quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A CONSUMAÇÃO DO SACRIFÍCIO: A COMUNHÃO

   Nos sacrifícios do Antigo Testamento, o povo gostava que por qualquer sinal Deus lhe fizesse saber que o sacrifício era aceito por Ele e que Lhe era agradável. As vezes, como sinal, Deus mandava fogo do céu para consumir á vítima. E algo de análogo encontramos na imolação do Calvário. Deus, ressuscita o seu Filho e consome pelo fogo do amor as imperfeições do seu corpo mortal, para lhe conferir num grau superior todas as qualidades dos corpos gloriosos e, porque de certo modo se tornou espírito vivificante, para lhe permitir uma ação santificante sobre as almas. É sobretudo na Eucaristia que aparece este papel santificante : "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia" (S. Jo. VI, 54). Por isso, Jesus ressuscitado aparece subitamente no meio dos apóstolos reunidos no Cenáculo. São Paulo, depois de ter observado que os sacerdotes antigos tinham necessidade de sucessores, porque eram mortais, acrescenta: "Mas Ele, porque permanece para sempre, tem um sacerdócio que não passa. Por isso pode salvar perpetuamente aqueles que por Ele se aproximam de Deus, sempre vivo para interceder por nós" (Heb. VII, 24). Depois de cumprir a sua missão, depois de confirmar a fé dos apóstolos, e de lhes explicar o reino de Deus, passados quarenta dias depois da sua ressurreição, subiu ao céu, onde está sentado à direita do Pai, e onde pede e ora constantemente por nós, mostrando as cicatrizes das suas chagas gloriosas. Jesus é, portanto, no céu, o nosso Soberano Pontífice. Mas está também em estado de vítima.  São João no Apocalípse diz que viu   um Cordeiro vivo mas como se estivesse sido imolado. É certo que no céu, Cristo não oferece um sacrifício no mesmo sentido que no Calvário e nos nossos altares, mas aparece diante do Pai como tendo sido imolado outrora, com as cicatrizes gloriosas das suas chagas e na qualidade de vítima que lhe pertence tanto como a de sacrificador. Daqui se conclui que o sacrifício inaugurado na terra atinge no céu a sua consumação, no sentido de que Jesus não só recebe a recompensa do seu sacrifício, mas continua o papel de mediador e de sacerdote, não cessando nunca de se oferecer e de interceder por nós (Heb. VII, 25). É do céu ainda, que Ele faz descer sobre nós uma chuva ininterrupta de bênçãos, que nos permite participar dos frutos da redenção.

   Em certos sacrifícios antigos, os sacerdotes e os fiéis que apresentavam a vítima consumiam uma parte, para deste modo entrarem em comunhão com ela e com a divindade, à qual havia sido consagrada. Este ato, então meramente simbólico, encontra-se em toda a sua realidade no sacrifício oferecido por Cristo. Se Jesus subiu ao céu, fê-lo, segundo a sua promessa, para nos preparar um lugar para, enquanto vivermos na terra, nos tornar participantes das graças que nos mereceu. Estas graças, obtemo-las nós pelos sacramentos e sobretudo pela Eucaristia, que, ao dar-nos Jesus, nosso sacerdote e nossa hóstia, faz-nos participar dos seus pensamentos, dos seus sentimentos e virtudes. Mas podemos também obtê-las pela comunhão espiritual, que perpetua os efeitos da comunhão sacramental, ao levar-nos a pensar, a falar, a atuar sempre em união com Jesus. Caríssimos e amados leitores, ditosas as almas que vivem em união habitual com Jesus, sacerdote e vítima!. A sua transformação será total: em vez de se deixarem guiar por pensamentos egoístas, pelo desejo de agradar aos homens, pela curiosidade, pela vaidade ou pela sensualidade, fixaram toda a sua atenção em Nosso Senhor Jesus Cristo, o único a quem querem agradar. Para essas almas, Jesus é o centro de toda a vida. É por Ele, com Ele e n'Ele que elas oram, trabalham e vivem. Podem dizer com São Paulo: "Eu vivo, mas não sou eu que vivo: é Jesus que vive em mim"; "a minha vida é Jesus".
   Na próxima postagem vamos meditar nestas palavras: POR ELE, COM ELE E NELE.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Jesus se imola como Vítima

   A IMOLAÇÃO: Começa com a dolorosa Paixão, no horto das Oliveiras com a agonia do Getsêmani, e tem o seu remate no Calvário. Antes porém de se deixar imolar pelos carrascos, Jesus quis oferecer-se de novo como vítima, desta vez num verdadeiro sacrifício, acompanhado de ritos misteriosos - o sacrifício da Ceia. Depois de ter celebrado a antiga Páscoa com os apóstolos, dá início, por assim dizer, à nova Páscoa, e institui um sacrifício que se perpetuará nos altares até ao fim dos tempos. Tomando o pão, abençoa-o e dá-o aos apóstolos, dizendo: "Comei, isto é o meu corpo, dado e entregue por vós". E tomando o cálice do vinho, acrescenta: "Bebei dele todos; é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que é derramado por vós e pela multidão dos homens em remissão dos pecados". Jesus sabe que vai ser imolado no dia seguinte e oferece antecipadamente ao Pai a sua imolação, a efusão do seu sangue, a sua morte, para patentear publicamente aos Apóstolos que se entrega livre e voluntariamente à morte expiatória e às torturas físicas e morais que a acompanharão. A Ceia é, portanto, um verdadeiro sacrifício, porque é um dom antecipado da vítima que será imolada no dia seguinte.
   É por esta mesma razão que Jesus é chamado sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Com efeito, Melquisedeque oferecera a Deus pão e vinho. Ora, é sob as espécies de pão e de vinho que Jesus se oferece ao Pai e se dá aos Apóstolos. A santa missa celebrada hoje nos nossos altares é uma reprodução do sacrifício da Ceia, com a diferença de que o sacerdote oferece atualmente a vítima outrora imolada no Calvário, ao passo que Cristo oferecia no Cenáculo a vítima que ia ser imolada no dia seguinte.
   Jesus pode agora começar a sua dolorosa Paixão. Deve mesmo começá-la, já que com as palavras que disse na Ceia se votou à morte.
   É exatamente isto que Jesus faz. Entra nos Horto das Oliveiras, onde vai ter agonia e suar sangue. Jesus deixa que a sua imaginação Lhe represente, de uma maneira clara, todas as torturas e humilhações que há de sofrer no dia seguinte. Fica tão sensibilizado, que sente medo, tédio e uma tristeza muito profunda. Jesus vê-se , sobretudo, como cabeça de um corpo místico de que nós somos membros, carregado com o peso dos nossos pecados, sente-se como que submergido pela vaga de todas as iniquidades humanas, em face do Deus de toda a santidade. Uma tristeza mortal apodera-se da sua alma e pelo seu corpo cansado perpassa um suor de sangue. "Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice. Mas não se faça como eu quero, mas como tu queres" (S. Mat. XXVI, 39).
   E o martírio começa. Traído por Judas, renegado por Pedro, abandonado por quase todos os seus discípulos, é vilipendiado, insultado, ferido pelos servos do Sumo Sacerdote, condenado pelo Sinédrio por se ter confessado Filho de Deus, condenado por Pilatos que proclamara momentos antes a sua inocência. Flagelado, coroado de espinhos como um rei fantoche, carregado de um pesado lenho, sobe penosamente o Calvário, estende os seus membros doloridos sobre a cruz, vê as suas mãos e os seus pés perfurados pelos cravos, ouve os insultos e os sarcasmos dos escribas e dos fariseus, que o convidam ironicamente a descer do patíbulo, se é verdadeiramente o Messias, o Filho de Deus. E em vez de se vingar, suplica ao Pai que lhes perdoe, porque, diz Ele, "não sabem o que fazem" (S. Luc. XXIII, 34).
   E enquanto o seu corpo é torturado pelos algozes e a sua alma se angustia ao pensamento de que muitos não tirarão proveito do seu sangue, que faz Jesus, o Soberano Pontífice, no altar da cruz? Renova o dom de sua vida, já tantas vezes feito: "Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas... ninguém me tira a vida, mas sou eu que a dou; eu tenho o poder de a dar e o poder de a tomar; tal é a ordem que recebi de meu Pai" (S. Jo. X, 11-18). Esta ordem foi tão bem cumprida que podia dizer com toda a verdade: "Tudo está consumado". Os sacrifícios figurativos do Antigo Testamento são substituídos pelo único verdadeiro sacrifício. As profecias estão cumpridas, em particular a profecia de Isaías anunciando com antecipação de séculos os sofrimentos e a morte do Homem das dores.
   Jesus acabou a sua obra, cumpriu toda a justiça. Sofreu, sem se queixar, as mais espantosas torturas do corpo e da alma. Sofreu-as por amor, por amor do Pai, a quem queria glorificar, e por amor dos homens, a quem queria salvar. Já só Lhe resta permitir que a morte se apodere da sua vítima voluntária. É  o que Ele faz, depois de se oferecer pela última vez como hóstia ao Pai: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (S. Luc. XXIII, 46).
   Nosso Senhor Jesus Cristo expira. Deus foi glorificado como nunca tinha sido, e os homens foram salvos, pelo menos de direito. Resta aos homens fazer seus pela fé e pela caridade, pelas obras e pela recepção dos sacramentos, os méritos do Redentor. Ao fazê-lo consumarão o sacrifício de Cristo e comungarão com Jesus-Vítima. É o que meditaremos, se Deus quiser, na próxima postagem.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Jesus se oferece como Vítima

   A OBLAÇÃO DA VÍTIMA: Como já dissemos, no mesmo instante em que o Filho de Deus se encarnava no seio virginal de Maria Santíssima, era constituído Sacerdote Soberano. Sabendo que os sacrifícios da Lei Antiga não podiam glorificar ao Pai como Ele o merece, Jesus Cristo apresenta-se diante d'Ele e oferece-se como vítima. Assim começa o primeiro sacrifício verdadeiro e digno deste nome: sobre o altar puríssimo do coração de Maria Santíssima, o Verbo Encarnado oferece, como sacrificador, uma vítima, e esta vítima é Ele mesmo. Jesus oferece-se inteiramente: corpo e alma. É o seu corpo que um dia imolará na cruz e que, até que chegue o seu dia, vai sacrificando pela prática da mortificação. É a sua alma, com todos os seus pensamentos, desejos, afetos, volições, que não cessará de imolar sob a espada da obediência até o dia em que, no Calvário, completará o seu sacrifício pelo supremo ato de amor. "Aniquilou-se a si mesmo, tomou a forma de servo e fez-se obediente até a morte, e morte de cruz". Toda a vida de Jesus será uma cruz e um martírio voluntários. Será mártir desde o momento da Encarnação. Seu primeiro olhar é para o Pai, a quem constantemente oferece, em seu nome, os mais perfeitos atos de religião e expiação. O seu segundo olhar é para nós: olhar de comiseração e amor para com os pecadores, que vem salvar com o seu sangue; olhar de afetuosa ternura para os justos, que ama já como membros do seu corpo místico e nos quais deseja crescer e aumentar para lhes comunicar os tesouros da sua vida divina. Por todos eles, Cristo oferece ardentes súplicas, que são ouvidas em virtude da dignidade da sua pessoa, (Heb. V, 7). Maria Santíssima, que traz em seu seio puríssimo o Verbo Encarnado, já começa a exercer o seu papel de colaboradora secundária na obra da nossa Redenção; e também o papel de Medianeira de todas as graças.
   Depois de nove meses, Jesus nasce e os seus não o receberam, diz São João, I, 2). Já São Lucas constata dolorosamente que Jesus nasce num estábulo, porque não havia lugar para sua Mãe e para Ele na hospedaria. (S. Luc. II, 7). Assim, ao chegar ao mundo já sofre o frio da estação e o dos corações da maioria. Sofre a penúria da pobreza e mais ainda a ingratidão dos homens. E não cessará de ser vítima. No dia da Circuncisão, cerimônia humilhante e dolorosa, derrama as primeiras gotas de sangue para confirmar a intenção de o derramar um dia até à última gota por nós. Perseguido por Herodes, é obrigado a tomar o caminho do exílio e quando, após a morte do tirano, regressa à Palestina, é para se encerrar numa pobre casa de Nazaré, aldeia desconhecida da Galileia, e passar aí trinta anos na obscuridade, na obediência, no trabalho manual, de tal modo escondido, que os compatriotas o olham como um vulgar carpinteiro. A sua vida pública não será, com exceção de algumas alegrias e sucessos passageiros, senão um longo martírio. Desde o início que os Fariseus e os Escribas O perseguem, a princípio com suspeitas, depois, com inveja e ódio; armam-Lhe constantes ciladas, procuram contrariar a sua influência sobre o povo. Se, na verdade, consegue fazer alguns discípulos fiéis e converter alguns pecadores insignes, não há dúvida de que a massa do povo permanece indiferente ou hostil, porque não pode reconhecer o Messias glorioso tão ansiosamente esperado, num jovem Rabi tão humilde e tão modesto, que em vez de conviver com os grandes e preparar o triunfo temporal do seu povo, visita os humildes, os aflitos, os pobres, os publicanos e os próprios pecadores. Como devia ter custado a Jesus ver-se assim incompreendido e desprezado, apesar de tantos milagres, que eram outros tantos sinais que provavam a divindade da sua missão e da sua pessoa! Mas, caríssimos leitores, tudo isto não era mais do que o prelúdio do autêntico sacrifício. Jesus será imolado como vítima. É o que veremos, se Deus quiser, na próxima postagem.  

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

JESUS, SACRIFICADOR E VÍTIMA

   Nos sacrifícios do Antigo Testamento, o sacerdote era distinto da vítima. Escolhia-se como vítima para os sacrifícios sangrentos, que eram considerados os mais perfeitos, um ser vivo, normalmente um animal doméstico, que era mais indicado para substituir o homem, visto que lhe pertencia. Este animal era oferecido a Deus, segregado de todo o uso profano, e consagrado ao serviço e honra da divindade. Era em seguida imolado, para mostrar que o pecador, depois de ofender a Deus, já não tem direito de viver e merece a morte. Depois de ser queimado, em certos sacrifícios, uma parte da vítima, comia-se a outra porção, para comungar assim com a vítima e, por ela, com a divindade. A união com Deus, despedaçada pelo pecado, era, portanto, após a glorificação da divindade, o fim a que tendia o sacrifício.
  Assim, pois, três atos principais constituíam o sacrifício: a OBLAÇÃO, a IMOLAÇÃO, a COMUNHÃO, também chamada consumação.
   Todos estes sacrifícios eram figuras e símbolos que preparavam o sacrifício verdadeiro, aquele que o Homem-Deus, Soberano Sacerdote da Nova Lei, devia oferecer para glorificar a Deus e salvar os seus irmãos. Mas Deus tem direito a homenagens infinitas. Para lhas tributar e reparar a ofensa feita a Deus pelo pecado, era necessário um sacrifício de valor moral infinito. Para que assim fosse, Jesus, nosso Soberano Sacerdote, quis ser não apenas o SACRIFICADOR, mas também a VÍTIMA. Assim, sob este duplo aspecto (de sacrificador e vítima ao mesmo tempo) o Sacrifício por Ele oferecido teria verdadeiramente um valor infinito, porque a dignidade dum sacrifício depende da dignidade da pessoa que o oferece e da vítima que é oferecida. Ora, Jesus, sacerdote e vítima, não é outrem senão o Homem-Deus, isto é, uma pessoa infinita porque divina.
   Vamos, se Deus quiser, compreender tudo isto melhor ainda, meditando sucessivamente, nas postagens seguintes, os três grandes atos que constituem este sacrifício de um valor infinito, isto é, falaremos da OBLAÇÃO: Jesus se oferece como Vítima; em outra postagem, falaremos da IMOLAÇÃO: Jesus se imola como Vítima; e finalmente em outra postagem, falaremos da CONSUMAÇÃO ou COMUNHÃO: Jesus ressuscita, sobe aos Céu e lá está sempre vivo a interceder por nós; pelos sacramentos e especialmente pela Eucaristia, Jesus faz-nos participantes dos seus pensamentos, dos seus sentimentos e virtudes. Há também a comunhão espiritual que perpetua os efeitos da comunhão sacramental.

domingo, 23 de outubro de 2011

Jesus Cristo, Sacerdote por excelência.

2 - JESUS SATISFAZ AS CONDIÇÕES DO SACERDÓCIO

  Vimos na postagem anterior que as condições essenciais para o sacerdócio são: ser homem, ser consagrado e oferecer sacrifício. Pois bem. Vamos ver agora, com a graça de Deus, que Jesus satisfaz perfeitamente estas três condições.
   A)  SER HOMEM. Jesus é o  Filho de Deus feito homem. Antes da Encarnação, sendo só Deus, não poderia ser sacerdote. Mas desde que no dia da Encarnação no seio da sempre Virgem Maria se fez homem, nada O impede de se revestir da condição de sacerdote. Neste momento, o Verbo entra na família humana e pode, sem nada perder da sua divindade, abater-se, humilhar-se, aniquilar-se, adorar e pedir, como homem que é. Diz São Paulo: "Por isso, entrando no mundo, diz(Jesus): "Não quiseste hóstia, nem oblação mas formaste-me um corpo...Então Eu disse: Eis-me que venho... para fazer, ó Deus, a tua vontade...Por esta vontade somos santificados  mediante a oblação do corpo de Jesus Cristo..." (Heb. X, 5, 7 e 10). Em Hebreus, IV, 15 diz ainda o Apóstolo: "Não temos um Pontífice que não possa compadecer-se das nossas enfermidades, mas que foi tentado em tudo à nossa semelhança, exceto no pecado". Bossuet assim comenta: "Mas não a tomastes (=a natureza humana) sã, perfeita, imortal, tal como saíra no princípio das vossas mãos. Assumiste-la tal como o pecado e a justiça vingadora de Deus a tornaram - mortal, enferma, pobre -, porque queríeis carregar com o nosso pecado. Queríeis carregá-lo sobre a cruz, vítima inocente; queríeis carregá-lo durante todo o decurso da vossa vida... Como não podíeis assumir também a iniquidade e a mácula do pecado, tomastes a pena, o justo suplício, isto é, a mortalidade com todas as consequências. Assim Vos  tornastes sensível aos nossos males - Vós que os experimentastes na Vossa carne... Quem duvida que não possais ajudar-nos nas coisas que já sofrestes, pois sofrestes livremente e quisestes, ao suportá-las, fazer nascer em Vós a compaixão para conosco? Sede para sempre louvado, Senhor, e compadecei-Vos dos nossos males, não como os ricos se compadecem dos pobres, mas como os pobres choram os outros pobres" (Bossuet, Méditations sur l'Evangile, 95ª).
   Acrescentemos que, por não ter deixado de ser Deus, ao fazer-se homem, Jesus é o mediador ideal entre o Céu e a terra, não apenas santo e imaculado, mas impecável , o Filho bem-amado do Pai, em quem Ele pôs todas as suas complacências, o sacerdote escolhido por natureza para adorar a infinita majestade e defender a nossa causa. Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Como homem, pode compadecer-se das fraquezas dos seus irmãos e abater-se, humilhar-se, sofrer, morrer, para glorificar seu Pai; Como Deus, pode dar a todas as suas ações um valor infinito.
   São Paulo na mesma Epístola aos Hebreus, V,4-6 mostra ser necessário  que Cristo fosse chamado e estabelecido sacerdote pelo Pai. Portanto Jesus não se elevou por si mesmo à glória do Sumo Pontificado, mas recebeu-o d'Aquele que disse: tu és meu Filho, eu te gerei hoje; como disse ainda em outra passagem: "tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque". Foi, portanto, a livre escolha de Deus que fez de Jesus o sacerdote supremo, o sacerdote por excelência. Como devemos agradecer a Deus essa sua bondade infinita!

   B) SER CONSAGRADO. Jesus foi consagrado sacerdote perfeito pelo próprio Deus. Escolhido desde toda a eternidade, Cristo é feito sacerdote no próprio momento da Encarnação e desde logo começa o seu duplo papel de Religioso de Deus e de Salvador dos homens. É o que declara São Paulo: "Ao entrar no mundo, Cristo disse (a seu Pai): não quiseste sacrifícios nem holocaustos mas formaste-me um corpo; não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. Então eu disse: Eis-me aqui!... Venho, ó Deus, para fazer a tua vontade... É em virtude desta vontade que somos santificados pela oblação que Jesus fez, uma vez por todas, do seu corpo" (Heb. X, 5-7-10).
  Que vem a ser Religioso de Deus?  Jesus recebeu a consagração sacerdotal para desempenhar junto de Deus o papel de Religioso; e junto dos homens o papel de Salvador. O papel de Salvador, todos sabem em que consiste. Mas talvez nem todos compreendem em que consiste este papel de Religioso de Deus.
Vamos explicá-lo. Como Religioso de Deus, Jesus Cristo oferece-se como vítima, em substituição de todos os holocaustos e sacrifícios do Lei Antiga. É a obediência, a humildade e amorosa submissão à vontade do Pai que imolará todos os atos à glória de Deus e reparará assim, nobremente, a desobediência dos nossos primeiros pais. Desta forma, Deus será glorificado como nunca o fora; será glorificado como merece, com uma glória infinita, porquanto o Verbo comunica às ações e sofrimentos da sua humanidade um valor infinito. E por este mesmo sacrifício, Jesus salvará em princípio todos os homens, no sentido de que lhes merecerá, de uma maneira abundante e mesmo superabundante, todas as graças de que têm necessidade para serem salvos: se alguns não aproveitam da sua redenção, é porque resistiram à sua graça. E São João diz: "Se alguém pecou, temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo; Ele próprio é uma vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas pelos de todo o mundo" (1 João, I, 2). E se, possuindo o estado de graça, tivermos necessidade de novos socorros para perseverar ou progredir na vida espiritual, Jesus estará presente, "sempre vivo para interceder por nós" (Heb. VII, 25).

   C) OFERECER SACRIFÍCIO. Se alguém é sacerdote, então importa que ofereça sacrifício; se é  o sacerdote por excelência, importa que ofereça um sacrifício perfeito. Foi exatamente o que Jesus fez. Quanto ao sacrifício, começou a oferecê-lo interiormente desde o primeiro instante da sua existência e renovou exteriormente este oferecimento no dia da sua apresentação no templo. Preparou a imolação sangrenta por uma vida de rudes trabalhos e profundas humilhações. Completou o seu sacrifício na última Ceia e sobre o altar da Cruz, oferecendo-se livre e generosamente para suportar com paciência heróica todas as torturas físicas e morais que os seus algozes lhe infligiram. Consumou-o, ressuscitando e subindo ao céu; aí, aparece diante do Pai com a sua humanidade imolada por nós e, embora lá não ofereça um sacrifício propriamente dito, não cessa de interceder por nós e de pedir que os frutos da sua Paixão nos sejam aplicados.
   No Santo Sacrifício da Missa, Jesus Cristo continua o sacrifício do Calvário, oferecendo de novo a seu Pai a Vítima imolada sobre a Cruz, com as mesmas disposições de obediência e amor. E, como diz o Beato Olier, "como este augusto interior de Jesus é o mesmo sobre a cruz e sobre o altar, sob os véus do pão e sob os véus da carne, é ainda o que mais devemos estimar e honrar nos sacrifício de Cristo, que começou sobre a cruz e continua sobre os santos altares".

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

JESUS É TUDO PARA NÓS.

   Caríssimos e muito amados leitores, nestes dez dias que antecedem a festa de Cristo Rei, desejo, com a graça de Deus, alimentar as vossas almas num amor sempre maior ao Nosso Rei de Amor. Amor se paga com amor. Fá-lo-ei, outrossim, no intuito de desagravar o Sacratíssimo Coração de Jesus, tão ofendido pelos "Encontros de Assis".
   Com São Paulo, digamos do fundo do coração: "A minha vida é Jesus!" (Fil, I, 21). Quando um sábio está de tal modo absorvido nas suas investigações e só pensa na ciência, só vive por ela, não tem dúvida em dizer a todo mundo: A minha vida é a ciência. Quando um comerciante se dedica tanto aos seus negócios que esquece tudo o mais, pode com razão afirmar: A minha vida são os negócios.
   Assim também, quando um cristão autêntico compreende que Jesus é tudo para o homem, de tal modo que Ele constitui o seu único pensamento, a razão de ser da sua vida, pode repetir com o Apóstolo das Gentes: A minha vida é Jesus. Para este cristão Jesus é tudo: o caminho, a verdade, a vida, a luz, a alegria infinita e o centro de seus pensamentos e afetos. Na verdade Jesus é a cabeça de um corpo místico do qual nós somos membros; é o nosso mediador junto do Pai, é o sacerdote que oferece por nós o único sacrifício verdadeiro, o doutor que nos ensina a verdade eterna, o modelo perfeito que nos arrasta doce e fortemente nos caminhos da perfeição e da felicidade sem fim. ELE É PORTANTO TUDO PARA NÓS! Entendemos, então, que Jesus é o centro de todos os nossos pensamentos. Em quem poderíamos pensar senão naquele que é tudo para nós? Os santos colocavam suas delícias em meditar no Santo Evangelho! Com que amor eles percorrem essas páginas que fielmente evocam os fatos e os gestos do seu divino Salvador! Para eles, a doutrina e as virtudes de Nosso Senhor Jesus Cristo são um verdadeiro alimento e constituem a medida de tudo. Os santos sabem que os nossos juízos para serem verdadeiros, devem estar de acordo com os d'Aquele que é a verdade infalível. Unem-se a Jesus para adorar a Deus e pedir graças. Nos seus trabalhos, pensam em Jesus que auxiliou sua Mãe nos humildes cuidados de Nazaré. Se fazem alguma visita, se conversam com o próximo, não esquecem que Jesus vive ou deve viver no coração dos nossos irmãos, e é com Ele que conversam na pessoa do próximo. Assim compreendemos aquele encanto na sua conversação. Os santos viviam com Jesus e viam Jesus no coração do próximo. Quem conversava com Santa Catarina de Sena, com São Francisco de Assis, com o Santo Cura dArs, etc., sentiam  a presença de Jesus, é como se vissem Jesus. São Paulo dizia: "Eu vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus que vive em mim". Feliz de quem conviveu com algum santo! "Ecce quam bonum, et quam jucundum habitare fratres in unum!" (Salmo 132, 1).
   Caríssimos leitores, Nosso Senhor Jesus Cristo deve assim ser também o centro dos nossos afetos. São Paulo dizia em todo arroubo de sua alma: "Quem não amar a Jesus, seja anátema". Como pensar em Jesus sem O amar? Ele é a beleza e a bondade infinitas. Possui por natureza todas as perfeições da divindade. Ele é o Verbo Eterno feito Homem. É o Filho de Deus vivo que veio a este mundo. Santa Teresa d'Ávila depois de ter visto Jesus que lhe apareceu, dizia: "Tudo agora me parece cisco."
   Se os Apóstolos no Monte Tabor, diante da humanidade de Jesus transfigurado, ficaram tão arrebatados de admiração que exclamaram: "É bom estarmos aqui" (S. Mat., X, 7), quanto mais arroubados não ficaremos nós em face da beleza sobre-humana que resplandece em Jesus ressuscitado!
   Santo Tomás de Aquino resumiu numa estrofe, de maravilhosa concisão, as grandes manifestações do amor divino para conosco:
           No presépio fez-se nosso irmão,
           Na ceia, nosso alimento;
           Na cruz, nosso resgate,
           No céu, nossa recompensa.
   No dia do Seu nascimento, Ele aparece como um companheiro de viagem nesta terra de exílio, como amigo, como irmão, como consolador, e desde então nunca mais nos deixou sozinhos. Apareceu entre nós com toda benignidade e doçura.
   Ao instituir a Eucaristia, torna-se nosso alimento e sacia com o  seu corpo, sangue, alma e divindade, as almas que têm fome e sede de Deus.
   Morrendo na Cruz, pagou o preço do nosso regate, libertou-nos da servidão do pecado, restitui-nos a vida espiritual e deu-nos o maior sinal de amor que é possível dar aos amigos.
   No céu, enfim, será Ele mesmo a nossa recompensa, veremos face a face a sua divindade, contemplaremos embevecidos a sua humanidade glorificada, possuí-Lo-emos sem partilhas, e participaremos da sua glória.
    "Tendo amado os seus, amou-os até o fim": até o fim de sua vida, até o fim do mundo, até o último extremo, de tal modo, que somos levados a exclamar com Santo Agostinho: "Jesus, sendo poderosíssimo, não poderia dar mais, sendo sapientíssimo, não saberia dar mais; e sendo riquíssimo, não teria mais para dar.
   Ó Pedro, Chefe dos Apóstolos, quanto motivo tínheis para chorar até o fim da vida, como realmente o fizestes, porque negastes a Jesus dizendo: "Não conheço este homem!" Ó Jesus, dai-me lágrimas, lágrimas de profundo arrependimento por tantas e tantas vezes que Vos neguei e traí!
   Ah! caríssimos leitores, quem medita atentamente nestas verdades não pode deixar de amar generosamente Aquele que tanto nos ama e que é o único ser digno do nosso amor.
   Na verdade, Jesus é o nosso melhor amigo, o único que deu a sua vida por nós, o único que pode satisfazer o nosso coração feito expressamente para Ele. Quem tem Jesus, tem tudo. Quem não tem Jesus, não tem nada. Todo cristão que compreende a fé, vive na presença e na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Caríssimos, depois desta meditação, poderemos nós ligar importância às visões dos poetas, às musas inspiradoras, à beldades da vida? Nem poesia, nem paixão, nem encanto algum igualarão jamais o real e terno amor que nos inspira a Pessoa de Jesus Cristo. Sentimos indignação quando alguém cita um filósofo, um cientista, um escritor, um fundador de seita, e diz: Assim disse o Mestre. Só há um Mestre: é Nosso Senhor Jesus Cristo. É o Mestre por excelência, porque é Deus, a própria Sabedoria, o Deus das ciências. Só há uma Religião verdadeira: é a de Nosso Senhor Jesus Cristo. VIVA CRISTO REI!!!
  
    

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

PAZ E PAZES

Livro "Quer agrade, Quer desagrade", autor: Revmo. Padre Fernando, hoje Sua Excelência Revma. Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo Administrador Apostólico.

   Quando do nascimento do Príncipe da Paz, os anjos de Belém anunciaram "paz na terra aos homens de boa vontade". E, no dia da Ressurreição, a sua saudação aos Apóstolos foi "a paz esteja convosco". A paz é um dom de Deus.
   Entretanto, quando se despedia dos Apóstolos na última ceia, Jesus lhes explicou: "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não como o mundo dá, eu vo-la dou" (Jo. 14, 27). Isto significa que há duas espécies de paz: a paz de Cristo e a paz do mundo.
   A paz do mundo é fria, aparente, é a paz do homem e não a paz de Deus. Consiste apenas na mera coexistência pacífica entre os povos mantida pelo temor uns dos outros e pelo recíproco desengano; ou então na convivência sossegada e respeitosa entre a religião verdadeira e as religiões falsas, na tranqüila cordialidade entre a verdade e o erro, bem ao estilo da maçônica fraternidade universal.
   "Não há paz para os ímpios", nos adverte a Sagrada Escritura. Na verdade, entre os males que mais nos afligem está a falta de paz. Falta a paz internacional, faltam a paz política e social, a paz doméstica e econômica.
   A causa destes males está justamente na ausência de Deus da sociedade e da vida dos homens. Quando veio ao mundo o Príncipe da Paz, não houve lugar para ele nos lares e nos corações. "A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más" (Jo 3, 19). Hoje, o mesmo se repete. Não há lugar para Nosso Senhor nas sociedades, nas leis, nas escolas, nas famílias. Procura-se expulsá-lo até das igrejas instalando nelas a religião dos direitos humanos com detrimento dos direitos de Deus. O mundo atual substituiu a honra do Deus verdadeiro pelo culto de outros deuses, pela ânsia imoderada dos bens terrenos e pela busca desenfreada do prazer. Assim não se tem a paz.
   "A paz verdadeira é o fruto da Justiça" (Is. 32, 17). A paz de Cristo, a única verdadeira, não existirá enquanto os homens não seguirem fielmente os ensinamentos e os exemplos de Nosso Senhor na vida pública ou particular. Paz de Cristo no Reino de Cristo.
   A paz é "a tranqüilidade da ordem" (Stº Agostinho). A ordem é condição para a paz. Por isso não há paz no pecado, que é a desordem na nossa relação com o Criador. O pecado das nações,  o pecado das famílias, o pecado das consciências é que destrói a paz. Só haverá paz das armas quando houver a paz das almas.
   E não se constrói a paz batendo-se apenas pelos direitos do homem. A paz virá quando forem respeitados os direitos de Deus. O restabelecimento da paz será concomitante com a restauração do reino de Cristo. Não é pela religião do homem que se faz Deus, mas pela religião do Deus, que se fez homem, para nos salvar, que reconstruiremos a paz.
   Por isso, a paz exige luta. Combate às paixões; ao erro, ao mal. Neste sentido foi que Jesus disse: "Não vim trazer a paz e sim a espada" (Mt 10, 34). Alguns, com a falsa idéia da paz, pensam que para salvaguardar a união não se deve se indispor com os outros em hipótese alguma. A estes São Paulo responde: "Se eu procurasse agradar aos homens não seria servo de Cristo" (Gal. 1, 10).
   Que Nossa Senhora, Rainha da Paz, nos alcance de Deus a paz verdadeira, sinônimo de felicidade.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"RESPONSABILIDADE TERRÍVEL!!!"

   Só o título é de minha autoria. A matéria é um trecho do PREFÁCIO do livro "A IGREJA, A REFORMA  E A CIVILIZAÇÃO" de autoria do sábio e erudito Padre Leonel França, S. J.

   "Grande é a responsabilidade de quem escreve. Agitar idéias é mais grave do que mobilizar exércitos. O soldado poderá semear os horrores da força bruta desencadeada e infrene; mas enfim o braço cansa e a espada torna à cinta ou a enferruja e consome o tempo. A idéia, uma vez desembainhada é arma sempre ativa, que já não volta ao estojo nem se embota com os anos. A lâmina do guerreiro só alcança os corpos, pode mutilá-los, pode trucidá-los, mas não há poder de braço humano que dobre as almas. Pela matéria não se vence o espírito. A idéia do escritor é mais penetrante, mais poderosa, mais eficazmente conquistadora. Vai diereito à cidadela da inteligência. Se a encontra desapercebida ( e quantas inteligências desaparelhadas para as lutas do pensamento!) toma-a de assalto, instala-se no seu trono e daí dirige e governa, a seu arbítrio, toda a atividade humana. Pelo espírito subjuga-se a matéria.
   Quantos crimes que se atribuem à força e são filhos da idéia! Se fora perfeita a justiça humana, muita vez, não sobre o braço que vibrou o punhal assassino mas sobre a pena que semeou a idéia homicida, é que deveram pesar os rigores da sua severidade.
   Grande sempre é a responsabilidade de quem escreve! Mas se é religioso o livro que se atira às multidões, essa responsabilidade assume quase proporções infinitas. Semear idéias religiosas é dirigir consciências. E dirigir consciências é orientar o homem no problema do seu destino, cuja incógnita se resolve na tremenda alternativa de duas eternidades, uma infinitamente feliz, outra infinitamente desventurada. À perspectiva destas inelutáveis e irreparáveis consequências, como devera tremer a mão do escritor que se abalança à gravidade de tamanha empresa! Que respeito religioso à verdade! Que prudência circunspecta nas asserções! Que certeza absoluta e inconcussa nas doutrinas que se querem inculcar às almas! Que delicadeza de escrúpulos em fulminar anátemas contra convicções que nutrem, vigoram e confortam a vida espiritual de milhões dos nossos semelhantes! Mais do que qualquer outro, um livro religioso deve ser obra de ciência e obra de consciência." (1).
   NOTA: (1) - Em argumento semelhante RUY BARBOSA: "A natureza de tais questões exigia que delas não se aproximasse ninguém senão com uma sinceridade absoluta e uma intensíssima percepção da sua gravidade... É dos interesses eternos do homem que se trata, das suas relações com Deus, das suas responsabilidades eternas, das bases morais da família e da sociedade. Com a consciência, a sua liberdade, os seus direitos não se especula, não se transige, não se joga". (Discurso proferido em Belo Horizonte em 1910).
   A este respeito leiamos também Sertillanges, La vie intellectuelle, Paris, 1921, p. 12: "Jouer avec les questions qui dominent la vie et la mort, avec la nature mystérieuse, avec Dieu, se faire um sort littéraire et philosophique aux dépens du vrai, ou hors la dépendance du vrai n'est-ce pas un sacrilége?"
   Para os que não sabem francês vou traduzir. Peço desculpas em não saber fazê-lo com a perfeição que merece tão belo idioma: "Jogar com as questões em cujo domínio, entram a vida e a morte, jogar com a natureza misteriosa, com Deus, habituar-se a um estilo literário e filosófico a espensas da verdade, ou independentemente dela, não é porventura, um sacrilégio?"

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O SANTO ROSÁRIO - (continuação).

   4. Na recitação do Têrço se aumenta em nós a fé, quando contemplamos a vida oculta, pública e gloriosa de Jesus Cristo, que é o "autor e consumador de nossa fé" (Hebr. XII, 2), e exteriormente por meio de orações vocais manifestamos que cremos em Deus nosso Pai providentíssimo; que cremos na vida eterna, na remissão dos pecados e nos mistérios da augustíssima Trindade, da Encarnação, da maternidade divina de Nossa Senhora e de outros; "de modo que, ao recitarmos bem o Rosário, sentimos em nossa alma uma unção suavíssima, como se ouvíssemos a própria voz da Mãe celestial, que amavelmente nos ensina os divinos mistérios e nos indica o caminho da salvação". (Leão XIII).

   5. Pela recitação do Rosário aumenta-nos a esperança de por Maria Santíssima obtermos a abundância da divina misericórdia: pois são justamente os mais importantes mistérios da Redenção, em que Maria apresenta no seu papel de Corredentora: assim na Encarnação, na santificação do Batista, Precursor do Nascimento de Jesus, na apresentação do Menino Jesus no Templo e no encontro do jovem Jesus entre os doutores. Enquanto recitamos o Têrço, mentalmente acompanhamos a Mãe do Redentor no acerbo caminho da cruz, vemo-la, no altar do monte Calvário, unir ao sacrifício de seu Filho; no têrço glorioso a nossa mente se prende à pessoa de Nossa Senhora e medita a fase de sua vida depois da Ressurreição, até sua gloriosa Assunção e Coroação no céu.

   6. Pela recitação do Terço acende-se em nosso coração a caridade, o amor, a gratidão a Jesus e Maria, que tanto fizeram pela nossa salvação. Ao mesmo tempo desperta em nossa alma o desejo de seguir-lhes as pegadas e pertencer-lhes inteiramente. O nosso espírito enleva-se na contemplação dos grandiosos exemplos que se nos deparam nas pessoas de Jesus e Maria. Ele, ansioso por fazer o vontade de seu Pai; ela, fazendo sua consagração perpétua de serva do Senhor.

   7. Três males afligem a sociedade moderna: a aversão a uma vida modesta e laboriosa, a repugnância pelo sofrimento, o esquecimento dos bens futuros. No Rosário encontramos um remédio salutar contra estes três males gravíssimos (Leão XIII). Os mistérios gozosos apresentam-nos na Sagrada Família o modelo perfeitíssimo da vida doméstica: pureza e simplicidade de costumes, perfeita e perpétua harmonia dos ânimos, ordem jamais perturbada, respeito e amor recíprocos, amor e dedicação ao trabalho para poder fazer algum bem ao próximo, tranqüilidade do espírito e alegria da alma, companheiros inseparáveis da consciência reta e bem formada.
   Nos mistérios dolorosos vemos Jesus Cristo entregue a uma tamanha tristeza, que o corpo se lhe cobriu de suor de sangue; vemo-lo preso a modo dos malfeitores, submetido a um julgamento de celerados, maldito, ultrajado, caluniado; vemo-lo preso à coluna da flagelação, coroado de espinhos, pregado na cruz, julgado indigno de ter vida; sua morte é impetuosa e sacrilegamente exigida pelo povo. Com os sofrimentos do Filho unem-se os sofrimentos de sua Mãe Santíssima. O Coração de Maria, apesar de não ser ferido, é transpassado por uma espada de dor, e o título de Mãe dolorosa é a expressão da verdade. Assim o Têrço nos ensina que indigno de usar o nome de cristão é todo aquele que se nega a levar a cruz de sua vida.
   Nos mistérios gloriosos se nos revelam os altos ideais do céu, infinitamente superiores aos bens transitórios e falazes deste mundo. O Têrço glorioso nos faz compreender que a morte não é o cutelo que tudo corta e destrói, mas a passagem desta vida à outra. Ensina-nos que o caminho para o céu é estreito para todos, e diante de nós vemos Nosso Senhor, que nos conforta com a promessa deixada aqui na terra: "Eu vou, para vos preparar um lugar". - Vemos mais, que tempo virá em que Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos e não haverá mais luto, nem lamento, nem dor, mas viveremos em Deus Nosso Senhor, feitos semelhantes a Ele, pois o veremos como é, inebriados pela torrente das suas delícias, concidadãos dos Santos, na companhia felicíssima de nossa Rainha, nossa Mãe Maria, Uma alma que se eleva a tais sentimentos, inflama-se de tal maneira no amor de Deus, que com Santo Inácio de Loiola chega a exclamar: "Oh! como é desprezível a terra, se a comparo com o céu!" e consola-se com a palavra do Apóstolo: "um sofrimento leve e instantâneo importa-nos glória eterna".
   Com efeito, o Rosário mostra-nos a único meio de unirmos o tempo à eternidade, a cidade terrena à cidade de Deus. É o único meio de formar caracteres generosos e magnânimos. 
   

O SANTO ROSÁRIO

Pe. João B. Lehmann. S.V.D. -  Livro: "NA LUZ PERPÉTUA".
   1.  O Rosário é uma devoção sumamente meritória:
   Uma oração é tanto mais meritória, quanto mais cara é a Deus. Ora, o Rosário compõe-se justamente das duas orações mais caras a Deus, o Pai-Nosso, ensinado pelo próprio Deus feito homem, e da Ave-Maria, como nô-la ensinaram o Arcanjo São Gabriel e, por inspiração de Deus, Santa Isabel e a Santa Igreja. Se os Santos do Paraíso pudessem voltar à terra e aumentar seus méritos, de preferência a qualquer outra oração, se serviriam do Pai-Nosso e da Ave-Maria para honrar e louvar a Deus.
   Uma oração é tanto mais meritória, quanto mais a invocação material for vivificada pela intenção espiritual e pelo afeto do coração. Pouco ou nenhum valor teria a recitação vocal, se não partisse da devoção interna da alma.
   Pois bem, o Rosário une perfeita e graciosamente a oração vocal com a mental, apresentando à nossa meditação os Mistérios da nossa Redenção.
   Recitando o Rosário, dirigimos o nosso pensamento a Deus, ao Filho de Deus e à Mãe de Deus. Estes afetos são outros tantos raios de luz sobrenatural, que nos iluminam, nos inflamam, deixando-nos o mérito de uma contemplação, se bem que breve, mas altíssima e proveitosa.
   Uma oração, como qualquer outra obra boa, é tanto mais meritória, quanto mais a nossa vontade se identificar com a de Deus; quanto mais é feita por obediência à legítima autoridade, que é representante de Deus. Pois bem, recitando o Terço, satisfazemos a um dos desejos mais ardentes da Igreja, a qual embora não o tendo como oração propriamente litúrgica, o apregoou sua oração por excelência, distinguindo-a com festa solene e dedicando-lhe o mês inteiro de outubro. "Desejamos ver sempre mais largamente propagada esta piedosa prática (do Rosário) e tornar-se devoção verdadeiramente popular de todos os lugares, de todos os dias". ( Leão XIII).
   Desta maneira, assim como por razão de obediência, o Divino Ofício (breviário) para o clero é a oração mais meritória, assim a recitação do Rosário , recomendada a todos os fiéis, é de um valor inestimável para o povo.

   2. É uma devoção sumamente impetratória:
   A oração tira sua maior eficácia de duas qualidades principais: a perseverança assídua e a união de muitos corações pela mesma oração. Estas duas qualidades vemos admiravelmente ligadas ao Rosário. Com ardente e reiterada súplica se pede, se procura, se bate, faz-se doce violência aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. (No Evangelho diz-se que Jesus, no Horto das Oliveiras, voltou a rezar  por três vezes repetindo sempre as mesmas palavras; e Jesus mesmo nos ensinou a fazermos esta doce violência). Recitado em comum, terá o cumprimento da divina promessa: "Se dois de vós se unirem entre si sobre a terra, qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos Céus. Porque onde estão dois ou três congregados em meu nome, aí estou no meio deles" (Mt. XVIII, 19).
   Eficacíssima é a oração do Rosário, porque dispõe em nosso favor o Coração de Maria, "Que doce alegria não deve ser para ela ver-nos piamente empenhados em lançar-lhe coroas de súplicas e de louvores belíssimos! Se de fato com estas preces rendemos a Deus, como é nosso desejo, a devida honra; se fazemos o protesto de nunca mais procurar outra coisa senão cumprir em tudo sua santíssima vontade; se exaltamos sua bondade e magnifecência, invocando o Pai, e pedindo nos conceda, embora imerecidamente, os mais estimáveis bens; de tudo isto, oh! quanto não se alegrará Maria, e como não enaltecerá ao Senhor! Certamente não pode haver linguagem mais digna para nos dirigirmos à  divina majestade, que a da oração dominical. Tudo que no Pai-Nosso pedimos, é muito reto, muito bem ordenado e conforme à fé, à esperança e à caridade cristã, e já por isto tem o especial agrado da Santíssima Virgem. Além disto, ouvindo-nos rezar, ela reconhece em nossa voz o timbre da voz de seu Filho, que nos deu e nos ensinou à viva voz esta oração e nô-la impôs, dizendo: assim deveis rezar. Maria Santíssima, vendo-nos assim com o Rosário, cumprindo fielmente a ordem recebida, com tanto mais amor e solicitude nos atenderá. As místicas coroas que lhe oferecemos, são-lhe sumamente agradáveis e penhores de graça par nós". (Leão XIII).
   A  própria Rainha do Céu fez-se fiadora da eficácia desta excelente oração. Por seu impulso e inspiração foi que São Domingos fez do Rosário a arma poderosa para combater a heresia dos Albigenses.
   À recitação do Rosário é que a Igreja atribui os seus maiores triunfos, e grata atesta, pela boca dos Sumos Pontífices, que "pelo Rosário todos os dias desce uma chuva de bênçãos sobre o povo cristão". (Urbano IV); "que é a oração oportuna para honrar a Deus e a Virgem, como afastar bem longe os iminentes perigos do mundo" (Sixto IV); "propagando-se esta devoção, os cristãos entregues à meditação dos mistérios, começarão a transformar-se em outros homens, as trevas das heresias dissipar-se-ão e difundir-se-á a luz da fé católica". (São Pio V).

   3. O Rosário é um verdadeiro alimento espiritual:
   Uma oração feita com atenção produz, juntamente com o mérito e com sua eficácia impetratória, o efeito de refeição espiritual; e é precisamente esta atenção que nos falta muitas vezes, pelas distrações a que somos sujeitos, quando estamos a rezar. O Rosário tem em si a virtude de excitar e nutrir em nós o recolhimento, pondo-nos em contato com os mistérios da nossa religião. É a oração do sábio e do analfabeto, pois, como nenhuma outra, se adapta à capacidade de todos.
     
  

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RIR E CHORAR

   Todo domingo à noite, após ficar muito atarefado durante o dia, sento-me ao computador e acesso o conceituado blog "Fratres in Unum" para ver a foto da semana. Confesso que ontem não pude coibir o riso ao ver a foto. Todos os meus fiéis ou ex-paroquianos que leem o "Fratres" e alguns nele fazem comentários, sabem que eu, graças a Deus, sou alegre e tenho facilidade em rir. Sabem também que tenho facilidade em chorar.
   Pois bem! Confesso que ontem ao ver a foto ri e não pouco. Ri, é claro, mas não zombando: o que seria uma falta de caridade e de respeito, tanto mais que se trata de Suas Eminências os Cardeais e com suas veneráveis cãs, ou mais apropriadamente, em sua feliz longevidade. Mas o motivo do meu riso foi a feliz ou infeliz coincidência da foto. Bocejar não é assim algo tão demorado! E como o fotógrafo conseguiu involuntariamente captar este momento hilariante?! Depois é que fui imaginar que talvez a foto tenho sido tirada de um filme pausado de propósito naquela imagem. Depois, ri também por lembrar de um fato que Mons. Ovídio  Simon, de saudosa memória, contava para nós afim de nos divertir: Quando seminarista, dizia ele, estava eu assistindo a Santa Missa, minto, estava eu dormindo (como bom espanhol tinha se atarefado muito durante o dia). E, continuava ele, o meu Reitor viu, e tocou-me de leve e disse em latim, baseando-se no meu nome: "Simon dormis?"  ("Simão, dormes?").
   Hoje de manhã, porém, lembrando-me da mesma foto de ontem e da história de Mons. Ovídio Simon, meditei sobre alguns passos da Paixão de Jesus. No Getsêmani Jesus entrava em agonia e rezava prostrado em terra. Enquando isso São Pedro, chefe dos Apóstolos, dormia estendido ao chão. Jesus veio a ele e disse-lhe: "Simão, dormes, não pudeste velar uma hora comigo?" Fiquei meditando: Simão Pedro ofendia a Jesus por não estar ao seu lado vigiando e rezando. Mas, fez pior quando estava acordado. Primeiro já ia cometendo um assassínio, se Malco não tivesse sido esperto. Mesmo assim Simão cortou-lhe a orelha direita, que Jesus recolocou no lugar. Ainda bem! Mais tarde, lá pela meia noite, hora em que o galo canta, Simão Pedro estava bem acordado, mas fez bem pior. Ficou entre os inimigos de Jesus, procurando a paz e se aquecendo ao fogo. Simão Pedro estava bem acordado, de pé inclusive.  Deveria estar ao lado de Jesus procurando Aquele único que lhe podia dar a  verdadeira paz e aquecer o seu coração. Assim fez São João que quis estar sempre junto do seu Divino Mestre; e ele foi o único que seguiu a Jesus de perto até o fim. Simão Pedro, ao contrário, seguia-O de longe.  A não fazer como São João, seria melhor, se assim posso dizer, que Simão Pedro naquele momento estivesse dormindo, ou, pelo menos, sentado e bocejando. Mas estava bem acordado, porém no meio dos inimigos de Jesus. E sabemos o que ele fez: negou covardemente a Jesus; primeiro com mentira, segundo com juramento falso; terceiro com blasfêmias. Ainda menos pior porque não chegou ao ponto de elogiar o seu antigo colega, agora apóstata e traidor Judas Iscariotes, que pouco dias antes tinha protestado contra Maria Madalena e indiretamente contra Jesus, lá na ceia de Betânia.
   Voltei um pouco ao primeiro ponto da meditação: ao Jardim das Oliveiras. Enquanto Jesus estava com a alma triste até à morte, enquanto Simão Pedro dormia, Judas Iscariotes estava bem acordado; mas, infelizmente, trabalhava, e muito, para trair a Jesus. Tendo o demônio entrado nele, o Iscariotes, foi pessoalmente combinar com os príncipes dos sacerdotes e com os oficiais de que modo entregaria Jesus. Eles ficaram contentes e combinaram com ele dar-lhe dinheiro. E Judas, por seu lado, deu a sua palavra, e buscava ocasião oportuna de entregar Jesus sem tumulto (Cf. S. Luc. XXII, 3-6). Sabemos o que Judas fez: colocou-se a frente dos inimigos de Jesus e traiu-o com um beijo hipócrita, mostrando assim Jesus aos inimigos. Como Apóstolo deveria mostrar Jesus aos inimigos afim de convertê-los. Mas, fez o contrário; confirmou os inimigos de Jesus na sua ignorância e na sua maldade, escandalizando-os por dar a entender que Jesus estava errado e os príncipes dos sacerdotes, certos. E, assim, aqueles pobres e miseráveis soldados, cometeram o maior crime possível sobre a face da terra!!! E pensei na minha meditação: Já que Judas não quis fazer como São João, menos pior se estivesse dormindo ou, pelo menos, sentado em  sua casa, bocejando o tempo todo!!! Na verdade, de Judas Iscariotes Jesus disse: "Melhor fora que nunca tivesse nascido". Aqui nesta meditação, penso em duas interpretações possíveis: "Melhor fora que Judas tivesse sido um "simples possível" eternamente dormindo no leito do nada." Ou então: "Melhor fora que ele tivesse sido um abortivo (não como S. Paulo diz de si) dormindo eternamente no leito esplêndido do Limpo a gozar de uma felicidade total mas natural."
   E, voltando à foto da semana no "Fratres", foto esta que acabou servindo de "composição de lugar" de minha meditação matinal de hoje, cheguei a seguinte conclusão: aqueles cardeais que dormiam, ou quase, na missa de Sua Santidade o Papa Bento XVI na Alemanha, além de serem desculpados pela idade avançada, foi muito melhor assim! Muito pior fazem aqueles, sejam padres ou bispos,  que  estão bem acordados e de pé ao microfone para elogiar algum inimigo da Igreja, Santa Esposa  de Jesus, e igualmente inimigo  da Santíssima Mãe de Jesus, a sempre Virgem Maria.
   E assim, a foto da semana que a primeira vista parecia estar destinada só a provocar riso, terminou ensejando tão séria meditação com todos os motivos para chorar.
   E o Ramalhete espiritual de minha meditação foram as palavras do  amabilíssimo e adorável Nosso Senhor Jesus Cristo: "Vigiai e orai para não caírdes em tentação" e "Ninguém pode seguir a dois senhores ao mesmo tempo" e ainda "Ide e ensinai a todos os povos a observar tudo o que eu vos mandei".
  

domingo, 25 de setembro de 2011

Os apóstolos do Protestantismo - pelo Padre Rivaux

   "Não se pode negar, que, no começo do século XVI, era necessária uma reforma. Para disso nos convencermos, basta lançar uma vista d'olhos para a história, e ouvir os gemidos de alguns grandes homens, que a Igreja considera com justa razão como filhos queridos. - No primeiro decreto do Concílio de Trento lê-se, que um dos objetos dessa assembleia era "a reforma do clero e do povo cristão". O Sumo Pontífice Pio IV, confirmando o mesmo concílio, diz que um dos principais motivos porque se reunira, era "a correção dos costumes e o restabelecimento da disciplina". - Os abusos são comuns a todos os séculos. Os tempos que estudamos não podiam se excetuados da regra geral. Pelo contrário, os escândalos de alguns Papas e de vários membros do clero, durante a Idade Média; as desordens e as usurpações de muitos príncipes; as lutas do Papado contra o império; o cisma da Alemanha, e sobretudo o grande cisma do Ocidente, não tinham podido senão desenvolver este triste apanágio da humanidade. - Ninguém o deplorava mais do que a Igreja; ninguém desejava tanto como ela uma verdadeira e sábia reforma: era o objeto dos votos de todos os santos, dos seus doutores e concílios. Mas nós já vimos quantas dificuldades, quantos obstáculos as paixões humanas suscitaram contra esta santa obra."
   "Em meio dos estorvos, que retardavam a reforma, a necessidade que dela se sentia, ia aumentando sem cessar, a abria um vasto campo à censura. Como é sabido, este tema acha sempre simpatias no coração do homem, indulgente para com os seus próprios defeitos, mas severo e inexorável para com os de outrem. - "Neste estado de coisas, e entre os gritos de reforma, cem vezes repetidos, diz Bossuet,os homens pervertidos, os espíritos soberbos, levantaram a cabeça, os fracos perderam-na, e em lugar de se lembrarem que o Filho de Deus ensinara a respeitar a Cadeira de Moisés, apesar das más obras dos doutores que nela estavam sentados, um grande número de pessoas sucumbiram à tentação que leva a odiar a cadeira em ódio dos que a ocupam. Tudo estava pronto para um grande cisma; os materiais achavam-se acumulados, e só faltava um hábil arquiteto". "O ovo estava posto, diz Erasmo; Lutero tinha só que chocá-lo e fazer sair o filho". - Além disto, ninguém ignora, que o princípio de submissão à autoridade em matéria de fé tem encontrado em todos os tempos uma forte resistência no orgulho do espírito humano, e a história da Igreja anda sempre acompanhada de heresias. - A tutela temporal exercida pela Igreja irritava também certos espíritos. Vimos já que alguns príncipes suportavam a custo a constituição cristã da sociedade. Ouvimos, sob diferentes formas, este queixume do vício ou do despotismo reprimido: Quão feliz era Saladino! não tinha Papa. - É inegável que havia reação contra o poder temporal da Igreja. "A ordem temporal, diz Blanc, tendia a secularizar-se, e o espírito de fé retirava-se de toda a parte para dar lugar ao espírito do século". - Daqui se segue que a grande heresia do século XVI não deve surpreender-nos nem por sua aparição nem por seus sucessos. "Basta uma faísca, diz Balmes, para produzir um vasto incêndio". - Destruindo toda subordinação à autoridade eclesiástica, proclamando a independência absoluta do espírito, abolindo todas as idéias de abstinência, de mortificação, de penitência, etc., e isto sob o nome especioso de Reforma, Lutero reuniu como em sua mão todo o poder, que o inferno tinha na terra. Empreedeu contra a Igreja a guerra mais universal e longa que ela tem tido que sustentar desde que combate neste mundo. - Esta guerra dura ainda hoje, mais terrível que nunca. A independência absoluta em matéria espiritual devia necessariamente trazer a anarquia de idéias e de doutrinas, que corrompe as inteligências modernas. - Por outro lado, depois de se ter revoltado contra a autoridade espiritual e infalível da Igreja, o espírito humano podia, com mais razão, sacudir o jugo da autoridade temporal e falível dos governos; daí a anarquia política. Ora, ninguém ignora que a anarquia religiosa e a anarquia política são o duplo flagelo que na atualidade ameaça a sociedade de uma ruína total. O protestantismo "semeou ventanias, e nós colhemos as tempestades". "Os nossos pais comeram as uvas verdes, e os seus filhos ficaram com os dentes embotados." - Interroguemos os fatos.
   "Para acabar a construção da Basílica de São Pedro em Roma, que Júlio II começara, e para formar um exército capaz de se opor à marcha do sultão Selim I, filho de Bajaset, que, depois de conquistar o Egito e vencer os mamelucos, ameaçava a Europa, Leão X pediu socorros ao orbe católico, e abriu os tesouros espirituais da Igreja a favor dos fiéis, que correspondiam ao seu convite por suas esmolas pecuniárias. A dupla missão de pregar essas indulgências e de fazer estas coletas foi confiada aos dominicanos e não aos agostinianos os quais pretendiam ter exclusivamente este privilégio. Foi esta a causa ocasional do protestantismo.
   O autor da nova heresia foi um religioso agostiniano, por nome Martinho Lutero. Nascido em Eisleben, na Alta Saxônia em 1483, de pais pobres mas católicos, começou os seus estudos com o auxílio da algumas pequenas esmolas que lhe davam as pessoas ricas, quando, defronte de suas casas, ele ia cantar duas vezes na semana, ou que ele juntava na igreja, salmodiando no coro. Um dia que ele cantava na rua , segundo o seu costume, uma viúva rica e religiosa, chamada Cotta, tendo dó dele, mandou-o subir, admitiu-o à sua mesa, e comprou-lhe uma flauta e uma guitarra para se distrair nas horas vagas. Daí em diante ao abrigo da miséria, Lutero entregou-se com ardor ao estudo das ciências e tornou-se dentro de pouco tempo, por sua aplicação e seu talento, o primeiro discípulo das Universidades de Eisenach e de Erfurt. Mas, no ano de 1505 (tinha 22 anos) , tendo morrido a seu lado, fulminado de um raio, um dos seus amigos, por nome Aleixo, assustou-se tanto, que deixou o mundo, e entrou em um convento dos Agostinianos, onde professou e foi ordenado sacerdote em 1507. - Tudo nele era apaixonado; a sua ardente imaginação era naturalmente levada para os excessos. (Como se ordena um sujeito com apenas dois anos de formação eclésiástica, se é que a teve!!! Naquela época não havia ainda seminários). - Designado por seus superiores para ensinar sucessivamente a filosofia e a teologia na Univerdidade de Wittemberg, não tardou a mostrar uma extrema tendência para as inovações. Gozava de uma grande fama de ciências; de toda parte afluia a mocidade alemã para ouvir as suas lições; e ele estava no apogeu da glória, quando, no fim do ano de 1517, chegou aos arredores de Wittemberg o dominicano Tetzel, pregando as indulgências concedidas pelo Papa Leão X, e atraíndo grande concurso de fiéis aos seus sermões. Cheio de inveja e de ira, Lutero começou a vociferar contra o pregador e as indulgências; das indulgências passou à doutrina e aos sacramentos, e afixou na porta da catedral de Wittemberg  95 teses cheias de opiniões novas e heterodoxas. Finalmente de erro em erro, ele acabou, três anos mais tarde, em 1520, por autorizá-los todos, proclamando a independência absoluta do espírito humano em matéria de fé. A sua heresia foi uma grande revolta contra a Igreja Católica, e mereceu desde então o nome de protestantismo, que ela recebeu em Spira, no ano de 1529. É o acontecimento mais doloroso de todos os que a Igreja tem registrado em seus anais. A linguagem desabrida, grosseira e indecente do novo heresiarca bastaria só por si para dar à sua obra um caráter satânico. - Os cooperadores da Reforma foram semelhantes ao seu chefe. - Os principais na Alemanha são: Zwínglio, Carlostad, Ecolampádio, Calvino e Melanchton.

domingo, 11 de setembro de 2011

O Pe. Dr. Expedito Schimidt, O.F.M. narra sua conversão

NB: É notável pela sua crítica literária e dramática: Seu livro mais famoso é: "DO LUTERANO AO FRANCISCANO".

   "Sinto-me deveras constrangido ao responder à pergunta: "Quando percebi, pela primeira vez, a insuficiência do meu protestantismo tradicional?" Desde que me libertei do pietismo sentimental da infância, que minha mãe, senhora de profunda piedade e bastante cultura, fez nascer em mim, não me recordo de ter jamais conseguido satisfazer às minhas aspirações religiosas.
   O ensino religioso do ginásio não me ofereceu aquilo a que aspirava. Um dos meus professores assegurava: "Nossa religião é, para todos os efeitos, a mais verídica". Então isso significava apenas frisar uma valor sumamente relativo, e eu ansiava por uma convicção lógica.
   Nem eu nem meus colegas supomos poder encontrar na Igreja Católica aquilo que não encontrávamos no protestantismo. Ela era, em nossa opinião preestabelecida, uma Igreja para os fracos de espírito, que necessitavam de exterioridades; era, finalmente, uma forma antiquada de cristianismo. Como a maioria dos protestantes, nós éramos hegelianos inconscientes para os quais estava esmagado, duma vez para sempre, tudo aquilo que a mera dialética superava.
   Tratava-se também, durante o preparo para o dia da Confirmação ( que era a substituição da primeira santa comunhão), muito secundariamente da Igreja católica, que era logo rejeitada com algumas palavras leves e muito altivas. Mas toda a ira luterana de nosso professor, dirigia-se contra os colegas de Lutero na tarefa reformatória. Lutava contra os reformadores que ensinavam outra coisa que a doutrina de Lutero; combatia especialmente Zwínglio e Calvino. Foi justamente este ponto que me chamou a atenção: quem destes três tinha razão? Quem me diria onde encontrar a autoridade divina? Naturalmente ninguém me respondia a essa pergunta e, ignorando em qual dos três homens poderia confiar e acreditar, acabei por desconfiar e descrer de todos os três. Destarte resultou do ensino religioso da Confrmação uma acentuada descrença.
   Quando, conforme o costume, foi pronunciada em coro a profissão de fé, durante a confirmação, - silenciei. Não podia professar a fé, e não queria mentir. Se minha bondosa mãe não tivesse estado gravemente adoentada naquela época, eu teria negado a aceitar a Confirmação. Não queria, porém, causar-lhe este desgosto.
   Participei de tudo em atenção a minha mãe doente, mas longe de mim estava qualquer sentimento de fé. Não negligenciei as orações pouco a pouco, como sói acontecer algumas vezes nestes casos, mas acabei com as rezas em determinado dia propositadamente, convencido de que  era absurdo devido à minha mentalidade. Claro que não falei com ninguém sobre o assunto. De resto, meu ambiente mal se teria apercebido disso, porque quase ninguém da família ou dos conhecidos, a não ser minha mãe, praticava uma vida de oração mais profunda. Meu interesse por questões religiosas, no entanto, ficou sempre muito vivo, se bem que num sentido quase só negativo, como é de fácil compreensão.
   Quatro anos mais tarde veio a metamorfose numa época de aflição. Voltava-me o pensamento de Deus, mas não conseguia balbuciar uma oração. Quis visitar uma igreja protestante. Já estava na entrada do templo. Mas adiei a decisão. Dei meia volta e entrei, quase instintivamente, numa igreja católica, simplesmente porque suas portas, qual convite amável, sempre estavam abertas. E aqui ouvi uma prática, completamente diferente das protestantes, sobre o evangelho da pesca milagrosa de São Pedro. Não foi nenhuma peça magistral de oratória, mas tinha algo completamente impessoal, inteiramente objetivo, de maneira que senti: aqui se manifesta um espírito diferente. Tornei a voltar, assisti também à santa Missa, embora sem a compreender e sem proferir uma oração; era simples observador. Alguns dias depois fui à casa paroquial e falei da minha inclinação para a Igreja Católica, recebendo uma resposta bastante negativa de modo que tudo quanto ouvira sobre as "pescas" apressadas dos católicos e seu proselitismo perdeu duma vez para sempre seu efeito.
   "Não temos tanta pressa" - foi a resposta do sacerdote católico. Justamente esta atitude me impressionou. Aumentava,  dia a dia, o desejo de conhecer bem a Igreja, que manifestamente era tão diferente das informações que nos haviam sido inoculadas. Queria conhecê-la, sacrificando mesmo, se necessário, minha convicção anterior.
   Voltei e tornei a voltar à casa paroquial. Finalmente ganhei de presente um pequeno catecismo católico que estudei com toda a aplicação. Aí notei a confiança absoluta da Igreja Católica em si mesma, considerando-se coluna e alicerce da verdade. Inicialmente parecia-me essa confiança absoluta da Igreja uma presunção, pois tinha sempre  imaginado a Igreja Católica apenas como uma das demais comunidades religiosas cristãs. Impressionava-me senti-la vivificada por um espírito diverso do protestantismo, onde nunca chegara a saber quem dos pretensos reformadores propriamente estava com a razão. Em todo caso achei-me obrigado a conhecer profundamente esta Igreja. Mas só mais tarde cheguei a reiniciar a oração quando da minha estada num hospital católico, onde se rezava em comum.
   Deus foi bom para comigo; levou-me, por caminhos humanamente nem sempre retilíneos, para perto de um sacerdote católico que me conduziu ao seio da Igreja. Muito mais tarde ouvi de outros, que acompanharam a minha preparação, quão obstinadamente pedi esclarecimentos pormenorizados sobre a autoridade divina da Igreja. O resto seguiu-se com muita naturalidade.
   A lógica da doutrina católica levou-me para a Igreja, como a lógica deficiente me expulsou do protestantismo. Contava, então, 19 anos. Jamais, nem sequer por um segundo, me arrependi de ter seguido esta lógica.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O PADRE TEODORO RATISBONNE FALANDO SOBRE A ORAÇÃO

   "A palavra oração não significa apenas as fórmulas pronunciadas pelos lábios; abrange todos os atos, todos os impulsos, todos os movimentos tendentes à união da alma com Deus.
   Orar é amar; a finalidade do amor é a união com o objeto amado. A oração responde ao amor pelo amor."Amareis com todo vosso coração, com todas as vossas forças, com todas as vossas faculdades". Eis a lei da vida. Para viver a verdadeira vida, é necessário, portanto, que todas as nossas faculdades concorram para a oração. É este exercício a base da piedade cristã; e a virtude perde toda a sua solidez quando o abandonamos. O progresso espiritual não depende nem da multiplicidade, nem da extensão das orações; depende  exclusivamente das comunicações íntimas e incessantes com Jesus Cristo, o Santo dos santos. Não é pelos atos exteriores, mas sim pelas afetos, aspirações e elevações de nossa alma que nos dirigimos a Deus. Seria necessário expor as vantagens de um exercício que nos aproxima sempre mais do foco do eterno amor?
   Se, do relacionamento com as pessoas sensatas, resulta um aperfeiçoamento do nosso proceder; se, do entretenimento com os sábios, nos tornamos mais cultos; quanto proveito não havemos de tirar desses íntimos colóquios com o Deus das virtudes, nestas comunicações com o céu? Não é tanto pelo ensino, como pela prática e pelo exercício, que a alma se inicia nestes suaves mistérios. É, contudo, salutar seguir os avisos de guias experimentados. São todos unânimes em nos aconselhar a prepararmos a ascensão do nosso coração, pela aplicação do pensamento nos exercícios da meditação. Para se acender o fogo, deve-se primeiramente juntar a madeira, a resina, o combustível que irá alimentar a chama. O alimento da meditação são os atos da vida e da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, são as emocionantes passagens de sua Paixão ou ainda as vivificadoras palavras consignadas na Escritura. A não ser que uma alma, favorecida por graça especial, se eleve espontaneamente aos píncaros do amor, a criatura deve procurar  e seguir fielmente um método de meditação adaptado as suas disposições particulares e necessidades íntimas.
   Santa Teresa d'Ávila, Santo Inácio, São Francisco de Sales e outros diretores eminentes, explicaram esses santos métodos.
   Não é preciso arte para regular o amor. Há, contudo, conselhos que variam para os principiantes, para os mais adiantados e ainda para os que já atingiram maior perfeição. O método mais fácil consiste em ler algum ponto em livro autorizado, e em seguida refletir sobre as verdades expostas, digeri-las, ruminá-las, por assim dizer, assimilar a substância nutritiva e retirar a verdade que deverá ser aplicada à vida prática. Para esta espécie de meditação, é preciso ler pouco e bem.
   Assim como a pomba que pousa à margem do regato para sorver algumas gotas e, depois, reabrindo suas asas, desfere o voo para as nuvens, a alma contemplativa toma as migalhas da palavra de Deus e, depois de revigorar suas forças, estende as asas dos seus bons desejos e remonta aos céus.
   Este sistema de meditação tem a vantagem de ocupar todas as faculdades espirituais, pois que, enquanto a memória se fixa e a inteligência reflete, os pensamentos santos se formam na vontade e tomam vigor e a alma toma uma resolução bem determinada e prática.
   Santa Teresa compara estes métodos de meditação a andaimes sobre os quais a alma se eleva a uma certa altura. É evidente que uma alma, atingindo as culminâncias da união com Deus, conseguindo expandir-se em atos inflamados de fé, esperança e amor, não deve se deter no pedestal, não necessita mais descer ao pé da escada, para metodicamente galgar os degraus. Voa direita a Deus: é a oração de simplicidade.
   Parece que Nosso Senhor reservou a si mesmo o ensino da oração. é a Ele que se dirige a chefe dos apóstolos par obter esta sagrada ciência: "Senhor, ensinai-nos a orar!" Ouçamos a lição do divino Mestre: "Quando orardes, entrai em vossa cela, fechai a porta e orai a vosso Pai em segredo; e vosso Pai, que vê o que é oculto, vos atenderá". A cela de que aqui se trata é o coração. - "Meu reino está dentro de vós", diz Nosso Senhor Jesus Cristo. - É aí que Deus reside, nos fala, nos ouve e nos responde; aí é que amamos e que somos amados. A Escritura nos revela que Ele se delicia entre os filhos dos homens. Mas, para tornar o coração sensível a esses sublimes contatos, é necessário recolhimento, calma, silêncio. É preciso que permaneçam fechadas as portas dos sentidos, sob a guarda de uma vigilância atenta, a fim de impedir que os rumores externos venham perturbar a soledade interior. Nesse pacífico abandono, pouco se fala, contempla-se, goza-se, saboreia-se o dom de Deus; e a alma emocionada, expande-se com a singeleza de uma criança. Como vibra ao mínimo sopro a corda musical, assim responde a alma à ação do Espírito Santo e exclama, com amor: "Abba, Pai! Benditas as almas que, em troca de humilde fidelidade, chegam à experiência destes profundos sentimentos de amor de Deus, seu Pai! Desfrutam já neste mundo as primícias do futuro gozo, exclamando com Davi: "Que haverá para mim no céu e que poderia pedir à terra, senão vós, ó Senhor, que sois o Deus do meu coração e minha partilha na eternidade?" É Jesus Cristo que, cumulando-nos do seu espírito e dos seus sentimentos, nos ensina a divina oração, em que damos ao Deus Altíssimo o nome de Pai!
   Chamamo-Lo: Nosso Pai, para dilatar a alma na caridade, ao mesmo tempo que ela aumenta no amor. Ele nos move a pedir que o nome deste Pai todo-poderoso seja para sempre glorificado - que seu reino se estabeleça em nós e fora de nós - que sua vontade - expressão de Sua sabedoria, de sua providência, de sua terna solicitude - seja feita na terra como no céu. Então, depois de prestar ao Autor de todo o bem as adorações a Ele devidas, imploramos para nós a graça que nos é necessária cotidianamente e, como muito recebemos, prometemos dar muito, tudo perdoar; derramamos sobre o nosso próximo a misericórdia que nos foi prodigalizada; pedimos, enfim, o auxílio contra a tentação, suplicando a nosso Pai celeste terminar em nós a obra da Redenção, livrando-nos de todo mal.
  O Pai-Nosso é a oração-mãe, de onde promanam todas as filiações da oração; ela resume em si todos os outros objetos de oração e cada uma de suas palavras contém aplicações infindas.
   Para terminar, aconselho que à noite durante alguns instantes leiam os pontos da meditação do dia seguinte. Estas palavras como que germinam durante o sono, como grãos de luz, e nosso primeiro pensamento, ao despertar, pela manhã, seria bom e santo.
   As disposições de nossa alma nos primeiros momentos da manhã influem, por sua vez, sobre todos os atos do dia, e imprimem um feliz impulso ao tempo decorrente.
   É no seio de Deus que devemos sorver a água viva que se derrama como uma bênção sobre as obras e atividades diárias. Nossa vida interior será o que fôr a nossa meditação.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

EXCERTO DO DISCURSO DO PAPA PIO XII NA CANONIZAÇÃO DE PIO X

  Num ambiente de excepcional solenidade foi canonizado, no dia 20 de maio de 1954, o Papa Pio X. Eis um pequeno excerto do discurso que Sua Santidade Pio XII proferiu naquela oportunidade:
   Falando sobre o Código de Direito Canônico: 
   5- A raiz profunda da obra legislativa de Pio X deve procurar-se principalmente na sua santidade pessoal, na sua íntima persuasão de que a realidade de Deus, por ele sentida em comunhão incessante de vida, é a origem e o fundamento de toda a ordem, de toda a justiça e de todo o direito no mundo. Onde está Deus, há ordem, justiça e direito; e, por outro lado, toda a ordem justa defendida pelo direito, manifesta a presença de Deus. Mas, na terra, que instituição devia manifestar mais eminentemente esta fecunda relação entre Deus e o direito, senão a Igreja, Corpo Místico do próprio Cristo? Deus abençoou abundantemente a obra do Bem-aventurado Pontífice, de modo que o Código de Direito Canônico será sempre o grande monumento do seu Pontificado, e Pio X poderá considerar-se o Santo providencial do tempo presente.
   6- Este espírito de justiça e de direito, de que ele foi testemunha e modelo para o mundo contemporâneo, penetre nas salas das Conferências dos Estados, nas quais se discutem problemas gravíssimos da família humana, em particular o modo de afugentar para sempre o temor de pavorosos cataclismos e de assegurar aos povos longa e feliz era de tranqüilidade e paz.
   Falando da condenação do Modernismo:
   7- Invicto campeão da Igreja e Santo providencial dos nossos tempos, se revelou também Pio X na segunda empresa característica da sua obra, e que, em conjunturas por vezes dramáticas, deu a impressão duma luta travada por um gigante em defesa dum tesouro inestimável: - a Fé. Já desde a meninice, tinha a Providência Divina preparado o seu eleito numa família humilde, baseada na autoridade , nos sãos costumes e na fé escrupulosamente vivida. Sem dúvida, qualquer outro Pontífice, em virtude da graça de estado, teria combatido e teria rechaçado os assaltos tendentes a ferir a Igreja no seu fundamento. É necessário, porém, reconhecer que a lucidez e a firmeza, com que Pio X dirigiu a vitoriosa luta contra os erros do modernismo, mostram o grau heróico em que a virtude da fé ardia no seu coração de santo. Pensando unicamente em conservar intacta, para o rebanho que lhe fora confiado, a herança de Cristo, o grande Pontífice não conheceu fraquezas diante de pessoas de qualquer dignidade ou autoridade, nem vacilações diante de doutrinas fascinadoras mas falsas, dentro da Igreja ou fora, nem qualquer temor de atrair sobre si ofensas pessoais ou de ver malsinadas as suas puras intenções. Teve clara consciência de lutar pela mais santa causa de Deus e das almas. A letra se verificam nele as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo ao Apóstolo São Pedro: "Pedi por ti para que não desfaleça a tua fé, e tu... confirma os teus irmãos" (S. Luc. XXII, 32). A promessa e a ordem de Cristo suscitaram mais uma vez, na rocha indefectível dum Vigário seu, a têmpera indômita do atleta. É justo que a Igreja lhe decrete neste momento a glória suprema, no mesmo lugar em que refulge há séculos, sempre viva, a glória de Pedro, confundindo assim um e outro numa só apoteose. Exalta reconhecidamente a Pio X e invoca ao mesmo tempo a sua intercessão, para que não se renovem tais lutas. Aquilo de que então propriamente se tratava, era a conservação de união íntima da fé com o saber. Era bem de tão grande valor para toda a humanidade, que esta segunda obra do santo Pontífice transcende o próprio mundo católico.
   8- O modernismo separava e opunha o princípio e o objeto da fé e da ciência, realizando nos dois campos vitais tão profunda cisão que equivalia à morte. Foi o que se viu na prática. O homem, que na passagem do século estava já dividido no seu íntimo, embora ainda com a ilusão de possuir a harmonia e a felicidade, baseadas num progresso puramente humano, sentiu-se despedaçado sob o peso duma realidade bem diferente.
  9- Pio X viu com olhar vilgilante, aproximar-se esta catástrofe espiritual, esta desilusão amarga, especialmente para os meios cultos. Intuiu como tal fé aparente, fundada não em Deus revelador mas em bases puramente humanas, redundaria no ateísmo. Descobriu do mesmo modo o fatal destino dessa ciência, que contrariava a natureza e livremente se manietava. Com efeito, inibia-se a si mesma de caminhar para a Verdade e o Bem absoluto, deixando assim o homem sem Deus, defronte da invencível obscuridade em que para ele tudo se envolvia. Restava-lhe apenas a atitude da angústia ou da arrogância.
   10- O Santo contrapôs a tão grande mal a única salvação possível e real: a verdade católica, bíblica, da fé, aceita como "rationabile obsequium"(Rom. XII, 1) { ="um culto racional"}, prestado a Deus e à sua revelação. Coordenou deste modo a fé e a ciência, aquela como extensão sobrenatural e às vezes confirmação da segunda, e esta como caminho que leva à primeira. Restituiu assim ao homem cristão a unidade e a paz do espírito, condições imprescritíveis de vida.
   11- Todos os que se voltam hoje para esta verdade, impelidos pela indigência e pela angústia, têm a felicidade de na Igreja a poderem encontrar perfeita. Devem agradecê-lo à visão de Pio X. Ele é de fato benemérito por ter preservado do erro a verdade, seja nos que têm fé, que lhe gozam de plena luz, seja naqueles que sinceramente a buscam. Para os outros, a firmeza que mostrou diante do erro pode ainda parecer pedra de escândalo; mas, na realidade, foi o serviço de maior caridade que um Santo podia prestar a todos os homens, como Chefe da Igreja.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

CARTA DE SANTO ATANÁSIO AOS FIÉIS PERSEGUIDOS PELOS ARIANOS

   Santo Atanásio estava no exílio e de lá escreve esta carta para confortar e confirmar na fé os católicos fiéis perseguidos pelos hereges arianos. Eis a carta:
   "Que Deus vos console. Soube que não somente vos entristece o meu exílio mas também, sobretudo o fato de que os outros, ou seja os arianos, se apoderaram das igrejas pela violência e que vós fostes expulsos destes lugares. Eles possuem as igrejas, em compensação vós possuis a tradição da Fé Apostólica. Eles, consolidados nestes lugares(nas igrejas), estão na realidade fora da verdadeira Fé, enquanto vós que estais excluídos das igrejas, permaneceis nessa Fé. Confrontemos, pois, o que é mais importante: O templo ou a Fé, e se tornará logo evidente que é mais importante a verdadeira Fé.
   Portanto, quem perdeu mais ou quem possui mais, o que conserva um lugar ou o que conserva a Fé? O lugar certamente é bom supondo-se que ali se pratique a Fé dos Apóstolos; é santo se ali habita o Santo. Vós sois os venturosos que pela Fé permaneceis dentro da Igreja, repousais nos fundamentos da Fé e gozais da totalidade da Fé que permanece intacta, sem confusão. Por tradição Apostólica (a Fé) chegou até vós, e muito frequentemente um ódio nefasto tem pretendido extirpá-la, mas sem resultado...
   Portanto, nada prevalecerá jamais contra a vossa Fé, meus queridos irmãos, e se de um momento para o outro Deus vos devolver as igrejas, será forçoso reconhecer que a Fé é mais importante do que os Templos.
   E precisamente uma Fé tão viva supra para vós, por hora, a devolução das igrejas(ocupadas pelos hereges).
   ... De que lhes serve possuir as igrejas? Sim, efetivamente, eles as têm, mas isso aos olhos dos que se mantém fiéis a Deus indica que são culpáveis, porque transformaram em covil de ladrões ou casa de negócios ou lugar de disputas vãs o que antes era um lugar santo, de modo que agora lhes pertence o lugar onde antes nem lhes era lícito entrar.
   Meus queridos, por haver escutado daqueles que chegaram até aqui, sei tudo isto e muitas coisas piores. Porém, repito, quanto maior é o empenho destes para dominar a Igreja, tanto mais estão fora dela. Crêem estar dentro da verdade, mas na realidade estão excluídos dela, prisioneiros de outra coisa, enquanto a Igraja desolada, sofre a devastação destes supostos benfeitores"...

 Qauanto nos confortou esta carta há 26 anos atrás!

sábado, 27 de agosto de 2011

UMA PÁGINA DE SÃO PIO X - Extraída da Encíclica "PASCENDI"

   "Ousadamente, afirmam os modernistas, e isso mesmo se conclui das suas doutrinas, que os dogmas não somente podem, mas positivamente devem evoluir e mudar-se. - De fato, entre os pontos principais da sua doutrina, contam também este, que deduzem da imanência vital: as fórmulas religiosas, para que realmente sejam tais e não só meras especulações da inteligência, precisam ser vitais e viver da mesma vida do sentimento religioso. Daí porém não se deve concluir que essas fórmulas, particularmente se forem só imaginárias, sejam formadas a bem desse mesmo sentimento religioso; porquanto nada importa a sua origem nem o seu número, nem a sua qualidade; segue-se, porém, que o sentimento religioso, embora modificando-as, se houver mister, as torna vitais e fá-las viver de sua própria vida. Em outras palavras, é preciso, dizem os modernistas, que a fórmula primitiva seja aceita e confirmada pelo coração, e que a subseqüente elaboração das fórmulas secundárias seja feita sob a direção do coração. Procede daí que tais fórmulas, para serem vitais, hão de ser e ficar adaptadas tanto à fé quanto àquele que crê. Pelo que, se por qualquer motivo cessar essa adaptação, perdem sua primitiva significação e devem ser mudadas. - Ora, sendo assim mutável o valor e a sorte das fórmulas dogmáticas, não é de admirar que os modernistas tanto as escarneçam e desprezem, e que por conseguinte só reconheçam e exaltem o sentimento e a vivência religiosa. Por isso, com o maior atrevimento criticam a Igreja, acusando-a de caminhar fora da estrada e de não saber distinguir entre o sentido material das fórmulas e a sua significação religiosa e moral, e ainda mais, agarrando-se obstinadamente, mas em vão, a fórmulas falhas de sentido, de deixar a própria religião rolar no abismo. - Cegos, na verdade, a conduzirem outros cegos, são esses homens que, balofos nas vaidades da ciência, deliram a ponto de perverter o conceito da verdade e o genuíno conceito religioso, divulgando um novo sistema, com o qual, arrastados por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde certamente se acha; e, desprezando as santas e apostólicas tradições, apegam-se a doutrinas ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens estultíssimos julgam fortalecer e sustentar a verdade (Greg. XVI Ep. Enc. "Singulari nos").
   ... Viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma e mesma coisa. E daqui mais uma vez se conclue que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

UMA PÁGINA DO PAPA BEATO PIO IX - Encíclica "Quanta Cura"

   "Sabeis muito bem, Veneráveis Irmãos, que em nossos dias não poucos há que, aplicando à sociedade civil o ímpio e absurdo naturalismo , se atrevem a ensinar que a razão de ser da vida pública e o próprio progresso civil requerem que a sociedade humana se constitua e governe sem preocupar-se em nada com a religião, como se ela nem existisse, ou, pelo menos, sem fazer distinção alguma entre as religiões falsas e a verdadeira. E, indo de encontro com a doutrina das Sagradas Escrituras e dos Santos Padres, não duvidam em afirmar que a melhor condição da sociedade civil é aquela em que não se reconhece ao poder civil autoridade para coartar com sanções os violadores da Religião Católica, sempre que a paz pública o não exija. E partindo dessa falsa idéia social, seus propagadores não temem em fomentar a opinião, desastrosa para a Igreja Católica e a salvação das almas, desastrosa opinião esta denominada por Nosso Predecessor, de feliz memória, de "loucura" ("Mirari vos"), de que "a liberdade de consciência e de cultos é direito próprio e inalienável do indivíduo, que há de proclamar-se nas leis e estabelecer-se em todas as sociedades retamente constituídas; de que aos cidadãos assiste o direito de toda liberdade sem que a lei eclesiástica ou civil a possa reprimir, liberdade para manifestar ou declarar publicamente qualquer idéia, já pela palavra, já pela imprensa, ou enquanto pensam e excogitam todas estas coisas, estão pregando a "liberdade de perdição" ( Santo Agostinho, epíst. 105, al. 166) e que, "se é sempre livre disputar das coisas humanas, nunca hão de faltar os que irão além da verdadeira sabedoria, confiados em sua loquacidade natural, cônscios, como se sabe, de que modo se há de evitar, para o bem da fé e da sabedoria cristã, essa perniciosíssima maneira de sentir, segundo determinou o mesmo Cristo Senhor Nosso" (São Leão, Epíst. 14, a. 133).
   ... "Alguns, pondo de lado os santíssimos e certíssimos princípios da razão, ousam dizer que "a vontade do povo, manifestada na chamada opinião pública ou por outro modo, é a suprema lei, livre de todo direito divino ou humano; que na ordem pública os fatos consumados, pelo mesmo fato por que se hão consumado, possuem força de lei". Mas quem não prevê e não percebe que a sociedade, livre de todo laço de religião e justiça, outro ideal não pode mirar que o de conquistar e acumular requezas e que outra lei não seguirá senão a infrene concupiscência do coração, posta ao serviço de suas próprias comodidades e caprichos?
   ... Todas e cada uma das opiniões e preversas doutrinas, explicitamente especificadas neste documento, por Nossa autoridade apostólica, reprovamos, proscrevemos, e condenamos; queremos e mandamos que os filhos da Igreja as tenham, todas, por reprovadas, proscritas e totalmente condenadas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

UMA PÁGINA DO BEATO PAPA JOÃO XXIII

EXTRAÍDO DA ENCÍCLICA "AD PETRI CATHEDRAM" sobre a VERDADE, a UNIDADE  e a PAZ.
   "Conhecemos a pequenez da nossa pessoa, que Deus, não pelos nossos méritos, mas por oculto desígnio Seu, se dignou elevar à dignidade de Sumo Pontífice. Por isso, a todos os nossos irmãos e filhos separados desta Cátedra de Pedro, repetimos as palavras: "Eu sou José, vosso irmão". Vinde; "compreendei-nos (2Cor.VII,2); não queremos outra coisa, não desejamos outra coisa, não pedimos a Deus outra coisa, senão a vossa salvação, a vossa eterna felicidade. Vinde; desta suspirada unidade e concórdia, que deve ser alimentada pela caridade fraterna, nascerá grande paz que, por meio do concêrto angélico sobre o seu presépio, Cristo anunciou aos homens de boa vontade, e que depois do instituição da Eucaristia como Sacramento e Sacrifício, deu com estas palavras: "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; dou-vo-la  não como a dá o mundo" (S. Jo. XIV, 27).
   "Paz e alegria; sim também a alegria porque aqueles que pertencem real e eficazmente ao Corpo  Místico de Cristo, que é a Igreja Católica, participam daquela vida, que da Cabeça divina deriva para todos os membros. Esta fará que todos os que obedecem aos preceitos e mandamentos do nosso Redentor possam gazar já nesta existência mortal aquela alegria que é o penhor e anúncio da eterna felicidade do céu.
   Mas esta paz, esta felicidade, enquanto percorremos o árduo caminho nesta terra de exílio, é ainda imperfeita. Não é paz completamente tranqüila, de todo serena. É paz operosa, não ociosa nem inerte. Sobretudo é paz militante contra todo o êrro, mesmo que dissimulado sob aparências de verdade, contra o atrativo e seduções do vício, e contra toda a espécie de inimigos da alma, que procuram enfraquecer, manchar e arruinar os bons costumes ou a nossa fé católica; e também contra os ódios, rivalidades, dissídios que a podem destruir completamente. Por isso, o Divino Redentor nos deu e recomendou a SUA paz.
   A paz, portanto, que devemos procurar e esforçar-nos por conseguir, deve ser a paz que não cede ao erro, que não se compromete de nenhum modo com fautores do erro, que não se entrega aos vícios e que evita toda discórdia. É paz que exige, da parte dos que a desejam, a pronta renúncia às comodidades e vantagens próprias por causa da verdade e da justiça, segundo a recomendação evangélica: "Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça..."(Mat.VI, 33). 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

RESPONDENDO AS PERGUNTAS

   Recebi por e-mails muitas perguntas sobre Religião porque este blog tem por finalidade evangelizar. Por isso, é com muita alegria que recebo estas perguntas e agradeço de coração às pessoas que as fizeram. Tudo que me der oportunidade de fazer algum bem às almas, é bem-vindo.
   Primeiramente irei responder as perguntas referentes  à Santa Missa, por ser o assunto que estou expondo no momento. Aliás, algumas destas perguntas já ficaram respondidas nas postagens que já fiz.

  1ª  Pergunta: Nós fiéis devemos dizer: assistir à Missa; participar da Missa ou celebrar a Missa.
   Resposta: Os catecismos antes do último publicado que é intitulado CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, falando do primeiro mandamento da Igreja, diziam: Assistir ( ou ouvir ) Missas inteiras..etc. Na explicação diziam: Para verdadeira assistência à Missa, são quatro as condições requeridas. Quanto ao corpo, é preciso primeiro estar realmente presente ao Santo Sacrifício; segundo assistir a missa inteira. Quanto ao espírito e ao coração, é preciso assistir com atenção e devoção; o que na explicação significa participar verdadeiramente da Santa Missa e não assistir ´"só de corpo presente".
   Já o último catecismo diz: participar, o que naturalmente supõe estar presente, assistir de verdade e não pela televisão e Internet.Queremos dizer que pela TV e Internet não se cumpre o preceito. É preciso assistir de verdade e participar. Mas, em que sentido o fiél participa da Santa Missa? Não no sentido que o fiel concelebra. Só o Sacramento da Ordem confere o poder e a capacidade para operar a transubstanciação. O simples fiel não tem poder para isto. Também é errado pensar que o padre não passa de um mandatário do povo, cujos atos sacerdotais só valeriam enquanto ele representa os fiéis. De fato, o padre não é um deputado do povo, pois é escolhido por vocação divina, e gerado pelo Sacramento da Ordem. Agora, devemos dizer que o padre, em certo sentido, representa o povo, justamente  enquanto ele representa a Jesus Cristo, cabeça do Corpo Místico, do qual os fiéis são membros. Quando o Sacerdote oferece no altar, fá-lo em nome de Cristo, Sacerdote principal, que oferece em nome de todos os menbros de seu Corpo Místico. De maneira, que em certo sentido, o sacrificio é oferecido em nome do povo. Mas em que sentido o povo deve participar? Já foi explicado por Pio XII: "O fiél une os seus votos de louvor,  de impetração, de expiação e de ação de graças com os votos e intenção do Sacerdote, e mesmo do Sumo Sacerdote, para que, na mesma oblação da vítima que se opera no rito externo do Sacerdote, sejam apresentados ao Eterno Pai".
   Queremos deixar aqui bem claro, que tudo quanto leve os fiéis a conhecer a amar a Sagrada Liturgia só merece aplausos. O mal começa quando, por vezes, se introduzem na cabeça dos fiéis certas idéias de sabor progressista  e protestante. 
    Já ficou suficientemente respondido que  não se deve dizer que o fiél celebra a Missa. No mínimo é uma palavra ambígua que favorece ou dá azo ou dá espaço para interpretações heretizantes.  Vamos empregar a palavra que a Santa Igreja usa no seus catecismos, e sempre no sentido tradicional.