sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 21)

   97. O TESTEMUNHO DO ESPÍRITO SANTO (b).

   Mais adiante, neste mesma Epístola aos Romanos, falando sobre os judeus que rejeitaram a Cristo, São Paulo os considera como ramos que foram quebrados da árvore do povo de Deus, sendo em seu lugar enxertados os cristãos. Mas vem sempre a advertência para que estes não se ensoberbeçam com isto, pois se Deus não perdoou aos ramos naturais, também os enxertados devem temer que Deus não lhes perdoe (Romanos XI- 18 a 21). Se o cristão não permanece na bondade, também será cortado (Romanos XI-22). E o próprio Deus tem poder para enxertar de novo os judeus na sua própria árvore (Romanos XI-23 e 24).

   Não há motivo, portanto, para que o cristão se ensoberbeça com a ideia de uma SEGURANÇA ABSOLUTA,  a qual de fato não existe, sendo a soberba, ao contrário, o caminho para cair na reprovação divina.

   E não precisamos mais repetir aqui aquelas advertências bem claras, que já expusemos há pouco, de que os que fazem tais e tais coisas NÃO POSSUIRÃO O REINO DE DEUS (1ª Corintios VI-9 e 10; Gálatas V-19 a 21).

   Diante disto, qual é o papel da Verdadeira Igreja que quer realmente ensinar o doutrina de São Paulo, que é exatamente a mesma doutrina de Jesus?

   É exortar aos seus fiéis para que SE LIBERTEM DO PECADO, de todo o pecado. Ouvindo a sua exortação, os fiéis, uma vez que gozam do livre arbítrio (e uns cooperam com a graça, e outros não) ou se libertarão do pecado, com o auxílio da graça de Deus ou continuarão a ele escravizados, por sua própria culpa.

   Os que se libertarem realmente do pecado serão filhos e herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo. E A ESTES naturalmente o Espírito Santo lhes infundirá paz e tranquilidade, juntamente com o testemunho da boa consciência. Não é necessária, para isto, nenhuma insinuação da nossa parte. Se, por acaso, alguém que procede irrepreensivelmente, que cumpre exatamente o seu dever, que segue sempre os ditames da própria consciência, que tem de seus pecados passados um arrependimento SINCERO, ainda se mostra receoso e cheio de temor, é o caso de lhe dizermos que expulse tais temores infundados, e que o próprio Espírito Santo se encarregará de lhe atestar que é realmente um filho de Deus.

   Mas os que continuarem presos aos seus vícios, aos seus pecados, sem a necessária emenda, sem o arrependimento, estes enquanto permanecerem assim, não são filhos de Deus neste sentido especial em que São Paulo toma aí esta expressão, no de herdeiros do Céu; e portanto o Espírito Santo não lhes poderá atestar isto, pois seria um mentira, e o Espírito Santo não mente. Realmente o mesmo Divino Mestre que nos diz: Todo o que comete pecado é escravo do pecado (João VIII-34) nos diz também: Ninguém pode servir a dois senhores (Mateus VI-24).

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 20 )

   97. O TESTEMUNHO DO ESPÍRITO SANTO (a).  

  Um exemplo manifesto do perigo desta inversão, nós o temos no modo como encaram muitos protestantes uma frase de São Paulo na sua Epístola aos Romanos (VIII-16).

  Os Romanos, a quem escreve São Paulo, estão abatidos pelos sofrimentos com que se têm defrontado após a sua conversão. Na sua inexperiência, ficam desanimados com a ideia de que talvez Deus não esteja satisfeito com eles, uma vez que lhes aparecem estas tribulações e contratempos.

  São Paulo procura soerguer-lhes o ânimo, fazendo-lhes ver que, se sofremos com Cristo, é para sermos glorificados com Ele; o sofrer é antes um sinal de que somos filhos de Deus; e o próprio Espírito Santo se encarrega de nos atestar que somos filhos de Deus (QUANDO DE FATO O SOMOS, É CLARO); e estes sofrimentos daqui da terra não são nada em comparação com a glória que Deus reserva para nós: O mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também herdeiros; herdeiros verdadeiramente de Deus e co-herdeiros de Cristo, SE É QUE TODAVIA NÓS PADECEMOS COM ELE, PARA QUE SEJAMOS TAMBÉM COM ELE GLORIFICADOS. Porque eu tenho para mim que as penalidades da presente vida não têm proporção alguma com a glória vindoura que se manifestará em nós (Romanos VIII-16 a 18). 

  O texto grego traz SYMMARTYRÉI = COATESTA. O Espírito Santo COATESTA, isto é, atesta juntamente com o nosso espírito, confirma o que o nosso próprio entendimento ou o testemunho da boa consciência já nos vem atestando. 

  Tudo isto, porém, todo este testemunho do Espírito Santo supõe que os destinatários da carta estejam LIBERTOS DO PECADO, o que não é o mesmo que dizer IMPECÁVEIS, mas sim regenerados depois de uma conversão sincera: Libertados do pecado, haveis sido feitos servos da justiça (Romanos VI-18). Estais livres do pecado e... haveis sido feitos servos de Deus (Romanos VI-22). 

  Dizendo LIBERTOS DO PECADO, o Apóstolo não os está considerando impecáveis. Isto se vê pela insistência do mesmo em aconselhá-los a que continuem livrando-se do pecado, pois do contrário estão perdidos: Se vós viverdes segundo a carne, MORREREIS, mas se vós pelo espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis (Romanos VIII-13). Não há dúvida que se trata aí de morte eterna, pois morrer, todos morrem de qualquer maneira. Permaneceremos no pecado, para que abunde a graça? Deus nos livre; porque uma vez que ficamos mortos ao pecado, como viveremos ainda nele? (Romanos VI-1 e 2). Não reine, pois o pecado no vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais aos seus apetites. Nem tão pouco ofereçais os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade, mas oferecei-vos a Deus como ressuscitados dos mortos, e os vossos membros a Deus como instrumentos de justiça; porque o pecado vos não dominará, pois já não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Pois quê? pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? Deus tal não permita (Romanos VI_12 a 15). O pecado não vos dominará - é a confiança de São Paulo de que os fiéis saberão corresponder à graça abundante que lhes vem na Nova Lei. Mas Deus tal não permita - exprime sempre o receio de que os cristãos queiram entregar-se voluntariamente ao pecado. 
    

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 19 )

   97. OUTRA ILUSÃO PROTESTANTE (b).

      O matuto, movido por aquela fé viva e inabalável que caracteriza o camponês, se arrepende profundamente de seus pecados; faz o firme propósito de jamais cometê-los, ajudado pela graça divina e com aquela força de vontade com que tantas vezes os homens do campo superam os da cidade. Confessa humildemente os seus pecados ao sacerdote no Sacramento da Penitência, e quantas vezes não andou a pé léguas e léguas para fazer esta confissão! Depois recebe a sua comunhão com viva fé e santo recolhimento. Mas se lhe perguntarmos: Sua confissão foi bem feita?, ele responderá: Para mim, foi; para Deus, eu não sei. Na sua simplicidade, inspirado por Deus que revela aos pequeninos o que oculta aos sábios e prudentes, demonstra, sem saber disto, um mesmo sentimento de humildade, de desconfiança de si próprio, que demonstrou o Apóstolo São Paulo. Se todo cristão para se salvar, para estar bem com Deus, deve ter forçosamente a certeza de que está em graça, ninguém deveria tê-la melhor do que São Paulo. Entretanto São Paulo fala assim: Nem ainda eu me julgo a mim mesmo; porque DE NADA ME ARGUI A CONSCIÊNCIA; mas NEM POR ISSO ME DOU POR JUSTIFICADO; pois o Senhor é quem me julga. Pelo que, não julgueis antes de tempo, até que venha o Senhor, o qual não só porá às claras o que se acha escondido nas mais profundas trevas, mas descobrirá ainda o que há de mais secreto nos corações; e então cada um receberá de Deus o louvor (1ª Coríntios IV-3 a 5).

   Pelas palavras do Apóstolo se vê que o importante é servir a Deus, fazer o bem, conservar a fé e a boa consciência. Quanto ao julgamento, pertence a Deus. E enquanto nós estamos sujeitos a enganos ao julgarmos a nós mesmos (pois ninguém é juiz em causa própria) Deus é quem conhece, como diz o Apóstolo: o que há de mais secreto nos corações. Ele penetra as mais íntimas profundezas das nossas almas, infinitamente melhor do que nós mesmos. E os seus julgamentos são diversos dos nossos: Senhor... os teus juízos são um abismo profundo (Salmos XXXV-6 e 7). ´O profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! (Romanos XI-33).

   Não devemos, portanto, inverter a ordem das coisas, nem querer precipitar os acontecimentos. Tenhamos a preocupação de servir a Deus, com a maior perfeição que for possível; o testemunho da boa consciência virá naturalmente depois. Não é o fato de nos julgarmos bem com Deus que fará com que realmente o estejamos; ao contrário, é do fato de estarmos realmente bem com Deus, que nascerá a doce tranquilidade da consciência, a suave sensação de que Deus habita em nós. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 18 )

   96. OUTRA ILUSÃO PROTESTANTE (a).

   Outra ilusão protestante é julgar que, para estarmos na graça de Deus, é preciso primeiro que disto estejamos convencidos. Já o próprio Leibnitz, filósofo protestante, chamava a atenção para o contra-senso em que os reformados caem neste ponto: "Se crer-se justificado se requer para a justificação e consequentemente precede a justificação, neste caso deve crer-se justificado quem não está justificado ainda; deve, portanto, crer uma coisa falsa" (Sistema Teológico, Mogúncia; 2ª edição, Pág.. 62). 

   Nós valemos diante de Deus o que valemos realmente; não o que pensamos que valemos. Não é o fato de me julgar justo que me torna justo, nem o fato de me ter na conta de um pecador que me faz mais pecador do que sou realmente. 

   Não foi enchendo-se da convicção de que estava salvo, que o publicano da parábola (Lucas XVIII-10 a 14) conseguiu a purificação de sua alma. mas apenas humilhando-se e tendo-se na conta de um desprezível pecador; e não consta do Evangelho que ele tivesse a certeza, nem ao menos a mínima ideia, de que estava em graça de Deus naquela hora. Se havia certeza, era no outro, no fariseu que voltou para casa ainda mais pecador do que dantes. 

   - Mas a certeza que ele tinha era diferente da nossa, porque era baseada nas obras, dirão os protestantes. 

   - Perfeitamente de acordo. A dele era certeza baseada nas obras que praticava sem ter a virtude interior, mas sim com verdadeiro espírito de ostentação. Mas ou certeza por causa das obras feitas com orgulho e presunção, ou certeza porque alguém não se julga obrigado às obras para salvar-se, o que é fato é que a parábola mostra que a gente pode facilmente enganar-se nesta matéria.

   E o que lemos no Evangelho é que muitos que creem firmemente em Jesus Cristo, que chegam mesmo a profetizar e a fazer prodígios em seu nome e que por isto estão certos, certíssimos da salvação, sofrerão uma decepção tremenda no dia das contas, serão rejeitados por causa de suas OBRAS que não agradaram a Deus: Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não é assim que profetizamos em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, em teu nome obramos muitos prodígios? E eu então lhes direi em voz bem inteligível: Pois eu não vos conheci; apartai-vos de mim, os que obrais a iniquidade (Mateus VII-22 e 23). 

   Suponhamos que um homem tem dois criados: ambos o servem com boa vontade; mas um está sempre cheio de si, convencido de que o patrão está bem satisfeito com ele e de que receberá com toda a certeza a recompensa prometida pelo amo aos servos que façam bem o seu trabalho; o outro está sempre desconfiado, sempre temeroso de que o patrão tenha alguma coisa a reclamar sobre o seu serviço. ou de que talvez não mereça a recompensa almejada. Isto faz com que este último valha menos perante o patrão ou perca o seu direito à recompensa? Ao contrário, com este receio sobre o valor do seu trabalho, está mais apto a caprichar, a fazer tudo com perfeição do que o outro que está convencido de que tudo quanto faz é uma maravilha que agrada imensamente ao seu patrão. Isto se dá com maioria de razão na vida espiritual, onde a humildade é a virtude mais apta para conquistar as graças de Deus.

   Perguntaram um dia a uma santa se ela estava na graça de Deus. Ela respondeu o seguinte: "Se eu estou na graça de Deus, que Deus me conserve neste estado; se não estou, que Deus me ponha nele". Deixou, por acaso, de ser o que realmente era diante de Deus por ter falado desta maneira? 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 17 )

   95. OS QUE SE SALVAM, ISTO É, NÓS.

   Dirão os protestantes: Nós temos um texto mais claro. Paulo diz aos Coríntios: A palavra da cruz é na verdade uma estultícia para os que se perdem; mas para OS QUE SE SALVAM QUE SOMOS NÓS, é ela a virtude de Deus (1ª Coríntios I-18). Logo, os que se salvam somos nós, os que seguimos a Cristo. Não há perigo de nos perdermos.

   - Uma coisa é dizer: Os que se salvam SOMOS NÓS. E outra coisa é dizer: SALVAM-SE TODOS E CADA UM DE NÓS.

   É muito comum o sacerdote católico dizer, no fim de seus sermões, mais ou menos isto: "E nós, quando estivermos no reino da glória, meus caros irmãos, gozaremos eternamente de toda felicidade no seio de Deus etc, etc". Ninguém vai concluir que, faça o que fizer, estará neste caso; o padre está falando daquilo que acontece normalmente, se se cumpre aquilo que é necessário cumprir-se.

   Uma cidade é invadida pelos inimigos da pátria. Na sua resistência ao invasor, a maioria se porta bravamente, mas neste meio há também alguns cobardes que fogem ou alguns traidores que favorecem ao inimigo. Vencida a batalha, isto não impede que os habitantes desta cidade digam com toda segurança; Nós resistimos heroicamente e vencemos o adversário. Porque dizer NÓS é uma coisa; e dizer TODOS E CADA UM DE NÓS já é coisa bem diferente.

   A Bíblia não nos diz tudo o que se passava entre os primeiros cristãos.  Mas pelo que ela nos diz, nós sabemos que os cristãos EM GERAL estavam no caminho da salvação; e que o mesmo já não se pode dizer de todos, sem exceção. Os Atos nos mostram São Paulo despedindo-se dos presbíteros, que são seguidores de Cristo de especial categoria, encarregados de apascentar  a Igreja de Deus; recomenda-lhes que vigiem sobre o rebanho cristão (Atendei por vós e por todo o rebanho - Atos XX-28), avisa que surgirão lobos arrebatadores que não hão de perdoar o rebanho (Atos XX-29) e faz então uma revelação surpreendente: do seio destes mesmos presbíteros, encarregados de vigiar sobre as ovelhas, hão de sair também lobos vorazes: DENTRE VÓS MESMOS hão de sair homens que hão de publicar DOUTRINAS PERVERSAS,  com o intento de levarem após si muitos discípulos (Atos XX-30). Será que os protestantes irão colocar no número daqueles que têm a salvação infalivelmente certa estes presbíteros que mais tarde haveriam de bromar, ensinando DOUTRINAS PERVERSAS?

   São Paulo fala aos Coríntios dizendo: Temo que talvez, quando eu vier, vos não ache quais eu vos quero e que vós me acheis qual não quereis; que por desgraça não haja entre vós contendas, invejas, rixas, dissensões, detrações, mexericos, altivezas, parcialidades; para que não suceda que, quando eu vier outra vez, me humilhe Deus entre vós e que chore a muitos daqueles que ANTES PECARAM E NÃO FIZERAM PENITÊNCIA DA IMUNDÍCIA E FORNICAÇÃO E DESONESTIDADES QUE COMETERAM (2ª Coríntios XII- 20 e 21). 

   Os protestantes de hoje afirmam que para a salvação é necessário o arrependimento. Estes cristãos que haviam caído na IMUNDÍCIA E FORNICAÇÃO E DESONESTIDADE (2ª Coríntios XII-21) e que, como diz São Paulo, não se arrependeram de tais pecados, morrendo nesse estado, podiam salvar-se? Se podiam, então esta salvação "definitiva" daqueles que aceitam a Cristo como Salvador, vem a ser uma licença para todas as desonestidades e imundícias. 

   Vejamos agora o que São Paulo diz aos cristãos na sua Epístola aos Hebreus: Vede, irmãos, que se não ache talvez nalgum de vós um CORAÇÃO CORROMPIDO DA INCREDULIDADE QUE SE APARTE do Deus vivo, mas admoestai-vos vós mesmos uns aos outros CADA DIA, durante o tempo que a Escritura chama Hoje, por não acontecer que ALGUM DE VÓS, SEDUZIDO PELO PECADO, SE ENDUREÇA; porque é verdade que nós somos incorporados com Cristo; mas ISTO É DEBAIXO DA CONDIÇÃO  que nós conservemos ATÉ AO FIM o novo ser que começamos a ter n'Ele (Hebreus III-12 a 14).

   Não podia haver condenação mais clara desta doutrina de que o cristão tem certeza infalível, absoluta de sua salvação; esta certeza é condicionada a sua união com Cristo, porque mesmo um seguidor do Divino Mestre pode por um coração corrompido apartar-se de Deus Vivo e cair no endurecimento, seduzido pelo pecado; e este estado é evidentemente incompatível com a salvação eterna. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 16 )

   93. O PODER SALVADOR DE CRISTO.

   Vejamos agora outro trecho de São Paulo, na sua Epístola aos Hebreus:

   Depois de dizer que Jesus porque permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno (Hebreus VII-24), diz São Paulo que por isto pode SALVAR PERPETUAMENTE aos que por Ele mesmo se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por nós (Hebreus VII-25). Daí concluem muitos protestantes que já possuem uma SALVAÇÃO PERPÉTUA que é dada por Jesus. 

   Primeiro que tudo, o Autor da Epístola não diz que Jesus SALVA infalivelmente a todos os crentes, mas que PODE SALVAR os que por Ele mesmo se chegam a Deus. Quer ressaltar aí o poder salvador do Eterno Sacerdote Jesus Cristo que PERPETUAMENTE, isto é, até o fim do mundo, até a consumação dos séculos, através de todas as gerações, exerce a sua missão redentora. O fito de São Paulo é estabelecer o contraste entre os sacerdotes da Antiga Lei que morriam e depois de mortos, não podiam exercer a sua missão (a morte não permitia que durassem - Hebreus VII-23); e Jesus Cristo que não morre e por isto exerce eternamente a sua missão de Sacerdote e Mediador.

   Mas desta palavra de São Paulo não se segue que Cristo nos salve sem a cooperação da nossa parte, ao contrário supõe o Apóstolo esta cooperação, pois Cristo pode salvar perpetuamente AOS QUE POR ELE MESMO SE CHEGAM A DEUS (Hebreus VII-25). E esta cooperação, segundo o ensino desta mesma Epístola aos Hebreus, não consiste somente na fé, mas também na OBEDIÊNCIA a Cristo que é o AUTOR da salvação eterna para TODOS OS QUE LHE OBEDECEM (Hebreus V-9).

   Nem quer dizer absolutamente que Cristo dê a salvação àqueles que se chegaram a Deus, que se converteram e depois voluntariamente se afastaram d'Ele e voltaram aos pecados de outrora, àqueles que no começo obedeciam a Cristo e hoje já Lhe não obedecem mais.


   94. CRESCIA O NÚMERO DOS QUE SE SALVAM.

   Vêem ainda muitos protestantes uma certeza absoluta de sua salvação pessoal, nesta palavra dos Atos, em que se fala do crescimento da Igreja: E o Senhor aumentava cada dia mais o número dos QUE SE HAVIAM DE SALVAR, encaminhando-os à unidade da sua mesma corporação (Atos II-47).

   É claro que, estando o mundo todo mergulhado no pecado, como estava, quando veio Jesus, estando o próprio povo judeu tão corrompido, se aumentava o número daqueles que com tanta sinceridade e fervor abraçavam a religião de Cristo, aumentava também necessariamente o número dos eleitos, o número daqueles que iriam povoar o Céu. Ninguém podia afirmar isto com mais segurança do que o Divino Espírito Santo, inspirador e principal autor da Bíblia e que sonda os segredos de todos os corações.

   Mas segue-se daí que aqueles que entrassem na Religião Cristã e não perseverassem no bem ou se tornassem depois traidores da sua fé, se salvariam também?

sábado, 14 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 15 )

   92. SEI EM QUEM TENHO CRIDO.

   É próprio da Humanidade interpretar as palavras que ouve sempre de acordo com os seus próprios sonhos ou com o seu particular interesse. Por isto, tendo-se encasquetado no cérebro de muitos protestantes a ideia de que não podem mais perder-se de maneira alguma, alimentando eles continuamente esta sonho de uma segurança absoluta aqui na terra, em matéria de salvação, vivem querendo firmar-se, para sustentar esta teoria tão estranha, em textos do Novo Testamento que nada têm que ver com o caso.

   Tomemos, por exemplo, esta palavra de São Paulo a Timóteo: Sei a quem tenho crido e estou certo de que Ele é poderoso para guardar o meu depósito para aquele dia (2ª Timóteo I-12).

   Consideram tais protestantes estas palavras como um hino em que São Paulo canta e em que todo cristão deve cantar também a sua CERTEZA ABSOLUTA DA SALVAÇÃO. Mas é preciso perguntar: É deste assunto que está falando São Paulo? Que quer dizer o Apóstolo, quando assevera a sua confiança de que Cristo conservará o seu depósito? Que significa neste caso a palavra DEPÓSITO (no grego PARATHÉKE)? Esta palavra aparece mais duas vezes no Novo Testamento, sempre empregada por São Paulo e sempre nas suas epístolas a Timóteo. Uma delas é logo dois versículos mais adiante. São Paulo diz ao seu discípulo: Guarda o bom DEPÓSITO pelo Espírito Santo que habita em nós outros (2ª Timóteo I-14). E a outra, ao terminar a 1ª Epístola ao mesmo discípulo: Ó Timóteo, guarda o DEPÓSITO, evitando as profanas novidades de palavras e as contradições duma ciência de falso nome, da qual fazendo alguns profissão, descaíram da fé (1ª Timóteo VI-20 e 21).

   Vê-se aí claramente nesta última citação que o que São Paulo chama DEPÓSITO  é a doutrina de Cristo, a doutrina do Evangelho que ele, Paulo, juntamente com os demais Apóstolos DEPOSITARAM no mundo, aos cuidados da Igreja docente que tem de conservá-la fielmente e, portanto, aos cuidados do próprio Timóteo, que é também um insigne pregador da Igreja e deste mesmo Evangelho.

   Este mesmo sentido, DEPÓSITO = DOUTRINA DO EVANGELHO cabe perfeitamente naquelas duas outras frases em que esta palavra se encontra, como se vê evidentemente pelo contexto. Paulo está preso (2ª Timóteo I-8) por causo do Evangelho, no qual, diz ele, eu fui constituído pregador e apóstolo e mestre das gentes (2ª Timóteo I-11). Sofrendo perseguições por causa do Evangelho, São Paulo não se envergonha por isto, nem se considera derrotado, porque sabe que Cristo é Todo-Poderoso e pode conservar no mundo perpetuamente o depósito dele, Paulo, isto é, a doutrina sublime do Evangelho que ele ensinou. Por cuja causa também padeço isto, mas não me envergonho; porque sei a quem tenho crido e que Ele é poderoso para guardar o meu DEPÓSITO  para aquele dia (2ª Timóteo I-12). É com este pensamento de que Cristo vela pela conservação da doutrina do Evangelho, que São Paulo exorta a Timóteo a continuar fiel em conservar esta doutrina, este bom DEPÓSITO, com o auxílio do Divino Espírito pois diz LOGO EM SEGUIDA: Guarda a forma das sãs palavras que me tens ouvido na fé e no amor em Jesus Cristo. Guarda o BOM DEPÓSITO pelo Espírito Santo que habita em nós outros (2ª Timóteo I-13 e 14).

   Como é que podem ver aí os protestantes um argumento de que hão de salvar-se, dê no que der, e com infalível certeza?

sábado, 7 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 14 )

   91. QUALQUER PESSOA PODE PERDER-SE (c).

   É o que nos ensina também São Pedro: E se invocais como Pai Aquele que sem acepção de pessoas julga segundo a obra de cada um, vivei EM TEMOR durante o tempo da vossa peregrinação (1ª Pedro I-17). É um temor baseado na consideração do julgamento de Deus, que é Pai, mas é também Juiz Justíssimo, sem fazer acepção de pessoas. Porque, segundo a doutrina de São Pedro, é deplorável o estado daqueles que tendo seguido o bom caminho, dele se desviaram: Se depois de se terem retirado das corrupções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador, se deixam delas vencer, enredando-se de novo, é o seu último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes era não ter conhecido o caminho da justiça do que, depois de o ter conhecido, tornar para trás, deixando aquele mandamento santo que lhes fora dado. Porque lhes sucedeu o que diz aquele verdadeiro provérbio: Voltou o cão ao que havia vomitado; e: A porca lavada tornou a revolver-se na lamaçal (2ª Pedro II-20 a 22). Por isso São Pedro aconselha a mortificação e a contínua vigilância: Sede sóbrios e vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda ao derredor de vós, como um leão que ruge, buscando a quem possa devorar (1ª Pedro V-8).

   Esta doutrina dos Apóstolos de que aquele que está no bom caminho pode perder-se, desviando-se dele, é confirmada ainda pelo ensino do Antigo Testamento e pelas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

   Ouçamos o que diz o profeta Ezequiel: Se o justo se apartar da sua justiça e vier a cometer a iniquidade, segundo todas as abominações que o ímpio costuma obrar, acaso viverá ele? De nenhuma das obras de justiça que tiver feito se fará memória: na prevaricação com que prevaricou e no seu pecado que cometeu, nestas mesmas circunstâncias morrerá (Ezequiel XVIII-24). 

   E Nosso Senhor Jesus Cristo diz aos Apóstolos: Vós já estais puros em virtude da palavra que eu vos disse. Permanecei em mim e eu permanecerei em vós (João XV-3 e 4) para dizer, dois versículos mais adiante: Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora como a vara, e secará, e enfeixá-lo-ão e lançá-lo-ão no fogo, e ali arderá (João XV-6). 

   De tudo isto se conclui que, se a Bíblia usa algumas vezes esta expressão - estarmos salvos - isto quer dizer: estarmos no caminho da salvação (e estão no caminho da salvação aqueles que possuem a graça santificante pela VERDADEIRA FÉ e pela OBSERVÂNCIA DOS MANDAMENTOS DE JESUS), mas daí não se segue que seja a salvação definitiva, sem perigo algum de perder-se. Também do doente que, depois de encontrar-se em estado grave, conseguiu a cura, se diz que ESTÁ SALVO,  e no entanto ele ainda pode recair na sua enfermidade mortal.  

   Salvação definitiva para o fiel, de tal forma que ele não possa jamais perder-se, virá na hora da morte, se ele perseverar até o fim: O que, porém, perseverar até o fim, esse é que será salvo (Mateus X-22).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO ( 13 )

   91. QUALQUER PESSOA PODE PERDER-SE (b).

   Assim como se pode perder a salvação, perdendo-se a fé, pode-se perder também pelos pecados que são contrários às demais virtudes.

   Lê-se na Epístola aos Hebreus: É impossível que os que foram uma vez iluminados, que tomaram já o gosto ao dom celestial e que foram feitos participantes do Espírito Santo, que gostaram igualmente a boa palavra de Deus e as virtudes do século vindouro, E DEPOIS DISTO CAÍRAM, é impossível, digo, que eles tornem a ser renovados pela penitência, pois crucificaram de novo ao Filho de Deus em si mesmos e O expõem ao ludíbrio (Hebreus VI-4 a 6). Trata-se aí de apóstatas que tinham recebido graças especialíssimas, como por exemplo, um sacerdote; trata-se de uma impossibilidade moral e não absoluta; o que é moralmente impossível pode realizar-se por um milagre e a graça de Deus também faz os seus milagres. Mas as palavras do Apóstolo mostram muito bem que nem mesmo aqueles que já foram iluminados, que já foram feitos participantes do Espírito Santo estão livres de cair, e caindo de tão alto, não se lhes torna nada fácil levantar-se.

   É por isto que o próprio São Paulo que se confessa atormentado na sua carne - permitiu Deus que eu sentisse na minha carne um estímulo, que é o anjo de Satanás para me esbofetear (2ª Coríntios XII-7) - fala nas mortificações e penitências que faz no seu próprio corpo para não cair no número dos réprobos : Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que não suceda que, havendo pregado aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado (1ª Coríntios IX-27). O perigo que ele vê para si, também o vê nos fiéis: Aquele, pois, que crê estar em pé veja não caia (1ª Coríntios X-12). Nesta palavra de São Paulo deveriam meditar muito seriamente os protestantes que julgam estar em pé e que com tanta presunção e arrogância garantem que infalivelmente, certissimamente serão levados para o Céu, no próprio momento da morte. Falando sobre a rejeição dos judeus, diz São Paulo ao cristão que está FIRME NA FÉ, ao cristão leal e fervoroso: TU PELA FÉ ESTÁS FIRME; pois, não te ensoberbeças por isso, mas TEME; porque, se Deus não perdoou aos ramos naturais, deves tu temer que Ele te não perdoe a ti. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: a severidade, por certo, para com aqueles que caíram, e a bondade de Deus para contigo, SE PERMANECERES NA BONDADE; DOUTRA MANEIRA também tu SERÁS CORTADO (Romanos XI-20 a 22). E em vez de procurar incutir uma ilusória segurança, aconselha o temor: Olhai a vossa salvação COM RECEIO e COM TREMOR (Filipenses II-12).

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 12 )

   91.  QUALQUER PESSOA PODE PERDER-SE (a).

   Vimos, portanto, que a Bíblia fala na salvação e na vida eterna como um bem que já se adquiriu ou que ainda se vai possuir. Resta-nos saber que este bem que já foi adquirido pode ou não pode perder-se, se o indivíduo que aqui na terra foi salvo pode depois perder esta salvação. É uma salvação definitiva, que se realiza infalivelmente, ou é uma salvação que se vai realizando debaixo de uma condição: a de manter-se o homem neste bom caminho? Pode o homem decair deste estado de graça, que a Escritura chama VIDA ETERNA?

   Ora, ao contrário do que ensinou Calvino, a Bíblia nos mostra que se pode perder a fé. Se a fé é necessária para a salvação, segue-se que a salvação adquirida nesta vida pode perder-se.

   Vejamos. Nosso Senhor, na parábola do Semeador, explicando qual é a semente que cai no pedregulho, diz: Quanto à que cai em pedregulho, significa os que recebem com gosto a palavra, quando a ouviram; e estes não têm raízes, porque até certo tempo CREEM  e no tempo da tentação VOLTAM ATRÁS (Lucas VIII, 13). São Paulo fala em alguns que perderam a fé, porque não souberam conservar a boa consciência, ou porque se deixaram levar pela avareza: Conservando a fé e a boa consciência, a qual porque alguns repeliram, NAUFRAGARAM NA FÉ; deste número é Himeneu e Alexandre, os quais eu entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar (1ª Timóteo I-19 e 20). A raiz de todos os males é a avareza, a qual cobiçando alguns SE DESENCAMINHARAM DA FÉ (1ª Timóteo VI-10). No fim da mesma Epístola, São Paulo fala de alguns que também descaíram da fé (1ª Timóteo VI-21) já por outro motivo: enredaram-se com as profanas novidades de palavras e uma ciência da falso nome (VI-20).

   Na 2ª Epístola aos Coríntios, o Apóstolo fala na fé pela qual Deus resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo (2ª Coríntios IV-6) mas, logo após, acrescenta: Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a sublimidade seja da virtude de Deus, e não de nós (2ª Coríntios IV-7). O que mostra muito bem que facilmente podemos perder a fé, porque vasos de barro se podem quebrar com facilidade.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 11 )

   90. OVELHAS QUE NÃO PERECERÃO.

   Vejamos agora um trecho do Evangelho de São João muito citado pelos protestantes. Diz Jesus: As minhas ovelhas OUVEM A MINHA VOZ, e conheço-as e elas ME SEGUEM; e eu lhes dou a VIDA ETERNA, e elas nunca jamais hão de perecer, e ninguém as há de arrebatar da minha mão (João X-27 e 28). 

   Em que sentido aí se toma a expressão VIDA ETERNA?
   Pode-se tomar num sentido e noutro sentido. Às suas ovelhas fiéis, Jesus dá neste mundo a VIDA ETERNA, ou seja, a vida sobrenatural da graça e no outro a VIDA ETERNA, ou seja, a glória celeste, a visão beatífica. 

   - Mas o Mestre diz que elas NÃO PERECERÃO JAMAIS.
   - É claro, pois o Mestre se refere a ovelhas que OUVEM A SUA VOZ e que O SEGUEM. Como podem perecer as ovelhas que estão ouvindo a voz do seu Divino Pastor, que O estão seguindo? Se um dia entenderem de não ouvir mais esta voz que lhes fala ao coração, primeiro que tudo, pela voz da consciência, se um dia resolverem não seguir mais a Jesus, observando a sua lei, cumprindo os seus mandamentos, então a coisa já muda de figura. Quer dizer que a ovelha de Jesus tem que ser impecável? Não. A ovelha que costuma ouvir fielmente a voz de seu Pastor ainda mesmo quando por fraqueza comete um pecado grave, atende logo à voz de Jesus que procura atraí-la com o remorso, com as inspirações de sua graça, com o sincero arrependimento. É o caso da ovelha desgarrada, que o Bom Pastor vai buscar e traz docemente sobre os seus ombros; não traz, porém, a pulso e violentamente, mas sim quando ela, atraída pela graça, se entrega espontaneamente em seus braços. Se, porém, extraviando-se no pecado, a ovelha persiste em emaranhar-se no vício e em não atender às inspirações da graça, neste caso pode perecer. Mas já não está no número daquelas que SEGUEM A JESUS CRISTO E OUVEM A SUA VOZ.

   - Mas Jesus diz que ninguém arrebatará estas ovelhas de sua mão.
   - E quem foi que disse que, quando a ovelha voluntariamente abandona o rebanho e se afasta de Jesus pelo pecado, foi arrebatada violentamente das mãos de Jesus? Afastou-se porque quis, pois um ato, para ser pecaminoso, precisa ser voluntário e livre. Quando Jesus diz que ninguém arrebatará as ovelhas de sua mão, se refere às forças estranhas, às potestades infernais, ao torvelinho do mundo, aos inimigos de nossa salvação. As almas fiéis estão sob o abrigo da divina graça. Mas esta graça não força nem violenta a liberdade. A alma serve a Deus livremente e assim, pode abandoná-Lo. 

   Um tipo de OVELHAS muito especialmente confiadas à proteção, ao amparo, à vigilância de Jesus foram os Apóstolos. Entretanto, o Mestre, apesar de todo o seu empenho, não pôde CONSERVÁ-LOS todos; um se perdeu. Por que? Porque faltasse poder a Jesus? Não; mas porque Jesus respeitava a liberdade de cada um. O Divino Mestre, na sua oração sacerdotal proferida depois da Última Ceia, diz, dirigindo-se ao seu Eterno Pai e falando a respeito dos Apóstolos: Eu conservei os que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, mas somente o que era filho de perdição, para se cumprir a Escritura (João XVII-12).

   - Ah!, dirá o adversário, mas Judas se perdeu para se cumprir a profecia; O homem da minha paz, em que eu confiei, o que comia o meu pão, engrandeceu sobre mim a sua traição (Salmo XL-10). 
   - Mas que ideia faz Você, caro amigo, a respeito da palavra da Escritura, que á a própria palavra de Deus? Acha que a Escritura profetiza assim de oitiva, e depois se há de arranjar um pobre diabo para cumprir de qualquer maneira a palavra sagrada? A Escritura prediz aquilo que Deus prevê na SUA CIÊNCIA INFINITA; e Deus prevê tudo, mesmo aquilo que cada um dos homens vai fazer LIVREMENTE. Judas perdeu-se, porque não correspondeu à graça, porque usou mal de sua liberdade, porque não quis ser daquelas ovelhas que; até o fim, seguem a Jesus e ouvem a sua voz. E isto aconteceu a despeito de todo o empenho de Jesus em salvá-lo, porque Deus não quer a morte do ímpio, mas sim que o ímpio se converta do seu caminho e viva (Ezequiel XXXIII-11). 

   O homem só pode salvar-se livremente, e é livremente que se perde. Dizer o contrário seria destruir toda a noção da bondade, da justiça e da sabedoria de Deus. 

   Isto, porém, não impede que Deus, daquilo que os homens fazem livremente, se aproveite para realização de seus grandes desígnios; e assim a traição de Judas e o deicídio dos judeus foram meios de que Deus se serviu para operar a nossa Redenção. [Seria uma grande blasfêmia dizer que a perdição de Judas foi uma "armação"].

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 10 )

   89 . DUPLO CONCEITO DE VIDA ETERNA (c).

   Que esta vida eterna que já possuímos aqui na terra pela graça santificante, é incompatível com o pecado grave e se perde, se o cometemos, isto se mostra claramente na Bíblia: Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia; depois a concupiscência quando conceber, dá à luz o pecado; o pecado, quando tiver sido consumado, GERA A MORTE (Tiago I-14 e 15). A alma que pecar, essa MORRERÁ (Ezequiel XVIII-4 e 20). Todo que tem ódio a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a VIDA ETERNA permanente em si mesmo (1ª João III-15). Aquele que comete o pecado é filho do diabo, porque o diabo peca desde o princípio... Nisto se conhece quais são os filhos de Deus e os filhos do diabo. Todo o que não é justo não é filho de Deus, (e também não o é)  o que não ama a seu irmão; porque esta é a doutrina que tendes ouvido desde o princípio, que vos ameis uns aos outros (1ª João III-8, 10 e 11). A que verdadeiramente é viúva e desamparada, espere em Deus e esteja perseverante em rogar e orar de noite e de dia; porque a que vive em deleites vivendo ESTÁ MORTA (1ª Timóteo V- e 6). Eu sei  AS TUAS OBRAS;  que tens a reputação de que vives e tu ESTÁS MORTO (Apocalipse III-1). Muitos dos judeus e prosélitos tementes a Deus seguiram a Paulo e a Barnabé, os quais com as suas razões os exortavam a que PERSEVERASSEM NA GRAÇA DE DEUS (Atos XIII-43).

   Vimos há pouco esta VIDA ETERNA, ou seja, a graça de Deus em nós, ser apresentada como anexa à fé em Cristo ou à recepção do seu corpo e sangue. 

   Não precisamos mais repetir o que já dissemos: que esta fé se entende a fé viva, que não é contradita pelas obras, a fé que tem aquele que guarda a palavra de Jesus e que esta recepção do corpo e do sangue do Senhor há de ser com a alma contrita e com as necessárias disposições, sob pena de se comer e beber a própria condenação, como diz São Paulo (1ª Coríntios XI-29). Queremos lembrar apenas, a respeito do ensino de Jesus, apresentado pelo Evangelista São João, de que a VIDA ETERNA consiste em CONHECERMOS A DEUS E A JESUS CRISTO (João XVII-3) esta palavra do mesmo São João Apóstolo a respeito do Divino Mestre: Nisto sabemos que O CONHECEMOS, SE GUARDAMOS OS SEUS MANDAMENTOS. Aquele que diz que O conhece e não guarda os seus mandamentos é um mentiroso e não há nele a verdade (1ª João II-3 e 4). Não pode, portanto, ter a VIDA ETERNA, ou seja, a graça santificante, aquele que não obedece aos mandamentos. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 9 )

   89. DUPLO CONCEITO DE VIDA ETERNA (b).

   Como a vida eterna do Céu vai ser a felicidade de uma íntima união com Deus e esta felicidade já se pode gozar aqui na terra pela VIDA DA GRAÇA, como pode entrar no Céu aquele que já daqui da terra leva em sua alma esta vida sobrenatural, a qual assim vai continuar no outro mundo e continuar muito mais esplendorosa e feliz, a Escritura, em outras passagens, já chama VIDA ETERNA  a vida sobrenatural da graça, que possuem neste mundo aqueles que estão unidos a Deus, por estarem com a consciência limpa de qualquer pecado grave: Quem ouve a minha palavra e crê n'Aquele que me enviou, TEM A VIDA ETERNA e não incorre na condenação, mas passou da morte para a vida (João V-24). O que come a minha carne e bebe o meu sangue TEM A VIDA ETERNA, e eu o ressuscitarei no último dia (João VI-55). Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho... tu Lhe deste poder sobre todos os homens, afim de que Ele dê a vida eterna a todos aqueles que tu Lhe deste. A VIDA ETERNA, porém, consiste em que eles conheçam por um só verdadeiro Deus a ti, e a Jesus Cristo, que tu enviaste (João XVII-1 a 3). A graça de Deus é a VIDA PERDURÁVEL em Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos VI-23). O que crê no Filho de Deus tem em si o testemunho de Deus... E este é o testemunho, que Deus nos deu a VIDA ETERNA, e esta vida está em seu Filho. O que tem ao Filho tem a vida; o que não tem ao Filho não tem a vida. Eu vos escrevo estas coisas, para que saibais que TENDES A VIDA ETERNA, os que credes no nome do Filho de Deus (1ª João V-10 a 13). 

   -  Aqui dirão os Protestantes: Se nós temos já neste mundo a VIDA ETERNA, quer dizer que não podemos perdê-la. Se é eterna, é porque vai durar eternamente.

     -  Não há dúvida que a vida da graça, a vida de que goza aquele que está em união com Cristo pela graça santificante é eterna, no sentido de que ela por si não se extingue. Vem a morte corporal, mas aquele que estava unido a Cristo continuará vivendo a sua vida de união com Deus. Porém esta vida é incompatível com o pecado grave; e aquele que o comete renuncia a este DOM ETERNO. É como se nos dessem um objeto de ouro ou um livro solidamente encadernado e nos dissessem que se trata de um presente QUE NÃO TEM FIM; de fato não terá fim, se nós mesmos não resolvermos destruí-lo ou metê-lo no fogo. 
   O que nos vale é que, pela misericórdia divina, se perdemos a vida eterna pelo pecado mortal, podemos readquiri-la , sendo para isto indispensável o arrependimento. 

Continua no próximo post.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 8 )

   89. DUPLO CONCEITO DE VIDA ETERNA (a).

   O que se dá com o verbo SALVAR, também se dá nas Escrituras com a expressão REINO DOS CÉUS,  que tanto pode designar o reino dos bem-aventurados lá no Céu, na glória da eternidade, como pode designar aqui na terra a Igreja, que prepara os homens para este reino.
   E o mesmo se dá também com a expressão VIDA ETERNA.
   Muitas vezes aparece VIDA ETERNA na Bíblia designando a glória do Céu, a vida sem fim que os justos gozarão após a morte: Ninguém há que, uma vez que deixou pelo reino de Deus a casa, ou os pais, ou os irmãos, ou a mulher, ou os filhos, logo neste mundo não receba muito mais, e NO SÉCULO FUTURO A VIDA ETERNA (Lucas XVIII-29 e 30). Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo... Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... E irão estes para o suplício eterno; e os justos para a VIDA ETERNA (Mateus XXV-34, 41 e 46). O que sega recebe galardão e ajunta fruto para a VIDA ETERNA (João IV-36). Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até à VIDA ETERNA (João VI-27). O que ama a sua vida perdê-la-á, e o que aborrece a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a VIDA ETERNA (João XII-25). Aquilo que semear o homem, isso também segará... e o que semeia no espírito, do espírito segará a VIDA ETERNA (Gálatas VI-8). Para a esperança da VIDA ETERNA (Tito I-2). 

   Às vezes por abreviação esta VIDA ETERNA, que consiste na glória celeste, é chamada simplesmente VIDA, porque em comparação com a nossa vida terrena ela, sim, é que é a verdeira vida: Todos os que se acham nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que obraram bem sairão para a ressurreição da VIDA (João V-28 e 29). Que estreita é a porta e que apertado o caminho que guia para a VIDA (Mateus III-14). Melhor te é entrar na VIDA com um só olho do que tendo dois, ser lançado no fogo do inferno (Mateus XVIII-9). Se tu queres entrar na VIDA, guarda os mandamentos (Mateus XIX-17). 

   

sábado, 17 de agosto de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 7 )

   88. O VERBO SALVAR EM TRÊS TEMPOS (b).

   2º: no presente: SOIS SALVOS.

   Na Primeira Epístola aos Coríntios, São Paulo diz o seguinte: Ponho-vos, pois, presente, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual também vós recebestes e nele ainda perseverais, pelo qual é certo que SOIS SALVOS, se todavia o conservais, como eu vo-lo preguei, salvo se em vão o crestes (1ª Coríntios XV- 1 e 2). São Paulo diz aos Coríntios que eles estão no caminho da salvação, estão salvos pelo Evangelho, se é que não creem em vão; e é claro que, se não obedecem ao que manda o Evangelho, é vã a sua crença e não se salvam. 

   Na Epístola aos Efésios, exatamente como fizera no trecho da Epístola ao Tito acima transcrito, São Paulo fala primeiramente nos graves pecados de que os cristãos eram culpados, antes de abraçarem o Cristianismo: Vivemos também todos nós em outro tempo segundo os desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos seus pensamentos e éramos por natureza filhos da ira, como também os outros  (Efésios II-3), para logo em seguida acrescentar: Mas Deus que é rico em misericórdia, pela sua extremada caridade, com que nos amou, ainda quando estávamos mortos pelos pecados, nos deu vida juntamente em Cristo, por cuja graça SOIS SALVOS (Efésios II-4 e 5). São Paulo, portanto, lhes diz: Estais salvos daquele estado de pecado e corrupção em que vos encontráveis, estais no caminho da salvação eterna e isto foi obra da graça que tocou o vosso coração. Mas segue-se daí que São Paulo os julgasse impecáveis, incapazes de voltar ao antigo estado? Segue-se daí que São Paulo esteja dizendo que todos os fiéis de Éfeso, a quem escreve, irão para o Céu com toda certeza ou que não pode perder-se nenhum deles por consideração alguma? Absolutamente não, porque o Apóstolo, nesta mesmíssima Epístola aos Efésios, sente a necessidade de fazer várias exortações PARA QUE NÃO VOLTEM À DEGENERESCÊNCIA DE OUTRORA, PORQUE ISTO OS LEVARIA À CONDENAÇÃO: Não andeis já como andam também os gentios na vaidade do seu sentido (Efésios IV-17). Renunciando a mentira, fale cada um a seu próximo a verdade, porque somos membros uns dos outros. Se vos irardes, seja sem pecar... Não deis lugar ao diabo.  Aquele que furtava não furte mais... Nenhuma palavra má saia da vossa boca (Efésios IV-25 a 29). Toda a amargura e ira e indignação e gritaria e blasfêmia, com toda a malícia, seja desterradas dentre vós outros (Efésios IV-31). A fornicação e toda a impureza ou avareza, nem sequer se nomeie entre vós outros, como convém aos santos, nem palavras torpes, nem loucas, nem chocarrices que são impertinentes, mas antes ações de graças porque HAVEIS DE SABER E ENTENDER QUE NENHUM FORNICÁRIO OU IMUNDO OU AVARO, o que é culto de ídolos, NÃO TEM HERANÇA NO REINO DE CRISTO E DE DEUS (Efésios V-3 a 5).
   É um estado de salvação em que se encontram os Efésios, mas um estado que PRECISA SER CONSERVADO por meio de um bom procedimento, para que cheguem a gozar da herança do reino de Cristo lá no Céu.

   3º no futuro: SEREMOS SALVOS.

   Às vezes a Bíblia apresenta a salvação não como uma coisa que já se adquiriu, mas que ainda vai ser adquirida para o futuro.
   Se, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus, pela morte de seu Filho; muito mais, estando já reconciliados, SEREMOS SALVOS por sua vida (Romanos V-10). E em outro capítulo da mesma Epístola aos Romanos, São Paulo fala da salvação, como a meta para a qual se marcha, o ideal que se procura conseguir: Agora está MAIS PERTO  a nossa salvação que quando recebemos a fé (Romanos XIII-11).

   4º no passado e no futuro ao mesmo tempo.

Há finalmente um texto curioso da Epístola ao Romanos em que São Paulo nos diz: Na ESPERANÇA é que TEMOS SIDO SALVOS. Ora, a esperança que se vê não é esperança; porque o que qualquer vê, como o espera? E se o que não vemos esperamos, por paciência o esperamos (Romanos VIII-24 e 25). Fomos salvos, não na realidade que se goza imediatamente, mas na esperança (no grego TÉ ELPÍDI - dativo modal), isto é, temos este bem da salvação em nossa esperança. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 6 )

   88. O VERBO SALVAR EM TRÊS TEMPOS (a).

   Ora, a Bíblia fala em salvação, usando tanto o passado, como o presente, como o futuro; e uma vez até usando o passado e o futuro ao mesmo tempo.

   1º. no passado: DEUS NOS SALVOU. (Este post).

   São Paulo, falando a Tito, relembra os pecados cometidos pelos cristãos antes de sua conversão: Também nós algum tempo éramos insensatos, incrédulos, metidos no erro, escravos de várias paixões e deleites, vivendo em malícia e em inveja, dignos de ódio, aborrecendo-nos uns aos outros (Tito III-3). Imediatamente depois de ter descrito esta miséria e depravação, este estado deplorável em que se encontravam, São Paulo mostra como Deus os SALVOU daquela desgraceira, os colocou no caminho da salvação. Vejamos os versículos seguintes: Mas quando apareceu a bondade do Salvador nosso Deus e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito nós outros, mas segundo a sua misericórdia, NOS SALVOU pelo batismo de regeneração e renovação do Espírito Santo, o qual Ele difundiu sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, sejamos herdeiros segundo a esperança da vida eterna (Tito III-4 a 7).

   São Paulo finda falando na esperança da vida eterna. Esperança não é o mesmo que certeza absoluta. Se Deus os salvou da perdição, segue-se que se salvarão com absoluta certeza? São Paulo absolutamente não afirma que eles são imaculáveis, ou que é impossível voltar ao pecado antigo. Mostraremos, daqui a pouco  pelos próprios textos da Bíblia, que esta não considera impecáveis, nem completamente seguros aqueles que estão no bom caminho e que, portanto, a salvação adquirida nesta vida ainda pode perder-se.

   E é por isto que São Paulo adverte os Coríntios: Acaso não sabeis que os iníquos não hão de possuir o reino de Deus? NÃO VOS ENGANEIS: nem os fornicários, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão a bebedeiras, nem os maldizentes, nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus. E tais haveis sido alguns; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, haveis sido justificados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus (1ª Coríntios VI-9 a 11). 
   A advertência de São Paulo - Não vos enganeis - mostra muito bem que apesar de lavados, santificados e justificados em nome de Jesus Cristo, em outras palavras, apesar de salvos, devem ter cuidado porque, se voltarem ao estado antigo, não possuirão ao reino de Deus.

   A salvação é assim apresentada no passado, porque foi começada por Deus, que deseja levá-la a bom termo. 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 5 )

   87. SALVAÇÃO EM MARCHA E SALVAÇÃO CONSUMADA.

   Antes de tudo, figuremos uma hipótese. Um homem vivia em deplorável estado de pecado; se morresse nesse estado, certamente se condenaria. Se quisermos dar um nome a esse homem, demos-lhe um qualquer: chamemo-lo Agostinho por exemplo. Deus por muitos anos perseguiu amorosamente com sua graça o coração desse nosso Agostinho. E um dia ele cooperou plenamente com a graça: voltou-se de todo coração para Deus. Houve um feliz momento em que se operou uma transformação radical em sua alma: esta que estava em pecado mortal passou a tornar-se revestida da graça santificante. Suponhamos que esse homem ainda viveu por muitos anos, mas sempre fiel à graça.

   Podia ter acontecido com ele que se perdesse, voltando aos pecados antigos e morrendo impenitente em estado de pecado mortal, podia também ter acontecido que retornasse ao pecado, até mais de uma vez, e no entanto Deus o convertesse de novo e o regenerasse pelo arrependimento, porque ele conservava o livre arbítrio, uma vez que a graça não destrói a liberdade. Mas isto não aconteceu: cooperou com a graça até o fim, nunca perdeu a graça santificante. Um dia morre o nosso herói e comparece ao tribunal de Deus. A sentença divina é esta: SALVAÇÃO. Não irá para o inferno; será um glorioso habitante do Céu por toda a eternidade.

   Agora perguntamos: em que ocasião esse homem se salvou? Podemos dizer que foi naquele momento inicial em que sua alma passou do estado de pecado para o de graça santificante. Segue-se daí que ele tinha certeza absoluta, nesse momento, de que iria para o Céu? Não, porque o homem não pode garantir, com absoluta certeza, que sempre há de cooperar com a graça. Sua vontade firme pode ser esta; no entanto o espirito na verdade está pronto, mas a carne é fraca (Mateus XXVI-41). O coração do homem está sujeito a muitas mudanças; uma pequena resistência à graça pode depois paulatinamente acarretar resistências maiores; basta, por exemplo, uma inclinação ao orgulho, à presunção para fazê-lo cair deploravelmente, porque Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes (1ª Pedro V-5).

   No decorrer de todos os anos que se seguiram à sua conversão, ele sempre podia dizer: Estou salvo. Mas que sentido teria esta frase? quereria dizer que tinha certeza absoluta da salvação? Não; porque ele podia pecar e afastar-se do bom caminho. A frase seria verdadeira neste sentido: Estou no caminho da salvação, porque estou na graça de Deus; se morrer neste mesmo instante, alcançarei a vida eterna. Assim, tanto ele podia dizer: - Estou salvo - como: Espero que hei de salvar-me, conforme considerasse A SALVAÇÃO EM MARCHA ou A SALVAÇÃO CONSUMADA. 

   Mas quanto a esta salvação consumada, à salvação futura, no dia do julgamento de Deus, ele não podia ter certeza absoluta (pois não era impecável) podia, sim, ter a esperança, uma firme e bem fundada esperança.
   Neste dia do julgamento de Deus, quando Deus proferiu a sentença em seu favor, aí então se pode dizer que se salvou com certeza absoluta. 

sábado, 6 de julho de 2013

AVISO

   MEUS BLOGS ESTARÃO EM RECESSO DO DIA 10/07/2013 A 10/08/2013. Estarei, se Deus quiser e com Sua graça, fazendo o Retiro de Santo Inácio de Loyola. Peço as orações de todos. Deus lhes pague!

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 4 )

   86.  NÃO HÃ CONDENAÇÃO (c). 

   Por enquanto, basta dizer que, se São Paulo, como vimos (Romanos VIII-9), estabelece o contraste entre o espírito de Cristo e as obras da carne, as seitas são contrárias ao espírito de Cristo. Porque Cristo nos ensinou a Verdade, Ele é a própria VERDADE  e a verdade é uma só; o ideal de Cristo é que haja UM REBANHO E UM PASTOR (João X-16); o espírito de Cristo é, como Ele disse ao Pai Eterno, que os que creem na sua palavra sejam todos UM, como tu, Pai, o és em mim e eu em ti; para que também eles sejam UM em nós e creia o mundo que tu me enviaste (João XVII-21), o ideal de Cristo é aquele que traça São Paulo: a unidade da fé (Efésios IV-13) a unidade de espírito pelo vínculo da paz, sendo um mesmo corpo e um mesmo espírito... assim como não há senão um Senhor, uma fé, um Batismo (Efésios IV-3 a 5). 

   Depois de mostrar quais as obras da carne, São Paulo nos aponta as obras do espírito: Mas o fruto do espírito é a caridade, o gozo, o paz, a paciência, a benignidade, a mansidão, a fidelidade, a modéstia, a continência, a castidade. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com os vícios e concupiscências (Gálatas V-22 a 24). 

   Sim, não há nenhuma condenação para aqueles que ESTÃO EM CRISTO; mas os que estão em Cristo não andam segundo a carne. Enquanto estiverem assim neste bom caminho, não há nenhuma condenação para eles. Se deste bom caminho se afastam, a coisa então já mudou de figura. Mas isto não é a doutrina luterana de salvação só pela fé sem as obras. É a verdadeira doutrina católica de que as obras são necessárias para a salvação. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A CERTEZA DA SALVAÇÃO - ( 3 )

   86.  NÃO HÁ CONDENAÇÃO (b).

   O que é que São Paulo entende por OBRAS DA CARNE?

   Ninguém melhor do que ele nos poderá esclarecer; vejamos, portanto, o que diz o próprio São Paulo:

   As OBRAS DA CARNE são manifestas, como são: a fornicação, a impureza, a luxúria, a idolatria, os malefícios, as inimizades, as contendas, as rivalidades, as iras, as rixas, as discórdias, as seitas, as invejas, os homicídios, a embriaguez, as glutonerias e outras coisas semelhantes, sobre as quais vos previno, como já vos disse, que os que as praticam não possuirão o reino de Deus (Gálatas V-19 a 21).

   Os que fazem as obras da carne NÃO POSSUIRÃO O REINO DE DEUS, portanto, não estão no número daqueles para os quais NÃO HÁ CONDENAÇÃO. São Paulo enumera aí vícios que são contra a castidade, como a fornicação, a impureza, a desonestidade e a luxúria; enumera um pecado que é contra a virtude da religião: a idolatria; enumera pecados que são contra a caridade: os malefícios, as inimizades, as contendas, as rivalidades, as iras, as discórdias, as invejas, os homicídios; enumera ou que são contra a temperança: a embriaguez e as glutonerias.
   E entre estas OBRAS DA CARNE, São Paulo aponta aí um fenômeno que é ao mesmo tempo contra a fé e contra o espírito de união: AS SEITAS.
   Ninguém pode falar em SEITAS, sem se lembrar imediatamente do PROTESTANTISMO. A Igreja, na sua longa história de 20 séculos, se tem defrontado com um grande número de seitas. Às vezes de umas têm nascido outras, como é natural.

   Mas o Protestantismo se apresentou, logo desde os seus inícios, como algo inteiramente novo: não como uma seita simplesmente, mas como UMA FÁBRICA DE SEITAS EM LARGA ESCALA. Dizendo a todas as pessoas do mundo, sem exceção, mesmo às mais rudes e ignorantes, mesmo àqueles que gostam de ter opiniões bem originais e extravagantes, mesmo aos que são desequilibrados, mesmo aos que têm a mania de serem líderes religiosos, de se apresentarem como enviados de Deus, de fundarem religiões novas, mesmo aos "indoutos e inconstantes que gostam de adulterar as Escrituras, para ruína de si mesmos", dizendo a todos estes: a Bíblia é um livro muito fácil de interpretar, Vocês têm o direito de comentá-la, como acharem mais razoável - o Protestantismo renunciou ao gosto que tiveram as outras heresias de ter uma doutrina SUA, um credo próprio, para se tornar uma heresia industrializada e variadíssima, uma fonte imensa de heresias, as mais desencontradas (1). Mais adiante daremos uma amostra das profundas divergências que existem entre as seitas protestantes.

   (1) Nota: A versão de Ferreira de Almeida traz, neste trecho de S. Paulo que estamos comentando, a palavra HERESIAS em vez da palavra SEITAS. Mas isto em nada altera o sentido. A passagem de S. Paulo continua a ser uma condenação das seitas protestantes, pois todos os 'evangélicos" reconhecem que há dentro das seitas, nascidas do livre exame, nascidas do Protestantismo, muitas HERESIAS. Elas próprias se acusam umas às outras de heréticas, o que a ninguém surpreende, uma vez que ensinam em muitos pontos doutrinas totalmente diversas. E é interessante notar que a mesma palavra grega aí empregada "HÁIRESIS" aparece em outros textos da Bíblia; e em vários lugares é traduzida nas versões protestantes (tanto de Ferreira de Almeida, como da Sociedade Bíblica do Brasil) pela palavra SEITAS (Atos: V-17; XV-5; XXIV-5; XXIV-14; XXVIII-22).