segunda-feira, 31 de julho de 2017

OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO

Alguns excertos da Carta Encíclica "Mens Nostra" do papa Pio XI: ..."É coisa averiguada trazerem consigo os Exercícios Espirituais esta perfeição da vida cristã. Com ela, porém, dimana deles como que espontaneamente, além da paz interior da alma, outro ponto singularíssimo que magnificamente redunda em não pequena vantagem da causa social e é o zelo de ganhar almas para Cristo que se costuma denominar espírito apostólico... Proclamamos e temos o santo retiro dos Exercícios como Cenáculos, que o poder de Deus levantou para que as almas generosas, apoiadas no socorro da graça divina, esclarecidas à luz das verdades eternas, e animadas pelos exemplos de Cristo, não só venham a conhecer de uma maneira clara o preço das almas, e se inflamem  no  desejo de as ajudar em qualquer estado de vida, em que depois de diligente exame entendam dever servir ao seu Criador, mas também aprendam qual seja o ardor e quais as indústrias, os trabalhos e as ações valorosas do apostolado cristão... O mesmo Divino Mestre, não se contentando com os longos anos de escondimento na casa de Nazaré, quis passar quarenta dias inteiros no mais apartado ermo antes de mostrar às nações o pleno esplendor do seu brilho e antes de lhes ensinar de palavra a sua doutrina celeste. Mais ainda. Em plena atividade evangélica costumava de vez em quando  convidar os Apóstolos ao silêncio benfazejo do retiro: "vinde, apartai-vos para o deserto, a descansar um pouco" ( S. Marcos, XI, 31 ). E quando se ausentou desta terra de trabalhos para o céu, quis que os seus Apóstolos e discípulos recebessem a última perfeição no Cenáculo de Jerusalém, onde por espaço de dez dias "perseverando unânimes em oração" ( Atos I, 14 ), se tornassem dignos de receber o Divino Espírito Santo. Retiro verdadeiramente memorável, e primeiro esboço de Exercícios Espirituais. Dele saiu a Igreja, cheia de força e de perpétuo vigor... A partir deste dia a prática dos Exercícios Espirituais, embora não tivesse o nome e o método de que hoje em dia nos servimos, pelo menos na substância "tornou-se familiar entre os primeiros cristãos". Assim o afirmou S. Francisco de Sales ( Tratado do Amor de Deus, liv. 12,c.8 ) e no-lo indicam testemunhos evidentes, que se encontram nas obras dos Santos Padres. S. Jerônimo, por exemplo, exortava a nobre Matrona Celância: "Escolhei um lugar acomodado longe do estrépito da família, aonde como a porto seguro vos possais acolher. Aí, seja tal o gosto da leitura dos Livros Divinos, tão frequentes os tempos de oração, tão assídua a meditação sobre os novíssimos do homem, que com este repouso compenseis as ocupações do resto do tempo. Não pretendemos com estas palavras apartar-vos dos vossos; procuramos sim que aprendais ali  e mediteis como proceder com eles" ( PL., t 22, col. 1216 ).
   Contemporâneo de S. Jerônimo, o bispo de Ravena, S. Pedro Crisólogo, dirigia a todos os fiéis aquele tão conhecido convite:"Demos o espaço de um ano ao corpo; demos à alma alguns dias... Vivamos um pouco para Deus, já que para o século vivemos inteiramente... Ressoe a nossos ouvidos a voz de Deus; não seja perturbada a nossa atenção pelo ruído das ocupações domésticas... Assim amados irmãos, assim prevenidos, declaremos guerra ao pecado... seguros da vitória" ( PL., t. 52, col. 186 ).
   "Num tempo em que os bens temporais, com o consequente bem-estar material, se estendem em certa abundância aos operários e jornaleiros, levando-os assim a uma vida mais desafogada, foi providencial disposição da bondade e misericórdia de Deus tornar mais acessível ainda ao comum dos fiéis o tesouro celeste dos Exercícios Espirituais. Servirão de contrapeso que preservem o homem de cair tristemente no materialismo teórico e prático, para que o estão impelindo as vaidades que o arrastam e as comodidades e delícias da vida em que está engolfado. É por este motivo que justificadamente incitamos e favorecemos as obras em prol dos Exercícios".

  

LEMAS DE SANTO INÁCIO DE LOIOLA

"TUDO PARA A MAIOR GLÓRIA DE DEUS"

   Só um interesse inspirou a vida deste santo extraordinário: o da glória de Deus e da salvação das almas. A este interesse sacrificou e subordinou tudo. É próprio dos santos fazer sempre e em tudo o que Deus quer: fazer a santíssima vontade de Deus e nunca a própria; ou melhor a própria vontade desaparece unida que foi inteiramente à Vontade de Deus. Fazer só o indispensavelmente necessário, com algum cuidado de evitar o pecado mortal, é característico dos tíbios e não dos santos. É mais perfeito procurar sempre o agrado de Deus e dirigir todos os atos à glória de Deus e à salvação da alma. 

"VENCE-TE A TI PRÓPRIO"

   A própria vida de Santo Inácio, desde a sua conversão, foi a fiel interpretação deste lema. Vencendo-se a si, tornou-se o grande Santo. O "vencer-se a si próprio" deve ser o programa de todos os que pretendem chegar à perfeição. O mundo é um vale de lágrimas e misérias, porque o primeiro homem não se soube vencer. O céu regurgita de Santos, que devem a glória ao combate contínuo, que sustentaram contra a natureza. - "Vence-te a ti mesmo" "Vince te ipsum" e terás garantida a tua salvação. Santo Inácio dizia: "Não há outro caminho para a santidade senão o da abnegação e da mortificação. Anima-te, pois! Começa resolutamente! Uma única mortificação, feita com decisão, é mais agradável a Deus que praticar muitas boas obras". 

"QUÃO DESPREZÍVEL É A TERRA QUANDO OLHO PARA O CÉU"

   "A boca fala da abundância do coração": Santo Inácio era chamado o homem que está sempre em colóquio com Deus e vê o céu aberto. Os olhos procuram o que mais lhes agradam. Caríssimos, nós somos cidadãos do céu. Ele é nossa pátria definitiva. Estamos na terra como peregrinos e estrangeiros. Portanto, despojemo-nos do apego a qualquer coisa da terra: riquezas, prazeres, honras. Olhemos para o céu. "Senhor! dai-me a vossa graça e o vosso amor: e serei suficientemente rico" (Santo Inácio).
   "SANTO INÁCIO DE LOIOLA!  ROGAI POR NÓS!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA ENQUANTO SACRIFÍCIO


"Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome uma oblação pura" (Malaquias I, 11).

23. Enquanto sacrifício, esse mistério augustíssimo derrama não somente sobre cada homem, mas sobre todo o gênero humano, uma grandíssima abundância de frutos de salvação; por isso a Igreja costuma oferecê-lo assiduamente pela salvação do mundo inteiro. Convém que todos os piedosos cristãos se esforcem por aumentar cada vez mais a estima e o culto desse sacrifício; e nos nossos dias é isto mais do que nunca necessário. Por isto nós queremos que as suas virtudes múltiplas sejam conhecidas mais perfeitamente e mais atentamente meditadas.

24. Os princípios seguintes são manifestamente reconhecidos pelas luzes naturais da razão: Deus criador e conservador possui sobre os homens, quer a título privado quer sob o ponto de vista público, um poder supremo e absoluto; tudo o que somos e tudo o que temos de bom, individualmente e na sociedade, vem-nos da liberalidade divina: em troca, testemunhar a Deus o maior respeito como ao nosso senhor, e uma vivíssima gratidão como ao nosso principal benfeitor. E no entanto, hoje em dia quantos homens se contam que praticam e observam estes deveres com a piedade que convém? Se jamais houve época em que se mostrasse o espírito de revolta contra Deus é certamente esta, em que de novo reboam mais fortes contra Cristo estes gritos ímpios: "Não queremos que este reine sobre nós" (S. Luc. XIX, 14), e estas palavras criminosas "Arranquemo-lo do meio de nós" (Jer. XI, 19). E há mesmo uns que se encarniçam com impetuosa violência em banir definitivamente Deus de toda sociedade civil e conseguintemente de toda associação humana.

25. Se bem que um tal grau de demência celerada não se manifeste em toda parte, todavia é triste ver quantos esqueceram a divina Majestade, dos seus benefícios e sobretudo da salvação que Cristo nos adquiriu. Mas agora tal perversidade ou tal despreocupação devem ser reparadas por uma reduplicação de ardor de piedade comum para com o sacrifício eucarístico: nada pode honrar mais a Deus nem lhe ser mais agradável. Divina, com efeito, é a vítima que é imolada: por ela, pois, nós tributamos à augusta Trindade toda a honra exigida pela sua imensa dignidade; oferecemos também a Deus Pai um holocausto de valor e de doçura infinitos, seu Filho único; donde resulta que não somente rendemos graças à sua benevolência, mas nos quitamos inteiramente para com o nosso benfeitor.

26. Desse tão grande Sacrifício podemos e devemos recolher ainda um duplo fruto dos mais preciosos. A tristeza invade o espírito de quem reflete nesse dilúvio de torpezas que por toda parte se entornou depois, que, como dissemos, o poder divino foi deixado de lado e desprezado. O gênero humano parece, em grande parte, chamar sobre si a cólera do céu; de resto, essa messe de obras culpadas que se levanta está também madura para a justa reprovação de Deus. Cumpre, pois, excitar os fiéis piedosos e zelosos a se esforçarem por aplacar a Deus que pune os crimes, e por obterem para um século de calamidades socorros oportunos. Saibamos que esses resultados devem ser pedidos sobretudo por esse Sacrifício. Porquanto não podemos satisfazer plenamente as exigências da divina justiça, nem obter em abundância os benefícios da clemência divina, senão pela virtude da morte de Cristo. Ele quis que essa virtude da morte de expiação e de oração ficasse inteira na Eucaristia: esta não é uma vã e simples comemoração da sua morte, mas é a sua reprodução verdadeira e maravilhosa, posto que mística e incruenta.

27. Aliás, apraz-nos declará-lo, grande alegria experimentamos em ver que nestes últimos anos as almas dos fiéis começaram a renovar-se no amor e devoção ao sacramento da Eucaristia, o que nos faz esperar tempos e acontecimentos melhores [ndr.: foi o tempo de São Pio X, o Papa da Eucaristia]. Neste intuito, como fizemos notar no início desta Carta, obras numerosas e variadas foram estabelecidas por uma piedade inteligente, especialmente as confrarias, fundadas quer para aumentar o brilho das cerimônias eucarísticas, quer para adorar perpetuamente, dia e noite, o augusto Sacramento, quer enfim para reparar os insultos e as injúrias que a ele são feitos. Todavia, Veneráveis Irmãos, não nos é lícito, nem a vós tão pouco, descansar sobre o que foi realizado: porque muito mais ainda resta por fazer e por empreender para que esta dádiva, de todas a mais divina, receba, daqueles mesmos que praticam os deveres da religião cristã, homenagens mais numerosas e mais esplendentes, e para que tão grande mistério seja honrado o mais dignamente possível.

Conclusão: renovar o antigo fervor.

28. É por isso que cumpre aperfeiçoar com ardor dia a dia mais vigoroso as obras empreendidas, fazer reviver, onde quer que tenham desaparecido, as antigas instituições, e entre outras as confrarias eucarísticas, as rogações ao Santíssimo Sacramento exposto às adorações dos fiéis, as procissões solenes e triunfais feitas em sua honra, as piedosas genuflexões diante dos divinos tabernáculos, e todas as outras santas e salutaríssimas práticas do mesmo gênero; cumpre-nos, além disso, empreender tudo aquilo que nesta matéria podem sugerir-nos a prudência e a piedade. Mas é preciso sobretudo nos esforçarmos por fazer reviver em larga medida nas nações católicas o uso frequente da Eucaristia. É o que ensinam o exemplo da Igreja nascente, lembrado mais acima, os decretos dos Concílios, a autoridade dos Padres e dos homens mais santos de todas as épocas. Como o corpo, a alma precisa a miúdo de alimento: ora, a Sagrada Eucaristia oferece-lhe o alimento de vida por excelência. E é por isso que mister se faz dissipar os preconceitos dos adversários, os vãos temores de grande número de pessoas, e afastar absolutamente as razões especiosas de se abster da comunhão. Porque se trata de uma devoção que, mais do que qualquer outra, será útil ao povo cristão, já para desviar o nosso século da sua inquieta solicitude pelos bens perecíveis, já para fazer renascer e alimentar constantemente em nossas almas o espírito cristão.

29. Sem dúvida alguma, as exortações e os exemplos dados pelas classes elevadas, mormente o zelo e a atividade do clero, para isso contribuirão poderosamente. Com efeito, os sacerdotes que o Cristo Redentor encarregou de cumprir e de dispensar os mistérios do seu Corpo e do seu Sangue, melhor não podem certamente agradecer-lhe a grandíssima honra que receberam, do que se esforçando para desenvolver com todo o seu poder a glória eucarística de Jesus Cristo, e, consoante os desejos do seu Coração santíssimo, convidar e atrair as almas dos homens às fontes ordinárias de tão augusto sacramento e de tão grande sacrifício".


(Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS" escrita pelo Papa Leão XIII em 28 de maio de 1902). 

sábado, 15 de julho de 2017

FRUTOS QUE SE DERIVAM DA DEVOÇÃO À SS. EUCARISTIA


"Vinde a mim, vós todos, que estais oprimidos, e eu vos aliviarei" (S Mateus XI, 28).

20. Estes poucos ensinamentos a propósito de um assunto tão vasto serão, não duvidamos, fecundos em frutos de salvação para o povo cristão se, por vossos cuidados, Veneráveis Irmãos, forem em tempo oportuno expostos e recomendados. Mas esse sacramento é tão grande e tão abundante em toda sorte de virtudes, que ninguém poderá jamais nem lhe celebrar assaz eloquentemente os louvores, nem por suas adorações honrá-lo como ele o merece. Quer o meditemos com piedade, quer o adoremos nas cerimônias oficiais da Igreja, quer sobretudo o recebamos, com a pureza e a santidade requeridas, deve ele ser considerado como o centro de uma vida cristão tão completa como pode sê-lo; todas as outras modalidades de piedade, quaisquer que sejam, conduzem e vão ter, em última análise, à Eucaristia. Mas é principalmente neste mistério que se realiza e se cumpre cada dia o benévolo convite e a promessa, mais benévola ainda, de Cristo: Vinde a mim, vós todos, que estais onerados, e eu vos aliviarei (S. Mat. XI< 28).

21. Esse mistério, finalmente, é como que a alma da Igreja; é para ele que se eleva a própria plenitude da graça sacerdotal pelos diversos graus das Ordens. É nele, ainda, que a Igreja haure e possui toda a sua virtude e toda a sua glória, todos os tesouros das graças divinas e todos os bens: por isso ela consagra os maiores desvelos a dispor e a trazer os espíritos dos fiéis a uma íntima união com Cristo por meio do sacramento de seu Corpo e de seu Sangue; é pelo mesmo motivo que ela procura fazê-lo venerar ainda mais pelo esplendor das suas cerimônias mais santas. A perpétua solicitude desenvolvida a este respeito pela Igreja, nossa Mãe, é magnificamente salientada por uma exortação publicada no santo Concílio de Trento, a qual respira uma caridade e uma piedade admiráveis e merece verdadeiramente que a transmitamos integralmente ao povo cristão: "O Santo Concílio adverte com afeto paternal, exorta, pede e conjura, pelas entranhas da misericórdia de nosso Deus, todos  e cada um dos que trazem o nome de cristãos, a se unirem enfim e viverem em boa harmonia nesse sinal da unidade, nesse vínculo da caridade, nesse símbolo de concórdia; a se lembrarem da tão grande majestade e do tão admirável amor de Jesus Cristo Nosso Senhor, que deu sua alma bem-amada como preço da nossa salvação, e que nos deixou seu corpo como alimento; a crerem e a venerarem esses mistérios sagrados do corpo e do sangue de Cristo com uma fé tão constante e tão firme, com uma devoção, uma piedade e um respeito tais, que possam frequentemente receber esse pão supersubstancial, que este seja deveras a vida das suas almas e a saúde perpétua dos seus corações, e que, fortificados por esse alimento, possam, ao sair desta miserável vida, chegar à pátria celeste, onde se nutrirão sem velame desse Pão dos anjos que agora só lhes é distribuído sob os véus sagrados" (Sess. XIII, De Echar., X, c. VIII).

22. Também a história nos atesta que a vida cristã foi especialmente florescente no povo nas épocas em que a Eucaristia era recebida mais frequentemente. Em compensação, e fato é este não menos certo, as pessoas se habituaram a ver o vigor da fé cristã enfraquecer-se sensivelmente à medida que os homens negligenciavam o pão celestial e, por assim dizer, lhe perdiam o gosto. Para que essa fé não desaparecesse completamente, no Concílio de Latrão Inocêncio III tomou uma medida oportuníssima, fazendo para todo cristão uma obrigação gravíssima de não se abster da comunhão do Corpo do Senhor ao menos por ocasião das solenidades pascais. Evidente é, porém, que esse preceito foi dado com pesar e como remédio extremo: porque a Igreja sempre desejou que em cada sacrifício os fiéis pudessem participar desse banquete divino. "O Santo Concílio desejaria que em cada missa os fiéis presentes não fizessem apenas a comunhão espiritual, mas, também que viessem receber sacramentalmente a Eucaristia; assim os frutos desse Santíssimo Sacrifício manariam mais abundantes sobre eles" (Conc. Trid. sess. XXII, c. VI).


(Excerto da Encíclica "MIRAE CARITATIS"  de Leão XIII sobre a Santíssima Eucaristia, escrita em 1902). 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA FOMENTA VÁRIAS OUTRAS VIRTUDES


"Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia" (S. João VI, 55).
"Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha" (1 Cor. XI, 26).
"Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós todos que participamos de um mesmo pão" (1 Cor. X, 17).

A esperança

13. Eis aqui outro efeito deste sacramento: ele fortifica maravilhosamente assim a esperança dos bens imortais como a confiança no socorro divino. De feito, o desejo da felicidade, natural a todas as almas e inato nelas, é cada vez mais aguçado pela falsidade dos bens terrenos, pelas injustas violências de homens infames, enfim por todas as outras dores físicas e morais. Ora, o augusto sacramento da Eucaristia é ao mesmo tempo a causa e o penhor da felicidade e da glória, não para a alma somente, mas também para o corpo. Porquanto, enriquecendo as almas da abundância dos bens celestes, eles as inundam de alegrias dulcíssimas bem superiores aos que os homens imaginam e esperam: ampara-os na adversidade, dá-lhes forças no combate pela virtude, guarda-os para a vida eterna, e a ela os conduz fornecendo-lhes de alguma sorte os víveres necessários à viagem. Quanto ao corpo frágil e sem força, essa divina Hóstia comunica-lhe o germe da ressurreição futura: o corpo imortal de Cristo infunde-lhe uma semente de imortalidade que, um dia, germinará e dará seus frutos. Que esta dupla sorte de bens deva daí resultar para a alma e para o corpo, sempre o ensinou a Igreja, conformemente à afirmação de Cristo: "Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo VI, 55).

A penitência

14. O nosso assunto leva-nos a considerar, e é isto para nós de grande interesse, que a Eucaristia, instituída por Nosso Senhor como um memorial eterno da sua paixão, demonstra ao cristão a necessidade de emendar-se eficazmente (S. Tomás de Aquino, Opusc. LVIII, Ofício da festa do SS. Sacramento). Jesus disse, efetivamente, aos seus primeiros sacerdotes: Fazei isto em memória de mim (S. Lucas, XXII, 19); quer dizer, fazei-o para recordar minhas dores, minhas amarguras, minhas angústias, minha morte na cruz. É por isso que este sacramento - e esse sacrifício   -  é uma exortação constante a fazer penitência em todo tempo, e a suportar os maiores sofrimentos; é também uma grave e severa condenação desses prazeres que homens sem pudor tanto gabam e exaltam: Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha (1 Cor XI, 26).

A caridade do próximo

15. Além disso, se investigarmos seriamente as causas dos males presentes, veremos que eles decorrem de haver a caridade dos homens entre si esmorecido ao mesmo tempo que se lhes arrefecia o amor a Deus. Eles se esqueceram de que são filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo; não se preocupam senão com seus interesses pessoais; quanto aos negócios alheios, não somente os descuram, mas não raras vezes os atacam e deles se apossam. Daí, entre as diversas classes de cidadãos, distúrbios e frequentes conflitos: a arrogância, a dureza e as fraudes, entre os poderosos; entre os pequenos, a miséria, a invejas e as divisões. Debalde se procura remediar esses males por leis previdentes pelo temor do castigo e pelos conselhos da prudência humana. Como já mais de uma vez e mais detidamente lembramos, é preciso preocupar-se e esforçar-se por obter que, por uma permuta de bons ofícios, as diversas classes de cidadãos contraiam entre si uma união de que Deus seja o princípio, e que produza  obras conformes ao espírito fraterno e à caridade de Jesus Cristo. Trouxe Cristo à terra essa virtude e quis que todos os corações sejam abrasados dela, a única capaz de proporcionar, mesmo para a vida presente, um pouco de felicidade assim para a alma como para o corpo: por ela, com efeito, o amor imoderado de si é refreado no homem;  por ela é reprimido o desejo ardente das riquezas, que é a raiz de todos os males (1Tim VI, 10). Se bem que, em verdade, se devam fazer observar todas as prescrições da justiça nas relações das diversas classes de cidadãos, todavia é principalmente com o socorro e os temperamentos da caridade que se poderá enfim obter a realização e a mantença, na sociedade humana, dessa igualdade aconselhada por São Paulo (2 Cor. VIII, 14).

16. Instituindo esse augusto sacramento, Cristo quis excitar o amor a Deus e, por esse mesmo fato, reaquecer o afeto mútuo entre os homens. Evidente é, com efeito, que este deriva naturalmente daquele, e que dele decorre como que espontaneamente. É impossível que ele venha a faltar no quer que seja; muito mais, ele será necessariamente ardente e vigoroso se os homens considerarem seriamente nesse sacramento o amor de Cristo a eles: aí, o poder e a sabedoria de Cristo manifestam-se com esplendor, e as riquezas do seu divino amor aos homens aí são como que derramadas (Conc. Trid. ss. XIII. De Euchar., cap. II). À vista do exemplo insigne de Cristo prodigalizando-nos todos os seus bens, quanto não devemos nós amar-nos e ajudar-nos mutuamente, nós que estamos unidos por laços fraternos cada dia mais estreitos! Acrescentemos que os sinais constitutivos desse sacramento são, por sua vez incitamentos muito apropriados a essa união. A este respeito, S. Cipriano escreve: Enfim, os próprios sacrifícios do Senhor afirmam a universal união dos cristãos entre si por uma caridade firme e indissolúvel. Com efeito, quando o Senhor chama "seu corpo" ao pão formado por um conjunto de grãos, indica a união do nosso povo; e quando chama "seu sangue" ao vinho espremido desses milhares de cachos ou bagos de uva e formando uma só quantidade líquida, designa também o nosso rebanho formado pelo mistura de uma multidão de homens reunidos (Ep. 69, ad Magnum, n. 5). Do mesmo modo, nestes termos reproduz o Doutor angélico o pensamento de Agostinho (Trat. XXVI, in Joan., n. 13, 17): Nosso Senhor confiou seu corpo e seu sangue a essas substâncias que são formadas de múltiplos elementos reduzidos a um só corpo; primeiramente é o pão, composto de numerosos grãos reunidos; e em seguida é o vinho, proveniente de bagas inúmeras; e é por isso que Agostinho diz noutro lugar: Ó sacramento de piedade, ó sinal de unidade, ó vínculo de caridade! (Sum. Theol., III p., q. 79).

17. Essa doutrina é confirmada pelo Concílio de Trento, que ensina haver Cristo deixado à Igreja a Eucaristia "como o símbolo da sua unidade, e da caridade pela qual Ele quis que todos os cristãos fossem unidos e ligados entre si...; o símbolo desse corpo único de que Ele foi a cabeça, e ao qual quis que estejamos intimamente presos, como membros, pelos laços estreitíssimos da fé, da esperança e da caridade" (Sessão XIII, De Euchar., c. II). É também o que São Paulo ensinara: Por sermos um só pão, um só corpo, apesar do número, nós todos, que participamos de um só pão (1 Cor X, 17). E, certamente, belíssimo e dulcíssimo exemplo de fraternidade cristã e de igualdade social é ver se comprimirem indistintamente em torno dos altares o patrício e o homem do povo, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, participando todos igualmente do mesmo banquete celeste. E se, merecidamente, nos anais dos seus primórdios, cabe à Igreja uma glória especial de que a multidão dos crentes não tivesse senão um só coração e uma só alma (Atos IV, 32), não há dúvida alguma de que esse resultado tão precioso era devido à frequentação da mesa divina. Lemos, com efeito, a respeito dos primeiros cristãos: Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão da fração do pão (Atos II, 42).

(Da Encíclica "MIRAE CARITATIS"  de Leão XIII Sobre a Santíssima Eucaristia). 

terça-feira, 11 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA FOMENTA A FÉ E REFREIA AS PAIXÕES


"O Senhor instituiu um memorial das suas maravilhas, ele que é misericordioso e compassivo. Deu alimento aos que o temem"  (Salmo 110, 4 e 5).

A fé

10. Graças a esse sacramento excelentíssimo, onde aparece sobretudo como os homens são elevados à natureza divina, podem estes fazer os maiores progressos em todas as virtudes da ordem sobrenatural. E primeiramente a fé. Em todos os tempos a fé tem tido os seus adversários: porquanto, se bem que ela eleve o espírito humano pelo conhecimento das verdades mais sublimes, todavia, como mantém oculta a natureza dessas verdades que ela mostra como excedendo a natureza, por isso mesmo parece rebaixar os espíritos. Outrora atacava-se ora tal dogma de fé, ora tal outro; mais tarde, essa guerra estendeu a muito mais longe as suas devastações, e, na hora presente, chegou-se afirmar que absolutamente não existe nada de sobrenatural. Ora, nada mais apto a reconduzir aos espíritos o vigor e o fervor da fé que o mistério eucarístico, propriamente chamado o mistério de fé: por uma especial abundância e variedade de milagres, ele sozinho contém tudo o que está acima da natureza: O Senhor clemente e misericordioso perpetuou a lembrança de suas maravilhas: deu um alimento aos que o temem (Salmo 110, 4 e 5). Realmente, se Deus fez tudo o que está acima da natureza, referiu-o à Encarnação do Verbo, pela qual devia operar-se a restauração e a salvação do gênero humano, consoante a palavra do Apóstolo: Ele se propôs... restaurar em Cristo tudo o que está no céu e tudo o que está na terra (Efésios I, 9  e 10).

11. No testemunho dos santos Padres, a Eucaristia deve ser considerada como uma continuação e uma extensão da Encarnação; por ela, a substância do Verbo encarnado é ainda a cada um dos homens, e o supremo sacrifício do Calvário é renovado de maneira admirável, segundo esta profecia de Malaquias: Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome, uma oblação pura (Malaquias I, 11). Esse milagre, o maior de todos no seu gênero, é acompanhado de milagres inúmeros. Aqui todas as leis da natureza são suspensas: toda a substância do pão e do vinho é convertida no Corpo e no Sangue de Cristo; as espécies do pão e do vinho, não contendo realidade alguma, são sustentadas pelo poder divino; o corpo de Cristo acha-se presente simultaneamente em tantos lugares quantos lugares houver onde o sacramento se cumpre simultaneamente. E, para obter da razão humana uma maior submissão a respeito de tão grande mistério, milagres realizados outrora e em nossos dias, e de que em mais de um lugar existem testemunhos públicos, lhe vêm, por assim dizer, em auxílio, e contribuem para a glória da Eucaristia. Esse sacramento, pois, como vemos, alimenta a fé, nutre o espírito, destrói os sistemas dos racionalistas, e mostra-nos sobretudo os esplendores da ordem sobrenatural.

Refreia as paixões


12. Não obstante, o enfraquecimento da fé nas verdades divinas não é unicamente obra do orgulho de que falamos mais acima; é devido também à depravação do coração. Porquanto, se é um fato de experiência que, quanto melhores os costumes de um homem, tanto mais viva também a sua inteligência, em compensação os prazeres da carne embotam os espíritos: reconheceu-o a prudência pagã e predisse-o a sabedoria divina (Sab. I, 4). Mas é sobretudo na ordem das coisas divinas que as volúpias carnais obscurecem a luz da fé, e mesmo, por uma justa reprovação de Deus, a extinguem. Em nossos dias, o desejo insaciável desses prazeres da carne [ndr: que diria hoje Leão XIII?!] incendeia  todos os homens, que mesmo desde a mais tenra juventude, sentem os efeitos desse contágio mórbido. O remédio para um mal tão horrendo acha-se na Eucaristia. O seu primeiro efeito é, aumentando a caridade, reprimir a paixão. Santo Agostinho diz, com efeito: O alimento desta (da caridade) é o enfraquecimento da paixão, e a sua perfeição é ausência da paixão(De diversis quaestionibus LXX  XII, quaest. XXXVI). Além disso, como o ensinou S. Cirilo de Alexandria, a carne castíssima de Jesus comprime a insolência da nossa carne: Realmente, o Cristo existente em nós aplaca a lei da carne que impera nos nossos membros (Liv. IV, c. II, sobre S. João, VI, 57). Bem mais, o fruto todo particular e dulcíssimo da Eucaristia é Aquele que esta profecia significava: Que há de bom n'Ele (em Cristo), e que há de belo, se não é o trigo dos eleitos e o vinho que faz germinar as virgens? (Zac. IX, 17); quer dizer, esse desejo forte e constante da santa virgindade, que, mesmo num século imerso nas delícias, floresce na Igreja Católica sobre uma extensão de dia para dia mais vasta e com abundância sempre crescente. Em toda parte, bem se sabe, é ele uma fonte de progresso e de glória para a religião e para a sociedade. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

JESUS NA EUCARISTIA É FONTE DE VIDA SOBRENATURAL


"Eu sou o pão da vida" . "Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo" (Jo. 6, 48 e 52).

Demos a palavra ao Papa Leão XIII, de santa memória:

5. "Conhecer com fé íntegra a virtude da Santíssima Eucaristia, tal qual é, é conhecer tal qual é a obra que, na sua onipotente misericórdia, Deus feito homem realizou em favor do gênero humano. Porquanto a mesma fé que nos obriga a confessar e a honrar a Cristo como o soberano Autor da nossa salvação, o qual, pela sua sabedoria, pelas suas leis, ensinamentos, exemplos e pela efusão do seu sangue, renovou todas as coisas, igualmente nos força a crê-lo e adorá-lo assim realmente presente na Eucaristia, onde ele próprio permanece mui verdadeiramente até o fim dos tempos no meio dos homens, e como mestre e pastor cheio de bondade, como intercessor onipotente junto a seu Pai, para haurir em si mesmo e distribuir a eles com eterna abundância os benefícios da sua redenção. Quem atenta e religiosamente considerar os benefícios que emanam da Eucaristia, compreenderá que o mais excelente e o mais eminente é aquele que contém todos os outros, sejam quais forem: com efeito, é da Eucaristia que se transfunde nos homens essa vida que é a verdadeira vida: O Pão que darei é a minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52).

6. Não é só desta maneira (...) que Cristo é a Vida, Ele que declarou que o fim da sua vinda ao meio dos homens era trazer-lhes verdadeira abundância de uma vida mais do que humana: Vim a fim de que eles tenham a vida e a tenham superabundantemente (Jo 10, 10). E, realmente, ninguém o ignora, desde que a bondade e a humanidade de Deus nosso Salvador apareceram (Tito 3, 4) na terra, fez-se sentir uma força criadora de uma ordem de coisas toda nova e a difundir-se em todas as veias da sociedade civil e doméstica. Desde então, novas relações se estabeleceram entre o homem e seu semelhante, novas leis regeram a sociedade e os indivíduos, novos deveres foram impostos, as instituições, as ciências e as artes adquiriram novo surto; mas o principal é que os corações e as mentes foram reconduzidos à verdade da religião e à pureza dos costumes; bem mais: uma vida toda celeste e toda divina foi-nos comunicada; é o que certamente significam estas expressões frequentemente relembradas na Sagrada Escritura: lenho de vida, palavra de vida, livro de vida, coroa de vida, e, em particular, pão de vida.

7. A vida de que falamos tem muita semelhança com a vida natural do homem, e esta é entretida e fortalecida pelo alimento; deve, pois, aquela ser sustentada e reanimada pelo seu alimento próprio. Importa lembrar aqui em que tempo e de que maneira Cristo nos exortou e induziu a receber convenientemente e dignamente o pão de vida que ele se propunha dar-nos. Quando se espalhou a notícia do milagre da multiplicação dos pães, realizado nas margens do lago de Tiberíades para saciar a multidão, logo muitos afluíram para Ele, esperando talvez obter para si mesmos um benefício semelhante. Jesus aproveitou essa ocasião, e, assim como outrora, à Samaritana que lhe pedia tirar para ela água do poço, Ele mesmo inspirara a sede da água que jorra para a vida eterna (Jo 4, 14), assim também eleva as almas dessa multidão ávida a fim de fazer desejar com mais ardor esse outro pão que permanece para a vida eterna (Jo 6, 27). "Mas esse pão, diz Jesus prosseguindo o seu ensinamento, não é aquele maná celeste que, na sua marcha através do deserto, vossos pais acharam já pronto; não é sequer esse que, de todo admirados, recebestes recentemente de mim; porém eu mesmo sou esse pão: Eu sou o pão de vida (Jo, 6, 48). E, para ainda mais os convencer desta verdade, dirige-lhes este convite e lhes dá este preceito: Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52). Ele mesmo lhes prova assim a importância desta ordem: Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do homem e se não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós (Ib. 54, 10). Longe de nós, pois, esse erro, tão difundido e perniciosíssimo, dos que pensam que o uso da Eucaristia deve ser quase exclusivamente reservado a esses homens livres de todos os cuidados, acusados de terem o coração estreito, e de só o repouso buscarem num regime de vida mais religiosa. Esse bem,  fora do qual nada é mais excelente nem mais salutar, oferece-se a todos indistintamente, sejam quais forem a condição e a categoria de cada um; pertence a todos os que querem (e ninguém há que não deva querê-lo) alimentar em si a vida da graça, cujo termo é a aquisição da vida bem-aventurada com Deus.

8. E prazam ao céu façam uma justa ideia da vida eterna e não a percam de vista aqueles, sobretudo, cujo talento, atividade, autoridade tanto podem para dirigir os acontecimentos e os homens. Mas, ao contrário, vemos e deploramos que a maioria deles consideram com orgulho o haverem inculcado ao século como que uma vida nova e próspera, porque, graças ao seu impulso, o obrigam a marchar a largos passos para toda sorte de progressos e de maravilhas. Na realidade, para qualquer lado que se dirijam os olhares, o que se verá é a sociedade humana, se se afastar de Deus, ao invés de fruir da tranquilidade que deseja, ser, ao contrário, presa de angústia e de agitação, como o doente atormentado por uma febre ardente: ao passo que ela aspira ansiosamente à prosperidade em que coloca a sua única esperança, vê-a desaparecer e fugir-lhe no momento em que acredita possuí-la. Efetivamente, os homens e os Estados dependem necessariamente de Deus, de sorte que não podem viver, nem mover-se, nem fazer qualquer bem senão em Deus, por Jesus Cristo, de quem têm promanado e promanam abundantemente todos os bens, os melhores e os mais preciosos.
9. Ora, a fonte e o princípio de todos esses bens é sobretudo a sagrada Eucaristia: esta entretém, fortifica essa vida cuja privação nos causa tamanho pesar, e aumenta maravilhosamente essa dignidade humana de que se faz tanto caso agora. Com efeito, que coisa maior e mais desejável do que nos tornarmos, tanto quanto possível, participantes e associados da natureza divina? Ora, é isso precisamente o que Cristo nos concede na Eucaristia, pela qual ele prende e une a si ainda mais estreitamente o homem, elevado pela graça até à divindade. Há, com efeito, esta diferença entre o alimento do corpo e o da alma: que aquele se converte na nossa própria carne, ao passo que este nos transforma nele; e, a este propósito, eis o que Santo Agostinho faz o próprio Cristo dizer: Tu não me transformarás em ti como faz o alimento de tua carne, mas serás transformado em mim (Conf. lib. 7, c. 10).

AVISO: Até aqui são palavras do Papa Leão XIII, na Encíclica Sobre  Santíssima Eucaristia, "Mirae Caritatis" escrita em 1902.

Quero aproveitar o ensejo para avisar ao "FRATRES IN UNUM" e aos seus caríssimos leitores que ficarei em recesso nesta coluna por 2 meses a partir do dia 17 de julho. Farei, se Deus quiser OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO (30 dias) e depois farei várias consultas e tratamentos médicos. Caríssimos, peço-lhes a caridade de vossas valiosas orações e, desde já, vos agradeço. Que Deus Nosso Senhor abençoe a todos e os cumule de escolhidas graças. Salve Maria! Amém!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SANTA MARIA GORETTI

PUREZA NA LAMA
                                                                                                                  Dom Fernando Arêas Rifan*

        A virtude da pureza está se tornando uma pérola rara e esquecida, em meio a essa onda de devassidão que assola o mundo de hoje. Por isso vale a pena recordar a vida da Santa cuja memória Igreja celebra amanhã, Santa Maria Goretti, mártir da pureza.
        Santa Maria Goretti, denominada a Santa Inês do século XX, foi assassinada em 6 de julho de 1902, com cerca de 12 anos de idade, porque preferiu morrer a ofender a Deus, pecando contra a castidade, como a queria forçar seu assassino. Ela era uma menina de família católica, de boa formação. Tive a graça de visitar, por duas vezes, o local do seu martírio.
        Dela disse o Papa Pio XII: “Santa Maria Goretti pertence para sempre ao exército das virgens e não quis perder, por nenhum preço, a dignidade e a inviolabilidade do seu corpo. E isso não porque lhe atribuísse um valor supremo, senão porque, como templo da alma, é também templo do Espírito Santo. Ela é um fruto maduro do lar cristão, onde se reza, onde se educam os filhos no temor de Deus e na obediência aos pais. Que o nosso debilitado mundo aprenda a honrar e a imitar a invencível fortaleza desta jovem virgem”.
        Seu assassino, Alessandro Serenelli, então com 20 anos, passou 30 anos na prisão e, graças às orações e ao perdão da santa, arrependeu-se e se converteu, morrendo santamente aos 89 anos num convento dos padres capuchinhos em 6 de maio de 1956.
        Ele escreveu o livro “O Punhal de tantos remorsos”, onde diz: “Aos 20 anos, cometi um crime passional, de que agora tenho horror só em recordá-lo. Maria Goretti, agora santa, foi o anjo bom que a Providência colocou no meu caminho para me salvar. Peço perdão ao mundo pelo ultraje feito à mártir Maria Goretti e à pureza. Exorto a todos a se manterem afastados dos espetáculos imorais, dos perigos e das ocasiões que podem conduzir ao pecado. Eu gostaria que os que lessem esta carta (seu testamento) aprendessem a fugir do mal e a fazer sempre o bem. Pensassem desde crianças que a religião, com seus preceitos, não é algo de que se possa prescindir, senão o verdadeiro alento, o único caminho seguro em todas as circunstâncias da vida, até as mais dolorosas”.
        Santa Maria Goretti e muitas outras santas e santos que viveram sua pureza e castidade são exemplo para todos, especialmente em meio à lama de impureza que nos cerca de todos os lados, especialmente pelos espetáculos e pelos meios de comunicação.
        Eu recordo as graves palavras do saudoso Dom Lucas Moreira Neves, acusando a Televisão, o que poderíamos aplicar também a certos sites da Internet, pela onda de impureza que traz para dentro dos lares: “Acuso-a de ministrar copiosamente a violência e a pornografia. A primeira é servida em filmes para todas as idades. A segunda impera, solta, em qualquer gênero televisivo: telenovelas, entrevistas, programas ditos humorísticos, spots publicitários e clips de propaganda. A TV brasileira está formando uma geração de voyeurs, uma geração de debilóides. Acuso-a de ser corruptora de menores”.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O SACERDOTE É O AMOR DO CORAÇÃO DE JESUS


Catecismo do Santo Cura d'Ars sobre o Sacerdócio

   Meus filhos, chegamos ao sacramento da Ordem. É um sacramento que parece não dizer respeito a ninguém dentre vós, e que diz respeito a toda gente. Esse sacramento eleva o homem até a Deus. Que é o sacerdote? Um homem que ocupa o lugar de Deus, um homem que é revestido de todos os poderes de Deus. "Ide, diz Nosso Senhor ao sacerdote, assim como meu Pai me enviou, assim eu vos envio... Todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, instruí todas as nações... Quem vos escuta a mim escuta; quem vos despreza a mim despreza".
   Quando o padre perdoa os pecados, não diz: "Deus te perdoe". Diz: "Eu vos absolvo". Na consagração, ele não diz: "Isto é o corpo de Nosso Senhor". Diz: "Isto é o meu corpo".
   São Bernardo diz que tudo veio por Maria. Podemos dizer também que tudo nos veio pelo sacerdote: sim, todas as venturas, todas as graças, todos os dons celestes.
   Se não tivéssemos o sacramento da Ordem, não teríamos Nosso Senhor. Quem foi que o pôs aí neste tabernáculo? Foi o padre. Quem foi que recebeu vossa alma à entrada na vida? O padre. Quem a alimenta para lhe dar a força de fazer a sua peregrinação? O padre. Quem a prepara para comparecer perante Deus, lavando essa alma pela primeira vez no sangue de Jesus Cristo? O padre, sempre o padre. E se essa alma vier a morrer, quem a ressuscitará? Quem lhe restituirá a calma e a paz? Ainda o padre. Nos vos podeis lembrar de um só benefício de Deus sem encontrardes, ao lado dessa lembrança, a imagem do padre.
   Ide-vos confessar à Santíssima Virgem ou a um anjo: eles vos absolverão? Não. Dar-vos-ão o corpo e o sangue de Nosso Senhor? Não. A Santíssima Virgem não pode fazer descer seu divino Filho à hóstia. Tivésseis aí duzentos anjos, e eles não poderiam absolver-vos. Um padre, por mais simples que seja, pode-o; pode dizer-vos: "Ide em paz, eu vos perdôo". Oh! como o padre é alguma coisa de grande!
   O padre só será bem compreendido no céu... Se o compreendêssemos na terra, morreríamos, não de pavor, mas de amor...
   Os outros benefícios de Deus de nada nos serviriam sem o padre. De que serviria uma casa cheia de ouro, se não tivésseis ninguém para vos abrir a porta? O padre tem as chaves dos tesouros celestes; é ele quem abre a porta; ele é o ecônomo de Deus, o administrador dos seus bens.
   Se não fosse o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor de nada serviriam. Vede os povos selvagens: de que lhes serviu que Nosso senhor morresse? Ai! eles não poderão ter parte nos benefícios da redenção enquanto não tiverem padres para lhes fazerem a aplicação do seu sangue.
   O padre não é padre para si; não dá a si a absolvição, não administra a si os sacramentos. Ele não é para si, é para vós.
   Depois de Deus o sacerdote é tudo!... Deixai uma paróquia vinte anos sem padre, adorarão ali os animais.
   Se o senhor missionário e eu fôssemos embora, vós diríeis: "Que fazer nesta igreja? Não há mais missa. Nosso Senhor não está mais nela, tanto vale rezar em casa..."
   Quando se quer destruir a religião, começa-se por atacar o padre, porque onde quer que não haja mais padre, não há mais sacrifício, e onde não há mais sacrifício, não há mais religião.
   Quando um sino vos chama à igreja, se vos perguntassem: "Onde ides?" Poderíeis responder: "Vou alimentar minha alma". Se vos perguntassem, mostrando -vos o tabernáculo: "Que é essa porta dourada? É a copa: é o guarda-comida de minha alma. Quem é que tem a chave dele, quem faz as provisões, quem apronta o festim, quem serve à mesa? É o padre. - E a comida? - É o precioso Corpo de Nosso Senhor..." Ó meu Deus, meu Deus, como nos amastes!
   Vede o poder do padre! A língua do padre, de um pedaço de pão faz um Deus! É mais que criar o mundo. Alguém dizia: "Santa Filomena obedece então ao Cura d'Ars? Certo, ela bem pode obedecer-lhe, já que Deus lhe obedece.
   Se eu encontrasse um padre e um anjo, cumprimentaria o padre antes de cortejar o anjo. Este é amigo de Deus, mas o padre faz as vezes de Deus... Santa Teresa beijava o lugar por onde um padre havia passado...
   Quando virdes um padre, deveis dizer: "Eis aquele que me tornou filho de Deus e me abriu o céu pelo santo batismo, aquele que me purificou depois do meu pecado, que dá a comida a minha alma..." À vista dum campanário, podeis dizer: "Que há ali? - O corpo de Nosso Senhor. - E por que está ele ali? - Porque um padre passou por ali e disse missa".
   Que alegria tinham os apóstolos depois da ressurreição de Nosso Senhor, por verem o Mestre que tanto haviam amado! O padre deve ter a mesma alegria vendo Nosso Senhor que ele segura nas mãos...  Dá-se grande valor aos objetos que foram depositados na escudela da Santíssima Virgem e do Menino Jesus em Loreto. Mas os dedos do padre, que tocaram a carne adorável de Jesus Cristo, que mergulharam no cálice onde esteve o seu sangue, no cibório onde esteve o seu corpo, não são porventura mais preciosos?...
   O sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo.

domingo, 25 de junho de 2017

O CORAÇÃO DE JESUS E O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA
25º dia de junho

Somos não apenas imperfeitos, mas pecadores. E a missão principal de Jesus consiste precisamente em libertar-nos do pecado. São João Batista apontou a Jesus às margens do Jordão e disse: "Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados do mundo". Jesus Cristo não veio apenas cobrir os nossos pecados. Isto é blasfêmia proferida por Lutero. Segundo o heresiarca, Jesus teria feito uma obra não de purificação interna através do Seu Sangue. E no entanto diz o Apocalipse: "Nos amou (Jesus Cristo) e nos lavou dos nossos pecados nos seu sangue" (Apoc. I, 5). Mas como o Coração de Jesus pleno de amor e misericórdia, aplica o preço infinito de seu Sangue derramado em sua Paixão e Morte e até a última gota através da abertura da lança feita em seu Coração já morto mas sempre unido à Divindade? Para apagar os nossos pecados, Jesus derrama sobre nós o seu sangue através do Sacramento da Penitência.  E aqui está a obra-prima da misericórdia do Coração de Jesus. Como a Santíssima Eucaristia, também o Sacramento da Confissão merece ser chamado o mistério do amor, o Sacramento do Coração de Jesus. É o mistério do amor indulgente até o ponto de esquecer a si mesmo.

Para aquilatarmos até onde vai a misericórdia do Coração de Jesus no Sacramento da Penitência, meditemos sobre o que aconteceu com os Anjos. Foram salvos do pecado por uma graça de preservação e os que foram infiéis a ela foram atingidos à primeira rebelião, sem esperança de perdão. Foi criado imediatamente o inferno, e os anjos maus foram os primeiros condenados a ele, à esta prisão eterna de tormentos. Entretanto, o homem, na verdade mais fraco e mutável, será objeto de uma conduta diversa da parte de Deus: o homem não se tornou impecável após o seu primeiro ato meritório e também não será atingido inexoravelmente após à sua primeira queda.

O homem terá que lutar contra o pecado durante toda sua vida, a todo instante e a todo instante poderá ser vencido, porque o Sacramento do Batismo elimina o pecado original mas não as suas consequências que é a concupiscência. O homem terá que merecer o céu neste campo de luta renhida e diuturna e até ao último suspiro. E nesta luta quantas quedas, quantas derrotas! Estaríamos condenados. Mas graças ao Sacramento da Penitência, está em poder do pecador levantar-se das próprias quedas. Somente a infinita misericórdia do Coração de Jesus podia operar semelhantes maravilhas.

Com a graça de Deus, aprofundemos mais este mistério de misericórdia e também da onipotência divina. E a primeira maravilha operada pelo Coração de Jesus, no sacramento da Penitência é reconciliar o interesse da glória de Deus e o do homem pecador, a conservação da lei e a salvação do transgressor da lei, a reparação da culpa e a conservação do culpado. 

Mas uma objeção talvez aflore na mente de alguém: a facilidade do perdão não pode aumentar a facilidade de pecar? Caríssimos, dada esta misericórdia mal entendida que hoje está quase se tornando moda, acredito que o demônio possa se aproveitar disto. Pelo ensinamento tradicional, porém, a facilidade do perdão, é vista considerando a gravidade do pecado, tão infinitamente criminosa que o Pai Eterno entregou o seu Filho Unigênito à imolação mais ignominiosa e cruel. A nós Deus exige o arrependimento sincero e profundo e por conseguinte um propósito firme e eficaz de evitar as ocasiões, a obrigação de vigiar e rezar e de fazer penitência. Eis o que diz São Paulo: "Ou desprezaste as riquezas da sua bondade e paciência e longanimidade? Ignoras que a bondade de Deus te convida à penitência? Mas com a tua dureza e coração impenitente acumulas para ti um tesouro de ira no dia da ira e da manifestação do justo juízo de Deus, que há de dar a cada um segundo as suas obras" (Rom. II, 4-6). Assim, caríssimos, não nos aproximemos nunca do sacramento da Penitência sem meditar a dolorosa noite do Getsêmani, na qual o Coração de Jesus se sobrecarregou de todas a nossas iniquidades, iniquidades estas cuja expiação se tornou para nós tão fácil, mas oprimiram tão fortemente o Coração adorável de Jesus que um suor de sangue banhou todo o corpo do Salvador e inundou a terra. É o mesmo sangue que hoje é derramado sobre nós no momento da absolvição.


Esta tentação de minimizar o pecado e até tê-lo em conta de nada ou quase nada, será afastada pela meditação da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Contemplando a bondade e paciência do Coração de Jesus, façamos nossas confissões com arrependimento profundo dos nossos pecados e por eles façamos mais penitências além das que o confessor nos impõe no confessionário. Amém!

sábado, 24 de junho de 2017

O CORAÇÃO DE JESUS FALA AOS SACERDOTES

Caríssimos colegas no sacerdócio, imaginemos Jesus aparecendo a cada um de nós, como apareceu a Santa Margarida Maria Alacoque e dizendo-nos: "Eis aqui este Coração, que amou tanto os homens, e que por eles é tão pouco amado. Mas o que mais sinto, é que encontro ingratos até entre os meus ministros! Tu não podes mostrar-me maior amor do que fazendo o que já tantas vezes te pedi. Prometo-te, que o meu Coração se abrirá para derramar as suas bênçãos sobre os que o honrarem e empregarem o seu zelo em fazê-lo honrar".

   Caríssimos, meditemos nestas queixas do Sagrado Coração de Jesus. 

  "Eis aqui o Coração": Jesus no-lo oferece; é o seu. É a obra prima do Espírito Santo: "Nele habita corporalmente toda plenitude da divindade". É o órgão das mais nobres, das mais puras, das mais sublimes afeições. É o coração dos melhor dos pais, do mais sincero dos amigos. Sempre tão pronto a comover-se na presença dos que sofrem!

   "Que tanto amou os homens": Caríssimos, notai a palavra tanto. Sem dúvida que o Salvador dos homens os amou a todos, visto que morreu por todos. Mas até que ponto os amou? Quem o compreenderá? Quem o dirá? Lembremo-nos, por exemplo, do presépio, onde fez-se nosso irmão; do Cenáculo, onde fez-se nosso alimento; do Calvário onde foi o nosso resgate!...

   No céu, Jesus Cristo será a nossa recompensa! Um Deus  descendo dos resplendores da sua glória até às misérias da nossa humanidade, sujeitando-se a todas as humilhações, para nos elevar até ao seu trono, suportando todos os tormentos para nos alcançar uma suprema felicidade; um Deus fundando a Igreja, para nela estar sempre conosco, querendo que o seu corpo seja a nossa comida e o seu sangue seja a nossa bebida! Sendo poderosíssimo, não poderia dar mais!



   Caríssimos sacerdotes, se Jesus amou tanto os homens, que lugar ocupamos nós entre os que ele mais tem amado? Qual é o nosso ofício na Igreja, em que Ele reside, se oferece, e se nos dá? Que parte temos nós sacerdotes nos favores, que ele prodigaliza aos seus mais prezados amigos?

   'E que deles é tão pouco amado": Oh! que aflitiva palavra! Quantas almas desconhecem a generosa caridade do Coração de Jesus para com elas! Quantas outras a conhecem, sem que lha agradeçam! "Eu só recebo ingratidões da maior parte dos homens, sou abandonado, desprezado, insultado no sacramento do meu amor". Jesus procura consoladores, e não os encontra nem mesmo na classe sacerdotal, entre os que Ele distinguiu de todos os outros, com uma afeição incomparavelmente mais terna!

   "Mas o que mais sinto é que os meus ministros assim procedam comigo": Se eles não O amam, quem O amará? E contudo, quantos Sacerdotes dão ocasião a tão dolorosas queixas?! Sem falarmos dos que Lhe fazem uma guerra sacrílega com as profanações e os escândalos, quantos O tratam sem respeito, sem o amor verdadeiro? Enfastiam-se de Sua presença; celebram com tibieza; não têm tempo para conversar com Ele depois da Missa... Ó Jesus! quero confessá-lo, por mais que me custe: eu mereço cem vezes mais exprobrações que as que me dirigis. Humilho-me fazendo justiça: sou um dos ingratos de quem dizíeis: "Os outros limitam-se a ferir o meu corpo; mas estes ferem o meu Coração, que nunca deixou de amá-los". 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

 SEXTA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA DEPOIS DO PENTECOSTES.

   Ó Jesus, concedei-me a graça de penetrar os segredos escondidos no Vosso divino Coração.

   1- Depois de termos fixado o nosso olhar na Eucaristia, dom que coroa todos os dons do amor de Jesus aos homens, a Igreja convida-nos a considerar diretamente o amor do Coração de Cristo, fonte e causa de todo o dom. Pode afirmar-se que a festa do Sagrado Coração de Jesus é a festa do Seu amor por nós. "Eis o Coração que tanto amou os homens", disse Jesus a Santa Margarida Maria; "eis o Coração que tanto amou os homens", repete-nos hoje a Igreja, mostrando-nos que "no Coração de Cristo, ferido pelos nossos pecados, Deus se dignou dar-nos, misericordiosamente, infinitos tesouros de amor" (cfr. Coleta). Inspirando-se neste pensamento, a liturgia de hoje refere-nos os imensos benefícios que nos provêm do amor de Cristo, é um hino de louvor ao Seu amor. "Cogitationes Cordis ejus", canta o Introito da Missa: "Eis os pensamentos do Seu Coração - do Coração de Jesus - através das gerações: arrancar as almas da morte e alimentá-las em sua fome". O Coração de Jesus anda sempre à procura de almas para salvar, para livrar dos laços do pecado, para lavar com o Seu Sangue, para alimentar com o Seu Corpo. O Coração de Jesus está sempre vivo na Eucaristia para saciar a fome dos que por Ele suspiram, para acolher e consolar todos os que, desiludidos pelas amarguras da vida, se refugiam n'Ele em busca de paz e alívio. E o próprio Jesus nos ampara na aspereza do caminho. "Tomai o meu jugo sobre vós, aprendei de mim, que sou manso e humilde de Coração, e achareis repouso para as vossas almas" (Alleluia). Se é impossível eliminar da vida toda a dor, é no entanto possível, a quem vive com Jesus, sofrer em paz e encontrar no Seu Coração repouso para a alma cansada.

   2- O Evangelho e a Epístola fazem-nos considerar ainda mais diretamente, o Coração de Jesus. O Evangelho (Jo. 19, 31-37) mostra-nos o Seu Coração posto a descoberto pela ferida da lança, e Santo Agostinho comenta: "O Evangelista disse abriu, a fim de nos mostrar que, de alguma maneira, se nos abre ali a porta da vida, donde brotaram os Sacramentos". Do Coração trespassado de Cristo - símbolo da amor que O imolou por nós na Cruz - brotaram os Sacramentos, figurados na água e no sangue saídos da Sua chaga, através dos quais recebemos a vida da graça; sim, é justo dizer que o Coração de Jesus foi aberto para nos introduzir na vida. "Estreita é a porta que conduz à vida" (Mt. 7, 14), disse Jesus um dia; mas se por esta porta entendemos a chaga do Seu Coração, podemos dizer que não nos podia abrir uma porta mais acolhedora.
   São Paulo, na sua belíssima Epístola, (Ef. 3, 8-19), convida-nos a entrar, ainda mais adentro, no Coração de Jesus para contemplar as Suas "riquezas incompreensíveis" e penetrar o "mistério escondido, desde o princípio dos séculos, em Deus". Este "mistério" é exatamente o mistério do amor infinito de Deus que nos preveniu desde a eternidade e que nos foi revelado pelo Verbo feito carne; é o mistério daquele amor que nos quis remir e santificar em Cristo, "no qual temos segurança e acesso a Deus". Mais uma vez Jesus Se nos apresenta como a porta que conduz à salvação: "Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo" (Jo. 10, 9); e a porta é o Seu Coração que, rasgando-se por nós, nos introduziu na vida. Só o amor nos pode fazer penetrar neste mistério de amor infinito; mas não basta um amor qualquer, é necessário, como diz São Paulo, estarmos "arraigados e fundados na caridade". só assim poderemos "conhecer aquele amor de Cristo que excede toda a ciência, para que sejamos cheios de toda a plenitude de Deus". 

   Colóquio: ... "Se vós, ó Jesus, sois a minha Cabeça, por que não deverá chamar-se meu, aquilo que é Vosso? Não é verdade que são meus os olhos da minha cabeça? Portanto o Coração da minha Cabeça espiritual é o meu coração. Que alegria para mim! Olhai: Vós e eu temos um só coração. Entretanto, ó Jesus dulcíssimo, havendo reencontrado este Coração divino que é Vosso e meu, elevarei a Vós, Deus meu, a minha prece: acolhei no sacrário das Vossas audiências as minhas orações, ou antes, atraí-me inteiramente ao Vosso Coração" (São Boaventura). 

(Meditação extraída do Livro "INTIMIDADE DIVINA" do P. Gabriel de Sta. M. Madalena, O.C. D.)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

VISITA AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DO ALTAR



Estás, ó minha alma, na presença do teu Deus! Aqui está sobre este altar Jesus Sacramentado, aquele mesmo que se fez homem por teu amor. Recolhe-te, pois, dentro de ti mesma; despe todos os cuidados terrenos e adverte bem que entras a falar com Deus. Une-te em espírito aos milhões de Serafins, que cercam o sagrado tabernáculo, e adora tu também com os anjos e santos a teu Senhor, ao Deus de infinita majestade que em si só resume as delícias e glória do paraíso.

Meu Jesus amantíssimo, creio firmemente, porque assim o ensinastes, que vós estais presente neste divino Sacramento em Corpo, Sangue, Alma e Divindade; que sois Aquele mesmo Deus, que por mim encarnastes, nascestes e morrestes, e agora vos assentais à direita de vosso divino Pai, e que um dia haveis de ser ainda meu Remunerador. Tudo isso eu creio, ó meu Jesus, e em vós creio que sois a primeira e infalível verdade. Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé, já que a vossos pés humilhado vos adoro com os Anjos do Céu, em espírito e verdade, e todo me confundo e desapareço no abismo de vossas perfeições infinitas e do meu nada.

Ó Jesus, todo meu amor, Deus de toda a esperança, confiado nas vossas promessas, espero de vossa infinita Misericórdia todo o bem. Eu sei que o vosso sangue me perdoa todos os pecados, me dá a confiança de me chegar a vosso divino Pai, e me abre as portas do Céu. Espero que sobre mim derramareis a enchente de vossas graças para que eu possa viver santamente nesta vida mortal e depois gozar eternamente no Céu. Tenho a firme certeza de que alcançarei tudo o que de Vós espero.
Meu Senhor Sacramentado, que todo ardeis em chamas de caridade, e vos abrasais em vivíssimo fogo de amor para comigo, que mais não sou para convosco do que a mesma dureza e insensibilidade! Quem me dera que eu todo ardesse em vosso amor! Pudera eu amar-Vos como juntos Vos amam o Céu e a Terra! Acendei, Vos rogo, ó Jesus, em meu coração gelado um amor digno de Vós. Fazei que toda a minha alma e todo o meu ser se empreguem em Vos amar. Amo-Vos, Criador e Redentor meu, e Vos amarei sempre. Meu desejo é ver-Vos amado de todo o mundo e procurar-Vos toda a glória que mereceis, ainda mesmo à custa do meu próprio sangue.

Reconheço, Senhor, a minha impiedade, e detesto os meus pecados. O pó levantou-se contra Vós, o nada rebelou-se contra o Tudo. Ah! meu Jesus, que monstro de ingratidão sou eu! Longe de amar-Vos, vos tenho ofendido, e o que é pior ainda na vossa presença, meu Deus Sacramentado. Agora, porém, Vos peço perdão de todos os meus pecados; pesa-me  de os haver cometido, e mais que tudo detesto as ofensas feitas contra Vós, meu Bem infinito, amável sobre todas as coisas. Antes morrer, ó Jesus, do que tornar a ofender-Vos. Bem sei que sou indigno de perdão, mas vossa infinita Misericórdia me anima a esperá-lo. Perdoai-me, pois, ó Pai de infinita Misericórdia e sustentai a minha fragilidade.

Graças Vos dou, amabilíssimo Jesus, de todo o meu coração por Vos terdes deixado ficar entre nós no Santíssimo Sacramento do Altar; por terdes entrado em minha alam pela sagrada Comunhão, fazendo-Vos meu alimento, e por me admitirdes agora na vossa divina presença. Por mim Vos deem as devidas graças os Anjos do céu, todos os santos, e as almas dos justos e sobretudo Vossa Mãe, Maria Santíssima.

Meu dulcíssimo Jesus, que poderei dar-vos em troca de vos terdes sacrificado inteiramente por meu amor? Tomai todo o meu ser que vos ofereço em perpétuo holocausto; e por isso Vos consagro minha alma com todas as suas potências, meu corpo com todos os seus sentidos, e meu coração com todos os seus afetos. Aos interesses de vossa glória ofereço outrossim tudo quanto está ao meu alcance, quanto sou e quanto posso.

Eu Vos recomendo, Senhor, a Igreja, vossa Esposa, e o Sumo Pontífice, seu chefe visível . Enchei-o de vosso Espírito para santificação sua e nossa. Recomendo-vos também os hereges e infiéis para que das trevas de seus erros passem à luz da vossa Fé. Recomendo-Vos as minha necessidades espirituais e temporais e as de todos os fiéis cristãos. A todos dai-nos o necessário sustento, e fazei que reinem entre nós a paz e vossa divina graça. Dai descanso, Senhor, às almas do Purgatório; ajudai aos agonizantes; consolai os aflitos; convertei os perseguidores. Rogo-Vos também em favor dos pobres pecadores, para que esclarecidos com vosso divino lume e com a vossa graça, convertidos por meio de uma verdadeira penitência, tornem a Vós, Pai amoroso, sempre pronto a acolhe-los; outrossim Vos suplico por aqueles que nos regem e governam, para que o façam com justiça e respeitando sempre os Vossos preceitos;  por meus parentes, benfeitores, amigos e também inimigos, que assim mandais.

Rogo-Vos, enfim, que desse trono de Misericórdia, desse tabernáculo de Amor, desse altar de graças, me concedais o que tantas vezes me tendes prometido dar. Eu Vos peço o Espírito do bem e, por vosso intermédio, dulcíssimo Jesus , o peço a Vosso divino Pai. Oh! dai-mo para ter forças de resistir ao demônio e de vencer as suas ciladas; dai-mo para que com ele e com vossa graça possa perseverar constantemente no bem até exalar o último alento de minha vida.

Ouvi meus prantos, Senhor; escutai meus rogos, Deus de Misericórdia, que assim me vereis sempre sujeito à vossa divina Lei, e conformado com a vossa santíssima vontade.


Vinde a mim, Senhor; vinde a meu coração e santificai-o com a vossa graça. Vinde, ó saudade dos eternos outeiros, esperado de todas as nações, amor de todos os Patriarcas; vinde a mim. Uno-me convosco, e no vosso Coração sagrado todo me escondo. Outro bem não quero, senão a Vós. Fora de Vós nada mais quero. Dai-me vossa bênção, só ela me satisfaz eternamente. Amém!

domingo, 4 de junho de 2017

TESTEMUNHO DO ESPÍRITO SANTO

   

   O que é que procuram fazer algumas seitas protestantes? Exatamente o inverso. Convencidas de que para alguém estar em graça de Deus, é preciso, primeiro que tudo, estar plenamente certificado disto, procuram incutir no espírito de todos os seus adeptos a ideia de que são filhos de Deus e que o Divino Espírito Santo lhes está atestando isto: que são realmente co-herdeiros de Cristo e herdeiros do Céu.

   Ora, a coisa mais fácil deste mundo é um pecador que está aferrado ao pecado convencer-se de que é filho de Deus e de que irá para o Céu com toda a certeza, se este pecador vem sendo trabalhado por uma seita que já o convenceu de que nem a observância da lei divina, nem as boas obras contribuem para justificação do homem, nem são necessárias para a salvação e que o vai sempre acostumando a ver em Jesus Cristo EXCLUSIVAMENTE um Advogado que temos para com o Pai (1ª João II-1) e nunca isto: um Justo Juiz que há de vir na glória de seu Pai com os seus anjos; e então DARÁ A PAGA SEGUNDO AS SUAS OBRAS (Mateus XVI-27).

   Tanto mais que este crente está acostumado a olhar para o que se passa neste mundo e a ver como frequentemente os advogados conseguem pôr no olho da rua muitos que deveriam permanecer sob as grades da prisão... E pode facilmente esquecer que o Advogado que temos para com o Pai é, como diz o próprio São João,  Jesus Cristo JUSTO (1ª João II-1) e, sendo justo, só pode advogar a causa daqueles que realmente são dignos de receber o perdão, por se acharem sinceramente arrependidos. 

   Não venham os protestantes dizer que se distingue facilmente a voz do Espírito Santo e a voz do nosso próprio orgulho e presunção. Pois podemos logo dar uma amostra bem clara do contrário. Todas as seitas protestantes, ao mesmo tempo que vão imbuindo da sua própria interpretação os seus adeptos, vão incutindo também neles a ideia de que o DIVINO ESPÍRITO SANTO ILUMINA, ESCLARECE A INTELIGÊNCIA DE CADA UM PARA BEM PENETRAR O SENTIDO DAS ESCRITURAS. O resultado é que, como veremos mais tarde, as interpretações da Escritura são as mais disparatadas e contraditórias, mas todos os protestantes, desde Lutero até o mais recente nova-seita, estiveram e estão plenamente convencidos de que a sua interpretação, foi o Divino Espírito Santo quem lhes inspirou! Nunca foi tão caluniado o Espírito Santo como nestes últimos tempos, desde o nascimento do Protestantismo até os dias de hoje! O Espírito Santo é infalível, não há dúvida alguma; a questão está apenas em saber quando é que o Espírito Santo nos fala e quando é que nos está falando no nosso íntimo o nosso próprio EU instigado por uma secreta vaidade. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

AS TRÊS PROCISSÕES DE SÃO BENTO LABRE

 LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Diz S. Bento Labre que há três classes de pecadores que se confessam: penitentes perfeitos, penitentes imperfeitos, penitentes falsos. Ao saírem do confessionário, eles se dividem e formam como que TRÊS PROCISSÕES, cada uma das quais toma um caminho bem diferente.

·      -   A primeira procissão é composta de penitentes perfeitos, isto é, daqueles que procuraram com cuidado, no fundo, do seu coração, todos os pecados cometidos. Em seguida, fizeram deles uma confissão boa, compenetrados de uma dor sincera de ter ofendido a Deus infinitamente bom, o mais terno dos pais, estando bem resolvidos a satisfazer neste mundo à justiça divina, ajuntando à penitência que lhes tinha sido imposta na confissão outras penitências espontâneas e, para remissão das suas penas temporais, recorrendo às indulgências da Igreja. Se estes santos penitentes são bem fiéis, subirão ao céu no mesmo instante da sua morte, e alcançarão logo a felicidade eterna.

·     -    O segundo grupo é composto dos penitentes imperfeitos. Nada de essencial faltou à sua confissão, nem o exame, que foi sério, nem a acusação dos pecados, que foi humilde, sincera e inteira, nem a contrição, que foi sobrenatural e profunda. Mas, fracos e pouco zelosos para levarem até o fim um trabalho de purificação por atos de contrição e de amor reiterados, por mortificações, esmolas e indulgências, morrem na amizade de Deus, sem que possam gozar logo da sua união, porque têm ainda de satisfazer à justiça divina. Eles são condenados ao purgatório, para lá se purificarem das manchas de que tão facilmente se poderiam purificar sobre a terra.

·     -    Finalmente, a terceira classe é composta dos falsos penitentes. Por sua culpa foi-lhes o remédio transformado em veneno mortal. Todos os cristãos sacrílegos chegam ao inferno pelo caminho que os devia conduzir ao céu; no inferno gemem eternamente por ter feito servir a sua condenação o que podia ser para eles um meio de salvação. Exclamarão durante toda a eternidade: por que não me converti cuidadosamente, não me acusei sinceramente, não me arrependi verdadeiramente?

Eis aí, caríssimos, o que dizia S. Bento Labre, o santo pobre de Jesus Cristo, para induzir os outros a que façam só boas confissões.

Terminemos com os conselhos do Padre Perriens: Alma cristã, não vos esqueçais de aplicar às almas do purgatório o maior número de indulgências que puderdes; fazendo-lhes esta caridosa aplicação, não receeis ficar passível das penas que tendes merecido. Santa Gertrudes, à hora da morte, afligia-se por não ter feito nada pela sua alma; pois, tudo quanto fizera de bem tinha-o aplicado às almas do purgatório. Então Jesus Cristo lhe apareceu e disse: Gertrudes, alegra-te; tua caridade para com as almas do purgatório foi-me tão agradável, que, depois da tua morte, serás isenta de toda a pena, e far-te-ei acompanhar ao paraíso por todas as minhas esposas queridas que a teus sufrágios devem o ter saído do purgatório".


quarta-feira, 24 de maio de 2017

CORRUPÇÃO EPIDÊMICA!

CORRUPÇÃO EPIDÊMICA!  

                                                                                                                                         Dom Fernando Arêas Rifan* 

          Certa vez, um rei perguntou aos seus ministros a causa de o dinheiro público não chegar ao seu destino como quando saiu da sua fonte. Um ministro mais velho, sentado na outra cabeceira da mesa, tomou uma grande pedra de gelo e pediu que a passassem de mão em mão até o Rei. Quando a pedra lá chegou estava bem menor. O ministro então disse: é essa a explicação: “passa por muitas mãos e sempre deixa alguma coisa”.
          A corrupção é considerada pela ONU o crime mais dispendioso de todos, causa de muitos outros. A corrupção propicia a ocupação de cargos por pessoas indignas, manobras políticas, compra de votos, licitações desonestas, o desvio, a malversação e o desperdício do dinheiro público, a impunidade, o tráfico de drogas, a sua veiculação nos presídios etc.
          “Aquele que ama o ouro não estará isento de pecado; aquele que busca a corrupção será por ela cumulado. O ouro abateu a muitos... Bem-aventurado o rico que foi achado sem mácula... Quem é esse homem para que o felicitemos? Àquele que foi tentado pelo ouro e foi encontrado perfeito está reservada uma glória eterna:... ele podia fazer o mal e não o fez” (Eclo 31, 5-10). São palavras de Deus para todos nós.
        Ao ler o título desse artigo, pensa-se logo nos políticos. Mas há muita gente, fora da política, que se enquadra nesse título: quantos exploradores da coisa pública, quantos sugadores do Estado, que não são políticos! Aí se enquadram todos os profissionais ou amadores que se corrompem pelo dinheiro.  Quem vota por dinheiro é corrupto. Quem vota apenas por emprego próprio é corrupto. Quem corre atrás dos políticos para conseguir benesses espúrias é corrupto.
        O Papa Francisco tem insistido sobre a diferença entre pecado e corrupção, entre o pecador e o corrupto. Pecadores somos todos nós, mas corrupto é aquele que perdeu a noção do bem e do mal. Já não tem mais o senso do pecado. Os corruptos fazem de si mesmos o único bem, o único sentido; negando-se a reconhecer a Deus, o sumo Bem, fazem para si um Deus especial: são Deus eles mesmos. O Papa lembrou que São Pedro foi pecador, mas não corrupto, ao passo que Judas, de pecador avarento, acabou na corrupção. “Que o Senhor nos livre de escorregar neste caminho da corrupção. Pecadores sim, corruptos, não.” (Homilia, 4/6/2013).
         A Igreja proclamou padroeiro dos Governantes e dos Políticos São Tomás More, “o homem que não vendeu sua alma”, exatamente porque soube ser coerente com os princípios morais e cristãos até ao martírio. Advogado, Lorde Chanceler do Reino da Inglaterra, preferiu perder o cargo com todas as suas regalias e a própria vida a trair sua consciência. Possa o exemplo de Santo Tomás More ensinar aos políticos, atuais e futuros, e a todos nós, que o homem não pode se separar de Deus, nem a política da moral, e que a consciência não se vende por nenhum preço, mesmo que isto nos custe caro e até a própria vida.
         Que Nossa Senhora, Auxílio dos Cristãos, que hoje celebramos, interceda pelo nosso Brasil para que Deus o livre desse grande mal da corrupção.

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A PENITÊNCIA DADA PELO CONFESSOR

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 Outra parte necessária da confissão é a SATISFAÇÃO, ou seja, a penitência imposta ao penitente pelo confessor. Dizemos que a satisfação ou penitência na confissão é parte necessária mas não essencial. Por que não é essencial? Porque sem ela o sacramento pode ser válido. Diz-se em teologia que a satisfação ou penitência é parte integrante do sacramento. Vamos dar exemplo de quando o sacramento da Penitência pode ser válido mesmo não havendo condição de se fazer a penitência: uma pessoa perto de morrer, recebe validamente o sacramento da Penitência, sem a imposição da penitência, porque o moribundo está incapacitado de a fazer.

Sendo, porém, a satisfação parte integrante, significa que ao confessar-se, se o penitente não tiver a intenção de cumprir a penitência, a confissão seria nula, pois, deve-se ter a vontade de satisfazer a penitência que o confessor impuser. Se, ao contrário, havia esta intenção ao confessar-se, e depois houvesse negligência em cumprir, a confissão seria válida, mas cometer-se-ia um pecado grave, sendo a penitência imposta em matéria grave.

Caríssimos, vamos explicar o porquê e o significado da SATISFAÇÃO ou PENITÊNCIA. Quem peca se torna culpado da falta cometida, e se torna passível da pena devida a esta falta. A absolvição, que dá depois o confessor, perdoa a falta, e ao mesmo tempo a pena eterna; e, quando o penitente tem uma grandíssima contrição, recebe também a remissão de toda a pena temporal; mas quando a sua contrição não é bastante grande, fica passível de uma pena temporal, que deve satisfazer, nesta vida ou no purgatório. Ora, o Santo Concílio de Trento nos ensina que, pela penitência sacramental não só se satisfaz a pena merecida, mas ainda se remedeiam os maus efeitos do pecado, as paixões, os hábitos viciosos , a dureza do coração, e, além disso, se adquire força para não recair. Daí compreendemos a vantagem de se confessar mais vezes, senão de quinze em quinze dias, pelo menos mensalmente.

Algumas perguntas com as devidas respostas sobre este assunto de que estamos tratando:

- Que pecado comete quem se descuida de fazer a penitência imposta pelo confessor na confissão? RESPOSTA: Devemos distinguir: se a penitência é leve, peca venialmente; se é grave, peca mortalmente. Quem sente muita dificuldade em cumprir a penitência recebida, pode fazê-la mudar pelo mesmo confessor ou por um outro.

2ª - Pode acontecer que realmente o penitente, dadas as circunstâncias em que se acha, não tenha condição de fazer tudo o que o confessor mandou, então o que fazer? RESPOSTA: O melhor é ali mesmo na hora da confissão, expor para o confessor as dificuldades que terá em cumprir aquela penitência que acabou de lhe impor. E deve dizer assim: Padre, temo não poder fazer esta penitência,  peço que me dê outra. É melhor agir assim do que ficar calado, e aceitar a penitência e depois não fazer nada.

3ª - Em que tempo devemos cumprir a penitência? RESPOSTA: No tempo prescrito pelo confessor; e, se este nada determinar a tal respeito, deve-se cumpri-la logo: pois, quando a penitência é grave, principalmente sendo medicinal, seria grave falta diferi-la por longo tempo.

4ª - Quem, depois da confissão, tivesse a desgraça de recair em um pecado grave, teria ainda de fazer a penitência imposta? REPOSTA: Sim, seria ainda obrigado a isso.

5ª - E a penitência assim feita, em estado de pecado, é satisfatória? RESPOSTA: Sim, é satisfatória.


Infelizmente pode acontecer que haja pessoas que não fazem a penitência imposta pelo confessor. Ou, então, vão adiando, e acabam se esquecendo. Sabei, caríssimos, que se não cumprirdes a vossa penitência neste mundo, tereis de fazer uma muito maior no purgatório. Por isso, devemos considerar a penitência do confessor muito pequena em comparação do castigo que merecemos, e devemos tomar aquela penitência imposta pelo confessor mais como uma lembrança de que devemos fazer mais penitências. Daí está respondida já uma outra pergunta: se a gente pode fazer mais ou maior penitência do que aquela imposta pelo confessor? Respondo: Pode e é sumamente aconselhável que o faça, desde que tenha a discrição para não fazer nada que prejudique à saúde, e faça tudo com muita humildade e reta intenção. 

domingo, 21 de maio de 2017

A CONSCIÊNCIA CRISTÃ


"Tudo o que não é segundo a fé é pecado" (Rom. XIV, 23).

Todo ato cristão  parte do íntimo da alma unida a Deus em conformidade com a Verdade que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim os dois conceitos FÉ e CONSCIÊNCIA CRISTÃ, coincidem perfeitamente. É, pois, a adesão interior a Jesus Cristo que faz nossa fé e nossa consciência. Portanto, quando o cristão unido interiormente a Jesus Cristo, age em desacordo com essa luz divina, peca. É neste sentido que S. Paulo diz: "Tudo o que não é segundo a fé, é pecado". São João Crisóstomo, com todos os intérpretes gregos, ensina que no texto em apreço, "FÉ" quer dizer "CONSCIÊNCIA".

Caríssimos, Nosso Senhor Jesus fez sua Igreja com sua hierarquia para ser a luz do mundo e o sal da terra. O Cristianismo é, por essência, uma doutrina sobrenatural da salvação. Seu fim é ensinar ao homem a sua elevação a um destino superior e subministrar-lhe os meios proporcionados à sua consecução. Mas a graça supõe a natureza. É a natureza do homem que é elevada à ordem sobrenatural. É sobre a natureza reta ou retificada que ele poderá realizar a sua missão sobrenaturalizadora. A moral humana e o direito natural só podem desenvolver-se e formular-se em corpo de doutrina pela Santa Madre Igreja. Por isso, onde e na medida em que o racionalismo laicista ou o materialismo ateu tentam banir a doutrina católica, renascem os ídolos pagãos com as suas servidões humilhantes e a pessoa perde sua dignidade. Enquanto os instintos cegos e as paixões indisciplinadas, onde a impureza, a ambição e o orgulho multiplicam os erros e as desordens, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo será o único meio para difundir claridades para o verdadeiro progresso aqui e máxime para as vias que conduzem à Eternidade Feliz. A Igreja de Nosso Senhor Jesus esclarece as inteligências e possui o segredo de energias sobrenaturais capazes de fortalecer a vontade. É ela, e somente ela, que plasma e ilumina as consciências tornando-as certas, retas e delicadas. Sua ação é interior, profunda e eficaz. Na prática do bem a consciência apura-se numa delicadeza e sinceridade que deve ter por testemunha o olhar de Deus. O amor de Jesus Cristo, modelo de perfeição humano-divina, deve introduzir no dinamismo da vida moral dos verdadeiros católicos uma força misteriosa de dedicação e generosidade, chegando mesmo ao heroísmo do martírio. É o fruto da consciência bem formada, é o exercício da virtude exaltada até à santidade.

Mensageira autorizada da verdade e do bem, a Igreja não poderá jamais deixar de testemunhar a verdade de Jesus, assim como jamais poderá eximir-se de ligar as consciências a esta Verdade, sem que pretenda com isso, é óbvio, violentá-las. O que ela quer é a sua adesão não puramente exterior, mas interior. Quando esta adesão interior lhe é resolutamente recusada, a Igreja não força, mas não pode senão implorar a misericórdia divina que converta os recalcitrantes. Nunca será misericórdia, abraçar o pecador com o pecado e tudo, no caso de o pecador se recusar a voltar atrás e se converter. A Igreja, a exemplo do Divino Mestre, é missionária, e deve ir à procura do pecador para o converter e não para falsear sua consciência no afã de tranquilizá-la no erro e no pecado. Isto é, sim, monstruosa impiedade: enganar as almas com uma paz que não é a de Jesus Cristo, mas a do mundo.
Procurar tirar os pecados das consciências não é fanatismo nem dureza de coração; é simplesmente preocupação de sinceridade e de retidão interior. A Igreja não pode tolerar, nem tem mesmo o direito de fazê-lo, que no número dos seus membros se encontrem católicos que só o sejam de nome. A Igreja Católica, deve ser por excelência, a preservadora e impulsora da moralidade humana. Deve ser o sal da terra para, dando gosto pelas coisas de Deus, preservar a almas e a sociedade da corrupção, seja ela lá de que espécie for. Só o Cristianismo pode ser escola de santos. A graça supõe a natureza, mas uma natureza reta ou retificada. Não será bom católico quem não começar por ser homem honesto.

A Igreja considerou sempre como parte de sua missão divina, elevar e sanear o ambiente moral da família. Se é verdade que, sendo a consciência a regra imediata que se deve seguir, nunca será lícito alguém ir contra ela, não é menos verdade que a intenção de conformar os nossos atos com a regra absoluta, que é a condição essencial do seu valor moral, supõe necessariamente o desejo e a intenção eficaz de a conhecer o mais exatamente possível. Eis porque o erro e a ignorância em semelhante matéria são imputáveis quando provêm da negligência em se instruir ou da prática continuada do mal, que acabou por obscurecer ou falsear a consciência. Assim, toda consciência errônea deve ser endireitada. Portanto, não poderia ser maior a impiedade, por parte de alguém da hierarquia eclesiástica ser o primeiro a exortar a alguém que esteja  procurando esclarecimento, a seguir em frente com sua consciência, ainda que clara e gravemente errônea. Seria a mãe dar uma serpente ao filho que lhe pedisse um peixe; dar uma pedra em lugar dum pão; e pior ainda, dar ao filho doente, em vez de remédio, veneno. Outrossim, é uma impiedade sem nome, a autoridade suprema da Igreja se recusar a esclarecer as consciências que esta mesma autoridade perturbou com alguma ambiguidade em questões de fé e moral. Devemos pedir a Deus pelos quatro cardeais que apresentaram ao papa as "DUBIA" e por todos os que os estão aprovando, para que continuem firmes na defesa da santa doutrina  de Nosso Senhor Jesus Cristo! Devemos também orar para que o Papa Francisco veja que não se trata de coisas de somenos importância, mas sim da Lei suprema da Igreja que é procurar a salvação das almas. Não se trata, pois, de procurar evitar a extinção de espécies animais mas trata-se de evitar a extinção da fé nas almas.

Caríssimos, na religião do homem que hoje se procura instaurar, até quanto ao SER MORAL o homem é deus para si mesmo. Nestes tempos calamitosos e faltos de fé, geralmente não se leva mais em conta a LEI de DEUS; já em muitos países são aprovadas leis contra o Decálogo e até contra a natureza, leis nela já insculpidas por Deus desde à criação.  E  já foram aprovados por lei,  o divórcio e até o aborto, a sodomia, pecados estes que bradam aos céus exigindo vingança. Não poderia ser maior o falseamento das consciências! As novas gerações acharão natural o que na verdade são monstruosos desrespeitos a Deus. Na míngua de sacerdotes que orientem as almas na verdade e no verdadeiro amor e adoração ao Criador, o mundo caminha no sentido de adorar as criaturas. Realizam-se, sem dúvida, as profecias de Nossa Senhora de La Salette. Não foi sem razão que Nossa Senhora apareceu chorando. E neste ano completam-se 45 anos que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima derramou lágrimas várias vezes em Nova Orleans nos Estados Unidos. 

Feita esta breve exposição, torna-se mais fácil compreender o porquê desta crise atual, crise esta que se estende a todos os campos, desde o religioso até ao econômico. É que o sal perdeu a sua força e não presta para outra coisa senão para ser jogado fora e pisado pelos homens. Apagou-se, ou quase, a luz da fé, a doutrina do Divino Mestre é substituída por novidades fabricadas ao sabor do mundo.
A verdadeira Moral, é substituída por uma NOVA: é a Moral de Situação.