quarta-feira, 6 de março de 2013

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 11 )

   50. O LUTERANISMO E A RAZÃO.

   Muito longo se tornaria este capítulo, se fôssemos analisar uma por uma, todas estas enormidades da teoria luterana; ouçamos, porém, o escritor Antonino Eymieu que nos vai dizer muito em poucas palavras: 

   "Será exagerado dizer que, do princípio ao fim, tudo, neste monstruoso sistema, brada contradição? O homem espoliado pelo pecado de um outro não somente, como diz o Catolicismo, dos privilégios sobrenaturais - os quais este outro, cabeça da raça, lhe teria transmitido, se tivesse sido fiel - mas espoliado de sua natureza própria; não somente de gratificações acessórias, mas do que lhe era devido; perdendo sua liberdade e continuando responsável; aspirando ao Céu e forçado a marchar para o inferno; não podendo salvar-se senão por uma fé-confiança reclamada à sua liberdade aniquilada, à sua vontade arquimorta; conservando, apesar de tudo, por não sei que prodígio, sua consciência moral, mas aconselhado a dela despojar-se, a fugir dela como de uma tentação de Satanás. Em face deste homem, um Deus veraz que mente à sua criatura; um Deus inteligente que se deixa enganar por ela, que já não percebe os mais monstruosos pecados, quando são cobertos com o manto de Jesus Cristo e os deixa entrar de contrabando no Céu, um Deus justo que "condena inocentes com a mesma desenvoltura que o leva a "coroar indignos"; um Deus sábio que faz leis impossíveis, que obriga (ao menos aqueles que não creem) a observá-las e que força a violá-las; um Deus santo que olha da mesma forma os santos e os pecadores, ou, se mostra alguma preferência, a reserva aos pecadores. Todas estas palavras se chocam profundamente; todas estas ideias são inconcebíveis; diante deste acervo de contradições, a razão se revolta" (Deus Arguments pour le Catholicisme págs. 65 e 66). 

   Vamos agora procurar a Lutero e protestar contra sua doutrina, dizer que ela é contrária, profundamente contrária à nossa razão. Certamente vamos com medo de que "o maior e o mais desbocado escritor do seu tempo" como o chamava Hausrath, que por sinal era protestante, nos vá brindar com um daqueles palavrões que tantas vezes ele soube dizer. Mas qual é a nossa surpresa! Lutero concorda conosco. Sua doutrina é mesmo contra a razão. E contra esta razão humana é que se volta; para ela é que reserva as suas injúrias. No seu último sermão proferido em Vitemberga, em 1546, chamou a razão humana: "a concubina do diabo". 

   Diz ele: "Mesmo a nós que recebemos as primícias do Espírito, é-nos impossível compreender e crer perfeitamente todos estes pontos, porque eles contradizem no último grau a razão humana" (Apud Denifle-Paquier III-379). "É impossível fazer concordar a fé com a razão... A razão é contrária a fé. Unicamente a Deus pertence dar a fé contra a natureza, contra a razão, em uma palavra, fazer crer" (Apud Denifle-Paquier III-275). "Nas coisas espirituais e divinas, a razão é completamente cega" (Erlangen XLV-336).

   Estão de acordo com a doutrina de Lutero os protestantes de nossos dias? É o que veremos, se Deus quiser. 
    Antes, porém, não podemos deixar de fazer duas observações que espontaneamente nos ocorrem: é o que faremos nos próximos posts. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 10 )

49. CONSEGUIU LUTERO SEU OBJETIVO?

   É escusado dizer que nesta doutrina ímpia e absurda Lutero não podia encontrar a paz que almejava para o seu espírito atribulado. Depois do rompimento com a Igreja, continua seu drama interior: remorsos, tentações, inquietações e crises violentas. Ele acusa o demônio como o responsável por tudo isto. E, por mais estranho que pareça, ele aponta, como um dos remédios para estas perturbações interiores, os acessos de cólera contra os seus opositores. "Isto, diz ele, refresca a minha prece, aguça o meu espírito e expulsa todos os pensamentos de desânimo e todas as dúvidas" (Walch XXII-1237). 

   Além disto, a sua doutrina com que forjou para si uma consolação diabólica, apoiando-se na cega confiança em Cristo para se ver tranquilamente livre de todas as leis, trazia uma consequência capaz de lançar muitas almas no desespero. 

   Calvino irá ensinar a sua doutrina de que Deus predestina uns para o Céu e outros para o inferno, por um decreto irrevogável que o próprio Calvino chama DECRETO HORRÍVEL (Instituição Cristã III-23). Lutero não usa esta expressão "predestinação para o inferno", mas isto já está contido claramente na sua doutrina sobre o arbítrio escravo, em que nos mostra Deus jogando com as criaturas a seu bel-prazer, operando nelas o bem e o mal, encaminhando-as inelutavelmente para o Céu ou para a perdição. E quando se lhe apresentam os textos da Escritura em que se diz que Deus quer a salvação de todos, ou que não quer a morte do pecador e sim que se converta  e viva, Lutero, do mesmo modo que Calvino, faz a distinção entre a vontade de Deus REVELADA e a sua vontade OCULTA. A vontade revelada é a que Deus nos quer fazer crer nas Escrituras; mas a sua vontade oculta é que muitos se percam e que não haja senão um certo número de eleitos no Céu. Distinção, é claro, perfeitamente absurda (nº 215 como mais tarde veremos).

   No seu livro "O arbítrio Escravo", diz que Erasmo no Livro "Diatribe" mostra ignorância, porque não distingue "entre o Deus revelado e o Deus oculto, isto é, entre a palavra de Deus e o próprio Deus. Deus faz muitas coisas que não nos mostra na sua palavra. Quer muitas coisas que pela sua palavra não nos mostra querer. Assim não quer a morte, isto é, na palavra; mas quer por aquela sua vontade imperscrutável. É bastante conhecer apenas que existe em Deus uma certa vontade imperscrutável. O que quer esta vontade, por que quer, até onde quer, a nós não é lícito investigar, desejar, procurar ou tocar, mas somente temer e adorar" (Arbítrio Escravo I. c. 730).
   Mas como é isto? - perguntamos. Deus vai condenar pessoas sem culpa alguma, uma vez que estas pessoas não são livres nas suas ações? Lutero responde que o valor da nossa fé está precisamente nisto: em achar Deus justo, ou Ele coroe indignos, ou condene inocentes. Diz ele: " - Mas quando condena inocentes, porque isto não agrada, se considera iníquo e intolerável, aqui se reclama, aqui se murmura, aqui se blasfema... Ora, se te agrada Deus coroando os indignos, não te deve desagradar Deus condenando os inocentes. Se Ele é justo de uma forma, por que não será de outra? Aqui espalha graça e misericórdia nos indignos, ali espalha ira e severidade nos inocentes; em ambos os casos pode ser iníquo e exagerado aos olhos dos homens, mas é justo e veraz em si mesmo. Como é justo que Ele coroe os indignos, é incompreensível agora; veremos, porém, quando chegarmos ali onde já não se crê, mas se vê face a face. Como é justo que Ele condene os inocentes, é incompreensível agora; contudo se crê, até que seja revelado o Filho do Homem" (Arbítrio Escravo ibidem I. c. 730 segs).

   Aí se apresenta naturalmente uma objeção, e esta Lutero faz a si próprio: se Deus tudo pode, e Ele é quem faz tudo em nós, o bem e o mal (porque é o Único Ser Livre), por que motivo não transforma esta natureza totalmente corrompida do homem, por que motivo não encaminha sempre as nossas ações para o bem e para o Céu? A resposta de Lutero é esta: "É segredo de Sua Majestade" (Weimar XVIII-712).

   Para Lutero, Deus "é bom fazendo o mal" (Weimar XVIII p. 709), assim como o homem é mau fazendo o bem.
   Não há doutrina mais adequada do que esta para lançar as almas no desespero. De modo que a Lutero que procurou, fosse como fosse, a certeza da salvação PARA SI, pouco se lhe dá que muitos outros... o diabo os carregue para o inferno... e, o que é pior ainda, sem nenhuma culpa dessas pessoas, pois não gozam de livre arbítrio. Para isto ele não foi sentimental... 

   

sábado, 9 de fevereiro de 2013

AVISO - Retiros.

   Por graça de Deus, estarei pregando retiros a partir de hoje, dia 19/02 até o dia 22/02/ 2013. De hoje até Quarta-feira de Cinzas estarei pregando para homens e rapazes e do dia 14 até o dia 22 de fevereiro estarei pregando para as Irmãs Carmelitas. Imploro as orações de todos nas minhas intenções e também por todos os retirantes, para que façam um santo retiro.

   Assim sendo, não terei tempo de escrever nos meus blogues neste período. Portanto, se Deus quiser, voltarei a postar a partir do dia 23 de fevereiro de 2013. Até lá! Fiquem com Deus!

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 9 )

   9. LIVRES DE TODAS AS LEIS!...

   Segundo Lutero, Cristo observou a lei por todos aqueles que creem, estes não têm mais obrigação de observar a lei, observância que, segundo ele, é impossível, porque não há liberdade: "A palavra Evangelho significa boa nova, doutrina grata e consoladora para as almas... ouvir que a Lei já foi observada por Cristo, que nós não temos o dever de observá-la, mas só o de unir-nos pela fé Àquele que por nós a observou" (Weimar I-52). "Esta é a nossa doutrina que sabemos eficaz para consolar as consciências. Viveremos sem a lei e nos persuadiremos que os nossos pecados nos foram perdoados" (Weimar XXV-249). "Com propriedade pode definir-se o cristão: o homem livre de todas as leis no foro interno e externo" (Weimar XL, Abt 235). "Assim vês quão rico é o homem cristão ou batizado que, mesmo querendo, não pode perder a sua salvação, por maiores que sejam os seus pecados, a não ser que não queira crer. Nenhum pecado pode condená-lo, a não ser somente a incredulidade. Todos os outros... se houver fé na promessa divina feita ao batizado são absorvidos pela mesma fé". (Weimar VI-529). 

   Lutero se insurge contra a ideia de que Cristo é um legislador que nos veio ensinar uma moral sublime, promulgada no Evangelho: 
    "Erasmo e os papistas cuidam que Cristo é um novo legislador; na sua demência nada entendem do Evangelho, representam-no fantasticamente como um código de novas leis, à semelhança do que sonham os turcos do seu Corão" (Weimar XL, 1 Abt. p. 259).

   "O Evangelho não prega o que devemos fazer, não exige nada de nós. Antes, em vez de dizer-nos: faze isto ou aquilo, manda-nos simplesmente estender as vestes e receber: Toma, meu caro, eis o que Deus fez por ti; por teu amor Ele vestiu de carne humana o próprio Filho... aceita este dom; crê e serás salvo" (Weimar XXIV-4).

   "Não só com as palavras, mas também com as nossas ações e com o nosso procedimento, exercitemo-nos com diligência em separar Cristo de qualquer ideia de legislador, afim de que, apresentando-se-nos o demônio sob a figura de Cristo para molestar-nos em seu nome, saibamos que não é Cristo, mas que é verdadeiramente o diabo" (Weimar XL, 1 Abt. p. 299).

   "A isto se reduz todo o Cristianismo: a sentir que não tens pecado ainda quando pecas, a sentir que teus pecados aderem a Cristo, que é salvador do pecado" (Weimar XXV-331).

   Mas, dirá o leitor, com posso seguir uma doutrina destas? E onde está a minha consciência que me acusa quando dou um passo errado?

   Ora consciência! Lutero manda abafar a sua voz. Diz ele: "Se a consciência do pecado te acusa, se põe ante os teus olhos a ira de Deus... não deves ouvi-la, mas contra a consciência e contra os teus sentimentos deves julgar que Deus não está irado, que tu não estás condenado" (Weimar XXV-330).

   Já identificado agora com o pensamento do fundador do Protestantismo, o leitor pode por si mesmo decidir a seguinte questão: se se pode dar boa interpretação às célebres palavras de Lutero na sua carta a Melanchton, escrita em agosto de 1521: "Sê pecador, peca fortemente, porém mais fortemente ainda crê e rejubila-te em Cristo!" Vamos citar todo o trecho: "Se pregas a graça, prega uma graça verdadeira e não falsa; se a graça é verdadeira, que o pecado seja verdadeiro e não falso. Deus não pretende salvar falsos pecadores. Sê pecador e peca fortemente, mas confia e rejubila-te mais fortemente ainda no Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Temos que pecar enquanto somos o que somos. Esta vida não é a estância da justiça, mas esperamos, segundo a palavra de São Pedro, novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça. É o bastante, para nós, haver conhecido, pelas riquezas da glória, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele nos tirará o pecado, ainda quando mil vezes por dia nos tornássemos fornicários ou assassinos. Considera como nos sai tão barata a redenção de nossos pecados em um tal e tão grande Cordeiro!" (De Wette II-37). 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 8 )

   47. PECADO MORTAL E PECADO VENIAL.

   Mas, se tudo o que fazemos é pecado, e pecado mortal, como podemos com esses pecados entrar no céu?

   Lutero esclarece: "Aquele que crê tem tão grandes pecados como o incrédulo, mas lhe são perdoados, não lhe são mais imputados" (Comentário da Epístola aos Gálatas III-25).

   Lutero não admite a justificação do pecador, no sentido católico de que ele se pode tornar realmente um justo, transformado e regenerado interiormente pela graça de Deus, mas no sentido de que Deus externamente o considera justo, embora ele seja realmente o mesmo pecador. O que não crê, tudo o que faz é pecado mortal; o que crê pode fazer as mesmas coisas, mas Deus por um decreto considera veniais todos estes pecados. Diz Lutero: "Para aquele que não crê, não somente todos os pecados são mortais, mas todas as suas boas obras são pecados... É, portanto, pernicioso o erro dos sofistas que distinguem os pecados de acordo com os atos e não de acordo com as pessoas. Naquele que crê o pecado é venial; é mortal para o que não crê, não que seja diferente, menor e maior noutro, mas porque as pessoas são diferentes" (Weimar II- 110; IV-161). 

   A razão desta diferença é que Jesus Cristo toma o lugar do pecador que crê. Cristo é "o manto que oculta a nossa vergonha, a cobertura de nossa ignomínia. Ele deixa o pecador pendurar-se nas suas costas e assim o livra da morte e da carcereiro" (Apud Denifle-Paquier III- 67, 367) é "a galinha sob cujas asas devemos refugiar-nos, afim de que seu cumprimento da lei se torne o nosso. Ó amável galinha! ó felizes pintinhos!" (Weimar I-35). 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 7 )

   46. A FÉ E A SALVAÇÃO , OBRAS EXCLUSIVAS DE DEUS.

   Aqui perguntamos a Lutero: - Mas, se a nossa natureza está tão corrompida assim, que até as boas obras que fazemos são pecados, como é também que podemos crer?

   Responde Lutero que a fé é Deus que "opera em nós, sem nós" e às vezes até "apesar de nós" (Apud Denifle-Paquier III- 272, 289).

   A Igreja Católica, que admite o livre arbítrio, considera a fé como uma convicção da inteligência, sob o império da vontade livre e sob o influxo da graça divina. A graça de Deus se antecipa à ação humana, mas a fé é obra de Deus e do homem. Para Lutero, que só admite o arbítrio escravo, a fé é obra exclusiva de Deus.

   A Igreja, como vimos, ensina que Jesus Cristo é o Único Salvador no sentido de que Cristo, reconciliando-nos com Deus, ofereceu-Lhe a reparação pelo pecado, que só Ele, Cristo, podia oferecer por ser Homem e Deus ao mesmo tempo. A obra de Cristo foi perfeitíssima; falta apenas a nossa contribuição a qual realizamos juntamente com a graça de Cristo, que Ele mereceu por nós na cruz. Lutero toma Cristo como Único Salvador no sentido de que não existe também a nossa parte na obra da salvação. Ele fez tudo: a sua parte e a nossa; se Ele nos salvou, não nos resta mais fazer nada: só crer. E esta fé, Ele é quem opera em nós, com exclusividade. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 6 )

   45. NADA DE ARREPENDIMENTO, NEM DE BOAS OBRAS.

   Não se pense, porém, que entre estes sentimentos que levam o homem aos pés de Cristo, esteja incluído o arrependimento dos pecados. Não! Arrependimento supõe liberdade e o homem não é livre.

   Lutero qualifica de "delírio" a atitude dos padres que exigem do penitente a contrição e o arrependimento e diz que "a esses padres se deveria tirar o poder das chaves e dar-lhes um bastão para conduzir as vacas" (Apud Denifle-Paquier III-352). Porque o arrependimento só torna o homem "mais hipócrita e mais pecador". Ouçamos as suas palavras: "A contrição que se prepara pelo exame, recapitulação e detestação dos pecados, pelos quais alguém relembra os seus anos na amargura de sua alma, ponderando a gravidade, multidão e fealdade dos pecados, a perda da eterna felicidade e a aquisição da condenação eterna, esta contrição o faz hipócrita e até mais pecador" (Weimar VII-113).

   Arrependimento supõe que o homem quer salvar-se por suas obras. E as boas obras, Lutero as considera inúteis para a salvação; embora tivesse caído às vezes em contradição sobre este assunto, a doutrina predominante nos seus escritos é a inutilidade das boas obras; algumas vezes até chegou a chamá-las de nocivas.

   Com a nossa natureza corrompida não há boas obras, tudo o que vem de nós é pecado e "as boas obras são más, são pecado como o resto" (Apud Denifle-Paquier III-47).

   Diz ainda Lutero: "A lei, as obras, a caridade, os votos não só não resgatam, mas agravam a maldição. Quanto mais obras fizermos, tanto menos poderemos conhecer e apreender a Cristo" (Weimar XL-1 Abt. p. 447). "Ensinando as boas obras e excitando a fazê-las como necessárias à salvação, se causa maior mal do que a nossa razão humana pode compreender e conceber" (Apud Denifle-Paquier III-101). 
  
   Quando Jorge Maior, professor da Universidade de Vitemberga procurou reagir contra esta doutrina e ensinou que as boas obras seriam necessárias à salvação, um grande amigo de Lutero, Nicolau de Amsdorf publicou em contestação um livro, no ano de 1559 e neste livro defendia a seguinte tese: Que a proposição "as boas obras são nocivas à salvação" é justa, verdadeira, cristã, pregada por São Paulo e S. Lutero. "Não há escândalo maior, diz Lutero, mais perigoso, mais venenoso do que a boa vida exterior, manifestada pelas boas obras e uma conduta piedosa. Isto é a porta de cocheira e o grande caminho que leva à condenação" (Apud Doellinger III-124). 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 5 )

   43. O PECADO ORIGINAL.

   Para Lutero, o anjo também não é livre, porque "o livre arbítrio é o apanágio exclusivo de Deus" (Weimar XVIII-664). Mas com o homem aconteceu uma grande desgraça. Foi o pecado original que tornou a nossa vontade inteiramente corrompida, completamente dominada pelo mal, segundo a doutrina luterana. E isto por toda a nossa vida. Diz Lutero: "Nossa pessoa, nossa natureza, todo o nosso ser está corrompido pela queda de Adão... Nosso pecado não é em nós uma obra ou uma ação; é a nossa natureza e todo o nosso ser" (Apud Doëllinger III- 31). 
  
   No Comentário à Epístola aos Romanos capítulo V, Lutero afirma que o pecado original é "não somente a privação de qualidade na vontade, não somente a privação de luz na inteligência e de poder na memória, mas a completa privação de toda retidão do homem interior e exterior. É a própria tendência para o mal, náusea para o bem, aversão à luz e à sabedoria, amor ao erro e às trevas, fuga e abominação das boas obras, corrida para o mal" (Ficher II, 144). 

   A consequência disto é que o homem só pode fazer o mal: "O homem, não sendo senão um tronco apodrecido, não pode produzir senão corrupção, não pode querer e fazer senão o mal" (Opera Latina I, 243 e 350).

   "Tudo o que empreenderes, por belo e brilhante que seja, é pecado e continua sendo pecado. Faze o que quiseres, não podes senão pecar". (Apud Denifle-Paquier III- 179). 

   E tudo o que o homem faz é, por sua natureza, pecado mortal: "Todo o pecado, no que diz respeito à substância do fato, é mortal" (Comentário da Epístola aos Gálatas. (Erlangen III-24). 

   44. LUZ NAS TREVAS E CONSOLO NO DESESPERO...

   Diante deste quadro tenebroso, parece que estamos irremediavelmente perdidos; não temos liberdade e trazemos, do berço até o túmulo, a natureza tão corrompida pela queda do primeiro homem, que tudo que fazemos é pecado e pecado mortal; como poderemos então salvar-nos?

   Muito simples, segundo Lutero; basta crer em Jesus Cristo. Crê e serás salvo. 

   Que entende Lutero por esta palavra  - CRER?

   Todos sabem que crer em Jesus Cristo significa aceitar toda a sua doutrina. Lutero também admite a fé neste sentido, mas isto para ele não tem grande significação; não é propriamente neste sentido que a fé salva.

   Ouçamos as suas palavras: "Cristo tem duas naturezas. Em que isto me interessa? Se ele traz este nome de Cristo, magnífico e consolador, é por causa da ministério e da tarefa que Ele tomou sobre si... Crer em Cristo não quer dizer que Cristo é uma pessoa que é homem e Deus, o que não serve de nada a ninguém; significa que esta pessoa é Cristo, isto é, aquele que para nós saiu de Deus e veio ao mundo... É deste ofício que Ele tira o seu nome" (Erlangen XXXV-207). Em resumo, Lutero quer dizer que crer em Cristo significa simplesmente crer que Ele é o Salvador e nada mais.

   A fé que salva é a confiança. O homem cheio de temor, de angústia, de horror diante de sua própria miséria, sabendo que não pode fazer outra coisa senão pecar, se lança nos braços de Cristo, seu Salvador e se enche da convicção de que pelo sangue de Cristo está salvo. Crendo que somos salvos por Cristo, estamos salvos.
   [Será que Lutero conseguiu assim eliminar seus escrúpulos?! Veremos no dia do Juízo Final]. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

COMO SURGIU A TEORIA DA SALVAÇÃO SÓ PELA FÉ - ( 4 )

   42. NEGAÇÃO DO LIVRE ARBÍTRIO.
   
    Não da leitura da Bíblia, mas da observação do que se passava no seu espírito doentio e tumultuoso, tirou Lutero a conclusão de que o homem não goza de liberdade. Eis as palavras de Lutero: "A vontade humana é como um jumento; se Deus o cavalga, quer e vai onde Deus quer, como diz o Salmo: Como jumento me tenho feito diante de ti e eu estarei sempre contigo (Salmo LXXII-23). Se Satanás o cavalga, quer e vai para onde vai Satanás, nem está em seu poder correr para outro cavalgador ou procurá-lo, mas os cavalgadores é que lutam entre si para alcançar o jumento e tomar conta dele" (Weimar XVIII-635).

   "Tudo se realiza segundo os decretos imutáveis de Deus. Deus opera em nós o mal e o bem. Tudo o que fazemos, fazemo-lo não livremente, mas por pura necessidade" (Weimar XVIII-709).

   "Foi o diabo que introduziu na Igreja o nome de livre arbítrio" (Weimar VII-145). 

   Houve a este respeito uma célebre polêmica entre Lutero e Erasmo, na qual Lutero escreveu um livro intitulado "O arbítrio escravo", combatendo a doutrina de que o homem goza de liberdade e Erasmo escreveu outro sob o título "O livre arbítrio", defendendo esta doutrina, embora também Erasmo errasse, caindo no pelagianismo.

   Os magistrados começam a inquietar-se, porque o livre arbítrio é a base do direito civil e penal e também pelas péssimas repercussões das ideias de Lutero no seio do povo. Lutero responde: "Estou falando da vontade livre com relação a Deus e às coisas da alma. Pois que necessidade teria eu de disputar tanto sobre a liberdade do homem no que diz respeito às vacas e aos cavalos, ao dinheiro e aos bens?" (Apud Denifle-Paquier III-267) "Mas no que toca a salvação ou condenação, o homem não tem livre arbítrio; é o cativo, o súdito e o escravo da vontade de Deus ou da vontade de Satanás" (Weimar XVIII- 638). 

  

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: Aumento da Graça e da Glória

   34. AUMENTO DA GRAÇA E DA GLÓRIA.

   O que se conclui de tudo isto é que cada sofrimento bem suportado pelo justo, cada ação boa, cada ato de virtude feito por ele com reta intenção tem direito a uma nova recompensa - e assim ele vai merecendo o aumento da graça santificante e, cada vez mais, consequentemente, um aumento de glória no Céu. CRESCEI NA GRAÇA e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2ª Pedro III-18). Aquele que é justo, justifique-se ainda; e aquele que é santo, santifique-se ainda (Apocalipse XXII-11).

   Por isto, assim como o pecador que permanece no seu pecado, que peca sempre mais, vai aumentando o seu castigo e a sua desgraça: Pela tua dureza e coração impenitente ENTESOURAS para ti IRA no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus (Romanos II-5), assim também o justo praticando cada dia boas obras, vai aumentando a sua recompensa, o seu tesouro no céus: Não queirais entesourar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consome e onde os ladrões os desenterram e roubam; mas ENTESOURAI para vós TESOUROS no Céu (Mateus VI-19 e 20). Porque no Céu é desigual a sorte dos bem-aventurados: Aquele que semeia pouco, também segará pouco; e aquele que semeia em abundância, também segará em abundância (2ª Coríntios IX-6). 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: O que o homem pode merecer

   33. O QUE O HOMEM PODE MERECER.

   Depois desta ligeira exposição sobre a doutrina da graça, surge naturalmente uma questão importante: Poderá o homem merecer alguma coisa com relação a Deus?
   Merecer - quer dizer: ter direito a uma retribuição POR JUSTIÇA. E o mérito propriamente dito supõe uma certa proporção, uma certa equivalência entre o ato merecedor e a coisa merecida.
   Sendo assim, o homem não pode merecer a graça primeira. Quem vem a ser a graça primeira? É a passagem do homem do estado de pecado para o estado de graça santificante.
   Todos nós nascemos com o pecado original. É preciso que um dia Deus nos dê a graça santificante. Pois bem, esta graça santificante nos é dada sem merecimento nenhum de nossa parte, por pura bondade e benevolência de Deus. 
  Suponhamos que a recebemos, quando éramos crianças sem uso de razão: o Batismo nos conferiu a graça santificante sem merecimentos nenhum de nossa parte, uma vez que nada tínhamos feito, nem éramos capazes de fazer livremente.
   Suponhamos, porém, o caso de um adulto que recebeu o Batismo. Ele precisou dispor-se para o Batismo, com já vimos, por atos especiais de fé, contrição etc. Porém, por mais boas obras que tenha feito, essas boas obras não têm proporção com a graça santificante que é um dom sobrenatural. A graça santificante vai tornar o homem um filho adotivo de Deus. E o servo, por mais obras que faça, não pode dizer que tem direito POR JUSTIÇA  a ser tratado e considerado como filho. Por outro lado, por maiores que sejam os pecados cometidos até então, desde que haja as necessárias disposições de fé, contrição etc. Deus não nega o Batismo com a consequente reabilitação do pecador; é como uma esmola que basta estender a mão para receber. Além disto, esta graça santificante só nos foi alcançada em virtude da morte redentora de Jesus Cristo que satisfez a Deus em nosso lugar, é um efeito da benignidade de Deus que quis sacrificar o seu Divino Filho, para que o servo se tornasse um filho adotivo. É por isto que diz São Paulo que somos justificados gratuitamente por sua graça, pela redenção que tem em Jesus Cristo (Romanos III-24).E se isto foi por graça, não foi já pelas obras; doutra sorte a graça já não será graça (Romanos XI-6). 

Cada vez, portanto, que passamos do estado de pecado mortal para o de graça santificante, isto Deus nos concede sem merecimento de nossa parte, por pura bondade e misericórdia sua, pois em estado de pecado nada podemos merecer. Para haver o merecimento em nós, é preciso que haja em nossa alma a graça santificante: Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como a vara da videira não pode de si mesmo dar fruto se não permanecer na videira, assim nem vós o podereis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós outros, as varas. O que permanece em mim, e o em que eu permaneço, esse dá muito fruto (João XV-4 e 5).

   Se temos a graça santificante, já as nossas boas ações são sobrenaturalizadas por Jesus Cristo que habita em nós e já se estabelece uma certa proporção entre elas e a recompensa, a visão beatífica que é sobrenatural também. A árvore em que corre esta seiva divina da graça já pode produzir frutos para a vida eterna. Pela graça santificante somos filhos de Deus e se morremos nesta graça, se morremos como filhos, é de justiça que se nos dê a herança da vida celestial, pois quem é filho é também herdeiro. A Escritura está cheia de textos em que o Justo Juiz nos promete um prêmio, um galardão, uma recompensa ou retribuição pelas nossas obras, coroando assim na eternidade os nossos merecimentos. 

   São Paulo diz aos Colossenses: Tudo o que fizerdes, fazei-o de boa mente, como quem faz no Senhor e não pelos homens, sabendo que recebereis do Senhor O GALARDÃO DA HERANÇA (Colossenses III-23 e 24). O mesmo São Paulo compara a vida eterna com o prêmio que se oferece nas competições esportivas, em que muitas vezes o atleta faz sacrifícios, se abstém de muitas coisas, com o pensamento de receber a palma da vitória: Não sabeis que os que correm no estádio correm sim todos, mas um só é que leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele que tem de contender de tudo se abstém, e aqueles certamente por alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível (1ª Coríntios IX, 24 e 25). É a glória do céu, que vem coroar aquele que se esforçou, que fez sacrifícios e mortificações para consegui-la (castigo o meu corpo e o reduzo à escravidão - 1ª Coríntios IX-27), porque, como ele diz a Timóteo, usando a mesma comparação das lutas esportivas: o que combate nos jogos públicos não é coroado, senão depois que combateu conforme a lei (2ª Timóteo II-5).

   É por isto que ele próprio, Paulo, no fim da vida, depois de ter combatido o bom combate, espera uma coroa, mas uma COROA DE JUSTIÇA, realmente merecida pelas suas boas obras juntamente com sua fé e dada pelo JUSTO JUIZ: Eu combati o bom combate, acabei a minha carreira, guardei a fé. Pelo mais me está reservada A COROA DE JUSTIÇA que o Senhor, JUSTO JUIZ,  me dará naquele dia; e não só a mim, senão também àqueles que amam a sua vinda (2ª Timóteo IV- 7 e 8). Porque cada um receberá sua RECOMPENSA  particular SEGUNDO O SEU TRABALHO (1ª Coríntios III- 8). Os pequenos sofrimentos, bem aceitos em união com Jesus Cristo, produzem um efeito maravilhoso na vida eterna: O que aqui é para nós uma tribulação momentânea e ligeira, produz em nós, de um modo todo maravilhoso, no mais alto grau, um peso eterno de glória (2ª Coríntios IV-17). E São João diz na sua 2ª Epístola: Estai alerta sobre vós, para que não percais o que HAVER OBRADO, mas antes recebais uma PLENA RECOMPENSA (2ª João vers. 8).

   Esta doutrina dos Apóstolos não é mais do que a própria doutrina de Jesus Cristo que promete claramente no Evangelho a divina recompensa àqueles que sofrem por seu amor, àqueles que renunciam a tudo ou que praticam a caridade em seu nome: Bem-aventurados sois quando vos injuriarem e vos perseguirem e disserem todo o mal contra vós, mentido por meu respeito. Folgai e exultai, porque o VOSSO GALARDÃO é copioso nos céus (Mateus V-11 e 12). E todo o que deixar por amor do meu nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as fazendas, receberá CENTO POR UM E POSSUIRÁ A VIDA ETERNA (Mateus XIX- 29). Amai, pois, a vossos inimigos, fazei bem e emprestai sem daí esperardes nada, e tereis MUITA AVULTADA RECOMPENSA (Lucas VI-35). O que recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a RECOMPENSA de profeta, e o que recebe um justo na qualidade de justo receberá a RECOMPENSA de justo. E todo o que der a beber a um daqueles pequeninos um copo d'água fria, só pela razão de ser meu discípulo, na verdade vos digo que não perderá a sua RECOMPENSA (Mateus X-41 e 42). 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: Duas causas que se unem e comparações

   29. DUAS CAUSAS QUE SE ENTRELAÇAM.

   Diante do que fica exposto sobre a ação e a necessidade da graça, se vê claramente que dizer que o homem se salva pela sua fé juntamente com suas obras ainda não é dar uma ideia exata da doutrina católica. O homem contribui com sua fé e suas obras para a salvação, mas não pode ter a fé, não pode fazer nenhum ato meritório, nem mesmo ter um pensamento salutar sem a graça divina. Cada ação meritória para a vida eterna é efeito de duas causas que se unem: a ação da graça de Deus alcançada por Cristo na cruz, e a livre cooperação do homem. 

   É por isto que diz São Paulo: OBRAI A VOSSA SALVAÇÃO com temor e tremor, não só como na minha presença, senão muito mais agora na minha ausência, porque Deus é o que OBRA EM VÓS O QUERER E O PERFAZER segundo o seu beneplácito (Filipenses II-12 e 13). Trabalhai na vossa salvação com receio e com tremor - é o esforço, o cuidado, o trabalho do homem; Deus opera em vós o querer e o executar - é o auxílio da graça divina.

   E o mesmo Apóstolo diz na 1ª Epístola aos Coríntios: Pela graça de Deus sou o que sou, e a sua graça não tem sido vã em mim; antes tenho trabalhado mais copiosamente que todos eles; não eu, contudo, mas a graça de Deus comigo (1ª Coríntios XV-10). O Apóstolo fala aí da ação conjunta do livre arbítrio e da graça: tenho trabalhado mais que todos eles - é o seu esforço pessoal. Não eu, contudo - isto é, não eu sozinho, com minhas próprias forças, mas com a graça de Deus a me ajudar, a graça de Deus trabalhou comigo.

   E é muito instrutivo nesta matéria o contraste que há entre um pequeno trecho do profeta Zacarias e outro das Lamentações de Jeremias. Em Zacarias se lê: Convertei-vos a mim, diz o Senhor dos exércitos, e eu me converterei a vós (Zacarias I-3). Aí Deus pede a cooperação do homem e promete a sua graça.
   Nos Trenos ou Lamentações de Jeremias se lê: Convertei-nos, Senhor, a ti e nós nos converteremos (Lamentações V-21). Aí o homem pede a graça divina e promete a sua cooperação.

   A Igreja católica sempre ensinou que o homem nada pode sem a graça de Deus e tudo pode com ela: Sem mim não podeis fazer nada (São João XV-5). Tudo posso n'Aquele que me conforta (Filipenses IV- 13).

   30. ALGUMAS COMPARAÇÕES CLÁSSICAS. 

   Já no século II, Santo Irineu dizia que, assim como a terra seca não pode frutificar sem a chuva, assim também nós não frutificaremos para a vida eterna, sem a chuva que Deus manda do Céu e que é a sua divina graça.

   No século V, Santo Agostinho fazia a comparação com o olho humano o qual, embora esteja são e perfeito, não pode ver nas trevas, precisa do auxílio da luz. Assim também, a alma precisa da graça de Deus para seguir o caminho da salvação: "Assim como o olho do corpo, mesmo estando plenamente são, não pode enxergar senão ajudado pelo brilho da luz, assim também o homem, mesmo perfeitissimamente justificado, não pode viver retamente, senão ajudado pela Eterna Luz da Justiça" (Apud Journel, Enchiridion Patristicum nº 1792).

   E é muito divulgada entre os católicos a comparação da ação combinada de Deus e do homem neste sentido com uma cena que vemos [víamos] comumente na intimidade das nossas famílias: a criança que não sabe escrever, escreve com a mão coberta pela mão de sua mãezinha. Foi por um ato livre que concordou em escrever juntamente com sua mãe; se não quisesse escrever, poderia ter emperrado. E quanto mais docilmente cooperar com sua mãezinha e se entregar à ação maternal, tanto melhor sairá a escrita, porque cada emperro de sua mão produzirá mais uma imperfeição, mais uma garatuja.

   Naturalmente toda comparação claudica, mas esta dá uma boa ideia do que é a ação de Deus em nossa alma, pois sem Deus nada podemos fazer e muitas vezes atrapalhamos a ação da graça com a nossa fraqueza e imperfeição. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: DISTRIBUIÇÃO DAS GRAÇAS

2ª - A NOSSA CONTRIBUIÇÃO ENTRELAÇADA COM A AÇÃO DE DEUS (CONTINUAÇÃO)


   27. DISTRIBUIÇÃO DESIGUAL DAS GRAÇAS.

   A graça não é dada a todos igualmente; uns recebem mais, outros menos: A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo (Efésios IV-7). Isto se vê também na parábola dos talentos (Mateus XXV-14 a 30) em que um homem ao ausentar-se para longe, chamou aos seus servos e lhes entregou os seus bens e deu a um cinco talentos, e a outro dois, e a outro deu um, a cada um segundo a sua capacidade e partiu logo (Mateus XXV-14 e 15) e passando muito tempo, veio o senhor daqueles servos e chamou-os a contas (Mateus XXV-19).

   É claro que no Novo Testamento, ou seja, depois da morte de Cristo, a graça de Deus é distribuída muito mais abundantemente do que na Antiga Lei; e que no Antigo Testamento era distribuída entre os judeus, que eram o povo escolhido, com mais abundância do que entre os gentios. E é claro também que aqueles que recebem maiores graças serão julgados com maior rigor. Ai de ti, Corozaim; ai de ti, Betsaida; que se em Tiro e Sidônia se tivessem obrado as maravilhas que se obraram em vós, há muito tempo que elas teriam feito penitência, cobrindo-se de cilício e de cinza. Por isso haverá sem dúvida no dia do juízo para Tiro e Sidônia menos rigor que para vós (Lucas X-13 e 14).

   28. GRAÇA SUFICIENTE PARA TODOS.

      Embora não seja dada a graça igualmente a todos, no entanto a todos é dada a graça suficiente para se poderem salvar, porque Deus quer que TODOS  os homens se salvem (1ª Timóteo II-4). Deus espera com paciência por amor de vós, não querendo que algum pereça, senão que TODOS se convertam à penitência (2ª Pedro III-9. Acaso é da minha vontade a morte do ímpio, diz o Senhor Deus, e não quero eu antes que ele se converta dos seus cainhos e viva? (Ezequiel XVIII-23).
    É um princípio da teologia católica: Aquele que faz o que está ao seu alcance, Deus não nega a sua graça; e mesmo para ele fazer isto que está ao seu alcance, Deus o ajuda com a sua graça também.
    Se nem todos se salvam, é porque nem todos cooperam com a graça, porém muitos a ela resistem: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar teus filhos do modo que uma galinha recolhe debaixo das asas os seus pintainhos, e tu o não quisestes? (Mateus XXIII-37).

  

domingo, 20 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: NECESSIDADE DA GRAÇA

2ª - A NOSSA CONTRIBUIÇÃO ENTRELAÇADA COM A AÇÃO DE DEUS (CONTINUAÇÃO)

  24. NECESSIDADE DA GRAÇA PARA O CUMPRIMENTO DA LEI DIVINA.

   O homem, para salvar-se, precisa cumprir com os mandamentos e observar o que Jesus mandou. 
   Mas daí não se segue que ele possa fazer isto unicamente por suas forças naturais. Quando apareceu Pelágio, em princípios do século V, afirmando que não havia necessidade da graça para alcançar a vida eterna, bastando para isto o livre arbítrio ou a liberdade do homem, de modo que o homem podia por suas forças naturais vencer as tentações e observar os mandamentos, servindo a graça apenas para ajudá-lo a cumprir com mais facilidade a lei divina, se insurgiram contra a heresia pelagiana os Santos Padres da Igreja, tendo à frente Santo Agostinho, que ficou sendo chamado o Doutor da Graça. E o erro de Pelágio foi formalmente condenado pela Igreja em vários Concílios particulares e pelos Papa Santo Inocêncio I e São Zósimo.  Foi ao conhecer a condenação do pelagianismo pelo Papa, que Santo Agostinho proferiu a célebre frase: "Roma locuta, causa finita". Roma falou, acabou-se a questão. 
  
   Segundo a doutrina da Igreja, não é simplesmente mais difícil, é impossível ao homem, sem o auxílio da graça de Criso, vencer a própria concupiscência e cumprir a lei divina. Lê-se em São Paulo: Sinto nos meus membros outra lei que repugna à lei do meu espírito e que me faz cativo na lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz homem eu, quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor (Romanos VII-23 a 25). O texto grego diz: Graças a Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor - mas isto não modifica o sentido: dão-se graças a Deus pelo auxílio que nos vem de Jesus Cristo, ou seja, de sua graça que Ele mereceu por nós na cruz. E o mesmo São Paulo diz ainda aos Efésios: Fortalecei-vos no Senhor e no poder da sua virtude. Revesti-vos da ARMADURA de Deus para que possais estar firmes contra as ciladas do diabo (Efésios VI- 10 e 11). 

   Jesus Cristo nos ensinou a dizer no Pai-Nosso: Não nos deixeis cair em tentação (Mateus VI-13). E disse aos Apóstolos: Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca (Mateus XXVI- 41). O que nos mostra que para nos livrarmos do pecado, não basta o nosso cuidado, o nosso esforço, a nossa vigilância; é necessário também o auxílio da graça divina que se alcança pela oração. 

   25. NECESSIDADE DA GRAÇA PARA QUALQUER OBRA MERITÓRIA.

   Há ainda mais: não só é necessária a ajuda da graça de Cristo para o cumprimento da lei divina, de modo geral, mas para realizar qualquer obra, por mínima que seja, meritória para a vida eterna. Isto se vê claramente pelas palavras do próprio Cristo: Sem mim não podeis fazer nada (João XV-51). A mesma doutrina vemos em São Paulo: Não que sejamos capazes de nós mesmos de ter algum pensamento como de nós mesmos; mas o nossa capacidade vem de Deus (2ª Coríntios III-5).

   26. NECESSIDADE DA GRAÇA PARA A FÉ.

   Para a salvação é indispensável a fé. Sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus XI-6). E aqueles a quem chega o conhecimento do Evangelho têm que crer em tudo o que direta ou indiretamente se deduz da revelação trazida por Jesus Cristo. É uma consequência necessária do primeiro mandamento em que se nos prescreve uma plena submissão de toda a nossa alma, de todo o nosso coração, de toda a nossa inteligência a Deus. 

   Mas, embora seja a fé um ato livre da vontade, pois o homem pode crer ou deixar de crer, não podemos ter a fé sem a ajuda da graça de Deus. Jesus Cristo disse, falando aos judeus que não queriam crer nas suas palavras: Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer (João VI-44). Há alguns de vós outros que não creem... Por isso eu vos tenho dito que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai lhe não for isso concedido (João VI-65 e 66). 

   Depois dos pelagianos, apareceram os semipelagianos que, embora admitindo a necessidade da graça para a salvação, afirmavam que o início da fé, ou seja, o piedoso afeto de boa disposição para crer, que é excitado pela pregação do Evangelho, este primeiro movimento do homem para a fé seria feito só pela liberdade do homem, sem a graça de Deus. Realizado este ato, Deus entraria com a sua graça. A doutrina dos semipelagianos foi igualmente condenada pela Igreja, em 529, no 2º Concílio de Arles, em definição confirmada pelo Papa Bonifácio II. Também o início, o primeiro movimento de fé no coração do homem é feito com o auxílio da graça divina, pois a fé um dom de Deus (Efésios II-8). E o mesmo São Paulo diz aos Filipenses: A vós vos é dado por Cristo, não somente que CREIAIS N'ELE senão que padeçais também por Ele (Filipenses I-29). 

sábado, 19 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: A GUARDA DOS MANDAMENTOS.

2ª - A NOSSA CONTRIBUIÇÃO ENTRELAÇADA COM A AÇÃO DE DEUS

   23. A GUARDA DOS MANDAMENTOS.

   Voltamos agora ao caso daquele que com boas disposições de fé e contrição recebeu o Batismo. É o mesmo caso daquele que recebeu o Batismo pouco depois de nascido e agora vê chegar o uso da razão. Que lhe é necessário fazer para salvar-se? Conservar a graça santificante recebida no Batismo. Morrendo neste estado de graça, alcançará a salvação. Para conservar a graça santificante, é preciso evitar o pecado mortal e, por conseguinte, observar os mandamentos: Se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17).

   A Escritura não faz uma relação completa e minuciosa dos pecados mortais e dos veniais. Mas Jesus Cristo fala em alguns pecados que impedem a salvação, como o ódio (Mateus VI, 15), o escândalo dos pequeninos (Marcos IX-41), a falta de caridade para com os necessitados (Mateus XXV-41 a 46). E São Paulo, pelo menos, enumera vários pecados graves: Acaso não sabeis que os iníquos não hão de possuir o reino de Deus? Não vos enganeis; nem os fornicários, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão a bebedices, nem os maldizentes, nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus (1ª Coríntios VI-9 e 10). Vê-se pelo contexto que o Apóstolo aí se refere a esses pecadores, se não se convertem e se nesse estado deplorável de pecado são colhidos pela morte: E tais haveis sido alguns; mas haveis sido lavados, haveis sido santificados (1ª Coríntios VI-11).
   Jesus Cristo não foi somente o nosso Redentor, não foi somente o Mestre que nos ensinou a sua doutrina, mas também o Legislador que promulgou preceitos que têm de ser observados: Ide, pois, e ensinai a todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as A OBSERVAR TODAS AS COISAS QUE VOS TENHO MANDADO (Mateus XXVIII- 19 e 20). 

   

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: A JUSTIFICAÇÃO DOS ADULTOS PAGÃOS

2º - A NOSSA CONTRIBUIÇÃO ENTRELAÇADA COM A AÇÃO DE DEUS  (CONTINUAÇÃO).

21. A JUSTIFICAÇÃO DOS ADULTOS PAGÃOS

   Acontece às vezes, porém, que em virtude de uma conversão, ou por causa do descuido dos pais ou por outra circunstância qualquer, é uma pessoa que já tem o uso da razão (e que para este efeito de recepção dos Sacramentos é chamado ADULTO)  que vai receber o Sacramento do Batismo. Para isto, é necessário que a pessoa se disponha pela fé nas verdades reveladas, tendo um certo conhecimento dos principais mistérios da Religião e que tenha o arrependimento de seus pecados, com o firme propósito de evitá-los pela guarda dos mandamentos. Este arrependimento supõe, é claro, a esperança do Céu que se deseja alcançar e, pelo menos, um certo começo de amor a Deus, a quem não se deseja ofender. Em virtude dos merecimentos da Paixão de Cristo, o batismo recebido com estas boas disposições não só apaga o pecado original, como também perdoa os pecados pessoais cometidos até aquele momento. Aos adultos que ouviram a pregação da palavra divina no dia de Pentecostes e compungidos no seu coração (Atos II-37) perguntaram o que deviam fazer, São Pedro respondeu: Fazei penitência, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo PARA REMISSÃO DE VOSSOS PECADOS;  e recebereis o dom do Espírito Santo (Atos II-38). A justificação que se segue ao Batismo convenientemente recebido não é somente a remissão dos pecados, no sentido de que externamente não nos são mais imputados, fingindo Deus considerar-nos justos, quando continuássemos a ser os mesmos manchados pecadores, como queria Lutero. Não; é a remissão dos pecados, com a nossa renovação interior, operada pelo batismo de regeneração e renovação do Espírito Santo (Tito III-5); em virtude da imensa bondade de Deus que quer que nós sejamos chamados filhos de Deus e com efeito o sejamos (1ª João III-1); justificados pela sua graça e tornados herdeiros segundo a esperança da vida eterna (Tito III-7). É a graça santificante com os dons do Espírito Santo: Os vossos membros são templo do Espírito Santo que habita em vós (1ª Coríntios VI-19). 

   22. BATISMO DE DESEJO E BATISMO DE SANGUE.

   Em vista da necessidade do Batismo, surge naturalmente o problema dos adultos que não ouviram de forma alguma a pregação do Evangelho e a quem, portanto, não chegou a notícia de que o Batismo era obrigatório para a salvação. O Batismo pode então ser suprido pela caridade perfeita naqueles que, não tendo o conhecimento da Revelação, mostram a Deus o seu amor pela obediência aos ditames da própria consciência. Nessa boa disposição estão dispostos a fazer o que é possível para agradar a Deus e de boa vontade receberiam o Batismo, se dele tivessem conhecimento. Chama-se isto VOTO IMPLÍCITO DO BATISMO. Estes que, assim amando a Deus, amam consequentemente a Jesus Cristo, que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, podem também receber a graça santificante: Aquele que tem os meus mandamentos e que os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei também e me manifestarei a ele (João XIV-21). Se algum me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará; e nós viremos a ele e faremos nele morada (João XIV-23).

   O outro caso em que o batismo é suprido, é o daqueles que antes de recebê-lo, são martirizados por causa da fé: O que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á (Marcos VIII-35). Todo aquele, pois, que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos Céus (Mateus X-32). 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO - 2º A NOSSA CONTRIBUIÇÃO ENTRELAÇADA COM A AÇÃO DE DEUS

   20. A REGENERAÇÃO DAS CRIANÇAS PAGÃS.

   Em consequência da culpa de Adão, nascemos com o pecado original e, portanto, sem a graça santificante: Assim como por um homem entrou o pecado neste mundo e pelo pecado a morte, assim passou também a morte a todos os homens por um homem, no qual TODOS PECARAM  (Romanos V-12). O texto grego traz assim: a morte passou a todos os homens, POR ISTO QUE TODOS PECARAM. Mas não altera o sentido. De qualquer forma se exprime que todos os homens estão sujeitos à morte PORQUE TODOS PECARAM EM ADÃO, em virtude da solidariedade entre Adão, cabeça do gênero humano e seus descendentes. As criancinhas, que não cometeram nenhum pecado pessoal, estão também sujeitas à morte, porque pecaram em Adão. Um pouco mais adiante ainda diz o Apóstolo: Pelo pecado dum só, incorreram todos os homens na condenação... pela desobediência dum só homem foram muitos feitos pecadores ( Romanos V-19) ( 3 ). O texto grego traz OS MUITOS (HOI POLLÓI) o que significa a totalidade; por isto a versão da Sociedade Bíblica do Brasil não hesitou em colocar TODOS: pela desobediência de um só TODOS  foram constituídos pecadores (Romanos V-19).
   Sendo assim, mesmo a criança que não tem o uso da razão precisa, para conseguir a visão beatífica, receber a graça santificante pelo Batismo, que produz um verdadeiro renascimento espiritual: Na verdade, na verdade te digo que não pode ver o reino de Deus senão aquele que renascer de novo... Quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus (João III-3 e 5).
   Esta é, segundo a própria norma traçada por Cristo, a condição para que se lhe aplique o benefício da Redenção. As crianças que morrem sem atingir o uso da razão e sem receber o Batismo, não vão gozar da visão beatífica, mas não sofrem nenhuma pena pessoal, podem mesmo gozar duma felicidade natural, sem a direta visão de Deus e sem ter ideia da felicidade sobrenatural que perderam. Nisto não há injustiça, porque a felicidade do Céu está acima de sua natureza e elas não fizeram nenhum ato livre pelo qual pudessem merecê-la, desde que não chegaram a atingir a luz da razão. 
   Como a vida das crianças é muito frágil, a Igreja manda que os pais providenciem para que seus filhos se batizem quanto antes, afim de que não se prive o Céu de mais um feliz habitante. ( 4 ).

NOTAS: ( 3 ) - "Pela desobediência de um só TODOS  foram constituídos pecadores". Não haverá contradição entre estas palavras de São Paulo e o dogma da imaculada Conceição de Maria Santíssima, ou seja, de que ela foi concebida sem o pecado original? Nenhuma.
   Se Adão e Eva não tivessem pecado, todas as crianças teriam, segundo os desígnios de Deus, a graça santificante POR UM DIREITO DE HERANÇA; seríamos descendentes de um homem que se tinha conservado no elevado estado em que Deus o criou. Mas Adão, antes de gerar, decaiu deste estado. Dizendo que TODOS PECARAM,  TODOS INCORRERAM NA CONDENAÇÃO, São Paulo está mostrando que toda a Humanidade sem exceção alguma, INCLUSIVE MARIA SANTÍSSIMA, perdeu este direito por herança. Acontece, porém, que aquilo a que não temos direito por herança, nós podemos receber por uma DÁDIVA, e assim puderam os homens novamente receber de Deus a graça santificante, em virtude dos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, que um dia havia de morrer por nós na cruz. Mas Deus é senhor absoluto das suas dádivas; Ele não estava proibido de dar a graça santificante a uma pessoa, mesmo antes que esta pessoa nascesse. Assim é que São João Batista já foi santificado, já recebeu a graça santificante e se libertou do pecado original antes de seu nascimento: já desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo (Lucas I-15). Tudo indica que esta regeneração de João Batista se deu no próprio momento em que Maria Santíssima visitou a Santa Isabel, pois esta diz à Santíssima Virgem: assim que chegou a voz da tua saudação aos meus ouvidos, logo o menino deu saltos de prazer no meu ventre (Lucas I-44). Pois bem, Maria Santíssima foi santificada também no ventre de sua mãe, Sant'Ana, porém no próprio instante da sua conceição, não houve um só instante em que estivesse sujeita ao pecado original; isto aconteceu, não em virtude de um direito seu, mas por concessão de um privilégio especial de Deus e em virtude de um direito seu, mas por concessão de um privilégio especial de Deus e em virtude dos futuros merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus foi, portanto, o Salvador, o Redentor para ela, como foi para todos os homens; e a Redenção foi para ela uma Redenção preservativa. 

  ( 4 ) - A doutrina que acabamos de expor sobre a sorte das crianças que morrem sem o batismo antes do uso da razão, não  foi definida como dogma. Existem muitos teólogos antigos e modernos, alguns de grande autoridade teológica, que são de opinião que não existe o LIMBO DAS CRIANÇAS, ou seja, as crianças que morrem sem o batismo antes do uso da razão , por uma DÁDIVA  de Nosso Senhor Jesus Cristo e em virtude de Seus merecimentos, como são, segundo o próprio Jesus os seus prediletos (Deixai vir a mim as criancinhas porque delas é O REINO DOS CÉUS) são libertadas do pecado original, levando em conta  unicamente os sofrimentos da doença e da morte. É mister, no entanto, deixar bem claro que a Santa Igreja sempre defende a necessidade de se batizar as crianças o quanto antes. Afinal, o santo Batismo é sempre o meio ordinário de salvação. Devemos ter em mente outrossim que as crianças batizadas e morrem antes do uso da razão vão para o céu e  têm uma glória maior do que aquela que, na hipótese de não existir o limbo, vai para o céu sem o batismo.
   Esta questão da existência ou não do limbo das crianças não deve causar estranheza a ninguém, porque antes de ser algo definido como dogma, pode-se discutir a questão e ter inclusive opinião diferente daquela que a Igreja aprova comumente (sem ainda ter definido). Por exemplo: O dogma da Imaculada Conceição só foi definido em 1854. Pois bem, a Igreja desde longos séculos tinha até a festa da Imaculada Conceição, mas não tinha ainda definido como dogma. A Igreja, no entanto, não condenou nenhum teólogo (entre eles o grande Santo Tomás de Aquino), que tinha opinião diferente, ou seja, não conseguia entender a doutrina da imaculada Conceição de Maria Santíssima. 
     Leiam por gentileza no meu outro blog VIA-VERITAS-VITA o post O LIMBO DAS CRIANÇAS, SEXTA-FEIRA, 4 DE NOVEMBRO DE 2011.
   Só a Igreja, no entanto, tem a última palavra. Só ela pode definir. Nenhum teólogo pode impor sua opinião como a doutrina certa e definitiva. E a Igreja é infalível em se tratando de definição de um dogma. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: Promessa do Redentor

1º  - A PARTE REALIZADA POR JESUS CRISTO (continuação)

   14. PROMESSA DO REDENTOR.

   Naquela hora em que Adão e Eva pecaram, ficou a Humanidade em um estado deplorabilíssimo. Adão e Eva estariam pelo seu pecado condenados ao inferno. Os seus descendentes, mesmo que observassem em toda a vida os ditames da própria consciência e jamais cometessem um pecado mortal, seriam felizes depois da morte, mas de uma felicidade natural, sem ver a Deus, nem ir para o Céu, porque a Humanidade  com o pecado de Adão, havia decaído do estado sobrenatural, havia perdido o direito à visão beatífica. Mas o que era pior é que bastaria que um de nós cometesse um só pecado mortal para ser irremediavelmente condenado ao inferno pelo motivo seguinte: O pecado mortal é uma ofensa de malícia infinita, pois a ofensa cresce na proporção da dignidade da pessoa ofendida. A ofensa feita a um homem comum é um crime comum; feita ao rei, há se torna um crime de lesa-majestade; feita a Deus é uma ofensa ilimitada, pela infinita grandeza de Deus. Ora, o homem, sendo uma criatura limitada, não podia nunca oferecer a Deus uma satisfação suficiente pela ofensa feita pelo pecado mortal, que é um total afastamento de Deus, Infinitamente Perfeito. E no entanto era muito fácil ao homem cair num pecado mortal por causa da concupiscência desenfreada que apareceu em Adão e em nós, após o pecado de Adão, a qual não destrói o nosso livre  arbítrio, mas o deixa muito enfraquecido e inclinado para o mal. O homem precisa da graça de Deus para observar os preceitos da lei divina impressos no seu coração e, naquele estado de afastamento de Deus em que estaríamos pela triste herança recebida de Adão, não poderíamos receber a graça de Deus. A Humanidade haveria de cair no inferno aos borbotões. Havia, além disto, as dores e enfermidades aqui na terra, que foram consequência do pecado de Adão. 

   Mas o estado lamentabilíssimo da Humanidade não durou muito tempo. Logo depois da queda de Adão, Deus, compadecido de nossa miséria, o procurou e fez imediatamente a promessa do Redentor, nas palavras dirigidas à serpente: Eu porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua posteridade e a posteridade dela. ELA TE ESMAGARÁ A CABEÇA,  e tu aramarás ciladas ao seu calcanhar (Gêneses III-15). Com esta promessa foi outra vez a Humanidade posta em condições de atingir o fim sobrenatural, podendo novamente receber a graça santificante. E isto se realizou em virtude dos futuros merecimentos de Cristo, ou seja, na previsão de sua morte redentora. 

   Quanto aos outros dons gratuitos, não puderam mais ser readquiridos por nós aqui na terra, mas por outro lado, com o auxílio da graça de Deus as dores, as enfermidades, a morte, as tentações da concupiscência podiam e podem tornar-se uma fonte riquíssima de merecimentos para o homem, pela resignação, pela paciência e pelo heroísmo em vencer-se a si mesmo, amparado com a ajuda divina. E assim aquelas vantagens no que diz respeito ao corpo, as quais possuíam Adão e Eva e possuiriam seus descendentes, se eles não houvessem pecado, nós as conseguiremos em grau mais esplêndido e elevado, depois da ressurreição da carne, se merecermos a salvação que Deus, na sua infinita misericórdia, quer conceder a cada um de nós. 

  

domingo, 13 de janeiro de 2013

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO (continuação)

13. DONS GRATUITOS.

  Além daquele dom sobrenatural da alma, ou seja, a graça santificante, Deus concedeu a Adão e Eva outros dons, como por exemplo: a imortalidade do corpo. Não haveriam de morrer. Além disto, não sentiam os movimentos desordenados da concupiscência, isto é, as suas paixões não resistiam, nem se antecipavam à voz da razão. E viviam num estado de felicidade, sem dores nem agruras, lá no Paraíso terrestre.
  Mas tanto a graça santificante e destinação à visão beatífica, como estes dons de imortalidade do corpo, imunidade à concupiscência e felicidade terrena eram dons gratuitos. Deus os concedeu ao homem simplesmente porque quis, pois podia tê-lo criado para um fim meramente natural, isto é, destinado a ser eternamente feliz, mas feliz sem ver a Deus, como pode ser feliz uma pessoa aqui na terra, com o conhecimento indireto do Criador, por intermédio das criaturas; podia ter deixado o homem em seu estado natural e entregue às suas próprias forças, sem a graça santificante e fazendo o que pudesse sem o auxílio especial da graça. Como também podia tê-lo criado já sujeito à morte que é o fim natural do nosso fraco e imperfeito organismo e sujeito aos movimentos desenfreados da concupiscência, que são uma consequência também das inclinações do nosso corpo para as coisas sensíveis e materiais como ele. 

  Mas não! Quis dar-lhe aqueles dons gratuitos, os quais passariam aos descendentes, porém com uma condição, a saber, se Adão obedecesse ao preceito divino: Come de todos os frutos das árvores do paraíso, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás de morte (Gêneses II-16 e 17).

  Cometido o pecado da desobediência - que, diga-se de passagem, não foi o pecado da carne, como pensam muitos erradamente, pois Adão e Eva eram legítimos esposos, a quem Deus já havia dito: Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra (Gêneses I-28) - ficaram Adão e Eva sujeitos à concupiscência, o que sentiram imediatamente (pois logo se envergonharam de sua nudez), ficaram sujeitos às dores, às enfermidades e à morte e perderam a graça santificante. Seus descendentes nascem nas mesmas condições - e a esta privação da graça santificante em nós é que chamamos PECADO ORIGINAL: nascemos fora da graça de Deus. No que não há injustiça da parte de Deus com relação a nós, pois somos privados de dons que estavam acima da nossa própria natureza. 

  

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A SALVAÇÃO PELA FÉ - ( VI )


CAPÍTULO PRIMEIRO
DESMANTELO E DESEQUILÍBRIO DA TEORIA PROTESTANTE

   Já vimos: No post A SALVAÇÃO PELA FÉ - ( I ) : 1. A TESE DO PASTOR; 2. TEXTOS EVANGÉLICOS; 3. CONCILIAÇÃO DOS TEXTOS.
                         No post A SALVAÇÃO PELA FÉ - ( II ) : 4. PERANTE A LÓGICA E A BÍBLIA: O CASO DOS PAGÃOS.
                        No post A SALVAÇÃO PELA FÉ - ( III) : 5. PERANTE A LÓGICA E A BÍBLIA: O CASO DOS CRISTÃOS.
                        No post A SALVAÇÃO PELA FÉ - ( IV) : 6. DESEQUILÍBRIO DA DOUTRINA PROTESTANTE.
                   No post A SALVAÇÃO PELA FÉ - ( V ) : 7. ESTRANHO REMÉDIO PARA OS MALES DO MUNDO.  8. ONDE ESTÁ O DESMANTELO. 


(CONTINUAÇÃO)

9. ACEITAÇÃO INTEGRAL DE CRISTO.

   Se aceitamos a Cristo exclusivamente como Salvador, se tapamos a sua boca quando Ele nos vai doutrinar, se não Lhe damos outro direito senão o de estender os braços sobre a cruz e morrer por nós, então é fácil lançarmos mão do Evangelho e fazermos a salvação do tamanho que a quisermos, mas se aceitamos a Cristo integralmente, se O deixamos falar como nosso Legislador, como nosso Mestre, como fundador da sua e nossa Igreja, logo chegaremos à conclusão de que para a salvação:  
  •  é necessária a observância dos mandamentos: se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS  (Mateus XIX- 17);
  •     são necessárias as boas obras, como se deduz claramente da descrição do juízo final (Mateus XXV- 31 a 47);
  •  é de grande importância a penitência: Ai de ti, Corozaim; ai de ti, Betsaida; que se em Tiro e Sidônia se tivessem obrado as maravilhas que se obraram em vós, há muito tempo que elas teriam feito PENITÊNCIA, COBRINDO-SE DE CILÍCIO E DE CINZA. Por isso haverá sem dúvida no dia do juízo para Tiro e Sidônia menos rigor que para vós (Lucas X-13 e 14);
  • é preciso fazer sacrifícios e renúncias: Se o teu olho te escandaliza, LANÇA-O FORA; melhor te é entrar no reino de Deus sem um olho do que, tendo dois, ser lançado no fogo do inferno (Marcos IX- 46). Se alguém quer vir após de mim, NEGUE-SE A SI MESMO, E TOME A SUA CRUZ CADA DIA e siga-Me (Lucas IX- 23);
  • é preciso orar para se obter a graça, pois sem a graça não se pode praticar a virtude: Importa orar sempre e não cessar de o fazer (Lucas XVIII- 1. Vigiai e orai, para que não entreis em tentação (Mateus XXVI-41);
  • é preciso receber os sacramentos: quem não renascer da ÁGUA e do ESPÍRITO SANTO não pode entrar no reino de Deus (João III-15). Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, NÃO TEREIS A VIDA EM VÓS (João VI-54). Aos que vós perdoardes os pecados, se-lhes-ão eles perdoados, e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos (João XX-23);
  • é preciso obedecer à Igreja: Tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos Céus, e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também nos Céus (Mateus XVI-19), disse Jesus a Pedro, pedra da Igreja. E se não ouvir a Igreja, tem-no por um gentio ou um publicano (Mateus XVIII-17). 
     E verenos que, em vez desta salvação baratíssima, Ele nos prega uma salvação árdua e penosa: Larga é a porta e espaçoso o caminho que guia para a perdição e muitos são os que entram por ela. QUE ESTREITA É A PORTA E QUE APERTADO O CAMINHO QUE GUIA PARA A VIDA e que poucos são os que acertam com ele! (Mateus VII-13 e 14).
    Por que motivo então havemos de aceitar a Cristo como Aquele que nos dá a salvação e não havemos de aceitá-Lo como Aquele que tem o direito de nos impor, de nos indicar as condições em que esta salvação é obtida?
    Reduzindo a fé que salva à simples aceitação de Cristo como Salvador e ao mesmo tempo dando a cada um o direito de interpretar a Bíblia como bem entende, o Protestantismo abre o Céu de par em par a todos os hereges. Isto  de doutrina, de ensinamentos de Cristo passa a ter muito pouca importância, cada um os aceita como acha mais conveniente; o que vale somente para a vida eterna é aceitar a Cristo COMO SALVADOR.
    Como veremos mais adiante (ns. 225 a 243:
  • há, entre os protestantes, uns que negam a Santíssima Trindade e outros que a admitem;
  • uns que dizem que Jesus Cristo é Deus, e outros, que é um simples homem;
  • uns que creem na existência do inferno e outros que a rejeitam;
  • uns que admitem a imortalidade da alma e outros que a negam;
  • uns que creem que Jesus está realmente presente na Eucaristia e outros que dizem que a Eucaristia não é mais do que pão e vinho;
  • uns que batizam e outros que não batizam etc., etc. 
    Todos estes entram de roldão no Céu. Pois a pergunta de ordem é somente esta: Aceitais a Cristo como vosso Único e Suficiente Salvador, como vosso Salvador Pessoal?
    - Aceitamos - respondem todos.
    - Pois, então, todos estão salvos.
    Não se podia inventar uma doutrina que fosse mais a gosto para contentar a todos os hereges. 
    Além disto (e a questão agora é com aqueles inúmeros protestantes que acham que aquele que ACEITOU A CRISTO COMO SALVADOR já não se pode perder mais) perguntamos:
    Um homem se arrependeu de seus pecados e aceitou a Cristo como Salvador. De agora por diante, que homem vai ser ele? O mesmo homem combatido pelas paixões próprias e pelas tentações do inimigo, livre para pecar ou deixar de pecar - ou um homem impecável? Cada um olhe sinceramente para si e veja se se tornou impecável, depois que aceitou a Cristo como Salvador...
    Se este homem depois peca, engolfa-se no pecado, não se arrepende mais, não quer mais emendar-se, como pode ter já neste mundo a salvação garantida? A salvação dada por Cristo será uma licença ampla para cada um fazer o que bem lhe apraz e ir para o Céu de qualquer jeito?