terça-feira, 14 de agosto de 2012

Jesus pregando o Retiro aos seus sacerdotes - ( IX )

A Santa Missa

   Recolhe-te, meu Padre, vem mais pertinho de mim. Os anjos enchem o meu santuário. Os querubins e os serafins envolvem, trementes, o meu altar, e tu, mísera criatura, vais subir os seus degraus para me ajudares a continuar o meu sacrifício do Calvário.
   Eu sou a vítima como sou também o sacrificador, e é ao meu divino Pai a quem ofereço minha vida.
   Todavia quis ter necessidade de ti para me dares a existência no altar.
   Considera, pois, a que profundeza eu me abati e a que altura te elevei.
   Como o corpo humano unido à alma constitui o homem, e como o homem enriquecido pela graça forma o cristão, assim, de maneira análoga, o cristão revestido do caráter sacerdotal dá o sacerdote, outro Jesus. 
   Quando tu pronuncias a fórmula da consagração, não é um simples mortal quem a pronuncia; sou eu mesmo, o supremo Sacerdote, que vivo em ti, quem a pronuncia contigo e por tua boca.
   Não tremes pensando que és com o Onipotente um só e mesmo princípio de ação para produzir o Homem-Deus?
    E não se sente comovido e reconhecido teu coração, vendo-te objeto de tanta confiança e de tanta ternura por parte de Deus?
   As coisas santas devem ser tratadas santamente. Prepara-te todas as vezes para o grande ato da celebração dos divinos mistérios.
   Os meus anjos ficaram abismados em adoração diante do meu altar durante todo o tempo, esperando a tua chegada com santa impaciência e profundo respeito.
   Que tristeza e que espanto para eles, quando te vêem chegar turbulento e apressado, sem sequer suspeitares a sua presença, sem lançares um olhar ao divino Prisioneiro a quem eles fazem guarda de honra!
   Se tua alma fosse ao menos bastante pura para te pores em contato com o Cordeiro sem mácula!
   Oh!, meu filho, guarda-te bem de jamais celebrares com a consciência manchada com um pecado mortal.
   Jura-me que jamais no altar me darás o beijo de Judas!
   O zelo pela casa de meu Pai devora-me. Eu não posso sofrer no meu santuário a desordem ou a indiferença. A igreja é o palácio do Rei dos reis.
   Tem um cuidado cioso da pureza da mesa do altar. É o trono do qual desce a Majestade divina. 
   Vela pela limpeza dos vasos sagrados que hão de tocar o Cordeiro imaculado, pela decência dos ornamentos que devem cobrir-me na tua pessoa, enquanto nós ambos oferecemos o santo sacrifício.
   Meu filho, se verdadeiramente me amas, observarás com dignidade e com imenso respeito as mais pequenas cerimônias da santa Liturgia.
   Celebra com atenção e com o espírito e o coração unido a mim, o Sacerdote supremo.
   Comigo adora, ama e dá graças ao Pai do céu, de quem vêm todos os benefícios.
   Comigo implora do Juiz supremo o perdão dos teus pecados e dos pecados do meu povo.
   Comigo e por mim apresenta afoitamente as tuas petições.
   Tudo o que pedires em meu nome ao meu Pai, obtê-lo-ás.
   Após a Santa Missa não me abandones precipitadamente. Fica comigo algum tempo ainda, em trato íntimo, de coração a coração, para me agradeceres  e pedires o meu amor e para obteres o perdão das irreverências cometidas durante as augustas cerimônias.
   Desde que és sacerdote, és como o compêndio e o pai comum de toda a Igreja. Leva-la na tua alma dia a dia e oferece-la como vítima, comigo, ao Pai celestial. Nenhum homem sobre a terra pode encontrar-te indiferente aos seus destinos. 
   Quando celebras, as almas do Purgatório estendem para ti, súplices, as suas mãos. Conjuram-te a que sobre elas faças destilar algumas gotas do meu sangue precioso.
   Suplicam-te que acolhas os seus ardentes desejos, os seus prantos amorosos e os seus gemidos, de si mesmos estéreis; que os faças passar pelo teu coração sacerdotal, permitindo-me assim aliviá-las e libertá-las.
   Quando celebras, até o céu se inclina para ti com respeito e reconhecimento. 
   Os anjos e os bem-aventurados rodeiam-te com veneração e dão-te pressa para ofereceres a divina Hóstia. Pedem-te que unas as suas adorações às adorações da divina Vítima que tens nas tuas mãos.
   A minha própria Mãe, a Rainha de todos os sacerdotes, está presente cada dia ao teu santo sacrifício. Sente-se feliz de poder renovar, graças a ti, seu filho, a oferta que entre lágrimas fez um dia ao pé da cruz.
   

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro para seus sacerdotes - ( VIII )

O recolhimento do sacerdote

   Meu filho, tu que me és fiel, acolhe-me no íntimo da tua alma. Permite-me repousar em ti e consolar-me das minhas muitas e penosas decepções.
   Tu estás sempre comigo e tudo o que me pertence é teu. Tenho em ti as minhas delícias: tu és a minha casa, o meu templo. Toma consciência do mistério de amor que te envolve e te penetra por toda parte.
   Feliz quem caminha na verdade! Feliz quem compreendeu que o reino de Deus está dentro de si mesmo, e que ali participa já da vida eterna!
   O homem animal não compreende as coisas de Deus. Vive absorvido pelo mundo sensível que é apenas uma aparência enganosa, um véu encobrindo as realidades do Além.
   Tu ao menos, meu sacerdote, faze-me companhia no fundo da tua alma. Fica unido a mim como os membros estão unidos ao corpo, como os sarmentos incorporados na cepa.
   Tu vives, mas não és tu que vives, sou eu que vivo em ti pela minha graça. Esta graça é uma participação de natureza divina. Ela santificou a minha humanidade e dela faço participantes a todos os que me amam. 
   A minha graça penetra até à essência a tua alma, enobrece-a, diviniza-a. Assim eu estou em ti como um novo ser, o cristão: um só e mesmo princípio de atividade. 
   Todas as tuas ações, feitas em união comigo, procedem ao mesmo tempo de ti e de mim como de uma só e mesma causa. Desta arte, eu continuo a viver sobre a terra, a trabalhar e a estender o meu reinado até o fim dos tempos em cada um dos meus fiéis.
   Todos os teus sofrimentos, suportados com a minha ajuda, são nosso bem comum, porque ambos somos somente um. Assim eu continuo sobre a terra a minha Paixão. Cada alma, que sofre com paciência, ajuda-me a acabar o que ainda faltava à minha vida de vítima.
   Juntos glorificamos o Pai, juntos lhe damos graças, juntos o amamos, e juntos no Céu nos sentaremos à sua mão direita e gozaremos da mesma felicidade.
   Meu filho, há tanto tempo que estou contigo, e tu ainda mal me conheces. 
   Eu te convido de novo a gozar no amor da tua união comigo pela graça, e, por mim, com a Santíssima Trindade. Penetra em ti mesmo por um simples movimento da tua inteligência e da tua vontade. Não tens necessidade alguma dos esforços da imaginação e do sentimento. Deus é Espírito e em espírito e em verdade quer ser adorado.
   Que horas deliciosas passaremos juntos, se te quiseres prestar aos meus desejos, e quantos segredos eu tenho a comunicar-te a respeito da tua santificação pessoal e do bom sucesso do teu sagrado ministério!
   As três divinas Pessoas moram em ti, porque eu te comuniquei a minha graça.
   Em ti estabeleceram o Céu e fazem em ti a sua vida infinitamente feliz.
   Em ti o Pai, a cada momento, por um mistério inefável dá-me o ser, e do Pai e de mim precede o Espírito Santo, nosso mútuo Amor.
   E tu és, não somente o palácio onde se realizam estes mistérios e a testemunha de vista, admitido a contemplá-los, mas ainda tu mesmo tens parte ativa neles. 
   Comigo, Filho de Deus encarnado, tu amas o Pai porque és uno comigo. Em mim tu és amado do Pai, porque és comigo o Cristo. E este Amor do Pai e do Filho é o Espírito Santo. Ele estreita num abraço comum de amor a minha humanidade, a tua pessoa, e todas as almas justas.
   Assim tu vives em mim no seio do Pai. Não és já um mercenário. És o filho da família, e quão ternamente amado!. O teu divino Pai administra por si próprio os teus interesses, só querendo de ti o amor, a docilidade à sua voz, e a fidelidade ao dever de cada dia. 
   Sendo filho de Deus, és também meu irmão muito amado. Minha própria Mãe torna-se igualmente tua Mãe. Comigo tens direito à herança do céu. Todos os bens do nosso Pai do Céu são propriedade nossa.
   Oh, vivamos juntos no céu da tua alma! Cuidemos dos interesses do nosso Pai comum. Estendamos o seu reinado sobre a terra, salvando e santificando as almas. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jesus pregando o Retiro aos seus sacerdotes - ( VI )

O sacerdote deve ter o coração desprendido de todos os bens terrenos. Deve fugir de toda avareza e amar a santa pobreza.

    O teu Redentor não se buscou a si mesmo. Eu fiz sobre a terra, por obediência, a obra imposta pelo meu Pai, e esta obra não foi outra que a Redenção dos homens pelo trabalho, pela fadiga, pela pobreza, pela humilhação, pelo sofrimento e pela morte.
    Vim para ser Hóstia da humanidade, para tomar sobre mim os seus pecados, e sofrer por ela o castigo, para lhe alcançar pela minha paixão e pelo meu sacrifício a vida eterna.
    E tu, meu sacerdote, tu também voluntariamente aceitaste continuar sobre a terra a minha vida de Hóstia para salvar os homens.
    Fiz-me alimento das almas. Da mesma forma deves permitir que os teus fiéis assimilem como um alimento o teu tempo, as tuas forças, o teu talento; que usem e abusem da tua paciência, da tua saúde, dos teus bens, sem neste mundo teres nisto proveito algum.
    O cacho de uvas tem o destino de ser sujeito à prensa. Se o não for, jamais dará o seu precioso licor.
   O sacerdote, a meu exemplo, foi criado para, de alguma forma, ser prensado e pisado pelas almas, consagrando-lhes o seu tempo, as suas comodidades e a mesma vida.
    Que decepção para mim se, no entardecer da tua vida, encontrares o teu cacho ainda intacto e o teu cálice vazio!
    Eu não tive onde repousar a cabeça. Nasci e cresci na pobreza. Morri despojado e nu sobre a cruz e não tive para sepultura senão um sepulcro emprestado.
"Todos os que criam estavam unidos e tinham
tudo em comum. Vendiam suas propriedades e
os seus bens, e distribuíam o preço por todos,
segundo a necessidade que cada um tinha".
Atos dos Apóstolos, II, 44-45.
    Como te fica mal, meu filho, preocupares-te tanto com o bens da terra! O nosso reino não é deste mundo. Nós não temos sobre a terra morada permanente. Por que tu hás de apegar então às coisas que passam?
    Portanto não te inquietes dizendo: Que hei de comer, que hei de beber, com que me hei de vestir? Os pagãos é que se preocupam com estas coisas. Mas tu, tu tens no céu um Pai onipotente que é quem cuida de ti. Até as avezinhas do céu alimenta. 
    Procura, em primeiro lugar, estender o meu reinado sobre a terra. Sê sacerdote comigo, e tudo o mais ser-te-á dado a seu tempo pelo nosso Pai que está nos céus.
    Tu és comigo Redentor, Hóstia e Pastor do meu rebanho.
    O bom pastor não espolia as suas ovelhas; pelo contrário, dá por elas a vida.
    Está pronto a agir desta sorte e as minhas ovelhas ouvirão a tua voz e salvar-se-ão por teu meio.
   Não entres nunca em altercações com os teus paroquianos por causa de bens terrenos. Este procedimento do Pastor escandalizaria e afastaria de mim as minhas ovelhas. 
    Se alguém te quiser roubar o manto, dá-lhe também a túnica. Eu fui tratado sobre a terra por aqueles que vinha resgatar, como homem que não tem direitos.
    De igual sorte serás tratado pelos teus próprios fiéis: o discípulo não está acima do Mestre.
    Tu mesmo, filho, amiúde me fizeste cruéis injúrias, ofendendo-me após tantos benefícios.
    Que teria sido de ti, se eu tivesse agido a teu repeito segundo o rigor dos meus direitos? E que será do meu rebanho, se o sacerdote exige sempre dele a estrita justiça? Não é na terra que deves reclamar os teus direitos. Na terra tu és vítima comigo, destinado a seres sacrificado e calcado aos pés. É necessário partilhares comigo a Cruz até ao Calvário. 
    Nada temas. Na eternidade a ordem será restabelecida. Lá, os meus sacerdotes, os que me seguiram na pobreza e na humilhação, julgarão as doze tribos de Israel; sentar-se-ão à minha direita entre os príncipes de meu povo.
    Faze o bem enquanto há tempo para o fazeres. Renuncia às tuas comodidades, ao teu repouso, aos cuidados excessivos da tua saúde. 
    Gratuitamente recebeste, dá gratuitamente, sem peso e sem medida.
    Se quiser ter necessidade de ti para a minha Obra, eu te conservarei as forças. Se te mando a doença, sabe que o faço por um desígnio de minha misericórdia. 
    Eu vim para servir e não para ser servido. Tu deves ser igualmente o servidor de todos e acudir ao menor chamado de uma alma em perigo.
    Que desordem, se por te poupares desamparas uma alma imortal, comprada com o meu sangue!
    Que desgraça para ti, se um dia eu tivesse que te lançar em rosto esta queixa: Os pequeninos pediam pão e não houve que lho partisse!
    Quem quer ser o primeiro, considere-se último. Se estás elevado pela dignidade, abate-te pela humildade. És grande pelas tuas funções, sê pequeno na tua estima. Estás colocado acima dos teus fiéis pela tua eleição ao sacerdócio; deves estimar-te como o mais indigno de exercer as augustas cerimônias.
    Não esperes com orgulho que os pecadores te venham procurar; previne-os, obsequioso pela tua bondade.
    Eu desci dos esplendores do céu para buscar a ovelha tresmalhada. Não podes tu descer do pedestal da tua dignidade para te abeirares com doçura dos pobres pecadores?
    A tua aproximação fácil e acolhedora ganhar-te-á mais almas de que os teus eloquentes discursos.
    A tua doçura e a tua humildade dar-te-te-ão a chave dos corações mais hermeticamente fechados.
    Sê perfeito como nosso Pai celestial é perfeito. Ele tanto faz cair a chuva no campo do pecador como no campo do justo. E continua a dar existência e os bens temporais ao ímpio, e precisamente no momento em que este abusa deles para o blasfemar.
    Aceita o reconhecimento da gratidão, se os homens to mostrarem. Não é a ti que este reconhecimento vai dirigido, mas sim Àquele a quem tu, como sacerdote, representas.
    Mas não estranhes encontrar no caminho a ingratidão. Eu fui dela saturado, e permito que tu igualmente lhe saboreies a amargura.
    Não tens necessidade do amor e da gratidão dos mortais. Lembra-te que pelo sacerdócio tu tens o teu lugar junto de mim e da minha Mãe muito amada.
    Comparado com a nossa ternura e dedicação por ti, todo outro amor te deve parecer vão e frágil.
    

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( IV )

A humildade do sacerdote

   A minha substância humana é diante de Deus como o nada. Assim aniquilei-me perante a majestade do meu Pai! Tomei a forma de escravo. Fui semelhante a um verme de terra, e quis ser considerado como o último dos homens, um homem devotado ao sofrimento.
   A Ele, meu Pai, Princípio de todas as coisas, Ser infinito, Mestre soberano, seja dada honra e glória pelos séculos dos séculos.
  A mim, o Filho do homem, criatura do nada segundo a minha humanidade, seja dado abatimento e confusão.
   Eu sou o Santo dos santos, essencialmente separado dos pecadores; e, todavia, tomei sobre mim o teu pecado e os pecados de todos os homens.
   Assim mereci todos os golpes da ira de Deus. Fui com toda a justiça saciado de opróbrios e como que esmagado debaixo da sua mão onipotente.
   A maldição devida ao pecado, com razão aderiu a mim como um vestido, precipitando-se como a torrente nas minhas entranhas e penetrou como o óleo até à medula dos meus ossos.
  Se eu fui com toda a justiça, tratado desta sorte por haver tomado sobre mim o pecado alheio, que castigo não merece quem cometeu o pecado?
   Se assim foi tratado o lenho verde, com o seco que se fará?
   Ó meu filho, a que espantosa condição te reduziu o pecado! Não é justo que passes a tua vida na abjeção voluntária diante de meu Pai, diante dos homens e perante a tua própria consciência!
  Tu és essencialmente criatura, infinitamente dependente, sob todas as formas, do teu Criador, do teu Redentor, de teu Santificador.
   Não podes existir, nem agir, nem mover-te, sem o socorro atual do seu braço onipotente. 
  Na ordem sobrenatural, nem sequer podes conceber um simples desejo salutar, nem ter um único pensamento bom, nem fazer movimento algum para te acercares de Deus.
   És incapaz de permanecer, embora por um só instante, na sua amizade, incapaz de nela progredir e mais incapaz ainda de perseverar nela, se não és levado pela graça.
   A tua natureza caída é de si capaz de todos os crimes.
   Não és mais que uma gota de água perdida no seio dos mares; e todavia esta gota de água encerra, em germe, toda a malícia e todas as abominações do mundo. Se a minha graça te não prevenisse, eras capaz de cometer realmente todos os crimes. 
   Humilha-te diante do meu Pai. Reconhece a tua infinita miséria, e Deus aproximar-se-á de ti, purificará a tua alma e amar-te-á. 
   Traze sempre à minha presença um coração contrito e humilhado. Não te atribuas quaisquer talento, sucesso, boa obra ou dom de Deus. Sobretudo não te glories de teres sido levantado à dignidade infinita de sacerdote, porque foi gratuitamente que a recebeste.
   Separa bem em ti o que é de Deus e o que é teu. De ti mesmo tens o nada, o pecado, e o direito ao inferno. Tudo o mais é propriedade minha, efeito da minha bondade e da minha misericórdia. 
  Ama e busca a vida escondida. Não é o brilhantismo do talento, nem a atividade natural, nem o movimento a que muitos se entregam, que a mim conduz as almas.
   Elimina da tua vida tudo o que nela há de humano, para seres exclusivamente meu instrumento, um eco de mim mesmo.
   Sê humilde diante de teu próximo. Suporta as suas fraquezas, escusa os seus defeitos. Atrai as almas pela paciência, pela doçura e pela amenidade do teu proceder. 
   Leva com gosto o fardo de teu próximo. Faze-te o servidor de todos. Como sacerdote vieste para servir e não para seres servido. 
   Sê humilde contigo mesmo. Reconhece de boa mente as tuas faltas, aceita a humilhação que te proporcionam a tua impaciência, o insucesso e os desprezos.
   Segue-me pelo caminho do Calvário. Saboreia em silêncio os opróbrios e os insultos com que o mundo me fere na minha pessoa e na pessoa dos meus sacerdotes. 
   E se sentires dificuldades para compreender esta lição de humildade, roga-me, roga à Virgem humilde de Nazaré, minha Mãe e também tua, suplica-me que abra os teus olhos e verás como dos pés à cabeça estás coberto das chagas do teu orgulho, como todas as potências da tua alma estão roídas por este cancro, como todas as fibras do teu ser estão infectadas deste veneno.
   Meu pobre filho, nem sequer vês e julgas-te são, bom, virtuoso e digno de respeito e de admiração!
   Pede-me e eu farei cair dos teus olhos essas cataratas que te impedem de ver a tua alma em toda a sua indigência e em toda a sua nudez.
   Para quem me inclinarei eu, senão para o coração contrito e humilhado?
  O coração humilde vive na verdade, está contente do seu nada, não usurpa os direitos que apenas pertencem a Deus, o Ser soberano.
   Se alguém é pequeno, venha a mim.
   O coração soberbo, pelo contrário, inspira-me horror; leva na sua fronte o estigma de Satanás, pai do orgulho e da mentira.
   Aprende de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrarás o sossego para a tua alma.  
   
    
   
   
     

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes ( II )

O sacerdote, hóstia com Jesus

   
   Eu sou sacerdote e hóstia, sacrificador e vítima. No Antigo Testamento, os sacrifícios não tinham valor senão em vista da minha futura imolação sobre a cruz.
   No Novo Testamento, eu sou a vítima oferecida de uma extremidade à outra do mundo, em todos os altares do Universo.
   Até ao fim dos tempos ficarei na Santíssima Eucaristia no estado de hóstia, oculto debaixo de humildes espécies, humilhado ante o meu Pai, aniquilado perante a Sua Majestade infinita.
   Eu vivo em toda a Igreja, mas perseguido pelos meus inimigos, desprezado pela maioria dos homens, traído amiúde pelos meus próprios filhos.
   Meu filho, chamado por um decreto eterno a seres meu sacerdote, foste pelo mesmo decreto designado para seres vítima comigo.
   Minha Mãe, dando-me a humanidade, deu-me a possibilidade de ser sacerdote e de me oferecer como vítima a meu Pai. Todavia, Ela não pôde consentir no meu sacrifício sem ser atravessada por uma espada de dor.
   De igual maneira tu me dás o ser sacramental e me ofereces no altar como Ela me oferecia no Calvário; mas, se és outro Jesus, não poderás oferecer-me sem te imolares comigo.
  No altar, tu assimilas o meu corpo e o meu sangue; mas não poderias dignamente chegar a essa assimilação da vítima sem seres, tu mesmo, transformado em hóstia.
   Oh! Não fujas a esta honra incomparável de seres hóstia comigo!
   Não te espante o participares do meu estado de vítima.
   O grão de trigo não poderia germinar nem produzir o seu fruto sem ser lançado na terra para lá sofrer a decomposição.
   O Filho do homem não pôde entrar na sua glória sem antes ter sofrido e morrido no patíbulo. Sem efusão de sangue não há redenção. 
   Tu és co-redentor e deves morrer e ser sepultado comigo para depois ressuscitares e te sentares a meu lado na glória.
  O mundo rejubilará enquanto tu estás na aflição; tem paciência, passará o sofrimento e a glória não terá fim.
   Feliz aquele que compreende o mistério da cruz! Feliz aquele que não se escandaliza da minha humilhação! Feliz aquele que não se espanta à vista das provas que eu mando aos meus melhores amigos!
   Feliz o sacerdote que recebe com alegria a parte escolhida que eu lhe dou nos meus sofrimentos, pois a minha paixão ainda não está acabada!
   Feliz aquele que vai comigo até ao Calvário e desafia os insultos e as perseguições para me permanecer fiel!
   Meu filho, a tua paciência agrada-me mais do que as tuas pressas. O teu sofrimento produz mais fruto que a tua atividade. Os teus desprezos atraem mais almas do que os teus sucessos.
   Sê vítima comigo! Quando no altar me tens nas tuas mãos, quando levantas a hóstia santa, entrega-te comigo ao nosso Pai do céu e abandona-te nos Seus braços a todo o Seu querer, presente e futuro, sobre ti e sobre os teus, para o tempo e para a eternidade.
   Queres ser meu verdadeiro discípulo? - Toma a tua cruz, vem e segue-me.
   O mundo te aborrecerá e perseguirá. Olhar-te-á com desprezo, porque és meu sacerdote, porque a tua batina lhe prega a penitência e as tuas virtudes são a recriminação dos seus vícios.
   Na terra, eu não recolhi da maioria dos homens senão hostilidade, indiferença ou ingratidão. De igual maneira, tu não terás no mundo nem repouso nem reconhecimento. O discípulo não deve ser melhor tratado do que o Mestre.
   Eu sofri na terra a solidão do coração, o abandono dos meus, ainda dos melhores amigos. Terás também parte nesta cruz!
   Lembra-te então de que estou sempre a teu lado.
   A Minha Mãe seguiu-me até ao Calvário, e tampouco Ela te abandonará.
   Assaltar-te-ão penas interiores e dúvidas angustiosas, em vista das tuas graves obrigações e da tua fraqueza em as cumprires. Une-as à minha tristeza no jardim das Oliveiras, ao tédio e aos temores que então me acabrunharam.
   As enfermidades corporais serão o teu tormento e minarão as forças que tu quererias consagrar ao meu serviço.
   Recorda então que és vítima comigo e que mereces mais pelos teus sofrimentos do que pelas outras ações.
   A morte virá enfim, e vê-la-ás aproximar-se com terror, considerando o número das tuas infidelidades e a severidade do juízo.
   Une-te à minha agonia na cruz. Eu fui abandonado por meu Pai para te merecer a graça de um dia seres acolhido por mim, não obstante a tua miséria.
   Tem coragem, meu filho. Leva esforçadamente a tua cruz e vem em meu seguimento. Não permitirei que sucumbas debaixo do seu peso.
   As tribulações que o meu Pai te destina para te fazer semelhante a mim, não virão sobre ti todas juntas. Distribuí-las-ei por toda a tua existência e fá-las-ei alternar com consolações e alegrias íntimas.
   O meu jugo é suave e leve a minha carga. Não sou eu o forte de Israel? Não sou eu a fortaleza dos mártires no meio dos maiores suplícios?
   
   
    

domingo, 5 de agosto de 2012

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes ( I )

MENSAGEM DE JESUS AO SEU SACERDOTE
pelo Pe. José Schrivers, C. SS. R.

   Farei apenas algumas postagens extraídas deste livro que pode ser adquirido na Editorial Perpétuo Socorro; Rua da Firmeza, 161, PORTO, PORTUGAL

NA VÉSPERA DE TARDE

   Venha a mim, meu filho. Eu convido-te a subir a montanha santa como outro Moisés. Desejo entreter-me contigo de coração a coração. Não és tu o chefe de meu povo?
   Não temas a minha divina Majestade. Sou o teu Jesus, o teu Redentor. Não te escondas de mim como Adão no paraíso terrestre, apesar, talvez, da tua nudez espiritual. Eu vim, não para te repelir com os meus rigores, mas para te atrair à minha intimidade e revestir da minha graça.
   Não recuses, portanto, o meu convívio. A quem irias então? Não tenho Eu palavras de vida eterna? Para onde fugirias tu, longe de mim, se estás envolvido pela minha divindade e és levado nos meus braços onipotentes? Em mim tens o ser, o movimento e a vida.
   A minha conversação não tem amargura. Sou a alegria dos anjos e as delícias dos eleitos. Criei o coração do homem, e o teu, particularmente, para o encher da minha graça e da minha felicidade. Sem mim serás culpável e infeliz.
   Não te espantes de ver a minha grandeza infinita abater-se até ao teu nada e convidar-te a um diálogo íntimo. Sou teu irmão, feito semelhante a ti. Não te fiz eu meu sacerdote, outro Jesus? Não te escolhi entre milhares para te revestir do meu poder e confiar-te na terra a minha obra de amor? 
   Recolhe-te na minha presença. Estou no centro da tua alma. Se afastares de teu coração todos os mais cuidados, ouvirás a minha voz.
   Presta-me atento ouvido, porque te quero falar. E tenho tantas coisas que te ensinar, tantos interesses a tratar, que a ambos atingem e importam ao nosso Pai comum que está nos Céus!
   Quantas vezes, quando no altar me tinhas nas tuas mãos, quis entrar em contato contigo, meu filho, e dizer-te: meu amor! Mas estavas despreocupado e distraído.
   Agora, está atento à minha voz. Deixa para mais tarde as tuas solicitudes e vem entreter-te comigo.
   Tem confiança, meu filho, meu Padre. Vim para te esclarecer, para sarar com o meu contato as chagas da tua alma, até as mais inveteradas. Oh! conheço-as todas, ainda aquelas que tu a ti próprio quererias dissimular!
   Não me impeças de te fazer bem. Não te furtes a mim pela desconfiança. Se o meu sacerdote se distancia de mim, admitindo-o quotidianamente à minha mesa, quem me  fará companhia na solidão do meu Tabernáculo? Quem me ajudará a glorificar o meu divino Pai?
   Durante estes exercícios não te dedique a buscar grandes pensamentos e ideias sublimes. O teu espírito é só trevas... eu sou a luz do mundo. Se és humilde, eu me revelarei a ti.
   Não procures a doçura e a consolação. O meu reinado em ti não é sentimento. O amor, que quero fomentar em ti, é sobrenatural. Ele transformará a tua alma, mesmo sem tu o saberes, e deixá-la-á pronta para fazer a minha vontade.
   Reza. Recomenda-te à minha Mãe, à Mãe do Perpétuo Socorro, a Rainha dos sacerdotes, e ela te fará dócil à minha voz. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Oração para tudo que respeita a salvação

Esta oração foi composta pelo Papa Clemente XI (* 1721). Clemente XI foi um homem de grande elevação moral e espiritual.
Esta oração está incluída entre as orações de Ação de Graças para depois da Santa Missa.


   Senhor, creio, mas quero crer mais firmemente. Espero, mas quero esperar com mais confiança. Amo, mas quero amar com mais ardor. Arrependo-me, mas quero arrepender-me com mais veemência. 
   Eu Vos adoro, primeiro Princípio. Eu Vos desejo, último Fim. Eu Vos dou graças, perpétuo Benfeitor. Eu Vos invoco, propício Defensor.
   Seja minha luz Vossa sabedoria, minha norma Vossa justiça, meu consolo Vossa clemência, meu amparo Vossa onipotência.
   Em Vós se fixem meus pensamentos, de Vós fale minha boca, a Vós se conformem meus atos, por Vós sofra minhas penas.
   Quero o que Vós quereis, quero porque quereis, quero como quereis, quero enquanto quiserdes.
   Senhor, iluminai-me o entendimento, inflamai-me a vontade, purificai-me a coração, santificai-me a alma. 
   Não me exalte a soberba, não me envaideça a lisonja, não me engane o mundo, não me enrede satanás.
   Concedei-me a graça de purificar a memória, refrear a língua, guardar os olhos, conter os sentidos. 
   Fazei-me chorar os pecados passados, vencer as tentações futuras, reprimir as más tendências, praticar as virtudes de meu estado. 
   Enchei-me o coração de amor por Vós, de ódio a mim mesmo, de zelo pelo próximo, de desprezo ao mundo.
   Que eu me empenhe em obedecer aos superiores, auxiliar os inferiores, ser fiel aos amigos, perdoar aos inimigos.
   Jesus, quero lembrar-me de Vosso preceito e exemplo, para amar os inimigos, sofrer as injúrias, fazer bem aos que me perseguem, orar pelos que me caluniam.
   Que eu domine os sentidos com a austeridade, a avareza com a esmola, a ira com a brandura, a tibieza com a devoção.
   Tornai-me prudente nos empreendimentos, corajoso nos perigos, paciente nas adversidades, humilde na prosperidade.
   Fazei-me atento à oração, sóbrio no alimento, diligente no dever, firme nas resoluções.
   Que eu procure com solicitude a pureza do coração, a modéstia exterior, o comportamento edificante, a vida regular. 
   Que me esforce por subjugar a natureza, cooperar com a graça, observar Vossa lei, merecer a salvação.
   Possa chegar à santidade por sincera confissão, fervorosa comunhão, contínuo recolhimento e pureza de intenção.
   Meu Deus, fazei-me ver quão pequenas são as coisas da terra, quão grande o que é de Deus, quão breve  o tempo, quão dilatada a eternidade.
   Dai, enfim, Senhor, que me prepare para o morte, tema o Vosso juízo, escape do inferno e entre no paraíso.
    Por Cristo Nosso Senhor. Amém. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

SAUDADE E GRATIDÃO

   CASA ONDE MORARAM MEUS PAIS



Casa de minha irmã Maria Aparecida Murucci, Santa Clara, Município de
Porciúncula, RJ., Brasil.
Caríssimos e afeiçoados irmã, irmãos, cunhado José Ferreira, cunhadas
e demais parentes, todos os dias na Santa Missa, rezo no "Memento
dos mortos" por alma de meus saudosos pais e irmão; e no
"Memento dos vivos" rezo por todos os parentes, para
que, um dia, nos reunamos todos no céu.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - "Pastor Aeternus"

Capítulo IV -  O Magistério infalível do Romano Pontífice

   Esta Santa Sé sempre tem crido que no próprio primado Apostólico que o Romano Pontífice tem sobre toda a Igreja, está também incluído o supremo poder do magistério. O mesmo é confirmado também pelo uso constante da Igreja e pelos Concílios Ecumênicos, principalmente aqueles em que os Orientais se reuniam com os Ocidentais na união da fé e da caridade.
   Assim, os Padres do IV Concílio de Constantinopla, seguindo o exemplo dos antepassados, fizeram esta solene profissão de fé: "A salvação consiste antes de tudo em guardar a regra da fé verdadeira [...]. E como a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo que disse: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja [S. Mat. 16,18] não pode ser vã, os fatos a têm confirmado, pois na Sé Apostólica sempre se conservou imaculada a religião católica e santa a doutrina. Por isso, não desejando absolutamente separar-nos desta fé e desta doutrina, [...] esperamos merecer perseverar na única comunhão pregada pela Sé Apostólica, na qual está sólida, íntegra e verdadeira a religião cristã".
   E os gregos, com a aprovação do II Concílio de Lião, professaram "que a Santa Igreja Romana goza do supremo e pleno primado e principado sobre toda a Igreja Católica, primado que com verdade ela conhece humildemente ter recebido, com a plenitude do poder, do próprio Jesus Cristo, na pessoa de São Pedro, príncipe dos Apóstolos, de quem o Romano Pontífice é sucessor; e assim como a Igreja Romana, mais do que as outras, deve defender a verdadeira fé assim também, quando surgirem questões acerca da fé, cabe a ela o defini-las".
   E finalmente o Concílio de Florença definiu "que o Romano Pontífice é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja, o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele conferiu Nosso Senhor Jesus Cristo, na pessoa de São Pedro, o pleno poder de apascentar, reger e governar toda a Igreja".
   Com o fim de satisfazer a este múnus pastoral, os nossos predecessores empregaram sempre todos os esforços para propagar a salutar doutrina de Cristo entre todos os povos da terra, vigiando com igual solicitude que, onde fosse recebida, se guardasse pura e sem alteração. Pelo que os bispos de todo o mundo, quer em particular, quer reunidos em sínodos, seguindo o velho costume e a antiga regra da Igreja, têm referido a esta Sé Apostólica os perigos que surgiam, principalmente em assuntos de fé, a fim de que os danos da fé se ressarcissem aí, onde a fé não pode sofrer quebra. E os Pontífices Romanos, conforme lhes aconselhavam a condição dos tempos e as circunstâncias, ora por sínodos particulares ou empregando outros meios, que a Divina Providência lhes proporcionava, têm definido como verdade de fé [tudo] aquilo que, com o auxílio de Deus, reconheceram ser conforme com a Sagrada Escritura e as tradições apostólicas. Pois o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de São Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja, a revelação herdada dos Apóstolos. E esta doutrina dos Apóstolos abraçaram-na todos os veneráveis Santos Padres, veneram-na e seguiram-na todos os santos doutores ortodoxos, firmemente convencidos de que esta cátedra de São Pedro sempre permaneceu imune de todo o erro, segundo a promessa de Nosso Senhor Jesus  Cristo feita ao príncipe dos Apóstolos: "Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos" [S. Luc. 22, 32]. 
   Foi, portanto, este dom da verdade e da fé, que nunca falece, concedido divinamente a Pedro e aos seus sucessores nesta cátedra, a fim de que cumprissem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do venenoso engodo do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim, removida toda ocasião de cisma, e apoiada no seu fundamento, se conservasse unida a Igreja Universal, firme e inexpugnável contra as portas do inferno. 
   Mas, como nestes nossos tempos, em que mais do que nunca se precisa da salutífera eficácia do ministério apostólico, muitos há que combatem esta autoridade, julgamos absolutamente necessário afirmar solenemente esta prerrogativa que o Filho Unigênito de Deus dignou-se ajuntar ao supremo ofício pastoral.
   Por isso Nós, apegando-nos à Tradição recebida desde o início da fé cristã, para a glória de Deus, nosso Salvador, para exaltação da religião católica, e para a salvação dos povos cristãos, com a aprovação do Sagrado Concílio, ensinamos e definimos como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala "ex cathedra", isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica alguma doutrina referente à fé e à moral para toda a Igreja, em virtude da assistência divina prometida a ele na pessoa de São Pedro, goza daquela infalibilidade com a qual Cristo quis munir a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé e a moral; e que, portanto, tais declarações do Romano Pontífice são por si mesmas, e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis. 
    Cânon: Se, porém, alguém ousar contrariar esta nossa definição, o que Deus não permita, - seja excomungado. 
   

terça-feira, 17 de julho de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - Pastor Aeternus

Capítulo III - A natureza e o caráter do primado do Pontífice Romano

   Por isso, apoiados ao testemunho manifesto da Sagrada Escritura, e concordes com os decretos formais e evidentes, tanto dos Romanos Pontífices, nossos predecessores, como dos Concílios gerais, renovamos a definição do Concílio Ecumênico de Florença, que obriga todos os fiéis cristãos a crerem que a Santa Sé Apostólica e o Pontífice Romano têm o primado sobre todo o mundo, e que o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de São Pedro, o príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja e o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, conforme também se lê nas atas dos Concílios Ecumênicos e nos sagrados cânones.
   Ensinamos, pois, e declaramos, que a Igreja Romana, por disposição divina, tem o primado do poder ordinário sobre as outras Igrejas, e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, poder verdadeiramente episcopal, é imediato. E a ela [à Igreja Romana] devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo, de tal forma que, guardada a unidade de comunhão e de fé com o Romano Pontífice, a Igreja de Cristo seja um só redil com um só pastor. Esta é a doutrina católica, da qual ninguém se pode desviar, sob pena de perder a fé e a salvação.
   Estamos, porém, longe de afirmar que este poder do Sumo Pontífice acaba com aquele poder ordinário e imediato de jurisdição episcopal, em virtude do qual os bispos, constituídos pelo Espírito Santo [cf. At. 20, 28] e sucessores dos Apóstolos, apascentam e regem, como verdadeiros pastores, os seus respectivos rebanhos; pelo contrário, este poder é firmado, corroborado e reivindicado pelo pastor supremo e universal, segundo o dizer de São Gregório Magno: "A minha honra é o vigor dos meus irmãos. Sinto-me verdadeiramente honrado, quando a cada qual se tributa a honra que lhe é devida".
   Além disso, do supremo poder do Romano Pontífice de governar toda a Igreja resulta o direito de, no exercício deste seu ministério, comunicar-se livremente com os pastores e fiéis de toda a Igreja, para que estes possam ser por ele instruídos e dirigidos no caminho da salvação. Pelo que condenamos e reprovamos as máximas daqueles que dizem poder-se impedir licitamente esta comunicação do chefe supremo com os pastores e os fiéis, ou a subordinam ao poder secular, a ponto de afirmarem que o que é determinado pela Santa Sé Apostólica em virtude da sua autoridade para o governo da Igreja, não tem força nem valor, a não ser depois de confirmado pelo beneplácito do poder secular.
   E como o Pontífice Romano governa a Igreja Universal em virtude do direito divino do primado apostólico, também ensinamos e declaramos que ele é o juiz supremo de todos os fiéis, podendo-se, em todas as coisas pertencentes ao foro eclesiástico, recorrer ao seu juízo; [declaramos] também que a ninguém é lícito emitir juízo acerca do julgamento desta Santa Sé, nem tocar neste julgamento, visto que não há autoridade acima da mesma Santa Sé. Por isso, estão fora do reto caminho da verdade os que afirmam ser lícito apelar da sentença dos Pontífices Romanos para o Concílio Ecumênico, como sendo uma autoridade acima do Romano Pontífice.
   Cânon: Se, pois, alguém disser que ao Romano Pontífice cabe apenas o ofício de inspeção ou direção, mas não pleno e supremo poder de jurisdição sobre toda a Igreja, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao governo da Igreja, espalhada por todo o mundo; ou disser que ele só goza da parte principal deste supremo poder, e não de toda a sua plenitude; ou disser que este seu poder não é ordinário e imediato, quer sobre todas e cada uma das igrejas, quer sobre todos e cada um dos pastores e fiéis - seja excomungado.

CONCÍLIO VATICANO I - "Pastor Aeternus"

Capítulo II - A perpetuidade do primado de S. Pedro nos Romanos Pontífices

   Porém o que Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o príncipe dos pastores e o grande pastor das ovelhas, instituiu no Apóstolo São Pedro para a salvação eterna e o bem perene da Igreja, deve constantemente subsistir pela autoridade do mesmo Cristo na Igreja, que, fundada sobre o rochedo, permanecerá inabalável até ao fim dos séculos. Ninguém certamente duvida, pois é um fato notório em todos os séculos, que São Pedro, príncipe e chefe dos Apóstolos, recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano, as chaves do reino; o qual (S.Pedro) vive, governa e julga através dos seus sucessores", os bispos da Santa Sé Romana, fundada por ele e consagrada com o seu sangue [Cf. Concílio de Éfeso]. Por isso, todo aquele que suceder nesta cátedra de Pedro, recebe, por instituição do próprio Cristo, o primado de Pedro sobre toda a Igreja. Permanece, pois, a disposição daquele que é a própria Verdade; e São Pedro, permanecendo como rocha inabalável, não tem abandonado o leme da Igreja. Por este motivo sempre foi necessário a toda a Igreja, isto é, a todos os fiéis, estivessem unidos à Igreja Romana, devido a sua suprema primazia, para que nesta Santa Sé, da qual dimanam para todos os direitos de uma comunhão veneranda, se agregassem (os fiéis) em um só corpo, como os membros estão ligados à cabeça.
   Cânon: Se, portanto, alguém negar ser de direito divino e por instituição do próprio Cristo que São Pedro tem perpétuos sucessores no primado da Igreja universal; ou que o Romano Pontífice é o sucessor de São Pedro no mesmo primado - seja excomungado.

domingo, 15 de julho de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - "Pastor Aeternus"

Capítulo I  - A instituição do primado apostólico em São Pedro

  Ensinamos, pois, e declaramos, segundo o testemunho do Evangelho, que Jesus Cristo prometeu e conferiu imediata e diretamente o primado de jurisdição sobre toda a Igreja ao Apóstolo São Pedro. Com efeito, só a Simão Pedro, a quem antes dissera: Chamar-te-ás Cefas {S. João I, 42), depois de ter ele feito a sua profissão com as palavras: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo, foi que o Senhor se dirigiu com estas solenes palavras: Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque nem a carne nem o sangue to revelaram, mas sim meu Pai que está nos céus. E eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E dar-te-ei as chaves do reino dos céus. E tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos céus; e tudo o que desligares sobre a terra será desligado também nos céus [ Mt. 16, 16 ss]. E somente a Simão Pedro conferiu Jesus, após a sua ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o seu rebanho, dizendo: Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas [S. Jo. 21, 15 ss]. A esta doutrina tão clara das Sagradas Escrituras, tal como sempre foi entendida pela Igreja Católica, opõem-se abertamente as sentenças perversas daqueles que, desnaturando a forma de governo estabelecida na Igreja por Cristo Nosso Senhor, negam que só Pedro foi agraciado com o verdadeiro e próprio primado de jurisdição, com exclusão dos demais Apóstolos, quer tomados singularmente, quer em conjunto. Igualmente se opõem a esta doutrina os que afirmam que o mesmo primado não foi imediata e diretamente confiado a São Pedro mesmo, mas à Igreja, e por meio desta a ele, como ministro dela.
   Cânon: Se, pois, alguém disser que o Apóstolo São Pedro não foi constituído por Jesus Cristo príncipe de todos os Apóstolos e chefe visível de toda a Igreja militante; ou disser que ele não recebeu direta e imediatamente do mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo o primado de verdadeira e própria jurisdição, mas apenas o primado de honra  -   seja excomungado 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - Constituição "Pastor Aeternus"

"PASTOR AETERNUS" : Primeira Constituição dogmática sobre a Igreja de Cristo
Sessão IV (18-7-1870)

   O eterno Pastor e Bispo de nossas almas (1S. Ped. II, 25), querendo perpetuar a salutífera obra da redenção, resolveu fundar a Santa Igreja, na qual, como na casa do Deus vivo, todos os fiéis se conservassem unidos, pelo vínculo da mesma fé e do mesmo amor. Por isso, antes de ser glorificado, rogou ao Pai não só pelos Apóstolos, mas também por aqueles que haviam de crer nele através das palavras deles, para que todos fossem um, assim como o Filho e o Pai são um (S. Jo. 17, 20 e s.). Por isso, assim como enviou os Apóstolos que tinha escolhido do mundo, conforme tinha sido ele mesmo enviado pelo Pai (S. Jo. 20, 21), da mesma forma quis que até a consumação dos séculos (S. Mat. 28, 20), houvesse na sua Igreja pastores e doutores. Mas, para que o próprio episcopado fosse uno e indiviso, e pela coesão e união íntima dos sacerdotes toda a multidão dos crentes se conservasse na unidade da mesma fé e comunhão, antepondo São Pedro aos demais Apóstolos, pôs nele o princípio perpétuo e o fundamento visível desta dupla unidade, sobre cuja solidez se construísse o templo eterno e se levantasse sobre a firmeza desta fé a sublimidade da Igreja, que deve elevar-se até ao céu. E como as portas do inferno se insurgem de todas as partes de dia para dia com crescente ódio contra a Igreja divinamente estabelecida, a fim de fazê-la ruir, se pudessem, Nós julgamos necessário para a guarda, para a incolumidade e para o aumento da grei católica, após a aprovação do Concílio, propor à crença dos fiéis a doutrina sobre a instituição, a perpetuidade e a natureza dos santo primado Apostólico, no qual reside a força e a solidez de toda a Igreja, segundo a fé antiga e constante da Igreja universal, proscrevendo e condenando os erros contrários, tão perniciosos à grei do Senhor.

   

terça-feira, 17 de abril de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - CÂNONES

Sobre a fé e a razão

   Cân. 1 - Se alguém disser que na revelação divina não há nenhum mistério verdadeira e propriamente dito, mas que todos os dogmas da fé podem ser compreendidos e demonstrados pela razão, devidamente cultivada, por meio dos princípios naturais - seja excomungado.

  Cân. 2 - Se alguém disser que as ciências humanas devem ser tratadas com tal liberdade que as suas conclusões, embora contrárias à doutrina revelada, possam ser retidas como verdadeiras e não possam ser proscritas pela Igreja - seja excomungado.

   Cân. 3 - Se alguém disser que às vezes, conforme o progresso das ciências, se pode atribuir aos dogmas propostos pela Igreja um sentido diverso daquele que ensinou e ensina a Igreja - seja excomungado. 

   Por isso Nós, cumprindo o supremo ofício pastoral que nos cabe exercer, pedimos insistentemente pela entranhas de Jesus Cristo a todos os fiéis cristãos, especialmente aos chefes e aos que exercem o ofício de ensinar, e mandamos, com a autoridade dos mesmo Deus e Salvador nosso, que se esforcem por eliminar e afastar da Santa Igreja tais erros, e por difundir a luz da fé pura e verdadeira.
   Porém, já que não é possível evitar a heresia, a não ser fugindo também diligentemente daqueles erros que se aproximam mais ou menos dela, lembramos a todos o dever de observar também as Constituições e os Decretos pelos quais esta Santa Sé proscreve e proíbe tais opiniões perversas, que não vêm aqui enumeradas.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - CÂNONES

2. SOBRE A REVELAÇÃO

   Cân. 1 - Se alguém disser que o Deus uno e verdadeiro, Criador e Senhor nosso, não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas - seja excomungado.

   Cân. 2 - Se alguém afirmar ser impossível ou ao menos inconveniente que o homem seja instruído por revelação divina sobre Deus e o culto a ele devido - seja excomungado.

   Cân. 3 - Se alguém disser que o homem não pode ser por Deus guindado a um conhecimento e perfeição que excedam o natural, mas que [o homem] deve por si mesmo, progredindo sempre, chegar finalmente a possessão de toda a verdade e de todo o bem - seja excomungado.

   Cân. 4 - Se alguém não admitir como sagrados e canônicos os livros da Sagrada Escritura, inteiros e com todas as suas partes, conforme foram enumerados pelo sacrossanto Concílio de Trento, ou lhes negar a inspiração divina - seja excomungado.

SOBRE A FÉ

   Cân. 1 - Se alguém afirmar que a razão humana é de tal modo independente, que Deus não possa impor-lhe a fé - seja excomungado.

   Cân. 2 - Se alguém disser que a fé divina não se distingue do conhecimento natural de Deus e da moral, e que portanto para a fé divina não se requer que a verdade revelada seja crida por causa da autoridade de Deus que revela - seja excomungado.

   Cân. 3 - Se alguém disser que a revelação divina não pode tornar-se mais compreensível por meio de sinais externos, e que portanto os homens devem ser movidos à fé só pela experiência interna individual ou por inspiração privada - seja excomungado.

   Cân. 4 - Se alguém disser que não pode haver milagres, e que portanto todas as narrações deles, também as contidas na Sagrada Escritura, se devem relegar ao reino da fábula e do mito; ou disser que os milagres nunca podem ser conhecidos com certeza, nem se pode por eles provar a origem divina da religião cristã - seja excomungado.

   Cân. 5 - Se alguém disser que o assentimento à fé cristã não é livre, mas resulta necessário dos argumentos da razão humana; ou disser que a graça de Deus só é necessária para a fé viva, que opera pela caridade (Gál. 5,6) - seja excomungado.

   Cân. 6 - Se alguém afirmar ser idêntica a condição dos fiéis e a daqueles que ainda não chegaram à fé única e verdadeira, assim que os católicos possam ter justa razão para duvidar da fé que abraçaram sob o Magistério da Igreja, suspendendo o assentimento até terem concluído a demonstração científica da credibilidade e veracidade da sua fé - seja excomungado.


 
  

  

domingo, 15 de abril de 2012

AVISO

   Estou por mais de mês sem postar nada nos meus blogs. Aos caríssimos leitores peço mil desculpas! Primeiramente, deu um defeito no Modem do meu computador. Como moro na zona rural, a Internet aqui chega com muita dificuldade e muito lenta. Freqüentemente, fica sem serviço, sem sinal. Não tive condições de consertar logo o meu modem e neste ínterim, passei por uma cirurgia  que, por sinal apresentou um quadro de infecção, o que retardou naturalmente a recuperação. Nestes últimos dias, se não fosse uma gripe forte, teria escrito algo. Mas, se Deus quiser, nesta semana reiniciarei minhas postagens. Talvez, dentro de alguns dias, terei que operar uma vista. Imploro vossas preciosas orações e desde já, agradeço.
   A minha bênção sacerdotal a todos!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CONCÍLIO VATICANO I - CÂNONES

1. Sobre Deus, Criador de todas as coisas

Pintura do Beato Pio IX  (autor: Lorenzone)
   Cân. 1 - Se alguém negar que há um só Deus verdadeiro, Criador e Senhor das coisas visíveis e invisíveis - seja excomungado.

   Cân. 2 - Se alguém não se envergonhar de afirmar que além da matéria nada existe - seja excomungado.

   Cân. 3 - Se alguém disser que a substância ou essência de Deus é a mesma que a substância ou essência de todas as coisas - seja excomungado.
  
   Cân. 4 - Se alguém disser que as coisas finitas, tanto as corpóreas como as espirituais, ou ao menos as espirituais, emanaram da substância divina; ou que pela manifestação ou evolução da essência divina se originaram todas as coisas; ou, finalmente, que Deus é um ser universal ou indefinido, que, ao ir-se determinando, daria origem à universalidade das coisas, distinta em gênero, espécie e nos indivíduos - seja excomungado.

   Cân. 5 - Se alguém não professar que o mundo e todas as coisas nele contidas, quer espirituais, quer materiais, foram por Deus tiradas do nada segundo toda a sua substância; ou disser que Deus criou, não com vontade inteiramente livre, mas com a mesma necessidade com que se ama a si mesmo; ou negar que o mundo foi feito para a glória de Deus - seja excomungado. 



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

RETIRO NO CARNAVAL

Em 1953 D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória, escreveu a CARTA PASTORAL SOBRE PROBLEMAS DO APOSTOLADO MODERNO contendo um Catecismo de verdades oportunas que se opõem a erros contemporâneos.
  
   No capítulo V do Catecismo onde fala SOBRE A MORAL NOVA, Dom Antônio no nº 56 apresenta a proposição errada ou pelos menos perigosa que diz:
   "É conveniente que os membros da Ação Católica (hoje substitui-se por outro movimento moderno progressista como RCC) participem dos folguedos carnavalescos, para aí fazerem apostolado. Assim, os retiros espirituais, que segregam do mundo os membros da Ação Católica, não devem ser feitos nos dias de carnaval"

   * Proposição certa: "É ilícito procurar ocasião próxima de pecado, sob pretexto de apostolado. Constituindo os folguedos do Carnaval ocasião próxima de pecado, os fiéis devem abster-se deles".

EXPLANAÇÃO

   Nosso Carnaval é tristemente famoso em todo o mundo pelas imoralidades a que dá ocasião, e tudo indica que se vá tornando pior. (nr. que diria D. Antônio, hoje depois de 59 anos!!!). A participação dos fiéis nesses folguedos imorais não só constitui perigo para suas almas, mas também grave escândalo para o próximo. Pelo contrário, o fato de se isolarem eles em recolhimento e oração durante esses três dias, traz edificação não pequena, e constitui em si mesmo excelente apostolado.
   A sentença impugnada parece desconhecer a existência de ocasião próxima de pecado, ao menos para quem pretende fazer apostolado. Lembremos, pois, a condenação lançada por Inocêncio XI contra o Laxismo Moral (2-3-1679), entre cujas proposições há as seguintes: "É lícito procurar diretamente ocasião próxima de pecado com intenção de obter um bem espiritual ou temporal, próprio ou do próximo". E: "Não se deve fugir à ocasião próxima de pecado, quando ocorre uma causa útil ou honesta de não fugir" (prop. 63 e 62, D, 1213 e 1212).

   Obs.: Assim por orientação de  Dom Antônio de Castro Mayer até hoje, graças a Deus, há retiros espirituais em quase todas as paróquias dos nossos padres da Administração Apostólica.

   Pela graça de Deus, pregarei retiros para as senhoras e moças (no ano passado foi para os homens e moços) nos dias de carnaval. Será aqui nas dependências do Carmelo, que ainda não funciona como tal. O Retiro vai começar no sábado à noite, às 19h. e vai terminar na quarta feira de cinzas às 8h. Portanto: do dia 18 a 22 de fevereiro. Durante toda a noite de terça-feira há Adoração diante do Santíssimo exposto em desagravo ao Coração Eucarístico de Nosso Senhor Jesus Cristo.

   Queria deixar aqui também meu total repúdio pelo vilipêndio perpetrado contra o Santíssimo Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo na "Folia com C." no Rio de Janeiro. Objetivamente, é um pecado contra o 2º mandamento da Lei de Deus.
   Eis o que diz o CIC nos números 2143: ..."O nome do Senhor é santo". Eis por que o homem não pode abusar dele. Deve guardá-lo na memória num silêncio de adoração amorosa" (Cf. Zc. 2, 17). Não fará uso dele a não ser para bendizê-lo, louvá-lo e glorificá-lo (Salmos, 29, 2; 96, 2; 113, 1-2). Nº 2144: A deferência para com o nome de Deus exprime o respeito que é devido ao mistério do próprio Deus e a toda a realidade sagrada que ele evoca. O sentido do sagrado faz parte do âmbito da religião:
   "Os sentimentos de temor e do sagrado são ou não sentimentos cristãos? Ninguém pode em sã razão duvidar disso. São sentimentos que teríamos, em grau intenso, se tivéssemos a visão do Deus soberano. São sentimentos que teríamos se nos apercebêssemos claramente de sua presença. Na medida em que cremos que Ele está presente, devemos tê-los. Não tê-los é não perceber, não crer que Ele está presente" (Card. Newman".

CONCÍLIO VATICANO I - CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA SOBRE A FÉ CATÓLICA

Capítulo IV.  -  A fé e a razão

   O consenso constante da Igreja Católica tem também crido e crê que há duas ordens de conhecimento, distintas não só por seu princípio, mas também por seu objeto; por seu princípio, visto que numa conhecemos pela razão natural, e na outra pela fé divina; e por seu objeto, porque, além daquilo que a razão natural pode atingir, propõem-se-nos a crer mistérios escondidos em Deus, que não podemos conhecer sem a revelação divina (cân. 1). E eis porque o Apóstolo, que assegura que os gentios conheceram a Deus por meio das suas obras (Rom. 1, 20 ), discorrendo, todavia, sobre a graça e verdade que foram anunciadas por Jesus Cristo (cf. S. Jo. 1, 17), diz: Falamos da sabedoria de Deus em mistério, que fora descoberta e que Deus predestinou antes dos séculos, para a nossa glória. A qual nenhum dos poderosos destes mundo conheceu..., a nós, porém, o revelou Deus pelo seu Espírito; porque o Espírito tudo penetra, também as coisas profundas de Deus (1 Cor. 7, 8 e 10). E o próprio Unigênito glorifica ao Pai, porque escondeu essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos (cf. S. Mat. 11, 25).
   Em verdade, a razão, iluminada pela fé, quando investiga diligente, pia e sobriamente, consegue, com a ajuda de Deus, alguma compreensão dos mistérios, e esta frutuosíssima, quer pela analogia das coisas conhecidas naturalmente, quer pela conexão dos próprios mistérios entre si e com o fim último do homem; nunca, porém, se torna capaz de compreendê-los como compreende as verdades que constituem o seu objeto próprio, pois os mistérios divinos, por sua própria natureza, excedem de tal modo a inteligência criada, que, mesmo depois de revelados e aceitos pela fé, permanecem ainda encobertos com os véus da mesma fé, e como que envoltos em um nevoeiro, enquanto durante esta vida vivermos ausentes do Senhor; pois andamos guiados pela fé, e não pela contemplação. (2 Cor. 5, 6 e s.)

   Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, jamais pode haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não pode negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer à verdade. A vã aparência de tal contradição nasce principalmente ou de os dogmas da fé não terem sido entendidos e expostos segundo a mente da Igreja, ou de se terem as simples opiniões em conta de axiomas certos da razão. Por conseguinte, "definimos como inteiramente falsa qualquer asserção contrária a uma verdade de fé". (V Concílio de Latrão).

   Ademais a Igreja, que juntamente com o múnus apostólico de ensinar recebeu o mandato de guardar o depósito da fé, tem também de Deus o direito e o dever de proscrever a ciência falsa (1 Tim. 6, 20), a fim de que ninguém se deixe embair pela filosofia e por sofismas pagãos (Cf. Col. 2, 8; cân. 2). Eis porque não só é vedado a todos os cristãos defender como legítimas conclusões da ciência tais opiniões reconhecidamente contrárias à fé, máxime se tiverem sido reprovadas pela Igreja, mas ainda estão inteiramente obrigados a tê-las por conta de erros, revestidas de uma falsa aparência de verdade.

   E não só não pode jamais haver desarmonia entre a fé e a razão, mas uma serve de auxílio à outra, visto que a reta razão demonstra os fundamentos da fé, e cultiva, iluminada com a luz deste, a ciência das coisas divinas; e a fé livra e guarda a razão dos erros, enriquecendo-a de múltiplos conhecimentos. Por isso a Igreja, longe de se opor ao cultivo das artes e das ciências humanas, até as auxilia e promove de muitos modos. Porquanto não ignora nem despreza as vantagens que delas dimanam para a vida humana; pelo contrário, ensina que, derivando elas de Deus, o Senhor das ciências (1 Rs. 2, 3), se forem bem empregadas, conduzem para Deus, com o auxílio de sua graça. Nem proíbe (a Igreja) que tais disciplinas, dentro de seu respectivo âmbito, façam uso de seus princípios e métodos próprios; mas, reconhecendo embora esta justa liberdade, admoesta cuidadosamente que não admitam em si erros contrários à doutrina de Deus ou ultrapassem os próprios limites, invadindo e perturbando o que é do domínio da fé.

   Pois a doutrina da fé, que Deus revelou, não foi proposta ao engenho humano como uma descoberta filosófica a ser por ele aperfeiçoada, mas foi entregue à Esposa de Cristo como um depósito divino, para ser por ela fielmente guardada e infalivelmente ensinada. Daí segue que sempre se deve ter por verdadeiro sentido dos dogmas aquele que a Santa Madre Igreja uma vez tenha declarado, não sendo jamais permitido, nem a título de uma inteligência mais elevada, afastar-se deste sentido (cân. 3). "Cresçam, pois, e multipliquem-se abundantemente, tanto em cada um como em todos, tanto no homem individual como em toda a Igreja, segundo o progresso das idades e dos séculos, a inteligência, a ciência e a sabedoria, mas somente no seu gênero, isto é, ma mesma doutrina, no mesmo sentido e no mesmo pensamento" (S. Vicente de Lerins, Commonitorium, n. 28. ML 50, 668 (cân, 23).

   



sábado, 4 de fevereiro de 2012

CONCÍLIO VATICANO I SOBRE A FÉ E A IGREJA

SESSÃO III ( 24 - 4 - 1870)

CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA SOBRE A FÉ CATÓLICA

   Agora, porém, Nós, juntamente com todos os bispos do mundo que conosco governam a Igreja, congregados no Espírito Santo neste Concílio Ecumênico, sob a nossa autoridade, apoiados na palavra de Deus, quer escrita quer transmitida por Tradição, conforme a recebemos santamente conservada e genuinamente exposta pela Igreja Católica, resolvemos professar e declarar, desta cátedra de Pedro, diante de todos , a salutar doutrina de Cristo, proscrevendo e condenando, com o poder divino a Nós confiado, os erros contrários.

CAPÍTULO  I  - DEUS CRIADOR DE TODAS AS COISAS

   A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um só Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual una e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si  e por si mesmo, e está inefavelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber [cân. 1-4].

   Este único e verdadeiro Deus, por sua bondade e por sua "virtude onipotente", não para adquirir nova felicidade ou para aumentá-la, mas a fim de manifestar a sua perfeição pelos bens que prodigaliza às criaturas, com vontade plenamente livre, "criou simultaneamente no início do tempo ambas as criaturas do nada: a espiritual e a corporal, ou seja, os anjos e o mundo; e em seguida a humana, constituída de espírito e corpo" [IV Concílio de Latrão].
   Tudo o que Deus criou, conserva-o e governa-o com sua providência, atingindo fortemente desde uma extremidade a outra, e dispondo todas as coisas com suavidade (Sab. 8, 1). Pois tudo está nu e descoberto aos seus olhos ( Hebr. 4, 13), mesmo os atos dependentes da ação livre das criaturas.