quarta-feira, 15 de março de 2017

O SACERDÓCIO COMUM DOS FIÉIS


   O Apóstolo São Pedro, ao exortar os primeiros cristãos a unirem-se a Cristo para progredir na santidade, lembra-lhes os seus títulos de nobreza. Falando sobre Cristo ele diz: "Chegai-vos para Ele, como para a pedra viva  que  os homens tinham rejeitado, mas que Deus escolheu e honrou; também sobre ela vós mesmos, como pedras vivas, sede edificados em casa espiritual, em SACERDÓCIO SANTO, para oferecer SACRIFÍCIOS ESPIRITUAIS, que sejam aceitos a Deus por Jesus Cristo... Vós sois a GERAÇÃO ESCOLHIDA, O SACERDÓCIO REAL, A GENTE SANTA, UM POVO QUE DEUS CONQUISTOU, para que publiqueis as grandezas d'Aquele que das trevas vos chamou à sua maravilhosa luz" (1 São Pedro, II, 4 e 5-9).

   São Pedro fala aí de um sacerdócio, mas não no sentido próprio, em toda a extensão da palavra. Fala no sentido lato. Sacerdote no sentido próprio é aquele que é conferido pelo sacramento da Ordem. Este sacerdócio secundário vem do  batismo  que nos enxerta em Cristo. E com Cristo formamos então um só organismo sobrenatural.

  Resumindo: O Sacerdócio existe de maneira real mas diversa: 1º em Cristo; 2º no padre; 3º no leigo. Em Cristo o Sacerdócio se realiza em sua plenitude; no padre, se realiza de maneira própria pelo sacramento da Ordem mas como uma participação do sacerdócio de Cristo; e no leigo o sacerdócio vem pelo batismo, mas de uma maneira muito mais apagada e limitada. É deste último que estamos tratando. Devemos explicar bem este ponto porque os protestantes que pregam que Jesus é o ÚNICO sacerdote, curiosamente, baseados neste texto de São Pedro, dizem que todos os fiéis são sacerdotes (!) E os progressistas também abusam desta passagem para dizer que os fiéis concelebram com o padre, o que também não é verdade como veremos depois.

   Mas, antes de continuarmos, vejamos bem o sentido verdadeiro do texto de São Pedro, na sua 1ª Epístola, II, 9. Uma coisa logo atrapalha aquele que só tem em mãos o texto em português, é que S. Pedro diz: " Vós sois ... UM SACERDÓCIO REAL. Mas, acontece que a palavra REAL tem dois sentidos em português: REAL no sentido = que existe de fato, que é verdadeiro. E REAL no sentido = relativo ao rei, digno de rei, régio. E São Pedro emprega a palavra neste segundo sentido. Ele escreveu esta sua 1ª epístola em grego, e a palavra que ele empregou é: BASÍLEION  que só tem este segundo sentido ( = régio). Por isso São Jerônimo traduziu para o latim empregando a palavra REGALE. Se fosse no 1º sentido teria empregado a palavra REALE.  Mas que vem a ser um SACERDÓCIO RÉGIO? Equivale a UM CORPO RÉGIO DE SACERDOTES; equivale a REINO SACERDOTAL.  São Pedro, neste versículo 9º de sua 1ª epístola, faz apenas reproduzir, aplicando aos cristãos, aquilo que já havia sido dito aos judeus no livro do Êxodo XIX, 5 e 6: "Se, portanto, ouvirdes a minha voz e observardes o pacto que eu fiz convosco, sereis para mim a PORÇÃO ESCOLHIDA dentre todos os povos, porque minha é toda terra; e vós sereis o meu REINO SACERDOTAL e uma NAÇÃO SANTA". 


   Deus chamou aos judeus uma REINO SACERDOTAL. Que se segue daí? Que entre os judeus todos eram sacerdotes? Não. Porque este sacerdócio efetivo da lei judaica era privativo dos descendentes de Arão. Confira: Ex. XXVIII, 1; Números, XVI, 39 e 40 e muitos outros textos. 


   Uma NAÇÃO SACERDOTAL, portanto, não quer dizer uma nação em que todos são sacerdotes, no sentido rigoroso da palavra, mas uma nação que é toda consagrada a Deus, assim como os sacerdotes são a Ele consagrados e é neste sentido que São Pedro chama um REAL SACERDÓCIO  o povo cristão. 

   Depois, basta a gente ver como Jesus separou do meio do povo os seus Apóstolos, educou-os carinhosamente, revelando só a eles os mistérios do reino de Deus (Mat.XIII, 11) dando-lhes só a eles na intimidade da última Ceia o poder de realizar o mistério eucarístico (S. Luc. XII, 19), dando a eles numa casa de portas fechadas, o poder de perdoar pecados (S. João, XX, 23), enviando-os só a eles a ENSINAR e a batizar ( S. Mat. XXVIII, 19) , fazendo deles uns ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus (1 Cor. IV, 1). Depois o próprio São Pedro nesta mesma epístola fala de rebanhos e pastores. Portanto não tem o mínimo cabimento para interpretar esta passagem de São Pedro no sentido de dizer que todos os fiéis são sacerdotes. 

   Concluo, então, repetindo o que já disse no início: O sacerdócio existe de maneira REAL porém essencialmente DIVERSA: ou seja, JESUS CRISTO É O SACERDOTE SUPREMO EM TODA SUA PLENITUDE;  O SACERDÓCIO REALIZA-SE DE MANEIRA PRÓPRIA, EMBORA PARTICIPADA NO SACERDÓCIO HIERÁRQUICO, OU SEJA NOS PADRES. O SACERDÓCIO EXISTE TAMBÉM NOS LEIGOS MAS DE UMA MANEIRA LIMITADA, POR VIRTUDE DO SACRAMENTO DO BATISMO. 

   Portanto, só o Sacramento da Ordem confere o poder e a capacidade para operar a transubstanciação no Sacrifício da Santa Missa. O simples fiel, ou leigo, é pois incapaz de o fazer. Vamos mostrar melhor em que consiste, então ESTE SACERDÓCIO COMUM DOS FIÉIS.


 Como vimos, São Pedro (1ª Pedro, II, 9) chama o povo cristão de "regale sacerdotium", isto é, "sacerdócio régio". O próprio Apóstolo mostra que se trata do sacerdócio que dá aos fiéis o poder e dever de apresentar a Deus vítimas espirituais, e em primeiro lugar a si mesmos,,transformados em vítimas pela imitação de Jesus Cristo, renúncia do amor próprio, mortificação, prática das virtudes.

   Santo Tomás de Aquino declara que o caráter batismal confere ao que se batiza uma assimilação ao sacerdócio de Jesus Cristo.. Eis o que ensina o doutor Angélico: "O leigo justo está unido a Cristo pela união espiritual da fé e da caridade, mas não pelo poder sacramental. Por isso tem o sacerdócio espiritual para oferecer hóstias espirituais, das quais diz a Escritura: "Sacrifício para Deus é o espírito atribulado" (Salmo 50, 19); e "Oferecei os vossos corpos como uma hóstia viva" (Rom. XII, 1); e ainda 1 Petr. II, 6: "Em sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais" (Cf. S. Theol. 3ª p., q. 82. a. 1 ad 1). E Santo Tomás explica o porquê: "Todos os sacramentos tornam o homem participante do sacerdócio de Cristo, porque recebe assim um certo efeito dele. Mas nem por todos os sacramentos somos destinados a fazer alguma coisa ou a receber o que pertença ao culto do sacerdócio de Cristo. O que, porém, se exige para isso é que o sacramento imprima caráter" (Cf. S. Theol., 3ª p., q. 63, a. VI ad 1). Este sacerdócio comum a todos os membros da Igreja, dá-lhes a capacidade de se beneficiarem das graças com que Jesus enriqueceu a sua Igreja, especialmente os sacramentos que os não batizados não podem receber. Neste sentido, são eles passíveis de se beneficiarem dos frutos do Sacrifício Eucarístico, que é o Sacrifício da Igreja. Os leigos batizados, além disso, têm a possibilidade de participar ativamente neste mesmo sacrifício da Santa Missa, enquanto são membros da Igreja, e portanto fazem parte do Corpo Místico de Cristo, em cujo nome Jesus oferece sua oblação sacrifical na Santa Missa. Os fiéis leigos tomam assim parte no Sacrifício do Altar. Diz o Papa Pio XII na "Mediator Dei": "Pelo sacramento do batismo, os cristãos tornam-se, por título comum, membros do Corpo Místico de Cristo Sacerdote e, em virtude do "caráter" que se lhes imprime na alma, são deputados para o culto divino, participando assim, de modo conveniente ao seu estado, no sacerdócio de Cristo". 


   Na Igreja há uma razão especial que justifica a intervenção do sacerdócio hierárquico nos atos do culto divino. É que o centro para o qual converge o culto católico, e a fonte de onde dimana a vitalidade da Igreja, é a Santíssima Eucaristia, Sacrifício que renova a oblação reparadora do Filho de Deus, e o Sacramento que O  contém real e verdadeiramente como está no Céu. Se no Antigo Testamento, a Arca da Aliança, mera figura das realidades futuras, exigia mãos santificadas para nela tocarem, que diremos da Santíssima Eucaristia? 


   Para os fiéis participarem da Missa segundo "o modo conveniente  ao seu estado" mostraremos o que não podem fazer, por lhes faltar o poder. E o que podem e devem fazer na qualidade de membros do Corpo Místico de Cristo. 

    O padre na Missa, imola e oferece a vítima; o fiel não imola, só oferece. Falta-lhe, como já dissemos, a capacidade para transubstanciar. O fiel não é ministro do Sacrifício da Missa. Em compensação o fiel oferece o Sacrifício em virtude do seu sacerdócio batismal. E oferece num sentido real, e não simplesmente metafórico. Ele oferece como "membro", nunca como "instrumento de Cristo". Só o sacerdote pelo sacramento da Ordem pode ser ministro e instrumento de Cristo. 

   Diz Pio XII: "Que os fiéis oferecem o Sacrifício pelas mãos do sacerdote, claramente se deduz do fato de que o ministro do Sacrifício do Altar age como representante de Cristo, enquanto Cabeça, que oferece em nome dos membros todos; é por isso que com razão se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, faz a oblação da vítima". (Mediator Dei). 

   Para ilustrar a estreita união dos fiéis com o Sumo Sacerdote, no Sacrifício da Missa, recorre São Cipriano ao simbolismo do vinho e da água misturados no cálice, o vinho figurando a Cristo, a água figurando os fiéis.
   Santo Tomás faz uma explanação mostrando que na Missa há a consagração que o Sacerdote realiza como representante de Jesus Cristo, e há as preces sacerdotais, especialmente as do cânon, que ele recita sozinho, mas como representante da Igreja, dos fiéis.

   De maneira que , na realização do ato sacrifical da Missa, os fiéis não tomam parte, É executado só pelo Sacerdote que, no momento representa a pessoa de Jesus Cristo. E para que se tornasse capaz desse ato, recebeu o Sacerdote a unção sagrada no Sacramento da Ordem. E de fato, a Igreja é, por instituição divina, uma sociedade hierárquica, que não pode ser concebida à maneira das democracias regidas pelo sufrágio universal, onde os governos, eleitos pelo povo, são mandatários da comunidade.

    Os fiéis, no entanto, devem considerar elemento essencial de suas vidas, participar ativamente no Santo Sacrifício da Missa. A Santa Missa deve ocupar o centro de toda a nossa existência.

   Nas palavras de Inocêncio III, temos a norma da participação ativa dos fiéis no Santo Sacrifício do Altar: o que realizam em particular os Sacerdotes, o povo deve realizá-lo universalmente em voto. E no ato mesmo sacrifical, isto é, na consagração, a participação do povo fiel não pode ir além do voto, ou seja, da aprovação interna, da união de sentimentos aos do Sacerdote que celebra, e aos do próprio Jesus Cristo, que é imolado sobre o altar.

   Aliás, em toda a Missa, o elemento essencial da participação do fiel consiste em unir os próprios sentimentos da adoração, ação de graças, expiação e impetração ao que teve Jesus Cristo ao morrer por nós, e que devem animar o Sacerdote que oferece o Sacrifício da Missa. Esta união do culto interno, é que torna proveitosa a participação do fiél na Santa Missa. É um grande erro achar que participar da Missa é apenas seguir os gestos e repetir as palavras. Pio XII considera isto: "rito vão e formalismo sem sentido". 

   O Papa Pio XII insiste na "Mediator Dei" sobre a importância do culto interno. "É necessário, diz ele, que os fiéis se imolem a si mesmos como vítimas". Em que consista esta imolação, declara o papa em outro lugar da mesma encíclica: "Considerem os fiéis suma honra participar no Sacrifício Eucarístico de maneira que a "união como o Sumo Sacerdote não possa ser mais íntima, conforme a palavra do Apóstolo: "Tende em vós os mesmos sentimentos de Jesus Cristo." (Fil. II, 5), o que "exige de todo cristão que reproduza em si, quanto, está nas possibilidades humanas, o mesmo estado de alma que tinha o Divino Redentor quando realizava o Sacrifício de si mesmo: a humilde submissão do espírito e a adoração, honra, louvor e ação de graças à Suprema Majestade de Deus; mais, reproduza em si mesmo a condição de vítima, a abnegação segundo os preceitos do Evangelho, o voluntário e espontâneo exercício da penitência, a dor e expiação dos próprios pecados; numa palavra: que todos espiritualmente morramos com Cristo na Cruz, de modo a podermos dizer com São Paulo: "Estou pregado na Cruz com Cristo" (Mediator Dei). 

   Não é despropósito dizer que na patena, ao lado da hóstia, estão as almas do celebrante e dos assistentes.
Dignou-se o Senhor, na sua misericórdia, fazer de nós "cooperadores de Deus" (1 Cor. III, 9). Ora bem, a obra de Cristo foi a Redenção; cooperar nela é sofrer, como ele sofreu, para remir as almas. Não por indigência, mas por bondade, Ele aceita que unamos nossos padecimentos aos d'Ele, por nossos irmãos, "Alegro-me nos sofrimentos por vós, e que complete o que falta aos sofrimentos de Cristo, pelo seu Corpo que é a Igreja" (Col, I, 12). 

   Oh! se os fiéis compreendessem profundamente e perfeitamente praticassem a participação no Santo Sacrifício da Missa. Mais do que assistir à Missa, participar da Missa no seu decurso, mais do que tudo isto é prolongar a Missa na sua vida, é viver a Santa Missa!!!



CONDIÇÕES PARA UMA CONTRIÇÃO VÁLIDA

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Caríssimos, em se tratando de um assunto capital para a salvação, é necessário fazer uma análise completa a não deixar nos fiéis a mínima dúvida ou ignorância. Assim, sendo a CONTRIÇÃO ou a dor dos pecados absolutamente necessária para a validade da confissão, e sendo esta nas maioria dos casos necessária para a salvação, entendemos que se trata de assunto extremamente importante e mesmo urgente.

Então, para que a nossa dor nos alcance o perdão dos pecados, deve reunir CINCO CONDIÇÕES: é preciso que seja verdadeira, sobrenatural, absoluta, universal e confiante. Vamos dar a explicação de todas estas condições:

1ª - VERDADEIRA: Quer dizer, a dor não pode estar só na boca, mas também no coração. É uma dor íntima e não meramente externa. Eis aí porque o Santo Concílio de Trento a chama uma dor da alma. A Sagrada Escritura é clara sobre este ponto: "Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, e dilacerai os vossos corações e não os vossos vestidos" (Joel, II, 12 e 13). É o coração, isto é, a vontade que deve arrepender-se, pois que foi o coração que pecou querendo o mal, comprazendo-se nele, desobedecendo a Deus. "Todos os crimes vêm do coração, dizia Nosso Senhor Jesus Cristo (Cf. S. Mateus, XV, 18). É, pois, o coração que deve converter-se detestando o mal e amando o bem. Davi dizia: "Odeio a iniquidade; e acrescentava, e amo a vossa lei" (Salmo 118). É nisto que consiste a conversão verdadeira que o Senhor quer quando diz: "Fazei-vos um coração novo" (Ez. XVIII, 21) e (Salmo 21). Quando se perde a Deus pelo pecado, como encontrá-Lo? Diz Deus em Deut. IV, 29: "Encontrá-Lo-eis, se o procurardes de todo o coração".

2ª - SOBRENATURAL: Esta dor deve ser sobrenatural, quer dizer, deve ser produzida por um motivo sobrenatural, e não natural; por exemplo: se alguém se arrependesse de uma falta, por ser ela prejudicial à sua saúde, aos seus bens, ou à sua reputação, seria isto um motivo natural, que não serviria para nada. Para que o motivo da dor seja sobrenatural, como deve ser, é preciso que nos arrependamos do pecado, seja por causa da sua fealdade, seja porque ele ofendeu a bondade infinita de Deus, seja porque ele nos fez merecer o inferno ou perder o paraíso; teremos assim a dor perfeita, chamada contrição. ou a dor imperfeita, chamada atrição, como explicaremos depois, se Deus quiser.  
3ª - SOBERANA, isto é, SUPREMA, ABSOLUTA, MÁXIMA: A dor dos pecados é suprema ou máxima quando a ofensa feita a Deus nos desagrada mais do que outro qualquer mal. Caríssimos, por a dor ser soberana, isto não significa que ela deve necessariamente ser acompanhada de lágrimas e duma sensibilidade positiva. Ela reside essencialmente na VONTADE,  e circunstancialmente também na sensibilidade. Falo isto pensando nas almas timoratas que, às vezes, se inquietam por não experimentar sensivelmente a dor dos seus pecados. Fiquem tranquilas tais almas, porque é bastante que a dor dos pecados esteja na vontade, ou queiram arrepender-se, preferindo ter perdido tudo no mundo, do que ter ofendido a Deus. Daí o sábio ensinamento de Santa Teresa d'Ávila: "Para conhecer se temos uma verdadeira dor dos nossos pecados, a melhor regra é saber se a pessoa penitente está disposta a perder tudo, antes do que a graça de Deus; então, sem dúvida alguma, temos uma verdadeira dor".  E isto diz respeito somente aos pecados mortais, pois, não é necessário ter arrependimento de todas as faltas veniais para se obter o perdão de alguma delas, atendendo a que aquelas, cujo arrependimento é sincero, podem ser perdoadas sem as outras. Mais uma observação: Sabemos, pelo que já escrevi, que Deus não pode perdoar nenhum pecado, seja mortal, seja venial, sem que o culpado tenha um verdadeiro arrependimento. Resulta disto que uma pessoa, confessando somente pecados veniais, sem o arrependimento necessário, faz uma confissão nula; por esta razão, se quer receber a graça da absolvição, é preciso que tenha ao menos arrependimento de algum dos pecados veniais dos quais se confessa, ou que acrescente uma outra matéria certa, acusando-se de algum pecado da vida passada, do qual tenha uma verdadeira dor.

4ª - UNIVERSAL: Quanto, porém, aos pecados mortais, é absolutamente necessário ter arrependimento de TODOS  os pecados mortais cometidos, e um verdadeiro propósito de não mais os cometer, sem o que nenhum pecado será perdoado. A razão disto é que nenhum pecado mortal é perdoado sem a infusão da graça na alma; ora, não podendo esta graça achar-se com o pecado mortal, logo, segue-se que nenhum pecado mortal pode ser perdoado, sem que todos os outros o sejam ao mesmo tempo. Portanto, de nada serve detestar os pecados mortais, quando não se detestam todos sem exceção. Gostaria de fazer uma observação importante, sobretudo para as consciências escrupulosas: Quem cometeu vários pecados mortais, não é necessário que deteste cada um em particular; basta que aborreça todos os pecados mortais em geral, como ofensas graves a Deus; porque, se qualquer pecado tivesse ficado esquecido, será perdoado com os outros.


5ª - CONFIANTE: Judas Iscariotes se arrependeu, mas foi um arrependimento sem confiança: se desesperou. A dor deve ser CONFIANTE, quer dizer: unida à esperança do perdão; doutro modo, seria semelhante à dor dos condenados, que se arrependem também dos seus pecados, mas sem esperança de perdão. Pois eles se arrependem, não porque os seus pecados tenham ofendido a Deus, mas tão somente porque são a causa das suas penas. Outro exemplo ilustrativo é o de Caim. Reconheceu o pecado que tinha cometido, matando seu irmão Abel; porém, desesperou igualmente do perdão: "Minha iniquidade é muito grande, dizia ele, para que eu possa obter a remissão"  (Gen. IV, 13). São Francisco de Sales diz que a dor dos verdadeiros penitentes é cheia de paz e de consolação, porque, quanto mais o verdadeiro penitente lastima ter ofendido a Deus, tanto mais confiança tem em obter o perdão das suas faltas; o que muito aumenta a sua consolação. Daí também esta exclamação de São Bernardo, dirigindo-se a Deus: "Se é tão agradável chorar por vós, quão delicioso não será alegrar-se em Vós!". Amém!

terça-feira, 14 de março de 2017

O MAIS TERRÍVEL FLAGELO NA IGREJA

   O sacerdócio na Antiga Lei era apenas figura do sacerdócio deixado por Nosso Senhor Jesus na Sua Igreja. O que a Sagrada Escritura diz dos sacerdotes no Antigo Testamento muitas vezes se aplica também aos do Novo Testamento e, às vezes, até com mais propriedade. É o caso de que tratamos no presente artigo: o castigo da existência de pastores maus, escandalosos e omissos. 

   Consideremos algumas passagens das Sagradas Escrituras: "Ouvi isto, ó sacerdotes, e tu, ó casa de Israel, ouve com atenção; escuta, ó casa real, porque sobre vós se vai exercer o juízo, pois, devendo ser sentinela, lhe tendes armado laços e sido para ele como uma rede estendida sobre o monte Tabor" (Oséias V, 1). Oh! Sacerdote de Jesus Cristo, oh! Pastor de almas, que terrível juízo sofrereis um dia! Oh! Eclesiásticos que escandalizais! Então vós, que sois os protetores natos da inocência, armais-lhe laços? Estendeis as vossas abomináveis redes sobre o mesmo Tabor, sobre esse monte santificado por tantos e tão veneráveis mistérios. 

   "O meu povo tornou-se um rebanho perdido; os seus pastores enganaram-nos e fizeram-nos andar desgarrados pelos montes; dos montes passaram aos outeiros e esqueceram-se do lugar do seu repouso" (Jeremias L, 6).  

   Assim, o mais terrível flagelo que Deus podia empregar para punir uma paróquia, uma diocese, uma província, um país e até todo orbe, seria permitir que lhes fossem enviados pastores escandalosos. Eis o que Deus mesmo diz por um profeta: Como castigarei os pecadores obstinados? Que novo golpe lhes infligirá a minha justiça indignada? Eis o castigo: "Os seus pastores enganaram-nos..." (Jeremias citado acima).

  Observemos que os Pastores na Igreja podem escandalizar também por omissão. Eis o que diz a Bíblia sobre eles: "As suas sentinelas estão todas cegas, todas se mostraram ignorantes; são cães mudos, que não podem ladrar, que vêem coisas vãs, que dormem, e que amam os sonhos. E estes cães tão sem-vergonha não podem saciar-se; os mesmos pastores não têm nenhuma inteligência; todos declinaram para o seu caminho, cada um para sua avareza, desde o mais alto até o mais baixo" (Isaías LVI, 10 e 11). E logo em seguida o profeta acrescenta: "O justo perece, e não há quem lhe dê atenção..." (Isaías LVII, 1). 

   Caríssimos, temos que rezar muito e fazer penitências pelos eclesiásticos desde "o mais alto até o mais baixo".

   Fala-se hoje em um "Deus das surpresas". O próprio Deus, pela boca de São Paulo disse que "Jesus é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre". Portanto, caríssimos, devemos rezar e fazer penitência para conseguirmos a graça da perseverança: seja nosso falar "Sim, sim; Não não"; e rejeitemos toda doutrina nova e estranha. Até as revelações particulares só são aprovadas pela Igreja se estiverem em consonância com a Revelação Pública que terminou com a morte do último Apóstolo. Não pode haver "surpresa" de novidades na doutrina. Como dizia São Vicente de Lérins: "Nove, non nova", Não podem haver doutrinas novas na Igreja, embora possam ser apresentadas de maneira nova.  

   

   

segunda-feira, 13 de março de 2017

A DOR E DETESTAÇÃO DOS PECADOS OU CONTRIÇÃO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 O Sacrossanto Concílio de Trento assim define a contrição: "É uma dor da alma e detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar para o futuro". A contrição foi necessária em todos os tempos para obter o perdão, e é ela que prepara o homem para a remissão dos pecados.  Daí o mesmo Concílio Tridentino declarar que a contrição não compreende somente a cessação do pecado e o começo de uma vida nova, mas ainda o ódio `a vida passada, segundo estas palavras do Espírito Santo: "Lançai para longe de vós todas as vossas iniquidades, e fazei em vós um coração novo e um espírito novo" ( Êxodo, XVIII, 31).

E, na verdade, quem considerar atentamente estes lamentos dos santos: "Pequei contra vós só, ó meu Deus, fiz o mal em vossa presença" (Salmo 50); "Todas as noites rego meu leito com lágrimas; recordarei todos os anos da minha vida na amargura do minha alma" (Salmo 6).

Caríssimos, todo aquele que meditar bem nestes lamentos dos santos, compreenderá que eles provêm de um verdadeiro ódio à vida passada e de uma profunda detestação dos seus pecados. E justamente por força deste arrependimento interno, não perdiam oportunidade de fazer penitências exteriores, e aceitavam todos os sofrimentos e tribulações como merecidas pelos seus pecados. O exemplo clássico que se dá no Antigo Testamento é o do Rei Profeta Davi. É muito salutar meditarmos nos Salmos penitenciais que, pela Vulgata tradicional, são:  6, 31, 37, 50, 101, 129, 142. Os dois mais conhecidos são: O "Miserere" (Salmo 50) e o "De Profundis" (Salmo 129).

A dor ou arrependimento dos pecados cometidos é de tal modo necessária para se obter a remissão deles, que, sem esta disposição, Deus não perdoa. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Se não fizerdes penitência, todos perecereis". E, como já explicamos, trata-se primeiro da penitência interior, ou seja, a dor ou contrição do coração. Como dizia o Espírito Santo pelo profeta Joel: "Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes" (Joel, II, 13).

Pode acontecer que alguém se salve sem exame de consciência e sem confissão, como quando, não podendo confessar-se, por falta de tempo ou de sacerdote, faz um ato de verdadeira contrição perfeita à hora da morte; mas sem arrependimento é impossível salvar-se, mesmo que conte direitinho todos os pecados.


É preciso assinalar aqui o erro de certos penitentes que, em sua preparação para a confissão, não procuram senão lembrar-se dos seus pecados, e não se aplicam absolutamente a conceber uma verdadeira dor. Esta dor devemos nós pedi-la insistentemente a Deus; antes de nos apresentarmos ao confessionário, tenhamos cuidado de dirigir uma Ave-Maria à Santíssima Virgem, Mãe das Dores, afim de que nos obtenha um verdadeiro arrependimento dos nossos pecados. Lemos na vida do Santo Cura d'Ars como ele avisava sempre seus paroquianos sobre isso. Costumo pregar nos retiros que antes de tomarmos o caminho do confessionário, devemos fazer mentalmente três viagens: irmos até ao Céu que perdemos; até ao inferno que merecemos; até ao Calvário onde vemos Jesus chagado e morto na cruz por causa de nossos pecados. Amém!

sábado, 11 de março de 2017

A CONFISSÃO GERAL PODER SER PREJUDICIAL, INÚTIL OU ÚTIL

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

1. É PREJUDICIAL:  A confissão geral para os escrupulosos, podemos dizer que é prejudicial. As almas escrupulosas são obrigadas a sujeitar-se, neste ponto, às decisões do seu confessor.

2. É INÚTIL às pessoas que já as têm feito várias vezes com todo o cuidado conveniente, e que continuam a fazer bem as suas confissões ordinárias.

3. É ÚTIL: Salvo raras exceções, podemos dizer que a confissão geral, mesmo que não fosse necessária, é útil a todos os fiéis, principalmente àqueles que nunca a fizeram. Quem já a fez bem feita, sobretudo no tempo mais propício que é o Retiro, e depois ficou inteiramente tranqüilo, não precisa fazer senão confissão extraordinária, ao seja, a partir da confissão geral bem feita. É o que fazem as pessoas que todos os anos têm a graça de participar do Retiro. Só no primeiro retiro se faz a confissão geral. Os santos recomendam a confissão geral nas épocas mais importantes da vida, por exemplo: na primeira comunhão, em tempo de missão, no retiro, antes de entrar para a vida religiosa, e, principalmente no leito de morte.
Caríssimos, nada mais vantajoso que a confissão geral, quando é feita com cuidado e preparada com reflexão e oração, sobretudo quando feita no Santo Retiro. Para várias pessoas é o começo e o fundamento de vida melhor. Uma senhora, fazendo retiro, escreveu a sua confissão geral. Ora, no momento em que acabava de meditar no inferno e estava muito comovida com o pensamento dos suplícios eternos, lançou os olhos sobre o papel em que tinha escrito todos os pecados da sua vida. `A vista de tantas faltas, exclamou: "Oh! quanta lenha para o fogo eterno! Não haveria meio de a destruir?" Esta reflexão determinou-a a renunciar para sempre às frivolidades do século e a levar vida retirada e edificante.

Além disso, a confissão geral repara as negligências e os defeitos que se deixam passar tão facilmente nas confissões ordinárias, alivia essas mil inquietações e essas dúvidas que por vezes assaltam a consciência; anima a alma adormecida no serviço de Deus, vivendo na tibieza e na frouxidão; enfim, redobra o ardor daqueles que trabalham para a sua perfeição. S. Carlos Borromeu costumava fazê-la todos os anos. S. Francisco de Sales, entre outros elogios que faz da confissão geral, diz: "Ele nos inspira salutar confusão da nossa vida passada, e nos faz admirar os rasgos da misericórdia de Deus, que nos excitam a amá-Lo e a servi-Lo com mais fervor".
A confissão geral é muito particularmente uma fonte de paz para o hora da morte. Oh! que consolação para um moribundo ter feito bem as suas contas em plena saúde! O homem sensato tem cuidado de prover a tempo o seu futuro. No reino de Aragão, um fidalgo da corte foi lançar-se aos pés de um missionário, e lhe disse: "Padre, eu queria fazer uma confissão geral". O padre lhe perguntou qual o motivo que o induzia a essa resolução. "Ah! respondeu ele suspirando: não devo morrer? Então, depois de ter levado uma vida tão criminosa, como poderia eu morrer tranquilamente sem ter feito uma confissão geral com todo o cuidado possível? Se espero, continua ele, o último momento, minha mulher, meus filhos, as ocupações, o temor da morte, a moléstia, tirar-me-ão a presença de espírito: que imprudência a minha, deixando para fazê-la no meio de tantas penas e embaraços! Consenti que eu aproveite uma tão boa ocasião".

Caríssimos, procedamos como este homem sensato. Se ouvirmos a voz de Deus, não endureçamos o nosso coração. Aquele fidalgo, ouviu a inspiração da graça, e esta não foi vã para ele. Segui-a imediatamente. Façamos o mesmo! E assim a confissão geral será para nós, como afirmam os santos, um segundo batismo, uma quitação de todas as nossas dívidas para com a justiça divina, um passaporte em regra para a entrada no céu. Amém!

quinta-feira, 9 de março de 2017

SINAIS DA FALTA DE ARREPENDIMENTO E PROPÓSITO

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Consideremos atentamente os sinais certos pelos quais podemos reconhecer se a confissão foi feita sem dor dos pecados e sem resolução de não mais recair neles. Em outras palavras, veremos os sinais que mostram quando não há arrependimento verdadeiro (nem imperfeito=atrição) e não há por conseguinte propósito firme e eficaz de fugir das ocasiões próximas de pecados. Pela confissão Deus perdoa quaisquer pecados; mas nunca perdoa quando há vontade de continuar nos pecados.     

  1.  Quando nos confessamos sem querer renunciar o ódio ao próximo.
  2.  Quando se pode e não se quer reparar uma injustiça grave feita ao próximo, em seus bens ou em sua reputação.
  3.  Quando se reincide no pecado de hábito, quer dizer, quando, advertidos pelo confessor, não deixamos, entretanto, de recair com a mesma frequência nos mesmos pecados mortais do costume, sem nenhuma correção, e sem que sejam empregados os meios de emenda.
  4. Quando nos confessamos sem querer sinceramente deixar a ocasião próxima voluntária do pecado mortal.


Os defeitos que acabamos de enumerar e explicar tornam as confissões inválidas, quer dizer, nulas; e portanto, é preciso renová-las, como se nunca tivessem sido feitas desde a época em que são nulas. São, além disso, sacrílegas quando assim feitas cientemente. O sujeito está consciente de não ter os sinais de arrependimento, sabe que quer continuar fazendo todos ou alguns ou mesmo que seja um só dos pecados mortais e faz a sua confissão assim mesmo. Faz sacrilégio, e, se comunga faz outro sacrilégio.

A esta altura, talvez haja quem pergunte: padre, devo fazer uma confissão geral? Caríssimo, é a tua consciência que cabe resolver esta questão, conforme tudo o que acabamos de dizer.

Ser-me-á impossível, dizeis, fazer uma confissão geral. Tenho já idade: como poderei lembrar-me de todos os pecados da minha vida?  -  Caríssimos, com boa vontade é possível e mesmo fácil fazer uma confissão geral.

Primeiro que tudo, recordai com mágoa todos os anos da vossa vida (Isaías, XXXVIII, 16). Tomai para este negócio o tempo suficiente para vos recolherdes, pois trata-se de uma coisa muito séria.

Para indicar o número dos vossos pecados, eis aqui como podeis fazer. Deixai de lado os pecados veniais, ou não os acuseis senão no fim; não resta, pois, senão a confissão dos pecados mortais, que serão   -  ou casos particulares ou pecados habituais. Se são casos particulares, um pouco de reflexão bastará para vos lembrardes deles. Se são pecados habituais, examinai por quanto tempo durou este hábito  e quantas vezes, pouco mais ou menos, caístes no pecado por ano, ou por mês ou por semana, ou mesmo por dia. Não é verdade que desta maneira é fácil fazer uma confissão geral?

Contudo, se encontrardes alguma dificuldade em fazê-la, dizei ao confessor: "Padre, desejo fazer uma confissão geral, peço-vos que me ajudeis". No mesmo instante, o confessor vos interrogará, de modo que vos basta responder-lhe com sinceridade. Oh! como é consolador para um ministro de Deus ver a seus pés uma alma bem disposta e arrependida! A alegria do padre é indescritível, e levá-la-á para o túmulo. Bem feita a confissão geral, grande outrossim é a alegria do penitente.


Vou contar-vos um fato lido na vida de São Vicente de Paulo: Este grande santo da caridade, foi um dia chamado para confessar um fazendeiro que estava perigosamente doente. Conquanto tivesse sempre gozado da reputação de homem honrado, o padre Vicente de Paulo o excitou a fazer uma confissão geral, para pôr a sua salvação em maior segurança. Ora, o resultado provou que aquele pensamento vinha de Deus, que queria retirar aquela pobre alma do abismo eterno em que ia cair. Era rico mas certamente praticava a caridade para com os pobres. Quem o acreditaria, se não conhecesse a fraqueza do coração humano? Ainda que esse homem tivesse recebido várias vezes os últimos sacramentos, em várias moléstias muito graves, que tivera, achava ele que tinha a consciência carregada de sacrilégios desde a mocidade. Na alegria que experimentava em ter feito a confissão com o padre Vicente de Paulo, ele mesmo anunciava abertamente a todos que iam vê-lo: "Ah! eu estaria condenado se não tivesse feito uma confissão geral, por causa dos pecados que nunca ousei confessar". Morreu três dias depois, com os mais vivos sentimentos de reconhecimento para com Deus. A senhora Duquesa de Gondi ouviu as declarações muito admirada: Ah! que acabamos de ouvir? Se este homem, que passava por um homem honrado, estava em perigo de condenação, que será dos outros que vivem tão mal!". Ela empregou desde então a sua fortuna em estabelecer e fundar missões, considerando-as uma obra necessária à salvação das almas. São Vicente de Paulo fundou a Ordem dos Missionários Lazaristas. 

DESDE QUANDO SE DEVE FAZER O EXAME DE CONSCIÊNCIA?

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Desde a última confissão bem feita.

Antes vamos falar um pouco sobre a CONFISSÃO GERAL.  Sobre ela podemos assim resumir: a confissão geral pode ser necessária, útil, inútil, prejudicial.

Quando a CONFISSÃO GERAL é NECESSÁRIA?

É necessária às pessoas que fazem confissões inválidas.

Não perdoando de modo nenhum os pecados, tais confissões devem ser renovadas desde a época em que foram inválidas e más. Comparando: Se eu ao abotoar minha batina, ou no início ou já tendo abotoado alguns botões nas suas respectivas casas, aí salto uma casa, a partir daí  todos os botões ficarão errados e  depois de já ter abotoado até ao fim é que percebo o erro. Para desfazer este erro, tenho que desabotoar até onde comecei errando, porque foi a partir daí que todas os botões ficaram abotoados erradamente. Para corrigir não basta corrigir só o primeiro ou alguns; tendo que desabotoar todos os errados e depois, abotoar todos certos.  Quando a primeira confissão foi mal feita, é inválida e invalida todas as outras. Assim só uma confissão geral de toda vida poderá corrigir. Quando alguém já tendo feito algumas ou muitas confissões bem feitas e portanto válidas, mas aí faz uma confissão mal feita e inválida, sacrílega, para corrigir, a confissão geral deve abranger todos os pecados cometidos depois da última confissão bem feita, e mais, a primeira coisa que a pessoa penitente deve confessar é aquele primeiro sacrilégio e o número (se não sabe exatamente, pelo menos aproximadamente, de confissões e comunhões sacrílegas (ou se recebeu qualquer outro sacramento neste tempo, todos foram sacrilégios que devem ser contados nesta confissão geral.

Mas quando são más as confissões?

A)   POR FALTA DE FÉ.  Isto acontece por 4 motivos:

1. - Quando se recebe a absolvição na ignorância, mesmo involuntária, dos pontos de fé indispensáveis (por necessidade de meio, i. é, sem eles não se pode salvar), a saber: que há um só Deus; que em um só Deus há três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo; que Deus Filho se fez homem para nos resgatar; que, depois desta vida, Deus recompensará os bons e castigará os maus eternamente (= Deus remunerador).

2. - Quando se recebe a absolvição na ignorância voluntária das coisas necessárias que se deviam conhecer por necessidade de preceito, tais como o Pai-Nosso, o Credo, a Ave-Maria, os mandamentos de Deus e da Igreja, os sacramentos, principalmente aqueles que se devem receber.

3. - Quando queremos fazer uma religião a nosso modo, recusando crer tudo que ensina a santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, conservando dúvidas voluntárias sobre a fé, e também vivendo na revolta contra o Magistério Vivo e Perene da Igreja.

B) POR FALTA DE EXAME. Isto acontece quando, depois de uma notável negligência no exame de consciência, se omite a acusação de faltas graves.

C) POR FALTA DE SINCERIDADE. O que se dá quando, por vergonha, por hipocrisia ou por malícia, escondemos na confissão um pecado mortal, ou que julgamos mortal; quando se ocultam circunstâncias necessárias; quando se diminui o número dos pecados mortais cometidos; ou, finalmente, quando se acusa, de propósito, de modo a não ser compreendido pelo confessor em matéria grave.

D) POR FALTA DE CONTRIÇÃO E BOM PROPÓSITO. Como este é o ponto capital, de tal modo que uma confissão feita com todas as condições anteriores, faltando esta, é nula se a pessoa foi se confessar achando que tinha contrição e bom propósito, mas, na verdade, não tinha. É nula mas não sacrílega. Se, porém, se confessa consciente de não estar arrependido e de não ter propósito firme e eficaz, então é sacrílega. Assim, toda confissão sacrílega é nula também, mas nem toda confissão nula é sacrílega. Daí, vamos, na próxima postagem, se Deus quiser, falar sobre isso, a saber, vamos estudar os sinais para sabermos quando a confissão foi feita sem arrependimento e sem propósito firme de não mais recair nos pecados. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

COMO FAZER O EXAME DE CONSCIÊNCIA?

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

O exame deve ser feito principalmente sobre os pecados que somos obrigados a confessar. Ora, segundo o Santo Concílio de Trento, é necessário confessar todos e cada um dos pecados mortais, de que houver lembrança depois de ter neles refletido convenientemente e com cuidado, mesmo que sejam secretos e cometidos somente por pensamento e desejo, assim como as circunstâncias que mudam a espécie de pecado.

Na verdade, há na confissão matéria necessária e matéria não necessária. Por exemplo os pecados mortais são matéria necessária; já os pecados veniais constituem matéria não necessária, embora seja louvável contar também os pecados veniais dos quais deve haver arrependimento. Depois falaremos mais sobre isto. Quanto as circunstâncias que mudam a espécie de pecado, darei apenas um exemplo para que todos possam entender: na confissão não bastaria dizer que pecou contra a castidade. Circunstâncias que mudam a espécie: por exemplo, se foi pecado solitário; e se foi com outrem tem que dizer se é casado(a)  (adultério) ou não, se é parente(incesto) ou não, se é consagrado(a) a Deus (sacrilégio) ou não; se é com pessoa do mesmo sexo (sodomia) ou não etc. Assim poderíamos dar exemplos em relação a outros mandamentos.

Caríssimos, se quereis fazer um exame conveniente, retirai-vos para qualquer lugar isolado ou para a igreja. De início, agradecer a Deus por ter esperado até este momento, e rogar-Lhe que faça conhecer a gravidade e o número dos pecados. Lembrar depois dos lugares em que estivemos, das pessoas com quem nos comunicamos, das leituras, dos divertimentos, das ocupações em que tivermos empregado depois da nossa última boa confissão. Devemos, também, refletir em todas a faltas que pudéssemos cometer por pensamentos, palavras e ações; é preciso examinar-nos particularmente sobre os pecados de omissão e sobre as obrigações do nosso estado como por exemplo: sacerdote, pai de família, magistrado, médico, advogado, comerciante etc.. Porque cada estado ou profissão tem obrigações próprias.  Mas para um exame mais exato e mais claro, quando se têm cometido diferentes espécies de pecados, é melhor pôr sob os olhos os mandamentos de Deus e da Igreja, e examinar quais as faltas em cada mandamento.

Quanto aos PECADOS VENIAIS, é bom confessá-los, visto que são também perdoados pela absolvição do confessor, mas não há obrigação disso, pois podemos obter a remissão da faltas veniais, como diz o Santo Concílio de Trento, por outros meios, seja fazendo atos de contrição ou de amor, seja recitando devotamente o Pai-Nosso.

Não havendo matéria certa depois da última confissão é preciso, se queremos receber a absolvição, acusar um pecado da vida passada, do qual se tem verdadeira contrição. Dir-se-á, por exemplo: Eu me acuso especialmente das faltas que outrora cometi contra a pureza (ou contra a caridade, ou contra a justiça, ou contra a obediência). Observem bem isto: o confessor não pode dar absolvição ao penitente que não apresentar pecados a absolver.


Assim, cada vez que uma pessoa piedosa se aproxima do tribunal da penitência, ser-lhe-á muito útil renovar, ao menos de modo geral, a confissão de uma falta notável da vida passada. Demais, é isto um ato de humildade muito agradável a Deus, e excelente meio de afastar toda a inquietação quanto à validade das suas confissões. Por não observar esta norma, muitas confissões são nulas. É claro que o confessor exorta a pessoa a fazer assim. Mas se ela não fizer, ele avisa que só lhe dará uma bênção. Então, para evitar este perigo (confissão nula), já no exame de consciência, se deve propor a confessar tal pecado mais grave da vida passada, excitando-se a uma viva dor desse pecado particular antes de chegar ao confessionário. Caríssimos, este conselho é da mais alta importância. Mas infelizmente não é compreendido ou desprezado por pessoas piedosas. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

ATOS DO PENITENTE

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

É evidente que, para a confissão ter valor, é necessário que o penitente apresente todas as boas disposições e faça, antes, durante e depois os atos necessários.

Pois bem! Este sacramento, para ser bem recebido, exige principalmente cinco coisas da parte do penitente:

1.       A DOR dos pecados cometidos, com O BOM PROPÓSITO de não mais cometê-los.

2.       A CONFISSÃO inteira das faltas cometidas. Mas, para que o penitente possa confessar todos os seus pecados, e conceber deles uma verdadeira dor, deve fazer anteriormente com cuidado O EXAME DE CONSCIÊNCIA.

3.       A SATISFAÇÃO, ou o cumprimento da penitência imposta pelo confessor.

Comecemos pelo EXAME DE CONSCIÊNCIA,  que é realmente a primeira coisa que o penitente deve fazer. O que vou escrever sobre este assunto, é inteiramente inspirado nos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, o maior doutor da Igreja em Teologia Moral.

Neste ponto, devemos explanar duas questões: 1ª - Como é preciso fazer este exame? E 2ª - Desde quando se deve fazer?

1. COMO É PRECISO FAZER O EXAME DE CONSCIÊNCIA? Caríssimos, é preciso fazê-lo COM CUIDADO. Neste particular há quem peca por excesso e quem peca por falta. Em outras palavras: há quem se examina demasiadamente, e outros não fazem o suficiente.

Os primeiros são os escrupulosos, que se examinam sempre, e não estão nunca satisfeitos. Assim preocupados, aplicam-se pouco em conceber uma verdadeira dor de suas faltas e o bom propósito de corrigir-se; e depois, estes escrupulosos tornam-lhes odioso o próprio sacramento a ponto de para eles ir a confissão é equivalente a ir a um martírio.

Na verdade, o exame de consciência para a confissão não exige um cuidado extremo; basta que se o faça COM CUIDADO, procurando lembrar-se de todos os pecados cometidos depois da última confissão. Entretanto, como ensina Santo Afonso, este exame deve ser proporcionado ao estado da consciência do penitente: se não se confessou desde muito tempo, e tem caído em várias faltas graves, deve dar-lhe mais cuidado; mas, si se confessou há pouco tempo, e não cometeu senão pequeno número de faltas, seu exame exige menos indagações, e assim são suficientes poucos minutos de exame. Se finalmente, depois de um exame cuidadoso, reste algum pecado do qual não se lembrou, contanto que tenha um arrependimento geral de todas as faltas cometidas, este pecado esquecido é perdoado com os outros: somente, se for lembrado depois, há obrigação de o declarar na confissão seguinte. Não é preciso se confessar logo que lembrou do pecado que tinha esquecido na confissão, basta que na confissão seguinte que fizer, conte o pecado que, na verdade, já está perdoado, mas deve ser submetido ao poder das chaves.

Quando o confessor ordena a uma pessoa escrupulosa que não repita certas coisas na confissão, ele deve calar-se e obedecer. São Filipe Nery dizia: "Aqueles que desejam fazer progressos no caminho de Deus devem obedecer ao seu confessor, que ocupa o lugar de Deus; quem procede assim está certo de não dar a Deus conta do que faz". E São João da Cruz: "Não obedecer à decisão do confessor é orgulho e falta de fé".  Realmente, porque o Senhor disse aos seus ministros: "Quem vos ouve a mim ouve".


Se há consciências escrupulosas, há também as que são laxas. Os escrupulosos, se obedecem ao confessor, se curam e podem estar seguros, porque têm facilidade em chegar a possuir a consciência ideal que é a DELICADA.  Assim, a situação dos que têm consciência laxa, é bem mais perigosa. Pois, cometem pecados mortais sem número, e esquecem-se facilmente deles, porque não se comovem o suficiente. Fazem o pecado com a mesma facilidade ( para não dizer naturalidade), com que se estivessem bebendo um copo d'água. Depois se acusam apenas daqueles que lhes vêm à mente no momento da confissão, de modo que às vezes não é confessada nem a metade das faltas. Tais confissões nada valem; melhor seria que não fossem feitas. Devemos pedir muito a Deus uma consciência reta, certa e delicada!

quinta-feira, 2 de março de 2017

ABSOLVIÇÃO RECUSADA


Caríssimos, Jesus deu aos sacerdotes o poder de perdoar ou não perdoar. O confessor tem obrigação de recusar a absolvição a quem não está arrependido, a quem por exemplo, apesar das advertências paternais do sacerdote, não quer de modo algum deixar a ocasião próxima fumegante de pecado. Só para dar um exemplo: alguém divorciado(a) da(o) verdadeira(o) esposa(o), vive com outra(o) e não quer se separar e deixar a vida adúltera. O confessor deve fazer de tudo para converter esta pessoa que está no adultério, e, não o conseguindo, nega-lhe a absolvição e consequentemente veda-lhe a comunhão. O confessor deve dizer a esta pessoa impenitente que ela está em perigo de condenação, está na ladeira escorregadia do inferno, e, se comungar, estará comendo sua própria condenação.

É muito duro para o confessor, ver-se obrigado a chegar a este extremo! A maior alegria do sacerdote é celebrar o Santo Sacrifício e salvar almas no confessionário. Mas o sacerdote zeloso, deve dizer para Jesus Cristo: - Mestre, fiz o que pude com a vossa graça; agora continuarei rezando e fazendo alguma penitência para conversão deste pecador(a).

Mas, caríssimos, infelizmente, há certos cristãos que murmuram e se irritam quando não recebem a absolvição. Esquecem que o confessor é seu pai, mas é também seu juiz. Conceder muito facilmente a absolvição seria favorecer a desordem em lugar de impedi-la, pois muitos pecadores não compreendem a gravidade do pecado e a necessidade de romper com a má ocasião, senão quando a absolvição lhes é adiada. Além disto, para o pecador indisposto, a absolvição longe de ser um bem seria um mal e em vez de justificá-lo, não faria senão torná-lo mais indigno e mais criminoso diante de Deus. Infeliz do confessor que desse a absolvição, sabendo que deveria em consciência recusá-la! Profanaria o sangue de Jesus Cristo.

Então, que deve fazer o pecador a quem foi recusada a absolvição? São quatro coisas:

1.       Não deve desesperar, pois a recusa da absolvição não tem por fim a perda do pecador, mas antes sua emenda e sua salvação. Quando o confessor se vê obrigado a negar a absolvição, ele faz isto lembrado da palavra do Senhor: "Eu não quero a morte do pecador".
2.       É preciso que se converta deplorando suas faltas, pondo em prática os avisos do confessor, e procurando tornar-se digno o mais depressa possível da misericórdia de Deus segundo aquilo que lemos em Ezequiel, XXXIII, 11: "Quando eu disser ao ímpio: Vós morrereis certamente; se ele fizer penitência, viverá e não morrerá". Aqui é oportuno lembrar que penitência deve ser primeiramente interior, e em consequência desta, devem haver as penitências exteriores. Como diz o Divino Espírito Santo pela boca do profeta Joel: "Deveis rasgar os vossos corações". Daí, de nada adiantaria o pecador fazer até grandes penitências exteriores se não estivesse arrependido interiormente, o que significa ter vontade decidida de deixar as ocasiões do pecado.
3.       Deve orar muito. Sem a oração é impossível arrepender-se, sair do pecado, resistir às tentações; mas Deus nunca recusou sua graça e sua misericórdia àquele que a implora.
4.       É-lhe preciso principalmente a humildade. Pobres pecadores, reconhecei  os vossos erros e Deus terá piedade de vós: "Deus não repele o coração contrito e humilhado" (Salmo 50). Diz São Gregório: "O orgulhoso traz em sua fronte o selo da reprovação". O s humildes, porém, embora tenham sido os maiores pecadores do mundo, são marcados com o selo da predestinação ao Céu. Isto por que?  É que: "Deus resiste ao soberbos, e dá sua graça aos humildes" (1 Pedro, V, 5). "Eu pequei antes de ser humilhado", dizia Davi; depois exclama: "Foi-me bom ter sido humilhado" (Salmo 118, 67-71). Caríssimos filhos espirituais, dizei com Jó: "Eu pequei, ofendi verdadeiramente a Deus, e não tenho sido castigado como o merecia" (Jó, XXXIII, 27).
5.       Se com tais sentimentos, fordes, caríssimos, procurar o confessor, ele vos receberá de braços abertos, e exclamará feliz como o pai do filho pródigo: "Meu filho estava perdido, e ei-lo achado; estava morto, ei-lo ressuscitado" (S. Lucas, XV, 24). Reconhecereis então que o confessor, bem longe de ser vosso inimigo, é ao contrário o vosso mais devotado amigo. Reconhecereis que ele, se vendo obrigado a negar a absolvição, usou da verdadeira misericórdia; se desse, porém, a absolvição sem estardes bem dispostos, aí sim, teria cometido um ato de monstruosa impiedade. Vereis, portanto, que ele vos amava mesmo quando pecador, com os sentimentos do bondoso São Francisco de Sales, que não temia dizer: "Eu amo os homens maus e não há senão Deus que os ame mais do que eu". Amém!


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O CONFESSOR NA QUALIDADE DE JUIZ

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 A Sagrada Escritura no Evangelho de S. João, V, 22 diz: "O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo poder de julgar...". Também lemos no capítulo 20, 21 a 23: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos". Portanto, o poder de julgar e daí o de perdoar ou não, foi dado a Jesus Cristo e este mesmo poder Jesus Cristo o comunicou aos sacerdotes no confessionário. Assim todo confessor é juiz e o juízo que exerce é o do próprio Deus.

São Cipriano, por isso mesmo, chama a confissão de: "O Juízo antecipado de Cristo". Na verdade, Nosso Senhor Jesus Cristo, na pessoa de seu ministro, pronuncia agora por antecipação uma sentença que não fará senão confirmar quando a alma comparecer diante d'Ele no momento da morte. São Cipriano com este expressão "o juízo antecipado de Cristo" quer significar que o homem culpado tem de sujeitar-se a dois juízos: um presente ao qual preside a mais tocante misericórdia; o outro futuro, onde tudo será pesado na balança da mais rigorosa justiça. Portanto está nas mãos do pecador se livrar, por assim dizer, do terrível tribunal da justiça, aproximando-se com fé do tribunal da misericórdia. Tudo que for apagado, remido, perdoado no juízo sofrido durante a vida, será suprimido no juízo que deve seguir à morte. Daí a exclamação de São Bernardo: "O Senhor não voltará sobre uma causa já julgada. O que tiver sido decretado no tribunal da Igreja, está decretado no tribunal de Deus; é uma só e mesma sentença".

Um juiz deve primeiramente  tomar conhecimento da causa que é chamado a julgar; em seguida deve examiná-la e considerar todas as circunstâncias, finalmente deve pronunciar a sentença. É isto também, caríssimos, o que deve fazer o confessor. Ele deve em primeiro lugar conhecer os pecados que o penitente cometeu, deve em seguida avaliar a sua gravidade, assim como atender às disposições do pecador. E, no caso de ter visto as boas disposições do penitente, dá a absolvição e impõe uma penitência proporcional na medida das possibilidades de cada um. Com já tivemos oportunidade de demonstrar, para o confessor exercer corretamente este poder divino de julgar e perdoar, terá que ouvir cada um em particular. Daí a confissão tem que ser auricular.


Finalmente devemos concluir que o confessor é juiz de nossas consciências, de nossas disposições; é juiz, outrossim, da própria absolvição  e é juiz para impor a devida e praticável penitência. Devemos, contudo, observar que Jesus Cristo é Juiz e, sendo Deus, julga vendo Ele mesmo o íntimo de cada um. Assim, por exemplo, perdoou ao homem paralítico. Mas o padre, julga somente pelo que o próprio penitente diz. Não pode julgar além disto. E a conclusão que se tira é a necessidade de o penitente ser sincero. Não o sendo por ocultar pecado mortal, e/ou por não dizer o número dos pecados mortais e/ou as circunstâncias que mudam a espécie de pecado, embora o confessor dê a absolvição, Jesus Cristo não perdoa e ainda pedirá contas ao pecador pelo sacrilégio. 




terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

TENTAÇÃO COMUM DOS ESCRUPULOSOS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

 Na verdade, o demônio costuma embaraçar as almas escrupulosas inspirando-lhes o temor de pecar, se fizerem o que diz o confessor. É preciso vencer esta tentação, ou, melhor dizendo é preciso vencer estas vãs apreensões. Desde que o confessor aconselhe alguma coisa, todos os doutores e todos os mestres da vida espiritual ensinam, comumente, que é preciso vencer o escrúpulo e obedecer. Aquele que obedece caminha sempre seguro. "Nunca um verdadeiro obediente se perdeu", diz S. Francisco de Sales. E acrescenta: "É preciso contentar-se com saber que se pratica o bem obedecendo ao pai espiritual, sem indagar as razões". Um padre dizia: "Mesmo quando o confessor se enganasse, o penitente não se engana obedecendo e caminha com segurança".

É ao confessor que compete decidir se uma pessoa é escrupulosa ou não. Todos os escrupulosos  pretendem que seus escrúpulos não são escrúpulos, mas verdadeiros pecados. O demônio os engana assim para tornar-lhes odiosa a vida espiritual, para fazê-los abandonar a oração, a comunhão, para conduzi-los pelo caminho largo, e mesmo para fazê-los perder a cabeça. Também, uma pessoa escrupulosa que não obedece está perdida.

Eis aí porque os teólogos ensinam que, quando um confessor ordena agir com liberdade e vencer seus escrúpulos, não somente se pode, mas mesmo se deve obedecer. Demais São João da Cruz declara que "não crer na decisão do confessor, é orgulho e falte de fé". É isto que o escrupuloso deve temer, e não imaginários pecados.

O Padre Tanquerey, grande teólogo, fala sobre os inconvenientes do escrúpulo: "1º - Quando alguém tem a desdita de se deixar dominar pelos escrúpulos, são deploráveis os efeitos que eles produzem no corpo e na alma. Vamos resumir:

a) Enfraquecem gradualmente e desequilibram o sistema nervoso: os temores, as angústias incessantes exercem uma ação deprimente sobre a saúde do corpo; podem converter-se numa verdadeira obsessão.

b) Cegam o espírito e falseiam o juízo: perde-se pouco a pouco, a faculdade de discernir o que é pecado do que não o é; o que é grave do que é leve.

c) A indevoção do coração é muitas vezes consequência do escrúpulo; à força de viver na agitação e confusão torna-se o escrupuloso medonhamente egoísta, entra a desconfiar de toda gente, até de Deus, que começa a olhar como demasiado severo; queixa-se de que o Senhor nos deixe nesse infeliz estado, acusa-o injustamente: é evidente que a verdadeira devoção, em tal estado, é impossível.

d) Vêm por fim os desfalecimentos e as quedas. O escrupuloso gasta as energias em esforços inúteis sobre ninharias, e depois já não tem força para lutar em pontos de grande importância. Daí vem os desfalecimentos. E não encontrando alívio na piedade, vai procurá-la noutras partes, o que, às vezes, é perigoso.

O escrupuloso deve rezar pedindo a Deus a cura desta doença espiritual. Neste ínterim, Deus quer que a alma tire algum proveito: Deve aceitar este sofrimento como uma provação. Assim deve aproveitá-lo para purificar a alma e deve chegar a uma grande pureza de coração. Também ajuda na aquisição da humildade e da obediência. O escrupuloso se corrigindo tem facilidade de chegar a possuir uma consciência delicada, o que é um grande dom de Deus. 




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

GRANDES AUTORES ESPIRITUAIS E SANTOS FALAM DA OBEDIÊNCIA AO CONFESSOR

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

"É justo, nota São Gregório, que aqueles que obedecem , triunfem de todas as tentações do inferno, pois, submetendo sua vontade aos outros por obediência, tornam-se superiores aos demônios que caíram por sua desobediência". Ao assim se expressar este santo deveria ter em mente esta palavra do Divino Espírito Santo: "O homem obediente será vitorioso" (Prov. II, 21).

O célebre escritor espiritual Cassiano acrescenta que aquele que mortifica sua própria vontade destrói todos os vícios, porquanto "todos os vícios provêm da vontade própria".

"A obediência ao confessor, diz o Padre Perriens, nos faz também vencer todos os artifícios do demônio, que por vezes, sob pretexto de algum bem, nos leva a nos expormos às ocasiões perigosas, ou nos faz empreender certas coisas que parecem santas, mas que podem causar-nos muito mal; por exemplo: às pessoas piedosas, o espírito maligno faz empreender penitências imoderadas; perdem a saúde, depois abandonam tudo e tornam a tomar o caminho largo que seguiam primeiramente. Eis, aí o que acontece a quem age por sua própria cabeça; mas, quem se deixa guiar pelo confessor, não tem que temer semelhantes ilusões. Aquele que obedece perfeitamente ao confessor tem certeza, não somente de salvar-se (se perseverar), mas mesmo de santificar-se. A santificação consiste em fazer a vontade de Deus como o ensina Santo Tomás de Aquino. Ora, santa Tereza declara que a obediência ao confessor é o meio certo de fazer a vontade de Deus. Segue-se daí que aquele que age por obediência ao confessor, agrada sempre a Deus, seja praticando a oração, a mortificação, a comunhão, seja omitindo seus piedosos exercícios. Do mesmo modo, ele merece sempre, seja divertindo-se, seja trabalhando; pois, obedecendo, faz sempre a vontade de Deus. Assim, continua o Pe. Perriens, a obediência ao nosso confessor é a coisa mais agradável que podemos oferecer a Deus, e é o meio seguro de cumprir sua divina vontade".

Santo Henrique Suso assegura que "Deus não nos pedirá conta do que tivermos feito por obediência". Grande consolo para os escrupulosos!

Santa Teresa d'Ávila diz: "Que a alma tome seu confessor por juiz, com a resolução de não mais pensar em sua causa, mas de confiar nestas palavras de Nosso Senhor: Aquele que vos ouve, a mim ouve." E a grande Reformadora do Carmelo, acrescenta que é este o meio certo de fazer a vontade de Deus. Também declara que foi por este meio, a obediência ao confessor, que ela mesma aprendeu a conhecer e a amar a Deus. Não temia afirmar que "a obediência é o caminho mais curto para chegar à perfeição".

São Filipe Néry dizia: "Enquanto se obedece se tem segurança de não dar conta a Deus do se faz". Por conseguinte, se praticais assim a obediência, suponhamos que no dia do juízo Jesus Cristo vos dirija estas perguntas: por que ficastes tranquilo quanto às suas confissões, por que escolhestes este gênero de vida? Por que comungastes tantas vezes? Por que deixastes aquelas penitências? Podereis responder: Senhor, assim o ordenou meu confessor. Então o divino Juiz não poderá senão aprovar o que tiverdes feito.

Aqui me dirijo especialmente às almas escrupulosas. Caríssimos, o(a) escrupuloso(a), em particular, é obrigado(a) a obedecer a seu confessor. Além das razões a acima indicadas, o escrupuloso tem mais esta: que é incapaz de julgar por si mesmo sua consciência e seus atos; e obedecendo, está sempre certo de proceder bem. Dois grandes meios para cura desta doença espiritual: oração e obediência ao confessor. São Domingos, foi tentado de ter escrúpulo justamente por obedecer ao seu confessor. Nosso Senhor Jesus Cristo disse-lhe: "Por que temes obedecer a teu diretor? Tudo que ele diz deve servir para teu bem".

São Bernardo ensina que: "tudo que manda aquele que ocupa o lugar de Deus, a menos que não seja evidentemente um pecado, deve ser recebido como se Deus mesmo o ordenasse". Pode alguém pensar:  - Mas meu confessor não é um São Bernardo. Responde o grande escritor espiritual Gerson: "Não dizeis bem, pois vos confiastes aos cuidados deste homem, não porque seja hábil, mas porque Deus vo-lo deu por guia; deveis pois obedecer-lhe, não como a um homem, mas como a Deus". É óbvio igualmente, digo eu, que neste tempo de crise em que muitos padres progressistas não seguem a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos tomar cuidado! No caso de não haver outro, confesse-se com o progressista, mas prestar bem atenção nos seus conselhos e ordens no confessionário. Caso não estejam em acordo com o que a Igreja sempre ensinou, simplesmente não seguir. E o quanto for possível evitar confessar-se com tais confessores. Na verdade, se o confessor, sendo fiel à doutrina de Jesus Cristo, pode fazer um grande bem às almas, também é verdade que o mau confessor pode fazer um mal enorme. Hoje infelizmente é mister fazer estas advertências, que antigamente os autores espirituais não precisavam fazer, pelo menos assim tão insistentemente. O perigo hoje é muito maior, porque a grande e terrível arma empregada pelos modernistas hodiernos é a ambiguidade. São Bernardo diz: "a menos que não seja evidentemente um pecado". Mas hoje aconselha-se o que é pecado nebulosamente disfarçado nas ambiguidades. Os caríssimos leitores devem já estar adivinhando o porquê destas minhas observações: o perigo atual de padres modernistas ou neomodernistas aplicarem a já famigerada "Amoris Laetitia" nas suas ambiguidades que dão azo às más interpretações. Estas más interpretações não levam apenas a pecados veniais, mas a pecados mortais gravíssimos, quais sejam os adultérios e os sacrilégios. Pior: ao estado de pecado de adultério e ao estado de sacrilégios. Uma coisa (que não deixa de ser grave) é esporadicamente alguém cometer um adultério e depois se arrepender, se confessar e não pecar mais, e outra coisa imensamente mais grave, deplorável e ladeira escorregadia para o inferno,  é alguém viver no adultério. O mesmo se diga dos sacrilégios.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O PENITENTE DEVE OBEDECER O CONFESSOR QUE ACONSELHA COM A DOUTRINA DE JESUS

LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA

Caríssimos, escutemos o Apóstolo São Paulo: "Obedecei com submissão àqueles que são encarregados de vos conduzir, pois eles velam por vossas almas, devendo dar conta a Deus, afim de que cumpram este dever com alegria, e não gemendo, o que não vos seria vantajoso" (Hebreus, XIII, 17).

Infelizmente pode haver penitentes que discutam com seu confessor, para atraí-lo à sua opinião, e isto faz sofrer o pobre confessor, que é pai espiritual. Mas o Apóstolo os adverte que este proceder não lhes é vantajoso; pois quando o confessor vê que o penitente não se submete ao que diz, e o faz sofrer mil trabalhos para conduzi-lo no bom caminho sem o menor resultado, recusa guiá-lo. E ai do doente que o médico abandona!. Quando um doente não quer obedecer, recusa tomar os remédios receitados, e quer comer o que lhe agrada, que faz o médico? Abandona-o a si mesmo e deixa-o agir à sua vontade. Mas, então, que será da saúde deste doente? Vai de mal a pior, e a morte não está longe. Na verdade, o penitente relutante e desobediente só poderá cair no precipício. O Espírito Santo diz a todos os homens: "Caminhareis no meio de armadilhas" (Ecles. IX, 20). Sim, caminhamos neste mundo, expostos a mil armadilhas, tais como as tentações do demônio, as más ocasiões, os prazeres perigosos, e, mais ainda, as nossas próprias paixões, que nos perdem tantas vezes. Aí estão tantas ciladas, armadas pelo espírito maligno para nos enganar. Quem se salvará no meio de tantos perigos? A Sagrada Escritura responde: "Só se salvará aquele que evitar os laços" (Prov. XI, 15). E diz ainda no Livro do Eclesiástico III, 27: "Quem ama(=procura) o perigo, nele cairá". Ora como se pode evitar os laços e os perigos? Se tivésseis de atravessar durante à noite um bosque cheio de precipícios, sem ter um guia para vos esclarecer e vos indicar os passos perigosos, vos arriscaríeis certamente a perder a vida. É o que acontece no caminho da salvação àqueles que querem seguir seu próprio entendimento. A eles se dirige esta advertência do divino Mestre: "Tomai cuidado que a luz que julgais ter não seja senão trevas" (S. Lucas, XI, 15).  e não cause vossa perda conduzindo-vos não fundo de algum abismo.

Caríssimos, de passagem, vamos refletir um pouco sobre as palavras do Divino Mestre que acabamos de citar: "Tomai cuidado que a luz que julgais ter não seja senão trevas". Esta reflexão, confesso, não estava nos meus planos, pelo menos, neste artigo. Mas veio-me a lembrança das controvérsias  que estão sendo levantadas após "Amoris Laetitia". Infelizmente já para muitos está sendo não luz mas trevas. Pois, é conversa para boi dormir (desculpem-me a expressão) este negócio de dizer que para um adúltero(a) (= casado(a) validamente, separado(a) e amasiado(a) com outra(o) poder comungar deve está "arrependido"(a), e, então, em dadas circunstâncias, a "misericórdia" se contentaria em exigir que o(a) tal continuasse a viver com a(o) amante, mas como "irmãos", isto é, não como se fossem esposos ("modo uxorio"). É claro que em certas circunstâncias realmente seria possível, como em caso de velhice avançada e doença. Mas são casos raros! E mesmo nestes casos é preciso evitar todo escândalo.  O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo disse que a carne é fraca, e por isso é mister fugir do perigo e rezar. E aqui podemos repetir também o que Ele disse: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra". E se o homem é fraco em tudo, neste ponto de castidade e pureza, sua fraqueza ainda é maior. Seria mais ao menos assim: Suponhamos que um homem fosse preso numa casa onde não havia senão água barrenta num balde sujo. Passados alguns dias a sede era já muito grande. Mas, o tal homem olhava por balde com água suja, dava meia volta e saía de perto. Mas até que um dia não aguentou mais e bebeu a água suja e que no início era repugnante. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! Mas "Amoris Laetitia" em suas ambiguidades, oferece outras "soluções misericordiosas" ainda muito mais polêmicas, que não trato aqui por falta de espaço. Mas "a fortiori" os confessores fiéis à doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo nunca poderão aplicar. 

Por isso, ninguém acredita nisto, e, portanto, é um grande escândalo. E sobre escândalos, o Divino Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Ai daquele de quem vier o escândalo!".

Portanto, se o(a) penitente estiver verdadeiramente arrependido(a), deverá fazer a si mesmo(a) uma verdadeira violência, e deixar a(o) companheira(o) com quem vive na mesma casa. Quando isto estiver bem comprovado pelo público, só então, poderá se confessar e comungar. Mas se tiverem filhos? Primeiro eles serão beneficiados pelo exemplo de uma verdadeira conversão de seus pais; segundo deixarão de ser escandalizados pelo viver pecaminoso de seus progenitores. E isto é verdadeira misericórdia.

Alguém dirá: - Mas isto é muito duro e violento. Então ouçam o que disse o Divino Mestre: "Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus adquire-se à força, e são os violentos que o arrebatam" (S. Mateus, XI, 12). Jesus elogiou João Batista dizendo que ele não era uma cana agitada pelo vento. E todos nós sabemos que o Precursor de Jesus dizia para o rei Herodes que este não podia continuar vivendo no adultério.

E quando Jesus Cristo falou sobre a indissolubilidade e unidade (=um homem e uma mulher) do matrimônio os próprios discípulos acharam isto muito duro a tal ponto que exclamaram para Jesus: "Se assim é... seria melhor nem casar". E Jesus não voltou atrás e nem amenizou nada. (Cf. São Mateus, XIX, 3 a 12). E quem teria a sacrílega audácia de tachar Jesus de sem misericórdia?!