristo, é um doce Paraíso; e estar sem Jesus é um terrível inferno. Pois bem! Se a alma perdeu esta alegria infinita que é Jesus, é a confissão bem feita que lhe restituirá a paz de Jesus, que é um dom tão importante que, como diz São Paulo, "sobrepuja todo entendimento humano". Porque Jesus Cristo é Deus e, portanto, infinito, e nós somos criaturas, e, portanto, limitados.

Toda felicidade vem de Deus, que é fonte de todo o bem. Unido a Deus pela graça, o homem é feliz; mas, separado de Deus pelo pecado, é soberanamente infeliz. Assim dizia o profeta Jeremias II, 19: "Sabei e vede, como é amargo ter abandonado o Senhor". Com o pecado nasce na alma um verme roedor que se chama remorso de consciência. O rei Davi explica a vida infeliz que levou enquanto se achava em estado de pecado: "Minhas lágrimas serviram-me de alimento, porque, dia e noite, eu ouvia uma voz interior que me fazia esta censura: onde está o teu Deus?" (Salmo 41, 4). Mas parece, dizem muitos, que as pessoas do mundo são felizes...! Mas é a paz do mundo; e esta é enganadora. O fato de os mundanos procurarem sem cessar divertimentos e prazeres, é justamente porque nunca estão satisfeitos. Pelo contrário, basta um momento de sossego, logo sentem o espinho do remorso. Santo Agostinho dizia: "O pecador é infeliz porque sente o remorso; e os que já não o sentem mais, são mais infelizes ainda, porque certamente senti-lo-ão eternamente". Realmente, o remorso é um meio da misericórdia divina levar o pecador ao arrependimento e daí à confissão. Mas com tanto pecar, a consciência pode se tornar cauterizada, é aí já não sente mais o remorso, e tanto pior.

O único remédio contra os remorsos é a confissão bem feita; somente ela, instituída por Deus para perdoar os pecados, pode dar ao homem a certeza divina de seu perdão, estando ele bem disposto. Ouvi a este respeito o protestante Naville: "Parece-me, diz ele, que é bastante entrar em si mesmo para compreender como a Igreja romana, com as graças de que ela dispõe e a sua divina autoridade, se vê apoiada pelas necessidades mais íntimas da nossa alma. Quem não voltou um olhar de inveja para o tribunal da penitência! Quem não desejou na amargura do remorso, na incerteza do perdão divino, ouvir de uma boca que o pode dizer com o poder de Jesus Cristo: 'Vai em paz, teus pecados de são perdoados'."

Acrescentaremos, caríssimos, com o conde de Maistre: "Que há de mais natural do que o movimento de um coração que se chega a outro coração para nele derramar um segredo? O infeliz, despedaçado pelo remorso ou pela dor, tem necessidade de um amigo, de um confidente que o escute, o console e algumas vezes o dirija. O estômago no qual está depositado um veneno e que entra em convulsões para o vomitar, é a imagem perfeita de um coração onde o inimigo infiltrou a sua peçonha: sofre, debate-se, contrai-se até que ache um coração amigo, ou ao menos assaz benévolo, para ser o confidente de sua desgraça".


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A CONFISSÃO É SALVAGUARDA DOS BENS E DA REPUTAÇÃO DO PRÓXIMO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

A confissão impede o roubo, a maledicência, a calúnia; ela exige a reparação de toda a injustiça cometida contra o próximo. O próprio Rousseau, ímpio como foi, exclamava: "Quantas reparações, quantas restituições a confissão obriga a fazer!" Também a escritora Mme. de Genlis  relatava em uma de suas obras: "Há seis meses que me roubaram o valor de dez mil francos em objetos de prata. Foi-me impossível descobrir o autor deste roubo. Ontem o Sr. Cura de Santo Eustáquio pediu-me para falar em particular. Era para me anunciar que trazia consigo a restituição do roubo. Estamos no fim da quaresma e o ladrão quis fazer sua páscoa. Se, em vez de ter sido educado no religião católica, não conhecesse senão a filosofia da escola moderna, ele pensaria que o que é bom para roubar é bom para guardar".

Voltaire, o patriarca da impiedade, chamava a confissão "uma coisa excelente, uma instituição salutar, o maior freio que se pode pôr aos crimes, e sobretudo o único freio para os crimes ocultos".

Leibnitz, embora protestante, dizia: "a necessidade de confessar-se afasta muitos homens do mal, principalmente os que não estão ainda endurecidos, e oferece grandes consolações aos desalentados. Também considero o confessor como o principal órgão da divindade para a salvação das almas; seus conselhos servem para regar nossas afeições, evitar as ocasiões de pecado, restituir o roubado, reparar os escândalos, levantar os espíritos abatidos, enfim para curar e suavizar todos os males das almas doentes".

Dizia também o célebre Mons. Gaume: "Descobri um só interesse público ou privado, moral ou material que a confissão não proteja, e que não proteja mil vezes mais eficazmente do que os magistrados armados de toda a autoridade das leis humanas. A confissão protege a santa autoridade dos pais e dos reis, contra a insubordinação dos filhos e dos povos; protege a vida moral e mesmo física dos filhos contra a negligência e a má vontade dos pais; protege a inocência, a reputação, a propriedade, a vida e a tranquilidade de todos, contra as paixões culpáveis que a todos ameaçam, paixões cujos germes existem no coração de todos os filhos de Adão. Homens cegos, que tendes a desgraça de não vos confessardes, pais, mães, negociantes, ricos e pobres, não sabeis o que deveis ao tribunal da penitência. Sem a confissão, desde muito, talvez, a desonra pesasse sobre o que tendes de mais caro, a calúnia tivesse enxovalhado vosso nome, a injustiça abalado vossa fortuna, uma taça de amargura abreviado vossa vida".  


Caríssimos, há uma tara terrível que é mais freqüente que muita gente pensa: é a cleptomania, isto é, a tendência patológica para furtar. Pois bem, além do tratamento de especialistas, psicólogos e psiquiatras, não resta dúvida que a confissão é o grande meio para ajudar as pessoas vítimas de tal mania, a se curarem inteiramente. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

A CONFISSÃO SALVAGUARDA CONTRA A IMORALIDADE E UMA MULTIDÃO DE CRIMES

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Todos os pecados, todas as desordens que perturbam e desonram as famílias, todos os crimes enfim que tendem a subverter a sociedade vêm do coração. É mister, pois, purificar e curar o coração humano, se quisermos salvar a humanidade, isto é, as famílias e toda a sociedade. Mas como? Que poderá exercer esta obra maravilhosa? As leis humanas quando boas, podem, sem dúvida, opor algum obstáculo à torrente impetuosa das paixões, mas não são suficientes para estancar-lhes a fonte. Podem, por exemplo, agir sobre as ações públicas como, por exemplo a pedofilia e a pornografia. Infelizmente hoje as leis humanas mais favorecem crimes do que os condena. É o caso do aborto, das uniões adúlteras ou sodomitas. Mas mesmo as leis humanas boas não podem atingir as ações secretas e ocultas, e ainda menos sobre seus princípios, que são os pensamentos e os desejos. Só à Religião de Nosso Senhor Jesus Cristo é reservado este poder; e a Igreja fá-lo através da confissão.

No segredo do tribunal sagrado, no confessionário, o coração se desvenda completamente. Ali, o padre, confidente íntimo do penitente, examina as chagas desse coração doente, e tira dele tudo que está gangrenado. Substitui o mal pelo bem, o erro pela verdade, as afeições desregradas por inclinações santas. Enfim, com sábios conselhos, acautela esse coração tão fraco de novas recaídas.

Nada mais apto para impedir o mal em sua origem, do que a confissão! E na falta de confessores, ninguém tem o poder nem o meio de o fazer. É o que dizia Monsenhor Gaume: "Nem o pai, nem a mãe, nem o amigo conhecem a última palavra do coração de seus filhos ou de seus amigos; há segredos que o homem não pode e não quer revelar senão a Deus. Como são cegos, para não dizer mais, os pais que afastam seus filhos da confissão, e creem poder obter o monopólio de sua confiança! Ah! eles não sabem absolutamente como o coração do homem é formado". E ouçamos o filósofo Marmontel: "Que melhor preservativo para as más inclinações da adolescência, do  que o uso da confissão todos os meses!".

Só a vergonha que acompanha a humilde acusação de um falta, é capaz de reter o homem na borda da abismo: "Eu não farei isto, porque terei de confessá-lo". Quantas infidelidades, quantas desordens a confissão não tem impedido! Quantas almas estariam eternamente perdidas se não se confessassem ou passassem a não fazê-lo mais! Caríssimos, o demônio mudo perde muitas almas afastando-as da confissão.

Portanto, quem quer viver bem ou converter-se depois de uma vida má, que deve fazer? - Deve procurar a confissão. Por isso o demônio mudo, afim de conseguir que alguém se entregue às suas paixões, procura afastar esta pessoa da confissão.

Quem quiser convencer-se destas verdades, basta ver a época da sua vida em que abandonou a confissão. Foi, então, neste tempo que se tornou mais puro e mais virtuoso? Sem a mínima dúvida, não foi. Pelo contrário, foi quando quis entregar-se às suas más inclinações. Caríssimos, o mundo mesmo sabe proclamar em alta voz o que se deve pensar a respeito das pessoas de bem que se confessam todos os meses. O próprio mundo vê sem dificuldade, que estes são católicos exemplares.


É bom, no entanto, estar sempre lembrando, que a confissão produz seus salutares efeitos, quando bem feita. Fazer mal a confissão, é sim, transformar um remédio em veneno. Que Deus nos livre de tamanho mal e perigo para a salvação! Amém!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A ABSOLVIÇÃO RESTITUI AO QUE CAIU EM PECADO MORTAL OS MÉRITOS QUE ELE ADQUIRIRA ANTES DE CAIR


Já falamos algo sobre isto. Vamos, hoje, completar nossas reflexões.

Para melhor compreendê-lo é preciso observar que os teólogos distinguem, além das obras vivas, três outras espécies de obras: umas mortíferas,  outras nascidas mortas, e, enfim, as mortificadas. Em latim: opera mortifera, opera mortua, opera mortificata.

OBRAS MORTÍFERAS: São aquelas que matam a alma, como são os pecados mortais; pois," o pecado, consumado que é, produz a morte" (S. Tiago I, 15).

OBRAS MORTAS: São as obras boas por sua natureza, como as orações, os jejuns, as esmolas, etc. que se fazem em estado de pecado mortal. São chamadas mortas ao nascer. pois não podem ser vivas, tendo por autor um morto, nem ser agradáveis a Deus, tendo por autor um inimigo de Deus. É o que diz São Paulo: "Ainda que distribuísse todos os meus bens com os pobres, se não tivesse caridade (=a graça santificante) tudo isto de nada me serviria" (1 Cor. XIII, 3). E o próprio Jesus Cristo, Nosso Senhor, disse no mesmo sentido: "Assim como a vara não dará fruto de si mesma, sem estar unida à videira, do mesmo modo vós, se não estiverdes em mim" (S. João XV, 4). Mas vejam bem, caríssimos, não quer isto dizer que deva abster-se destas espécies de obras quem está em pecado, sob pretexto de que elas não são meritórias para o céu; pois, elas têm outras vantagens muito grandes; principalmente impedem o homem de desacostumar-se das boas obras e habituar-se ao mal, e ao mesmo tempo inclinam o Senhor a fazer-lhe misericórdia.

OBRAS FERIDAS DE MORTE (=MORTIFICADAS): São aquelas que foram feitas em estado de graça e que, neste caso vivas e agradáveis a Deus, perderam toda a vida e todo o valor posteriormente, porquanto o pecado mortal veio destruí-las. Pois, o pecado é como um fogo devastador e um veneno mortal: devasta e consome tudo que encontra no seu caminho. O Senhor diz pela boca de Ezequiel: "Se o justo se afastar da sua justiça, e cometer a iniquidade, de todas as justiças que tiver feito não se fará memória" (Ezequiel XVIII, 24). Estas obras não são nascidas mortas, são apenas feridas de morte, porquanto elas tiveram vida. Tais foram as boas obras de Davi e de São Pedro, na ocasião em que um e outro cometeram o pecado mortal. Pois bem, a absolvição não só chama o homem da morte do pecado à vida da graça, como também faz reviver este tesouro de boas obras, feridas de morte pelo pecado. Observai, caríssimos, a longa série de boas obras que a santa absolvição faz ressuscitar de um só golpe, em um só momento. Momento feliz que faz reviver os trabalhos e os méritos de longos anos! É então que o Senhor diz como Isaac, respirando o bom odor das vestes de Jacó: "O odor do meu filho é igual ao odor de um campo fecundo que o Senhor abençoou" (Gen. XXVII, 27). Pois, na expressão de São Paulo, o justo é o bom odor de Jesus Cristo (Cf. 2 Cor. II, 25).


O que acabamos de meditar, leva-nos a refletir nesta bela exclamação de São João Crisóstomo: "Ó, como a clemência do Redentor é grande! Como o bálsamo salutar da penitência misturado ao seu precioso sangue transforma em perfume o fétido dos nossos crimes!" 

sábado, 31 de dezembro de 2016

A CONFISSÃO BEM FEITA TORNA O PECADOR DE NOVO CAPAZ DE FAZER OBRAS MERITÓRIAS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

É óbvio, mas nunca será demais lembrar que os efeitos maravilhosos da absolvição sacramental, só existirão quando a confissão for bem feita. E, com a graça de Deus, vamos hoje meditar em mais um importantíssimo efeito da confissão: o pecador, recuperando a graça santificante, passa a merecer novamente, isto é, volta a fazer obras que têm merecimento sobrenatural para a vida eterna.

Na verdade, a confissão bem feita comunica-nos a graça santificante, como já meditamos em postagem anterior. Ora, esta graça é que nos torna capaz de fazer obras meritórias.  A alma morta pelo pecado grave não pode se mover e dar frutos salutares para a vida eterna. Dizemos na Teologia que as obras embora boas que se praticam enquanto o pecador ainda está no estado de pecado mortal, são obras "MORTAS". E estas nunca ressuscitarão. Mas as obras boas que uma pessoa tenha praticado enquanto estava na graça de Deus, estas obras, digo, são meritórias para o céu, são sobrenaturais. Todas, no entanto são perdidas com o pecado mortal. São obras chamadas na Teologia de "MORTIFICADAS". Estas é que são ressuscitadas pelas absolvição sacramental. E além disso, como veremos agora, a partir daí, isto é, recuperada que foi a graça santificante, a alma volta a merecer sobrenaturalmente, ou seja, passa novamente a fazer obras meritórias que têm valor para o céu.

Esta graça santificante é, na expressão do próprio Jesus Cristo, "aquela fonte de água viva que jorra para a vida eterna" (S. João, IV, 14). O filho adotivo de Deus, que dirige suas obras a Deus, dá a estas obras um valor sobrenatural e divino, que as torna dignas do céu, porque são obras da graça do Espírito Santo que habita em nós. Quando uma alma está na graça de Deus e a pessoa oferece suas ações a Deus, estas obras são divinizadas. E Deus as aceita e as julga dignas de uma recompensa eterna, sendo que cada uma produz em nós, segundo o Santo Concílio de Trento, "um aumento de graça nesta vida e um igual grau de glória na outra".

Conta-se que um dia, S. Francisco de Assis, chegando às portas da cidade de Senna, aí fincou seu bordão e no mesmo instante esse pedaço de pau seco, criou raízes, cobriu-se de folhas, de flores e frutos. A alma no estado de pecado mortal é uma árvore morta que não pode produzir frutos para a vida eterna. Ninguém pode ressuscitar os mortos senão Deus e aqueles a quem Deus comunica o seu infinito poder. Pois bem, Deus deu ao confessor o poder admirável de dar a vida às almas mortas pelo pecado mortal, por meio da absolvição sacramental. A graça santificante que as almas recuperam então, como uma seiva divina torna-as capazes de produzir obras sobrenaturais e meritórias. "Eu sou a vinha, disse Jesus, e vós sois as varas. Aquele que permanece em mim e eu nele, produz muito fruto" (S. João XV, 5).


Caríssimos, que tesouro de merecimentos pode ajuntar uma alma em estado de graça! A cada instante, em cada uma de suas ações, em cada uma de suas afeições, a alma pode adquirir uma glória eterna. Todo ato de amor que ela pratica merece um paraíso à parte. Ah! se os pecadores compreendessem bem esta verdade, não ficariam um só instante em estado de pecado.  Este é aquele tesouro que Nosso Senhor Jesus Cristo manda a gente juntar lá no céu, tesouro este que o ladrão da morte não rouba, a traça não rói nem a ferrugem consome!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A ABSOLVIÇÃO SACRAMENTAL DÁ À ALMA UMA BELEZA TODA CELESTIAL

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Parte superior: representação da alma no estado de graça.
Na parte inferior: representação da alma em pecado mortal.

Basta meditarmos que a alma em estado de graça é morada do próprio Deus!!! "A Trindade Santíssima, diz o sábio Cornélio a Lápide, habita pessoal e substancialmente na alma em estado de graça, e nela permanece como em seu templo, enquanto esta alma se mantém em estado de graça".
O Espírito Santo fez ver um dia a Santa Teresa d'Ávila a Santíssima Trindade presente e viva em sua alma. "Eu vi distintamente em minha alma, disse ela, as três pessoas divinas, e compreendi o sentido destas palavras de Jesus Cristo: As três pessoas divinas habitarão na alma que vive em estado de graça".

Esta grande verdade é afirmada pelo próprio Jesus Cristo claramente nas Sagradas Escrituras: "Se alguém me ama, meu Pai o amará também, e nós viremos a ele e nele faremos morada". (S. João XIV, 23). E São Paulo diz o mesmo: "O amor de Deus foi difundido em nossos corações pelo Espírito Santo, que habita em nós" (Rom. V, 5). E, coisa admirável! se ele habita em nós, nós também habitamos n'Ele. "Aquele que habita nos céus, diz Santo Anselmo, Aquele que reina sobre os anjos, Aquele diante do qual se inclinam a terra e os céus com tudo que eles encerram, Aquele mesmo dá-se a nós para ser nossa morada". Pois, aquele que está no amor, quer dizer, em estado de graça, está em Deus, e Deus está nele, como atesta a palavra divina na primeira Epístola de S. João IV, 16.

Caríssimos, que tristeza nos causa ver o pecado mortal, qual terrível incêndio, destruir este palácio da graça em nossa alma!!! Mas, por outro lado, quão maravilhoso é, ver o poder da absolvição levantar novamente das ruínas, este palácio!!!

São Filipe Neri dizia um dia a um dos seus discípulos: "Oh! meu filho, como vossa fisionomia está nojenta"! O moço compreendeu, e apressou-se a ir confessar-se. Quando voltou, seu bom pai lhe disse: "Agora estais belo, meu filho; eis aí como vos amo!"

São José Cupertino dizia ao criado de um cardeal: "Como! meu filho, tu serves a um tão nobre senhor, e não tens vergonha de sair com uma aparência tão imunda?. Vai, pois, lavar-te" O homem foi imediatamente confessar-se; depois voltou para junto do santo, que, abraçando-o, disse: "Meu filho, agora eis que te vejo formoso; ainda há pouco estavas horrível!"

São Bernardo tinha razão em dizer: "Amai a confissão, é ela que nos torna agradáveis aos olhos de Deus, quando é feita com verdadeira dor dos pecados. Amai a confissão, se amais a beleza da vossa alma".

Santo Agostinho já tinha dito: "Se quereis realçar em beleza, confessai-vos; sois disforme, confessai-vos para vos tornardes belo; sois pecador, confessai-vos para vos tornardes justo".


Certa vez um jovem já ia entrando na sacristia onde estava o Padre Pio, e este disse-lhe: "Afasta-te daqui, porco!". O moço sai correndo e tremendo. Mas foi meditar no porquê daquela palavra "porco". E, tocado pela graça, reconheceu que ele, pelos pecados que trazia na alma, era verdadeiramente um porco, em certo sentido, bem pior, porque sua sujeira era culposa e na alma. Voltou e pediu confissão ao Padre Pio que o acolheu com toda bondade. E no fim disse-lhe o grande santo: "Vai em paz, você é belíssimo, és filho de Deus!" 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

EFEITOS DO SACRAMENTO DA CONFISSÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Em artigos anteriores já tive oportunidade de mostrar como o Sacramento da Penitência constitui a obra prima da misericórdia  divina. Ao tratar dos efeitos da confissão poderemos constatar ainda melhor esta verdade. É óbvio que todas os maravilhosos efeitos da confissão se dão quando o pecador está bem disposto. Do contrário, é claro, este grande remédio, seria transformado pelo pecador, em veneno, ou, no mínimo o inutilizaria.

PRIMEIRO EFEITO: O perdão de todos os pecados cometidos depois do batismo. É de fé, pois Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Os pecados serão perdoados àqueles a quem vós os perdoardes" (S. João XX, 23). Assim, pois, no mesmo instante em que o confessor diz: Ego te absolvo...etc., m pecador, por mais criminoso que seja, deixa de ser pecador diante de Deus: todos os seus pecados são apagados, contanto, como já acabamos de notar, que ele tenha as disposições necessárias. E, caríssimos, e necessário ressaltar que os pecados são APAGADOS,  e não ENCOBERTOS, como loucamente têm pretendido os protestantes. S. João Batista dizia mostrando o Salvador: "Eis o Cordeiro de Deus que apaga (tira) os pecados do mundo" (S. João I, 29). O que é encoberto existe ainda; o que é apagado é inteiramente destruído.

E absolvição apaga os pecados para toda a eternidade. É o que significam estas palavras das Sagradas Escrituras: "Deus lançará todas as nossas iniquidades no fundo do mar (Miquéias VII, 19). "Vós lançastes meus pecados para traz das vossas costas" (Isaías, XXXVIII, 17). "Se o pecador fizer penitência, não me lembrarei mais das iniquidades que cometeu" (Ezequias, XVIII, 21). E isto não uma vez, nem sete vezes, porém, tantas quantas o pecador se confessar com arrependimento, como o decretou o Santo Concílio de Trento.

Além disto a absolvição perdoa todos os pecados, por mais numerosos e por mais enormes e extraordinários que sejam: "TUDO que desligardes na terra, será desligado no céu" (S. Mateus XVI). Quem diz TUDO não excetua coisa alguma.


Um exemplo: Uma mulher de má vida, atravessando um dia uma igreja para encurtar seu caminho, viu um grande número de pessoas que entravam com ânsias, e que pareciam estar à espera de alguma coisa extraordinária. Curiosa por saber o que se ia passar, tomou lugar como as outras; e aumentando a multidão ela achou-se logo cercada de tal modo, que lhe foi de todo impossível retirar-se. Algum tempo depois, um missionário subiu ao púlpito, e pregou sobre a bondade de Deus para com os pecadores. Ele repetia várias vezes: "Para todo o pecado há misericórdia, contanto  que o pecador se arrependa dele". Aquela mulher, que tudo tinha escutado com atenção, prendeu-se principalmente a essas palavras que a tinham tocado. Assim que terminou o sermão, ela atravessou a multidão aproximando-se do pregador. No momento em que este descia do púlpito, disse-lhe pressurosa: "é verdade, padre, que para todo o pecado há misericórdia?  -  Nada mais certo, respondeu ele; Deus perdoa a todos os pecadores contanto que se arrependam.  - Mas, replicou a mulher, há várias espécies de pecadores; Deus perdoará a todos indistintamente?  -  Sim, respondeu o pregador, contanto que eles detestem todos os seus pecados.  - Perdoará Deus a mim, que há 15 anos cometo os maiores pecados?  -  Sem dúvida, se quiserdes arrepender-vos e não cometê-los mais.  -  Se assim é, peço-vos marcar-me uma hora para me ouvir em confissão.  - Ouvir-vos-ei hoje mesmo, preparai-vos, que estarei às vossas ordens daqui a pouco". O missionário voltou alguns instantes depois, para ouvi-la. A confissão da pecadora durou muito tempo, terminando só à noite. Antes de retirar-se, ela disse: "Padre, não posso voltar para casa sem me expor ao perigo de cair nos mesmos pecados. Não poderíeis procurar-me um asilo para este noite? O missionário mostrou-lhe como isto não podia em hora tão avançada. Resolveu-se então a mulher a ficar na igreja até o dia seguinte, sendo que no dia seguinte foi encontrada morta, em uma capela dedicada â Santíssima Virgem; estava de joelhos, com a face prostrada sobre o chão molhado das lágrimas que ela tinha derramado. Chorara tão amargamente os seus pecados, que morrera de dor. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

QUANDO É PRECISO CONFESSAR-SE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 A Santa Igreja no Código de Direito Canônico assim determina no cânon 989: Todo fiel que tenha atingido a idade da discrição, está obrigado a confessar fielmente os pecados graves, ao menos uma vez ao ano. O Catecismo diz assim: Segundo mandamento da Igreja: "Confessar-se ao menos uma vez cada ano". Este 'AO MENOS' é para indicar que a Santa Igreja deseja que nos confessemos mais vezes. Como Nossa Senhora de Fátima pediu para a prática dos Cinco Primeiros Sábados, a confissão, os fiéis devotos confessam-se todos os meses. Quanto bem isto faz à alma!!!

Mas a Igreja tem o direito de nos impor esta obrigação? Sem dúvida, porque Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Ide, ensinai a todas as nações; quem vos ouve a mim ouve, quem não vos ouve, seja tido como pagão. Assim como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio" (S. Mateus, XXVII, 19; S. Lucas, X, 19; S. João XX, 21).  A Igreja recebeu, pois, de Jesus Cristo, o mesmo poder que Ele tinha, por conseguinte, o poder de fazer leis. Eis aqui uma lei que a Igreja fez, cuja observância obriga sob pena de pecado mortal.

Aqui vamos mostrar como as várias objeções contra a confissão são aniquiladas por tudo o que nos artigos anteriores já escrevemos. Geralmente as objeções que se fazem contra a confissão são: Segundo uns a confissão não serve senão para crianças ou, quando muito, para mulheres devotas; segundo outros, é suficiente confessar-se a Deus, é degradante ir-se ajoelhar ante um padre; em todo caso, para que precisa o padre saber dos nossos pecados? Há quem diga: "é desagradável confessar-se, não tenho coragem; tenho medo do confessor; zombarão de mim". Há quem se glorie de não ter necessidade da confissão sob pretexto de ser muito honesto. Enfim, há muitos que declaram francamente que não querem confessar-se para não serem obrigados a guardar castidade, a fidelidade conjugal, e a restituições.

Como eu disse acima, todas estas objeções são completamente desfeitas, aniquiladas pelo que já foi dito sobre o sacramento da confissão, a saber: 1º  - a confissão foi estabelecida por Deus; 2º - Deus a impôs e a ordenou ao pecador. Se a confissão foi estabelecida por Deus, quem a destruirá? Se Deus a ordena, desgraçado daquele que não se confessa. Pois, a confissão ou o inferno, não há meio termo.
Pois bem, ou confessareis vossos pecados em segredo ao padre, neste mundo, com o coração contrito, ou então ireis confessá-los no inferno com os réprobos derramando lágrimas eternas. Escolhei... sêde prudente, pois se trata aqui de vós mesmos, dos vossos mais caros interesses, de vossa felicidade e de vosso futuro, em uma palavra, da vossa eternidade.

Os mundanos e os ímpios cercam a confissão, esta grande obra da misericórdia divina, com todas as objeções que pode inventar o orgulho, a cobardia e a corrupção do coração. Mas que são todas estas objeções, senão bolas de neve que se derretem aos primeiros raios do sol divino? Este ataque verdadeiramente pueril dos inimigos da Igreja se dá há 20 séculos, e que, apesar do número e da força dos agressores, a confissão não sofreu nenhum abalo. Está bem estabelecido o que Deus estabeleceu.
Caríssimos, não negamos que uma dúvida sobre a confissão possa surgir no espírito de um homem assisado, mas então a prudência quer que se estude a questão sem prevenção, e que se consultem os homens que melhor nos podem esclarecer.


O melhor meio para compreender e apreciar a confissão, é confessar-se; é mesmo o melhor meio para crer nela quando se julga não crer. Eis um exemplo esclarecedor sobre isto: A 21 de dezembro de 1858 apresentou-se ao santo Cura d'Ars um nobre senhor, muito bem vestido, de uns 50 anos de idade, trazendo no paletó a roseta de Legião de Honra. "Sr. Cura, venho conversar convosco sobre um assunto sério".  -  "Bem - respondeu com amabilidade o zeloso padre, ajoelhai-vos ali" e com o dedo mostrou-lhe um banquinho.  -  Sr. Cura, disse o homem, eu não venho confessar-me.  - Então para que vindes?  -  Venho para discutir.  - Para discutir? Mas eu não sei discutir! Ajoelhai-vos ali.  -  Mas, Sr. Cura, tive a honra de dizer-vos que não vim para me confessar. Não tenho fé, não creio, e...  -  Não tendes fé? pobre homem! Sou muito ignorante, mas vejo que sois mais ignorante do que eu. Ao menos, eu sei o que é preciso crer, e vós nem isto sabeis. Fazei o que vos digo; ajoelhai-vos ali.  -  É justamente sobre a confissão que tenho dúvidas, respondeu o homem, um pouco atrapalhado. Não me quero confessar sem crer, isso seria uma comédia que vós não desejaríeis.  -  Crede, meu amigo, eu sei disso, ajoelhai-vos ali. Vivamente impressionado com o aspecto de santidade que brilhava em torno do Cura d'Ars, e do tom das suas palavras cheias de fé, de sua humildade e de sua amável simplicidade, primeiro colocou um joelho sobre o banquinho e depois o outro. O santo confessor tratou-o com autoridade e bondade paternais. Um quarto de hora depois o senhor levantou-se, com o rosto banhado de lágrimas, lágrimas de alegria. E o senhor contava a todos que podia que, terminada a confissão, o Cura d'Ars dissera-lhe: "E agora, meu filho,  vamos  resolver suas dúvidas sobre a fé. Responde-lhe o penitente: "Senhor cura, não tenho mais nenhuma dúvida!". É que após a confissão, seu coração estava limpo e bem puro, e, então podia ver a Deus!!!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O PADRE MARIA AFONSO RATISBONNE

   
    O padre Maria Afonso Ratisbonne merece, com justiça, o título de bom servo da Santíssima Virgem.
    Ele deve a sua conversão do judaísmo e da maçonaria à verdadeira religião à Santíssima Virgem que se dignou aparecer-lhe, ordenando-lhe que se fizesse católico e sacerdote. É o que consideramos em  postagens anteriores.
   O padre Maria Ratisbonne, agradecido por tantas preciosas graças, tornou-se um grande devoto de Maria Santíssima.
    Um profundo pesar, porém, lhe amargurava a vida: sua boa mãe era judia e, de modo algum, queria seguir o exemplo do filho.
    O padre rezava e suplicava, sem cessar, à Mãe de Deus pela conversão da mãe , com ilimitada confiança.
    Mas tudo parecia em vão. A mãe do padre adoeceu gravemente, entra em agonia e morre, sem dar o mínimo sinal de conversão.
    O padre Maria Ratisbonne estava como fora de si e continuamente dizia consigo mesmo: "Por que é que a Virgem Senhora não teve compaixão de mim e não salvou a minha pobre mãe? Eu era muito pior e ela me converteu!"
    Passado algum tempo, chega-lhe a visita de um sacerdote, que traz a mais alvissareira das notícias: o sacerdote vinha em nome da Santíssima Virgem Maria.
    O visitante enviado por Nossa Senhora disse ao padre Maria Ratisbonne: "Alegra-te, padre Ratisbonne venho trazer-te uma notícia, que creio ser a mais feliz de sua vida sacerdotal: sou enviado por Nossa Senhora. Ela apareceu a uma alma predileta de Deus e lhe deu o ordem de comunicar a V. Revma. o seguinte: "Quando a mãe do padre estava em agonia, eu a Mãe de Jesus fui falar com meu Filho e lhe disse: "Meu Filho, eu te peço que não permitas que se condene eternamente a mãe do meu servo , o padre Maria Afonso Ratisbonne". E, continua Nossa Senhora, um raio de graça eficaz saído do Coração de Jesus, iluminou a agonizante, que morreu com o arrependimento perfeito e com o desejo do santo batismo e assim se salvou". O padre Ratisbonne cai de joelhos, beija a Santa Medalha Milagrosa, eleva as mãos para o céu para agradecer a sua Mãe Celeste e saudar a sua mãe da terra que agora era também do céu. Um rio de lágrimas brotou de seus olhos, lágrimas de alegria, lágrimas de amor e gratidão a Maria Santíssima!

CONFISSÃO NO ANTIGO E NOVO TESTAMENTOS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo a confissão existia mas não como sacramento, porque todos os Sacramentos foram instituídos pelo Divino Salvador. No Antigo Testamento existia, mas apenas como meio dado ao pecador para obter o seu perdão. Para se livrar da confissão seria, pois, preciso abafar a voz da natureza; ela clama a todos os culpados que não há perdão sem arrependimento e não há arrependimento sem acusação da falta cometida. Quem não reconhece sua falta e a confessa é porque dela não se arrepende. E assim, não pode ser perdoado.

Adão e Eva foram os primeiros pecadores e os primeiros penitentes; eles se confessaram, desculpando-se, é verdade, mas nisso eles fizeram o que fazem ainda tantos cristãos que se acusam lançando a culpa sobre os outros. Adão disse: "a mulher que Vós me destes por companheira apresentou-me o fruto da árvore proibida e eu comi. Eva disse: " a serpente me enganou e eu comi" - Eu comi, eis aí a confissão. (Cf. Gênesis III, 12).

Davi confessou sua culpa ao profeta Natan: "Eu pequei" (2 Reis XII, 13).

O filho pródigo, apresentado por Jesus Cristo como modelo de arrependimento, acusa seus erros dizendo: meu pai, eu pequei contra o céu em vossa presença (S. Lucas XV, 18). O bom ladrão na cruz fez uma confissão pública: "quanto a nós recebemos o que mereceram as nossas obras" (S. Lucas, XXIII, 41).

A confissão era formalmente prescrita pela Lei Mosaica: "Anunciai isto aos filhos de Israel  -  disse o Senhor a Moisés  - quando um homem ou uma mulher cometerem um dos pecados que acontecem de ordinário aos homens, eles confessarão a falta que cometeram" (Num. LV).  Estas últimas palavras: "as faltas que cometeram" demonstram evidentemente uma confissão particular e bem determinada. Esta confissão devia-se fazer ao sacerdote como atestam o Levítico capítulo V, e a tradição judaica; fazia-se ao ouvido do sacerdote e não era conhecida senão por ele.


"Quando Jesus Cristo veio ao mundo, diz um autor, ele achou a confissão estabelecida e, impondo aos fiéis a obrigação de se confessar, não deu uma lei nova, não fez senão confirmar e aperfeiçoar uma lei já existente, ele que veio, não destruir a lei, mas aperfeiçoá-la (S. Mateus V, 17). Algo semelhante ao que aconteceu com o matrimônio. Assim como Jesus Cristo elevou o matrimônio à dignidade de sacramento, também elevou a confissão à mesma dignidade, ligando-lhe graças especiais, tornando-a parte essencial do sacramento da penitência. É isto que explica porque o preceito da confissão não excitou murmuração alguma entre os judeus e os gentios. Estavam habituados; nada lhes parecia mais natural; uma tradição constante e universal fazia sentir a necessidade indispensável da confissão". 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A NECESSIDADE DA CONFISSÃO AFIRMADA POR SANTOS PADRES E CÉLEBRES ESCRITORES

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

S. Basílio (+ 380) em termos formais diz: "Consideramos como obrigatório para todos a confissão dos pecados àqueles a quem confiada a dispensa dos mistérios de Deus".

Santo Ambrósio (+ 397) diz: "Uma humilde confissão é a melhor defesa que o pecador pode fazer. É chorando por nossas faltas cometidas que escaparemos à pena eterna, que seria inevitável se procurássemos justificá-las".

Santo Agostinho (+ 430), comentando esta passagem dos Salmos "Entrai pela porta que conduz a Deus, pela confissão" (In Ps. 97) diz: "Por estas palavras o profeta declara que ninguém pode chegar à porta da misericórdia de Deus, senão pela confissão de seus pecados. O começo das boas obras é a confissão das más".

Tertuliano (+ 216), célebre escritor eclesiástico, já dizia: "Alivia-se o peso dos pecados confessando-os, tanto quanto se os agrava ocultando-os. A confissão é um começo de satisfação; a dissimulação é um ato de revolta... Vale, pois, mais vos condenardes ocultado vossos pecados do que vos salvardes confessando-os?... A confissão vos causa temor? Pensai nas chamas do inferno que a confissão extinguirá para vós. Refleti na enormidade do castigo para não mais hesitardes quanto à adoção do remédio".

O célebre e seguro autor espiritual Mons. Gaume diz que a confissão foi sempre considerada como o único meio para se obter o perdão dos pecados.

Caríssimos, é mesmo impossível que haja um outro meio de perdão. Com efeito, se houvesse na religião outro meio além da confissão, para se restabelecer na graça de Deus; se bastasse, por ex., humilhar-se em sua presença, jejuar, orar, dar esmolas, declarar-lhe sua falta no íntimo do coração, que aconteceria? Que ninguém mais se confessava. Pois quem seria bastante simples para ir solicitar, com um tom suplicante, aos pés de um homem, uma graça que poderia facilmente obter sem ele, e contra a sua vontade? Então que seria da confissão estabelecida pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo (Cf. S. João, XX, 21 a 23).  - Cairia em desuso e ficaria sem efeito no mundo. Que seria do magnífico poder que Ele deu aos seus ministros de perdoar ou reter os pecados? Não é evidente que este poder tão admirável e divino tornar-se-ia um poder ridículo e completamente irrisório visto que nunca teriam de exercê-lo? Assim, ou há obrigação para todos os pecadores confessarem seus pecados ao padre, ou então Jesus Cristo zombou de seus ministros dizendo-lhes: os pecados serão perdoados a quem os perdoardes, etc. E teria igualmente zombado deles quando lhes disse: dar-vos-ei as chaves do reino dos céus (S. Mateus, XVI, 19). De que lhes serviria ter as chaves do céu se nele se pudesse entrar sem que fosse aberto pelo seu ministério?

Mas, não falte quem pergunte: Padre, mas a contrição perfeita não perdoa o pecador na hora? Respondo: é verdade! Mas é necessário estar lembrado que não se faz um ato de contrição perfeita sem que ao mesmo tempo  tenha o desejo da confissão. Ademais devemos dizer que ninguém é bom juiz em causa própria: quem tem segurança de ter conseguido obter uma contrição verdadeiramente perfeita? Com a confissão é segurança é muito maior, porque com a absolvição basta o penitente ter a contrição imperfeita, ou também chamada atrição. É muito mais fácil alguém se arrepender meditando no inferno que mereceu e no céu que perdeu, do que se arrepender sendo movido unicamente pela ofensa feita ao Sumo Bem e Benfeitor, nosso Pai que nos amou de tal modo que nos deu o seu próprio Filho, isto é, arrepender-se tendo como motivo o amor de Deus. Contudo, caríssimos, é sumamente louvável que procuremos sempre ter a contrição perfeita, mas o próprio Espírito Santo, sabendo da nossa fraqueza, aconselha-nos a meditar em nossos novíssimos: "Meditai nos vossos novíssimos e não pecareis jamais".

Como devemos estar sempre no estado de graça, devemos meditar assiduamente na Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo! Procurar em todas as ocasiões fazer atos perfeitos de amor a Deus. 


Quero lembrar outra verdade importantíssima: Se formos confessar levando no coração o ato de contrição perfeita é certo que a purificação da alma é muito maior, neste sentido que também ficam perdoadas as penas temporais justamente segundo o grau do amor a Deus. O fogo do amor de Deus purifica mais que o fogo do purgatório, pelos merecimentos infinitos de Nosso Senhor Jesus, merecimentos estes que as almas do Purgatório não têm mais à sua disposição. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

OS SANTOS PADRES E O SACRAMENTO DA CONFISSÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
Santo Ambrósio (séc. IV) dizia: "Segundo a declaração de Nosso Senhor Jesus Cristo, aquele que tem o poder de ligar tem também o de desligar. É um direito reservado exclusivamente aos padres. Os verdadeiros padres são os que a Igreja ordena. Aquele que recebeu o Espírito Santo pela ordenação, recebeu o poder de ligar como o de desligar os pecadores. Porque está escrito: recebei o Espírito Santo, os pecados serão remitidos a quem os remitirdes e retidos a quem os retiverdes. Deus prometeu a todos a sua misericórdia, e deu a todos os seus padres o direito ilimitado de conceder perdão (De poenit., c. 2). Deus conhece tudo, mas espera a vossa confissão, não para vos castigar, mas para vos perdoar" (Procec.).

Orígenes, (+ 254), disse: "Declararei a minha iniquidade. Já dissemos, mais de uma vez, que por essas palavras devemos entender a confissão dos pecados. Assim, vede o cuidado que a Escritura toma em dizer-nos que não se devem esconder os pecados no coração. Assim como se procura alívio vomitando a bílis que sobrecarrega o estômago, assim os que escondem os pecados no coração ficam como sufocados e não podem ser curados senão pela acusação de suas faltas: é uma espécie de vomitório salutar. Examinai somente, com cuidado, qual será aquele a quem ides de preferência confessar os vossos pecados. Escolhei, antes de tudo, um médico a quem possais expor as vossas enfermidades espirituais, que saiba chorar e sofrer convosco, e segui exatamente todos os conselhos que ele vos der" (Hom. em Os. 37).

Vamos ouvir agora um bispo do século 3º e que foi a honra da Igreja da África, São Cipriano: Ele louva os que, culpados de pecados por pensamento, vão confessar-se aos ministros de Deus, com dor e simplicidade, descobrindo os segredos de sua consciência (Cf. O. De Lapsis).

Tertuliano (séc. II): "Muitos evitam confessar os seus pecados porque têm mais cuidado com a sua honra do que com a sua salvação. Imitam esses doentes que, acometidos de um mal secreto, o escondem ao médico, deixando-se assim morrer, Será, pois, preferível condenar-vos escondendo os vossos pecados, do que salvar-vos confessando-os? (De Poenit. c. 10).

São Clemente, sucessor de S. Pedro, dizia no 1º século: "Aquele que tem cuidado com sua alma, não tenha vergonha de confessar os seus pecados afim de obter o perdão. S. Pedro, acrescentava ele, mandou descobrir aos Padres até os maus pensamentos. Enquanto estamos sobre a terra, convertamo-nos, pois, uma vez na eternidade, não poderemos mais confessar-nos nem fazer penitência" (In Epist. 2 ad Cor.).

Enfim escutemos S. João Evangelista, ele que recebeu diretamente da boca do próprio Filho de Deus a instituição do Sacramento da Penitência: "Se confessarmos os nossos pecados, Deus, que é justo e fiel, nos perdoará" (1 João, I, 9). Por estas palavras, diz Santo Afonso, deve-se entender a confissão sacramental. Segundo o mesmo santo Doutor da Igreja, vemos na Escritura os primeiros cristãos acusando-se aos pés dos Apóstolos. Os cristãos efésios, que tinham abraçado a fé, e, por conseguinte, recebido o batismo, assustados com os castigos infligidos aos profanadores do nome de Jesus, vinham, diz S. Lucas, em grande número, confessar e declarar a Paulo o que tinham feito, não seus milagres, como diz tolamente Lutero, mas sim seus pecados e ofensas, como diz a versão siríaca, e como o exige o contexto: e vários, que se entregaram a vãs curiosidades, trouxeram seus livros e os queimaram em presença de todos (Atos, XIX, 18). - A confissão existe, pois, desde o tempo dos Apóstolos.

Caríssimos, onde está, pois, o poder que levou os fiéis, há 20 séculos a confessarem aos sacerdotes as suas faltas e pecados? Ele se acha nestas palavras que Jesus Cristo disse aos apóstolos e aos seus sucessores no sacerdócio: "Os pecados serão remitidos a quem os remitirdes, e serão retidos a quem os retiverdes".


Conclusão: Portanto, caríssimos, a Confissão vem de Deus, foi Nosso Senhor Jesus Cristo que a instituiu: Confira S. João XX, 21 a 23. Está muito claro, e por isso, os Santos Padres, os Concílios, enfim toda Tradição da Igreja sempre o reconheceu. E é bom notarmos que este sacramento só existe na verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja, Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

OS CONCÍLIOS E OS SANTOS PADRES SOBRE O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Os Concílios: o de Laodiceia em 366, o de Rênes em 639, o de Chalon em 644, o de Nantes em 656, o de Constantinopla em 692, o de Germânia em 735, o de Tours em 813, o de Paris em 820, o de Pavia em 850, etc., proclamavam a instituição divina e a necessidade da confissão muitos séculos antes do 4º Concílio de Latrão.

O Concílio de Germânia, reunido em 735, ordena que cada coronel tivesse à sua disposição um padre para ouvir a confissão dos seus soldados.

A história conserva os nomes de muitos confessores. Eis aqui alguns; no século sétimo, Santo Ausberg, Arcebispo de Ruão, confessor do rei Tierry I; São Wieron, Bispo de Ruremonde, confessor de Pepino, pai de Carlos Martello. No século oitavo, Carlos Magno se confessava a Hildebrando, Arcebispo de Colônia, e seu filho Luiz le Debonnaire a Santo Alderico, Bispo de Mans. No 10º século, o imperador Othon tinha por confessor Ulrico, Bispo de Augsburg. No 11º século, o Padre Estêvão, da diocese de Orleans, dirigia a consciência da rainha Constança, mulher do piedoso rei Roberto.


Depois deste pequeno parêntese sobre os confessores de algumas altas personalidades, passemos finalmente a falar sobre os Santos Padres da Igreja. Aliás, vamos ouvir apenas alguns, porque, na verdade constituem uma multidão esmagadora para os nossos adversários. S. Bernardo (séc. XII) dizia: "De que serve confessar parte de seus pecados e calar outra? Não são todos eles conhecidos de Deus? Ousais, pois, ocultar alguma coisa àquele que ocupa o lugar de Deus em um tão grande sacramento?"  Santo Anselmo, (séc. XI), dizia: "Descobri fielmente aos padres, por uma humilde confissão, toda as manchas da lepra que tendes dentro de vós, e sereis purificados". São João Clímaco (séc. VI), escrevia: "Nunca se ouviu dizer que os pecados declarados no sacramento da penitência fossem divulgados. Deus assim determinou para que os pecadores não se afastassem por isso da confissão, ficando privados da única esperança de salvação que lhes resta". No séc. V. S. Leão, numa carta dirigida aos bispos de Campanha, protesta energicamente contra o abuso da confissão pública: "basta descobrir aos padres, por uma confissão secreta, os pecados de que se acha carregada a consciência". Santo Agostinho, falecido em 430, dizia: "Não basta confessar a Deus, é preciso confessar-se àqueles que receberam d'Ele o poder de ligar e desligar". S. João Crisóstomo (+ 407) falava da confissão nos mesmos termos em que os Padres falam em nossos dias: "O padre coloca seu trono no céu, e é de lá que exerce seu julgamento. Quem disse isso? o próprio Rei do Céu:  -  tudo que ligardes na terra será ligado no céu. Que há comparável a esta honra? O céu empresta à terra as suas decisões. O Juiz acha-se aqui em baixo, e o Senhor obedece ao seu ministro e ratifica o julgamento que este faz." E fazendo alusão aos Sacerdotes da Antiga Lei, que não faziam senão certificar a cura dos leprosos, sem os curar, o mesmo santo dizia: "Não é a lepra do corpo, é a da alma que os padres da Nova Lei curam. Não é o direito de julgar da cura que eles exercem, mas o de curar". 

A MEDALHA MILAGROSA E A CONVERSÃO DE AFONSO RATISBONNE

   "Nessa maravilhosa conversão manifesta-se o dedo de Deus; aí se admira o poder de Maria Santíssima, pois não havia nada, absolutamente nada que dispusesse Afonso Ratisbonne para receber tão assinalado favor.
   Nasceu Afonso em Strasburgo, no meio de uma rica família israelita. Eram ao todo dez irmãos. Teodoro, doze anos mais velho que Afonso, chega à fé cristã após longas e penosas pesquisas, na calma da reflexão e na plena madureza de espírito.
   Teodoro, recebeu o batismo aos 25 anos, após haver concluído seu curso de Direito. Abraçou o estado eclesiástico e foi sagrado sacerdote cinco anos depois do seu batismo.
   Seu irmão Afonso, desde a primeira mocidade jactava-se de não ter nenhuma religião. "Eu era judeu de nome, diz ele; eis tudo, porque eu não acreditava nem sequer em Deus. Nunca abri um livro de religião e, na casa do meu tio, bem como entre meus irmãos e irmãs, não se praticava a menor prescrição do judaísmo".
   Um ano e quatro meses antes da sua conversão, enfermara gravemente um dos seus sobrinhos, filho do seu irmão mais velho. O Padre Teodoro, que então exercia os seus ministérios sacerdotais em Paris, desejava pelo menos abrir as portas do céu a seu sobrinho, conferindo-lhe o santo batismo.
   Teria talvez alcançado o assentimento do pai, se não fosse a intervenção do seu irmão Afonso que, cheio de indignação e de furor, enxotou violentamente para longe do pequenino moribundo o ministro de Deus. Este, que já havia sofrido tanto da parte da sua família e de toda a colônia israelita, retirou-se com calma, disposto a sofrer ainda mais pelo nome de Jesus Cristo e pela salvação dos seus.
   No Santuário de Nossa Senhora das Vitórias, onde trabalhava, fazia o piedoso sacerdote ferventes preces pela conversão do seu irmão Afonso que o não podia tolerar. Como explicar tamanho ódio contra seu bondoso irmão Teodoro, se Afonso era judeu religiosamente falando só de nome? É que ele se filiara a maçonaria e então era implacável inimigo dos cristãos.
   Havia Afonso concluído seu curso de Direito e estava para completar 27 anos, quando os desejos da sua família, corroborados por simpatia recíproca, o induziram a casar-se com a sua sobrinha, filha do seu irmão mais velho. "Pensei, então, narra Afonso, que a minha felicidade fosse completa. Via minha família no auge da alegria, pois devo dizê-lo, há poucas famílias cujos membros se unem tanto como a minha... Só um dos seus membros me parecia odioso: era meu irmão Teodoro. Entretanto ele também nos amava, mas seu hábito me causava repulsa, seu pensamento me turbava, sua palavra grave e séria excitava a minha cólera".
  "E, continua Afonso, "por causa da conversão de Teodoro eu nutria acerbíssimo ódio contra os padres, as igrejas, os conventos, e sobretudo contra os jesuítas, cujo nome só bastava para provocar o meu furor".
   A noiva de Afonso contava 16 anos apenas, pelo que julgaram seus pais conveniente diferir por algum tempo o casamento.
   Neste meio tempo Afonso empreenderia uma viagem ao estrangeiro com o duplo fim de distrair-se e de revigorar a sua saúde.
   Afonso deixou Strasburgo a 17 de novembro de 1841, decidido a visitar Nápoles, a passar o inverno em Malta e a voltar pelo Oriente. Outros, porém, eram os desígnios da Providência. Demorou alguns dias em Marselha e partiu para Nápoles.
   Durante a viagem fundeou o navio em Civitavecchia: era o dia 8 de dezembro e a artilharia disparava algumas salvas. Maravilhado, perguntou Afonso qual era o motivo daqueles rumores de guerra nas terras pacíficas do Papa. Responderam-lhe que era a festa da Imaculada Conceição. Sacudiu os ombros com desdém e não quis desembarcar. Não tinha nenhum desejo de visitar Roma, embora dois amigos seus o estimulassem vivamente a dar esse passo. Deus, porém, o guiava para o Cidade Eterna. Ao deixar Nápoles, em vez de comprar passagem para Palermo. por engano achou-se numa diligência que se dirigia para Roma e lá chegou a 6 de Janeiro. 
    Era o ano de 1842. Afonso Ratisbonne achava-se em Roma,  a cidade eterna, da qual cada pedra é uma lembrança sagrada e tem uma voz para celebrar as grandezas da fé cristã. Ali Ratisbonne encontrou seu companheiro de infância Gustavo Bussíère, irmão do barão Teodoro de Busssière.
   Teodoro de Bussière era íntimo amigo do Padre Teodoro Ratisbonne. O Barão abandonara o protestantismo para fazer-se católico e por esta razão inspirava a Afonso Ratisbonne uma profunda antipatia. Gustavo Bussière mantinha-se protestante e, em companhia de Afonso Ratisbonne, metia freqüentemente a rídiculo a Igreja Católica.
   A 15 de Janeiro, nove dias apenas depois de sua chegada, resolveu Afonso deixar Roma e se viu na dura contingência de ir apresentar suas despedidas ao indesejável barão Teodoro de Bussière. O distinto e piedoso barão  suportou pacientemente, durante uma hora, uma saraivada de sarcasmos proferidos pelo jovem Afonso contra o catolicismo, procurando evidentemente atingir os dois Teodoros convertidos: o seu irmão Ratisbonne convertido do judaísmo; e o irmão de Gustavo Bussière, convertido do protestantismo.
   "Então, - refere o barão - apresentou-se à minha mente uma ideia maravilhosa, uma ideia celeste, que os sábios do mundo teriam julgado rematada loucura: "Já que sois um espírito tão forte e seguro de vós mesmo, lhe disse, não recusareis trazer o que estou para dar-vos".
   - De que se trata? perguntou secamente Afonso. - "Respondi-lhe  mansamente - disse Bussière, trata-se simplesmente desta medalha". Era a medalha milagrosa de Nossa Senhora das Graças. Recusou-a Afonso com um misto de indignação e de espanto.
   "Mas - acrescentou o barão Bussière friamente - segundo o vosso modo de ver, isto vos deve ser absolutamente indiferente, ao passo que para mim trará um grandíssimo prazer". - "Oh! - exclamou Afonso rindo a bom rir, a bandeiras despregadas - "então a trarei por mera complacência para mostrar-vos que é sem razão que acusam os judeus de obstinação e de invencível teimosia. Além disso me fornecereis um belíssimo capítulo para as minhas notas e impressões de viagem".
   "E, prossegue  o barão, "Ratisbonne continuava com motejos que me ralavam o coração... Entretanto, passei-lhe ao pescoço uma fita à qual minhas netinhas tinham pregado uma medalha. Mas restava-me ainda uma coisa mais difícil de obter: queria que ele recitasse a piedosa invocação de São Bernardo: "Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria..." Revoltou-se ao ouvir este segundo pedido. "Mas uma força interior impelia-me, prossegue B. de Bussuère, a lutar contra as suas reiteradas recusas com uma espécie de obstinação. Apresentei-lhe a oração suplicando-lhe que a trouxesse consigo e que tivesse a bondade de copiá-la porque eu não dispunha de outro exemplar". Então, com um movimento de impaciência e ironia, para se ver livre das minhas importunações, disse ele: "Bem! eu escreverei; dar-vos-ei a minha cópia e conservarei a vossa". E retirou-se visivelmente contrariado.
   Afonso cumpriu a palavra; copiou a oração, leu-a e releu-a tantas vezes que já a sabia de cor. As palavras de "Memorare" não lhe saíam da memória.
   No dia 20 de Janeiro, festa de São Sebastião, Afonso ainda se achava em Roma, onde o retinha uma força misteriosa. Ao meio dia conversou num café com dois amigos. "Se neste momento - diz ele - um terceiro interlocutor  se tivesse aproximado de mim e me tivesse dito: "Afonso, dentro de um quarto de hora adorarás Jesus Cristo, teu Deus e teu Salvador... e renunciarás ao mundo, a suas pompas, a seus prazeres, a tua fortuna, a tuas esperanças, a teu futuro, e se for necessário renunciarás ainda a tua noiva, à afeição da tua família... Digo que se algum profeta me tivesse feito semelhante predição, só a um homem eu julgaria mais insensato que ele, e seria aquele que tivesse dado crédito à possibilidade de tal loucura".
   Era 20 de Janeiro de 1842. Ratisbonne acha-se ainda em Roma. Saindo de um Café onde acabara de conversar com dois amigos, encontra uma carruagem: é do Barão de Bussière que o convida para dar um passeio. Afonso, sem muito entusiasmo, mais para não fazer uma descortesia àquele do qual pouco antes tinha sido hóspede, aceita o convite. Acharam-se logo diante da igreja de Santo André delle Fratte. O piedoso conde de Laferronays devia receber as honras fúnebres e o Barão de Bussière fora encarregado de reservar uma tribuna para a família do defunto.
   "Será coisa de dois minutos, diz ele a Afonso que, durante este tempo resolve visitar a igreja. Esperava-o nesta igreja a misericórdia de Maria Santíssima. Soara a hora da graça que desde a conversa no café, já trabalhava suavemente em sua alma. A Mãe de Deus se deixara comover pelas orações do barão de Bussière , do conde de Laferronays que morrera repentinamente depois de ter dito à sua esposa: "Repeti hoje mais de cem vezes o Lembrai-vos", e sobretudo pelas orações e lágrimas ardentes que em seu Santuário derramava seu diletíssimo servo o Padre Teodoro, irmão de Afonso Ratisbonne.
   Tenta Afonso descrever o que então se passou em sua alma: "Esta igreja é pobre e deserta; creio que nela me achei mais ou menos só... Nenhum objeto de arte atraiu a minha atenção... Subitamente nada mais vejo... ou antes, ó meu Deus, vejo uma só coisa! Como seria possível falar do que vi? Oh! não, a palavra humana não deve tentar exprimir o que se não pode exprimir; toda descrição, por sublime que seja, não seria mais que uma profanação da inefável realidade..."
   Tornando à igreja, Barão de Bussière não encontra Afonso onde o havia deixado, mas ajoelhado diante da capela de São Miguel Arcanjo e de São Rafael, submergido em profundo recolhimento.
   "A esta vista, pressentindo um milagre, depõe o barão, apoderou-se de mim um frêmito religioso. Dirijo-me a ele, agito-o várias vezes sem que ele dê conta da minha presença. Afinal, voltando para mim seu rosto banhado de lágrimas, junta as mãos e me diz: "Oh! como este senhor rezou por mim!"
   Compreendi logo que se tratava do falecido Conde de Laferronays. Amparado, quase levado por mim, sobe à carruagem. Onde quereis ir? pergunto-lhe eu.
    _ "Levai-me para onde quiserdes. Depois do que vi, obedeço".
   Declara-me em seguida que só falará com o consentimento de um padre, porque o que eu vi - acrescenta ele - só o posso dizer de joelhos".
   Conduzido à igreja do Jesú, dos padres jesuítas, ao lado do padre Villefort que o convida a explicar-se, tira Afonso a medalha, abraça-a, mostra-a e exclama: "Eu a vi! Eu a vi!... Havia uns instantes que eu estava na igreja, quando repentinamente me senti dominado por uma turbação inexprimível. Ergui os olhos; todo o edifício desparecera à minha vista; só uma capela tinha, por assim dizer, concentrado toda a luz; e, no meio desta irradiação, apareceu, em pé sobre o altar, grande, brilhante, cheia de majestade de doçura a Virgem Maria, tal qual está em minha medalha; uma força irresistível atraiu-me para ela. A Virgem com a mão me fez sinal para que me ajoelhasse. Pareceu dizer-me: "Está bem! Não me falou nada, mas eu compreendi tudo".
   Mais tarde dirigiu-se Afonso à Basílica de Santa Maria Maior a fim de agradecer a sua celeste benfeitora o grande benefício recebido.
   Ao entrar na capela de Nossa Senhora, exclamou: "Oh! como estou bem aqui! Gostaria de ficar aqui para sempre: parece-me que já não estou na terra!"
   Ao fazer a visita ao Santíssimo Sacramento, por pouco não desfaleceu. Apavorado, exclamou: "que coisa horrível estar na presença do Deus vivo sem ser batizado!"
   Afirma o Padre Roothan, geral da Companhia de Jesus, que "depois da sua conversão o senso da fé nele se manifestava de modo tão intenso que lhe fazia sentir, penetrar e reter tudo o que lhe era proposto, tanto que em pouco tempo o julgaram suficientemente instruído para receber o santo Batismo".
   Ratisbonne recebeu sem dúvida uma assistência toda especial de Deus e da Santíssima Virgem.
   A 31 de Janeiro, 11 dias após a aparição, Afonso Ratisbonne abjura solenemente a maçonaria e recebe o batismo na igreja do Gesú das mãos do cardeal Patrizzi. O vasto e suntuoso templo estava repleto. Ali se encontrava o escol da sociedade romana e estrangeira. Acompanhado pelo Padre Villefort e por seu padrinho, o barão de Bussière, Afonso foi levado à porta da igreja. Vestido de uma longa túnica de damasco branco, trazia o Terço e a medalha de Nossa Senhora nas mãos.
   - Que pedes à Igreja de Deus? pergunta-lhe o oficiante.
   - A fé!
   Ah! diz uma testemunha ocular dessa cena majestosa, já tinha a fé católica aquele a quem a estrela da manhã iluminara com os seus raios.
   Afonso beija a terra e fica prostrado até ao fim dos exorcismos.
   Levanta-se e, guiado pelo pontífice, encaminha-se para o altar entre as bênçãos de uma imensa multidão que respeitosamente se abre à sua passagem.
   Perguntam-lhe qual é o seu nome.
   - Maria! responde num arrebatamento de amor e de gratidão.
   - Que desejas?
   - O batismo.
   - Crês em Jesus Cristo?
   - Creio!
   - Queres ser batizado?
   - Quero!
   Com um sorriso de celeste beatitude levantou sua cabeça ainda umedecida da água batismal. Acabava de transpor um abismo: era cristão.
   Afonso, cheio de Deus, radicalmente transformado pela graça, deixa o mundo e entra na Companhia de Jesus. Nela viveu dez anos vida exemplar e só a deixou, desfeito em lágrimas, para fazer a vontade de Deus que o queria ao lado do seu irmão, o Padre Teodoro, para com ele trabalhar numa obra tão grata ao mesmo Deus e de tanta relevância, qual é a da conversão dos judeus.
   O piedoso Padre Maria Afonso Ratisbonne nunca se esqueceu de sua Mãe amantíssima que o arrancou das trevas da incredulidade para os esplendores da verdadeira fé.
   Inclinava-se profundamente sempre que ouvia no canto das ladainhas a invocação: "Refúgio dos pecadores, rogai por nós!"
   Os que o ouviam falar da sua Mãe Celeste adivinhavam o que se passava no seu coração; seu olhar fulgurante parecia que ainda contemplava a mais bela e a mais pura das virgens.
   A medalha milagrosa, que exercera papel preponderante em sua conversão, era o seu mais caro tesouro. Julgou um dia que a havia perdido; sua aflição foi extrema; parecia-lhe que fora abandonado pela Virgem misericordiosíssima. Suas lágrimas não cessaram de correr até que a encontrou.
   Maria Santíssima foi a sua consolação em todas as penas e seu grande motivo de esperança em todas as provações. Dizia que Maria Santíssima não é outra coisa que uma mão de Deus, não a mão que castiga, mas a mão das misericórdias.
    Dizem os historiadores que quando o Padre Ratisbonne pregava sobre Nossa Senhora, todos os ouvintes se comoviam, muitos pecadores se convertiam. Leiam por gentileza o próximo post deste blog e verão a conversão mais importante que o Padre Maria Afonso obteve por intercessão de Maria Santíssima.
   Caríssimos leitores, possa esse episódio tão comovente, que acabais de ler, reavivar em vossos corações a chama da devoção a Santíssima Virgem Maria.
   Se quisermos assegurar o único bem desejável que é a eterna salvação de nossa alma, vivamos, como bons filhos, no Coração maternal de Maria Santíssima.
   Os que a ela recorrem não deixam de ser ouvidos; os que choram em seu regaço materno não deixam de ser consolados e os que nela depositam inteira confiança e evitam tudo o que possa magoar-lhe o coração, nada têm que temer nem na vida nem na morte.
   A devoção sincera a Maria Santíssima é penhor seguro de salvação. Deus quis que por ela tivéssemos Jesus. E Jesus é a nossa salvação. Por isso o pedido que nos faz a Nossa Mãezinha do Céu é este: "Não ofendam mais o meu Filho!!!"
NB: As coisas aqui narradas foram quase integralmente extraídas do livro: "O caminho que leva para Deus" do Pe. Arlindo Vieira, S. J.    

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

CONFISSÃO AURICULAR E NÃO ABSOLVIÇÃO COLETIVA OU COMUNITÁRIA


Nosso Senhor Jesus Cristo, como vimos na leitura anterior, deu aos Apóstolos e seus sucessores, um duplo poder: de ligar e desligar as consciências, e o de perdoar e  reter os pecados. No confessionário o sacerdote é constituído por Jesus como juiz. É um poder judiciário que evidentemente nunca poderá ser exercido arbitrariamente, isto é, não pode perdoar ou não perdoar sem conhecer as condições para poder perdoar ou não perdoar. E para conhecer estas condições, como sejam, o arrependimento, o propósito firme de fazer tudo o que for necessário para não tornar a cair, como dizia, para conhecer estas disposições da alma do penitente, o confessor terá obviamente de ouvir cada um em particular. Isto é que se chama confissão auricular. "Auris" em latim quer dizer: "ouvido", "auricula" quer dizer "orelha". Assim o penitente deve contar os seus pecados ao ouvido do confessor. Segundo a Tradição, absolvição coletiva, só pode ser dada em casos extraordinários em que pessoas correndo risco iminente de morte, não há tempo para cada um em particular se confessar. Por exemplo: em caso de incêndio, em um naufrágio, em uma queda iminente de avião etc. Nestes casos, havendo um padre presente, ele exorta brevemente a todos a se arrependerem de seus pecados e a todos dá a absolvição coletiva. Nestes casos quem tiver o arrependimento mesmo imperfeito, isto é, a atrição, fica perdoado. Mas, quem se escapar da morte, tem obrigação de contar seus pecados em particular a um confessor. Isto é o que chama na Teologia "submeter os pecados  ao poder das chaves".

Portanto, todo confessor, antes de pronunciar a sentença, deve conhecer a causa de cada um. Fazendo uma comparação: que diríamos de um juiz que, sem examinar a causa, pronunciasse a sentença ao acaso, dizendo a um: eu vos absolvo, e a outro, eu vos condeno; a este, eu vos declaro culpado, àquele, vos proclamo inocente! Caríssimos, não seria o cúmulo do absurdo? E o rei (ou qualquer outro de direito) ratificaria semelhantes decisões dadas em seu nome? É, pois, claro que o Salvador confiando sua autoridade aos seus ministros, quis que os seus julgamentos fossem baseados sobre a equidade e que por conseguinte, se conhecesse o estado das consciências.

É pois sumamente necessário que o penitente confesse e descubra ao padre o estado de sua alma, todos os seus pecados, maus hábitos, assim como as disposições atuais, afim de que o padre possa decidir em cada caso particular se deve perdoar ou não.


E nunca podemos perder de vista que a Confissão é um tribunal de misericórdia. O réu (pecador) é o que se acusa, mas o faz justamente para ser perdoado. Só depende de seu arrependimento sobrenatural e sincero, e da sinceridade em contar pelos menos todos os seus pecados mortais, com o número e as circunstâncias que mudam a espécie do pecado. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O PERDÃO DIVINO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

O poder de perdoar pecados é um poder divino. É o que estamos demonstrando.

Este poder sublime, Nosso Senhor Jesus Cristo deu-o aos seus Apóstolos no dia de sua Ressurreição. As portas da casa, onde os discípulos se tinham reunido, estavam fechadas, tal o medo aos judeus; e Jesus, aparecendo no meio deles, disse-lhes: "A paz seja convosco. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Alegraram-se, pois os discípulos ao ver o Senhor. Ele disse-lhes novamente: A paz seja convosco. Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (S. João, XX, 19 a 23).

O Santo Concílio de Trento acrescenta: Se alguém disser que por estas palavras  ("recebei o Espírito Santo... etc.) do Salvador não se deve entender o poder de perdoar ou reter os pecados pelo sacramento da Penitência, seja anátema (C. T. ss. XIV, Cânon 3).

Devemos provar que este poder é permanente na Igreja, ou seja, deve durar até o fim do mundo. Porque o fim que Nosso Senhor Jesus Cristo se propôs dando à Igreja o poder das chaves é de livrar os fiéis dos laços do pecado e de lhes abrir as portas do céu. Está claro que este poder deve durar enquanto existir pecado para perdoar e tanto quanto durar a Igreja. Ora, sempre haverá pecados que perdoar; porque tal é a fragilidade humana que ninguém há que durante a vida não cometa faltas graves ou leves. O poder de absolver não será menos necessário nos últimos séculos do que o foi no primeiro. Demais a Igreja tem o promessa da imortalidade ou indefectibilidade que garante a sua existência até a consumação dos séculos. Logo, o poder que ela recebeu para perdoar os pecados é permanente e não acabará senão no fim do mundo.

Devemos considerar, outrossim, que Jesus Cristo deu aos seus Apóstolos e a seus legítimos sucessores duplo poder: o de ligar e desligar as consciências e o de perdoar e reter os pecados; em outras palavras, Ele os fez juízes das consciências. Jesus deixou, como diz o Concílio de Trento, aos padres, seus vigários, como presidentes e juízes aos quais os fiéis devem confessar os pecados mortais que tiverem cometido, afim de que, em virtude do poder das chaves, eles pronunciem a sentença que perdoa ou retém os pecados. É claro que os padres não poderiam julgar sem conhecimento de causa. Daí, vem que os penitentes devem enumerar na confissão todos os pecados mortais de que se reconhecem culpados. Este poder judiciário não o podem exercer arbitrariamente; eles devem, antes de pronunciar a sentença, conhecer a causa de cada um. Vamos falar sobre isto, se Deus quiser, na próxima leitura espiritual.