quinta-feira, 2 de novembro de 2017

NOVENA PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO - OITAVO DIA


  
ATOS PREPARATÓRIOS

ORAÇÃO:  -  Santa Margarida Maria, a quem Nosso Senhor escolheu para estabelecer e propagar por toda parte, como uma fonte inesgotável de graças, a devoção a seu divino Coração; vós que tendes ouvido as almas do Purgatório pedir-vos este remédio novo, tão salutar em seus sofrimentos, e que tendes libertado por este meio uma multidão dessas pobres prisioneiras, obtende-nos a graça de executar santamente essa piedosa prática dum passeiozinho pelo Purgatório, em companhia do Sagrado Coração de Jesus e da novena pelas almas.

União de intenções com os fiéis que realizam diariamente, esta santo exercício, na Igreja titular da Obra, situada em Lungotévere Prati. Roma.

Consagração do dia:  -  Ó divino Coração de Jesus, ao fazer em vossa companhia este passeiozinho  pelo Purgatório, nós vos consagramos tudo o que fizemos e esperamos fazer de bem, com o socorro de vossa graça, durante este dia, e vos pedimos apliqueis os vossos méritos em favor dessas almas sofredoras. E vós, santas almas do Purgatório, empregai ao mesmo tempo todo o vosso poder no sentido de nos obterdes a graça de viver e de morrer no amor e na fidelidade ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, correspondendo, sem resistência, a seus desejos sobre nós. Amém.

Oferecimento:  -  Pai Eterno, nós vos oferecemos o sangue, a paixão e a morte de Jesus Cristo, as dores da Santíssima Virgem e as de São José, pela remissão de nossos pecados, pela libertação das almas do Purgatório e pela conversão dos pecadores.

Invocação:  -  Amado seja por toda parte o Sagrado Coração de Jesus!
Ó Maria, Mãe de Deus e Mãe de misericórdia, rogai por nós e pelos mortos!
São José, modelo e padroeiro dos amigos do Sagrado Coração de Jesus, rogai por nós!

Prelúdio:  -  Desçamos um instante pelo pensamento, com o amor do Coração de Jesus e a abundância de suas graças, à chamas devoradoras do Purgatório!
1. -  Quantas vêm nesse momento iniciar aí o seu doloroso cativeiro!
Como elas são felizes! Livraram-se do inferno para sempre... estão certas de que chegarão à suprema felicidade... são as amigas de Deus... estão salvas!
Como elas estão tristes! Acham-se cobertas de mil imperfeições... de muitas penas temporais devidas ainda aos restos dos pecados perdoados... exiladas por um certo tempo de sua celeste pátria... condenadas ao fogo expiatório!
2.  -  Que santa legião quase inteiramente purificada se apresta hoje mesmo para voar ao céu! Felicitemo-las, demos a elas o derradeiro sufrágio que apressará em alguns instantes a sua festiva partida, digamos a elas que se lembrem de nós no reino eterno.
3.  -  Que multidão se encontra aí encerrada já há tanto tempo, e que aí permanecerá ainda por longo prazo!
Há aí almas de seculares, de religiosos, de sacerdotes, almas que nos são caras.
Contemplemo-las, ouçamos seus gemidos, dirijamos a elas uma palavra de amizade e de compaixão, prestemos-lhes assistência!

OITAVO DIA  - DOMINGO

COLÓQUIO:  -  De que te arrependes, santa alma do Purgatório, de ter feito na terra que deixaste?

Arrependo-me dos pecados de omissão, especialmente de não ter assistido bem à santa Missa.
Não apreciava bem o valor da santa Missa, renovação do santo sacrifício de Jesus no calvário.
Como é importante assistir bem e frequentemente à santa Missa. Morreu Jesus para salvar as almas, e cotidianamente renova esta morte de modo incruento no santo Sacrifício da Missa. E eu não a estivava bastante. Não ia buscar aos pés do altar remissão dos meus pecados pelo preciosíssimo Sangue de Jesus. Não ia buscar as forças necessárias para resistir às tentações; não vivia em constante união com Deus dos nossos altares. Por isso estou agora aqui e sofro. Sofro com paciência, e merecidamente; mas podia ter sido de outra maneira. O santo Sacrifício da Missa é de um valor infinito, e eu podia ter aproveitado. Se o tivesse feito, agora já estaria no céu, perto de Jesus.
Se na terra tivesse recorrido mais às graças que emanam do Sagrado Coração de Jesus na hora da Santa Missa! ... quão grande seria agora a minha santidade! Que tesouro de graças teria tido na minha alma na hora da morte! Como estaria agora perto do trono de Deus! Se pudesse voltar! ... Mas pelo menos tu, alma devota, que ainda vives na terra, tu podes assistir frequentemente à Missa, enriquecer-te com as graças divinas, aplicá-las também a nós, pobres almas do Purgatório.

PIEDOSAS PRÁTICAS

Resolução:  -  Participar mais frequentemente e intensamente da santa Missa, recebendo a santa Comunhão, também pelas almas do Purgatório.

Ramalhete espiritual  -  Quem comer a minha Carne e beber o meu Sangue, terá a vida eterna, e eu o ressuscitarei no derradeiro dia (Jo, VI).

Sufrágio:  -  Assistir também à santa Missa em dias de semana, quando puder.

Intenção particular:  -  Rezar pelas almas mais abandonadas.

Motivo:  -  As almas do Purgatório nada podem fazer para si mesmas. O tempo de merecimentos próprios passou para elas. Devemos ajudar principalmente aquelas almas, das quais ninguém se lembra.

Oração:  -  Deus onipotente, que todos os dias no Santo Sacrifício da Missa vos ofereceis ao Pai celestial para expiação dos nossos pecados, lançai um olhar benigno sobre as almas do Purgatório, especialmente as mais abandonadas, e dizei-lhes a mesma palavra que dissestes ao bom ladrão: hoje estareis como no paraíso.

 Pai-Nosso, Ave-Maria, Salmo 129.

SALMO 129: : Das profundezas do abismo, eu bradei para Vós, Senhor: Senhor, ouví minha voz!
Que vossos ouvidos sejam atentos à voz de minha oração.
Si tomardes em consideração as nossas iniquidades, Senhor: Senhor, quem poderá subsistir diante de Vós?
Mas vós sois rico de misericórdia; e eu espero em Vós, Senhor, por causa de vossa lei.
Minha alma apoiou-se em vossa palavra, minha alma pôs toda sua confiança no Senhor.
Desde a manhã até à noite, Israel espera no Senhor.
Porque no Senhor existe a misericórdia e uma abundante redenção.
É Ele quem resgatará Israel de todas as suas iniquidades.
Versículo:
Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!
E a luz perpétua as ilumine.
Descansem em paz, Amém.

Jaculatória: Pela repetição incruenta de vosso Sacrifício da cruz, livrai as almas mais abandonadas, meu Jesus!

NOVENA PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO - NONO DIA - SEGUNDA-FEIRA

ATOS PREPARATÓRIOS

ORAÇÃO:  -  Santa Margarida Maria, a quem Nosso Senhor escolheu para estabelecer e propagar por toda parte, como uma fonte inesgotável de graças, a devoção a seu divino Coração; vós que tendes ouvido as almas do Purgatório pedir-vos este remédio novo, tão salutar em seus sofrimentos, e que tendes libertado por este meio uma multidão dessas pobres prisioneiras, obtende-nos a graça de executar santamente essa piedosa prática dum passeiozinho pelo Purgatório, em companhia do Sagrado Coração de Jesus e da novena pelas almas.

União de intenções com os fiéis que realizam diariamente, esta santo exercício, na Igreja titular da Obra, situada em Lungotévere Prati. Roma.

Consagração do dia:  -  Ó divino Coração de Jesus, ao fazer em vossa companhia este passeiozinho  pelo Purgatório, nós vos consagramos tudo o que fizemos e esperamos fazer de bem, com o socorro de vossa graça, durante este dia, e vos pedimos apliqueis os vossos méritos em favor dessas almas sofredoras. E vós, santas almas do Purgatório, empregai ao mesmo tempo todo o vosso poder no sentido de nos obterdes a graça de viver e de morrer no amor e na fidelidade ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, correspondendo, sem resistência, a seus desejos sobre nós. Amém.

Oferecimento:  -  Pai Eterno, nós vos oferecemos o sangue, a paixão e a morte de Jesus Cristo, as dores da Santíssima Virgem e as de São José, pela remissão de nossos pecados, pela libertação das almas do Purgatório e pela conversão dos pecadores.

Invocação:  -  Amado seja por toda parte o Sagrado Coração de Jesus!
Ó Maria, Mãe de Deus e Mãe de misericórdia, rogai por nós e pelos mortos!
São José, modelo e padroeiro dos amigos do Sagrado Coração de Jesus, rogai por nós!

Prelúdio:  -  Desçamos um instante pelo pensamento, com o amor do Coração de Jesus e a abundância de suas graças, à chamas devoradoras do Purgatório!
1. -  Quantas vêm nesse momento iniciar aí o seu doloroso cativeiro!
Como elas são felizes! Livraram-se do inferno para sempre... estão certas de que chegarão à suprema felicidade... são as amigas de Deus... estão salvas!
Como elas estão tristes! Acham-se cobertas de mil imperfeições... de muitas penas temporais devidas ainda aos restos dos pecados perdoados... exiladas por um certo tempo de sua celeste pátria... condenadas ao fogo expiatório!
2.  -  Que santa legião quase inteiramente purificada se apresta hoje mesmo para voar ao céu! Felicitemo-las, demos a elas o derradeiro sufrágio que apressará em alguns instantes a sua festiva partida, digamos a elas que se lembrem de nós no reino eterno.
3.  -  Que multidão se encontra aí encerrada já há tanto tempo, e que aí permanecerá ainda por longo prazo!
Há aí almas de seculares, de religiosos, de sacerdotes, almas que nos são caras.
Contemplemo-las, ouçamos seus gemidos, dirijamos a elas uma palavra de amizade e de compaixão, prestemos-lhes assistência!

NONO DIA  - SEGUNDA-FEIRA

COLÓQUIO:  -  De que te arrependes, santa alma do Purgatório, de ter feito na terra que deixaste?

Arrependo-me da vida materialista que levei. Quando ainda estava na terra, vivia esquecido do meu último fim. Criado para servir a Deus, e assim ganhar a felicidade do Céu, procurava demasiadamente a bem estar do corpo, os divertimentos, as comodidades. Ouvia os avisos e os ensinamentos dos sacerdotes, mas não lhes dava importância, e continuava numa vida de tédio espiritual. E ainda que evitasse o pecado mortal, não procurava Deus, meu sumo Bem; não enriquecia-me com as graças divinas pela freqüência dos Sacramentos; não me alimentava constantemente com o Pão dos Anjos na santa Comunhão. A minha vida foi uma vida mundana, em que a vida da graça definhava cada vez mais. Hoje vejo, como foi vã esta vida.
Tu, que ainda estás na terra, aprende de mim! Dirige tua vida conscientemente ao fim para que foste criada! Procura a glória de Deus, também quando custa sacrifícios. Domina os desejos do corpo, para que tua alma não venha a sofrer no Purgatório.

Resolução:  -  Socorrer hoje, por todos os meios ao nosso alcance, as almas do Purgatório, especialmente as que vieram de nossa própria Pátria; temos obrigações especiais para com elas.

Sufrágio:  -  Uma visita ao Santíssimo Sacramento pelas almas.

Intenção articular:  -  Lembrai-vos, Senhor, dos servos e das servas que fora em nossa frente com o sinal de fé e dormem o sono da paz (Cânon da Missa).

Motivo:  -  Viveram na mesma terra, trabalharam para seu progresso material e espiritual. Somos por isso seus devedores.

Oração:  -  Ó Deus, que perdoais os pecados e que amais a salvação das almas; invocamos a vossa clemência, para que façais chegar à participação da eterna felicidade as almas de nossos irmãos, parentes e benfeitores, pela intercessão de Maria sempre Virgem e de todos os Santos. Por Cristo, Nosso Senhor. Amém.

Pai-Nosso, Ave-Maria, Salmo 129.

SALMO 129:  Das profundezas do abismo, eu bradei para Vós, Senhor: Senhor, ouví minha voz!
Que vossos ouvidos sejam atentos à voz de minha oração.
Si tomardes em consideração as nossas iniquidades, Senhor: Senhor, quem poderá subsistir diante de Vós?
Mas vós sois rico de misericórdia; e eu espero em Vós, Senhor, por causa de vossa lei.
Minha alma apoiou-se em vossa palavra, minha alma pôs toda sua confiança no Senhor.
Desde a manhã até à noite, Israel espera no Senhor.
Porque no Senhor existe a misericórdia e uma abundante redenção.
É Ele quem resgatará Israel de todas as suas iniquidades.

Versículo:
Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!
E a luz perpétua as ilumine.
Descansem em paz, Amém.


Oração jaculatória:  -  Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA E O PURGATÓRIO



18. "Ademais, o benefício da caridade mútua entre os vivos, à qual o sacramento eucarístico traz tanta força e incremento, derrama-se principalmente, pela virtude do sacrifício, sobre todos aqueles que são abrangidos pela Comunhão dos Santos. Esta, como ninguém ignora, outra coisa não é senão uma comunicação mútua de socorros, de expiações, de orações, de benefícios entre os fiéis, quer os que já estão de posse da pátria celeste, quer os que ainda estão condenados às chamas expiatórias, quer enfim os que ainda são viandantes nesta terra, mas não formando todos senão uma só cidade que tem por cabeça Cristo e por forma a caridade. Ora, a fé ratifica esse dogma: conquanto só a Deus seja lícito oferecer o augusto sacrifício, podemos entretanto celebrá-lo em honra dos santos que reinam nos céus com Deus que os coroou, no intuito de nos conciliarmos o patrocínio deles, e também, como o ensinaram os apóstolos, a fim de apagarmos as faltas de nossos irmãos que, mortos no Senhor, ainda não expiaram completamente.


19. Assim, pois, a caridade sincera, acostumada a fazer tudo e a tudo sofrer pela salvação e pelo bem de todos, jorra, abundante, ardente e cheia de atividade, da santíssima Eucaristia; na Eucaristia Cristo reside, vivo ele próprio; nela, entrega-se sobretudo ao seu amor para conosco; nela enfim, arrastado pelo transporte da sua divina caridade, renova incessantemente o seu sacrifício. Assim, fácil é ver em que fonte os homens apostólicos hauriram a sua força para os seus duros labores, e d onde as instituições católicas, tão numerosas e tão diversas, que se têm tornado beneméritas da família humana, tiram a sua inspiração, o seu poder, a sua perpetuidade e os seus felizes resultados". (Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS" de Leão XIII sobre a Santíssima Eucaristia). 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MOMENTO ATUAL

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MOMENTO ATUAL
                                                        
            “Ficai bem atentos à vossa maneira de proceder. Procedei não como insensatos, mas como pessoas esclarecidas... porque estes dias são maus” (Ef 5, 16). “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2).

PROPAGANDA DA IMORALIDADE – ATAQUES À FAMÍLIA:

Junto com a divulgação da imoralidade, fantasiada de arte, e a propaganda maciça do homossexualismo, travestido de respeito à diversidade, reaparece a doutrinação da Ideologia de Gênero, também com ares de liberdade e de orientação sexual.          
Configura-se, visando sua destruição, um verdadeiro ataque à família, santuário da vida, que vai perdendo seus direitos na educação dos seus filhos, os quais se tornam alvo fácil dessa onda destruidora da moral. Os bons ficam acuados. E os meios de comunicação, através de novelas e entrevistas direcionadas, vão divulgando essa mentalidade de modo bem orquestrado.
Se a crise social, política e familiar por que passamos é, sobretudo, moral, essa propaganda em nada a faz diminuir, mas, pelo contrário, aumenta-a rompendo todas as barreiras éticas que deveriam pautar o comportamento humano.
            Ao repetir o Mandamento divino “Não pecar contra a castidade”, a Igreja nos ensina a vencer a luxúria e evitar tudo o que a ela conduz, como a pornografia e a indecência no vestir. A castidade faz parte da temperança, conduz ao domínio de si, que exige um esforço constante em todas as idades da vida, especialmente quando se forma a personalidade, durante a infância e a adolescência (cf. Catecismo da Igreja Católica – CIC - 2331-2356).
São Paulo já advertia: “Fostes chamados à liberdade. Porém, não façais da liberdade um pretexto para servirdes à carne” (Gl 5, 13).
            Sobre a propaganda da imoralidade, recordo as graves palavras do saudoso Cardeal Dom Lucas Moreira Neves, acusando a Televisão, o que poderíamos aplicar também a certos sites da Internet, devido à onda de impureza que traz para dentro dos lares: “Acuso-a de ministrar copiosamente a violência e a pornografia. A primeira é servida em filmes para todas as idades. A segunda impera, solta, em qualquer gênero televisivo: telenovelas, entrevistas, programas ditos humorísticos, spots publicitários e clips de propaganda. A TV brasileira está formando uma geração de voyeurs, uma geração de debilóides. Acuso-a de ser corruptora de menores”.
E não é só contra essa imoralidade que a Igreja levanta a sua voz. Ela também repudia o assassinato de crianças e adolescentes, a prostituição infantil, a morte de crianças para o roubo de órgãos, a mortalidade das crianças nos hospitais públicos, a violência doméstica, o estupro e o feminicídio.  

            PROFANAÇÃO DOS SÍMBOLOS CRISTÃOS:

            Quanto à profanação dos símbolos cristãos, como o crucifixo, a hóstia, a imagem da Padroeira do Brasil, fazendo eco às palavras dos Bispos do Regional Nordeste 1 da CNBB, manifesto a minha indignação e repúdio diante do escárnio público desses nossos símbolos, crime de vilipêndio, condenados também pelo Código penal (Artigo 208).
            E essa indignação e repúdio deve ser a de todos os católicos e pessoas de bom senso e respeito.

            PROPAGANDA DO HOMOSSEXUALISMO:

            Sobre a homossexualidade, observamos primeiramente que se deve fazer a distinção entre pessoas e atos, entre a tendência e a prática.

Na linha do pensamento de Santo Agostinho, que dizia que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador, e em seguimento do Papa Francisco, que pastoralmente nos ensina a aplicar sempre a misericórdia, as pessoas que apresentam essa inclinação, objetivamente desordenada, cuja gênese psíquica continua em grande parte por explicar, devem ser acolhidas com respeito, delicadeza e compaixão, pois, para a maioria, isso constitui uma provação. Evitar-se-á para com elas todo sinal de descriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã (cf. CIC nn. 2357-2358).   
A Igreja, e nós com ela, condenamos e repudiamos, pois, todas as ofensas e, mais ainda, os assassinatos e espancamentos de LGBTIs por conta da intolerância.

Mas não podemos deixar de dizer que a prática do homossexualismo é condenável. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (cf. Gn 19,1-29; Rm 1, 24-27; I Cor 6, 9-10; I Tim 1, 10), a tradição sempre declarou que ‘os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados’ (Congregação para a Doutrina da Fé, declaração Persona Humana, 8). São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados (CIC n. 2357).
            Por isso, a propaganda do homossexualismo como sendo algo natural é maléfica e, por isso mesmo, condenável. 
São Paulo, apóstolo, fala “com lágrimas”, que muitos “se gloriam daquilo de que se deveriam envergonhar” (Fl 3,19). E, referindo-se aos pecados e perversidade dos pagãos, o mesmo apóstolo nos recorda a moral natural: “Por isso, Deus os abandonou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador... Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario” (Rm 1, 24-27).  
Aliás, já no Antigo Testamento, Deus já havia condenado os atos homossexuais: “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável” (Lv 20, 13).
Por isso, São Paulo, desejoso de nossa salvação, nos adverte: “Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados (em latim, molles), nem os homossexuais (em latim ‘masculorum concubitores’), nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus” (1Cor 6, 9-10).

IDEOLOGIA DE GÊNERO:

            A ideologia de gênero quer eliminar a ideia de que os seres humanos se dividem em dois sexos, afirmando que as diferenças entre homem e mulher não correspondem a uma natureza fixa, mas são produtos da cultura de um país, de uma época. Algo convencional, não natural, atribuído pela sociedade, de modo que cada um pode inventar-se a si mesmo e o seu sexo.
            O feminismo do gênero, que promove essa ideologia, procede do movimento feminista para a igualdade dos sexos. A ideologia de gênero, própria das associações LGBT, baseia-se na análise marxista da história como luta de classes, dos opressores contra os oprimidos, sendo o primeiro antagonismo aquele que existe entre o homem e a mulher no casamento monogâmico. Daí que essa ideologia procura desconstruir a família e o matrimônio como algo natural. Em consequência, promovem a “livre escolha na reprodução”, eufemismo usado por eles para se referir ao aborto provocado. Como “estilo de vida”, promovem a homossexualidade, o lesbianismo e todas as outras formas de sexualidade fora do matrimônio. Entre nós, querem introduzir essa ideologia, usando o termo “saúde reprodutiva”. E usam a artimanha de palavras, especialmente “discriminação” e "luta contra o preconceito”Sob esse nome sedutor – pois todos somos contra a discriminação injusta e o preconceito – querem fazer passar a ideologia do gênero, a ditadura do relativismo moral, estabelecendo uma nova antropologia anticristã, sob o nome de democracia.
Essa campanha é internacional. Na Itália, por exemplo, os folhetos distribuídos nas escolas pretendem ensinar a todos os alunos que “a família pai-mãe-filho é apenas um ‘estereótipo de publicidade’; que os gêneros masculino e feminino são uma abstração; que a leitura de romances em que os protagonistas são heterossexuais é uma violência; que a religiosidade é um valor negativo; chega-se ao ridículo de censurar os contos de fadas por só apresentarem dois sexos em vez de seis gêneros, além de se proporem problemas de matemática baseados em situações protagonizadas por famílias homossexuais”. 
 O Papa Francisco, alarmado, fala que estamos diante de uma “colonização ideológica”, de uma maldade ao ensinar a ideologia de gênero (Filipinas, janeiro de 2015). E nos alerta: “Na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina, na África, em alguns países da Ásia, existem verdadeiras colonizações ideológicas. E uma delas – digo-a claramente por ‘nome e sobrenome’ - é a ideologia de gênero (gender)! Hoje às crianças – às crianças! –, na escola, ensina-se isto: o sexo, cada um pode escolhê-lo... São as colonizações ideológicas, apoiadas mesmo por países muito influentes. E isto é terrível” (Encontro com os Bispos poloneses, 27/7/2016).

A Igreja nos ensina: “Deus criou o ser humano como homem e mulher, com igual dignidade pessoal, e inscreveu nele a vocação ao amor e à comunhão. Compete a cada um aceitar a sua identidade sexual, reconhecendo a sua importância para a pessoa toda, bem como o valor da especificidade e da complementaridade” (Compêndio do C.I.C. n. 487).




FOGO! SOCORRO! ACUDAM!

É HORA DO PROTESTO DE TODOS:

É preciso dar um basta! É preciso que as forças morais de toda a humanidade se levantem e deem o seu brado de inconformidade com tudo isso. É hora de gritar com São Luiz Maria Grignion de Montfort: “Fogo! fogo! fogo! Socorro! socorro! Socorro!... Socorro, que assassinam nosso irmão! Socorro, que degolam nossos filhos!...”.
A Igreja levanta a sua voz de repúdio a tudo isso: sua doutrina clara já condena esses erros. É preciso que os católicos sejam lógicos e coerentes com o que a Igreja lhes ensina.
            É hora, principalmente de os leigos agirem. Não fiquem se perguntando: o que a Igreja vai falar ou fazer sobre isso? Vocês também são a Igreja. A pergunta deve ser: o que nós estamos fazendo contra tudo isso? Não fiquem esperando pelos pastores. As ovelhas têm o direito de se defenderem dos lobos que as atacam. Falem, protestem, escrevam, alertem os filhos, os amigos. Gritem nas redes sociais! Pais de família, reajam! É preciso que o mundo escute a voz dos bons e saiba que ainda existem famílias corretas, pessoas de bem e de coragem que não concordam com a imposição dessas ideologias.
            “Unindo suas forças, os leigos purifiquem as instituições e as condições do mundo, caso estas incitem ao pecado. Isto de tal modo que todas essas coisas se conformem com as normas da justiça e, em vez de a elas se oporem, antes favoreçam o exercício das virtudes. Agindo dessa forma, impregnarão de valor moral a cultura e as obras humanas” (LG 36).
            Dom Prosper Guérranger (L’Année Liturgique), sobre o episódio em que um leigo, Eusébio, levantou-se em meio à multidão contra a impiedade de Nestório, salvando assim a fé de Bizâncio, comenta: “Há no tesouro da Revelação pontos essenciais, cujo conhecimento necessário e guarda vigilante todo cristão deve possuir, em virtude de seu título de cristão. O princípio não muda, quer se trate de crença ou procedimento, de moral ou de dogma. Traições como a de Nestório são raras na Igreja; não assim o silêncio de certos Pastores que, por uma ou outra causa, não ousam falar, quando a Religião está engajada.  Os verdadeiros fiéis são homens que extraem de seu Batismo, em tais circunstâncias, a inspiração de uma linha de conduta; não os pusilânimes que, sob pretexto especioso de submissão aos poderes estabelecidos, esperam, pra afugentar o inimigo, ou para se opor a suas empresas, um programa que não é necessário, que não lhes deve ser dado”.

            Campos dos Goytacazes, 26 de outubro de 2017

                         Dom Fernando Arêas Rifan
          Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

FONTES DA MORALIDADE


Em se tratando de Teologia, nunca será supérfluo lembrar, de quando em vez, que muitos termos teológicos não coincidem exatamente com a noção que vulgarmente deles se tem. Assim sendo é bom lembrar que MORALIDADE no sentido teológico significa algo que é feito livremente e levando em conta a bondade ou malícia do objeto. Portanto, ato moral não é só o que é bom, mas também pode ser o que é mau. Assim pois,  MORALIDADE, teologicamente falando, é a consideração se a coisa é boa ou má diante de Deus.

FONTES DA MORALIDADE são os elementos que podem contribuir para que um ato seja conforme ou não com a norma de moralidade. E são três: o OBJETO do ato, as CIRCUNSTÂNCIAS do mesmo e o FIM do agente. Todas estas três coisas devem ser inteiramente boas para que o ato seja bom; se, portanto, uma só delas for má, também o ato moral, será mau. Daí aquele célebre axioma teológico: Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu (=para uma coisa ser moralmente boa é necessário que o seja inteiramente, isto é, que o objeto, as circunstâncias e o fim sejam bons; para ser má, basta que uma só destas três coisas seja má).

NB. Desculpem-me os teólogos por eu, às vezes, me estender em explicações, porque falo evidentemente para todos, inclusive para os que não são afeiçoados à Teologia. E como hoje infelizmente, pessoas da hierarquia eclesiástica, estão lançando a verdadeira Teologia às urtigas, é mister que todos os fiéis a conheçam bem claramente, e não venham perder a fé.

Consideremos hoje estas três fontes da moralidade: o objeto, as circunstâncias e o fim.

1. O OBJETO.
É aquilo para o qual o ato moral tende imediatamente e no qual proximamente e por si mesmo termina o vontade do agente. É o que constitui a moralidade essencial e primária, pois, ela aparece antes de qualquer outra proveniente do fim ou das circunstâncias.

A MORALIDADE DO OBJETO: 1º - Pode ser EXTRÍNSICA e INTRÍNSECA.
A moralidade do objeto é extrínseca quando o objeto, indiferente em si mesmo, se torna bom ou mau porque foi mandado ou proibido. A moralidade do objeto é intrínseca se está mandado ou proibido por ser em si mesmo bom ou mau, seja em absoluto, ou seja, independentemente de toda circunstância; seja condicionalmente, isto é, em função de algo que pode mudar. Devemos observar que, às vezes, se diz intrinsecamente mau o que com mais propriedade deveria dizer-se intrinsecamente perigoso, como por ex. o olhar algo incentivo da luxúria.

Na verdade, o objeto é bom, ou mau, ou indiferente, enquanto está de acordo com a razão, a lei ou com a reta ordem (bom) ou não(mau); ou então está fora da lei ou da reta razão (indiferente). Quando o objeto é indiferente, isto é, em si mesmo não é nem bom nem mau, o ato terá sua moralidade determinada ou pelo fim ou pelas circunstâncias. Quando a moralidade é proveniente do objeto, chama-se moralidade (bondade ou malícia) OBJETIVA.

2º - O ATO EXTERNO enquanto é objeto da vontade, comunica ao ato interno sua própria moralidade objetiva, específica; e quando é efeito ou realização, nada acrescenta de per si à moralidade do ato interno; contudo, circunstancialmente a modifica quase sempre, já por seu influxo no ato interno, que intensifica ou faz repetir, já por razão dos efeitos e consequências que se originam do ato externo, como são a edificação, o escândalo, as censuras, o dever de reparar o dano, etc..  Se o ato externo é gravemente pecaminoso, se deve manifestar sempre na confissão, pois, constitui moralmente um mesmo ato com o interno.

Devemos notar que os atos maus podem ser de três classes: a) ABSOLUTAMENTE MAU:  é mau independentemente de toda circunstância; isto porque estes atos envolvem uma repugnância com a reta ordem absolutamente necessária, por exemplo, o ódio a Deus, a blasfêmia etc.. b) INTRINSECAMENTE MAU: não precisamente em si mesmos, mas em razão de algum adjunto ou condição que depende do poder de domínio de Deus ou do homem, por exemplo, tirar coisa alheia, lesar o corpo ou a fama e coisas semelhantes que, às vezes, se tornam lícitas. Resumindo: Intrinsecamente maus são ditos proibidos porque são maus; e extrinsecamente maus são ditos maus, porque são proibidos.  c) MAU SOMENTE EM RAZÃO DO PERIGO que ordinariamente vem acompanhando o ato, como por ex., o olhar de um objeto torpe, a leitura de um livro mau, etc. Estes atos, quando houver uma causa razoável, e o perigo é remoto, se tornam lícitos. 

AS CIRCUNSTÂNCIAS: São as qualificações acidentais do ato, sem as quais este pode existir quanto à substância (substancialmente), e que, no entanto atingem de algum modo a sua moralidade. Em outras palavras: circunstâncias são as condições acidentais que modificam o moralidade substancial que sem elas tinha já o ato humano. São sete, expressas em latim neste frase: "Quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando?". Traduzido: Quem, que coisa, onde, com que meios, por que, como, quando? Vamos explicá-los:
QUEM: isto é, qual o agente? Por ex.: se é solteiro ou casado, se é leigo ou consagrado a Deus, etc.  -  QUE COISA: isto é, qual  a qualidade acidental ou a quantidade do objeto?  -  ONDE: isto é, em que lugar, se sagrado ou profano, etc.  -  COM QUE MEIOS: isto é, que instrumentos, meios etc.  usou o agente?  -  POR QUE: ou seja, com que finalidade, certamente extrínseca?  -  COMO: por exemplo, se de má fé ou boa fé, se de modo intenso ou não, se advertidamente ou não etc.  -  QUANDO: isto é, em que tempo e por quanto tempo? (Cf. S. Tomás, 1-2, q. 7, a. 3 e 4).

O ato humano haure sua verdadeira moralidade das circunstâncias, porque elas, que só podem ser procuradas juntamente com o objeto seja direta ou indiretamente, afetam o ato em si mesmo, enquanto é ato humano, e este depende da regras dos costumes. Ora, muitas vezes têm relação de conveniência ou inconveniência com  a razão e reta ordem. Logo, as circunstâncias afetam no ser do costume ou quanto à moralidade; e nos atos indiferentes, são as circunstâncias que determinam a moralidade do ato.

INFLUXO DAS CIRCUNSTÂNCIAS: umas determinam a moralidade do ato; outras em nada a modificam, e são consideradas indiferentes; umas deixam o objeto em sua própria espécie; e outras mudam a própria espécie do ato, ou acrescentam uma nova espécie. Assim por ex. um único pecado pode ser tornar mais de um: quem rouba comete um pecado contra o 7º mandamento de Deus; com a circunstância de roubar num igreja, acrescenta outro pecado de espécie diferente que é o sacrilégio. Assim sendo, há obrigação de na confissão contar as circunstâncias que mudam a espécie de pecado.  Lembramos também que umas circunstâncias agravam e outras diminuem a malícia do ato. E podem agravar de tal modo a malícia de um ato que, de venial, se torne mortal; como também pode diminuir de tal modo a gravidade que, de mortal, o torne venial. Nestes casos dizemos que o ato permanecendo em sua mesma espécie moral diz-se que mudou quanto à espécie teológica. As circunstâncias GRAVEMENTE pecaminosas danificam gravemente a bondade natural do ato e destroem a sua bondade sobrenatural porque afastam totalmente do fim último. Já as CIRCUNSTÂNCIAS LEVEMENTE pecaminosas (p. ex. orar com tibieza, agir precipitadamente) não tiram TODA bondade do ato, porque este conserva a moralidade essencial que lhe vem do objeto.

O FIM: É aquilo que intenta conseguir aquele que obra. O fim da obra é intrínseco à própria obra e é justamente para ele que a obra por si mesma tende. Já o fim do operante é aquele para o qual o agente livremente dirige sua intenção ou é aquele que o agente preferiu, quer se identifique com o fim da obra, quer lhe seja diverso e extrínseco à obra. Aqui considera-se somente o FIM DO OPERANTE porque, na verdade, só ele é propriamente considerado FIM.

SEU INFLUXO: O FIM DO AGENTE  comunica ao ato humano uma moralidade, não precisamente ESSENCIAL, a não ser que se identifique com o fim da obra. O fim comunica, porém, uma moralidade PRINCIPAL, pois é a causa principal do ato (S. Tomás, 1-2 q. 7 a. 4).
 1 - UM FIM GRAVEMENTE MAU corrompe TOTALMENTE   o ato se ele é o único motivo de obrar. Por ex.: se alguém dá uma esmola tão somente para arrancar a fé ao pobre que socorre. UM FIM GRAVEMENTE MAU também corrompe o ato mas SÓ PARCIALMENTE, quando o fim mau não é o motivo total e adequado da ação, p. ex., alguém vai à Missa para cumprir o preceito dominical e, ao mesmo tempo, para se encontrar com uma pessoa e fomentar maus desejos.
2 - UM FIM LEVEMENTE MAU se é TOTAL , vicia também todo o ato, porque toda a intenção do agente é má, como naquele que reza unicamente para ser visto pelos homens. Se O FIM LEVEMENTE MAU  é PARCIAL,  vicia o ato só parcialmente, pois não destrói a tendência da vontade para a bondade objetiva da ação ou para outro fim extrínseco bom, p. ex., quando alguém se aproxima dos sacramentos com reta intenção e ao mesmo tempo com o vão desejo de agradar aos homens.
3 - Um ato humano é bom na ordem moral, se é buscado como tal e com referência a Deus, com uma relação ao menos virtual implícita. Esta consiste em que a obra, por sua própria natureza e objetivamente, está ordenada ao fim último, isto é, em que seja conforme com a natureza racional e se a realize como tal.

CONSEQUÊNCIAS: Sendo Deus o único fim último,  buscar um prazer não proibido por outros capítulos,COMO FIM ÚLTIMO,  é pecado grave, pois encerra uma grave desordem, com desprezo virtual de Deus. No entanto, quando O FIM NÃO É ÚLTIMO, aí temos duas hipóteses: a) se o agente exclui positivamente o fim que pretende a natureza, pelo menos é pecado venial, pois há nisso alguma desordem; b) se o agente não exclui positivamente, provavelmente não comete nenhum pecado já que com isso não se faz senão secundar a intenção de Deus.

NOTAS: 1ª - ATOS MORAIS INDIFERENTES podem dar-se EM ABSTRATO na ordem natural, se levamos em conta só o objeto; segundo a sentença mais comum, porém, não podem dar-se EM CONCRETO, levando em conta o fim e as circunstâncias: p. ex., passear para recrear-se é uma ação boa, não indiferente, se o recreio é moderado e portanto pode ser referido a Deus; do contrário, é mau.

2ª - Para que o objeto e as circunstâncias comuniquem ao ato sua bondade, devem buscar-se diretamente e por razão dessa bondade; em troca, para que o infeccionem com sua malícia, basta que se os busque ainda indiretamente em sua causa voluntária pecaminosa e sabendo que são maus, ainda que não se queira precisamente por serem maus. 

domingo, 29 de outubro de 2017

JESUS, REI DE AMOR E DE PAZ

Extraído do Livro "Apelo ao Amor": Mensagem de Jesus a Sóror Josefa Menéndez, religiosa da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus (junho de 1923).

Sóror Josefa Menéndez
   "Se desejais paz, Eu sou a Paz. Sou a Misericórdia e o Amor...A vossa alma, criada por um Pai que vos ama, não com qualquer amor, mas com amor imenso, e eterno, encontrará um dia, no lugar da felicidade sem fim que esse Pai vos prepara, resposta a todas as suas necessidades.
   Lá, encontareis a recompensa do trabalho cujo peso houverdes suportado aqui na terra.
   Lá, encontrareis a família que tanto amastes sobre a terra e pela qual vertestes vossos suores.
   Lá, vivereis eternamente, pois a terra é apenas uma sombra que desaparece e o céu não passará nunca.
   Lá, vos unireis ao vosso Pai que é o vosso Deus.
   Se soubésseis que felicidade vos espera!...
   Mas, ouvindo-Me, talvez estejas dizendo: Quanto a mim, não tenho fé! Não creio na outra vida.
   Não tens fé?... Então, se não crês em Mim, por que Me persegues?... Por que te revoltas contra as minhas leis, e fazes guerra àqueles que Me têm amor?... e, se queres liberdade para ti, por que não a dás aos outros?...
   Não acreditas na vida eterna?... Dize-Me se vives feliz na terra e se não sentes necessidade de alguma coisa que não podes encontrar aqui...
   Procuras prazer e, se chegas a consegui-lo, não ficas saciado...
   Andas atrás das riqueza e, se consegues adquiri-la, nunca te julgas assaz rico...
   Tens necessidade de afeição e, se a encontras um dia, dentro de pouco tempo estás cansado!
   Não! coisa alguma destas é o que tu desejas... O que desejas, certamente não o encontrarás na terra... Porque, aquilo de que tens necessidade, é de paz, não a paz do mundo, mas a dos filhos de Deus, e como poderias tu encontrá-la no seio da revolta?
   Por isso é que Eu venho mostrar-te onde está essa paz, onde encontrarás essa felicidade, onde saciarás esta sede que há longo tempo te devora. Não te revoltes, se Me ouves dizer-te: Tudo isso, encontrá-lo-ás no cumprimento da minha Lei; não, não te espantes desta palavra, a minha Lei não é tirania; é Lei de amor!
   Sim, a minha Lei é de amor, porque Eu sou teu Pai.
   Bem sabeis que a disciplina é necessário no exército, e o regulamento na família bem ordenada. Também na grande família de Jesus Cristo, impõe-se uma Lei, mas uma Lei cheia de suavidade.
   Venho ensinar-vos o que é essa Lei e o que é o meu Coração que vô-la dá, esse Coração que vós não conheceis e que tantas vezes tendes ferido! Procurais-Me para Me dar a morte, ao passo que Eu vos procuro para vos dar a vida. Qual de nós triunfará? A vossa alma ficará tão endurecida que se não renda Àquele que vos deu a sua própria Vida e todo o seu Amor?
   Na ordem humana, os filhos usam sempre o nome do pai, sem o que não poderiam ser reconhecidos como da sua família.
   Assim, os filhos que são Meus usam o nome de cristãos, que lhes é conferido pelo sacramento do Batismo, ao nascerem. Vós que recebestes este nome, sois meus filhos, tendes direito a todos os bens de vosso Pai.
   Sei que não Me conheceis nem Me tendes amor, antes, pelo contrário, Me odiais e perseguis. Mas, Eu amo-vos com amor infinito e quero dar-vos parte naquela herança a que tendes direito.
   Crede no meu amor e na minha Misericórdia!
   Vós Me ofendestes: Eu vos perdôo.
   Vós Me perseguistes: Eu vos amo.
   Vós Me feristes com palavras e com ações; Eu quero fazer-vos bem e abrir para vós os meus Tesouros.
   Não penseis que ignoro como até aqui vivestes: sei que desprezastes as minhas graças, talvez mesmo hajais profanado os meus Sacramentos. Pois eu vos perdôo.
   E agora, se quereis viver felizes na terra e assegurar ao mesmo tempo a vossa eternidade, fazei o que vou dizer-vos: Sois pobres? Esse trabalho, que vos é imposto pela necessidade, fazei-o com submissão e ficai sabendo que também Eu vivi trinta anos sujeito à mesma lei, porque fui pobre e até muito pobre.
   Não olheis os vossos patrões como a tiranos. Não desejeis a sua desgraça, mas fazei valer os seus interesses e sede fiéis.
   Sois ricos? Tendes por vossa conta operários, servos? Não exploreis o seu trabalho. Remunerai o seu labor segundo a justiça e provai-lhes a vossa afeição e a vossa bondade. Porque, se tendes uma alma imortal, também eles a têm; se recebestes os bens que possuis, não foi somente para vosso gozo e bem estar pessoais, mas a fim de que, administrando-os com prudência, possais exercer a caridade para como o próximo.
   Depois de terdes, uns e outros, aceitado com submissão a lei do trabalho, reconhecei humildemente a existência de um Ser que está acima de tudo o que é criado. Esse Ser é o vosso Pai.
   Como Deus, exige que cumprais a sua Lei Divina.
   Como Pai, pede-vos filial submissão aos seus Mandamentos.
   Assim, depois de terdes passado uma semana inteira nos vossos trabalhos, nos vossos negócios, nos vossos recreios lícitos, pede-vos que deis uma hora ao menos ao cumprimento do seu preceito. Será exigir muito?
   Ide pois à sua Casa, à Igreja. Ele lá vos espera dia e noite; e, em cada domingo ou dia de festa dai-lhe essa hora, assistindo ao mistério de Amor e de Misericórdia que se chama a Missa.
   Durante ela, falai-Lhe de tudo; da vossa família, dos vossos filhos, dos vossos negócios, dos vossos desejos... Apresentai-Lhe as vossas penas, as vossas dificuldades, os vossos sofrimentos. Se soubésseis como Ele vos ouvirá e com que Amor vos atenderá!
   Talvez Me digais: - "Não sei assistir à Missa. Há tanto tempo que não entro numa igreja!" - Não vos atemorizeis. Vinde; passai simplesmente essa hora a meus pés. Deixai que a consciência vos diga o que deveis fazer, e não cerreis os ouvidos à sua voz. Abri vossa alma... Então a minha graça vos falará. Mostrar-vos-á, pouco a pouco, como deveis proceder em cada circunstância da vossa vida, como haveis de comportar-vos com vossa família ou nos vossos negócios; como deveis educar os vossos filhos, amar os vossos inferiores, respeitar os vossos superiores. Ela vos dirá, talvez, que deveis abandonar esta empresa, quebrar aquela amizade má, afastar-vos energicamente daquela reunião perigosa... Ela vos dirá que odiais tal pessoa sem razão e que, ao contrário, destoutra pessoa que freqüentais e amais, deveis separar-vos e fugir dos seus conselhos.
   Experimentai e, pouco a pouco, vereis como se vai estendendo a cadeia das minhas graças. Porque acontece com o bem como com o mal, basta começar. Os anéis da cadeia prendem-se uns aos outros. Se hoje ouvirdes a minha graça e a deixardes trabalhar em vós, amanhã a ouvireis melhor; mais tarde ainda melhor, e assim, de dia para dia, a luz aumentará, a paz crescerá e preparareis a vossa felicidade eterna!
   Porque o homem não foi criado para ficar sempre neste mundo. É feito para a eternidade. Sendo imortal, deve portanto viver, não para aquilo que morre, mas para o que permanecerá.
   Juventude, riqueza, sabedoria, glória humana, tudo isso passa e acaba. Só Deus subsiste por toda a eternidade...
   Se o mundo e a sociedade estão repletos de ódios e em lutas contínuas, povos contra povos, nações contra nações e indivíduos contra indivíduos, é porque o grande fundamento da fé quase desapareceu.
   Reanime-se a fé, e a paz voltará e a caridade reinará.
   A fé não prejudica a civilização e não se opõe ao progresso. Pelo contrário, quanto mais enraíza nos indivíduos e nos povos, mais crescem neles  sabedoria e a ciência, porque Deus é Sabedoria e Ciência infinitas. Mas onde a fé já não existe, desaparece a paz e, com ela, a civilização e o verdadeiro progresso... pois Deus não está na guerra... Já não há senão ódio entre os povos, lutas de opiniões entre si, levantamento das classes umas contra as outras e, no próprio homem, rebelião das paixões contra o dever.
   Desaparece então tudo o que constitui a nobreza do homem.
   Deixai-vos convencer pela Fé e sereis grandes. Deixai-vos esclarecer pela Fé, e sereis livres. Vivei segundo a Fé e não morrereis eternamente.
   Que todas as almas saibam a que ponto meu Amor as procura, as deseja e as espera para enchê-las de felicidade. Corro no encalço dos pecadores como a Justiça no encalço dos criminosos; mas a justiça os procura para castigá-los e Eu para lhes perdoar.
   Quero perdoar. Quero reinar.
   Quero perdoar às almas e às nações. Quero reinar sobre as almas, sobre as nações e sobre o mundo inteiro.
   Para apagar a sua ingratidão, derramarei uma torrente de Misericórdia.
   Para reinar, começarei derramando misericórdia, pois meu reino é de paz e de amor. Sou a sabedoria e a felicidade.
   Sou o Amor e a Misericórdia.

NB.: Talvez possa haver quem desconheça estas belíssimas mensagens do Coração de Jesus a Sóror Josefa Menéndez e, assim, pergunte qual a autenticidade e, portanto, a segurança destas aparições. Pois bem, no prólogo da edição francesa lemos o seguinte: "As almas que lerem estas páginas terão a alegria filial de encontrar aqui - com consentimento de Sua Santidade, dado pelo próprio punho - o autógrafo do Cardeal Pacelli, então Protetor da Sociedade do Sagrado Coração, abençoando a 1ª edição francesa do "Apelo ao Amor".

sábado, 21 de outubro de 2017

O ATO MORAL


"Muitos dizem: Quem nos fará ver os bens? Gravada está, Senhor, sobre nós a luz do teu rosto" (Salmo IV, 6 e 7)

Vimos anteriormente em que consiste o ATO HUMANO. Mister se faz notar, porém, que formalmente  ato humano não é o mesmo que ATO MORAL. A essência da moralidade primariamente consiste na relação do ato humano com a Lei Eterna, que é a vontade de Deus que manda seja conservada a ordem natural, e proíbe que a mesma seja violada. Somente a vontade de Deus pode ser a regra da moralidade, porque só ela é a suprema norma infalível, indefectível e que tem poder de obrigar em consciência. Somente esta lei eterna dá força obrigatória às outras leis. Secundariamente, porém, a essência da moralidade consiste no modo se ser do ato humano em relação à reta razão. Pois, as ações humanas não podem ser comensuradas pela norma suprema da moralidade senão mediante a razão humana, que é, na verdade, uma certa participação e consequentemente, manifestação da razão divina.

NOÇÃO DE ATO MORAL: É aquele que é feito livremente e atendendo a bondade ou malícia do objeto. A moralidade acrescenta ao ato humano, enquanto tal, a consideração da conveniência, e não conveniência que apresenta o objeto com relação ao ser racional; ou seja, a consideração de sua bondade e malícia [alguns autores, como os Scotistas, acrescentam a indiferença] de maneira que os atos e objetos se dizem morais por esta relação.

É oportuno colocar aqui algumas observações de Santo Afonso de Ligório, que, por sua vez se baseia em Santo Tomás de Aquino: 1- O Ato moral (ou ser moral) é tudo e só aquilo que está sob a regra dos costumes, ou sob a Lei de Deus que manda ou permite. Pois, somente por ele nos ordenamos para o nosso fim último ou dele nos afastamos. 2 - É falso colocar a essência da moralidade somente na liberdade. Pois esta é pré-requerida como condição para que o ato possa ser imputado, mas não é em razão dela que o ato é imputado para o louvor ou o vitupério. Pois, quem age livremente, só por isso não é digno de prêmio, mas somente aquele que, sendo livre, age em conformidade com a divina razão ou vontade de Deus. 3 - É falso também fazer consistir a moralidade somente no voluntário. Pois, o voluntário sem liberdade de nenhum modo é imputável, porque sem ela o homem não seria senhor de suas ações. 4 - É falso, outrossim, colocar a opinião pública como regra da moralidade, porque, ela nem é infalível, nem imutável, e portanto, amanhã poderia dizer ser iníquo o que hoje apregoa como honesto (e vice-versa). 5 - Até mesmo as próprias leis civis não podem ser regra suprema dos costumes, porque as leis tanto determinam a bondade ou a malícia do ato, quanto são honestas e racionais, e portanto enquanto participam de um outro critério superior (Cf. Santo Afonso, n. 34 e 35).  

DIVISÃO DA MORALIDADE: É SUBJETIVA ou FORMAL quando é considerada no mesmo ato afetando o sujeito como uma forma. É OBJETIVA ou MATERIAL quando é considerada no objeto mesmo afetando o sujeito a maneira de matéria sobre que versa o ato.

Devemos observar também que se distinguem duas classes supremas, a saber: bondade e malícia moral [alguns autores acrescentam a indiferença moral, pelo menos num sentido impróprio e incompleto] segundo o que o ato e seu objeto estejam de acordo ou não com a natureza racional [ou lhes sejam indiferentes]. Por conseguinte, como os atos tendem para seus objetos não como são em si, senão como os apreende a inteligência, pode acontecer que um mesmo ato seja bom em si mesmo, e mau por razão do objeto enquanto apreendido pelo intelecto, e também se dá o inverso. Por ex.: Quem desse por esmola um dinheiro que falsamente crê ter sido roubado, faria uma obra boa materialmente falando, mas que seria má formalmente; e no sentido inverso: se fizesse a esmola de um dinheiro recebido de alguém, sendo que não pôde suspeitar ter sido roubado, faria uma obra boa formalmente, embora má materialmente considerada.

Observação: Em se tratando de opiniões discutíveis, não as exporei aqui sobre se há ou não ação moralmente indiferente. Apenas esclareço que Santo Tomás de Aquino, prova na Suma Teológica que não há (Cf. S. T. 1. 2, q. 1, a. 6; q. 18, a. 9). S. Tomás confirma sua opinião de que não existe ato indiferente no indivíduo, pelo próprio fato de o ato indiferente ser ocioso, e portanto mau, segundo se vê em Mateus, XII, 36: "Eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os homens, darão conta dela no dia do juízo". Aliás, S. Paulo diz que tudo deve ser feito para a glória de Deus: "Ou comais, ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1 Cor.  X, 31). Pergunta-se, porém, como fazer para que os nossos atos humanos e morais sejam sempre direcionados para ao fim último, isto é, honestamente bons e  meritórios? É evidente que, dada a fragilidade humana, não é possível ter uma intenção explícita atual de fazer tudo por amor a Deus. Assim Santo Afonso diz que, para tanto, basta a pessoa ter a intenção implícita quer atual quer só virtualmente. Em outras palavras, basta agir sob o influxo da intenção de um bem honesto, pelo menos havido anteriormente, porque é uma verdadeira direção do ato para o fim último. E, na prática, Santo Afonso e outros autores espirituais recomendam (não impõem) que os fiéis muitas vezes por dia ou, pelo menos, de manhã ofereçam explicitamente todas suas ações para Deus. Ademais, todas as vezes que urge o preceito de fazer um ato de caridade, urge também o preceito de, atualmente, referir todos os atos para Deus como o Fim Último (Cf. Santo Afonso, L. 2, Tract. 3, c. 2). Lembro aqui para o maior bem das almas a premente recomendação de S. Francisco de Sales, do uso das orações jaculatórias. É salutar lembrar, outrossim, o que o próprio Deus, Nosso Senhor, disse a Abraão: "Anda sempre em minha presença, e serás perfeito"(Gênesis VII, 1).

NORMA DA MORALIDADE: A moralidade, isto é, a bondade ou malícia [ou indiferença] moral, tem como norma: a) CONSTITUTIVA PRÓXIMA: É  a natureza racional humana em quanto tal, considerada em todos seus aspectos e em todas suas relações com os demais seres; CONSTITUTIVA REMOTA: É a natureza divina, como seu protótipo. b) MANIFESTATIVA PRÓXIMA: É  reta razão humana; MANIFESTATIVA REMOTA: é o entendimento divino. c) PRECEPTIVA PRÓXIMA E SUBJETIVA: É a consciência; PRECEPTIVA REMOTA E OBJETIVA: É a lei eterna de Deus.

CONSEQUÊNCIAS:  A MORAL DE SITUAÇÃO, ou existencialismo ético, em que cada qual se entenderia em particular com Deus, tomando diante d'Ele suas decisões não com base nas leis morais universais mas nas condições e circunstâncias concretas nas quais se obra, segundo o juízo da consciência individual, esta moral, digo, repugna à fé e aos princípios católicos. As leis universais não valem tão somente em abstrato para o homem UT SIC, senão também nos casos particulares para o homem UT HIC,  já que o homem existencial com suas notas individuais se identifica em sua íntima estrutura com o homem real para quem se foram promulgadas as leis universais, e não pode, por conseguinte, aceitá-las ou recusá-las à mercê do conhecimento e valorização que delas faça subjetivamente, ainda que com plena sinceridade e disposição afetiva filial diante de Deus (Cf. Pio XII, Aloc. AAS 44 (1952) 414-418; 45 (1953) 280-281).


domingo, 15 de outubro de 2017

O ideal apostólico de Santa Teresa d'Ávila

   Santa Teresa nascera em 1515 e tinha dois anos quando Lutero começou sua revolta contra a Santa Igreja. Morreu ela no ano de 1582, portanto, com 67 anos. Assim sendo teve a grande tristeza de tomar conhecimento dos estragos que Lutero e seus sequazes iam perpetrando em vários países. Eis o que ela diz no primeiro capítulo do seu livro "CAMINHO DE PERFEIÇÃO": "Nesta ocasião, tive notícias dos prejuízos e estragos que faziam os luteranos na França, e o quanto ia crescendo esta desventurada seita. Deu-me grande aflição, e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava com o Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo".
"Deus te perdoe, frei João, me pintaste feia e
remelosa".
   A crise da Igreja na época era realmente muito grande e penetrara até nos Carmelos. Santa Teresa, vendo ser impossível reformar o Carmelo da Encarnação, onde era Carmelita, construiu um outro Carmelo em Ávila, o Carmelo de São José. Seu intento era seguir a  Regra Primitiva de Santo Alberto de Jerusalém. Fundou 17 Carmelos. Reformou, com ajuda de São João da Cruz, não só os Carmelos femininos, mas também os masculinos. São  chamados Carmelitas descalços(as). Pois bem, continuemos a ler Santa Teresa:
"Confiava na grande bondade de Deus, que nunca falta a quem por Ele se decide a tudo deixar. Sendo elas(as irmãs do novo Carmelo de São José) tais como eu as pintava em meus desejos, entre suas virtudes, desapareceriam minhas faltas, e assim poderia de algum modo contentar ao Senhor. E, ocupadas todas em orações pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse ao nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-Lo de novo, deixando-O sem ter onde reclinar a cabeça. Ó meu Redentor, impossível meu coração não se afligir muito! O que se passa agora com os cristãos? Serão sempre aqueles que mais Vos devem, os que mais Vos fazem sofrer? Aqueles a quem maiores benefícios fazeis, que escolheis para amigos, aqueles entre os quais andais e com os quais Vos comunicais pelos sacramentos? Não lhes bastaram os tormentos que por eles padecestes? Certamente, Senhor meu, nada faz quem agora se aparta do mundo! Se nele Vos tratam com tão pouca lealdade, que podemos nós esperar? Merecemos, porventura, que nos correspondam melhor? Acaso lhes fizemos maiores benefícios para que nos tenham amizade? Que é isto? Que esperamos ainda, nós que pela bondade do Senhor não estamos contaminados por esta sarna contagiosa? Quanto a eles(os luteranos), pertencem ao demônio. Bom castigo  já ganharam por suas próprias mãos. Mereceram com seus deleites o fogo eterno. Lá se avenham! (Ao digitar estas palavras de Santa Teresa, me veio a mente o seguinte: Que teria sentido Santa Teresa, se naquela época o Papa elogiasse Lutero? Penso que, com certeza, ela morreria de dor). "Não deixa de partir-me o coração ao ver como se perdem tantas almas. Quisera eu não ver mais perdas cada dia e, ao menos, impedir em parte o mal. Ó minhas irmãs em Cristo! ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui.(no Carmelo de São José). Esta é a vossa vocação. Estes hão de ser vossos negócios. Estes, vossos desejos. Aqui se empreguem vossas lágrimas. Sejam estes os vossos pedidos e não, irmãs, súplicas por negócios do mundo. Rio-me e até me aflijo de ver certas coisas que nos encarregam de pedir a Deus. Querem que alcancemos de Sua Majestade rendas e dinheiro - e não raro são pessoas que, a meu ver, deveriam antes implorar a Deus graça para calcar tudo aos pés. São bem intencionadas, e condescendemos por ver sua confiança. Mas estou convencida de que nestas matérias nunca me ouve o Senhor."
   "O mundo está pegando fogo. Querem, por assim dizer, de novo sentenciar a Cristo, levantam-Lhe mil testemunhos falsos. Pretendem lançar por terra a Sua Igreja.(Aí está a verdade sobre Lutero). E havemos de gastar o tempo em pedidos que, se fossem ouvidos por Deus, teríamos talvez uma alma de menos no céu? Não, irmãs, não é tempo de tratar com Deus assuntos de pouca importância! Por certo, se não fora em atenção à fraqueza humana, tão amiga de ser ajudada em tudo - e justo é fazê-lo, quando está em nossas mãos - gostaria que se entendesse: não são essas as coisas que se hão de pedir a Deus com tanto empenho".

Carmelo da Encarnação em Ávila onde Teresa tomou
o hábito de Carmelita (1536-1563).
   Quero acrescentar aqui as belíssimas palavras do grande D. Chautard no seu extraordinário Livro "A ALMA DE TODO APOSTALADO":
   "Ordinariamente uma oração curta, mas fervorosa, contribui muito mais para apressar uma conversão do que longas discussões e excelentes discursos. Aquele que ora, trata com a CAUSA PRIMEIRA. Opera diretamente sobre ela. Tem, desta sorte, em mãos todas as causas segundas, visto como estas somente desse princípio superior recebem sua eficácia. Por isso o efeito desejado é então obtido com maior segurança e rapidez. Dez mil hereges, no dizer de uma revelação respeitável, foram convertidos por uma só oração inflamada da seráfica Santa Teresa, cuja alma ardendo em amor de Cristo não podia compreender uma vida contemplativa, uma vida interior que se desinteressasse das solicitudes apaixonadas do Salvador pela redenção das almas. "Aceitaria o purgatório, diz ela, até ao juízo final, para livrar uma só dessas almas. E que me importaria a duração dos meus sofrimentos, se assim pudesse livrar uma só alma e sobretudo muitas para maior glória de Deus". E, dirigindo-se às suas religiosas: "Dirigi para este fim inteiramente apostólico, minhas filhas, vossas orações, vossas disciplinas, vossos jejuns, vossos desejos".

Alguns Pensamentos de Santa Teresa d'Ávila

Teresa e Rodrigo fugindo para terra de mouros
   Introdução: Havia em Ávila uma bela Basílica levantada em memória de três pequenos mártires, Vicente e as suas duas irmãs Cristela e Sabina, que haviam negado a oferecer sacrifícios aos falsos deuses em tempos dos romanos. Flagelados, submetidos ao suplício da roda, tinham perseverado nos seus louvores a Jesus Cristo até lhes arrebentarem a cabeça contra as pedras. Os pagãos tinham proibido que os enterrassem, mas uma monstruosa serpente, temida na região pelos estragos que causava, erigira-se em guardiã dos seus inocentes cadáveres; não espantara somente as aves de rapina, mas ainda os profanadores, e um judeu que se arriscara a aproximar-se só conseguira livrar-se invocando o nome de Jesus e prometendo ao monstro que receberia o batismo. Pois bem! A pequena Teresa já imaginava outra basílica em Ávila: a dos irmãos mártires Rodrigo e Teresa. Sabendo que os turcos muçulmanos matavam os cristãos, Teresa e seu irmão Rodrigo fugiram de casa à procura do martírio. Para tanto,  pensavam em ir à terra dos mouros. Este foi um dos primeiros pensamentos de Teresa: morrer mártir por amor a Jesus. Tinha ela, então, 7 anos.

  Meditemos agora em alguns pensamentos desta Doutora da Igreja, Mestra na Vida Espiritual. Mas antes quero lembrar  o dia 27 de setembro de 1970, quando Sua Santidade o Papa Paulo VI proclamou Santa Teresa, Doutora da Igreja: Finda a cerimônia, retirados os paramentos sagrados, o Santo Padre Paulo VI saudando o Prepósito Geral da Ordem dos Carmelitas Teresianos, exclamou com viva alegria: "São tão oportunos hoje os ensinamentos de Santa Teresa, que, na verdade, o relógio da Providência marcou hoje a HORA  de Santa Teresa. Ela nos ensina o caminho verdadeiro, o "caminho" da oração, da comunhão com Deus. Os demais são veredas, nem sempre chegam ao destino. O Espírito Santo deseja que voltemos ao caminho autêntico: "à oração, à vida íntima com Deus. Eis a lição que nos dá Santa Teresa, Doutora da Igreja".
   Assim sendo, ouçamo-la durante alguns instantes, guardemos no coração os seus sábios ensinamentos, meditando-os intimamente e procurando depois praticá-los com fidelidade:

"Nada te turbe, nada te espante; todo se pasa, Dios no se muda. La paciencia todo lo alcanza; quien a Dios tiene nada le falta. Sólo Dios basta". Em português: "Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança; Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta."

"Ou sofrer, ou morrer!
  "Quando considero a glória que tendes preparada, meu Deus, para os que perseveram em fazer a Vossa vontade, quando medito nos trabalhos e dores com que a ganhou o Vosso Filho e quão mal a tínhamos merecido, e quando penso no muito que Ele merece que não se desagradeça a grandeza de amor que tão custosamente nos ensinou a amar, aflige-se a minha alma. Como é possível, Senhor, que se esqueça tudo isto e que tão olvidados estejam de Vós os homens, quando Vos ofendem? Ó Redentor meu, como é possível que assim se esqueçam de si mesmos? Oh! Como é grande a Vossa bondade se apesar disso Vos lembrais de nós! E, tendo nós caído, por Vos ferirmos com um golpe mortal, Vós esquecido disto nos tornais a dar a mão e nos despertais de frenesi tão incurável para que Vos procuremos e Vos peçamos saúde" Bendito seja tal Senhor! Bendita tão grande misericórdia! Ó alma minha! bendiz para sempre a tão grande Deus! Como é possível voltarmo-nos contra Ele?"
   "Ó Senhor, como são suaves os Vossos caminhos! Mas quem caminhará sem temor? Temo estar sem Vos servir e quando Vos vou a servir não encontro coisa que me satisfaça para pagar algo do muito que Vos devo. Parece que me quisera empregar toda nisto mas, quando bem considero a minha miséria, vejo que não posso fazer nada que seja bom, se Vós não mo concedeis".
   "´E claro que a suma perfeição não está nos regalos interiores nem nos grandes arroubamentos, nem visões, nem no espírito de profecia, mas sim em ter a nossa vontade tão conforme com a de Deus, que não entendemos Ele querer alguma coisa sem que a queiramos com toda a nossa vontade e tomemos tão alegremente o saboroso como o amargo". "Agora, ó meu Deus, livremente Vos dou a minha vontade... Cumpra-se em mim, Senhor, a Vossa vontade sempre e como quiserdes. Se me quereis com trabalhos dai-me força e que venham! Se me quereis entre perseguições e enfermidades, desonras e necessidades, não voltarei as costas, ó meu Pai!"
   "Quanto mais as verdades da fé ultrapassam a ordem natural tanto mais firmemente creio nelas e me dão maior devoção. Todas, todas as grandezas que Vós fizerdes ficam explicadas para mim por serdes todo-poderoso; neste ponto jamais tive dúvidas".
 
Transverberação de Santa Teresa d'Ávila (Escultura
de Bernini).  Um anjo transpassou seu coração com
uma seta de amor.  Morreu não de doença, mas de
amor de Deus.  Seu coração não aguentou o ardor
do amor de Deus que a consumia. 
  "Como poderei ter um amor digno de Vós, meu Deus, se Vós não o reforçais com o amor que Vós mesmo me tendes? Só o amor dá valor a todas as coisas e o mais necessário é que seja tão grande que nada o estorve para amar. Mas eu não tenho senão palavras, pois não valho para mais. Valham-me meus desejos, meu Deus, perante o Vosso divino acatamento e não olheis meu pouco merecer. Que mereçamos todos amar-Vos, Senhor! Já que se há de viver, viva-se para Vós, acabem-se os nossos desejos, e interesses. Que maior coisa pode haver do que merecer contentar-Vos? ... Eu desejo, Senhor, contentar-Vos. Mas o meu contentamento, bem o sei, não está em nenhum dos mortais. Sendo assim, não me culpareis o meu desejo. Vedes-me aqui, Senhor! Se é necessário sofrer para Vos prestar algum serviço, não recuso quantos trabalhos me possam vir na terra... Mas que farei para poder contentar-Vos, ó minha alegria e meu Deus! Já que não Vos sirvo em nada, com alguma coisa tenho de me consolar, pois se, nas grandes coisas, Vos servira, não faria caso das ninharias, Bem-aventurados aqueles que Vos servem com obras grandes! Se o desejo e a inveja que lhes tenho me fossem tomados por conta, não ficaria muito atrás em contentar-Vos; mas não valho nada, Senhor meu! Ponde Vós em mim o valor pois tanto me amais!"

   "Quando penso em Cristo devo sempre lembrar-me... do Vosso grande amor, ó Pai, que em Jesus quisestes dar-nos um penhor de tal amor. Amor gera amor: ainda que esteja muito no princípio e eu muito ruim, procuro ter bem presente esta verdade e despertar-me para amar. Quando Vós, ó Senhor, me fizerdes a mercê de me imprimirdes no coração este amor, tudo se me tornará fácil e poderei em breve passar às obras sem nenhum trabalho. Meu Deus dai-me este amor - pois sabeis o muito que me convém - pelo amor que nos tivestes e pelo Vosso glorioso Filho que, tão à Sua custa, no-lo mostrou".